sábado, 23 de janeiro de 2021

AVANÇO DA VACINAÇÃO

AVANÇO DA VACINAÇÃO
José Horta Manzano

Eu gostaria muito que 300 milhões de doses de vacina chegassem semana que vem ao Brasil e que, antes da Páscoa, todos os habitantes estivessem imunizados.

Mas o que se vê na Europa é inquietante e não permite excesso de otimismo. Até mesmo países que foram prudentes e encomendaram vacinas com grande antecedência estão recebendo a conta-gotas.

O gargalo está na produção. Pelo que se vê, os laboratórios não dão conta da monstruosa demanda. Os primeiros a encomendar são os primeiros a ser atendidos, diz a prática comercial.

Se essa lógica for realmente seguida, o Brasil, que bobeou e só começou a encomendar agora, vai ter de ser paciente. Quando 2021 terminar, só uma (pequena) parte da população terá sido vacinada. Os demais vão ter de esperar 2022.

Avanço da vacinação no mundo
(Situação em 21 janeiro 2021)

Israel, o campeão da rapidez, encabeça a lista: já vacinou 37% da população. Seguem-se pequenos países, como Emirados Árabes, Gibraltar, Seychelles, Samoa, que já imunizaram mais de 10% da população.

Os primeiros países importantes vêm a seguir: República Tcheca e Reino Unido, ambos com 7,5%. Logo após, aparecem os EUA, que já vacinaram 5,4% dos habitantes.

Daí para baixo, a porcentagem vai diminuindo. Alguns exemplos:

Espanha 2,2%
Itália 2,1%
Canadá 1,9%
Alemanha 1,6%
Suíça 1,3%
França 1,2%
Portugal 1,0%
Argentina 0,6%
Chile 0,3%

O Brasil aparece no finzinho da lista, com 0,07% da população imunizada. Falta um bocado.

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Ânimo!

Fonte: brasildelonge.com
Lembra que és tão bom como o que de melhor tiveres feito na vida. (Billy Wilder, cineasta americano)

LUGARES

FONTAINEBLEAU - FRANÇA
Fontainebleau é uma cidade na França, antiga sede do departamento Seine-et-Marne, na região administrativa da Ilha de França. Dá-se o nome de Escola de Fontainebleau a um grupo de artistas animados pelos italianos que Francisco I de França contratara para decorar o Castelo de Fontainebleau, os quais tiveram como seguidores Jean Goujon, Jean Cousin, Antoine Caron. (wikipédia)

AS RAZÕES DO AMOR

AS RAZÕES DO AMOR
Rubem Alves

Os místicos e apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa: “A rosa não tem ‘porquês’. Ela floresce porque floresce.”

Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema “as sem-razões do amor”. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento. “Eu te amo porque te amo…” – sem razões… “Não precisas ser amante, e nem sempre saber sê-lo”.

Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fossem assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra.

“Amor é estado de graça e com amor não se paga.” Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que “amor com amor se paga”. O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa floresce, eu te amo porque te amo.

“Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários… Amor não se troca… Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo…”

Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena…), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos. Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento e se perguntava: “Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco.” O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor – frágil bolha de sabão -, não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkergaard comentava o absurdo de se pedir dos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor – sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar…

Mas – eu já disse – não estou apaixonado. Olho o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário de Drummond, as cem razões do amor…

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escritas. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: “Que é que eu amo quando amo o meu Deus?” Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: “Que é que eu amo quando te amo?” Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, “o que amamos é sempre um símbolo”. Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.

Variações sobre a impossível pergunta: Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no teu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios…Como Narciso, fico diante dele… “No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura…” (Cecília Meireles). Por isto te amo, pelos peixes encantados…

Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam. Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos. Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo…

Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. “O amor começa por uma metáfora”, diz Milan Kundera. “Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética.”

Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder – delicado – da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada…

– Rubem Alves, no livro “O retorno e Terno” (Crônicas). 27ª ed., Campinas|SP: Editora Papirus, 2008.

Fonte: revistaprosaversoearte.com

FRASES ILUSTRADAS


sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

DO CENTRAL PARK AO APARADOS DA SERRA

DO CENTRAL PARK AO APARADOS DA SERRA: O QUE PODEMOS APRENDER
Fernando Schüler

Brasil tem sido procrastinador na melhoria da gestão pública, mas há novidades interessantes a observar

Ainda me lembro de quando visitei pela primeira vez, lá pelos anos 1990, os cânions de Aparados da Serra. Lembro-me do encanto que já surgia depois de São Chico de Paula, na direção de Cambará do Sul. Passei anos, como muita gente do Sul, pensando em como aquele lugar mágico podia ser mais visitado e seu "potencial" no desenvolvimento da região.

Agora vejo a notícia, quase apagada em meio ao bate-boca político brasileiro, de que a gestão do parque foi concedida, via leilão, a um investidor privado. O grupo vencedor pagou 27 vezes o valor mínimo da outorga, com previsão de R$ 260 milhões de investimento ao longo dos 30 anos de contrato

A concessão dos parques nacionais não é propriamente uma novidade. A maioria talvez não saiba, mas o parque das Cataratas do Iguaçu é gerenciado há 22 anos por uma concessão privada. Modelo similar ao parque da Tijuca, no Rio de Janeiro. Gestão profissional, enorme visitação, custo zero para os cofres públicos e uma receita robusta para o Instituto Chico Mendes, responsável pelo gerenciamento de 334 unidades de conservação brasileiras. 


O relatório anual do instituto, de 2019, mostra que apenas quatro concessões geraram R$ 79 milhões ou 56% da arrecadação própria da instituição. E parte relevante de sua capacidade de investimento. 

Não precisa ir muito longe para ver o potencial desse tipo de parceria. Gestão mais eficiente dos parques, mais recursos para investimento nas unidades com menor potencial turístico, incremento do turismo e geração de expertise executiva que pode ser replicada em inúmeros experimentos inovadores de gestão país afora. 

Parcerias como essas frequentemente geram controvérsia política, mas não deveriam. Além de seguir uma tendência global da governança pública, elas servem para resolver problemas bastante objetivos que o país tem na prestação de serviços públicos. 

Estudo realizado pelo Instituto Semeia com 266 gestores de parques públicos é autoexplicativo. Apenas 34% deles estão com a sua área regularizada; 60% dos gestores dizem não ter recursos necessários para realizar seu trabalho; 22% das unidades sequer fazem contagem de visitantes. 

A culpa dessa situação é dos funcionários? Desse ou daquele governo? Na conversa fiada política pode até ser, mas o problema está no modelo. É um erro esperar que a pesada e disfuncional burocracia pública, em um ambiente não concorrencial, seja boa gestora de serviços. Assim como imaginar que fazendo tudo como sempre fizemos vamos obter resultados muito diferentes. 

A boa notícia é que vêm surgindo alternativas que podem mudar esse panorama. Recentemente o parque do Ibirapuera, no coração de São Paulo, foi concedido, com um valor de outorga de R$ 70 milhões, em um modelo no qual a empresa vencedora gerencia outros cinco parques com menor potencial de receita. 

A concessão é apenas um tipo de parceria possível. Há outros. Quem sabe o modelo ícone adotado na gestão do Central Park, na Big Apple. A concessão lá é com uma organização privada sem fins lucrativos, a Central Park Conservancy, que gira um orçamento de U$ 75 milhões e uma cesta de fundos de endowment (hoje são 86), que logo dará completa autonomia financeira à gestão do parque. 

Conheço muita gente que acha o Central Park uma beleza, até casório faz lá, mas acharia um horror se adotássemos aqui nos trópicos o mesmíssimo modelo de gestão. Na verdade não é nem um horror nem solução mágica. São apenas alternativas que temos que colocar na mesa e avaliar. O que não dá é para continuar confundindo esfera pública com burocracia estatal. 

O Brasil demorou 26 anos, se contarmos desde a lei das concessões, de 1995, para conceder a gestão de alguns poucos parques públicos. Somos um país procrastinador, dado a muita retórica fora do lugar, muito mando corporativo e essas coisas. Mas, de alguma forma, há boas notícias, felizmente longe do radar político, às quais vale a pena (em especial os prefeitos que acabaram de assumir) prestar atenção.

Fonte: Folha de S. Paulo
Para enxergar claro, basta mudar a direção do olhar. (Antoine Saint-Exupéry, escritor francês, 1900-1944)

LUGARES

BARCELONA - ESPANHA

MR. MILES



Saídas para a claustrofobia

Querido mr. Miles: cada vez que leio seus artigos fico com mais vontade de viajar. Meu marido, porém, sofre de claustrofobia e não entra, nem amarrado, em aviões ou navios, de modo que meu horizonte é diminuto. O que você sugere?
Carolina Peters Azevedo, por email

Well, well, my dear Caroline, eis uma questão delicada. A claustrofobia, as you know, é um distúrbio de intensidade variável, cuja superação é possível, mas, sometimes, longa e penosa. Tenho alguns amigos que padecem desse mal, com reações distintas. O caso mais radical que conheço é de um antigo comandante de submarinos da Royal Navy, que, após anos de imersão, pediu baixa e decidiu nunca mais entrar em qualquer recinto fechado. Hoje, Riddick — esse é seu nome —, é personagem popular em Chesil Beach, no sul da Inglaterra. Dorme nas praças, jamais entra em qualquer recinto fechado e quando quer beber uma Guinness ou comer uma kidney pie, faz seu pedido pela janela dos pubs que já o conhecem.

O caso de Riddick é incorrigível, my dear. Mas há outros que, apesar do sofrimento, não permitem que o mundo lhes feche a porta. My good friend Tony Queiroga, também chamado Tony on the Rocks, por seu apreço a bebidas com gelo, não entra em elevadores ou aviões. Contudo, darling, para não diminuir seus horizontes, tomou two very wise decisions. Abriu uma hospedaria, onde recebe gente do mundo todo e comprou uma motocicleta Triumph, com a qual tem viajado fartamente. É uma logística engenhosa. Ele parte para um determinado destino na companhia de seu springer spaniel Jimmy Hendrix (que usa o capacete sem ganir) e, ao chegar, vai direto ao aeroporto para encontrar a esposa que, of course, viaja de avião.

I don’t know, my dear, se seu marido tem o espírito criativo de Tony ou a triste apatia de Riddick. Mas lembro-me, vagamente, de que o casamento tem algo a ver com compartilhar alegrias e tristezas. Se você tem compartilhado a triste realidade da claustrofobia de seu companheiro, é justo que ele se esforce para compartilhar a sua alegria de viajar, buscando auxílio profissional ou soluções criativas.

Em último caso, I must say, viajar sozinha pode ser uma ótima alternativa. Converse com ele e, for sure, as coisas se arranjarão.

Ou estariamos diante do primeiro caso de claustrofobia infecciosa jamais descrito?

Fonte: O Estadão

FRASES ILUSTRADAS


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

LAMBANÇAS DE BOLSONARO E PAZUELLO

LAMBANÇAS DE BOLSONARO E PAZUELLO
Ruy Castro

Eles deixam muito mal o conceito que os militares fazem de si mesmos

Se Jair Bolsonaro fosse presidente durante a 2ª Guerra e Eduardo Pazuello seu chefe do Estado Maior, os pracinhas mandados pelo Brasil para lutar na Itália teriam ido parar no Congo Belga. Ou a FEB só desembarcaria no famoso teatro de operações depois de a peça terminada —com o que, sob Bolsonaro e Pazuello, o Brasil teria sido protagonista de uma ópera-bufa, não de uma saga de que os militares tanto se orgulham. É como combatem a pandemia.

Mas não são só as trapalhadas. Bolsonaro e Pazuello não gostam de máscaras, e com razão. Elas são desconfortáveis para seus narizes de Pinóquio, mais compridos do que as pernas —suas mentiras têm pernas tão curtas que, todo dia, eles são obrigados a desdizer-se e a negar não só as frases da véspera como suas próprias negações. O que, para eles, não é difícil, porque, sendo Pinocchio um boneco de pau, o nariz e a cara também são.

Como a inteligência militar é binária —uns mandam, outros obedecem, segundo o categórico Pazuello—, é natural que as Forças Armadas assistam sem tugir ou mugir às grandes lambanças em curso pelo seu chefe supremo e pelo mamulengo que ele nomeou para um cargo-chave. Mas, neste momento, é irresistível perguntar o que estarão achando de Bolsonaro agarrar-se desesperadamente a um produto que ele não queria, repudiou e quase proibiu —a vacina, e logo a do Butantan—, e de depender da condescendência da China, país que ele e seus dementes levaram dois anos agredindo.

Bolsonaro e Pazuello deixam muito mal o conceito que os militares fazem de si mesmos —conceito que, aos olhos deles, os torna tão superiores a nós, paisanos, em competência e lealdade. Com aqueles dois como modelo, como sustentar tal ilusão? 

A competência é essa que está aí. Quanto à lealdade, logo veremos Bolsonaro passar sua culpa adiante e jogar o patético Pazuello na fogueira. É rapidinho.

Fonte: Folha de S. Paulo
Não é necessário renunciar ao passado quando se entra no futuro. Ao mudar as coisas, não é necessário perdê-las. (John Cage, compositor americano)

LUGARES

GIBRALTAR - REINO UNIDO

Gibraltar é um território britânico ultramarino localizado no extremo sul da Península Ibérica. Corresponde a uma pequena península, com uma estreita fronteira terrestre a norte, é limitado, dos outros lados, pelo Mar Mediterrâneo, Estreito de Gibraltar e Baía de Gibraltar, já no Atlântico. A Espanha mantém a reivindicação sobre o Rochedo, o que é totalmente rejeitado pela população gibraltina.

NÃO TROPECE NA LÍNGUA



ASPAS E MAIORES OU MAIS INFORMAÇÕES

--- Deve-se usar o ponto antes ou depois de fechar as aspas? Se acaso eu colocar uma nota de rodapé, como ficaria? Vinicius Pedrosa, Balneário Camboriú/SC

Existem os dois casos: aspas e ponto / ponto e aspas. As instruções oficiais rezam que se coloca o sinal de pontuação depois das aspas quando estas “encerram apenas uma parte da proposição”, mas que o ponto vem antes das aspas quando elas “abrangem todo o período, sentença, frase ou expressão”, ou seja, quando a citação é integral. Trocando em miúdos:

Caso 1 – As aspas vêm antes do ponto quando a citação é a continuação da frase que você está escrevendo, pois o ponto fecha o período, e não apenas a citação. Exemplos:

Já antecipava McLuhan na década de 60 que “a mudança se tornou a única constante de nossa vida”. 

Já antecipava McLuhan na década de 60: “A mudança se tornou a única constante de nossa vida”.

Enquanto não houver “uma nova, forte e legítima razão de interesse comum”, finaliza o relator, os condôminos continuarão a utilizar tais áreas, em conformidade com o “princípio ético de respeito às relações definidas por décadas de convívio”.

Um detalhe: quando se acrescentam dados entre parênteses, o ponto vai no final de tudo, depois do parêntese:

“Eles compõem o cérebro da rede e localizam-se em todos os seus entroncamentos (Pessini, 1986, p. 14).

Caso 2 – As aspas vêm depois do ponto quando a citação é feita por inteiro e isoladamente:

“Saber é poder.” 

“Informação não é o mesmo que conhecimento.” 

E quando se faz uma citação com várias frases, portanto com vários pontos no meio,  as aspas são colocadas no final de tudo, isto é, depois do último ponto:

Assim se refere a comissão da ABL ao uso do não hifenizado: “Está claro que, para atender a especiais situações de expressividade estilística com a utilização de recursos ortográficos, se pode recorrer ao emprego do hífen neste e em todos os outros casos que o uso permitir. É recurso a que se socorrem muita línguas. [...] Não é, portanto, recurso para ser banalizado.”

MAIORES, TAMBÉM!

Alguns leitores escreveram [em 2001] para contestar ou questionar o emprego que fizemos da expressão “maiores informações”, pois leram alhures que é errado falar assim. Todos se expressaram nestes termos: “Seria correto dizer MAIORES INFORMAÇÕES? (...) pois a palavra ‘maiores’ tem o sentido de tamanho. / O correto é ‘mais informações’ porque o antônimo de maiores [menores informações] não faz sentido... / Se eu escrever para o Instituto Euclides da Cunha vou ter “maiores informações”, como está na página principal?”

Como à época manteve-se Maiores informações, transcrevo a resposta então publicada no Mural de Consultas do Língua Brasil:

“Olha, minha gente, chega de camisa de força: maior é o superlativo sintético de grande, certo? E grande significa ‘de tamanho, volume, intensidade, valor, etc. acima do normal’ [não só tamanho, portanto!], ou ‘longo, comprido, alongado, dilatado, amplo, notável, respeitável’, entre outros sentidos. Se é possível dizer ‘Vou lhe prestar uma grande informação / uma longa informação mais adiante / informações mais amplas ou detalhadas’ – assim como se diz ‘vou dar uma longa explicação/instrução’ –, então se pode fazer uso do adjetivo superlativo na mesma situação. Não bastasse isso, confirma o Dicionário Aurélio que maior significa ‘que excede outro em tamanho, espaço, intensidade, duração, grandeza, número, importância, etc.’ Vejam aí: oferecemos um maior número de informações, pelo menos!”

Certamente o uso de “mais informações” é também correto e mais econômico, prevalecendo atualmente sobre “maiores”. O que não me agrada é a discriminação por “erro”, pois neste caso não se trata disso.

Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

PASSAPORTE VACINAL

PASSAPORTE VACINAL
José Horta Manzano

Até dois dias atrás, vacinação era miragem distante, coisa de país rico. Ontem, o Brasil foi o 52° país a dar início à vacinação, transformando a miragem em realidade. Estivéssemos num contexto menos pedregoso, seria um momento de alegria e de alívio no estilo “agora, vai!”. Infelizmente, o país atravessa tempos estranhos, agressivos, emperrados, emburrecidos. Estamos em fase de demolição, não de construção. É bom tomar cuidado, que é sempre possível despencar um fragmento de parede lá de cima.

Até que o último brasileiro seja imunizado vai levar entre um e dois anos, mas o importante é que, finalmente, a roda começou a girar. Percalços, haverá muitos. É bom não esquecer que temos no Planalto um clã inteiro de Bolsonaros. Desgraça pouca é bobagem, como diz o outro. Um Bolsonaro incomoda muito a gente, dois Bolsonaros incomodam muito mais. E assim por diante.

Na Europa, a vacinação começou faz mais de mês. Pesquisas detectam que, à medida que o programa avança, baixa o número de antivax – aqueles que recusam a imunização. Trata-se de efeito manada virtuoso. Ao constatarem que o amigo, a vizinha, o colega ou a vovó se vacinaram e não sucumbiram, vão-se animando e deixando pra lá conselhos perniciosos como os de nosso sábio presidente. No fundo, fica claro que a aversão à vacina era apenas a face visível de um inconfessado medo de injeção, coisa de criança.

Na Europa, já se discute a criação de um passaporte vacinal, um documento a comprovar que o titular foi imunizado contra a covid. Determinados países exigem que todo visitante prove ter sido imunizado contra a febre amarela, exigência que não choca ninguém, pois não? Imagine agora o quadro. Um país como Israel, que dentro em breve terá vacinado toda a população, não vai querer que estrangeiros infectados reintroduzam o vírus no país. É permitido crer que vão logo passar a exigir que visitantes provem ter sido vacinados.

Mesmo no interior de um país, a questão vai surgir e impactar a circulação das gentes. Passados os primeiros tempos, parte da população terá sido imunizada, enquanto outra parte continuará desprotegida e exposta ao vírus. Companhias aéreas, empresas de transporte, teatros, restaurantes, faculdades não desejam que seus veículos ou seus estabelecimentos voltem a ser focos de infecção. Assim, vão pressionar para a criação de algum tipo de documento que garanta que o titular está imunizado. Estes serão admitidos, enquanto os demais darão com o nariz na porta.

Há que ter em mente uma verdade científica. Quanto mais tempo um vírus circula, mais risco há de ele sofrer mutações. Um dia, uma delas pode bem revelar-se mais contagiosa que as anteriores, como aconteceu na Inglaterra. Pode também surgir uma mutação que provoque quadro ainda mais grave de infecção – atingindo, inclusive, populações mais jovens. São cenários que a Saúde Pública de todo país ajuizado quer absolutamente evitar.

Eis por que, na sociedade pós-covid, nova segregação periga juntar-se às existentes: a discriminação contra os não-vacinados.

Fonte: brasildelonge.com
Assim é, se lhe parece. (Luigi Pirandello)

LUGARES

PORTO - PORTUGAL

MULHERES E CLIENTES TÊM SEMPRE RAZÃO

MULHERES E CLIENTES TÊM SEMPRE RAZÃO
Eberth Vêncio

A cor. A falta de cor. Andorinhas vestidas de fraque preto dão rasantes sobre a minha cabeça. Elas brincam no quintal. Nada mal morar numa casa com jardins floridos que recebe visitas constantes dos passarinhos. Eu me aninho ao som do blues porque não possuo asas. A água da piscina está parada. Pensamentos parados não movem moinhos. Quando sobrar algum dinheiro, vou colar os ladrilhos que se desprenderam, tirar um período sabático e aprender o idioma francês. Júlia não é passarinho, mas, voa de volta à Paris para mais seis meses de saudades. O verbo amar se conjuga é com os filhos, em todas as pessoas do plural. Pela internet, recebo as fotos singulares de Marilyn Monroe no auge da beleza. É a mulher mais bela que já vi. Não consigo concebê-la triste, deprimida. Morreu com a droga do coração vazio. Ando de saco cheio com as redes sociais e os neofacistas. Uma turba de anarquistas invadiu o Capitólio. As cenas são ultrajantes. Não que eu morra de amores pelos Estados Unidos, mas, sou fã incondicional de Elvis e da democracia. Não sou criança o bastante para brincar na Disney. Eu levo a vida à sério demais, isso é horrível. Lembrei-me do atentado às Torres Gêmeas. Ninguém contava com aquilo. Lembrei-me das gêmeas siamesas que se colaram em mim, num legítimo, irreparável triângulo amoroso, numa casa de veraneio, durante o último devaneio que sofri antes de ser diagnosticado como um mentiroso que tem asma nos pulmões. Tenho alergia de quem mente. Se eu contar, ninguém acredita. Se eu confundir, ninguém desata. Sou de perder o fôlego. Trocaria a falta de ar recorrente pelos surtos psicóticos permanentes. É obvio que estou blefando. Loucura não é brincadeira. A pior doença que pode acometer um ser humano é a mental, particularmente, a demência senil. Não bastasse o deplorável envelhecimento corporal, a mente se deteriora feito o pudim de leite condensado que eu esqueci na geladeira. A memória evapora. Já não se recorda o que foi comido no almoço, quem dirá, quem colocou a comida na sua boca. Certas doenças são um ultraje. Na hora de secar o bagaço, quem segura a onda é a família. Nada mais piegas do que dizer a verdade. Da varanda, examino o jardim. Há ervas daninhas por todo o gramado. Por que, simplesmente, não me levanto da cadeira e as arranco dali? Preciso contratar um jardineiro fiel para podar a grama e aparar os pensamentos negativos que brotam na solidão das horas. Gosto de fazer analogias. Amo o cinema. Mas, tenho desgostado de algumas pessoas nos últimos dois anos. Tudo começou com as acirradas eleições de 2018. Não me orgulho em admitir isso. O rancor é emagrecedor, ao menos, para mim. As tripas sofrem, tremem em espasmos bombásticos de cólera e de ansiedade, trabalhando dobrado, precisas como relógios suíços. Preciso de mais tempo para me dedicar aos pensamentos lúdicos e imprecisos, do que para a razão nua e crua. Ontem à noite, comi a minha mulher e um cardume de sushis. Nada mais vulgar do que tratar a pessoa amada como se fosse um alimento e de pedir descontos em restaurantes. O preço da comida japonesa me tira do sério. A minha gata repete que dinheiro foi feito para se gastar, que caixão não tem gavetas e coisa e tal. Nada mais conveniente do que associar a pessoa amada aos bichos. Como eu já disse, eu gosto das analogias. Eu amo os animais. Sou uma espécie de burro teimoso, se é que me entendem. Numa última tentativa, num derradeiro esforço desenfreado para não perder o irrelevante debate, eu argumento que dinheiro não aceita desaforo. Ela diz que vai tomar um banho, cavalinho. A conversa se encerra ali. E a água, parada. E a praga, crescendo. E os pensamentos, a mil. E ela, com a razão, de novo, só para variar.

Fonte: Revista Bula

FRASES ILUSTRADAS