domingo, 9 de outubro de 2016

RODEIO DE CAUSOS

DESEJO GRAVÍDICO

Essa questão do desejo das siás donas quando estão pesadas, prá mim, é bobagem! Principalmente porque no geral isso acontece só na primeira gravidez. Depois, não mais, ou é raro.

Por causa dessas venetas do tal desejo, certa vez me vi mais atrapalhado que cura com calo na procissão do Divino...

E ainda bem quando elas sentem desejo de comer algo fácil de encontrar. O ruim é quando lhes dá na pensante de querer o que não existe onde se mora, ou frutas que nem há na época... Aí, o touro é brabo e atropela! Falo de vaqueano.


Eu era ainda meio redomão. Ia recém para um ano que tinha me acolherado. Minha patrona esperava a primeira cria.

Ajustado de peão na Estância das Casuarinas, morávamos num ranchinho, construído a preceito em um dos seus potreiros.

Tinha o encargo de cuidar aquela parte. Além, é claro, das lides costumeiras do campo e da estância.

Rincão lindo era aquele! Tranquilo e sereno coo boi manso chegando-se para a sombra em dia de verão...

Todos os fins de tardes, quando o sol já ia baixo qual vôo de marreca choca, eu vinha me tocando para o ranchinho.

Causa de dita ave andei acossado pela mosca braba.

Próximo do rancho existia uma grande sanga. Tinha camalote, ou água-pé, em um dos cantos. E muito jujo nas barrancas.

Pois na sanga essa, todos os dias, cedo, vinha pousar um bando de marrecas. Ficava por lá até o entardecer. Então ia embora. Na manhã seguinte retornava. E tudo se repetia.

Em casa tudo ia bem, até o dia em que a chinoca e eu demos uma chegada na sanga e ela viu o bando de marrecas...

Aí me embarraram o pastel!... No outro dia ela já me falou: estava com um baita desejo de comer carne de marreca!

Eu não tinha arma. Como caçar uma ave daquelas?

Levei dias revirando ideias: como desatar aquele nó?

Andava tonto, qual novilho que levou um argolaço no meio das guampas... Quando só, desanimado que nem baile sem cordeona... Entre os outros, mais alterado que cusco de carniceiro...

Estava perdido no mato! Até vislumbrar uma picada!

Pendurado no galpão, tinha um porongo grande, do tamanho da cabeça dum homem. Peguei aquele porongo e nele pintei, com carvão, um par de olhos e uma boca. Com a faca, fiz um nariz de madeira e, com tachinhas, cravei o mesmo no porongo.

Como cabelo coloquei clinas, tosadas dum bagual escuro. E o porongo ficou tal qual a cabeça dum chiru melenudo.

Na manhã seguinte, cedo, fui até a sanga e lá deixei o porongo. Parecia um vivente, só com a cabeça fora dágua...

Fiquei escondido na jujama. Queria ver o efeito. As marrecas vieram. A princípio, meio se assustaram. Ficaram longe do porongo. De a pouco, porém, foram tomando confiança.

Fui embora, Mas amiúde voltava. Acompanhava o desdobrar dos fatos. E fui notando, mais faceiro que guri em dia de reis: as marrecas, dia-a-dia, iam perdendo o medo do porongo...

Certo amanhecer, com uma bolsa, fui para a sanga. Lá, já em pelo, retirei o porongo dágua e o escondi, com as roupas.

Após, com a bolsa em uma das mãos, entrei nágua e fiquei só com a cabeça de fora, fazendo as vezes do porongo.

As marrecas logo apareceram. E tranquilamente pousaram sobre as águas da sanga. Pensavam estar ali o porongo.

Quando uma passava perto, eu espichava o braço por baixo dágua, pegava-a das patas e puxava pro fundo, pra bolsa...

Repeti isso 33 vezes. E fui pra casa. Até charque fiz.


Dei um empache de carne de marreca na mulher! Santo remédio! Nunca mais quando grávida, teve desejo... Oigaletê! (NATÁLIO HERLEN, Rodeio de Causos)

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