sexta-feira, 30 de setembro de 2016

DOS MEUS LIVROS

A Terceira Condição - Amos Oz
  
Sinopse
A Terceira Condição conta-nos, ao longo de seis dias, a vida banal de um homem de 54 anos, Fima de seu nome, recepcionista numa clínica ginecológica de Jerusalém, que sonha aliviar os sofrimentos do mundo - os das vítimas da Intifada, por exemplo, ou os do cão martirizado pelas crianças do bairro onde habita.

Comentário:
Em termos de estilo e de ideias, Amos Oz pode situar-se a meio caminho entre Phillip Roth e J.M. Coetzee, conseguindo aliar a leveza e o humor de um à capacidade do outro de colocar o dedo na ferida, com uma intensa profundidade reflexiva. No centro de tudo está a eterna questão israelo-árabe, vista pelo lado judaico mas naquele sentido profundamente crítico que carateriza os melhores escritores judaicos da atualidade.

A vida do protagonista é colocada em paralelo com a vida e história de Israel e reside nesse paralelismo o maior mérito deste livro. Fima, diminutivo de Efraim, é um ser complexado como Israel; como se toda a história fosse um peso e todos os atos fonte de remorso.

Em Fima como em Israel parece haver um eterno e incontornável complexo de culpa, particularmente no que respeita aos colonatos e aos territórios árabes ocupados:

“Passamos a vida a tentar recalcar o que fazemos nos Territórios, e como consequência o ar fica tão carregado de fúria e agressividade que andam sempre todos a atirar-se uns aos outros” (pág. 41).

Esta perspetiva dá um tom algo sombrio ao livro mas o autor consegue equilibrar a reflexão com um sentido de humor peculiar derivado da personalidade distraída e desastrada de Fima, como do país. Fima é um incapaz, como o Estado de Israel. Este paralelismo entre o personagem e o país repete-se em diversos âmbitos. Fima “fala pelos cotovelos”; quer estabelecer laços de amizade com todos mas acaba apenas por ser um amigo pouco oportuno, que se intromete na vida de todos, nem sempre com consequências positivas para qualquer das partes. Esta crítica ao país repete-se, por exemplo, no pormenor de Fima anotar e estudar todos os seus sonhos. Israel vive ligada ao passado, revivendo sonhos e pesadelos constantemente, de forma teimosa e depressiva como acontece com Fima.

O que fica, no final, é a sensação de que o país é vítima de si próprio, o mesmo acontecendo com o judaísmo em geral, com a sua necessidade quase doentia de se autopunir, de se julgar constantemente e de não conseguir viver o seu destino de forma independente dos outros.

“Então ainda não entendeu que o seu crime é o seu castigo?” (pg. 232)

E um taxista anónimo sentencia:

“Desde que ocupámos os territórios e a Faixa de Gaza nunca mais tivemos sossego”.

Fima decidiu que se formasse governo, este taxista seria o seu Ministro das Defesa.


Em suma, trata-se de um romance muito rico em conteúdo, sobre uma temática que Roth desenvolveu mais ou menos na mesma linha (talvez com um pouco mais de leveza que lhe confere um maior prazer de ler) e que me fez lembrar aquele que é, na minha opinião, o livro mais interessante sobre este assunto, A Questão Finkler, de Howard Jacobson. E já agora, quem se interessa mesmo por estas questões não pode perder Os Mistérios de Jerusalém, de Marek Halter. 

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

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