domingo, 16 de outubro de 2016

RODEIO DE CAUSOS

PESCARIA ENDIABRADA

Volta-e-meia indagam-me por que sou arisco a pescaria. Pois a causa foi o ocorrido numa noitada cuidando dos anzóis.

Vamos ao causo. Para a pescaria fora escolhida uma laguna à beira de um mato, nos campos da Estância das Casuarinas.

Éramos quatro: o Nicácio, o Juvêncio, o Joca e eu. Num sábado, à meia tarde, em nossos pingos, saímos ao tranquito.

Cada um levava parte dos provimentos: sal, farinha de mandioca, bolacha, trempe de arame. E é claro, os avios para a pescaria: anzóis, linhas, iscas e outras priscas. Tambéo os avios para o mate: cambona, erva, cuia e bomba.

A cambona, por sinal, ia atada na peiteira do matungo do Nicácio, um mouro-perdiz, manso como gato de bolicho. Como tal, levava ainda a carne: um costilhar de capão e chouriços.

Joca e Juvêncio levavam canha. Uma boteja cada um. E até açúcar, pro mate-cozido; café-de-chaleira pros citadinos.

De início, no opaco do anoitecer, após já atados os fletes à soga – menos ou mouro; ele era igual a cusco: não saia de perto do dono – tudo ia bem; lindo qual vida de recém-casados...

Mas, ao fechar a noite, tudo mudou! Surgiu um enxame de insetos suga-sangue! Como nunca vi igual! Mundaréu e tamanho!

Foi peleagudo! Brabo de suportar! Ruim que nem dor de  barriga quando se está em rancho alheio... Juvêncio reclamou:

- Estas mutucas vão nos chupar todo o sangue!

Eu lhe perguntei: Onde tu viu mutuca de noite?

Mas ele teimava que era. Agarrou dois ou três dos tais bichinhos, após mata-los a tapas, e fez questão de mostrar na luz do fogo. Foi quando tomei tento da realidade: Virgem Nossa! Não eram mutucas, e sim mosquitos do tamanho delas!...

Após aquela noite medonha, ao clarear o dia teve mais!

Eu estava sentado numa barranca saliente da lagoa. Quando menos esperei, a mesma desmoronou e caiu comigo nágua.

Além do banho frio, eu mal sabia nadar. Nicácio, vendo eu estar aos manotaços que nem namorados no escuro, gritou-se:

- Agarra-te nesse toco de árvore, aí boiando!

Bombiei pra canhota. Vi o toco. Agarrei-me a ele. Era qual morrudo poste de alambrado, E parecia ter casa grossa.

Mas... Aí cuna!... O tinhoso também pescava ali!...

Num vá percebi o engano! O toco começou a mexer-se e abriu uma boca deste tamanho!... Era um baita jacaré!...

Não sei se por susto ou ajuda Divina. So sei isto: dei umas três ou quatro braçadas e um pulo, e estive fora dágua!

Os companheiros, amontoados como corvo em carniça, ficaram até sem cor, amarelos que nem queijo de leite calostro...

Molhado qual um pinto, deu-me um frio. Batia queixo mesmo que porco do mato e tremia como recavém de china gorda andando...

Não tinha roupa pra cambiar. O Joca aconselhou:

- Fica perto do fogo. E bota as linguiças a assar.

Os chouriços se encontravam apinhoscados fora da maleta, perto do fogo. Agarrei o monte e coloquei sobre os trempes.

Logo foi um Deus nos acuda! As linguiças começaram a pular nas brasas e algumas até ganharam pastiçal adentro!...

Com o frio da madrugada, as cobras foram para perto do fogo, misturando-se às linguiças. Claro como noite enluarada!

Como arremate, já na estância, um pito do capataz:

- Quando forem de novo pescar, não levem tanta canha! Ainda estão desfigurados! Brancos que nem lambari de cacimba!...

Cuê-pucha! Agata tomáramos um traguinho! Estávamos tontos era de falta de sangue! Os mosquitos aqueles do tamanho de mutucas tinham nos deixado mais seco que charque de um ano!...

Por essas e outras sou arisco a uma pescaria! (NATÁLIO HERLEN, Rodeio de Causos)

  

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