segunda-feira, 28 de setembro de 2020

DE VACINAS

DE VACINAS
José Horta Manzano

Lê-se a todo momento que a vacina contra a covid está para sair. Russos, chineses, americanos, europeus e até indianos dedicam-se seriamente ao assunto. Cada semana, aparece notícia animadora sobre a vacina: a russa está no ponto; na China só falta o derradeiro teste; os americanos afirmam que a deles estará no mercado antes do Natal. E assim por diante. Tanto falam nisso, que a gente acredita que, sim, um dia virá a vacina.

Algo me escapa, porém. A covid é causada por vírus, um bichinho minúsculo que até sob as lentes potentes de um microscópio eletrônico aparece como uma mancha embaçada, não é? A aids também é dano causado pour outro terrível vírus, pois não? Ora, esta última enfermidade se espalhou pelo mundo inteiro a partir do fim dos anos 70, ou seja, 40 anos atrás. Desde então, muitos laboratórios de pesquisa vêm se dedicando a fabricar uma vacina. Passados 40 anos, não conseguiram.

Como é que é possível ter tanta certeza de que estará disponível, em um ano, vacina eficaz contra a covid, quando se sabe que, no caso da aids, não se conseguiu em quarenta anos?

Faço votos para que encontrem rapidamente (mesmo porque, pessoalmente, no teste de múltipla escolha dos grupos de risco, assinalo três ou quatro quadradinhos). Assim mesmo, sem querer ser profeta de desgraça, fico dubitativo. Vamos torcer.

Fonte: brasildelonge.com
Pensar, analisar, inventar não são atos normais; eles constituem a respiração da inteligência. (Jorge Luís Borges, escritor argentino)

LUGARES

OUTRO TIPO DE MULHER NUA

Martha Medeiros

Leio que Fernanda Karina posará nua por R$ 2 milhões, depois leio que a revista não confirmou o convite, depois leio que ela vai posar sim senhor e vai utilizar o dinheiro numa campanha para eleger-se deputada, e no meio desta artilharia de informação eu fico tonta e me pergunto: quem diabos é Fernanda Karina? Ah, a secretária que esteve na CPI e que virou mais uma celebridade instantânea neste país surreal.

Nunca vi tanta mulher nua. Os sites da internet renovam semanalmente seu estoque de gatas vertiginosas. O que não falta é candidata para tirar a roupa. Serviu cafezinho numa cena de novela? Posa pelada. É prima de um jogador de basquete? Posa pelada. Caiu do terceiro andar? Posa pelada.

Depois da invenção do photoshop, até a mais insignificante das criaturas vira uma deusa, bastando pra isso uns retoquezinhos aqui e ali. Dá uma grana boa. E o namorado apóia, o pai fica orgulhoso, a mãe acha um acontecimento, as amigas invejam, então pudor pra quê?

Não sei se os homens estão radiantes com esta multiplicação de peitos e bundas. Infelizes não devem estar, mas duvido que algo que se tornou tão banal ainda enfeitice os que têm mais de 14 anos. Talvez a verdadeira excitação esteja, hoje, em ver uma mulher se despir de verdade - emocionalmente.

Nudez pode ter um significado diferente e muito mais intenso. É assistir a uma mulher desabotoar suas fantasias, suas dores, sua história. É erótico ver uma mulher que sorri, que chora, que vacila, que fica linda sendo sincera, que fica uma delícia sendo divertida, que deixa qualquer um maluco sendo inteligente.

Uma mulher que diz o que pensa, o que sente e o que pretende, sem meias-verdades, sem esconder seus pequenos defeitos - aliás, deveríamos nos orgulhar de nossas falhas, é o que nos torna humanas, e não bonecas de porcelana. Arrebatador é assistir ao desnudamento de uma mulher em quem sempre se poderá confiar, mesmo que vire ex, mesmo que saiba demais.

Pouco tempo atrás, posar nua ainda era uma excentricidade das artistas, lembro que esperava-se com ansiedade a revista que traria um ensaio de Dina Sfat, por exemplo - pra citar uma mulher que sempre teve mais o que mostrar além do próprio corpo. Mas agora não há mais charme nem suspense, estamos na era das mulheres coisificadas, que posam nuas porque consideram um degrau na carreira. Até é. Na maioria das vezes, rumo à decadência. Escadas servem para descer também.

Não é fácil tirar a roupa e ficar pendurada numa banca de jornal mas, difícil por difícil, também é complicado abrir mão de pudores verbais, expor nossos segredos e insanidades, revelar nosso interior. Mas é o que devemos continuar fazendo. Despir nossa alma e mostrar pra valer quem somos, o que trazemos por dentro. Não conheço strip-tease mais sedutor.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS


domingo, 27 de setembro de 2020

O JATO D'ÁGUA DE GENEBRA

O JATO D'ÁGUA DE GENEBRA
José Horta Manzano

Você sabia?

O século 19 foi um tempo de expansão e de progresso em muitos campos da ciência. Na Europa, a instalação de indústrias atraiu populações rurais; as cidades cresceram rapidamente. Metrópoles como Londres, Paris e Viena são esplêndido exemplo do fenômeno. Até na pequena Suíça, o inchaço da cidade de Genebra foi significativo. Dos 64 mil habitantes de 1850, ela passou a mais de 100 mil em 1890 – crescimento comparável ao que a cidade de São Paulo conheceu por aqueles anos.

O fim do século se aproximava, mas Genebra ainda não dispunha da infraestrutura necessária para a geração de força e a distribuição de água à população. A água abundante do Lago Léman e do Rio Ródano estava à disposição, mas faltava uma instalação que gerasse pressão para distribui-la a todas as casas.

Com essa finalidade, pequena usina hidroelétrica foi construída. Em 1886, as cinco primeiras turbinas foram inauguradas, capazes de fornecer força e água tanto às indústrias quanto aos lares.

Acontece que, à noite, quando as fábricas paravam, o rio continuava a correr fazendo girar as turbinas, o que gerava excesso de pressão. Ninguém sabia quando se atingiria nível crítico, o que obrigava uma equipe a ficar todas as noites de prontidão. Um dia, alguém teve a ideia de criar uma válvula de segurança para evacuar automaticamente o excesso. Quando se atingia uma determinada pressão, o dispositivo liberava um esguicho d’água destinado a aliviar o mecanismo.

Sem se dar conta, tinham inventado o futuro cartão postal da cidade. Paris tem a Torre Eiffel; Roma, o Coliseu; Lisboa, a Torre de Belém; o Rio de Janeiro, o Corcovado. Genebra tem seu esguicho, o Jato d’Água, marca turística da cidade.

Hoje em dia, sistemas mais modernos dão conta de manter a pressão sob controle permanente, sem necessidade de recorrer ao esguicho para aliviar o excesso. O esguicho de Genebra é mantido unicamente com finalidade turística. Aliás, o atual nem está no mesmo lugar do primeiro. A municipalidade logo se deu conta do potencial turístico do Jato. Ele está hoje localizado num ponto mais afastado das margens e mais visível.

O original de 1886 alcançava 30m de altura. O atual vai bem mais alto, podendo atingir 140m – a altura de um prédio de 45 andares. O jato sai num fluxo de 500 litros por segundo, a uma velocidade de 200km/h. À noite, é iluminado por 21 projetores.

Funciona o ano inteiro e só é interrompido em duas ocasiões: 1) quando o vento sopra forte e na direção errada; 2) quando a temperatura desce abaixo de 2°C, por causa do risco de projeção de gotículas de gelo, que podem causar ferimentos.

Faz mais de 130 anos que Genebra se orgulha de seu símbolo animado e ecológico. É monumento autossustentável, em harmonia com os tempos atuais.

Fonte: brasildelonge.com

O DILEMA DAS REDES. A SOLUÇÃO

O DILEMA DAS REDES. A SOLUÇÃO
Stephen Kanitz

Quem ainda não assistiu Social Dilema ou o Dilema das Redes, na Netflix, o faça ainda hoje.

Mostra como o Google, Facebook, Twitter estão nos espionando e nos vendendo para anunciantes e agências de propaganda.

Pior, estão modificando nossos comportamentos e criando uma sociedade polarizada, intolerante, surda e perigosa.

Descobrem que eu me interesso muito mais por “coisas”, do que “pessoas”, e já me classificaram como introvertido, sem dúvida.

Só que com essa informação me mostram mais “coisas” para eu comprar, reforçando minha introversão, e polarizando ainda mais a sociedade.

Apesar do alerta, e gente muito competente sendo entrevistada como a socióloga Profa. Zuboff, da Harvard Business School, o documentário fica sem uma proposta de solução.

Portanto escrevo aqui minha humilde solução, baseada nos princípios básicos da Administração Responsável das Nações.

“A Nenhuma Empresa Será Permitido Cobrar Um Preço Que Não Cubra Seus Custos de Reprodução.”

Há milhares de empresas que vendem abaixo do custo porque possuem um subsídio do governo.

Empréstimos do BNDES a juros subsidiados são uma forma de pedalada fiscal para enganar o povo. Essas empresas aparecem como rentáveis, ou seja, bem sucedidas.

Isso porque o subsídio está embutido no juro menor.

Numa Administração Responsável das Nações essas empresas mostrariam prejuízo, mas com uma rubrica abaixo.

“Graças aos 2 bilhões de subsídios que recebemos, a nossa empresa xyz consegue se manter longe da insolvência.”

Outras centenas de empresas podem vender abaixo do custo porque são do governo, que fará os aportes necessários, e vender abaixo do custo é a única forma dessas estatais poderem competir, vide os Correios.

Outras fornecem serviços de graça, 100% abaixo dos custos, como o governo.

Outras, em troca, vendem dados dos seus próprios usuários como se fossem mercadoria como o Facebook e a Globo.

Se cobrar um preço justo fosse um valor da sociedade brasileira, da nossa cultura administrativa, e não o tudo grátis da política:

1. Acabaríamos com a ideia do tudo grátis tão frequente em países como o Brasil. Universidades Estatizadas teriam sim de cobrar pelo ensino superior, mas não necessariamente durante o aprendizado.

2. Google teria de cobrar uma mensalidade de todos os seus usuários, em vez de vender informações confidenciais das pessoas para agências de propaganda em troca.

3. Facebook teria de cobrar mensalidade de todos os usuários, em vez de modificar seu comportamento para comprar algo que você nunca imaginou.

4. Globo teria de cobrar uma mensalidade e fornecer a televisão, em vez de nos vender para anunciantes.

5. Folha de São Paulo teria de cobrar o preço cheio da Assinatura, e não a subsidiar vendendo anúncios que não são notícia.

6. BNDES teria de cobrar juros plenos, em vez de subsidiar os juros, dando a falsa impressão que seus clientes são rentáveis.

7. INSS deveria cobrar contribuições dos atuais aposentados, e não se apropriar “grátis” das contribuições da população mais jovem, que está sendo enganada.

8. Ministério da Saúde deveria cobrar uma anuidade dos jovens com saúde, e capitalizá-la para custear a deterioração do corpo humano na velhice, em vez de um SUS gratuito.

9. Em vez de destruírem o planeta, empresas estariam cobrando o custo de reposição do petróleo, do zinco, do cobre, das latas de lixo, e não transferindo essas externalidades a todos nós.

10. Eu deveria estar cobrando pelos meus textos, e vendo interesse zero dos leitores, parar de fazê-los. Se valem zero, por que continuar escrevendo?

Se sua empresa não consegue cobrar um preço acima de seus custos, significa que ela está produzindo algo que nem o consumidor está disposto a pagar.

Essas distorções foram introduzidas por jornalistas, publicitários, engenheiros de computação, economistas, sem medir as consequências, por desconhecimento e não por malevolência.

Se todos acima passarem a cobrar o que custam, o desperdício seria mínimo, as empresas que não produzem algo de valor fechariam, e esse socialismo de compadrio sumiria.

E o Dilema das Redes Seria Resolvido.

Fonte: blog.kanitz.com

EXCELÊNCIA E BELEZA

EXCELÊNCIA E BELEZA
Ruy Castro

Documentário sobre o violonista Garoto faz renascer a esperança sobre o Brasil

Num dos grandes momentos de "Garoto - Vivo Sonhando", o documentário de Rafael Veríssimo sobre o violonista Garoto (1915-1955), há um depoimento de Dori Caymmi que faz pensar. Em criança, na mansidão de um sítio de seu pai, Dorival, perto do Rio, Dori observou a tristeza de dois hóspedes: o maestro Radamés Gnattali e Garoto. E que motivos teriam para isso? Afinal, eram vastamente admirados em seu círculo --Radamés, como o arranjador, compositor e pianista que já fecundara duas gerações de músicos; Garoto, autor de "Duas Contas", o gênio do violão brasileiro.

Para Dori, eram tristes por saber que aquele círculo limitava-se aos "interessados no trabalho [no sentido de buscar a excelência, a beleza], na música, no Brasil". Uma minoria --"o resto não prestava atenção". O próprio Dori trai certa tristeza ao lembrar isso e repete a expressão "interessados no Brasil", como se ela fosse hoje uma categoria remota, quase em extinção. Foi como o entendi. É como, às vezes, ao olhar em torno, também me sinto.

"Garoto - Vivo Sonhando", no entanto, faz renascer a esperança. O diretor, Veríssimo, tem 35 anos; o diretor musical, Henrique Gomide, 32; o entrevistador, co-roteirista e quem me falou sobre o projeto quando ele ainda não passava de um sonho, Lucas Nobile, 36. Todos meninos e estreantes em cinema.

O filme tomou-lhes quase sete anos, e, para mim, o espantoso é que tenha levado só isso. Num país tão empenhado em destruir arquivos e queimar museus, eles fizeram a coisa certa: não desistiram, foram à luta. O resultado é uma riqueza absurda de registros musicais, fotos e depoimentos sobre um músico esquecido, que João Gilberto, entrevistado, definiu tão bem: "Sabe o Messi? É o Garoto".

Garoto acaba de renascer. Mais difícil será trazer de volta aquele país que, bem ou mal, ainda aspirava a se construir sobre uma plataforma de excelência e beleza.

Fonte: Folha de S. Paulo
Eu não espero pela disposição. Você não realiza nada se fizer isso. (Pearl S. Buck)

LUGARES

TOSCANA - ITÁLIA

CLIENTE MAL DE PROVA

CLIENTE MAL DE PROVA

A empresa contava com diversos representantes comerciais sediados em pontos estratégicos do estado. Um desses pontos era Passo Fundo. A região experimentava um notável desenvolvimento econômico, principalmente em razão do cultivo da soja. 

Com o volume de vendas cada vez maior, os representantes passaram a admitir empregados para os primeiros contatos com clientes em potencial. Nem sempre os contratos eram bem resolvidos e por vezes a resolução do conflito ocorria na Justiça do Trabalho. 

Pois foi o que aconteceu com um desses prepostos contratados pelo representante de Passo Fundo. No caso que aqui interessa, o preposto moveu uma reclamatória trabalhista contra o seu patrão e contra a empresa da qual eu era uma espécie de gerente administrativo. 

Os interesses da minha empresa conflitavam com os interesses do seu representante comercial, motivo pelo qual ele foi orientado a contratar um profissional do direito para articular a sua defesa. 

A audiência inaugural seria na parte da manhã de um determinado dia. Acompanhado de um advogado nos deslocamos a Passo Fundo no dia anterior, combinando que nos reuniríamos com o nosso representante, seu advogado e eventuais testemunhas. 

Era necessário afinar o discurso e para a minha empresa era importante que não resultasse qualquer vinculo empregatício ou obrigação, evitando a abertura de perigoso precedente. A

 reunião ocorreu no escritório do Dr. Sinfrônio, assim por nós cognominado, dada à sua semelhança com o comediante Walter D’Avila. 

Desde o primeiro contato a nossa impressão era a de que se tratava de um advogado não afeito às questões trabalhistas, o que nos deixava muito preocupados. 

Deveríamos examinar muitas provas, pedidos assinados pelo reclamante, correspondências, enfim, todo e qualquer documento que pudesse favorecer a nossa defesa. O Dr. Sinfrônio não se mostrava à vontade diante da nossa intromissão nos assuntos a ele confiados e num dado momento comentou: 

- Olha, o Juiz aqui em Passo Fundo não gosta muito de papéis. Vamos no gogó mesmo! 

Para nosso espanto, o Dr. Sinfrônio se esquivava de colocar à mostra a estratégia que seria adotada na defesa do seu cliente e isto para nós era muito importante pois não poderíamos apresentar uma versão que fosse contrária à do nosso representante e vice-versa. Enfim, como estávamos no mesmo lado da mesa, tínhamos que nos dar as mãos e minimizar os efeitos do processo. 

Foram algumas horas de conversa, de exame de provas, de petições sendo redigidas, de ensaio de teses defensivas, e o progresso era pouco ou quase nenhum. 

No final da tarde, cansados e por que não dizer, extremamente preocupados com o andar da carruagem, pedimos enfaticamente ao Dr. Sinfrônio que nos dissesse com todas as letras, qual a linha de defesa que seria adotada na manhã seguinte, pois nós iríamos para o hotel articular a nossa própria defesa. 

Foi quando o Dr. Sinfrônio respirou fundo, passou o lenço na testa suada e disse para o seu cliente: 

- Seu Osmar, o senhor está mal de provas! 

Prontamente o Osmar (esse era o nome do nosso representante comercial) retrucou: 

- Ora meu doutor, se eu estivesse bem de provas não precisava de advogado. (baixa o pano)

FRASES ILUSTRADAS


sábado, 26 de setembro de 2020

BURRICE EXISTENCIAL

BURRICE EXISTENCIAL
Mirian Goldenberg

Aprender a arte de fazer boas perguntas é o melhor caminho para enxergar, compreender e solucionar os problemas das nossas vidas

Sempre ensino aos meus alunos que para fazer uma pesquisa o mais importante é saber formular a pergunta certa. Uma boa pergunta pode ser a solução para o problema que queremos resolver. Por mais simples que possa parecer, fazer a pergunta certa é uma arte complexa.

Por exemplo, quando perguntei na minha pesquisa: “O que falta para você ser mais feliz?”, homens e mulheres disseram: saúde, dinheiro, emprego, casa própria, viver em um país tranquilo e seguro com governantes competentes, honestos e empáticos etc. Todos se compararam e revelaram sentir inveja de alguém que supostamente tem tudo o que lhes falta.

Mas quando perguntei: “Em que momento do dia você se sente mais feliz?”, responderam: quando brinco com meus filhos, quando meu amor me abraça e diz que me ama, quando dou risadas com os amigos etc. Não invejaram nem se compararam com ninguém, pois focaram no que é mais importante e significativo em suas vidas. Com as duas perguntas, percebi a distância entre a expectativa idealizada e a experiência concreta de felicidade.

Pessoas dizem que momentos mais felizes do dia são quando brincam com os filhos, quando o parceiro abraça e declara amor, quando dá risadas com os amigos - Kenzo Tribouillard/AFP

“Faça a pergunta certa!” é um capítulo do meu livro "A Arte de Pesquisar". A epígrafe é de Einstein: “Frequentemente, a formulação de um problema é mais essencial do que a sua solução”.

Tudo o que escrevi sobre a pergunta certa na pesquisa científica é útil para pensar sobre os obstáculos e desafios que precisamos enfrentar em nossas próprias vidas.

Já me disseram que tenho talento e sensibilidade para construir boas questões de pesquisa. Disseram até que tenho uma boa dose de “inteligência emocional” para elaborar perguntas que ajudam a enxergar, compreender e solucionar os problemas dos outros.

No entanto, apesar de ter feito mais de vinte anos de análise, ainda não aprendi a fazer boas perguntas para a minha própria vida. Acho que tenho uma espécie de “burrice existencial” para elaborar perguntas certas que ajudariam a curar meus medos, sofrimentos e angústias.

Sabe o ditado: “Casa de ferreiro, espeto de pau”? Adaptei para: “Caverna de antropóloga, incapacidade para formular boas perguntas e resolver os próprios problemas”.

São mais de trinta anos como professora de “Métodos e técnicas de pesquisa”, mas ainda não encontrei a resposta para uma questão crucial: Como posso aprender a fazer as perguntas certas para ter uma vida mais livre e feliz?

Fonte: Folha de S. Paulo

E ASSIM É

E ASSIM É
Alejandro Jodorowsky

"Eles vão te chamar de "louca" porque você nasceu com o dom de ver as coisas de maneira diferente que eles, e isso os assusta. 

Eles vão te chamar de "intensa" porque você nasceu com a coragem de se permitir viver e sentir plenamente, e isso os intimida. 

Eles vão te chamar de "egoísta" porque você descobriu que você é a pessoa mais importante em sua vida, e isso não lhes beneficia. 

Eles vão te rotular de várias maneiras, com muitos julgamentos, por muito tempo. 

Mas permaneça firme em si mesma, em seus desejos e sendo fiel à tua essência. Porque, no final, eles vão te procurar por aquilo que você transmite, pelo que você contagia, pelo que você é, por sua magia!!
A maioria das pessoas teme a morte por não terem feito nada em suas vidas. (Peter Ustinov)

LUGARES

CATEDRAL DE NOTRE-DAME - PARIS

O POVO QUE FEZ DO PINHÃO UMA FLORESTA

O POVO QUE FEZ DO PINHÃO UMA FLORESTA

Pesquisa inédita revela que as matas de araucária do sul do Brasil foram plantadas por tribos Jês há mil anos; espécie está ameaçada de extinção

Quando os europeus começaram a chegar às áreas montanhosas da região Sul do Brasil, encontraram majestosas florestas nas quais predominava a araucária ou pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia), espécie dizimada nos séculos seguintes por causa da excelência de sua madeira, e ainda hoje sob risco de extinção. Uma nova análise arqueológica fortalece a ideia de que a vastidão das matas de araucária do sul pré-cabralino também foi, em grande parte, causada pela ação humana: a floresta se expandiu justamente numa época em que o clima era desfavorável ao seu crescimento e tem associação estreita com os assentamentos das principais sociedades indígenas dos planaltos sulinos.

A descoberta faz parte de um grande esforço de arqueólogos do Brasil e do Reino Unido para mudar a compreensão sobre o passado indígena dessas regiões. Tais áreas elevadas eram o domínio de grupos conhecidos coletivamente como Proto-Jê, cujos descendentes atuais são as etnias Kaingang e Xokleng. Em tempos recentes, eles eram vistos como grupos relativamente pouco organizados e sem grande produção agrícola. Mas os dados arqueológicos levantados nos últimos anos sugerem a existência de sociedades populosas, produtivas, dedicadas à construção de monumentos funerários com terra batida e em processo de consolidação política, com a formação das chamadas chefias de escala regional, nas quais várias aldeias ficavam sob a hegemonia de um único líder.

"Não há dúvida de que eles tinham absoluta consciência do que estavam fazendo [ao estimular a expansão das araucárias]", disse o arqueólogo brasileiro Jonas Gregorio de Souza, da Universidade de Exeter (oeste da Inglaterra), um dos autores do novo estudo na revista especializada Scientific Reports. Souza citou o conceito de "landesque capital", usado para definir a criação, pela mão humana, de ambientes de larga escala que favorecem a subsistência de uma sociedade no longo prazo. "Você modifica a paisagem não só para o seu benefício, mas também para o de várias gerações seguintes. No caso da araucária, uma árvore que demora uns quarenta anos para chegar à maturidade, isso é muito claro, porque você não vai ter um aproveitamento imediato daquilo."

O primeiro passo da equipe, que inclui também pesquisadores da USP e da Universidade Federal de Pelotas, foi examinar a distribuição geográfica moderna das matas de araucária e compará-la com os dados paleoclimáticos e paleoecológicos, ou seja, como teriam variado o clima e os ambientes sulinos ao longo dos últimos milênios.

Eles verificaram, em primeiro lugar, que esse tipo de floresta, que abriga ainda espécies como a Ilex paraguariensis, a célebre erva-mate, passou por uma fase inicial de expansão entre 4 500 e 3 000 anos atrás, época em que ainda havia poucos sinais de atividade agrícola e sedentarismo na região. Nessa fase, o crescimento das araucárias se concentrou principalmente à beira de rios do planalto. Depois disso, há um longo período de estagnação desse avanço, que retorna, de modo rápido e amplo, entre 1 500 e 1 000 anos atrás, coincidindo com uma fase de expansão e aumento da complexidade e tamanho dos assentamentos Proto-Jê.

Mas, como sabe qualquer um que conheça os rudimentos da metodologia científica, correlação não significa causa – mesmo que o crescimento dos Proto-Jê e o das matas de araucária coincidam, isso não significa, necessariamente, que o primeiro teria causado o segundo (ou vice-versa). Um primeiro elemento que ajuda a quebrar esse impasse vem dos dados paleoclimáticos. Araucárias se dão melhor em ambientes mais úmidos e, de fato, a região Sul passou por um aumento da umidade na primeira fase de expansão das matas, por volta de 4 000 anos atrás – mas não na segunda fase. Aliás, enquanto assentamentos indígenas e florestas cresciam cerca de 1 000 anos atrás, a região estava ficando mais seca. Ou seja, se dependessem apenas de causas naturais, as araucárias deveriam ter se retraído, sendo substituídas por gramíneas.

O passo seguinte foi tentar comparar o que acontecia com a mata em regiões com alta concentração de sítios arqueológicos e outras em que não existiam assentamentos pré-cabralinos. A ideia era produzir um modelo do habitat "100% natural" das araucárias e ver se ele batia com a distribuição das árvores em todos os lugares. Para isso, os pesquisadores compararam Campo Belo do Sul, em Santa Catarina, habitado pelos Proto-Jê, com Lages, 60 quilômetros a leste, sem a presença de aldeias pré-históricas. Para minimizar a possível influência das derrubadas mais recentes na interpretação dos dados, a equipe teve ainda o cuidado de usar imagens de satélite dos anos 60 na análise.

Resultado: os dois cenários simplesmente não batem. A distribuição da floresta em Lages, teoricamente mais "natural", concentra-se em áreas um pouco mais baixas e encostas voltadas para o sul, enquanto as araucárias de Campo Belo do Sul são comuns também em áreas mais altas e encostas voltadas para o norte. "Essa preferência pelo sul das araucárias é bem conhecida na literatura botânica", conta Souza. "Parece ter a ver com a direção predominante dos ventos e com a iluminação que as plantas recebem, o que favorece seu crescimento." Então, como elas chegaram às encostas ao norte?

A última peça do quebra-cabeça veio da análise e da datação dos solos onde as árvores crescem. Ocorre que diferentes tipos de vegetais incorporam proporções ligeiramente distintas de isótopos (variantes) do elemento químico carbono em seu organismo conforme fazem fotossíntese e crescem. Desse ponto de vista, árvores como as araucárias são classificadas como plantas C3 e usam menos o isótopo chamado de carbono-13 em seu metabolismo do que as gramíneas tropicais, chamadas de plantas C4. Conforme as plantas vão morrendo, essas diferentes proporções de carbono-13 vão sendo incorporadas ao solo, deixando um registro das mudanças de vegetação em cada lugar. De quebra, é possível datar essa variação ao longo do tempo.

O que os pesquisadores viram é que, enquanto locais desabitados como Lages possuem um perfil estável de isótopos de carbono ao longo de milênios, áreas com sítios arqueológicos que antes tinham gramíneas passam por uma mudança nas variantes do elemento químico em seu solo que só podem significar a chegada de araucárias em massa à paisagem – e isso justamente no período que coincide com a ocupação indígena. Os ancestrais dos Kaingang e Xokleng, portanto, de alguma forma estavam atuando como semeadores da floresta, levando-a para locais onde não cresceria naturalmente e usufruindo dos muitos recursos que ela oferece, como os saborosos e nutritivos pinhões.

É importante frisar a expressão "de alguma forma" porque não há indícios claros de plantio em grande escala de araucárias nos dados etnográficos sobre essas populações. O processo pode ter sido mais passivo, pondera Souza: coletando grandes quantidades de pinhão e carregando-as consigo quando fundavam novos assentamentos, os indígenas fatalmente deixariam de consumir algumas das sementes, que acabariam germinando. Processos desse tipo continuam acontecendo ainda hoje em comunidades tradicionais da região.

Seja como for, a simbiose com as araucárias, bem como lavouras de mandioca, feijão e abóbora, levou à construção de grandes aldeias com centenas de casas semissubterrâneas e monumentos funerários como montículos de terra no alto dos morros ou grandes anéis de terra batida, com dezenas de metros de diâmetro e até 1 metro de altura. Nesses montes podiam ser depositados os ossos de defuntos da "nobreza" Proto-Jê depois de cerimônias de cremação.

A grandiosidade desses monumentos, aliás, fica mais marcada com o aparecimento dos grupos Guarani na região, vindos do oeste e do norte, talvez como sinalização simbólica dos chefes dos grupos Proto-Jê contra a ameaça representada pelos forasteiros. Desse ponto de vista, as matas de araucária e as aldeias ligadas a elas podem ser consideradas fortalezas desse povo nos planaltos sulinos.

Fonte: https://piaui.folha.uol.com.br

FRASES ILUSTRADAS


sexta-feira, 25 de setembro de 2020

FALAS IMPRÓPRIAS

FALAS IMPRÓPRIAS
José Horta Manzano

Qualquer um de nós, apanhado desprevenido, pode soltar alguma bobagem. Nem com muito treino e controle seria possível acertar todas, em todas as ocasiões. Mas gente mal preparada é um problema. Quando alguém, além de mal preparado, exerce função elevada, então, é desastre assegurado!

Com a exceção do curto interregno durante o qual Temer assumiu as funções da titular destituída, nossa história presidencial recente é rica em gafes verbais cometidas por dirigentes que não tomaram a medida exata do cargo. Foram indivíduos eleitos sem ter a formação necessária para o cargo. A bagagem que carregam não é suficiente para lhes permitir estar à vontade em todos os ambientes.

Jair Bolsonaro assegura a continuidade do festival de impropriedades iniciado por Lula da Silva e endossado pela doutora. Comedido e pouco palavroso, Michel Temer garantiu uma trégua temporária ao festival. Doutor Bolsonaro tem se esforçado pra recuperar o tempo perdido.

Lula da Silva, por exemplo, deixou uma impagável explicação da circulação das massas de ar ao redor do planeta. Foi no dia em que garantiu que a poluição atmosférica que castiga nosso país só existe porque a terra é redonda e gira. Fosse quadrada, não haveria poluição no Brasil. O vídeo (de menos de 1 minuto) continua no youtube à disposição de quem quiser rever.

A doutora deixou impressionante coleção de pérolas, desde a saudação à mandioca até a invenção da Mulher sapiens, em contraponto ao Homo sapiens.

Nesse contexto de falas deslocadas, as impropriedades soltadas por doutor Bolsonaro são tão numerosas, que seria aborrecido listá-las todas. Muitos o consideram não muito afeito ao trabalho. Acusam-no de ter passado 28 anos (sete mandatos!) na Câmara Federal sem ter relatado um único projeto. É fato que fala por si.

Seja como for, a continuidade do besteirol na Presidência está garantida. Depois de um Lula verborrágico e de uma Dilma que proferia uma inconveniência a cada duas palavras, temos um Bolsonaro que se inscreve como sucessor legítimo.

Seu adversário no segundo turno de 2018 era Haddad. Acontece que este não convinha para a Presidência. Para começar, era lulopetista – justamente a família política que a maioria queria evitar naquele momento. Mais que isso, carregava o peso de um pecado mortal: conseguia exprimir-se decentemente.

Estava muito evidente que não ia combinar com nossa tradição presidencial. De fato, não foi eleito. Dentro da coerência, quem levantou a taça foi doutor Bolsonaro.

https://brasildelonge.com
A juventude não é mais que um estado de ânimo. (Frank Lloyd Wrigth, arquiteto americano, 1867-1959)