domingo, 21 de agosto de 2016

O BAILE-PROMESSA

O BAILE-PROMESSA

Quando ainda potrilho, volta-e-meia eu me largava pela Província, Pampa adentro. Virava gaudério, andarengo.

Numa dessas andanças, certo anoitecer, cheguei numa pequena vila. Tudo lá era alegria, risos. Choro, só de cordeoas.

Frente a um bolicho, sofrenei o pingo. Boliei a perna e fui me enfiando que nem percevejo em costura. Lá dentro estavam diversos fregueses. Alguns já à meia-guampa.

Entre eles, tinha um mais dado e alegre do que os outros. Tratava-se de um qüera sazonado de nome Juca. Era o dono de três ranchos e um galpão, frente ao bolicho. Num dos casebres desdobrava-se animado fandango.

Fui convidado pelo seo Juca para o baile. E lá estive me refestelando até de madrugada. Depois fui ganhar nos pelegos.

No outro dia, na hora de partir, notei que o baile continuava. E ao despedir-me fui convidado por seo Juca a ficar mais um dia ou dois, ou quantos quisesse. Eu lhe agradeci. Expliquei que precisava seguir, e comentei, refererindo-me ao baile:

- Pelo jeito, vai longe... – Ao que ele respondeu:

- Sabe, paisano: vai mesmo! Foi por isso que o convidei a ficar. Esse baile aí vai durar um ano!

- Um ano?!...

- Sim senhor. Foi uma promessa e jura que fiz, em nome do Creador. Não posso, portanto, voltar atrás. Ouça o causo:

Há tempos, recebi a notícia de que seria o herdeiro de uma pequena estância, de um tio que faleceu. Achei isso difícil. Por tal razão, fiz promessa e jura: se a notícia se confirmasse, eu ia fazer um baile, durante dozes meses, um ano,

Pois bueno, não é que herdei mesmo?!... Agora, comecei a cumprir a promessa. A Deus não se trampeia!

Eu antes nunca soubera de uma promessa desse feitio.

Dei um “inté à vista” para aquele gaúcho buenaço, alcei a perna no pingo e fui saindo, ao tranquito.

Andejei por aí, de pago em pago e de estância em estância em estância. Até que num “derepente”deu-me saudades do rincão. Então tratei de rumbear para a querência.

Fazia já uns dias que vinha de viagem, quando constatei um fato: ia chegando outra vez na pequena via onde o chiru se sorte aquele seo Juca, fizera a promessa do baile.

Pelos meus cálculos, faltavam apenas dois ou três dias para completar um ano que eu passara por ali. Por aguda curiosidade, fui direto ao rancho onde tinha ficado bailando.

Cheguei, apiei e, sem soltar as rédeas do pingo, acerquei-me. A porta estava entreaberta. Dei um “ó de casa!”. Ninguém apareceu. Ouvia-se um ronco, meio abafado de cordeona.

Até palmas bati. E nada. Decidi ver o que acontecia.

Com as rédeas na canhota, abri mais a porta com a destra e coloquei um pé e a fuça dentro do rancho. La putcha! Tive uma surpresa e um naco, e morrudos!

Naquele instante, pelo lado de foram chegava o dono da casa. Após os cumprimentos, esclareceu o que ali acontecera.

Disse que durante aquele ano, em que tinham passado dê-le arrasta-pé e dê-le respingar água para varrer, por causa da polvadeira, e sempre tirando a terra fora, resultara que o chão fora afundando, afundando, sendo mesmo preciso fazer-se escadinhas para o sobe-desce dos bailarinos, ou participantes.

Eu já constatara o fato! Até quase caíra lá embaixo!

O quadrado buracão que ficou deveria ter duas braças e pico de fundura! Fora a causa de surpresa e susto baitas!

Refeito, percebi, no poço, os pares que, amontoados quais gussanos em bicheira, seguiam bailando, como se nem nada... (NATÁLIO HERLEN, Rodeio de Causos)

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