segunda-feira, 27 de março de 2017

Eu nunca perco. Ou eu ganho, ou aprendo! (Nelson Mandela)

LUGARES

RIBEAUVILLE - FRANÇA

Ribeauvillé (alemão Rappoltsweiler) é uma comuna francesa na região administrativa da Alsácia, no departamento Alto Reno. (wikipédia)

PÁGINAS PARADAS

Fabrício CarpinejarFabrício Carpinejar

Fui convidar amigos para um evento no Rio de Janeiro e encontrei as páginas ativas de três deles que já estavam mortos. Como assim?

Despertou um mal-estar, um incômodo, como se estivesse profanando túmulos. Tinha receio de espiar as postagens, o que agravaria a saudade o tanto que eles significavam para mim. Afogava-me na navegação com a respiração cortada e acelerada.

Reparei que é um problema comum. No Facebook e Instagram, meus dedos caminham em lápides. Páginas paradas de quem morreu. Sem nenhuma administração. Sem flores e celebração. As senhas foram embora com os seus donos.

É um cemitério que cresce entre os vivos, sem distinção. Sem que as pessoas sejam enterradas. Sem um aviso claro de despedida. Sem um adeus e uma cruz. Os rostos parecem tão bem ainda nas fotografias, com saúde e cheios de planos, mas não estão mais aqui.

Tento localizar uma nota dissonante na harmonia cronológica, um aviso póstumo nas legendas, porém não há. As últimas frases não são pressentimentos. Não portam nenhuma mensagem implícita, nenhuma criptografia de salvação, nenhum recado para o futuro

Posso apagar o e-mail e o celular da minha lista de contatos, só que não tenho como mexer naquele continente alheio para hastear uma bandeira preta no lugar da azul.

O endereço virtual é imutável, não receberei um carimbo dos Correios com o X assinalado no quadrinho de Falecido. Antevejo o quanto a dor deve cortar um pai ou uma mãe ao entrar na web e enxergar seu filho morto ainda vivo por lá, com a possibilidade de mandar um comentário e ter a foto do outro lado piscando.

Sim. Nem todos lembram de pedir a remoção para o Facebook. Nem todos sabem que podem converter o espaço em memorial. Nem todos enfrentam o enterro virtual, já que foi tão cansativo o velório físico.

Diante da constelação de estrelas mortas insistindo em brilhar, eu questiono o trabalho inútil de multiplicar os seguidores e não fortalecer os poucos amigos que nos restam.

Dedicamos a maior parte de nosso tempo para as redes sociais e reservamos as sobras para a convivência. Às vezes a esposa e os filhos descobrem algo pelas postagens antes de nossa palavra e voz. Não é um sintoma de deslealdade?

Compramos a imortalidade no espelho e rifamos a passagem das marcas e das rugas na pele.

Separamos as nossas folgas e distrações para abastecermos os nossos endereços com vídeos e imagens, para explicarmos o que estamos fazendo, para fingirmos uma alegria que não durará nem até a próxima postagem.

Sacrificamos os nossos descansos para permanecermos em evidência. São likes, risos e corações em uma série interminável de fotogramas. Tem gente, inclusive, que parece que não dorme tendo em vista os seus aplicativos sempre atualizados. Será que é um receio de ser tão pouco para nós mesmos

Somos patrões de nossa rotina digital 24h, empresários full time de nossas roupas, gostos e opiniões, não concedendo férias, FGTS, hora-extra e insalubridade para a nossa porção pobre de realidade.

Não há como parar sequer um dia, para não comprometer a performance e arriscar uma queda de seguidores. É uma compulsão para manter uma realidade paralela, em troca do desaparecimento gradual no próprio cotidiano.

A comida esfria porque temos a obrigação de fotografar o prato. A festa acaba porque nos distraímos atrás do clique perfeito. O bar esvazia porque os drinques pediam filtros.

Cultivamos miragens. Desistimos de conversar olhando nos olhos. Nossos abraços vão se esgueirando, nossos beijos se apressam em selos, o sexo nem terminou direito e já corremos para a tela luminosa do aparelho para ver o que perdemos entre os tweets do momento e as manchetes do Facebook.

A visibilidade vale o sacrifício? Não seria melhor ter permanecido mais tempo perpetuando hábitos com os amigos, aventurando-se nos afetos?

Talvez as redes sociais apresentem mais informações sobre o morto do que os próprios familiares. É justo com quem dividimos a intimidade da casa?

Estamos cada vez mais vivos na morte e fantasmas em vida, legando lacunas e imprecisões aos mais próximos.

Não há despedida na virtualidade pois, no fundo, não desenvolvemos a consciência da nossa finitude. Toda aquela atenção virtual custou uma enorme e irreparável desatenção.

O que demoramos a reconhecer é que a nossa biografia mora nas cenas que não foram publicadas. Elas que formam o amor que deixaremos, nada mais.

Fonte: Facebook

CHARGES


DE VOLTA AO PASSADO QUE NÃO VIRÁ

Carlos Chagas

Egocêntrico e vingativo. O rótulo se aplica, mais do que à metade da Humanidade, a quem o praticou. No caso, a Fernando Henrique Cardoso. Menos porque ele aplica o diagnóstico que o marcou como presidente, mais porque até hoje não desencarnou, muito pelo contrário. Não se passa um dia sem o sociólogo encenar novos capítulos do espetáculo patrocinado pelo seu próprio ego. Julga-se acima do Bem e do Mal, ainda agora repetindo o refrão de que “aqui estou eu, por que não me convocam?”

No fundo, portando uma melancia no pescoço, julga-se preparado para fazer aquilo que não fez nos dois mandatos que ocupou no palácio do Planalto. Quando lançado por Itamar Franco, dava a impressão de poder realizar mais uma etapa de sua biografia, falsamente expressa até sua eleição. Vinha de uma trajetória política medíocre mas acorde com as necessidades nacionais, de mais justiça social e melhoria das condições de vida dos excluídos. Ledo engano, porque pedindo a todos esquecerem o que havia escrito, revelou-se a expressão das elites às quais, revelou-se depois, sempre servira.

RETROCESSO SOCIAL – Nenhum presidente da República dilapidou tanto os sonhos de igualdade e de progresso social. Serviu diligentemente aos ricos e poderosos, engrenando marcha-a-ré nas conquistas sociais alcançadas a duras penas. Tornou-se o símbolo do retrocesso. Privatizou patrimônio público, retirou direitos dos excluídos e satisfez desejos e exigências dos mesmos de sempre.

Agora, FHC tenta apagar os resquícios das esperanças um dia despertadas naqueles que enganou. Ataca Itamar Franco, como se fosse a sombra reveladora de sua traição às origens.

Deseja o quê, em sua permanente tentativa de não ser esquecido? Apenas o impossível retorno ao passado.

Fonte: Tribuna da Internet

FRASES ILUSTRADAS


domingo, 26 de março de 2017

BRASÍLIA ACABOU MINHA GENTE

Stephen Kanitz

Brasília virou uma cidade alienada do povo, uma ilha da fantasia.

Em vez de destruí-la, de soltar uma bomba atômica, sonho da maioria dos brasileiros, precisamos ser mais humanos, mas agir com firmeza.

Precisamos tirar o poder excessivo de Brasília.

Precisamos reduzir seu poder.

Reduzir o tamanho do Estado imediatamente, sonho liberal que eu posso entender, do ponto de vista prático será uma luta sangrenta e impossível.

Eu proponho algo intermediário, mas que pode nos trazer resultados parecidos de forma mais rápida.

Descentralização do Governo Federal.

Menos poder Federal, mais poder para Estados e Municípios.

Menos poder para Ministros, e mais poder para Secretários.

Menos decisões em Brasília, mais decisões a nível Estadual, Municipal e a Comunitário.

Menos impostos Federais e mais impostos Estaduais, e menos transferências para Brasília.

Assim teremos governadores, prefeitos, deputados estaduais a nosso favor e eles são maioria.

Descentralizado, aí sim poderemos fazer aquilo que queremos.

Poderemos fazer tudo com mais eficiência, e quem sabe até devolver impostos no final do ano.

Entenderam a jogada?

Descentralizado, poderemos desestatizar mais facilmente sem mudar a Constituição, etc, etc.

Se lutarmos por Descentralização do Estado, teremos por tabela o sonho de uma Redução do Estado logo em seguida, de forma mais rápida e factível.

Palavra de administrador.

Fonte: blog.kanitz.com.br 

sábado, 25 de março de 2017

EM NOME DO PAÍS

Bernardo Mello Franco

"É mais uma vitória no caminho do Brasil que queremos", comemorou o presidente da Fiesp, Paulo Skaf. "É um avanço para o Brasil", endossou o presidente da Associação Comercial de São Paulo, Alencar Burti.

Os empresários falaram em nome do país ao festejar a manchete dos jornais desta quinta (23): a Câmara liberou a terceirização irrestrita do trabalho. Faltou esclarecer se a notícia é mesmo boa para todos, ou apenas para os donos do dinheiro.

A Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho sustenta que a mudança não é nada patriótica: na prática, vai tirar direitos dos trabalhadores. Para a entidade, o objetivo do projeto é aumentar os lucros das empresas com a precarização dos vínculos dos funcionários.

Um estudo do Ipea revela que os terceirizados recebem 17% a menos no fim do mês. De acordo com o Dieese, eles sofrem cerca de 80% dos acidentes de trabalho e permanecem 2,6 anos a menos no emprego.

Numa estratégia negociada com o governo Temer, a Câmara desengavetou um projeto de 1998 para liberar a terceirização irrestrita. Com a manobra, o texto não precisará ser votado no Senado, onde haveria mais resistência à sua aprovação.

O texto foi encaminhado à sanção presidencial. No dia seguinte, as empresas estarão livres para demitir funcionários e obrigá-los a formar cooperativas ou a se "pejotizar" para continuar trabalhando.

Governo e empresários repetem que a mudança vai reduzir o desemprego. Falta explicar por que a taxa atingiu o menor nível histórico no fim de 2014, quando a legislação trabalhista era rigorosamente a mesma.

Os defensores do projeto também acenam com um salto social para os terceirizados. O presidente do Sebrae, Guilherme Afif Domingos, descreveu um cenário em que "o operário vira empresário". Se os procuradores do Trabalho estiverem certos, o operário vai continuar operário. Só que com menos direitos. 

Fonte: Folha de S. Paulo

O bem da humanidade deve consistir em que cada um goze o máximo de felicidade que possa, sem diminuir a felicidade dos outros. (Aldous Huxley, escritor inglês, 1894-1963)

LUGARES

ROTTERDAM - HOLANDA

MR. MILES


Sobre a idade de Mr. Miles
Nosso impecável viajante resolveu responder a duas missivas eletrônicas que recebeu na semana que passou. Vamos a elas:

Caro Mr. Miles:
Suas mensagens são sempre bem-vindas. Bem escritas e com interessantes observações. However, nesta última você menciona sua presença na cerimônia de inauguração do Cristo Redentor no Rio em 1931. Caso tivesse meros 30 anos na ocasião, estaria agora com 115 anos e mesmo se tivesse apenas 10 aninhos, ainda estaria hoje com 95. Hard to believe. Afinal, qual é sua verdadeira idade? Abraços, Roberto Grad, por email

Well, my friend: mais uma vez a pergunta que todos cismam em me fazer. Em primeiro lugar, embora não seja uma lady, acho sempre deselegante falar em idade. Seus cálculos, by the way, estão corretos. Mas o que posso fazer se cismo em ficar vivo para seguir viajando? Creio que tenho uma boa natureza e quase não reclamo, exceto de raras dores no joelho direito e das recidivas de uma malária que contrai no Congo anos atrás. Considero-me, indeed, uma pessoa saudável, porque sou um ser semovente em um universo paralisado. Minha idade, dear Robert é justamente a que tenho: não está adiantada nem atrasada, don’t you agree?

A única “vitamina especial” que uso é esse entusiasmo em descobrir lugares e pessoas, que alimentam minha alma e, as you see, meu corpo. Uma tarefa tão agradável quanto interminável. No dia em que não houver mais dessas pílulas em minha farmácia espiritual, o jornal provavelmente terá de arrumar outro colunista. Quanto à inauguração do Corcovado, tudo ocorreu exatamente como descrito em minha última coluna por cujo sucesso e repercussão agradeço aos leitores de todas as idades.

Caro Mr. Miles.
Em primeiro lugar parabéns pela sua maneira perspicaz de conduzir sua coluna. Sou leitor assíduo e confesso que na realidade não sei se o Sr. é real ou virtual, mas tenho certeza que o Sr. é mestre em suas colocações, indicações e sugestões. No ano passado o Sr. aconselhou um jovem com dupla cidadania, a não se mudar para Irlanda, e que ele deveria através do voto mudar nossos governantes, e com isto, mudaríamos o "norte" de nosso País.

Minha pergunta é: hoje com o pós "LAVA JATO", o sr. acha que ainda temos tempo para mudar nosso destino? Ou o Sr. se fosse jovem tentaria começar uma nova vida em outro País ?.
Ricardo Soares Pereto, por email.

Well, dear Richard: sobre minha suposta "virtualidade", acho que pude esclarecer o assunto na resposta anterior. Já sobre a renomada operação Car Wash, de nome curioso, ouso dizer que trata-se, at last, de um processo de depuração, que pode lever meses, anos ou séculos — mas há de funcionar.

Tenho pouca fé na natureza humana — infelizmente somos, na maioria, seres ruins. However, acredito que, com o tempo e a razão, conseguimos controlar os piores de nossos instintos e aprendemos a viver, pelo menos, em certa harmonia. Pessoas que abandonam seu país estão, ao mesmo tempo, desiludidas (de sua nação) e iludidas ao acreditar que o jardim do vizinho é mais verde. Só entendo quem se refugia quando a maldade e a pobreza ganham proporções insustentáveis — como ocorre na Síria e em diversos países africanos. De resto, a melhor razão para deixar um país é — como eu sempre digo — a possibilidade de conhecer outros. É viajando que se aprende a tolerância e se percebe que, de um jeito ou de outro, em um momento ou noutro, todos os lugares têm de purgar suas próprias dores. Para poderem renascer limpos, brilhantes e cheirosos como um carro depois de um lava-jato. Don't you agree?

Fonte: Facebook

CHARGES


A BRIGA DO JUQUINHA COM O ZÉZINHO

Carlos Chagas

Ao acusar a Procuradoria Geral da República de divulgar segredos de justiça, o ministro Gilmar Mendes posiciona-se em favor dos deputados, senadores e ministros que poderão ser punidos, perdendo o mandato e os direitos políticos. Já o procurador Rodrigo Janot deseja que os mais de 150 parlamentares denunciados por ele se explodam, ou seja, deixem de ser parlamentares e possam até parar na cadeia. Traduzindo o festival de baixarias encenado pelos dois expoentes do poder, verifica-se o tradicional embate entre a impunidade e a punição total.

Saber quem tem razão é perda de tempo. Os dois estarão certos, exceção das agressões e das ofensas ao vernáculo que andam trocando. No universo político que Janot e Mendes tentam ordenar, existem bandidos esperando punição e inocentes merecedores de alforria.

DONOS DA VERDADE – Quer dizer, a um só tempo, o procurador e o ministro estão certos e estão errados. Falta-lhes a serenidade para entender que a virtude está no meio. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, diria o Conselheiro Acácio, que tanta falta nos faz nos dias de hoje. Os dois contendores extrapolam e pretendem-se donos da verdade. Distribuem vaidade e presunção, mais ou menos como o Juquinha e o Zézinho disputando goiabas.

O grave no episódio é que contaminam o ar à sua volta. Geram dois grupos opostos e inconciliáveis, próximos de adotar o radicalismo de seus mentores. Haverá injustiça caso condenados todos os políticos que receberam o Caixa Dois, propinas e dinheiro podre. Como também injustiça emergirá do perdão amplo, geral e irrestrito para quantos se valeram de recursos ilícitos.

Fonte: Tribuna da Internet

FRASES ILUSTRADAS


sexta-feira, 24 de março de 2017

UM CENÁRIO INGRATO

Bernardo Mello Franco

A turma que tenta melar a Lava Jato ganhou mais um motivo para sonhar. O ministro Gilmar Mendes sugeriu que a delação da Odebrecht pode ser anulada pelo Supremo Tribunal Federal. Seria um tiro fatal nas investigações sobre os repasses da empreiteira a políticos.

O motivo alegado por Gilmar é a publicação de informações sigilosas na imprensa. Ele acusou a Procuradoria-Geral da República de tratar o Supremo como "fantoche" e afirmou que o vazamento de informações é "eufemismo para um crime".

"Cheguei a propor no final do ano passado o descarte do material vazado, uma espécie de contaminação de provas colhidas licitamente e divulgadas ilicitamente. Acho que nós devemos considerar esse aspecto", afirmou Gilmar.

As declarações irritaram o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Numa reação furiosa, ele sugeriu que o ministro padece de "decrepitude moral" e "disenteria verbal".

"Procuramos nos distanciar dos banquetes palacianos. Fugimos dos círculos de comensais que cortejam desavergonhadamente o poder", acrescentou o procurador, numa referência à presença constante de Gilmar em almoços e jantares com o presidente Michel Temer.

A troca de amabilidades é lamentável, mas questão que importa é outra: afinal, a delação pode mesmo ser anulada pelo Supremo?

Em conversas reservadas, três ministros da corte garantem que não. A divulgação de uma lista de investigados não comprometeu a Lava Jato, e a sociedade não aceitaria que a sujeira revelada pela operação fosse varrida para baixo do tapete.

Além disso, a anulação do caso poria em risco todas as investigações em curso no país. Daqui para a frente, os advogados passariam a adotar um método infalível: vazar provas contra os próprios clientes e pedir sua absolvição sumária. Seria um cenário ingrato até para os criminalistas, que se veriam obrigados a baixar o valor dos honorários. 

Fonte: Folha de S. Paulo

O VOTO COMO VETO

Hélio Schwartsman

Em algum momento não muito distante o Brasil vai ter de discutir e aprovar uma reforma política. Não estou muito certo, porém, de que seja o caso de fazer isso já. Talvez seja mais prudente aguardar o próximo Congresso.

O problema de decidir agora é que qualquer mudança ficará automaticamente sob suspeita (não necessariamente infundada) de ser um artifício para beneficiar parlamentares investigados na Lava Jato, o que não é bom para a credibilidade do sistema.

O risco fica evidente na proposta que ganha corpo entre políticos de adotar já em 2018 o voto em lista fechada, sistema no qual as agremiações decidem quem serão os candidatos a deputado e a ordem em que aparecerão, cabendo ao eleitor apenas votar na legenda de sua preferência. Em países onde as agremiações têm contornos ideológicos razoavelmente nítidos, esse sistema funciona e tem a vantagem de baratear as campanhas proporcionais, já que elas deixam de ser individualizadas e passam a ser coletivas. Aqui, no pós-Lava Jato, funcionaria também para esconder deputados com passado suspeito, uma vez que, se tiverem bom trânsito na burocracia partidária, poderão ficar no alto da lista sem dar a cara para bater na eleição.

Não há muita dúvida de que é o oportunismo que move os políticos a cogitar dessa alternativa. Em maio de 2015, esse mesmo modelo havia sido rejeitado nessa mesma Câmara pelo eloquente placar de 402 a 21.

Pessoalmente, defendo o voto distrital, mas, se insistirmos em pleitos proporcionais, acho importante criar um mecanismo que dê ao eleitor o poder de pelo menos vetar certos candidatos. Às vezes ele o usa bem. Em 2006, apenas 5 dos 69 (7,25%) deputados federais que figuraram no escândalo da máfia dos sanguessugas conseguiram reeleger-se.

A democracia, como a ciência, avança principalmente por meio de rejeições, isto é, dos vetos que a população impõe a pessoas e ideias.

Fonte: Folha de S. Paulo

A perda de nossas ilusões é a única perda da qual nunca nos recuperamos. (Marie Louise de La Ramée, romancista inglesa, 1839-1908)

LUGARES

AMALFI - ITÁLIA
Amalfi é uma comuna da província de Salerno, na região da Campânia, na Itália. Considerada uma das mais antigas repúblicas marítimas, Amalfi desenvolveu intenso intercâmbio com o Império Bizantino e Egito durante a Idade Média. Os mercadores amalfitanos conquistaram, dos árabes, o monopólio do comércio mediterrâneo, fundando, no século X, a base mercantil da Itália meridional no Oriente Médio. Entre os testemunhos mais importantes da grandeza de Amalfi, estão as "Tábuas Amalfitanas" (Tavole Amalfitane), um código que reunia as normas do direito marítimo e que permaneceu válido por toda a Idade Média. Depois da conquista pelos normandos em 1073, Amalfi iniciou uma rápida decadência, sendo substituída por Nápoles em seu papel de potência mercantil. Em 1137, foi saqueada pelos pisanos enquanto estava envolvida por catástrofes naturais (grandes inundações), sendo anexada então ao Reino da Sicília. (wikipédia)

DOS MEUS LIVROS

Oliver Twist - Charles Dickens

Comentário:
Segundo livro de Dickens, apresenta-nos as bases daqueles que serão os traços fundamentais da sua magnífica bibliografia: escrita muito visual, simples e fluída, servindo de base a uma temática de âmbito social que hoje talvez apelidaríamos “de intervenção”. Numa fase pré-socialista e pré-sindical, o capitalismo ainda mais selvagem que o de hoje imperava no ambiente vitoriano. A sociedade “british”, altiva e hipócrita, encaixava no seu seio a mais rude e desumana pobreza, encarando-a com naturalidade, como se os homens desprotegidos pela sorte constituíssem uma espécie de casta menor, que esses mesmos cidadãos “asseados” tinham de suportar.

Oliver, o miúdo órfão representa toda essa classe de crianças que a sociedade londrina rejeita, empurrando-a para a sarjeta da criminalidade e da miséria.

Este é um dos primeiros livros de Dickens e talvez por isso é um dos mais lineares e mais “ingénuos” na medida em que privilegia a narrativa, o humor e a emoção, a incerteza no evoluir da narrativa. Na sua tendência para a narrativa biográfica de ficção (que viria a reforçar e desenvolver com Nicholas Nickleby e David Copperfield, toda a ação é centrada nas personagens, nas suas emoções e sentimentos. Neste aspeto talvez Dickens tenha sido um dos percursores do género “novela”, entendido como romance ligeiro e que dá preferência às histórias “de vida”. Não sei, deixo isso aos especialistas da literatura. No entanto, o que interessa reter é que, sendo uma obra publicada em fascículos, Dickens, mesmo nesta fase inicial da carreira, manobra como ninguém a emoção e a incerteza na mente do leitor levando-o a devorar página sobre página.

Embora seja um crítico da austera sociedade vitoriana com todos os seus problemas. Dickens não deixa de ser, a seu modo, um moralista, como se vê numa parte essencial do livro em que um assassinato é seguido por uma violenta crise de consciência, um remorso a fazer lembrar o Crime e Castigo de Dostoievski.

Neste livro, o génio britânico desmente um pouco aquela ideia que por vezes fixamos a respeito das suas ideias, segundo a qual o autor defende incontornavelmente os elementos hierarquicamente mais baixos da sociedade; na verdade, aqui ele acusa claramente esse tipo de pobre que se refugia na criminalidade e por vezes roça até um certo moralismo. Mas depressa esse moralismo se desvanece e é substituído pelo humor com que a sua crítica atinge, por exemplo, os elementos da polícia londrina, supremos exemplos de estupidez.

O sentido de humor é finíssimo que deixa um sorriso permanente e não a gargalhada efémera. Exemplo, um trecho de um diálogo entre um bedel (funcionário paroquial) e a mulher de meia-idade, beata e bem nutrida:
“A dama não pôde resistir. Caiu nos braços do bedel, e este depôs um apaixonado beijo no nariz da matrona.

— Que perfeição paroquial! — Exclamou o Sr. Bumble!”

Posteriormente, o casamento destes personagens serve a Dickens para uma corrosiva e brilhante crítica social, apresentando-nos um bedel que deixa de ser o altivo funcionário para se transformar no submisso marido, capaz de encaixar uma valentes “porradas” por parte da matrona.

O livro termina de forma algo melodramática, num quadro profundamente emotivo que Dickens não repetirá (pelo menos de forma tão vincada) nas obras subsequentes.

Uma nota final para esta histórica e excelente tradução de Machado de Assis: aqui nada é supérfluo. Assis terá optado por uma tradução bastante interventiva que tornou o livro mais sintético mas, ao mesmo tempo, mais atraente ao leitor.

Sinopse (in wook.pt)
Obra maior de Charles Dickens, Oliver Twist destaca-se pelo seu realismo, retratando pela primeira vez a rudez dos gangs londrinos, até então descritos com glamour e romantismo. Realça a vida de escravatura das crianças de rua e um submundo paralelo ao mundo imperial da Grã-Bretanha.

Ladrões, assassinos, mentes perversas, prostitutas, a dureza da vida na sarjeta num mundo sem esperança povoam o universo de Oliver Twist, o órfão que personifica a resistência ao sofrimento à corrupção e à luta pela vida que faz dele um verdadeiro sobrevivente. Diversas vezes adaptado ao cinema e à televisão, Oliver Twist tem agora uma nova versão cinematográfica pela mão do mestre Roman Polanski. 
Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

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