sexta-feira, 7 de abril de 2017

DOS MEUS LIVROS

O Cortiço - Aluísio Azevedo

Comentário:
Um dos maiores méritos deste livro é a análise comparativa das caraterísticas do ser português com o ser brasileiro; as diferenças são tão profundas que se torna admirável a forma como os dois tipos de personalidade convivem neste país que é o país-irmão.

Inicialmente o autor parece identificar três tipos de portugueses: o português de sucesso que escolheu o Brasil como terra dos seus sonhos e por isso sente que merece ser rico; o português que se cansa do espírito trabalhador luso e adere ao espírito brasileiro; finalmente, o português pobre, sem eira nem beira, que se limita a trabalhar para sobreviver. Cora constantemente de saudade e canta o fado; aliás o primeiro tipo também o faz, mas porque é um eterno insatisfeito.

Aluísio Azevedo encontrou no personagem Jerónimo um meio de plasmar as duas personalidades, ao fazer com que ele, por influência de uma moça de sangue bem quente, se transformasse de português em brasileiro; vejamos então alguns adjetivos usados para caracterizar o Jerónimo enquanto tinha um comportamento tipicamente português e depois o Jerónimo já “convertido” ao estilo de vida brasileiro:

O Jerónimo português: trabalhador até à exaustão, poupado até à sovinice, vida sombria, tristonha, marcada pela saudade, pelo fado.

O Jerónimo “brasileiro”: apaixonado, afrouxado em energias, adquiria desejos, idealizava felicidades e prazeres, não dispensava o café e a cachaça, gastador, o samba toma o lugar do fado. Torna-se esbanjador e assim constrói a sua desgraça.

Esta comparação, que à partida apanha o leitor desprevenido parece uma crítica ao espírito “sovina” do português mas, na verdade, a perspetiva crítica incide sobre os dois tipos; o português torna-se obcecado pela riqueza, egoísta e preso às aparências; o brasileiro torna-se preguiçoso, esbanjador e irresponsável.

O povo, como em qualquer escritor naturalista, é visto com grupo e não individualmente. Aqui, ao contrário do mestre Zola, a primazia não é dada às condições materiais dos mais pobres, mas sim aos seus costumes, crenças, superstições, hábitos. Pelo meio constrói uma curiosa crítica ao moralismo hipócrita que parece derivar de uma determinada interpretação do pensamento religioso, mesclado com superstições; a crença religiosa aparece sempre misturada com bruxaria, feitiçaria e as mais irracionais crenças… enfim, um belo retrato coletivo. Mesmo assim, a importância dada às condições materiais de existência vai crescendo ao longo do livro, à medida que se vão acentuando as desigualdades sociais; na parte final assistimos a esse “fim da história” em que os ricos se tornam mais ricos e prepotentes enquanto os pobres, à sombra dessa riqueza, caem na miséria, como os mineiros de Zola. Os poderosos, esses caem no ridículo da nova aristocracia, aderindo a uma sociedade que esconde as misérias pessoais por detrás da típica sociedade de aparências que rodeia a elite social dominante.

A solidariedade está sempre presente como um fator de união, e o cortiço é a personificação dessa união solidária. No entanto, quando os conflitos estalam emerge a desunião e com ela a violência. É com grande eficácia que o autor nos explica a relação intima entre a natureza extrovertida da alma brasileira e a facilidade com que surge a violência. É o “sangue quente”, reforçado pelo álcool, que comanda a ação coletiva e não a racionalidade.

A linguagem crua, direta, realista, aliada ao realismo com que é descrito o “calor” da alma brasileira conferem a algumas passagens do livro um aspeto de romance erótico pouco comum no século XIX. Mas o que se pretende não é acentuar o erotismo mas sim ilustrar um certo desregramento dos costumes por parte da comunidade brasileira. Noutras passagens, este hiper-realismo dá lugar a uma linguagem fria, chocante, como na descrição da criança que morreu esfacelada na pedreira. 

Fonte: amionhaestante.blogspot.com.br

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