domingo, 14 de agosto de 2016

O ENSOPADO GAÚCHO

O ENSOPADO GAÚCHO

“Tem boa companheira quem tem boa cozinheira”.

Para mim, esse antigo dito é muito certo. Minha chinoca, entre miles de bons predicados, ainda é mestra numa cozinha.

Quando solteiro, os pratos conhecidos por mim se resumiam em arroz carreteiro, puchero, pirão churrasco e bem pouca coisa mais. Após casar, é claro, essa relação aumentou.

É que, a partir de então, em minhas lidas e andanças, quando me deparava com um novo prato, e caso gostasse, de imediato perguntava o nome, seu preparo e ingredientes.

Depois, em casa, transmitia tudo a Dilza, minha mulher, e era certo: ela fazia igual, quando não melhor.


De uma feita, no retorno de uma tropeada, pernoite na estanciola de um amigo. E na hora da janta me foi apresentado um prato que até aquele momento eu não conhecia.

Dito manjar não era seco e também não era sopa...

Mas tinha um caldinho, gosto como ossinho de cola...

Indaguei logo o nome, segundo os letrados, da iguaria.

- Ensopado! – respondeu a patroa do meu cupincha.

Pensei: sabendo como se chama o resto é com a Dilza.

No outro dia, ao partir, não consegui lembrar o nome.

Andava esquecido como quem come moganga com leite.

Fazia ainda pouco tempo que nós – a chinoca e eu – tínhamos juntado os trapos num só baú. Quem sabe era isso.

Tornei a pedir a denominação do prato da janta.

- Ensopado! – repetiu meu hospitaleiro amigo.

Matutei rápido sobre como não esquecer.

E tive uma ideia. Mal saí, fui dizendo, estrada afora:

- ensopado... ensopado... ensopado...

O tempo enfeiou. E logo adiante tinha chovido muito.

Causa disso, o chão estava muito resbaloso que nem muçum recém tirado dágua... Numa daquelas, plof: meu pingo plancheou-se!

São artes do tinhoso! Mas eu, cascoteado que nem coruja de brete, saí parado, rédeas na mão, como se nem nada...

O flete, num upa, se aplumou. Mas eu constatei algo: com a rodada, perdera da memória o nome que vinha repetindo...

Que fazer? Como quem campeia algo pelo chão, comecei a andar em volta, que nem burro em malacate de olaria...

Logo chegou um chiru. Vinha do lado para onde eu ia.

Cumprimentou e quis saber se eu tinha perdido algo. Respondi que sim, sem dizer mais nada. Nem ele perguntou.

Apeou do pingo, atou as rédeas na maniola do rebenque, largou-o em cima dos pastos, para não embarrar, e também passou a ajudar na busca do que tinha perdido...

Ficamos a andar que nem moscas tontas, dum lado para outro, dê-le campear pelo chão, já com barro; dê-le a campear...

Foi aí que aquele bom cristão, que estava a me ajudar, e demonstrou ser castelhano, uruguaio talvez, disse assim:

- Bueno, paisano, aunqué não sepa o que ustê perdeu, eu nada encontrei. Sinto deveras não lhe poder seguir ajudando, pois preciso ir adelante, porque parece que vai chover forte e se eu não for vou ficar ensopado...

Ouvindo isso, peguei um grito. E mais contente de que gordo na sombra em dia de ressolana, fui dizendo, meio aos berros:

- Achei! Achei! Obrigado amigaço, e inté à vista˜

Alcei a perna no pingo e sai a toda. E fui repetindo:

- Ensopado... ensopado... ensopado...

O chiru lá ficou, parado, boquiaberto, certo de que eu era meio tocado.... Mas, se me decidisse explicar, talvez tornasse a esquecer o nome. E eu não estava para perdas... (NATÁLIO HERLEN, Rodeio de Causos)


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