segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

MARCHANDO PARA O PRECIPÍCIO

Hélio Schwartsman

O carnaval se aproxima, para infelicidade dos pobres mortais que moramos na Vila Madalena. A pergunta que se coloca no momento é se vale banir as marchinhas com letras politicamente incorretas, como "O Teu Cabelo não Nega", "Maria Sapatão" e "Cabeleira do Zezé", entre tantas outras.

A palavra "banir" aqui é complicada, pois engloba dois processos muitos distintos, um deles totalmente legítimo e o outro intolerável no contexto de uma sociedade aberta.

Com efeito, se por "banimento" entende-se apenas o resultado da evolução natural dos gostos das pessoas, não há muito o que discutir. As sensibilidades mudam mesmo e isso tem reflexos no mercado, tanto o de ideias como o fonográfico. Em tempos de promoção dos direitos de minorias, é esperado que letras que causem desconforto sejam paulatinamente menos consumidas.

Vale observar que nem a Bíblia escapa a esse processo. As inúmeras passagens que mostram um Jeová violento até as raias do sadismo são cada vez menos citadas em textos de religiosos e, suspeito, também nos púlpitos das igrejas "mainstream". Ganham visibilidade os trechos mais benignos, que sugerem um Deus menos intolerante e mais amoroso.

A proscrição das marchinhas será absolutamente indefensável, contudo, se ela de algum modo se apoiar no poder do Estado, que, em regimes democráticos, não pode proibir nem limitar nenhum tipo de manifestação artística.

Já a ideia de alguns grupos de militar ativamente para que as tais marchinhas deixem de ser tocadas me parece uma combinação de desconhecimento histórico (ignora-se o contexto em que a obra foi produzida) com desatino mesmo (ninguém fica mais racista por ouvir "O Teu Cabelo..."). A extensão dessa lógica tortuosa à filosofia e à literatura nos privaria, entre outros, de Aristóteles (escravagista), Eurípedes (misógino) e Shakespeare (antissemita). 

Fonte: Folha de S. Paulo

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