domingo, 24 de setembro de 2017

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL SABE SE VOCÊ É GAY

Ronaldo Lemos

Na semana passada, ganhou repercussão um estudo sobre inteligência artificial que tem como um dos autores Michal Kosinski. Só lembrando, Kosinski ficou famoso por escrever em Cambridge um trabalho que vem sendo utilizado por empresas como a Cambridge Analytica para prever o comportamento de eleitores. Muita gente atribui parte da vitória de Donald Trump às campanhas de manipulação que se utilizam do modelo criado por ele.

Em seu novo trabalho, escrito em Stanford, Kosinski demonstra que uma inteligência artificial é capaz de determinar se uma pessoa é gay apenas com a análise de uma foto na internet. A chance de acerto é de 81% para homens e 74% para mulheres. Se forem analisadas cinco fotos, a chance de acerto pula para 91% para homens e 83% para mulheres. A taxa de acerto de seres humanos não ultrapassa 61% para homens e 54% para mulheres.

Kosinski utilizou-se para isso de uma das vertentes da inteligência artificial chamada de "Deep Neural Networks". Para isso, aplicou a técnica sobre uma amostra com 35.326 imagens de homens e mulheres publicadas em um site de relacionamentos dos Estados Unidos, no qual as pessoas autodeclaravam sua orientação sexual. Vale notar que o estudo considerou apenas fotos de pessoas brancas. Também não considerou imagens de transexuais nem bissexualidade.

O impacto desses resultados está sendo avassalador, especialmente em razão de sua dimensão ética. O próprio estudo alerta para a possibilidade de governos autoritários usarem esse tipo de análise para expor gays onde há perseguição. Ao mesmo tempo, uma das conclusões aponta no sentido de que a orientação sexual é determinada anteriormente ao nascimento, não sendo uma "opção" do indivíduo.

O estudo também afirma que a mesma metodologia pode ser utilizada para prever o posicionamento político de uma pessoa, seu estado psicológico (por exemplo, se sofre de depressão ou neurose) e até mesmo sua personalidade, bastando para isso a análise de imagens da pessoa postadas na internet.

No século 19, o higienista italiano Cesare Lombroso decidiu estudar nas prisões as características físicas de criminosos, na expectativa de que pudesse prever o comportamento de pessoas que apresentassem os mesmos traços.

Decidiu que criminosos seriam mais altos que a média, teriam orelhas de abano, maxilar largo e assim por diante. A obra de Lombroso é hoje considerada inaceitável e revoltante.

Hoje, a inteligência artificial e a ciência dos dados têm a capacidade de gerar tipos de análise com as quais Lombroso jamais sonharia.

A pergunta que precisamos fazer é se e como queremos que isso aconteça. Mais do que isso, quais as condições e controles éticos para a experimentação com seres humanos? É desejável que a sociedade como um todo se converta em um gigantesco laboratório em que somos todos cobaias? Quanto antes enfrentarmos esses desafios, maiores serão as chances de evitarmos injustiças ou mesmo tragédias. 

Fonte: Folha de S. Paulo

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