domingo, 14 de agosto de 2016

MEGAEVENTOS

Por Ronaldo Lemos

O maior legado da Olimpíada não será municipal, estadual nem nacional. Será mundial. Os Jogos no Rio deixam claro que o modelo dos "megaeventos" tornou-se insustentável tanto do ponto de vista político quanto econômico. Enquanto o mundo assiste ao Brasil (e ao Rio) se debater para organizar os Jogos apesar da precariedade atual, fica claro no plano internacional que a Olimpíada do Rio será a última a ser organizada nesse modelo.

Os próximos grandes eventos internacionais serão mais comedidos, eficientes, sustentáveis e baseados em inteligência e tecnologia para serem viáveis. Fernando Montejo, urbanista e pesquisador do MIT que está no Rio para estudar a organização da Olimpíada, chama a atenção para as evidências nesse sentido.

A começar pelo deslocamento da organização desses eventos, que saíram dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento. Nesse sentido, todas as quatro cidades europeias que enviaram propostas para a Olimpíada de Inverno de 2022 retiraram suas candidaturas. Só sobrou Almaty (Cazaquistão) e Pequim, que venceu. Para a Olimpíada de 2024, Boston e Hamburgo também retiraram suas candidaturas depois de protestos e resistência dos moradores das cidades.

Ao mesmo tempo, entre 2008 e 2018 todos os Brics terão organizado ao menos um megaevento (Brasil e China terão organizado dois). Isso só agrava a situação, pois o custo nesses países é muito maior pela falta de infraestrutura, e os recursos, mais limitados. Sem contar fatores como instabilidade política.

Nesse sentido, o modelo da Olimpíada do Rio é um derivado direto da crença na riqueza do petróleo. Do delírio que tomou conta momentaneamente do país de que nosso futuro econômico estaria garantido pelo pré-sal.

Os próximos megaeventos serão derivados de modelos econômicos muito mais inteligentes, nos quais valores como sustentabilidade, eficiência e tecnologia serão os grandes diferenciais.

Em face disso, tanto o COI quanto a Fifa estão implementando amplas reformas com relação às demandas que importam para as cidades e países-sede desses eventos. Por exemplo, em 2014 o COI fez 40 propostas para tornar os Jogos Olímpicos mais atraentes, revendo o processo de escolha, reduzindo os custos das propostas, adicionando sustentabilidade e eficiência, prometendo maior transparência e responsabilidade ética e até mesmo promovendo igualdade de gênero.


Vale parabenizar os organizadores dos Jogos no Brasil, mesmo que boa parte do esforço tenha sido para remar na direção errada. É provável que a festa será de fato linda e memorável. Vale aproveitá-la ao máximo. Ela será como o baile da Ilha Fiscal. Entrará para a história marcando o fim de uma era que não volta mais.

Fonte: Folha de S. Paulo

Um comentário:

  1. Os chamados 'megaeventos', independente da situação econômica e política do país que sedia, e dos que participam, mas principalmente para o primeiro, se algum dia foram, hoje certamente deixaram de ser vantajosos.
    A possibilidade de desvio de verbas publicas, bem como a oportunidade de 'lavagem de dinheiro sujo' (sim, isso ocorre também fora do 3º mundo), por si só já demonstram o quão prejudicial se tornaram tais empreendimentos!
    E para um país como o nosso, o desastre é à curto, médio e lamentavelmente para o futuro, logo prazo também! Aliás, longíssimo!

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