domingo, 5 de novembro de 2017

A PRANTEADA SENHORA

Ruy Castro

Muitos acharão mórbido, mas conheço pessoas que começam sua leitura do jornal pelos anúncios funerários. Não por acaso, sou uma delas. Talvez seja uma maneira de me certificar de que, como meu nome não está num daqueles quadradinhos cercados por um grosso fio preto, posso mergulhar sem susto no resto do jornal. Isso não altera a sensação de que o mundo parece estar diminuindo –pela quantidade de nomes de amigos, conhecidos e até ex-namoradas que, a partir de certa época, passamos a encontrar nos quadradinhos.

O que, às vezes, pode nos levar também a equívocos. Há algumas semanas, caiu-me aos olhos, nos anúncios funerários do "Globo", o nome de Adquira Carneiro Perpétuo. Como já tive amigos com esses sobrenomes, imaginei que talvez pudesse ter conhecido dona Adquira. Mas um rápido exercício de memória não me disse nada. Logo o olho transferiu-se para outros quadradinhos e, com isso, esqueci o assunto.

Uma semana depois, reencontrei o nome de dona Adquira na página dos funerários. Com certeza, seus parentes estariam convidando para uma missa de sétimo dia. Não me detive no anúncio porque as missas são muitas e só me interesso pelas dos mais chegados.

Passou-se outra semana e lá estava, de novo, dona Adquira na página. Isso me intrigou. O que seria agora? Convite para a missa de 30º dia? Ou a gratidão de seus filhos e netos pelos exemplos que a pranteada senhora lhes dera em vida? Achei bonito –talvez eu próprio gostasse de ter conhecido dona Adquira.

E só então me dei conta. Não havia uma dona Adquira. O anúncio apenas convidava o leitor a adquirir um carneiro perpétuo no cemitério São João Batista. Seguiam-se telefone de contato e preço, e como não vi isso antes? Preciso ler esses anúncios com mais atenção –de repente, posso entrar num deles sem perceber.

Fonte: Folha de S. Paulo

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