quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Há duas ofensas que o homem não aguenta: a afirmação que carece de humor e de preocupações. (Sinclair Lewis, romancista americano, 1885-1951)

FRASES ILUSTRADAS


CHARLES

CHARLES
Por Sérgio Jockymann 

Pois, era bater uma chuvinha e Vila Velha tinha sapo até no peitoril da janela. E foi assim que o Fidêncio conheceu o Charles, que era um sapo muito simpático e discreto, que comia besouros na porta de sua casa. O Fidêncio, numa noite de pensar na vida, deu com o Charles a caçar besouros com uma língua muito rápida e se tomou de encanto pelo bicho. Ali mesmo na soleira da porta, batizou o sapo:

- Charles.

Deu o nome, porque achou o sapo com jeito de mordomo inglês, o que era a mais pura verdade. Pelo menos o Charles tinha mesmo um ar vazio de criado inglês, que olha como se pensasse em coisas muito importantes, quando na verdade nem aprendeu ainda a pensar. O pessoal embirrou um pouco com o nome, mas nesta altura o Charles já até virava a cabeça quando era chamado. Foi pegando tanta confiança, que um mês depois entrava pela casa a dentro e ficava embaixo do lampião da sala comendo bichinho. O Fidêncio armou um pedaço de umidade dentro de casa e, depois de algumas tentativas, o Charles aprendeu a escapar do calor, se aboletando naquela terrinha molhada. E ficava ali, ouvindo o Fidêncio que andava com muitos problemas na vida e tinha o costume de falar com o sapo, começando sempre por dizer:

- Charles, meu filho, tu vê bem o que aconteceu.

O sapo pregava os olhos nele e nas vírgulas, dava uma piscada cumprida, que lembrava mesmo um mordomo inglês de um filme de Shirley Temple. Ora, foi aí que caiu em Vila Velha um francês agrimensor, que no primeiro dia de chuva olhou aquela saparia toda e lambeu os beiços. No dia seguinte, como a chuva continuasse, saiu de rede a juntar rã pela cidade inteira. Como ser francês em Vila Velha exigia pelo menos um litro diário de conhaque, lá pelas tantas o Jacques não diferenciava muito sapo de rã, o que provocou comentários terríveis na cidade e um grande alarma no Fidêncio, que foi correndo para casa falar com o Charles:

- Tu não me sai de casa, que aquele francês te come.

Naquela noite, Fidêncio não conseguiu dormir. Era fechar os olhos e já via o francês comendo as pernas do Charles. Seis da manhã, o Fidêncio saiu e foi bater na casa do Jacques, de dedo apontado:

- Comeu meu sapo, morre!

Deu as costas e saiu para casa com um ar de quem havia cumprido com o seu dever. O francês, ainda sofrendo os efeitos de um litro de conhaque, ficou estatelado na porta a perguntar o que diabo era aquilo. Só que perguntava em francês o que não ajudava em nada, porque Vila Velha não era dada a esses luxos de linguagem. Mas tanto o Jacques minhocou aquilo, que naquela noite resolveu bater na porta do Fidêncio. Foi atendido pela caseira, uma preta velha, meio cega, que não entendeu coisa alguma, mas abriu a porta.

- Se sente.

O francês ficou ali na sala fumando um cigarro e nisso o Charles sentiu fome, saiu do seu cantinho e veio comer cascudo embaixo do lampião. O Jacques, que tinha muita sensibilidade para batráquios, ficou extasiado com aquilo e durante uma hora nem falou. Mas o Charles que era um sapo muito ladino, cheirou algum perigo e de repente deu três saltos e sumiu. Dez minutos depois, sem sapo para distrair, o francês também se retirou e fez mal, porque cinco minutos após sua saída, o Fidêncio entrava. E como sempre fazia foi dar boa noite ao Charles e não encontrou o sapo. Tirou a caseira da cama e a preta velha tudo o que conseguiu explicar é que o francês tinha entrado na sala.

- Ele ainda tava lá encantado com o sapo.

Fidêncio deu um berro e saiu como um raio. Nem um minuto, batia na porta do francês.

- Meu sapo?

Jacques procurou desesperadamente uma palavra para demonstrar ao dono o quanto havia gostado das habilidades do bicho e achou uma infeliz:

- Gostoso.

Levou três bofetões na hora e mais três quando chegou ao meio da rua. Aí se pôs a berrar pelo cônsul em todas as línguas que sabia, o que não impediu que o Fidêncio carregasse com ele para casa do coronel e jogasse o desgraçado no chão, com uma séria acusação por cima:

- Esse gringo comeu meu sapo de estimação.

Ora, o coronel simpatizava muito com o Charles e vivia aconselhando ao Fidêncio que enviasse uma fotografia do sapo para o Correio do Povo, só para mostrar como Vila Velha era uma cidade culta, que tinha até um batráquio amestrado. Por isso, ficou danado de raiva e quando o francês tentou se explicar ele berrou:

- Você comeu um patrimônio da cidade.

E como andava uma revolução pelo país, aproveitou a ocasião para juntar o útil ao agradável.

- Prende o gringo, o dr. Luisinho e o Gaspar. Os três são espião paulista.

O Fidêncio disse que o dr. Luisinho não tinha nada a ver com o sapo, mas o coronel não concordou:

- Isso é o que tu pensa. Conheço o home. Vai ver que até deu o endereço do teu sapo.

Mas isso não consolou o Fidêncio que voltou para casa com a sensação de ter perdido um filho. E estava ali chorando, quando o Charles entrou na sala muito sim-senhor e comeu dois cascudos.

- Charles meu filho!

E se pôs de joelhos juntando cascudo para o Charles comer. E só depois que o sapo vomitou um cascudo porque não se aguentava mais com o banquete, que Fidêncio pensou no francês.

- Tou fazendo injustiça.

Mas aí pensou um pouco e achou que o francês era um perigo permanente. Pelo que piscou o olho para o Charles e decidiu:

- Fica pelos teus irmão sacrificado.

E foi assim que o agrônomo Jacques foi expulso do país, com pleno consentimento do cônsul, que declarou ao embaixador:

- Ele teve a ousadia de me dizer que a culpa era de um sapo chamado Charles.

E o embaixador, imediatamente, pôs a culpa no conhaque nacional, que de fato não há francês que o tome impunemente. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 35)

LUGARES

LAGOS ANDINOS - ARGENTINA


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Uma pessoa que sabe como abraçar a outra, é uma boa pessoa. (Dostoiévski)

FRASES ILUSTRADAS


SETE DIAS (SÓ) DE INTENSO ROMANCE

SETE DIAS (SÓ) DE INTENSO ROMANCE
Charge de Gerson Kauer

Descasado, o empresário cinquentão costumava fixar os olhos na argentária gerente (sempre ávida em vender seguros) da agência bancária, nas bandas da Carlos Gomes, onde ele era cliente. Certa manhã hibernal, o homem comparou, com ela, o inverno que atormentava Porto Alegre e o céu aberto de New York. Então propôs, objetivo:

- Estou ansioso por voltar a Manhattan para curtir, bem acompanhado, amenas caminhadas no Central Park, olhar vitrines na 5ª Avenida, passear na segura Broadway, escutar bom jazz...

Os dois evoluíram nas conversas nos dias seguintes. Uma segunda-feira mais e o empresário exibiu duas passagens aéreas, em classe executiva - e assim a dupla agendou a viagem.

A gerente conseguiu férias de oito dias e os dois partiram. Na chegada ao hotel nova-iorquino, o empresário empalideceu e fez cara de espanto. Tinha só US$ 1.500 no bolso em espécie, dando-se conta de que esquecera seus cartões de crédito em Porto Alegre.

Pedir o envio de novos cartões e enviá-los a New York demandaria uma semana - justo o período da viagem.

A gerente bancária foi solidária:

- Minha conta bancária é mais modesta que a tua, tenho apenas dois cartões, mas pago tudo aqui e na volta tu me reembolsas.

Amém!

A semana foi maravilhosa, os passeios encantadores, jazz no Birdland, música gospel no Harlem, etc. Quase tudo pago com os dois cartões da gerente – o empresário torrou os US$ 1.500 em táxis, alguns ingressos e diversas perfumarias na Duane Reade.

Durante o voo de retorno, o casal se desentendeu. Já em Porto Alegre, tocou exclusivamente a ela, nos vencimentos, o pagamento de exatos 5.889 dólares de hospedagem, refeições, espetáculos etc., debitados nos dois cartões. O empresário, decisivamente, não se coçou.

Dois meses depois, a desavença desbordou em ação judicial de cobrança, da gerente contra o fugaz namorado, buscando o ressarcimento de R$ 18.884. A sentença foi de improcedência.

Três frases do julgado de primeiro grau, recentemente confirmado pela câmara cível, foram cirúrgicas: “À falta de documentos que demonstrem qualquer outro ajuste, é de concluir que a viagem foi uma comunhão de interesses, benesses, descanso, férias e outros prazeres da vida, com despesas rateadas aproximadamente entre os dois parceiros. Outra solução jurídica não há: cada uma das partes terminará, mesmo, arcando com o que já desembolsou. Só lamento que a autora tenha que arcar sozinha com a sucumbência, carregando-lhe por inteiro a obrigação da honorária que, presentes as peculiaridades do caso, fixo no mínimo: 10% sobre o valor da causa”.

Na semana passada transitou em julgado.

Fonte: www.espacovital.com.br

LUGARES

LOURDES - FRANÇA

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O Universo não é tão estranho como supomos, mas tão estranho quanto somos capazes de supor. (John B.S. Haldane, fisiologista inglês, 1892-1964)

FRASES ILUSTRADAS


NÃO CASE SE A RELAÇÃO É SÓ FELIZ: TEM ALGO ERRADO

Fabrício Carpinejar

Se o namoro não teve nenhuma discussão, não enfrentou nenhuma separação, não aguentou nenhuma fossa, não enfrentou nenhuma adversidade profissional ou de doença, se tudo é maravilhoso e alegre, calmo e tranquilo, sem sobressalto, jamais case. 

Namoro perfeito desencadeia separações trágicas e irreversíveis. As imperfeições são preventivas, desenvolvem uma noção de verdade para não cobrar em demasia e respeitar os limites do outro. 

Você não casará somente com as qualidades de seu par, portanto, precisa também se preparar o quanto antes aos sentimentos ruins, tais raiva e angústia, para no futuro não estranhar e se manter junto. 

Uma relação muito correta não é a certa. Há grandes chances de se separar logo na primeira crise. Quem se encontra apenas em lua de mel depois não aguenta o trabalho árduo debaixo do sol. 

É fundamental experimentar desgostos dentro da convivência para aprender a desarmar defeitos e diferenças.

Encanto que se perde de supetão é traumático. A impressão é de profundo engano: que se relacionou com um impostor e não sabia com quem lidava. 

Aconselhável uma briga no decorrer dos laços para se habituar ao lado sombrio da força do amor e encontrar formas de iluminá-lo. 

Um casal excessivamente feliz não contará com resistência e anticorpos para assumir as tristezas. Quedará no início das dissidências. A decepção será maior porque não foi antecedida de pequenas frustrações. Tampouco o par se fortalecerá trabalhando a intimidade e a empatia na superação dos contratempos. Estará fora da realidade, numa idealização difícil de regressar a sós.

Fonte: Facebook

LUGARES

CORTONA - ITÁLIA

domingo, 8 de dezembro de 2019

HAPPY TOGETHER

THE TURTLES

Posso resistir a tudo, menos à tentação. (Oscar Wilde, escritor irlandês, 1854-1900)

FRASES ILUSTRADAS


PEDINTES

PEDINTES

Desde criança acostumei com a expressão "esmoleiro" para identificar aquelas pessoas que dependem da caridade alheia para a própria sobrevivência. 

Conheci algumas dessas pessoas e o respectivo modus operandi e exemplifico com apenas dois deles. 

Lembro de um mudo que sempre ficava junto à bilheteria do Cinema Central. Seu apelo era gestual e todos entendiam. Sempre captava um troquinho junto às almas caridosas. 

Outro portava visível deficiência nos membros inferiores. Se movia auxiliado por um bastão. Tinha cadeira cativa na esquina da Farmácia Velgos. Sentado na calçada, estendia a mão segurando um velho chapéu de feltro para que nele as pessoas de boa vontade depositassem alguma coisa. Dizia-se que era bem de vida. Ao final da tarde um taxista vinha buscá-lo. 

Prefiro identificá-los como pedintes e me adianto em dizer que aqui não faço qualquer distinção entre os bem ou mal intencionados. 

Mas do rol de pedintes que encontrei pela vida destaco quatro deles, que pela inusitada forma de pedir, vale apenas compartilhar com os leitores.

LUGARES

BAVIERA - ALEMANHA
O Palácio Linderhof é um palácio real na Alemanha, construído entre 1869 e 1878. Fica localizado nas proximidades de Oberammergau e da Abadia de Ettal, no sudoeste da Baviera. Uma foto dos jardins do palácio.

sábado, 7 de dezembro de 2019

O que nos parece ser a história da natureza é apenas a história muito incompleta de um instante. (Denis Diderot, filósofo francês, 1713-1784)

FRASES ILUSTRADAS


ATRITOS

ATRITOS 
Roberto Crema

Ninguém muda ninguém;
Ninguém muda sozinho;
Nós mudamos nos encontros.

Simples, mas profundo, preciso.

É nos relacionamentos que nos transformamos. Somos transformados a partir dos encontros, desde que estejamos abertos e livres para sermos impactados pela idéia e sentimento do outro.

Você já viu a diferença que há entre as pedras que estão na nascente de um rio, e as pedras que estão em sua foz?

As pedras na nascente estão toscas, pontiagudas, cheias de arestas. À medida que elas vão sendo carregadas pelo rio, sofrendo a ação da água e se atritando com as outras pedras, ao longo de muitos anos, elas vão sendo polidas, desbastadas.

Assim também agem nossos contatos humanos. Sem eles, a vida seria monótona, árida. A observação mais importante é constatar que não existem sentimentos, bons ou ruins, sem a existência do outro, sem o seu contato.

Passar pela Vida sem se permitir um relacionamento próximo com o outro, é não crescer, não evoluir, não se transformar. É começar e terminar a existência com uma forma tosca, pontiaguda, amorfa.

Quando olho para trás, vejo que hoje carrego em meu ser várias marcas de pessoas extremamente importantes. Pessoas que, no contato com elas, me permitiram ir dando forma ao que sou, eliminando arestas, transformando-me em alguém melhor, mais suave, mais harmônico, mais integrado. Outras, sem dúvidas, com suas ações e palavras me criaram novas arestas, que precisaram ser desbastadas. 

Faz parte...

Reveses momentâneos servem para o crescimento. A isso chamamos de experiência.

Penso que existe algo mais profundo, ainda nessa análise. Começamos a jornada da vida como grandes pedras, cheias de excessos.

Os seres de grande valor, percebem que ao final da vida, foram perdendo todos os excessos que formavam suas arestas, se aproximando cada vez mais de sua essência, e ficando cada vez menores, menores, menores...

Quando finalmente aceitamos que somos pequenos, ínfimos, dada a compreensão da existência e importância do outro, e principalmente a grandeza de Deus, é que finalmente nos tornamos grandes em valor.

Já viu o tamanho do diamante polido, lapidado? Sabemos quanto se tira de excesso para chegar ao seu âmago. É lá que está o verdadeiro valor... Pois, Deus fez cada um de nós com um âmago bem forte

E muito parecido com o diamante bruto, constituído de muitos elementos, mas essencialmente de AMOR.

Deus deu a cada um de nós essa capacidade de amar...

Mas temos que aprender como.

Para chegar a esse âmago, temos que nos permitir, por meio dos relacionamentos, ir desbastando todos os excessos que nos impedem de usá-lo, de fazê-lo brilhar.

Por muito tempo em minha vida acreditei que amar significava evitar sentimentos ruins. Não entendia que ferir e ser ferido, ter e provocar raiva, ignorar e ser ignorado faz parte da construção do aprendizado do Amor.

Não compreendia que se aprende amar sentindo todos esses sentimentos contraditórios e... os superando.

Ora, esses sentimentos simplesmente não ocorrem se não houver envolvimento...

E envolvimento gera atrito. Minha palavra final: ATRITE-SE.

Não existe outra forma de descobrir o Amor.

E sem ele a Vida não tem significado.