sexta-feira, 27 de maio de 2022

LIBERDADE AOS PÁSSAROS

LIBERDADE AOS PÁSSAROS
Em decisão histórica, Índia proíbe pássaros em gaiolas*


A corte de Nova Deli, na Índia, decidiu que pássaros têm direito de viver com dignidade fora de gaiolas, voando livremente.

Segundo a imprensa indiana, o juiz Manmohan Singh afirmou em sua decisão que comercializar pássaros em gaiolas é uma violação de seus direitos.

“Tenho clareza de que todos os pássaros no céu têm o direito fundamental de voar no céu e nenhum ser humano tem direito de detê-los em gaiolas, com fins comerciais ou quaisquer outros“, afirmou o juiz.

Se existe um animal que é a mais profunda representação da liberdade, é o pássaro. Porém, em um mundo onde o ser humano insiste em se colocar à frente da natureza, milhares deles passam a vida toda em uma gaiola, transformando-se em animais de estimação, quando na verdade deveriam estar voando. Uma ideia absurda, que a Índia decidiu banir em decisão histórica, proibindo o encarceramento de pássaros em gaiolas.

Diferente de muitos países ocidentais, a Índia possui um histórico de lutar pelo bem estar dos animais. Não é a primeira vez que a Índia age no sentido de reconhecer os animais como seres sencientes com direitos fundamentais. O tribunal superior do país baniu os shows com golfinhos cativos em 2013, argumentando que eles têm um alto nível de inteligência que possibilita considerá-los “pessoas não humanas”. A produção de cosméticos testados em animais, o sacrifício de animais em rituais religiosos, o foie gras e as rinhas de cães também são proibidos no país, a fim de proteger os direitos básicos dos animais.

O outro tribunal emitiu decisão, comentando que “esta corte tem a opinião de que realizar o comércio de pássaros é uma violação aos seus direitos. Eles merecem compaixão. Ninguém está se importando se eles foram vítimas de crueldade ou não, apesar de uma lei que diz que as aves têm o direito fundamental de voar e não podem ser engaiolados, e terão de ser soltos no céu. Pássaros têm direitos fundamentais que incluem o direito de viver com dignidade e não podem ser submetidos à crueldade por ninguém”, incluindo a reivindicação feita pelo correspondente (Mohazzim).

Uma decisão que merece aplausos!

* com informações do jornal Correio do Brasil.

Fonte: https://www.revistaprosaversoearte.com
Não se pode ensinar tudo a alguém, pode-se apenas ajudá-lo a encontrar por si mesmo. (Galileu Galilei, astrônomo italiano, 1564-1642)

LUGARES

LIUBLIANA - ESLOVÊNIA
Liubliana (em esloveno: Ljubljana; em alemão: Laibach; em italiano: Lubiana; em latim: Labacum) é a capital e maior cidade da Eslovênia com cerca de 272 220 habitantes. Liubliana é a sede do município urbano de mesmo nome. O rio Lublianica marca e divide o centro da cidade em dois. De um lado, a parte antiga e o acesso ao castelo, do outro a parte comercial e política da cidade. No centro se encontra a igreja principal, dedicada à Ordem Franciscana. São poucos os resquícios do passado comunista na cidade, apesar da independência recente, obtida no começo da década de 1990.

MR. MILES


Vizinhos de poltrona
Nosso incansável viajante está de partida para Gudvangen, na Noruega, onde será padrinho de casamento de Peer e Kaila, ele filho de sua velha amiga Nia, ex-companheira de caminhadas no gelo do Ártico. É, ao que tudo indica, promessa de novas histórias.
A seguir, a correspondência da semana:

Prezado Mr. Miles: viajo muito sozinho e gosto de minha privacidade. Muitas vezes, porém, nos voos intercontinentais, sou “brindado” com a companhia de vizinhos que puxam conversa e contam histórias o tempo inteiro. O que devo fazer para livrar-me dos inconvenientes?
Otávio Arguello, por email

Well, my friend: uma longa viagem de avião é um periodo de estranhas convivências. Exceto nas raras vezes em que a aeronave tem muitos lugares vazios, somos sempre colocados na companhia de alguém com quem, de uma maneira ou de outra, desenvolveremos enorme proximidade física — sobretudo nos assentos cada vez mais estreitos das empresas aéreas. É desejavel e very polite que, ao menos, se cumprimente o vizinho de infortúnio (ergométrico e não outro, porque, afinal, ele também está viajando). Essa simples medida evitará, for instance, que, como dois seres primitivos, ambos fiquem disputando a cotoveladas o exíguo apoio de braços que os separa (ou une?).

O restante do relacionamento é uma questão de convenção. Há os que, como você, preferem uma quase utópica privacidade. Há, as well, os que buscam um contato verbal civilizado — e você ficaria surpreso, fellow, se soubesse quantas boas amizades podem nascer em tais ocasiões. Existem, também, of course, os fanfarrões. Essa espécie, I agree, pode ser mais inconveniente do que uma noite de turbulências. Nesses casos, I’m afraid, só nos resta lamentar a má sorte ou, em caso de apuro comprovado, recorrer à infalível solução do sonífero na bebida alheia, providência que, shame on me!, já tive de tomar certa feita.

Entre passageiros educados, a senha utilizada para abortar uma conversação é aproveitar uma brecha e abrir um livro. Raras vezes não funciona. Utilizo-a com parcimônia e apenas quando estou very tired. Em regra geral, agrada-me trocar idéias com alguém que está compartilhando de meu destino. A prática, however, já me ensinou a distinguir até onde pode ir um relacionamento tão fortuito e improvável como são os que ocorrem em aviões de longo alcance. Os latinos, de forma geral, serão mais loquazes e emocionais. Houve uma ocasião em que minha vizinha venezuelana lamentou-se a tal ponto que, ainda no meio do Atlântico, fui forçado a dissuadi-la de sua idéia de suicidar-se. Fiz com que ela visse que Juanito, afinal, era um cafajeste, matar-se por ele era dar valor demasiado a um pústula, and so on.

As cartas que recebi mais tarde comprovaram que fui convincente.

Europeus serão, often, mais reservados. Mas não lhes deem muita bebida, my God! Já quando viajo ao lado de orientais — sobretudo japoneses —, procuro ser apenas cortês e reverente. Embora os costumes venham mudando, nunca foi de bom tom enchê-los de perguntas. Minha saudosa amiga Pearl (N.da R.: Pearl S. Buck, escritora norte-americana, Prêmio Nobel de Literatura), contou-me que, certa vez, na casa de uma sua amiga perto de Tóquio, observou a presença de uma mulher silenciosa dividindo a sala com ambas. Movida por sua curiosidade de autora, inquiriu sua amiga sobre a mulher. “ É minha irmã. Casou-se há vinte anos e quatro dias depois voltou para casa” “O que aconteceu?” insistiu Pearl. “ Não sei. Jamais julgamos de bom tom perguntar”.

Uma dessas seria a sua vizinha ideal em um avião, não seria dear Otávio?

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 26 de maio de 2022

GALINHAS

GALINHAS
("Galinhas", do anarquista Rafael Barrett, Paraguai, 1910.)

Enquanto não possuía nada além da minha cama e dos meus livros, eu estava feliz. Agora eu possuo nove galinhas e um galo, e minha alma está perturbada. A propriedade me tornou cruel.

Sempre que comprava uma galinha amarrava-a dois dias a uma árvore, para impor a minha morada, destruindo em sua memória frágil o amor à sua antiga residência. Remendei a cerca do meu quintal, a fim de evitar a evasão dos meus pássaros, e a invasão de raposas de quatro e dois pés. 

Eu me isolei, fortifiquei a fronteira, tracei uma linha diabólica entre mim e meu vizinho. Dividi a humanidade em duas categorias; eu, dono das minhas galinhas, e os outros que podiam tirá-las de mim. Eu defini o crime. O mundo encheu-se para mim de alegados ladrões, e pela primeira vez eu lancei do outro lado da cerca um olhar hostil.

Meu galo era muito jovem. O galo do vizinho pulou a cerca e começou a corte das minhas galinhas e a amargar a existência do meu galo. 

Despedi o intruso a pedrada, mas eles pularam a cerca e aovaron na casa do vizinho. Eu reclamei os ovos e meu vizinho me odeia. Desde então vi a cara dele na cerca, o seu olhar inquisidor e hostil, idêntico ao meu. Suas galinhas passavam a cerca, e devoravam o milho molhado que consagrava aos meus. As galinhas dos outros me pareciam criminosas. Persegui-os e cego pela raiva matei um. O vizinho atribuiu grande importância ao atentado. Ele não aceitou uma indemnização pecuniária. Retirou gravemente o corpo do seu frango, e em vez de comê-lo, mostrou-o aos seus amigos, o que começou a circular pela aldeia a lenda da minha brutalidade imperialista. Tive que reforçar a cerca, aumentar a vigilância, aumentar, em suma, meu orçamento de guerra. O vizinho tem um cão determinado a tudo; eu pretendo comprar uma arma.

Onde está minha antiga tranquilidade? Estou envenenado pela desconfiança e pelo ódio. O espírito do mal tomou conta de mim.

Eu era um homem.

Agora eu sou um dono.

Fonte: Facebook, da página Philosofando
Em tempos de embustes universais, dizer a verdade se torna um ato revolucionário. (George Orwell)

LUGARES

SAN FRUTTUOSO - ITÁLIA
 

Situada numa baía muito bonita, a Abadia de SanFruttuoso foi construída entre 10 º e 13 º século.

 

Originalmente um mosteiro beneditino, a Abadia de San Fruttuoso tornou-se propriedade dos Príncipes Doria por alguns séculos. Uma caminhada de duas horas, entre pinheiros e oliveiras, chega-se a Portofino. A visão do alto é deslumbrante. O retorno também é feito através de barcos.

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


CRASE COM PRONOMES DEMONSTRATIVOS E COM QUE

A crase também ocorre com os pronomes demonstrativos aquele(s), aquela(s) e aquilo. Isso acontece quando a expressão anterior é acompanhada da preposição a, que se aglutina ao a inicial desses pronomes. Pronuncia-se um A só. Na escrita, também fica um A só, mas com acento grave:
  • Refiro-me a aquele homem. > Refiro-me àquele homem.
  • Refiro-me a aquela mulher. > Refiro-me àquela mulher.
  • Não me refiro a aquilo. > Não me refiro àquilo.
Analisemos a mesma frase com o uso dos outros pronomes demonstrativos. Veremos que com eles a crase é impossível, pois não começam pela vogal a: “Não me refiro a isso, refiro-me a esta questão, não me refiro a esse tema”.

Muitas pessoas estranham o acento numa palavra masculina como “aquele”. Vale lembrar que a crase implica duas vogais idênticas, portanto o que conta é a fusão do preposição com a letra a que dá início ao pronome. Vejamos alguns exemplos:
  • Comprei um vaso semelhante àquele que recebi de presente o ano passado. > semelhante aquele
  • Todas as minhas taças são iguais àquelas que vovó tinha. > iguais a + aquelas
  • Cumpre seu papel com respeito absoluto àquilo que de melhor lhe foi transmitido por seus pais. > respeito a + aquilo
  • Ganhei uma toalha idêntica àquela que me deste no Natal. 
  • Todos os diretores devem ficar cientes. Comunique o fato primeiro àquele que você considera mais importante. 
  • O plano é um desafio àquelas convenções estabelecidas no acordo. 
  • Dirigiu-se àquela moça que vimos ontem no Jornal do Meio-Dia. 
  • Agradeço a meus pais e àqueles que sempre confiaram em mim. 
  • Sabes a quem vou escrever? Àquele amigo de infância que se mudou para Olinda quando estávamos na 6ª série. 
  • Os recursos serão destinados somente àqueles empresários em dia com o IR. 
  • Prefiro esta proposta àquela.
O auxílio-acidente será devido a partir do dia seguinte ao da cessação do auxílio-doença, quando este benefício anteceder àquele (Lei 8.213/91).

--- A crase está relacionada a um substantivo feminino, como você já falou. Mas vi um à craseado na frente de um “que”. Está correto?  A frase era assim: Espero que você compre uma peça idêntica à que você quebrou. Adroaldo, São José/ SC

Trata-se de caso menos comum; é uso correto. Na verdade, a crase aí ocorre não pelo pronome relativo “que”, mas por causa de um substantivo feminino subentendido, que está oculto justamente porque se pretende evitar sua repetição:
  • Disse que tinha amor à vida, “à [vida] que tinha antes do acidente”, frisou com pessimismo.
  • Espero que você compre uma peça idêntica à [peça] que você quebrou.
  • Ganhou uma moto igual à [moto] que havia comprado um mês antes.
Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 25 de maio de 2022

DE VOLTA PARA O FUTURO - 2

DE VOLTA PARA O FUTURO - 2
José Horta Manzano

O esfacelamento da União Soviética, no início dos anos 1990, abriu as portas da Rússia para as grandes empresas ocidentais. O país estava na lona. Precisava de recauchutagem completa Foi nessa leva que entraram as montadoras de automóveis.

Os russos deram adeus aos velhos Lada, aqueles carros tipo pé de boi de fabricação soviética que o Brasil chegou a importar nos anos 1980 e dos quais a gente costumava dizer que até a chave já vinha enferrujada.

Trinta anos se passaram, e a implantação das grandes construtoras automobilísticas se firmou e se reforçou. Até outro dia, estavam produzindo a todo vapor para um mercado de 145 milhões de consumidores.

Nisso, Vladímir Putin teve a estúpida ideia de invadir a Ucrânia. E veio a guerra. E vieram as sanções econômicas. E tudo parou. Nesse embalo, as montadoras europeias puxaram o carro (expressão caseira que cai bem neste caso). Entre as que se foram, está também a francesa Renault, atual proprietária da antiga Avtovaz, que fabricava o Lada.

No entanto, com ou sem guerra, o mercado russo continua exigindo carros. Mas, sem os estrangeiros, como fazer? A importação está fechada. Insumos, peças e componentes eletrônicos importados não entram mais no país.

As autoridades de Moscou decidiram engatar o modo desespero. Tomaram uma decisão que representa um retrocesso de três décadas na produção de automóveis no país.

Foram-se embora as montadoras? Sem problema. Ressuscita-se a velha Avtovaz e vamos em frente.

Faltam câmeras de ré? Sem problema. Põem-se à venda veículos sem câmera.

Faltam sistemas de freio ABS? Sem problema. Os carros novos vêm sem freio ABS.

Faltam airbags? Sem problema. Carro novo não precisa de airbags. Nem frontais, nem laterais.

Um decreto emitido pelo Executivo russo acaba autorizar que carros novos sejam comercializados sem uma série de equipamentos de segurança que eram exigidos até agora. Na Rússia, mudam-se leis com a mesma facilidade com que se mudam no Brasil.

Num país onde o número de acidentes de carro já está acima da média mundial (e se aproxima do assustador morticínio brasileiro), analistas acreditam que haverá 2000 ou 3000 mortos a mais por ano.

O decreto governamental afrouxa também as normas de emissão de gases poluentes. Volta-se ao que vigorava em 1988.

Fonte:brasildelonge.com
Quando os pais já construíram tudo, aos filhos resta derrubar. (Karl Kraus, escritor austríaco, 1874-1936)

LUGARES

ROMA - ITÁLIA
(Embaixada do Brasil)

CATARATA, ADEUS

CATARATA, ADEUS
Ruy Castro

O que posso e não posso fazer entre as duas cirurgias

Minha oftalmo, dra. Marize Pereira, não pode saber que vou escrever esta coluna. Estou entre duas cirurgias de catarata. A do olho esquerdo foi há dias, a do direito será em outros tantos, e suas recomendações foram as de que, além do colírio de hora em hora, eu mantivesse certa distância do computador e evitasse abaixar a cabeça para calçar o tênis ou pegar clips no chão. Muito simples. O que não falta, no entanto, são palpites de amigos sobre o que posso e não posso fazer. Tantos palpites, aliás, que resolvi tomar nota para segui-los à risca.

Segundo eles, posso botar os telefonemas em dia. Ouvir futebol pelo rádio. Escutar o que me falta de Duke Ellington. Tomar sorvete. Escrever mentalmente. Comer banana. Assobiar --se não souber, como é o caso, aprender. Cantar —de preferência, a sotto voce ou à bocca chiusa. Jogar bilboquê —esporte abandonado há décadas. Contar piadas —prática hoje quase clandestina, já que elas só têm graça se forem politicamente incorretas. Descascar tangerinas. Passear nas Paineiras. Dormir.

Em compensação, a lista do que não posso fazer é enorme e está exigindo grande força de vontade. Eis algumas. Tirar cisco do olho. Piscar (e menos ainda perto de uma mulher —posso ser mal interpretado). Reler "Guerra e Paz". Ler de modo geral —bulas de remédio e informação nutricional em potes de iogurte, então, nem pensar. Participar de seminários sobre a Semana de Arte Moderna. Tocar pandeiro.

Enfiar a linha numa agulha. Procurar a dita agulha num palheiro. Procurar o dito palheiro. Praticar tiro ao alvo. Dançar funk. Jogar malabares. Disputar maratonas. Ter crise de soluços. Entrar em combustão espontânea. Ir de férias para a Ucrânia.

E mais proibido do que tudo: ver televisão. Bolsonaro ou um de seus asseclas pode aparecer na tela e eu me perguntar se vale a pena voltar a enxergar direito.

Fonte: Folha de S. Paulo

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 24 de maio de 2022

PAPAI, TODO MUNDO MORRE?

PAPAI, TODO MUNDO MORRE?
Antonio Prata

Não dá pra dizer que a pergunta me pegou de surpresa. Temia por este momento desde muito antes de ter filhos, desde que percebi, ainda na adolescência, que tinha tão pouca fé em qualquer faixa bônus para além da última diástole quanto coragem para transmitir a má notícia a uma criança.

O que eu ia falar quando chegasse a hora? "Veja, meu filho, a vida é uma improbabilidade absurda decorrente de fenômenos físicos e químicos aleatórios controlados por nada ou ninguém e a consciência, isso que chamamos de 'eu', nada mais é do que uma tempestade de descargas elétricas e liquidinhos entre neurônios; quando a gente morre desliga-se a chave geral, fecham-se as comportas, a consciência desaparece e o nosso corpo é comido por vermes e bactérias. Toma, lê aqui 'A Origem das Espécies' e 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'." Não. Não ia rolar.

O medo daquele instante, contudo, não me levou a pensar numa estratégia, a elaborar um discurso, a gastar cinco minutos numa das 20 visitas ao pediatra para pedir um conselho. Já havia quatro anos que os deliciosos circuitos neuronais mais conhecidos como Olivia estavam entre nós, dois e meio que as sinapses do Daniel vinham nos dando o ar de suas graças e mesmo assim fui pego absolutamente desprevenido, ralando um queijo sobre a sopa de ervilhas, na hora do jantar: "Papai, todo mundo morre?"

A pergunta, como você há de ter percebido, chegou enviesada, prenhe da resposta que a Olivia gostaria de ouvir: "Não, filhota, imagina! Só morrem umas pessoas nada a ver, gentios ou infiéis que a gente nem conhece, além dos peixes, galinhas, porcos e bois das refeições. Eu, você, o Dani, a mamãe, a família, os amigos e todo o Grupo 2 e 3 da escola vamos viver pra sempre, relaxa e come aí a sua sopa".

Sem saber como sair da enrascada, resolvi apelar para a verdade: "Sim, Olivia, todo mundo morre". Infelizmente, como sói acontecer, a verdade não foi muito bem recebida. "Mas eu não quero morrer, papai! Eu não quero morrer!". Pensei melhor no assunto e resolvi mentir um pouquinho: "Minha filha, a gente só morre quando fica muito, mas muito, muito velho". "Então a bisa Augusta vai morrer! Ela é muito, muito, mas muito velha!".

Já que eu estava com a ficção pelas canelas, decidi mergulhar de vez: "Não, Olivia. A bisa Augusta é jovem, ela ainda tá com 97, só morre muuuuuuito mais velha do que isso".

Servi a sopa. Olivia ficou encarando as ervilhas com uma concentração shakespeariana. Cada bolinha verde, uma caveira de Yorick. Então ergueu os olhos, séria. "Papai, na minha classe, no Grupo 3, tem um menino que chama Baltazar". Tremi nas bases. Iria ela me dizer que a mãe do Baltazar, do Grupo 3, tinha morrido? O pai? A mãe E o pai? O próprio Baltazar? Como eu iria explicar que tinha mentido, que a vida era isso aí mesmo, uma barafunda inglória em que crianças morrem, bandidos viram presidentes e CEOs, poetas passam fome e o Gugu Liberato nada em milhões? "O Baltazar, do Grupo 3, papai... Ele levou de lanche, outro dia, uma mexerica sem caroço!".

"É mesmo, Olivia?! Uma mexerica sem caroço?! Que legal! Eu vou comprar pra você uma mexerica sem caroço! E melancia sem caroço! E uva sem caroço! Vamos encher essa casa de fruta sem caroço, eu prometo!". Abracei cada um deles bem forte, entreguei as colheres de sopa e me escondi atrás da geladeira, onde dei uma chorada rápida antes de voltar com os guardanapos.

Fonte: Folha de S. Paulo
Nunca é demasiado tarde para teres uma infância. Mas a segunda somente depende de ti. (Regina Brett)

LUGARES

TOMAR - PORTUGAL
Tomar é uma cidade portuguesa pertencente ao distrito de Santarém, na província do Ribatejo na região do Centro e sub-região do Médio Tejo, tendo 19 654 habitantes. É sede do município de Tomar com 351,2 km² de área e 40 677 habitantes, subdividido em 11 freguesias. Wikipédia

ROMANCE FORENSE

Imagem da Matéria
Charge de Gerson Kauer

O usucapião da mulher

Por Maurício Krieger, advogado (OAB/RS nº 73.357)

Em um famoso bar da cidade de Porto Alegre, três amigos se reúnem em uma sexta-feira depois do trabalho para conversar. Tinham sido colegas de faculdade de Direito e hoje dois seguem a carreira de advogados e outro de juiz. (Este não é daquele grupo que fixa honorários em R$ 200...).

Entre algumas conversas e muitas cervejas, um dos advogados conta uma história absurda, da qual garante ter sido participante.

Vocês não vão acreditar no pedido que um cliente me fez. Ele queria entrar com uma ação para usucapir uma mulher que estava, há cinco anos, tendo um caso com ele. Mas ela namorava – fixo! – um outro cara. O cliente insistiu que a posse que ele mantinha sobre a dita cuja, era mansa e pacífica, porque o namorado oficial dela sabia da história e não fazia nada para impedir.

Há um silêncio na roda, com expressões de incredulidade dos dois restantes e do garçom curioso que está de pé próximo. O advogado volta à carga:

- Expliquei ao cliente que essa seria uma demanda impossível, sem fundamento jurídico, que não preencheria as condições da ação e que eu ainda corria o risco de ser denunciado à OAB, caso patrocinasse uma coisa tão absurda como essa. Foi quando, então, o cliente me disse que procuraria a Defensoria Pública.

- Esse homem tem que ser internado numa clínica para loucos – objetaram, em conjunto, uníssonos, os outros dois integrantes da roda.

É quando o abelhudo garçom que havia escutado a história resolve palpitar:

- Doutores, me desculpem a intromissão. Eu não entendo nada de direito, mas a única coisa que eu entendi não é que a posse sobre a mulher seja mansa e pacífica. Verdade mesmo é que o namorado dessa dona é que é um corno manso e pacífico!

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS