domingo, 16 de outubro de 2016

DYLAN, NOBEL: UM GOLPE NA DESESPERANÇA

DYLAN, NOBEL: UM GOLPE NA DESESPERANÇA

“É a última hora do último dia do último ano feliz e sinto que um mundo desconhecido se aproxima”. (Bob Dylan, na letra da balada folk “Cross the Green Mountain”, da trilha sonora do filme “Gods and Generals” (Deuses e Generais).

Bob Dylan é Prêmio Nobel de Literatura. Às vésperas de atravessar o portal dos 72, neste outubro de geléia geral e desencontros no Brasil (salvo pelo futebol solidário, alegre e competitivo da seleção de Tite a caminho da Rússia), o jornalista pensa com os seus botões: é difícil  imaginar algo mais delicioso e de tão reconfortante sabor como presente antecipado de aniversário. Principalmente em se tratando, como é o meu caso, de um antigo passageiro da nau dos insensatos dos anos 60/70, sobrevivente neste meado de primavera no Hemisfério Sul.

Direto ao fato motivador da sensação: abri o portal português “Eu Sou Jornalista”, pouco antes do meio dia em Salvador, na quinta-feira, 13, e dei de cara com a informação estampada na manchete do Diário de Notícias, de Lisboa: “Bob Dylan é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2016”.

Quase ao mesmo tempo, enquanto tempera o almoço e vê a televisão ligada na cozinha, no “Encontro com Fátima Bernardes”, Margarida (também jornalista e viajante do mesmo barco de sonhos e projetos existenciais) grita para o gabinete onde busco, no computador, um tema menos rotineiro para o artigo da semana: “Bob Dylan ganhou Nobel, saiu agora, você já sabe?”.

Penso então, com os dedos frenéticos já correndo pelo teclado do PC: mistérios e magia circulam livre e loucamente no ar. Sinto pena dos que não acreditam no peso do imponderável no caminho das pessoas, das coisas, dos países, da humanidade. Constato em seguida que o poeta, músico e líder referencial da cultura e do comportamento da sua geração (a minha também) e de outras seguintes, por décadas, 75 anos a caminho dos 76, norte-americano de Minessotta, é o primeiro cantor a receber este prêmio, por "ter criado novas expressões poéticas na grande tradição da canção americana", conforme sintetizou a secretária permanente da Academia sueca, Sara Danius, na cerimônia de anúncio da distinção e valiosa premiação, sob todos os aspectos. Em face do espanto, desassossego e até ensaios de vaias ridículas, de alguns “jornalistas especializados”, diante do fato inesperado e instigante (que profissionais do jornalismo deveriam saudar e acolher com entusiasmo), Sara completou: "Ele (Dylan) pode ser lido e deve ser lido". E a esplêndida notícia começou a ganhar o planeta inteiro, já nos minutos seguintes.

Embarco então nas asas da memória e vou parar em um banco da Praça da Piedade, em Salvador, vibrante e antenada Cidade da Bahia, em meados dos anos 70. De férias do Jornal do Brasil (onde já chefiava a redação da sucursal na Bahia) e quase às vésperas do casamento marcado, traço com Margarida os últimos detalhes do plano de viagem de nossa lua de mel na Califórnia, então em plena revolução da chamada contracultura, tocada por garotos cabeludos e metidos em calças boca de sino (como eu) .

Amar e ser feliz, livremente, ao som e mandamentos das letras das canções de Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones e Victor Jara (proibido pelas ditaduras vigentes, na época, no Brasil e no Chile), era tudo (ou quase) que eu mais queria. Além de encontrar a mana Regina (uma romântica advogada recém formada da UFBA) e o cunhado chileno Oscar Vallejos, que moravam por lá, já casados, após incrível encontro no Farol da Barra, durante uma reunião internacional de hippies realizada na culturalmente efervescente capital baiana de então.

Saímos do Rio de Janeiro rumo a San Francisco, num Jumbo da PanAm (um edifício voador), 18 horas no ar, na rota pela América Central, passando pelo Panamá, Guatemala, México, até chegar aos Estados Unidos, por Los Angeles. Aí fizemos escala, de quase quatro horas, no aeroporto coalhado de Hare Chrisnas (entoando seus salmos e recolhendo grana), até seguirmos em outro voo para San Francisco, paraíso na terra das composições de Dylan e da revolução da juventude que me fizeram ir tão distante.

Também as idas à  Berkeley e aos recantos e pontos de encontros de sua revolucionária universidade. Regados a conversas livres e libertárias, vinho “y otras cositas mas”, evidentemente, para não caretas do meu tipo. Além da boa comida em lugares onde você poderia se bater a qualquer momento com Angela Davis, Joan Baez  ou o próprio  Dylan. E "Blowin'in the wind” rolando solta no ar. Mas a história é comprida e não cabe toda neste espaço.

No jornal espanhol El País, em texto denso e brilhante de informação e análise sobre vida e obra do vencedor do Nobel de literatura - intitulado “O belo outono de Dylan”-, Fernando Navarro assinala: “esquivo diante do seu próprio mito e imerso em seu modo de vida totalmente pessoal de entrega à música e à estrada, Bob Dylan chega aos 75 anos,  quase mais ativo do que nunca, embora sua obra não reverbere mais na consciência coletiva contemporânea com tanto fervor como em outros tempos.Com  a mesma expressão que o acompanha desde os primeiros anos, como quem anda dois passos à frente ou pelo menos se sabe dono de seus passos e do seu ritmo”. Perfeito!

Sobre qual outro músico e poeta, no Brasil ou no mundo, se poderia dizer o mesmo atualmente? Responda quem souber.

Vitor Hugo Soares

É jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@ terra.com.br

Fonte: O Globo

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