segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

QUÃO PEROGOSAS SÃO AS FAKE NEWS?

QUÃO PEROGOSAS SÃO AS FAKE NEWS?
Hélio Schwartsman

Acredita nas notícias falsas eleitorais quem já vai votar no candidato por elas beneficiado


"Aqueles que te fazem acreditar em absurdos, te fazem cometer atrocidades". A frase, atribuída a Voltaire, é daquelas com as quais concordamos intuitivamente. E há situações em que ela é correta. De um modo geral, porém, a ordem da causalidade é a inversa. É o desejo de cometer atrocidades que nos faz acreditar em absurdos. Exploro hoje algumas ideias de Hugo Mercier sobre fake news, desenvolvidas no livro "Not Born Yesterday", de que já falei na semana passada (20/2).

O mais duradouro erro dos médicos ocidentais foi ministrar sangrias. Quem procurar a origem da prática vai dar com Galeno e a teoria dos humores. E esse médico greco-romano do século 2º de fato forneceu uma razão teórica para as sangrias, à qual os médicos recorreram por séculos. Mas não devemos ser tão eurocêntricos. Sangrias são uma prática ultradisseminada. Segundo Mercier, 25% das culturas humanas as empregaram em alguma fase de sua história, e a maioria delas jamais ouviu falar em humores. Galeno não chegou à conclusão de que deveria retirar sangue de pacientes por causa da teoria, mas criou a teoria porque queria justificar as sangrias, que já praticava, como tantos outros curandeiros em todo o mundo.

Mercier, vale lembrar, é um dos proponentes da tese de que a força evolutiva por trás da razão é a necessidade de justificarmos nossas posições, não a busca pela verdade.

Para Mercier, fake news eleitorais funcionam da mesma forma. "Acredita" nelas quem já vai votar no candidato por elas beneficiado. Raramente elas mudam o resultado de um pleito. Ninguém ainda inventou meme ou frase mágicos que façam um bolsonarista votar num petista ou vice-versa.

O cientista cognitivo também sustenta que, embora haja alguma verdade na noção de que fake news levam à radicalização de grupos, há enorme exagero na ideia de que as redes sociais funcionam como câmaras de eco que irão destruir a democracia.

Fonte: Folha de S. Paulo
De todos os infortúnios que afligem a humanidade, o mais amargo é que temos de ter consciência de muito e controle de nada. (Heródoto, historiador grego, 484 a.C.(?)-430-420 a.C.)

LUGARES

MADONNA DI CAMPIGLIO - ITÁLIA
Madonna di Campiglio é uma fracção das comunas de Pinzolo e Ragoli, com aproximadamente 700 habitantes e situada a 1 522 msnm no alto Val Rendena, a pouca distância de Campo Carlo Magno, entre os Dolomitas de Brenta e o Adamello. Wikipédia

CARTA AOS BEATLES

CARTA AOS BEATLES
Martha Medeiros

Prezados, esta carta chegará atrasada, com dois de vocês já habitando outro plano, mas como foi sacramentado que a banda é eterna, seguimos juntos.

Quero falar de Get Back, claro, o documentário que está obcecando quem é beatlemaníaco (ia escrever "foi" beatlemaníaco, mas alguém conseguiu deixar de ser?). Lennon quase passou por um cancelamento por ter dito que vocês eram mais famosos que Jesus Cristo (sorte que as redes sociais não existiam), mas o exagero da declaração procede, os Beatles se tornaram mesmo uma espécie de religião, e agora temos a oportunidade de entrar no céu através de uma plataforma de streaming.

Não sabia que o doc seria dividido em três partes e totalizaria sete horas de imagens: a indução ao tédio é um risco, são só vocês quatro num estúdio, dia após dia, criando canções e discutindo o próximo show ao vivo (que viria a ser o último). Eu mesma, lá pela metade da primeira parte, tive que parar porque bateu a fome - coisa mundana, jantar... Mas voltei pra frente da TV e resolvi não esperar pelo fim, já estou aqui remetendo minha adulação nessas mal traçadas.

Não é qualquer banda que cria um gênero musical. Existe o jazz, o blues, o rock, o samba, o hip hop, o forró, os Beatles, o gospel, o bolero. Vocês fundaram um estilo único, sofisticado, de extraordinária inventividade, nenhum disco igual ao outro. Quem não reconhece os primeiros acordes de Yesterday, The Long and Winding Road, Hey Jude, Don´t Let me Down. São duas centenas de clássicos em apenas 10 anos.

Vocês entraram no meu quarto de menina e ofertaram a trilha sonora da minha vida. Quem diria que, mais tarde, eu também entraria na intimidade de vocês, que me sentaria ao lado de George Harrison enquanto ele compunha um riff de guitarra ou que dividiria a banqueta do piano com John Lennon (licença, Yoko). Que perceberia tão nitidamente a calma de Ringo e a hiperatividade de Paul, e como cada um dos quatro lidava com o temperamento do outro, mantendo a elegância até mesmo - ou principalmente - durante as desavenças. Não, nunca foi only rock´n´roll.

Nove de janeiro de 1969: o parto de Let It Be. O privilégio de ver nascer uma obra-prima. A busca pelo tom melódico, pelas palavras certas. Neste dezembro de 2021, esparramada num sofá em Porto Alegre, me vi transportada para a fleumática Londres e virei voyeur de um big bang: o desenvolvimento inicial de canções que atingiram em cheio aquela menina de sete anos que eu fui e que tinha vocês como ídolos intocáveis - e que agora tem a honra de senti-los tão perturbadoramente perto.

Devemos ao diretor Peter Jackson esse presentaço de Natal e a vocês quatro a genialidade que nos legaram. Talvez eu não esteja falando por todos, mas falo por mim, herdeira perplexa de tamanha fortuna, mais beatlemaníaca do que nunca.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 27 de fevereiro de 2022

INVASÃO RUSSA TEM EXPLICAÇÃO POLÍTICA

INVASÃO RUSSA TEM EXPLICAÇÃO POLÍTICA
Sergio Abranches

Sem justificativa moral, invasão russa tem explicação política

A invasão da Ucrânia deve ser vista de dois ângulos distintos. Do ângulo moral, não há dúvida. A atitude da Rússia é indesculpável. A invasão e ocupação militar de país soberano é moralmente inaceitável sob qualquer ponto de vista. Putin nunca demonstrou qualquer respeito pela vida humana e não respeitará qualquer barreira moral na sua agressão contra a Ucrânia.

Do ângulo político, é preciso ser realista. A atitude russa tem explicação e cria controvérsias, dependendo da posição política de cada um. Do meu ponto de vista político, a conclusão é bem desagradável e cruel: a Rússia deu um xeque-mate nas potências ocidentais. Putin é um autocrata e tem uma posição política interna muito mais sólida do que todos os governantes ocidentais relevantes que se opõem ao movimento russo. Putin tem popularidade, mantém a oposição sob controle à base de forte repressão, complementada por mentiras digitais, prisões abusivas e assassinatos. Putin tem mais experiência e treino estratégico.

Os governantes ocidentais estão todos em situação política delicada. Olaf Scholz, acaba de chegar ao poder, apoiado em uma coalizão de equilíbrio delicado. Joe Biden enfrenta eleição intermediária que pode deixá-lo em minoria no Congresso e tem baixa popularidade. Boris Johnson está cai-não-cai. Macron disputa uma eleição em busca da reeleição que complicada para ele. É o único que tenta manter uma linha de comunicação com o russo, numa tentativa de alavancar sua posição na eleição francesa e o papel da França na Europa. É improvável que tenha sucesso. Volodymyr Zelensky é um governante por acidente, despreparado e fraco. Pode se transformar em vítima involuntária e herói inesperado.

Infelizmente, a Ucrânia está só. Nem a OTAN, nem os Estados Unidos isoladamente vão intervir militarmente. Os ucranianos sofrerão as piores consequências da invasão. O governo Zelensky está condenado. Ele não tem como sobreviver a esta invasão. Putin, além de um hábil estrategista, é frio, cruel e insensível. Ele não mede consequências para conseguir seus objetivos: mata seus adversários na Rússia, invade vizinhos, como fez na Georgia, na anexação da Crimea e agora na Ucrânia. Este episódio só tem final razoável se for negociado. Mas, já não há como ter um bom final.

Ainda do ponto de vista político, é preciso levar em consideração os erros diplomáticos e estratégicos dos Estados Unidos e da Europa. Há mais de uma década, analistas de estratégia, diplomatas americanos e europeus, especialistas em relações internacionais, especialistas em Rússia vinham alertando que a OTAN precisava respeitar a área de influência russa. Os governos — não importa se republicanos ou democratas, nos EUA; social democratas ou conservadores na Europa — não ouviram esses alertas e sancionaram os avanços da OTAN sobre países na fronteira da Rússia.

Putin vem reclamando do avanço da OTAN sobre sua região geopolítica de interesse, desde que tomou o poder, em 1999. Em 2007, em Munique, no encontro anual sobre política de segurança, ele disse que a OTAN nunca aceitou a realidade geopolítica após o fim do bloco criado pelo Pacto de Varsóvia, que era a contrapartida do bloco soviético à OTAN. Para Putin o Ocidente traiu os compromissos assumidos no fim do Pacto de Varsóvia que garantiam que a OTAN não avançaria sobre as regiões de fronteira da Rússia. Ele disse que a expansão da OTAN representa uma séria provocação que reduzia a confiança nas relações multilaterais. Basta ver o mapa para entender o ponto de Putin. Ele queria manter um cordão de neutralidade entre a Rússia e as potências europeias. A OTAN avançou sobre um de seus flancos, admitindo como membros Letônia, Estônia e Lituânia. Países que, hoje, pedem a intervenção da aliança militar contra a Rússia. O autocrata do Kremlin nunca se conformou com este avanço sobre suas fronteiras. Belarus tem um governo sob influência russa. A Ucrânia é o último território sensível nesta adversariedade entre a Rússia e a OTAN. A Crimea, posição estratégica no Mar Negro foi anexada pela Rússia em 2014. A Georgia, desde a invasão está sob a influência geopolítica russa.

No mundo multipolar cada potência defende sua área de influência e deveria respeitar a área de influência das outras potências. Desde a crise dos mísseis em Cuba, em 1962, no auge da Guerra Fria, a zona de influência dos Estados Unidos não é seriamente contestada por outra potência. A China não apoia a invasão da Ucrânia, mas concorda com a tese de Putin de respeito às respectivas zonas de influência. O governo chinês tem mostrado irritação ao que vê como desrespeito à sua área de influência no Mar da China pelo Japão, aliado dos Estados Unidos. A China quer uma solução negociada, porque ela implicaria um pacto de não interferência nas respectivas zonas de influência geopolítica.

No quadro multipolar, no qual não há espaço para uma nação hegemônica, o conflito assume duas formas. No plano da região de influência de cada potência, houve o ressurgimento do uso de armas convencionais e ações de guerra regionalizadas e localizadas. No plano global, como não é imaginável o recurso às armas nucleares, o recurso é a ciberguerra, a guerra cibernética, que está sendo usada. Biden se referiu explicitamente a ela em seu pronunciamento. O recurso às guerras convencionais é cruel e perigoso, por isso precisamos de uma séria revisão das instituições multilaterais para que assegurem a multipolaridade, respeitem as zonas de influência e reduzam a frequência de ações de guerra. A ONU e o Conselho de Segurança já mostraram que são inócuos. Um redesenho nesta direção, com salvaguardas mais efetivas comtra ações de agresão unilaterais, poderia talvez gerar um novo equilíbrio da ordem global.

No quadro institucional vigente, em conflito envolvendo potências nucleares, os únicos recursos são a diplomacia, sanções econômicas e retaliações cibernéticas. A diplomacia está emperrada. Sanções econômicas nunca funcionaram e a Rússia tem capacidade de retaliação, no campo da energia e da produção de grãos. A única coisa que se pode esperar é que as nações ocidentais se disponham a negociar e convençam Putin a um cessar-fogo. Mas, é difícil ver como provável uma saída negociada que não contemple uma nova ordem para a Europa que garanta à Rússia a neutralidade dos países da OTAN em sua fronteira e que a Ucrânia não seja incorporada. A situação no momento é de muita incerteza, cheia de “se isso, então aquilo” e de “talvez isso ou aquilo”. De certo, há apenas o domínio político de Putin no plano doméstico, o xeque-mate na Ucrânia e o fato de que os governantes ocidentais decidirão suas ações com um olho em suas aflições internas e outro no tabuleiro europeu.

Fonte: https://sergioabranches.com.br

ONDA QUE VAI, ONDA QUE VEM

ONDA QUE VAI, ONDA QUE VEM
Fernando Albrecht

Há uma febre saudosista no ar, mercê destes tempos bicudos de vaca não reconhecer terneiro. Tudo que vemos e tocamos é produto de modernismo sem alma, com DNA de petróleo, aquela coisa viscosa que mata tudo em que repousa.

Temos saudades do sanduíche aberto de respeito, da Grapette e da Laranjinha, do perfil com molho do Matheus, da picanha do Rancho Alegre, da pizza do El Molino, do croquete da Caverna do Ratão, do sanduíche aberto dos bar-chopes, dos filmes, dos sapatos Samello, Clark e Terra. Até das fedorentos camisas Volta ao Mundo e das blusas banlon, da capa Tropeiro e das gurias que ficaram na frente da Sloper na Rua da Praia.

Saudades dos cinemas Cacique, Imperial, Guarani e Rex. Dos filmes com finais felizes, sem ranço social. Das bombenieres que vendiam Bastão de Leite com sabor de amêndoas torradas, do Bauru, do cachorro quente do Zé do Passaporte e, até, do pastel da Rodoviária.

Bons tempos em que viajar para a praia, pela antiga RS 030, com cartão de controle de velocidade em Gravataí, viagem que era metade da diversão com direito ao sonho de Santo Antônio da Patrulha. Das lagoas entre às dunas de Tramandaí, dos meninos gritando “puxá puxá!”, do chope da Taberna do Willy, das noites com o coaxar dos sapos pedindo chuva, dos vaga-lumes que a criançada botava em vidrinhos, dos pés-de moleque. Do cheiro da maresia – que se sentia a quilômetros da praia-, de curtir os carros entrando no braço morto de Imbé. Do cheiro de sardinha e do churrasco assado lentamente. Da vida entre o mar e o bar, das noites enluaradas sem vento que queríamos eternas, segurando a mão da namorada, dos bailes de rosto colado sob o olhar severo dos pais da moça, dos ataques furtivos entre a calçada e algum canto da casa, carícias que nos enlouqueciam e fariam as mães desmaiarem, se vissem a cena.

Éramos jovens então. O mundo não era hostil, e as pessoas davam bom-dia. O ranço ideológico era coisa de mal-amados e dos que nasciam de mal com o mundos. Tínhamos tristezas também, mas o tempo as curava. Pela frente, a esperanças; para trás, a desesperança. O tempo passou. E as esperanças ficaram para trás.

Fonte: http://fernandoalbrecht.blog.br
Nossos fracassos são, às vezes, mais frutíferos que os êxitos. (Henry Ford, industrial americano, 1844-1929)

LUGARES

BERNA - SUÍÇA
TORRE DO RELÓGIO

CESARIA EVORA & BONGA

SODADE


FRASES ILUSTRADAS

sábado, 26 de fevereiro de 2022

SLIDES SOCIAIS

SLIDES SOCIAIS
Josimar Melo

Fotos de viagem em redes sociais unem duas perversões: exibicionismo e voyeurismo

As novas gerações escaparam deste flagelo: sessões de slides dos retornados de suas férias.

A própria palavra "slide" —do inglês, com pronúncia idem— caiu em desuso. Em português seria diapositivo: foto em filme transparente que se colocava no projetor para exibir em telas grandes. Muito útil em aulas ou palestras; um martírio na parede do vizinho, do tio, do cunhado, acompanhado da entusiasmada narração dos que viveram, ou fingiam viver, aquelas alegrias.

As gerações atuais escaparam dos slides pós-viagem, mas não da sua essência sádica. Esta apenas se transferiu para a tela do celular, no mundo de fantasia das redes sociais.

Há uma vantagem nos novos tempos: ninguém precisa se submeter ao festival de ostentação, basta ignorar a rede social. A parte ruim é que é tudo instantâneo.

Mas... quem não olha as redes? São o ringue perfeito para o encontro de duas popularíssimas perversões
humanas: o exibicionismo e o voyeurismo. Todos querendo ser vistos no centro do picadeiro, e ao mesmo tempo, todos xeretando a vida alheia.

Antes este momento acontecia no escurinho da casa do vizinho, só depois da viagem; hoje, é à luz do dia, e o dia todo.

Além de detestar exibir minha vida pessoal, mais ainda fuxicar a de terceiros, eu tenho um bom motivo para evitar este show de horrores: sou um péssimo fotógrafo, seguramente o pior que eu conheço.

E, como a ostentação requer imagens que provoquem acessos de inveja e ódio em quem nos segue (e, se seguem, os merecem), não é possível fazê-lo com imagens pavorosas como as que, apesar de a câmera do celular se encarregar de praticamente tudo, eu perpetro (apenas para meus arquivos particulares).

A bem da verdade, alguém famoso conseguiu me superar —e em público— na incompetência fotográfica. Foi a apresentadora de TV americana (e também editora de revistas e livros) Martha Stewart. Em seus programas e publicações sobre culinária, arrumação de mesas, decoração de festas, tudo é lindo, de acabamento impecável.

Mas uns dez anos atrás ela resolveu entrar no Twitter. E, meio sem noção (pela idade —hoje tem 80 anos— ou por falta de assessoria que uma celebridade costuma ter), começou a publicar fotos do que comia. Comoção na internet: como é possível que ela, justo ela, exibisse fotos tão horríveis que chegavam a ser nojentas?

Por estas e outras é que eu não caio na armadilha. Sei que fotografar direito, até para não profissionais, requer certo talento e intuição que não tenho. Cito uma prova, embora pareça covardia, por se tratar de um fotógrafo gigantesco.

Estava passeando em Nova York em 1990 com Sofia Carvalhosa, gravidona da minha filha, hoje cantautora, Marina Melo, o amigo Ronaldo Bastos, compositor que faz parte da história da nossa música, e à época sósia do outro companheiro de passeio, o fotógrafo Bob Wolfenson.

De repente Bob disse "vou fotografar vocês". Pegou minha "câmera" (daquelas de plástico, descartáveis); acionou o "flash" (uma luzinha de nada, em pleno dia luminoso); começou a andar de costas, voltado para nós, e fez um clique. UM ÚNICO CLIQUE.

Semanas depois, filme revelado, vimos a foto. Neste único clique, estávamos quase no ar, leves, soltos. Zero ostentação: legítima felicidade, captada em cada milímetro do passo acima do solo, em cada ruga de alegria no olhar.

Jamais conseguiria fazer isto, nem que treinasse a vida toda. É por isto que não me chamo Bob; ele é tão bom que faz de equipamento seu próprio corpo: o olho atilado, o dedo preciso, sem falar da cabeça brilhante (no caso, refiro-me à sua testa exuberante, mais eficaz que qualquer refletor de estúdio...).


Fonte: Folha de S.Paulo
Errar é humano. Culpar outra pessoa é política. (Hubert H. Humphrey, político americano, 1911-1978)

LUGARES

MADRI - ESPANHA
Catedral de Santa Maria a Real de Almudena

A MÚSICA SEM DEDOS

A MÚSICA SEM DEDOS
Ruy Castro

Um LP com o plástico da capa cheio de impressões digitais leva à captura de um vigarista

Deu no UOL. Um vigarista italiano, Roberto Vivaldi, 69 anos, condenado por crimes financeiros e foragido de seu país havia 25 anos, foi descoberto na Venezuela, onde vivia de vender discos de vinil pela internet. A Interpol já estava de olho nele, mas não tinha como comprovar sua identidade. O incremento desse comércio pela pandemia, no entanto, trouxe novas informações, e o chefe da investigação Alessandro Gallo teve uma ideia: encomendar um disco a Vivaldi. Fã de bossa nova, pediu-lhe "Garota de Ipanema", com Antonio Carlos Jobim.

Como Tom nunca gravou um disco com esse título, Leonardo Rodrigues, autor da reportagem, deduziu, a meu ver corretamente, que se tratava do LP com a trilha sonora do filme "Garota de Ipanema", lançado pela Philips em 1967. O nome de Tom aparece em primeiro lugar na capa, seguido pelo de outros artistas que se ouvem no filme: Nara Leão, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Elis Regina etc. É um dos discos brasileiros mais procurados no mercado internacional de usados.

Gallo recebeu a encomenda e pôs a tecnologia em busca das impressões digitais no plástico que envolvia a capa —capa esta que, com a bela Marcia Rodrigues, de biquíni, correndo em direção à câmera de David Drew Zingg, deve ter sido muito manuseada por todos a quem o disco já pertencera. E, entre as incontáveis marcas de dedos, lá estavam as digitais de Vivaldi. A polícia venezuelana localizou seu endereço, abotoou-o e mandou-o para a Itália.

Isso me preocupou. Por décadas e décadas, milhares de LPs já passaram por minhas mãos. A inúmeros dei destino incerto: doei-os, vendi-os, troquei-os, e lá se foram para outras mãos e outros mundos, com minhas digitais. E se, de repente, varejadas pela Interpol, elas forem confundidas com as de alguém que degolou a avó ou é seguidor de Jair Bolsonaro?

O jeito é aderir ao streaming. Ele é a música sem dedos, à prova de flagras.

Fonte: Folha de S. Paulo

FRASES ILUSTRADAS

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

ÔMICRON: FIM DA PANDEMIA?

ÔMICRON REPRESENTA O FIM DA PANDEMIA DE COVID OU SERÁ SÓ MAIS UMA VARIANTE?
Drauzio Varella

Infelizmente podem surgir cepas mais contagiosas ainda, indiferentes à imunidade que adquirimos a duras penas

E agora? A ômicron será apenas mais uma das variantes a nos infernizar ou apontará para o fim da epidemia brasileira?

Essa pandemia nos ensinou que prever o futuro é tarefa inglória. Você, caríssima leitora, lembra que no início de 2020, quando nem havia vacinas, as previsões falavam de um pico de infecções e mortes, seguido da queda brusca do número de casos?

Enquanto aguardávamos o tal pico, o vírus acumulava mutações em silêncio que dariam origem a variantes mais contagiosas, como a delta, que se espalhou pelo mundo deslocando as anteriores. No final do ano passado diminuiu a procura por leitos hospitalares e a mortalidade caiu. Vários países afrouxaram as medidas de prevenção, para voltar atrás depois da euforia de fim de ano que ajudou a disseminar uma variante nova, muito mais contagiosa do que as anteriores: a ômicron.

Em mais de 50 anos de medicina, nunca vi uma virose se disseminar com tamanha rapidez. Ela, que era responsável por cerca de 1% dos casos de Covid ao redor do mundo, em duas semanas atingiu a marca de 50%. Em dois meses tinha espantado a variante delta, para se tornar presente em quase 100% dos casos. Virologista nenhum ousaria prever o aparecimento de um vírus que se disseminaria pelo mundo nessa velocidade.

O sucesso da ômicron se deve ao número de mutações sofridas. São cerca de 50, várias das quais em estruturas do vírus que funcionam como alvos para as vacinas. Com essas características, a vacinação e a doença prévia causada por outras variantes não foram capazes de proteger contra uma nova infecção. Não obstante, conseguiram reduzir a gravidade da doença.

Na fase em que nos encontramos podemos pensar em dois cenários: um pessimista, o outro não. No primeiro, surgirão novas variantes ainda mais contagiosas e, eventualmente, mais agressivas que perpetuarão nossas agruras sabe-se lá por quantos anos. O segundo acena para o fim da epidemia graças à vacinação somada ao grande número de pessoas imunizadas pela própria disseminação da ômicron.

Razões para pessimismo há muitas. No fim do ano passado, os virologistas imaginavam que se surgisse uma nova variante, seria derivada da delta, falavam até numa "delta plus" que teria dificuldade para infectar quem já tivera a doença causada pela variante-mãe. Ninguém esperava uma nova cepa com características tão diversas que os anticorpos produzidos contra a delta não oferecessem proteção.

Se a ômicron emergiu de forma inesperada, não estamos livres de assistir à emergência de uma ou mais variantes com mutações que modifiquem de tal forma outros componentes da estrutura viral que as tornem capazes de nos fazer voltar ao tempo em que não havia vacinas nem pessoas previamente infectadas por outras cepas.

A ômicron não surgiu da noite para o dia, deve ter provocado inúmeras infecções antes de ser detectada.

Quem pode assegurar que neste momento não haverá novos mutantes circulando anonimamente em algum canto do planeta? Essa possibilidade reforça a necessidade de vacinar e de instalar centros de epidemiologia genômica, capazes de sequenciá-los rapidamente, para obter novas vacinas.

No cenário otimista, é preciso considerar que as variantes mais contagiosas levam vantagem evolutiva na competição com as mais agressivas. Gente morta não anda por aí espalhando vírus. A ômicron predominou porque tem predileção pelo trato respiratório alto, ao contrário das anteriores que preferiam os pulmões, causando complicações mais graves.

Esse fenômeno aconteceu com a maioria das viroses respiratórias transmissíveis, que se disseminaram amplamente até surgir uma variante menos agressiva, que se tornou endêmica, isto é, presente, mas sem força para gerar epidemias com mortalidade alta.

É possível que esse seja o equilíbrio que o Sars-CoV-2 procura estabelecer com os seres humanos: sobreviver sem desrespeitar a vida do hospedeiro.

Seremos imunizados por uma combinação de vacinas com as infecções pela ômicron? Esse é meu palpite, prezado leitor, mas posso estar errado, caso surjam variantes mais contagiosas ainda, indiferentes à imunidade que adquirimos a duras penas. Como nos ensinou Charles Darwin, a seleção natural é imprevisível.

Fonte: Folha de S.Paulo
A vida é um longo processo de cansaço, cada vez mais intenso. (Samuel Butler, poeta inglês, 1612-1680)

LUGARES

CONSTANÇA - ALEMANHA
Constança é uma cidade universitária no sul da Alemanha e a maior cidade nos arredores do lago de Constança, na região administrativa de Friburgo, estado de Baden-Württemberg. Nela encontram-se duas universidades, a Universidade de Constança e a Universidade de Ciências Aplicadas. Nesta cidade realizou-se, de 1414 a 1418, o Concílio de Constança, que resultou no fim do cisma papal.

MR. MILES


A FRAGILIDADE DE VIVER
Prezado mr. Miles: acabo de voltar da Itália e fiquei muito impressionado com as ruínas de Pompéia. Minha mulher e alguns amigos, porém, não gostaram nada do passeio, porque acham fora de propósito fazer turismo onde milhares de pessoas morreram. Qual é a sua opinião sobre o assunto?
Clóvis Barbieri, por email

Well, my friend: como todos sabem, nosso pequeno e contraditório planeta é uma obra que não pára de reinventar-se. Unfortunately, quase todas as atrações do mundo contam, a partir de sua própria existência, a história de escravidão, mortes, tragédias e subjugamentos. Entre elas, for instance, as Pirâmides do Egito, a Muralha da China, as ruínas de Machu Picchu and so on.

Não entendo o fato de visitar esses lugares como profanação. Deles, sometimes, conseguimos aprender. A eles podemos reverenciar ou temer. Há, besides, uma certa curiosidade perversa que nos motiva a percorrer áreas que vimos serem assoladas por catástrofes diversas. Estão sempre lotados os tours que percorrem os bairros destruídos pelo furacão Katrina, em New Orleans. E assim estiveram os mirantes sobre os escombros do World Trade Center, em Nova York.

My old friend, mr. Paul Spot, músico e comentarista esportivo, esteve recentemente em Cu Chi, 60 quilômetros ao norte de Ho Chi Min, no Vietnã. Ali, segundo me contou, existia um complexo de túneis que escondia soldados e civis durante a guerra que dilacerou aquele pais. Milhares de pessoas perderam sua vida dentro deles, durante bombardeios aéreos. Hoje, um pequeno trecho restaurado pode ser visitado pelos turistas que pagam 25 dólares, incluindo o transfer desde a capital. Os guias, quase sempre uniformizados, fazem questão de não mostrar qualquer rancor quanto ao passado. Permitem até que, ao final do percurso e por um dólar extra, o visitante possa experimentar a sensação de dar um tiro com um fuzil AK-47, o preferido dos vietcongs durante o embate (which was amazing, according to Paul).

Eu mesmo, my friend, estive, há dois ou três anos, em um infâme tour por Chernobyl, na Ucrânia. Há inúmeros deles que partem diariamente de Kiev para a usina nuclear cuja explosão — 400 vezes mais radioativa do que a bomba de Hiroshima —, causou cerca de 4000 mortes e envenenou uma região inteira. O tour inclui uma visita à cidade de Pripyat, hoje sem nenhum habitante, uma visita ao reator 4 (ou ao que dele se poder ver) e à outras evidências da catástrofe ocorrida em 1986. Cada visitante ganha um contador geiger para controlar o nível de radiação em seu corpo (porque ela continua presente) e o passeio inclui, oh my God, um lanche no local. A agencia de turismo garante, ao menos, que nenhum dos ingredientes do pequeno repasto foi plantado ou criado na região.

As you see, Clóvis, certas visitas — das quais, sem nenhuma sombra dúvida, o complexo de campos de concentração de Auschwitz-Birkenau, próximo a Cracóvia, é a mais forte e pungente —, fazem de Pompéia uma dor tão antiga que é como se ela nem mesmo tivesse existido. Visitá-la, however, faz com que compreendamos a condição frágil e transitória da vida. Que, só por isso, já merece ser aproveitada como a melhor das viagens.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

OS DEFICIENTES CÍVICOS

OS DEFICIENTES CÍVICOS
Milton Santos

Em tempos de globalização, a discussão sobre os objetivos da educação é fundamental para a definição do modelo de país em que viverão as próximas gerações.

Em cada sociedade, a educação deve ser concebida para atender, ao mesmo tempo, ao interesse social e ao interesse dos indivíduos. É da combinação desses interesses que emergem os seus princípios fundamentais e são estes que devem nortear a elaboração dos conteúdos do ensino, as práticas pedagógicas e a relação da escola com a comunidade e com o mundo.

O interesse social se inspira no papel que a educação deve jogar na manutenção da identidade nacional, na idéia de sucessão das gerações e de continuidade da nação, na vontade de progresso e na preservação da cultura. O interesse individual se revela pela parte que é devida à educação na construção da pessoa, em sua inserção afetiva e intelectual, na sua promoção pelo trabalho, levando o indivíduo a uma realização plena e a um enriquecimento permanente. Juntos, o interesse social e o interesse individual da educação devem também constituir a garantia de que a dinâmica social não será excludente.

Em todos os casos a sociedade será sempre tomada como um referente, e, como ela é sempre um processo e está sempre mudando, o contexto histórico acaba por ser determinante dos conteúdos da educação e da ênfase a atribuir aos seus diversos aspectos, mesmo se os princípios fundamentais permanecem intocados ao longo do tempo. Foi dessa forma que se deu a evolução da idéia e da prática da educação durante os últimos séculos, paralelamente à busca de formas de convivência civilizada, alicerçadas em uma solidariedade social cada vez mais sofisticada.

As modalidades sucessivas da democracia como regime político, social e econômico levaram, no após guerra, à social-democracia. A história da civilização se confundiria com a busca, sempre renovada, e o encontro das formas práticas de atingir aqueles mencionados princípios fundamentais da educação, sempre a partir de uma visão filosófica e abrangente do mundo.

Esse esforço, para o qual contribuíram filósofos, pedagogos e homens de Estado, acaba por erigir como pilares centrais do sistema educacional: o ensino universal (isto é, concebido para atingir a todas as pessoas), igualitário (como garantia de que a educação contribua a eliminar desigualdades), progressista (desencorajando preconceitos e assegurando uma visão de futuro).

Daí, os postulados indispensáveis de um ensino público, gratuito e leigo (esta última palavra sendo usada como sinônimo de ausência de visões particularistas e segmentadas do mundo) e, dessa forma, uma escola apta a formar concomitantemente cidadãos integrais e indivíduos fortes. Aliás, foram essas as bases da educação republicana, na França e em outros países europeus, baseada na noção de solidariedade social exercida coletivamente como um anteparo, social e juridicamente estabelecido, às tentações da barbárie.

A globalização, como agora se manifesta em todas as partes do planeta, funda-se em novos sistemas de referência, em que noções clássicas, como a democracia, a república, a cidadania, a individualidade forte, constituem matéria predileta do marketing político, mas, graças a um jogo de espelhos, apenas comparecem como retórica, enquanto são outros os valores da nova ética, fundada num discurso enganoso, mas avassalador.

Em tais circunstâncias, a idéia de emulação é compulsoriamente substituída pela prática da competitividade, o individualismo como regra de ação erige o egoísmo como comportamento quase obrigatório, e a lei do interesse sem contrapartida moral supõe como corolário a fratura social e o esquecimento da solidariedade.

O mundo do pragmatismo triunfante é o mesmo mundo do “salve-se quem puder”, do “vale-tudo”, justificados pela busca apressada de resultados cada vez mais autocentrados, por meio de caminhos sempre mais estreitos, levando ao amesquinhamento dos objetivos, por meio da pobreza das metas e da ausência de finalidades. O projeto educacional atualmente em marcha é tributário dessas lógicas perversas. Para isso, sem dúvida, contribuem: a combinação atual entre a violência do dinheiro e a violência da informação, associadas na produção de uma visão embaralhada do mundo; a perplexidade diante do presente e do futuro; um impulso para ações imediatas que dispensam a reflexão, essa cegueira radical que reforça as tendências à aceitação de uma existência instrumentalizada.

É nesse campo de forças e a partir dessa caldo de cultura que se originam as novas propostas para a educação, as quais poderíamos resumir dizendo que resultam da ruptura do equilíbrio, antes existente, entre uma formação para a vida plena, com a busca do saber filosófico, e uma formação para o trabalho, com a busca do saber prático.

Esse equilíbrio, agora rompido, constituía a garantia da renovação das possibilidades de existência de indivíduos fortes e de cidadãos íntegros, ao mesmo tempo em que se preparavam as pessoas para o mercado. Hoje, sob o pretexto de que é preciso formar os estudantes para obter um lugar num mercado de trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo o espaço da escola, enquanto o saber filosófico é considerado como residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio prazo, ameaça a democracia, a República, a cidadania e a individualidade. Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um simples processo de treinamento, a uma instrumentalização das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade.

Daí, a difusão acelerada de propostas que levam a uma profissionalização precoce, à fragmentação da formação e à educação oferecida segundo diferentes níveis de qualidade, situação em que a privatização do processo educativo pode constituir um modelo ideal para assegurar a anulação das conquistas sociais dos últimos séculos. A escola deixará de ser o lugar de formação de verdadeiros cidadãos e tornar-se-á um celeiro de deficientes cívicos.

É a própria realidade da globalização -tal como praticada atualmente- que está no centro desse debate, porque com ela se impuseram idéias sobre o que deve ser o destino dos povos, mediante definições ideológicas sobre o crescimento da economia, como a chamada competitividade entre os países. As propostas vigentes para a educação são uma consequência, justificando a decisão de adaptá-la para que se torne ainda mais instrumental à aceleração do processo globalitário. O debate deve ser retomado pela raiz, levando a educação a reassumir aqueles princípios fundamentais com que a civilização assegurou a sua evolução nos últimos séculos -os ideais de universalidade, igualdade e progresso-, de modo que ela possa contribuir para a construção de uma globalização mais humana, em vez de aceitarmos que a globalização perversa, tal como agora se verifica, comprometa o processo de formação das novas gerações.

Fonte: revistaprosaversoearte.com

Os homens vivem do esquecimento, as mulheres das recordações. (Thomas S. Eliot, poeta inglês, 1888-1965)

LUGARES

FRIBURGO - SUÍÇA
Friburgo é uma comuna suíça do cantão de Friburgo às margens do rio Saarne ou Sarine. Em alemão, ela carrega também o nome de Freiburg im Uechtland para distingui-la dos outros Friburgos. O nome completo em francês Fribourg en Nuithonie é pouco conhecido. Wikipédia

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

 MODOS DE ASSISTIR
--- Gostaria de saber se o verbo assistir, quando se refere à televisão, é transitivo direto ou indireto. Devo dizer: assistir televisão ou assistir à televisão? Esta é uma dúvida que tenho, e até agora não encontrei esse exemplo nas gramáticas que consultei. Neila D. Oliveira, Tatuí/SP

--- Gostaria de esclarecimento quanto à regência do verbo assistir, em seus dois sentidos, com uso ou não de crase. Edson Luiz Zeppelini, São Paulo/SP

No sentido de “ajudar, prestar assistência ou socorro, tratar”, o verbo assistir é transitivo direto, isto é, seu complemento não é precedido por preposição:
  • Assistiu a doente assim como assiste muitas pessoas necessitadas.
  • Recordo-me que o padre assistia o bispo no desempenho de seu cargo.
Com o significado de “ver, presenciar, estar presente, observar, acompanhar com atenção”, ele é transitivo indireto, com complemento preposicionado:
  • Vamos assistir aos jogos de tênis.
  • Assistimos a uma conferência de nível internacional.
  • V. Exa. vai assistir à ópera?
Na linguagem coloquial brasileira, no entanto, ouve-se (e também se lê, até em bons autores) habitualmente o verbo sem a preposição: assistir filme/ a minissérie/ os jogos. No caso da televisão, valem as duas regências, já consagradas pelo uso (e anotadas por Celso Luft): assistir à TV ou assistir TV:
  • Aqui em casa todos gostam de assistir (à) televisão.
  • Sempre assistimos a (à) TV Futura.
Nesta segunda acepção, usa-se a ele/a ela (e não “lhe”) quando o complemento é um pronome pessoal:
  • Não posso dizer como andam as corridas de touros, pois não assisto a elas há muito tempo.
--- Na frase “Tais palestras foram assistidas por um público médio de 300 participantes” há erro? tendo em vista que o verbo assistir, nesse caso, é transitivo indireto [acho que não se pode fazer voz passiva com verbo trans. indireto]. Paulo Roberto Ribeiro, Lavras/MG
Nada de erro! Embora transitivo indireto, ele admite a voz passiva. Pode-se afirmar o mesmo de obedecer (a) e proceder (a) – uma reminiscência de quando eram verbos transitivos diretos (vale lembrar que a regência é muito dinâmica, mutável). Assim sendo, temos:
  • A final do vôlei foi assistida por uma multidão.
  • As leis nem sempre são obedecidas.
  • Procedidas as alterações, publicou-se o decreto.
--- Professora: assiste razão à advogada? Ou a crase está equivocada pelo fato de que, no caso, o verbo assistir é transitivo direto? Márcio Schiefler Fontes, Florianópolis/SC
O acento indicativo de crase foi bem colocado. No sentido de “caber, competir, pertencer” o verbo assistir é transitivo indireto, ou seja, algo assiste a alguém:
  • Razão assiste à advogada.
  • Assiste razão ao juiz. 
  • Assiste-lhe o direito de ficar calado. 
  • Não lhes assiste nenhum direito.
Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

ELES SÓ PENSAM NAS ELEIÇÕES

ELES SÓ PENSAM NAS ELEIÇÕES
Pedro Hallal

Enquanto isso, o povo rema contra a maré todos os dias

A distância entre as prioridades de Brasília e as prioridades do resto do Brasil não é novidade para ninguém. Mas nesse ano de 2022, talvez estejamos vivendo o momento de maior distanciamento entre os interesses de uma minoria (políticos) e os interesses do povo brasileiro.

No meio político, só se fala nas eleições de 2022. Além disso, a grande maioria das ações dos pré-candidatos são pensando no seu voto, e não na sua vida. Pesquisas de intenções de votos são tratadas como prioridade, e mudam o comportamento dos pré-candidatos e de seus partidos. Os mais bem posicionados no cenário eleitoral já começam a enfrentar a barganha por cargos e benefícios futuros em troca de apoio.

Enquanto isso, entre o povo, as prioridades são completamente diferentes:
  • O Brasil voltou a frequentar o mapa mundial da fome, e muitas famílias têm como principal prioridade garantir comida na mesa para seus filhos.
  • O poder de compra dos brasileiros foi devastado durante essa pandemia. Comprar carne virou sinônimo de riqueza e os preços nos supermercados estão cada vez mais distantes do salário dos brasileiros.
  • Milhões de famílias brasileiras estão em busca de emprego, enquanto o país enfrenta um dos maiores percentuais de desemprego da sua história recente.
  • Aqueles que conseguiram comprar um carro, ou uma moto, têm dificuldades de utilizá-los, pois o preço do combustível é incompatível com sua renda.
  • Os brasileiros cujos negócios ou o lazer dependem do câmbio estão "lascados", visto que o preço do dólar é o mais alto desde o surgimento do Real.
  • Com a chegada da ômicron, os brasileiros, que já estavam convivendo com uma realidade menos assustadora da pandemia de Covid-19, voltaram a conviver com mortes diárias na casa de três dígitos.
  • Diariamente, os brasileiros recebem uma enxurrada de notícias falsas, lançando dúvidas sobre a segurança e efetividade das vacinas contra Covid-19, e insistindo em tratamentos fajutos como melhor maneira de enfrentar a pandemia.
  • Mães e pais vivem dilemas diários, sobre levar ou não os filhos para a escola, sobre vacinar ou não suas crianças, apavorados com a pandemia e com as notícias falsas que circulam diariamente sobre os imunizantes, muitas delas vindas dos próprios médicos, que abandonaram de vez seu juramento e agora fazem política em seus consultórios.
  • Milhares de famílias brasileiras estão devastadas com a tragédia de Petrópolis, e as prioridades incluem voltar a ter um lugar para morar, encontrar os familiares desaparecidos ou viver o luto por aqueles que perderam a vida.
  • Alguns brasileiros ousam estar preocupados com a crise entre Rússia e Ucrânia, ainda mais quando o Brasil é um pária nas relações internacionais.
  • Milhões de brasileiros enfrentam problemas decorrentes da pandemia, que variam de sofrimento psíquico a dificuldades de aprendizagem. Milhares de jovens estão tendo que aprender a viver órfãos, e crianças estão tendo que se readaptar à escola.
  • Milhões de brasileiros convivem com o que se convencionou chamar de Covid-19 de longa duração, com sintomas que persistem, mesmo após a infecção.
Poderia aqui listar muitas outras prioridades das pessoas no Brasil. Mas parece que essas prioridades agora não são prioridades. Os políticos acham que o povo pode se dar ao luxo de apertar "pause" em suas vidas e voltar a lidar com os problemas somente depois das eleições.

Mas isso não é verdade.

O povo brasileiro precisa de um projeto para o Brasil.

O povo brasileiro precisa de um país que funcione em tempo integral, e não somente em períodos em que as eleições não roubam a prioridade.

E o povo brasileiro somente terá isso quando entender a força que tem.

Fonte: Folha de S. Paulo
Minha missão é matar o tempo, e a dele, por sua vez, é me matar. Estamos bem entre assassinos. (Emile M. Coran, ensaísta romeno)

LUGARES

BATALHA - PORTUGAL
A Batalha é uma vila portuguesa do distrito de Leiria, na província da Beira Litoral, integrando a Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, nο Centro de Portugal, com cerca de 8 000 habitantes. É sede do município da Batalha com 103,42 km² de área e 15 805 habitantes, subdividido em 4 freguesias. Wikipédia

NÃO CONTE NADA A NINGUÉM E SEJA FELIZ!

NÃO CONTE NADA A NINGUÉM E SEJA FELIZ!
Por Juliana Manzato

“Que as grandes fortunas foram feitas em silêncio e a velha guarda dos bilionários às vezes é flagrada até viajando numa classe econômica. Não sei porquê, mas boa parte dos homens mais ricos que conheci tinham a camisa meio surrada e, quando tinham avião, sempre era em sociedade com amigos. E jamais entraram numa Ferrari ou sabem o que é um camarote de boate. A não ser que tenham sociedade na boate, é claro.

Um dia, perguntei a um poderoso amigo Francês por que os ricos de sua terra eram discretíssimos em relação à dinheiro, a ponto de jamais tocar no assunto e levar uma vida de classe média.

Num surto de sinceridade, meu amigo, cujas filhas só ficaram sabendo aos 30 anos que o pai tinha um avião, disse: ” Tão perigosa quanto a inveja é a capacidade de o ser humano achar que chegou ao topo. Quando ele acha que pode tudo, começa o fim.” Bruno Astuto para a GQ Brasil de dezembro, n.º 33 – Edição Especial Men Of The Year.

Minha avó já dizia, contra a inveja, o silêncio. Ninguém precisa saber da sua vida, das suas conquistas, dos caminhos que pretende seguir, dos tombos, fracassos, enfim, da sua rotina. Você não deve explicação à ninguém.

Não precisa sair por ai gritando a felicidade ou reclamando no facebook, viver a sua vida, já está de bom tamanho. Ninguém é feliz e tão bem sucedido como no facebook.

Você não precisa fazer propaganda da sua vida em uma rede social para dizer que é melhor do quê o outro. Ninguém é melhor do quê ninguém, o dinheiro faz (de conta) que umas pessoas são melhores que as outras, quanto engano.

Uma meta esse ano: Ficar mais em silêncio. Tenho à péssima mania de contar algumas conquistas e coisas bacanas para os outros. Mesmo sendo bem seletiva, descobri como poucas que a inveja não tem nome ou sobrenome, vem de quem a gente menos imagina.

Além do silêncio, a outra meta é fazer coisas acontecerem, sem ninguém perceber. Como já disse e repito, não conte a sua vida para ninguém e verá como será feliz.

É Bruno Astuto, se tem uma frase que marcou a minha vida e vai ser levada à risca agora em diante é essa:

” Tão perigosa quanto a inveja é a capacidade de o ser humano achar que chegou ao topo. Quando ele acha que pode tudo, começa o fim.”

Desejos para o ano? Pés no chão, boca fechada, olhar para frente e coração-bussola. Se a gente tem isso e saúde, não há mal que sempre vença. Que o bem prevaleça. Amém!

Fonte: https://oamor.com.br

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A POLÍTICA ESTÁ DE MAU HUMOR

A POLÍTICA ESTÁ DE MAU HUMOR
Lygia Maria

E isso até seria cômico, se não fosse trágico

Uma das piores consequências da polarização político-ideológica é a perda do senso de humor. Nem falo de piadas preconceituosas ou de baixo calão. Falo da ironia fina, dos trocadilhos, dessa atividade linguística que torna a vida mais palatável e que também nos faz pensar. Você, caro leitor, já deve ter passado por isto ultimamente: soltou um chiste inofensivo e acabou soterrado por problematizações.

Há séculos filósofos falam sobre o riso. Freud disse que o humor é um mecanismo de economia de energia psíquica: obtemos prazer, em vez de sofrer, em situações ruins. Para Nietzsche e Bataille, o humor possibilita formas de pensamento não ferrenhamente apegadas à razão: já que ela, apenas, é incapaz de lidar com o sofrimento existencial. Daí surgem as comparações entre o humor, a arte e o erotismo.

A poesia é uma erotização da linguagem, já que retira dela sua função meramente utilitária: a comunicação. Da mesma forma, o erotismo arrefece a função utilitária do sexo: a procriação. Estetizar é erotizar, e vice-versa. Os trocadilhos, os duplos sentidos, a ironia, toda essa fricção de palavras e ideias díspares causam ruídos na comunicação, mas produzem novas formas de pensar e de sentir a realidade. Por isso, o humor é uma forma do ser humano se tratar como obra de arte. Ou seja, de escaparmos da objetificação, de nos aceitarmos como falhos, incompletos, e, assim, produzir prazer físico, estético e mental.

Não é à toa, portanto, que a polarização ideológica está minando nossa capacidade de rir e de fazer rir. Cada lado tem políticos de estimação, seres perfeitos, quase deidades. Seus fiéis seguidores viram sacerdotes à caça de pecados não apenas dos inimigos, mas dos próprios pares. Claro que o humor não cabe nisso. Afinal, com ele, ressaltamos nossa condição mais humana e menos divina, percebemos nossas contradições, idiossincrasias, e essa postura é um perigo para quem se vê como detentor da verdade e da bondade.

Fonte: Folha de S. Paulo
Fez o melhor que podia — é porque não foi bom o bastante. (Arthur Koestler)

LUGARES

ÓBIDOS - PORTUGAL
Óbidos é uma vila e município do Distrito de Leiria, Portugal. A cidade propriamente dita tem aproximadamente 3100 habitantes. A população do município em 2011 era de 11.772, em uma área de 141,55 quilômetros quadrados.

ROMANCE FORENSE

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Charge de Gerson Kauer

TEST DRIVE SEXUAL

Uma moça envia um e-mail para um grande jornal pedindo dicas sobre "como arrumar um marido rico". A mensagem vai parar no computador do editor de economia.

Escreve ela: "Sou uma garota linda de 25 anos, maravilhosamente linda, bem articulada e com classe. Estou querendo me casar com alguém que ganhe no mínimo R$ 500 mil por ano. Asseguro fidelidade conjugal. Tem algum homem que ganhe esse dinheiro, ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas? Qual a estratégia correta?".

E assinou: "Raphaella S."

Mais inacreditável que o pedido da moça é a resposta do jornalista, muito inspirado.

"Li sua consulta, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação. Primeiramente, eu ganho justamente R$ 500 mil por ano. Portanto, não estou tomando o seu tempo à toa... Mas, visto da perspectiva de um homem como eu (que tem os requisitos que você procura), o que você oferece é um péssimo negócio.

Deixando as firulas de lado, o que você sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas: você entra com sua beleza física e o homem entra com o dinheiro. Mas há um problema. Com toda certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabará, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará aumentando. Assim, em termos econômicos, você é um ativo sofrendo depreciação e eu sou um ativo rendendo dividendos. E você sofrerá uma depreciação progressiva e acelerada. Você tem 25 anos hoje e, admito, deve continuar linda pelos próximos cinco ou dez anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando você se comparar com uma foto de hoje, verá que virou um caco. Isto é, hoje você está em 'alta', na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada".

O jornalista usa então o linguajar de Wall Street: "Quem a tiver hoje deve mantê-la como 'trading position' (posição para comercializar) e não como 'buy and hold' (compre e retenha), que é para o quê você se oferece...Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um 'buy and hold') com você não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim! Assim, em termos sociais, um negócio razoável a se cogitar é namorar".

E logo vem o arremate: "Para certificar-me do quão 'articulada, com classe e maravilhosamente linda' seja você, eu, na condição de provável futuro locatário dessa 'máquina', quero tão somente o que é de praxe: fazer um 'test drive' antes de fechar o negócio..."

No fecho, a sutil pergunta:

"Podemos marcar?"...

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

AS MÁGOAS DO LULA

by Gilmar Fraga
desenhista gaúcho
AS MÁGOAS DO LULA
José Horta Manzano

Muita gente, inclusive este escriba, considera que Bolsonaro tem uma visão distorcida do que sejam relações humanas. Confunde afinidades pessoais com relação entre nações. Acredita que o relacionamento do Brasil com países estrangeiros está irremediavelmente vinculado às relações pessoais que ele possa ter com os governantes desses países.

Enquanto Donald Trump era presidente dos EUA, chamava-o de amigo, nunca escondeu seu fascínio pelo personagem e mostrou claramente acreditar que as relações entre Brasil e EUA dependiam dessa “ligação carnal” entre supostos amigos. Enquanto o “amigo” esteve na Casa Branca, fez diversas visitas ao país de Tio Sam, pouco importando o pretexto para a viagem. Desde que Trump se foi, nunca mais quis saber de conversa. É verdade que não foi convidado, mas tampouco consta que tenha convidado Biden para tomar um café com pão e leite condensado no Planalto.

Foi à Rússia e disse que Putin e ele professam os mesmos valores(!). Foi à Hungria e chamou Orbán de irmão(!). Tem agido como se as relações exteriores do Brasil só funcionassem com nações comandadas por “amigos”. Essa visão redutora das relações internacionais pode servir para alimentar sua bolha de fanáticos, mas é nociva ao país.


Em artigo deste sábado, a jornalista Bela Megale conta algumas tristezas do Lula, antigo presidente do Brasil. Diz que o homem está ressentido com o comportamento de Dias Toffoli. Entre outras reclamações, está desagradado com a proximidade de Toffoli com Bolsonaro, fato que incomoda o demiurgo de Garanhuns. O Lula reclama ainda dos entraves postos por Toffoli no dia em que, ainda encarcerado, solicitou ser liberado por algumas horas para acompanhar o enterro de um irmão.

É bom lembrar que o atual ministro do STF foi advogado do PT e advogado-geral da União (AGU) durante o governo do Lula. Se hoje ocupa uma poltrona no STF, é por ter sido nomeado justamente pelo antigo presidente.

As mágoas do Lula são inquietantes. Ele demonstra estar sintonizado com Bolsonaro na mesma visão de um mundo dividido entre “os meus compadres” e os outros. Formam um par perfeito. Ao indicar Toffoli para o STF, o Lula tinha a certeza de ter “comprado” um juiz para defendê-lo fiel e incondicionalmente para o resto da vida. Essa esperança é idêntica à que Bolsonaro deposita nos pupilos alçados por ele ao STF: o “terrivelmente evangélico” e o “terrivelmente dócil”.

Ao dividir personagens políticos e magistrados entre “amigos” e “inimigos”, Lula dá mostra de agir exatamente como o capitão. A bem da verdade, ressalte-se não há que se espantar; essa faceta do ex-presidente já era conhecida. Nas diversas ocasiões em que foi a Havana louvar os bondosos irmãos Castro e à África incensar ditadores corruptos, Lula já tinha deixado evidente sua maneira de enxergar o mundo.

Entre os dois adeptos do compadrio desbragado – o Lula e o capitão –, está cada dia mais difícil separar o joio do trigo. Só se vê joio. Trigo mesmo, que é bom, anda em falta.

Fonte: brasildelonge.com
O que realmente deixa um homem lisonjeado é o fato de você o considerar digno de adulação. (Bernard Shaw)

LUGARES

ALPES - ITÁLIA

ENTRE ASPAS: EXPLOSÕES

Martha MedeirosMartha Medeiros

Não tenho nada a ver com explosões”, diz um verso de Sylvia Plath. Eu li como se tivesse sido escrito por mim. Também não faço muito barulho, ainda que seja no silêncio que nos arrebentamos.

Tampouco tenho a ver com o espaço sideral, com galáxias ou mesmo com estrelas. Preciso estar firmemente pousada sobre algo — ou alguém. Abraços me seguram. E eu me agarro. Tenho medo da falta de gravidade: solta demais me perco, não vôo senão em sonhos.

Não tenho nada a ver com o mato, com o meio da selva, com raízes que brotam do chão e me fazem tropeçar, cair com o rosto sobre folhas e gravetos feito uma fugitiva dos contos de fada, a saia rasgando pelo caminho, a sensação de ser perseguida. Não tenho nada a ver com cipós, troncos, ruídos que não sei de onde vêm e o que me dizem. Não me sinto à vontade onde o sol tem dificuldade de entrar. Prefiro praia, campo aberto, horizonte, espaço pra correr em linha reta. Ou para permanecer sem susto.

Não tenho nada a ver com boate, com o som alto impedindo a voz, com a sensualidade comprada em shopping, com o ajuntamento que é pura distância, as horas mortas desgastando o rosto, a falsa alegria dos ausentes de si mesmos.

Não tenho nada a ver com o que é dos outros, sejam roupas, gostos, opiniões ou irmãos, não me escalo para histórias que não são minhas, não me envolvo com o que não me envolve, não tomo emprestado nem me empresto. Se é caso sério eu me dôo, se é bobagem eu me abstenho, tenho vida própria e suficiente pra lidar, sobra pouco de mim para intromissões no que me é ainda mais estranho do que eu mesma.

Não tenho nada a ver com cenas de comerciais de TV, sou um filme sueco, uma comédia britânica, um erro de adaptação, um personagem que esquece a fala, nada possuo de floral ou carnaval, não aprendi a ser festiva, sou apenas fácil.

Não tenho nada a ver com igrejas, rezas e penitências, são raros os padres com firmeza no tom, é sempre uma fragilidade oral, um pedido de desculpas em nome de todos, frases que só parecem ter vogais, nosso sentimento de culpa recolhido como um dízimo. Nada tenho a ver com não gostar de mim. Me aceito impura, me gosto com pecados, e há muito me perdoei.

Não tenho nada a ver com galáxia, mato, boate, a vida dos outros, os comerciais de TV e igrejas. Meu mundo se resume a palavras que me perfuram, a canções que me comovem, a paixões que já nem lembro, a perguntas sem respostas, a respostas que não me servem, à constante perseguição do que ainda não sei. Meu mundo se resume ao encontro do que é terra e fogo dentro de mim, onde não me enxergo, mas me sinto.

Minto, tenho tudo a ver com explosões.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 20 de fevereiro de 2022

VAI TER CARNAVAL?

VAI TER CARNAVAL?
José Horta Manzano

Você sabia?

Feriado é dia em que assalariado recebe sem precisar trabalhar. Em princípio, o dispositivo se aplica a todos. No entanto, por óbvio, certas profissões e funções não podem seguir à risca. Nem todos são iguais diante dos feriados oficiais. Bombeiros, urgentistas, policiais, controladores aéreos, taxistas, cozinheiros, enfermeiros, motoristas fazem parte das exceções.

Feriados oficiais mudam com o vento e variam com o tempo. Tentar enumerar, num conjunto lógico, os feriados nacionais brasileiros é pisar terreno pantanoso. Leis, decretos, resoluções e calendários nem sempre estão em sintonia. O emaranhado de dias festivos nacionais, estaduais e municipais tem muito cipó.

Para complicar a questão, persiste entre nós o «ponto facultativo», figura singular, de perfume arcaico. Não é impossível que sua origem seja o «bank holiday» inglês. Nesses dias, o trabalho pode até ser ‘facultativo’, mas não se costuma ver ninguém batendo ponto.

Quando jovem, este blogueiro chegou a ter emprego em que era obrigatório “bater ponto” na entrada e na saída. Mas isso foi no tempo em que os bichos falavam. Não sei se o método ainda é hoje utilizado. Muito provavelmente já foi substituído por algum sistema de identificação digital, facial ou equivalente.

Salvo melhor juizo, os sete feriados nacionais oficiais estão elencados em lei de 2002. São eles: 1° janeiro, 21 abril, 1° maio, 7 setembro, 2 novembro, 15 novembro e 25 dezembro. Fora dessa lista, há os mencionados ‘pontos facultativos’, além dos dias festivos estaduais e municipais.

Achei interessante comparar as festas nacionais atuais com as de um século atrás. Em 1916, eram dez dias, três a mais que hoje. Em compensação, não se falava ainda em pontos facultativos. Conclui-se que o trabalho nesses dias era, de certo modo, proibido.

Entre os feriados de 1916, alguns ainda são comemorados. Outros desapareceram. Entre os que sumiram, estão:

24 de fevereiro
Festejava-se a promulgação da Constituição Federal de 1891. Dado que, depois dessa, já tivemos quase meia dúzia, o feriado desapareceu. Não faz sentido mudar a data a cada 15 ou 20 anos. Ou festejar todas, o que ia acabar afetando o PIB nacional.

3 de maio
Comemorava-se a descoberta do Brasil. A escolha do dia 3 de maio devia-se a um erro histórico. Aprendemos na escola que o primeiro nome dado às terras avistadas por Pedro Álvares Cabral foi Ilha da Vera Cruz. A liturgia católica consagra o 3 de maio à celebração da verdadeira cruz de Cristo, a Vera Cruz. A carta de Pero Vaz de Caminha, com a data exata, andou extraviada por uns trezentos anos. Na falta de outro indício, determinou-se que o dia do descobrimento só podia coincidir com o dia da festa religiosa. E ficou combinado de celebrar o descobrimento em 3 de maio. Hoje se sabe que foi num 22 de abril, mas a informação chegou atrasada: o feriado já tinha caído.

13 de maio
Era a festa da «extincção da escravatura». Já faz tempo que deixou de ser feriado. Talvez porque, num país de desigualdades abissais como o nosso, o sistema escravagista, no fundo, não tenha sido totalmente “extincto”.

14 de julho
Como sabem meus cultos leitores, é o dia da Tomada da Bastilha, festa nacional francesa. A comemoração foi abrasileirada, digamos assim. No Brasil, o 14 de julho passou a comemorar a liberdade e a independência dos povos americanos. De todos os povos americanos, ressalte-se, e não somente daqueles cuja ideologia presidencial bata com a de nosso presidente de turno. Também esse dia já deixou de ser festa entre nós.

12 de outubro
Era o dia do Descobrimento da América. Por coincidência, hoje é um daqueles feriados ‘informais’. Já não faz mais alusão a Cristóvão Colombo, mas a Nossa Senhora Aparecida.

Reparem que não se comemoravam nem o 7 de Setembro, nem o 15 de Novembro, nem o Dia de Tiradentes. Quais serão os feriados daqui a um século? Nossos bisnetos saberão.


Observação
Vai ter Carnaval este ano? No fim de semana que vem, teremos a resposta. De qualquer modo, Carnaval não é feriado nacional oficial.

Publicado originalmente em 25 jul° 2016.

Fonte: brasildelonge.com