sábado, 8 de abril de 2017

ETIQUETA DO CHICLETE

Ruy Castro

Em fevereiro de 2016, o doleiro João Santana e sua mulher, Mônica Moura, foram filmados quando chegavam presos à Polícia Federal em Curitiba, numa das fases da Operação Lava Jato. Apesar das mãos às costas, o casal aparentava a tranquilidade de quem estava sendo conduzido para sua suíte num hotel de luxo. Tal tranquilidade talvez fosse realçada pelo fato de que, como as câmeras bem mostraram, os dois mascavam chicletes.

Desde então, sempre que João Santana e Mônica Moura aparecem na televisão, a reportagem mostra a cena dos chicletes. Por algum motivo, não foi mais possível filmá-los depois daquele dia —e o telespectador, que não é obrigado a saber disso, pode pensar que eles nunca trocam de roupa e não param de mascar chicletes. Como a dupla é acusada de injetar dinheiro ilícito nas campanhas presidenciais de Lula e Dilma, o ato de mascar chicletes pode ficar associado à corrupção.

O que seria injusto porque, em si, mascar chicletes não tem nada demais —depende de quem, quando, onde e com quem se masca. Os treinadores de futebol, por exemplo, são grandes adeptos da especialidade, vide o falecido Telê Santana, cujo jogo de mandíbulas era perfeito para a prática; o formidável Abel, hoje no Fluminense; e o escocês Alex Ferguson, cujo chiclete, mascado e cuspido ao fim de sua última partida como técnico do Manchester United, em 2013, foi recolhido na área técnica e levado a leilão no eBay.

Tudo bem, mas, por mais simpático e jovial, o chiclete deve se submeter a certas normas de etiqueta. Não é de bom tom mascá-lo ao fazer amor com alguém pela primeira vez, ao negociar valores secretos com candidatos à Presidência ou ao prestar delações premiadas.

Falando em delações, vamos ver muito de João Santana e Mônica Moura nos próximos dias —a conferir se com ou sem chicletes.

Fonte: Folha de S. Paulo

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