quarta-feira, 26 de abril de 2017

DEU LÓGICA NA FRANÇA

Hélio Schwartsman

Deu o esperado na eleição francesa. A candidata da extrema direita Marine Le Pen passou para o segundo turno, mas, a menos que surja um fato novo de grande impacto, deverá ser fragorosamente derrotada pelo centrista Emmanuel Macron em maio. A tal da onda conservadora que estava prestes a engolir o mundo provavelmente será, mais uma vez, desmentida.

Até acho que estamos assistindo a mudanças no comportamento dos eleitores. Minha hipótese é que a internet está interferindo na maneira como as pessoas formam suas convicções e coordenam expectativas. Vivemos tempos de maior polarização e fragmentação. Também podemos esperar movimentações mais bruscas e tardias nas pesquisas eleitorais. Mas as linhas básicas do pensamento humano e da lógica política permanecem as mesmas.

O que acaba fazendo toda a diferença nessas situações é o desenho institucional. Em qualquer conjunto suficientemente grande de eleitores, sempre haverá aqueles dispostos a uma atitude mais radical, seja pela esquerda, seja pela direita. Períodos mais longos de recessão ou estagnação econômica tendem a fazer com que o contingente de aflitos aumente. Se o sistema eleitoral permitir que minorias robustas triunfem, aventureiros e radicais têm de fato boas chances de chegar ao poder. É o que se viu no caso de Trump e, "mutatis mutandis", no "brexit". Se, contudo, a arquitetura da votação for um pouco mais sofisticada, dá para proteger a maioria contra arroubos de minorias bem articuladas. É o que o segundo turno deverá fazer na França.

A democracia é a expressão da vontade popular, mas a maneira de perguntar ao povo o que ele quer e a forma de contabilizar as respostas afetam os desfechos. Desenhos institucionais que promovam a moderação devem ser favorecidos. Não é que os radicais estejam sempre errados, mas esse tipo de saída deve ser reservado para situações extremas. 

Fonte: Folha de S. Paulo

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