domingo, 7 de agosto de 2016

O UMBU DAS CATURRITAS

O UMBU DAS CATURRITAS
O começo deste causo, pode-se dizer, foi a partir de quando vim a trabalhar nesta estância. Fiquei, desde logo, de posteiro naquela antiga porteira, junto da estrada real, lugar hoje conhecido como "tapera do posto velho".

No princípio, ali era muito lindo de se viver. Era um rincão tranqüilo e silencioso que nem campo santo.

Bem pertinho do rancho existia um umbu, grandote e coposo. E lá, em sua sombra boa e fresquinha, eu ia sestra.

Há gente que não pode dormir debaixo de um umbu, porque lhe sai uma feridama pelo corpo. Mas comigo não tem dessas lorotas. Além do mais, dentro de casa, ou no galpãozinho ao lado, sempre estava quente que nem frigideira de cabo colincho...


Mas, de repente - tão só de repente - não mais pude sestear. É que um bando de caturritas - enorme, por sinal - deu em pousar todos os começos de tarde na copa do tal umbu.

E o fato começou a ficar tão costumeiro e repetido que o vizindário e a indiada gaudéria que passava por alí, além dos peões daqui da estância, daquele tempo, "Batizaram" a árvore com o nome de "umbu das caturritas".

Quem perdeu nessa parada fui eu, não mais podia sestear, e não sabia o que fazer para correr com aquele bicharedo. E eram, mais ou menos, umas duas mil caturritas!

Mas chegou um dia em que terminou o melado para elas! Resolvi dar um jeito naquilo. Empecei a pensar... a pensar... Até que achei onde estava o furo da bala...

Naquela tarde deixei todos os ingredientes preparados. No outro dia, alta madrugada, levantei e comecei a fazer grude - ou cola, como queiram - uns tarros grandes, ou vasilhas de lata, dessas que vêm os remédios para os animais; dê-le a fazer cola, até encher umas quatro ou cinco latas daquelas.

Depois, eu as levei todas para perto do umbu. A seguir, com a lata menor a tiracolo, trepei naquela morruda árvore e, com um pincel rústico e grandote, comecei a passar cola por tudo. Galho por galho. Folha por folha...

Quando comecei ainda nem tinha clareado bem e quando terminei era meio-dia passado, por volta das duas horas, ou duas e pico da tarde.

Logo logo ouvi a gritaria das caturritas que vinham vindo. Corri para dentro do rancho. Agarrei minha escopeta, carreguei-a e fiquei esperando, na chuleada do que ia acontecer.

Aquela verdadeira nuvem verde chegou e sentou em cima do umbu... E deu no que tinha de dar: as caturritas ficaram todas grudadas, ou coladas pelas patas!

Então pensei: vai ser agora! Vou terminar com esses diabinhos, embora tenha de carregar cem vezes a escopeta.

Levantei a arma em direção à copa do umbu, a qual estava ainda mais tupida do que nunca dos ensurdecedores emplumados verdes e, no instante de puxar o gatilho, resbalei num torrão e o tiro saiu para rumo incerto. Mas isso não foi nada.

O que aconteceu então é que foi cabeludo!

Como resultado ficou aquele baita buraco existente junto da "tapera do posto velho"e foi também quando fiquei acreditando que a união faz a força...

Pois, como ia dizendo, eram tantas caturritas, tantas mesmo que, do susto ao ouvirem o estampido da escopeta, e com o tirão ou impulso que deram para voar, todas ao mesmo tempo, arrancaram o umbu, de raiz, e o levaram pelos ares... até sumirem do alcance da vista...  (NATÁLIO HERLEIN, Rodeio de Causos)

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