quarta-feira, 19 de abril de 2017

O CÉREBRO CAUSÍDICO

Hélio Schwartsman

Se a metade ou apenas 1/3 das acusações feitas pelos 77 executivos da Odebrecht são verdadeiras, como podem os políticos mencionados pelos delatores negar tudo sem nem mesmo enrubescer?

Seres humanos contamos com um excelente advogado de defesa, que é o nosso cérebro, mais especificamente algumas estruturas no hemisfério esquerdo que o neurocientista Michael Gazzaniga chama de intérprete do lado esquerdo. Esse intérprete não apenas nos instrui em relação ao que devemos dizer diante do juiz para "provar" a nossa inocência como ainda tenta, com graus variados de sucesso, convencer os demais circuitos neuronais de que as desculpas que utilizamos são dignas de crédito. Afinal, sabe-se que a mentira mais convincente é aquela em que o próprio mentiroso acredita.

A tarefa do cérebro advocatício é facilitada quando o político toma certas providências como nunca mencionar valores, fazer questão de ignorar os detalhes das negociações e mesmo retirar-se da sala nos momentos em que seus assessores tratarão dos detalhes de entrega. A crer nos vídeos dos delatores, os políticos mais espertos, um pouco por conhecimento e muito por instinto, sempre cuidavam de manter-se em cenários em que a negação se tornaria plausível. O cérebro, afinal, não precisa de mais do que um fiapinho de razão para nela agarrar-se.

Robert Wright, autor de "Animal Moral", tem uma frase lapidar sobre isso que gosto de citar: "O cérebro é como um bom advogado: dado um conjunto de interesses a defender, ele se põe a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Como um advogado, o cérebro humano quer vitória, não verdade; e, como um advogado, ele é muitas vezes mais admirável por sua habilidade do que por sua virtude".

Mais habilidade do que virtude é uma fórmula que resume bem o atual estado da política no Brasil.

Fonte: Folha de S. Paulo

Nenhum comentário:

Postar um comentário