segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ZUMBIS NO PODER, NINGUÉM NO CONTROLE

Vinicius Torres Freire

Uma farsa que perdure até 2018. Talvez seja essa a alternativa ao tumulto, à baderna ainda maior que a promovida pela elite dos três Poderes e à convulsão econômica.

Mas o teatro pode ruir, dados o destino incerto da economia, o mau humor das ruas e a incompetência dos líderes políticos até de manter a casa de pé, de modo mesquinho, porém pragmático. Na semana que passou, Michel Temer não conseguiu nem nomear um ministro.

A farsa é a aparência de legalidade e ordem que se quer dar aos conchavos, aos arreglos e aos acordões que mantêm as "instituições funcionando". São motivo de escárnio, nojo e descrédito terminal, mas a elite zumbi do poder combinou de fingir que a coisa funciona.

A farsa tem, claro, alguma funcionalidade e, por isso, apoio restante, mas minguante, nas elites econômicas. Trata-se de evitar o colapso da economia real e de aplacar os credores (o "mercado").

Não menos importante, enquanto durar o teatro é ainda possível inventar mumunhas, jeitões ou algum esquemão que salve alguns políticos da degola judicial. O show precisa continuar.

Esse teatro sombrio depende, claro, da tolerância do povo. Depende também de algum resto de pragmatismo competente dos atores principais. Mas nem política politiqueira se consegue mais fazer direito.

Por exemplo. O centrão, bloco de parlamentares ainda piores que a média, conseguiu por enquanto barrar a ocupação de parte do governo Temer pelo PSDB, que nomearia um ministro para a Secretaria de Governo (Antonio Imbassahy iria para o lugar do decapitado Geddel Vieira Lima), rolo em parte antevisto nestas colunas, no domingo passado (4). Temer não conseguiu combinar nem o teatrinho no seu quintal.

O rolo se deve a joguetes da disputa da presidência da Câmara. O que importa aqui, porém, é que a gente do centrão agora ameaça Temer com votos para uma comissão de impeachment, com recusa de votos para as "reformas" e com ameaça a outras alianças "táticas" com a oposição.

Embora não se saiba o que restará também do PSDB depois que a Odebrecht descrever a capivara (ficha policial) tucana, Temer depende do partido, talvez ainda mais caso seja decapitado o resto do seu núcleo palaciano. A farsa vai ficar inverossímil demais se depender apenas de variantes menores de PMDB, tal como o centrão.

Os donos do dinheiro, os credores do governo ou quem os representa, estão estranhamente calmos (os indicadores do mercado financeiro estão "calmos"). Parecem convencidos de que a farsa vai continuar.

O que acontece caso pareça que o circo vai pegar fogo (que não se consiga entregar o pacote básico de "reformas")? Pode haver altas de juros e dólar tais como as dos pânicos de meados de 2015, quando se confirmou que os planos de Levy tinham ido à breca. Desta vez, porém, o pânico seria duradouro.

Enfim, sempre no fim, está o povo miúdo. Ainda que a economia ressuscite, que a recessão pelo menos se torne estagnação, muito pouco disso será sentido pela gente comum, que quer eleições diretas desde antes da queda de Dilma Rousseff.

O que vai querer, dado outro ano de desgraça econômica, temperado com coisas como a reforma da Previdência? Disso depende a farsa, a alternativa de estabilidade no mundo zumbi do poder do Brasil.

Fonte: Folha de S. Paulo

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