domingo, 2 de outubro de 2016

RODEIO DE CAUSOS

GINETE SEM PARDA

Foi na Estância das Casuarinas, capatazeada pelo pai da prenda Francisca, linda de dar pialaços n'alma da gente.

Era dia de festança, pelo término do rodeio anual. E tudo começava com uma grande doma de potros. Para melhor dos pecados, era primavera, quando o coração de todo vivente anda inquieto que nem gorrião namorando.

Como em toda estância, também lá existia um bagual aporeado. Já ninguém queria montá-lo. Ninguém lhe agüentava em riba. Ele sempre acabava esparramando arreios pelo campo.

A indiada tinha mais medo do ventena que o diabo da cruz. Mas o Jorge, peão ginete de primeira, precisava fazer-se ver por sua eleita Francisca, a Chica, e decidiu tentar a sorte.

A fim de assistir em segurança, as moças tinham subido em um velho carroção que se encontrava encostado junto dos paus-a-pique do curral grande, onde se realizavam as gineteadas.

Com a ajuda da peonada, o aporreado foi encilhado num upa e estando agarrado e orelhado, Jorge se lhe sentou nos bastos.

Quando o largaram, o potro saiu corcoveando e berrando tão feio que, mesmo aos tarimbados, dava até medo...

Velhaqueava em roda, se empinava; por vezes se planchava mas o ginete sempre em cima. Era como um boneco amarrado aos bastos; firme que nem palanque de nhanduvai!

As prendas soltavam gritinhos e suspiros de emoção. Chica, a que tinha peleado o coração do Jorge, desatava e atava sem parar o lacinho de suas tranças, de puro nervosismo nomais.

Numa daquelas, o bagual enveredou para o lado dos campos, onde os pau-a-pique eram mais baixos e, formando uma carreira, saltou limpinho para fora do curral, continuando a correr campo afora, meio entreparando às vezes para velhaquear e depois continuar a carreira...

Até conseguirem abrir as porteiras do curral para sair os amadrinhadores e outros, o bagual e o ginete já iam longe.

Passou-se uma hora ou mais sem que nada se soubesse do que tinha acontecido. A ansiedade aumentava que nem massa de pão doce na qual se exagerou no fermento.

Mas, lá pelas tantas, do lado que menos se esperava, vinha aparecendo, no repecho, ao tranquito, completamente entregue ao seu ginete, o bagual até então considerado indomável.

Um pouco atrás, alegres e contentes, vinham os amadrinhadores e demais que lhes tinham saído na culatra.

Jorge forçou o bagual a chegar frente de onde estavam as pêlo-largo, para ouvi-las. Não foi alpedo. Chica lhe falou:

- Tu és um ginetaço e tanto!... Nós estávamos com medo de que te acontecesse algo. Umas quantas vezes parecia que tu ias sendo arrastado e depois te erguias de novo... O que era que te acontecia ou fazias?

Entonces o moço, mais faceiro que milico em dia de soldo, não só porque tinha quebrado o corrincho do bagual, como todavia pelo entusiasmo da chinita, foi explicando:

- É que mesmo naquela tala danada eu me lembrava de tí... Ao sair daqui, apesar do cavalor ir velhaqueando e disparando, já tratei de bombear quando o quero-quero saía do ninho e, na passada, eu só me agachava e agarrava os ovos do esperto emplumado, que sempre grita longe do ninho...

A seguir, abaixou a cabeça, tirou o aba-larga e, parando-se nos estribos, alcançou para a moça dizendo:

- Aqui estão. É um presente. Sei que gostas.

A prenda esticou o braço por riba dos paus-a-pique para agarrar a improvisada bandeja com a oferta. A copa do sombrero estava cheia de ovos de quero-quero... (NATÁLIO HERLEIN, Rodeio de Causos)

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