sexta-feira, 12 de agosto de 2016

DOS MEUS LIVROS


Uma Questão Pessoal - Kenzaburo Oe

Comentário:
Antes de mais nada gostava de deixar aqui expressa a minha incompreensão pelo facto de este livro, o mais importante do autor (que foi Prémio Nobel) não estar editado em Portugal. A edição que usei é um e-book brasileiro.

Um dos livros mais perturbadores que li nos últimos tempo. O tema acarreta desde logo um tom perturbador, que assusta pela estranha realidade de um fenómeno que a nossa mente só concebe como irreal: o desejo de morte de um filho… o que perturba mais não é a iminência da morte do bebé nem a monstruosidade da deficiência com que nasceu. O que choca mais é o realismo, a lógica, do desejo que o pai sente de que o seu próprio filho morra.

O pai é Bird de alcunha; “pássaro”: alguém que inocentemente procurava a liberdade; como se isso fosse coisa simples… ele é um modesto professor japonês que vive obcecado por colecionar mapas de África. Absurdo? Infantil? Ilógico? Talvez não… África era a liberdade. Estranha e distante. Inimaginável.

À medida que Bird vai sendo confrontado com a realidade da deficiência do filho, perante a quase insignificância da mãe, Bird deambula pela vida à procura de um sentido; nem a amante, que o leva ao extremo do prazer carnal, lhe pode dar esse sentido; e, lentamente, a partir do nascimento de um filho horrivelmente deformado, Bird leva o leitor a colocar a terrível questão: até onde pode chegar a degradação? Bird mostra-nos que se pode ir cada vez mais fundo, até atingir limites inimagináveis de desumanização…

Kenzaburo Oe foi Prémio nobel da literatura (1994) e facilmente se percebe porquê;  só talvez Kafka exprimiu melhor a desumanização. No contexto de um país industrializado como o Japão…

Estamos perante um livro revoltante pela crueza com que a vida pode submeter um ser humano à mais degradante desumanização; um livro original pela forma única como as palavras ferem como facas, palavras simples, diretas, cortantes. E, finalmente, em termos formais, uma escrita algo surrealista, em que o Hospital pediátrico onde o bebé é destinado à morte, faz lembrar a estrada no deserto, de Outono em Pequim, em que nada faz sentido a não ser a dor, a tortura da alma…

“e à abominável e obscena miséria humana de toda a espécie, que os indiferentes fingem ignorar e, coniventes, chamam a esse fingimento humanismo.” Pg. 54

Mesmo assim, no final há sempre a hipótese de uma redenção. E a perturbação com que lemos o livro esvai-se, alivia-se um pouco num final de esperança e crença no ser humano. É sempre possível reformular o sentido da vida…

Sinopse:
Em 1964, o romancista japonês Kenzaburo Oe recebia a notícia de que o seu primeiro filho nascera com uma anomalia cerebral. É a mesma situação enfrentada pelo protagonista de Uma questão Pessoal, o professor Bird. Aos 27 anos, Bird leva uma vida medíocre, bebendo pelos bares de Tóquio a sonhar com aventuras no continente africano. A gravidez da mulher acrescenta angústia ao quotidiano de Bird. A ideia de que será pai e chefe de família faz com que se sinta condenado à vida quotidiana. Para piorar, depois do parto, os pais descobrem que a anomalia cerebral fará o menino ter uma vida vegetativa. Bird não suporta a possibilidade de se ver atrelado para sempre a um filho anormal. Passa, então, a desejar a morte da criança. Aos poucos, porém, dá-se conta de que a crise era uma oportunidade. Bird deve percorrer um longo caminho de conquista da realidade, enfrentando os desafios de amadurecimento da vida adulta.

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

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