sexta-feira, 7 de outubro de 2016

DOS MEUS LIVROS

Steven Saylor - O Abraço de Némesis

Continuo assustadoramente seduzido por esta coleção Roma Sub-Rosa. O autor é um autêntico Connan Doyle em plena República Romana e o seu herói, Gordiano, um Sherlock Holmes da antiguidade. Além de muitas outras coisas, este livro veio chamar-me a atenção para alguns aspetos desta temática que nós, leitores de romances históricos, tendemos a esquecer. Por exemplo, a República Romana é o verdadeiro berço da mentalidade europeia. Diz-se que o pensamento grego modelou a Europa Moderna. Disparate. O pensamento grego foi profundamente filtrado pelo crivo romano, que o temperou com a vida. Os romanos, nossos antepassados e mentores adoravam viver; mesmo que fosse preciso matar; o hedonismo romano, o seu apego à vida e ao prazer conduziu-os aos limites. No entanto, são limites dolorosos. Aquele Carpe Diem levou-os a fenómenos extremos, alguns deles bem narrados neste belíssimo Abraço de Némesis: a forma como o aristocrata Marco Crasso se dispõe a sacrificar 99 escravos para reforçar a sua carreira política diz bem até que ponto poderia chegar essa fibra romana, essa tenacidade em viver nos limites.

Nesta altura alguns dos meus leitores poderão estar a pensar: ora, grande coisa, dispor da vida dos outros, ainda por cima escravos… como é que isso pode ser uma forma de viva no limite, ou de assumir riscos? É que da mesma forma que o romano dispõe da vida do escravo, não hesita em colocar o seu pescoço ao alcance do punhal de qualquer inimigo; era vulgar matar por interesse político. Daí que fosse vulgar morrer pelo mesmo motivo e todos os romanos sabiam isso. Na Europa, a morte como algo de assustador e distante é um fenómeno muito mais moderno do que se possa pensar. Basta ver a facilidade como que se morria nas batalhas napoleónicas, 1900 anos depois da República Romana.

Némesis é a deusa da vingança. Mas uma vingança em função da verdade e da justiça. Neste livro, com um enredo muito imaginativo e engenhoso, conta-se uma estória cheia de interesse não só pelo colorido da realidade de Roma Antiga mas também pela forma como o autor constrói a narrativa, cheia de mistério e incerteza até ao fim. Na verdade, ao contrário do que me aconteceu com outros livros desta série, aqui o autor surpreende sempre o leitor, não deixando grandes pistas para que se possa adivinhar o assassino, nem sequer a forma como a narrativa evolui.

Isto significa que, na minha opinião, este é o livro mais interessante dos que já li desta série; empolgante e muito rico em informação. Por exemplo, as condições de vida dos escravos romanos são aqui descritas em grande pormenor e muito bem enquadradas. Mas um dos aspetos mais interessantes é a abordagem da religião romana, na figura da Sibila. As Sibilas representavam na perfeição o verdadeiro âmago da religião romana: uma mistura perfeita entre crença e superstição. Mas algo mais: uma voz da justiça que contribuía para um certo equilíbrio social. Isso reflete também uma dimensão prática, pragmática da religião. Realista, diria mesmo: a religião estava presente em todos os aspetos do dia-a-dia dos romanos, mas de uma forma muito mais pragmática do que aquilo que vai acontecer com o advento do cristianismo, em que a religião adquirirá uma feição preponderantemente moralista e condicionadora dos comportamentos. Por exemplo, o amor heterossexual só se afirmará com o paradigma judaico-cristão; neste livro está bem patente a naturalidade do amor a que hoje chamamos de homossexual e que para os romanos em nada se distinguia da heterossexualidade.

Sinopse (in wook.pt)

No sul de Roma, fica situada a magnífica vila de Marco Licínio Crasso, o mais rico cidadão romano. Quando o supervisor da propriedade é encontrado morto, Crasso conclui que terão sido dois escravos pertencentes ao Movimento de Libertação de Escravos. Mas quando Gordiano, o Descobridor, é chamado para investigar, a realidade revela-se muito diferente.. 

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

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