quinta-feira, 13 de abril de 2017

CHEIRO É HISTÓRIA

Ruy Castro

Uma equipe de cientistas britânicos está se dedicando a um trabalho que, se bem sucedido, merecerá a gratidão das gerações futuras. Tenta capturar os cheiros de tudo que encontrar na fabulosa mansão Knole, no condado de Kent, não muito longe de Londres —para poder descrevê-los da maneira mais exata e minuciosa e, um dia, quem sabe, reproduzi-los quimicamente. Você dirá que isso é coisa de inglês. Eu prefiro acreditar que um banco de cheiros é uma ideia fascinante.

E o que não falta na mansão Knole são cheiros. Construída entre os séculos 15 e 16, ela esteve na posse de reis e foi parar desde cedo nas mãos da família Sackville, a quem pertence até hoje. Sua história está contada num livro de Vita Sackville-West, "Knole and the Sackvilles", de 1922, mas sua referência literária mais ilustre foi a de ter inspirado cenários do romance "Orlando" (1928), de Virginia Woolf, que passou nela muitas noites com Vita —a quem, aliás, o livro é dedicado. É uma das maiores casas inglesas, com 365 quartos, 52 escadarias e milhares de cantinhos e nichos com cheiros estocados há séculos.

Livros, papéis, quadros, estátuas, roupas, tapetes, móveis, objetos, tudo está sendo cheirado pela equipe e classificado de acordo com certos critérios: doce, azedo, mofado, úmido, olente, inodoro, fétido. Não sei se conseguiríamos fazer isso no Brasil —temos poucas casas antigas e vivemos passando o rodo nelas. É um crime, porque cheiro é história.

Mas poderíamos usar o mesmo princípio para outros fins. Se uma equipe tivesse cheirado as catacumbas do Planalto assim que Lula e Dilma o desocuparam, muito do que hoje se investiga ficaria mais fácil de ser apurado. O miasma não deixaria dúvidas. Mas essa oportunidade foi perdida.

Não podemos deixar que aconteça igual com o Planalto pós-Temer.

Fonte: Folha de S. Paulo

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