domingo, 21 de maio de 2017

O RADAR É MAIS EMBAIXO

Ruy Castro

Se há uma coisa de que nossos governantes não podem ser acusados é de ostentação. Ao contrário, são de tocante modéstia. Tendo a seu dispor os palácios de Brasília projetados por Oscar Niemeyer, mansões à beira-lago jorrando ouro pelas torneiras e outras dependências feéricas, são de grande discrição ao tratar de seus negócios.

O ex-presidente Lula, por exemplo, ao ter uma importante pergunta a fazer ao aliado Renato Duque, não o convidou ao seu instituto, onde poderia manter uma conversação amena, servida de cafezinho, um copo d'água e, talvez, charutos. Preferiu o hangar de uma companhia aérea no aeroporto de Congonhas, sob o estrépito de turbinas, o alarido de mecânicos e funcionários e jatos chegando e saindo. Faz o seu gênero –ríspido, olhos nos olhos e, no caso, da boca à orelha.

A então presidente Dilma Rousseff, ao chamar de Nova York a marqueteira Mônica Moura para uma conversa urgente, levou-a a uma longa caminhada pelos jardins do Alvorada, indiferente ao fato de que Mônica acabara de chegar de um voo de dez horas, JFK-BSB, convocada às pressas e sem tempo nem para passar em casa e retocar o rímel.

E o deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), íntimo do presidente Michel Temer a ponto de entrar sem bater no gabinete de Temer no Planalto, obrigou o diretor da JBS Ricardo Saud a uma maratona por cafés, shoppings e pizzarias de São Paulo para receber deste a primeira das semanadas de R$ 500 mil que ganharia por 20 anos.

Outra prova da frugalidade dessas administrações é que, podendo comprar luxuosos jogos de malas Vuitton, seus operadores preferem transportar valores em caixas de sapatos, sacolas, mochilas e cuecas. Ou então achavam que isso os deixaria fora do alcance do radar. Mas, como a Lava Jato está mostrando, o radar é mais embaixo.

Fonte: Folha de S. Paulo

Nenhum comentário:

Postar um comentário