quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

GLÓRIA DE UM CRIADOR

Ruy Castro

O romancista Raymond Chandler dizia que os americanos comiam qualquer coisa que viesse entre dois pães, presos por um palito, com uma alface murcha saindo pelas laterais e que pingasse. Mas isso era nos anos 50. Vinte anos depois, o mundo, em massa, já havia trocado os prazeres de uma refeição sentada, entre amigos, usando garfo e faca e levando o guardanapo à boca antes de tomar vinho ou água, por um sanduíche devorado sozinho e às pressas, de pé, na rua, com a barriga no balcão e a impressão de estar sendo envenenado.

O responsável por essa revolução chamou-se Michael Delligatti e morreu há dias nos EUA. Morreu tarde — tinha 98 anos. Ele foi o criador do Big Mac, que, com dois hambúrgueres e uma fatia extra de pão, dobrou o volume de um hambúrguer comum, conferindo-lhe 460 calorias fora a batata frita. Delligatti lançou a novidade em sua loja McDonald's em Uniontown, na Pensilvânia, em 1967. Em menos de um ano, todos os McDonald's americanos já a tinham adotado e, daí para o mundo, foi um pulo.

Só entrei num McDonald's uma vez até hoje, há décadas, e, mesmo assim, coercitivamente conduzido. Mas bastou para observar a luta de um garoto ao meu lado tentando fazer com que o Big Mac, mesmo espremido ao máximo — com uma gororoba de picles, cebolas e ketchup transbordando entre seus dedos —, coubesse-lhe na boca. A qual ele tinha de abrir ao máximo e prender a respiração por vários minutos para engolir cada dentada da monumental instalação.

Pois acabo de saber que o Big Mac é hoje uma mixaria diante do Mega Stacker 4.0, do Burger King, com seus quatro hambúrgueres, outros tantos andares de pão e 1.924 calorias.

Mas que isso não ofusque a glória de Delligatti. Sem ele, os índices de obesidade, diabetes e problemas cardíacos não seriam tão exuberantes em toda parte.

Fonte: Folha de S.Paulo

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