sábado, 22 de abril de 2017

NADA FÁCEIS

Ruy Castro

Em 1967, a americana Kathrine Switzer, 20 anos, quase foi impedida de disputar uma maratona em Boston, para a qual estava inscrita com o número 261. Os jornais deram outro dia uma foto da corrida: vê-se Kathrine, em roupa de ginástica, sendo contida por um homem de preto —um fiscal—, e um corredor se atracando a este para assegurar a Kathrine o direito de correr. Achava-se que as mulheres eram muito frágeis para disputar com os homens.

Se essa história se passasse em 1937, 1947 ou mesmo 1957, talvez não provocasse espanto. Mas, 1967??? Naquele ano, algumas das pessoas mais influentes do mundo eram Indira Gandhi, primeira-ministra da Índia, e Golda Meir, futura de Israel; a existencialista francesa Simone de Beauvoir; a filósofa alemã Hannah Arendt; a jornalista italiana Oriana Fallaci, correspondente de guerra no Vietnã; a ativista do urbanismo Jane Jacobs e a feminista Betty Friedan, americanas; e muitas outras. Mais influentes, eu disse —não necessariamente mais famosas.

Famosas (e influentes) eram a estilista Mary Quant, inventora da minissaia, e a modelo Twiggy, inglesas; a romancista Jacqueline Susann, autora de "O Vale das Bonecas", e uma penca de atrizes modernas e donas do próprio nariz: Jeanne Moreau, Anouk Aimeé, sim, Bardot, Vanessa Redgrave, Sarah Miles, Faye Dunaway, já afiando as unhas Jane Fonda, e as nossas Norma Bengell, Ítala Nandi, Leila Diniz.

Minha turma do 1º ano de ciências sociais na FNFi, em 1967, tinha meninas que sabiam tudo de literatura, enfrentavam a polícia nas passeatas e também gostavam de namorar. A ideia de se deixarem reprimir por alguém era absurda.

Kathrine Switzer completou aquela prova —foi a primeira mulher a fazer isto oficialmente. E, 50 anos depois, esta semana, na mesma Boston, correu e completou-a de novo. 

Fonte: Folha de S. Paulo

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