sábado, 8 de agosto de 2020

GRANDE ANO, 1920

Elizeth Cardoso em foto de 1976
 Acervo UH
GRANDE ANO, 1920
Ruy Castro

Há 100 anos nasciam Elizeth Cardoso, Amália Rodrigues, Peggy Lee e outras vozes fabulosas

Elizeth Cardoso faria 100 anos amanhã (16). Estão em curso várias homenagens, dignas de uma artista a quem nunca faltou reconhecimento. Ela era a Divina, a Magnífica, a Meiga, a Enluarada. Elizeth viveu sob o peso desses adjetivos, aos quais fazia jus com sua grande classe como cantora e mulher —sem afetação e sem pose, mas também sem se rebaixar de Elizeth. Sabia quem era e o que valia.

Uma de suas poucas iguais no século, só que portuguesa, também estaria chegando aos 100 anos: Amália Rodrigues, no dia 23. O fato de essas cantoras terem construído universos tão distintos e fascinantes na mesma língua é um tributo à riqueza e maleabilidade desta língua. Mas a arte que praticavam parece em extinção —já não se exige “cantar bem”, como elas faziam.

A água de 1920 devia conter alguma substância mágica para ter gerado tanta gente boa. Nos EUA nasceram Peggy Lee e Carmen McRae, obrigatórias em qualquer lista das dez maiores cantoras americanas da história. A sensacional pianista e cantora Hazel Scott, destruída pelo macarthismo. A soprano Eileen Farrell, que fez a transição para a música popular e gravou discos excepcionais. Helen O’Connell, crooner da orquestra de Jimmy Dorsey e lançadora de clássicos da 2ª Guerra, como “Amapola” e “The Breeze and I”. E Ella Raines, estrela da Broadway e primeira a cantar “Old Devil Moon”, do musical “Finian’s Rainbow” (1947).

No Brasil, tivemos Bidu Reis, cantora e autora (com Haroldo Barbosa), em 1951, do primeiro sucesso de Nora Ney, “Bar da Noite” (“Garçom, apague esta luz/ Que eu quero ficar sozinha...”). Carmen Costa, lançadora de “Está Chegando a Hora”, digo “Cielito Lindo”. A exuberante Leny Eversong, que precisou estourar nos EUA nos anos 50 para ficar famosa no Brasil. E Virginia Lane, criadora de “Saçaricando” (não, não foi namorada do Getulio).

Grande ano, 1920. É a vez dos berçários de 2020.

Fonte: Folha de S. Paulo - 14.jul.2020

DÓI NÃO PODER ABRAÇAR

O QUE ME DÓI É NÃO PODER TE DAR UM ABRAÇO
Por Rebeca Bedone

Devido às novas regras sociais, não o cumprimentei com um aperto de mão. Disse-lhe bom dia e pedi que se sentasse na cadeira à minha frente. Perguntei se estava tudo bem e ele respondeu: “Vou levando a vida só”. Eu poderia ter passado para as formalidades da conversa entre médica e paciente, mas como ando melancólica ultimamente, precisei ouvir o relato daquela solidão.

“Dra., sou grato pelos meus filhos pagarem o meu plano de saúde, porque tenho uma desculpa para sair de casa, já que ninguém mais me visita”. Falei que ele poderia ter enviado algum parente jovem em seu lugar, para não ter que vir até aqui em plena pandemia. Ele balançou a cabeça para os lados e ajustou a máscara que escorregava do nariz: “Ninguém sabe que vim. Se soubessem, brigariam comigo”.

Ele ficou em silêncio. Aquele homem simples e octogenário, que é meu paciente há muitos anos, que vinha animado para as consultas e que sempre me contava causos — e, uma vez, até recitou um verso que ele mesmo compôs! —, hoje, estava distante. Eu ia lhe perguntar se estava sentindo alguma dor ou qualquer sintoma, mas ele continuou: “Falo com meus netos pelo vídeo do celular e minha filha deixa as compras do supermercado na frente de casa, mas ela nem entra, só me manda uma mensagem para avisar que está tudo lá. Estou me sentindo um leproso, não posso nem mais jogar gamão com os velhos da praça!”.

Comecei a explicar que tais medidas, por mais difíceis que pareciam, eram para protegê-lo de ser contaminado pelo novo coronavírus. Mas, antes que eu terminasse minha explanação, ele me falou: “Dra., minha saúde está boa. O que me dói é não poder te dar um abraço”.

A solidão do meu paciente tomou conta da minha sala, do prédio e de todo quarteirão. Demorei alguns segundos para entender que minha mente lutava contra o corpo que queria levantar da cadeira e abraçar o velho. Demorei mais algum tempo para tentar encontrar uma resposta para suas aflições. Se eu não o acalentasse com os braços, poderia envolvê-lo com palavras… Mas o vazio subiu por minha garganta.

Após a consulta, permaneci um tempo em silêncio. Retirei máscara e protetor faciais para respirar melhor. Abracei a mim mesma e senti saudade dos braços de tanta gente. Lavei o suor e o cansaço do meu rosto, depois olhei pela janela: o horizonte também não podia me abraçar. O mundo lá fora estava estranho, quieto, diferente: era a angústia das famílias que rezavam pela recuperação do parente doente, a saudade que os amigos sentiam uns dos outros, a expectativa das crianças que sonhavam com o retorno às aulas, o medo que os enfermos sentiam e o tempo que não passava para aqueles que estavam sozinhos.

A solidão lá fora era um vírus no vento…

Fonte: https://www.revistabula.com
Você não pode deixar ninguém invadir o seu jardim para não correr o risco de ter a casa arrombada. (Vladimir Maiakóvski)

LUGARES

PORTOFINO - ITÁLIA
  1. Portofino é uma comuna italiana da região da Ligúria, província de Gênova, com cerca de 529 habitantes. Estende-se por uma área de 2 km², tendo uma densidade populacional de 265 hab/km². O pequeno e perfeito porto da cidade foi declarado patrimônio histórico, e Portofino é considerado o vilarejo mais fotografado do mundo. Está situado na extremidade de uma península que é uma reserva protegida com todo o cuidado pelo Estado. Nele se cruzam várias trilhas de onde se avistam belas paisagens na costa.

DONA SANCHA

Por José de Souza Martins

Quem não brincou de pegador, de amarelinha com casca de banana, de passar anel com anelzinho de pedra de vidro que vinha preso numa daquelas balas de antigamente? Qual foi o moleque que não jogou fubeca, não bateu figurinha na calçada ou no páteo da escola, ou não rodou pião? Qual foi o moleque que não empinou papagaio feito caprichosamente pela irmã? Qual foi o moleque que não brigou na rua com o amigo de todos os dias, depois de fazer um risco no chão para separar os lados dos contendores e cuspir no lado do outro para provocá-lo e iniciar o confronto, os empurrões e os tabefes? Qual foi o moleque que não apanhou de cinto em casa quando o pai soube que já apanhara de tapa de outro moleque na rua? Ninguém podia voltar para casa vencido. Ou contar que apanhara.

Qual foi a menina que não ficou de mal com a amiga, entrelaçando os dedos das duas mãos, virados para a outra e soltos lentamente para simbolizar a ruptura? Qual foi a menina que não reatou a amizade enlaçando o dedo mindinho com o mindinho da outra para simbolizar o reatamento e dizer assim que o amor de todos os dias entre crianças é maior do que a raiva do instante? Quem não lembra de histórias incrivelmente fantasiosas que as crianças inventavam e contavam, cada vez de um jeito, no teatro imaginário das reuniõezinhas de calçada, no começo da noite, sob a luz amarelada dos postes da Light? A cidade era uma xilogravura.

Os antigos e os não muito antigos já notaram o desaparecimento do lugar da criança na renovação da sociedade e na vida da cidade. A rua já não é da criança, é do carro. Ou é do crime, mesmo que esse pavor seja em grande medida falso, alimentado de propósito pelo rádio e pela TV para aterrorizar adultos e crianças. Já não se fala das coisas boas que acontecem todos os dias nas ruas da cidade: um concerto, um livro, uma poesia no poste. O noticiário homicida, desenraizado e alienado matou a cidade. Já foi o tempo em que o povo sabia das coisas pelo jornal, um de manhã e outro à noite, deixando para o afobado Repórter Esso as notícias de última hora.

Nos bairros, como o da Mooca, do Brás, do Belenzinho, de Santana, da Lapa, do Ipiranga, da Vila Prudente, à noite, os pais punham cadeiras na calçada para conversar com os vizinhos, apreciar o movimento que não havia ou acompanhar com os olhos um carro que passasse, buzinando e espantando crianças.

As crianças brincavam de adivinhas, de o que é que é, de cantigas de roda - Senhora Dona Sancha vestida de ouro e prata; Pirulito que bate, bate, pirulito que já bateu, quem gosta de mim é ela, quem gosta dela sou eu; O cravo brigou co'a rosa debaixo de uma sacada; Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas de diamante para o meu amor passar. Crianças, venham pra dentro, está na hora, já é tarde. São oito horas!

Fonte: O Estado de S. Paulo

FRASES ILUSTRADAS

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

QUALQUER SEMELHANÇA

QUALQUER SEMELHANÇA
José Horta Manzano
“As promessas mirabolantes tiveram êxito e deram nisso que aí está: na chefia do governo, um demagogo incompetente e atrabiliário, que só vive de aparências, pois, na realidade, nada de útil e de bom fez para o povo. 
Ao contrário, tem se notabilizado pela maldade, pela prepotência e pela intolerância com que governa um povo pacífico e bom. Só é notado pelos atos de perseguição e de vaidosa exibição de um cabotismo doentio. 
Sem os amigos, que traiu com a maior sem-cerimônia deste mundo, só lhe restam a inveja e a ambição que alimentam seu personalismo soberbo e delirante.”

Se você leu a citação acima, sabe quem é o alvo do discurso. Não precisa nem dizer o nome. Certo?

Errado, distinto leitor, errado. Não se trata do doutor que nos preside. Neste caso, qualquer semelhança será mera coincidência.

O texto foi escrito há 63 anos, numa época em que Bolsonaro ainda usava fralda. O autor, Martinho di Ciero, era deputado estadual paulista na legislatura 1955-1959. O artigo foi publicado no jornal O Dia (do Rio de Janeiro) e repicado na Folha da Manhã (de São Paulo).

O objeto da fúria do parlamentar era Jânio Quadros, então governador do estado. E pensar que, apesar de toda a incompetência já flagrante, o homem se tornaria presidente da República menos de quatro anos mais tarde. Iludir o bom povo sempre foi fácil.

Como se vê, doutor Bolsonaro não é o primeiro dirigente a carregar um «personalismo soberbo e delirante». Nem será o último, infelizmente.

Fonte: https://brasildelonge.com

TRISTE GERAÇÃO

A TRISTE GERAÇÃO QUE TUDO IDEALIZA E NADA REALIZA
Por Marina Melz

Demorei sete anos (desde que saí da casa dos meus pais) para ler o saquinho do arroz que diz quanto tempo ele deve ficar na panela. Comi muito arroz duro fingindo estar “al dente”, muito arroz empapado dizendo que “foi de propósito”. Na minha panela esteve por todos esses anos a prova de que somos uma geração que compartilha sem ler, defende sem conhecer, idolatra sem porquê. Sou da geração que sabe o que fazer, mas erra por preguiça de ler o manual de instruções ou simplesmente não faz.

Sabemos como tornar o mundo mais justo, o planeta mais sustentável, as mulheres mais representativas, o corpo mais saudável. Fazemos cada vez menos política na vida (e mais no Facebook), lotamos a internet de selfies em academias e esquecemos de comentar que na última festa todos os nossos amigos tomaram bala para curtir mais a noite. Ao contrário do que defendemos compartilhando o post da cerveja artesanal do momento, bebemos mais e bebemos pior.

Entendemos que as BICICLETAS podem salvar o mundo da poluição e a nossa rotina do estresse. Mas vamos de carro ao trabalho porque sua, porque chove, porque sim. Vimos todos os vídeos que mostram que os fast-foods acabam com a nossa saúde – dizem até que tem minhoca na receita de uns. E mesmo assim lotamos as filas do drive-thru porque temos preguiça de ir até a esquina comprar pão. Somos a geração que tem preguiça até de tirar a margarina da geladeira.

Preferimos escrever no computador, mesmo com a letra que lembra a velha Olivetti, porque aqui é fácil de apagar. Somos uma geração que erra sem medo porque conta com a tecla apagar, com o botão excluir. Postar é tão fácil (e apagar também) que opinamos sobre tudo sem o peso de gastar papel, borracha, tinta ou credibilidade.

Somos aqueles que acham que empreender é simples, que todo mundo pode viver do que ama fazer. Acreditamos que o sucesso é fruto das ideias, não do suor. Somos craques em planejamento Canvas e medíocres em perder uma noite de sono trabalhando para realizar.

Acreditamos piamente na co-criação, no crowdfunding e no CouchSurfing. Sabemos que existe gente bem intencionada querendo nos ajudar a crescer no mundo todo, mas ignoramos os conselhos dos nossos pais, fechamos a janela do carro na cara do mendigo e nunca oferecemos o nosso sofá que compramos pela internet para os filhos dos nossos amigos pularem.

Nos dedicamos a escrever declarações de amor públicas para amigos no seu aniversário que nem lembraríamos não fosse o aviso da rede social. Não nos ligamos mais, não nos vemos mais, não nos abraçamos mais. Não conhecemos mais a casa um do outro, o colo um do outro, temos vergonha de chorar.

Somos a geração que se mostra feliz no Instagram e soma pageviews em sites sobre as frustrações e expectativas de não saber lidar com o tempo, de não ter certeza sobre nada. Somos aqueles que escondem os aplicativos de meditação numa pasta do celular porque o chefe quer mesmo é saber de produtividade.

Sou de uma geração cheia de ideais e de ideias que vai deixar para o mundo o plano perfeito de como ele deve funcionar. Mas não vai ter feito muita coisa porque estava com fome e não sabia como fazer arroz.

Fonte: https://pensadoranonimo.com.br
Todos os homens são feitos do mesmo barro, mas não do mesmo molde. (Provérbio Mexicano)

LUGARES

ST. PETERSBURG - RÚSSIA

Catedral do Sangue Derramado ou Igreja da Ressurreição do Salvador sobre o Sangue Derramado é uma igreja ortodoxa russa de São Petersburgo, situada na margem do canal Griboedov (assim designado em honra de Alexandr Griboiedov) próximo ao parque do Museu Russo e da Nevsky Prospekt. A igreja foi construída no local onde o Czar Alexandre II da Rússia foi assassinado, vítima de um atentado no dia 13 de março de 1881 (1 de março no calendário juliano, em vigor na época). Durante a Segunda Guerra Mundial e o cerco da cidade, uma bomba caiu em cima da cúpula mais alta da igreja. A bomba não explodiu e permaneceu encerrada na cúpula da igreja durante 19 anos. Somente quando os trabalhadores subiram à cúpula para reparar as goteiras, a bomba foi encontrada e retirada. Então se decidiu começar o restauro da igreja do sangue derramado. Após 27 anos de obras de restauro, a igreja foi inaugurada como museu estatal onde os visitantes podem conhecer a história do assassinato de Alexandre II. (Wikipédia)




MR. MILES

Lugares em que a vida fala diretamente com você

Nosso incansável viajante deixou Antígua (e Barbuda) porque foi convidado a passar o carnaval em Port of Spain por seu velho amigo Anthony Carmona, hoje presidente do idílico arquipélago de Trinidad e Tobago. Disse-nos mr. Miles que a mistura de rum com marimbas não lhe foi muito palatável. “Espero conseguir ouvir de novo até [...]

Nosso incansável viajante deixou Antígua (e Barbuda) porque foi convidado a passar o carnaval em Port of Spain por seu velho amigo Anthony Carmona, hoje presidente do idílico arquipélago de Trinidad e Tobago. Disse-nos mr. Miles que a mistura de rum com marimbas não lhe foi muito palatável. “Espero conseguir ouvir de novo até a Páscoa, my friends!”. A seguir a correspondência da semana.

Mr. Miles: basta ler um guia de boa qualidade para saber quais atrações turísticas merecem ser visitadas em qualquer país. O senhor, que viaja tanto, poderia me dizer o que mais é indispensável fazer em um primeiro contato com um novo lugar? (Celiana Armandez Giggo, por e-mail)

Well, my dear, sua pergunta esconde os melhores segredos de um viajante. Yes, of course: é preciso visitar os protagonistas de uma cidade ou de um país. Os monumentos pelos quais são conhecidos, as paisagens que deles até se tornaram lugares-comuns. Como ir, for instance, a Veneza e não observar, com detalhes, uma gôndola? Ou visitar o Egito passando ao largo das pirâmides de Gizé?

Na minha humilde opinião de eterno peregrino, however, o melhor jeito de conhecer um lugar é reviver, alhures, o seu próprio cotidiano, mas, dessa vez, prestando muita atenção – já que o que se torna rotina em casa acaba incorporado à cabeça como mais um fio de cabelo em uma vasta juba.

Vou tentar lhe dar algumas dicas, lembrando que elas podem variar muito de país para país e de acordo com o entendimento do idioma em questão. Comece pelo dinheiro local, que você vai adquirir na chegada. Veja seus desenhos, suas cores, referências. As cédulas costumam mostrar heróis nacionais, exibir as riquezas da natureza de cada lugar e falam até da alma do povo.

Na Polinésia francesa, por exemplo, o franco local é colorido com toda a variedade da natureza luxuriante daquele arquipélago. O escudo português, em tempos salazarianos, era triste e melancólico como um fado. E as falecidas liras italianas tinham tantos zeros que era difícil contar. Nada parecido, by the way, com uma nota que tenho guardada em casa. Valor? 100 trilhões de dólares! Do Zimbabwe, unfortunately. A maior já emitida no planeta, durante a hiperinflação de 2008. Com ela, however, mal se comprava um pacote de biscoitos no supermercado.

E, falando em supermercados, dear Celiana, não deixe de entrar em um deles, não importa aonde. Haverá, of course, produtos globalizados nas prateleiras. Mas grande parte dos itens à venda dirá muito sobre o modo como os habitantes do lugar alimentam-se, limpam suas casas e fazem sua higiene. Entrar em um supermercado, de certa forma, é como entrar na área íntima de uma residência.

Indispensável é comprar um jornal, mesmo que você não entenda patavinas! O aspecto do jornal, o peso que se dá a cada seção, tudo é informação privilegiada sobre quem vive na cidade ou no país. 

Se, for instance, você encontrar oito páginas sobre cricket e nenhuma menção ao futebol, é melhor não citar Pelé ou Neymar como referências. Os mercados também são indispensáveis. Neles você verá a fartura ou a escassez de cada povo. As frutas que se come por ali, as carnes, os peixes. E, of course, a maneira como vendedores e compradores se entendem.

É uma mágica! No cotidiano (muito mais do que na atração turística) é a vida que fala diretamente com você. Nas roupas que as pessoas usam, no jeito que elas rezam (vá, sempre, a um serviço religioso, seja lá qual for a crença local) e nas coisas que fazem nas praças. Escolha um banco em um parque movimentado. Você vai ver se as pessoas têm pressa ou se são serenas. Verá como brincam as crianças, como comportam-se os idosos, o quanto riem ou são silenciosas aquelas populações. E, last but not least, conforme o lugar onde estiver, você terá a chance de olhar (ainda que discretamente) como agem os enamorados. E assim, my dear, sua viagem será, sem dúvida, ainda muito melhor.”

Fonte: O Estadão

FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

COMO SEREMOS DEPOIS DA PANDEMIA

COMO SEREMOS DEPOIS DA PANDEMIA
Jaime Pinsky*

… Estamos apostando muito alto, e é possível que venhamos a ter grandes desilusões. Lidar com a realidade é sempre difícil, particularmente neste momento, em que nos sentimos fragilizados. Idealizar o futuro é uma forma de manter a sanidade, mas construir castelos de areia pode ser mais perigoso ainda para nossa saúde mental…

Mesmo tendo efeitos devastadores, a humanidade não acredita que a Covid-19 decretará o fim do mundo. Tanto é que já começamos a especular sobre o que vai mudar no “day after”, assim que nos livrarmos da pandemia.

Geralmente, não sou de arriscar previsões: nós, os historiadores, no máximo tentamos adivinhar o que já aconteceu. E mesmo sobre isso temos opiniões diferentes… Mas, sobre o “dia seguinte” talvez seja importante refletir. Estamos apostando muito alto, e é possível que venhamos a ter grandes desilusões. Lidar com a realidade é sempre difícil, particularmente neste momento, em que nos sentimos fragilizados. Idealizar o futuro é uma forma de manter a sanidade, mas construir castelos de areia pode ser mais perigoso ainda para nossa saúde mental.

O tal “dia seguinte” só vai acontecer se e quando tivermos um remédio confiável ou a vacina. Atrás dela correm dezenas de laboratórios, em muitos países, de ingleses a russos, de americanos a chineses. Segundo especialistas, as vacinas serão muito diferentes, desde aquelas produzidas de forma mais tradicional, como a chinesa feita em parceria com o Instituto Butantan, até outras com tecnologia mais sofisticada, como a inglesa, passando pela israelense, que promete ser oral e não injetável. Mas elas não existem ainda, embora cientistas e médicos com muita credibilidade achem que as vacinas estarão prontas para serem aplicadas pouco antes do carnaval (o que, do ponto de vista mercadológico, seria algo glorioso e oportuno).

De uma forma ou de outra, parece que o tal dia seguinte só acontecerá no próximo ano. Até lá teremos que conviver com o medo da contaminação. Vamos continuar olhar com desconfiança para qualquer um que cruzar conosco sem máscara, vamos temer aquele resfriado e aquela dor de garganta. Um simples espirro nos fará correr atrás do termômetro para aferir a febre. Continuaremos com o novo hábito de cheirar a comida para conferir se não perdemos o olfato, e degustá-la lentamente para estarmos seguros de que continuamos sentindo o gosto das coisas. Os que têm o que temer, esses talvez estejam, agora mesmo, checando os arquivos, rasgando e queimando documentos e fotos, destruindo pendrives, atirando antigos celulares no mar e apagando memórias dos computadores. Afinal, mesmo mortos, eles não querem correr o risco de ter situações e relações impróprias devassadas.

Sim, mas e o “day after”? Temo desapontar o leitor: não acontecerá nada. Nadinha. Necas. Na melhor das hipóteses, talvez no dia seguinte àquele em que toda a humanidade seja vacinada, em que a poção milagrosa produzida pelos cientistas seja injetada no braço de sete e tanto bilhões de habitantes deste planeta erradio, talvez nesse dia e nos seguintes a humanidade seja diferente do que é hoje. Talvez nesses dias (vá lá, uma semana) nós nos sintamos irmanados aos coreanos (até aos do norte), aos esquimós, aos bosquímanos, a todos os negros e aos brancos, aos homens e às mulheres, aos ricos e aos pobres do mundo todo. Talvez nesses dias a gente se sinta como se tivesse escapado, junto com todos os demais habitantes do Planeta, de um perigo imenso, de um risco sem tamanho, perigo de destruição total. Talvez esse sentimento nos irmane, nos faça perceber que estamos juntos, queiramos ou não, que temos de cuidar deste ponto perdido do Universo, que, afinal de contas, é nossa casa, limpá-lo, preservá-lo, mantê-lo saudável, pelo menos no que depender de nós. Pode ser (apenas pode ser, não sei ao certo) que, durante uma semana a gente perceba que é ridículo, idiota e primário viver cutucando um ao outro, ameaçando o vizinho, destruindo sua casa, invadindo sua horta, matando seu cão, sua mulher, seus filhos, jogando sal na terra em volta da casa dele para que nunca mais cresça planta alguma em suas terras.

Talvez a gente, durante essa semana, perceba no coração um estranho e inusitado sentimento de fraternidade, uma emoção rara (e até gostosa), mas muito ameaçadora, pois nos coloca distantes de nossas armas e de nossos escudos. Essa emoção nos fragiliza, pois não pede por armas e violência, mas por solidariedade e conforto. Essa emoção nos ameaça porque não sabemos abraçar de verdade, nem acreditar no próximo, nem dividir o que temos, mesmo que esteja sobrando.

Mas, se tudo correr bem, esse sentimento durará, no máximo, uma semana. Depois voltaremos a ser como sempre, a ser nós mesmos. E nos esqueceremos de tudo o que passamos. E a normalidade pairará novamente sobre a Terra.

*JAIME PINSKY: Historiador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto. Autor de vários livros sobre preconceito, cidadania e escravidão.

Fonte: http://www.chumbogordo.com.br
Para viajar basta existir. (Fernando Pessoa)

LUGARES

HONFLEUR - FRANÇA
Honfleur e uma vila portuária na região administrativa da Baixa-Normandia, na França. Situa-se às margens do Rio Seine, em frente de Le Havre, uma vila do outro lado do rio. É cidade-irmã de São Francisco do Sul, Santa Catarina. 

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


SÍMBOLOS E UNIDADES DE MEDIDA + SOBRE

A norma oficial estabelece que a forma abreviada dos símbolos científicos e unidades padronizadas de medida seja escrita sem ponto. Algumas foram registradas em maiúscula – como K (potássio), Kr (criptônio), Y (ítrio) – outras em minúsculas, tal qual sen (seno) e g (grama), por exemplo. A grafia para o singular e o plural é a mesma: sem o acréscimo de s ou de qualquer outra letra: nada de *mts para metros, ou *hrs para horas.

Eis uma pequena relação das abreviaturas mais usadas: 1 km, 3 m, 4 cm, 5 mm; 6 kg, 7 g, 8 mg; 9 kl, 10 dl, 12 ml. No caso de litro apenas, como o l minúsculo pode ser confundido com 1 (um), convencionou-se usá-lo em maiúscula ou em itálico: 1 L, 20 l.

Deixa-se um espaço entre o valor numérico e a unidade, a menos que haja uma combinação de dois elementos, como por exemplo metro e centímetro:

  • Ele tem um sítio a 6 km de Imperatriz.
  • Recomenda-se a ingestão diária de 0,5 g de ácido ascórbico.
  • Havia 6 ha de terras ainda devolutas.
  • O motor possuía 45 hp e funcionava a contento.
  • Às 18h30min acontecerá o jogo decisivo.
  • O pássaro encontrava-se exatamente a 3m18cm do predador.

Devo registrar que no caso das horas cheias, a despeito da recomendação do Inmetro, esse espaço vem sendo abolido, sendo portanto válido escrever também: 8h, 10h, 22h.

A palavra quilômetro(s) pode receber inicial maiúscula quando assume o caráter de nome próprio, ou seja, ao se referir a uma determinada localidade na estrada:

  • O acidente aconteceu no Km 380 da BR 203.

Escrevem-se por extenso as unidades padronizadas de pesos e medidas – metro, milímetro, litro, grama – quando enunciadas isoladamente:

  • Cada metro de terra, cada litro de água, tudo era levado em conta no assentamento.
  • Percorreu a pé os poucos quilômetros da estrada.

SOBRE SER

Sobre ser leal e atencioso, o mordomo reunia as qualidades do zelo e da minúcia.

Estranhável à primeira vista, a construção frasal está perfeita. A preposição sobre, a par do seu sentido usual de “em/por cima, acima de, em posição superior, relativamente a, acerca de”, entre outros menos votados, significa além de. Mais dois exemplos:

  • Sobre serem dóceis, as duas gatas eram lindas e espertas.
  • A interpretação lógica é aquela que, sobre examinar a lei em conexão com as demais, investiga-lhe também as condições e os fundamentos de sua origem e elaboração.

Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

DESEDUCAR: PROJETO DE PODER

DESEDUCAR PARA CONTROLAR 
(A ignorantização como projeto de poder)

– por Guilherme Lima*

Nestes dias tão conturbados em que presenciamos e vivemos cataclismos políticos e sociais tão evidentes, a figura do autômato descrita pelo filósofo e historiador Alemão Walter Benjamin me veem a cabeça. Em seu texto ‘Conceitos sobre história’, ele descreve assim este ser: “Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contra lance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores. Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche.”

O que de certa forma exprime a ideia contida no detalhamento da figura de um autômato fantoche, deixa mais do que claro as nuances da situação brasileira atual. Vivemos como uma população robotizada, passando por falsas transformações que ocultam uma continuidade de engrenagens de poder que se perpetuam desde a formação do país enquanto nação. Tal qual o jogo de xadrez evidenciada pelo pensador alemão, nossas jogadas são de cartas marcadas. Embora as peças sejam diferentes ao longo dos anos, nossa política, graças aos mecanismos de continuísmos, garante a perpetuação de uma série de privilégios, meandros e costumes arraigados no seu cerne.

Passando pelo período colonial, ao grito do Ipiranga dado por um Nobre Português com Disenteria proclamando a independência; da pompa do Período Imperial, vicejando a república velha e seu voto de cabresto; do (velho) Estado novo de Getúlio Vargas; da ditadura de uma noite sombria que durou 21 anos; até estes dias de tresloucada de uma incongruente democracia republicana empedernida: mudaram-se sistemas de governo, pessoas, políticos, economia e os pormenores do tempo, mas algo conseguiu manter-se como permanência em todas estas épocas.

Hábitos, costumes e uma certa cultura política e educacional calcada no uso do estado, da nação e de todos os seus dispositivos para perpetuação de um Modus Operandi voltada para o ego individualista, onde poucos se beneficiam com as mazelas da maioria, onde se deveria existir ações e pensamentos voltados para o bem-estar de todos, há o movimento contrário. Pelo sucesso individual, baseado na desgraça geral.

Instituições, empresas, órgãos públicos e privados, e a própria população são imbuídas de uma crença onde apenas o seu interesse deve ser o primordial para que seus objetivos, metas e satisfação enquanto cidadão sejam supridos. Indo por este caminho, ocorre a cegueira geral de que o bem-estar e a empatia pelo outro é desnecessária. Onde todos têm o mínimo de suas necessidades de vida, consumo, lazer, segurança, saúde e educação, a existência da sociedade e seu desenvolvimento atinge todas as expectativas e estabilidade para que aqueles pertencentes a ela se sintam aplacados e satisfeitos em sua condição existencial.

E então fica a pergunta, por que aqueles que detêm o poder não fazem as mudanças preconizadas, dando prioridade a estas questões? Oras, pelo mesmo motivo que muitos tentam fraudar a bolsa de valores, enganar o arbitro em alguma competição esportiva, praticar bullying, e por aí vai; a resposta final é o ganho individual em detrimento do interesse coletivo.

É nisto que reside a realidade concreta do Brasil, uma população a mercê de ilusões criadas por uma política que mesmo mudando suas jogadas e modelo, consegue perpetuar processos e atingir os mesmíssimos resultados, não importando se a partida e o sistema forem diferentes. O resultado sempre será o mesmo, ludibriando e dando a falsa ilusão daqueles que estão envolvidos no jogo, que podem conseguir uma vitória quando uma nova partida se inicia.

Ardilosa armadilha criada pelo Estabilishment desde os primórdios da nação brasileira, ele é tão eficiente por não depender de modelo político, econômico ou social: ele se mantém entranhado nos hábitos culturais bem como nos mecanismos da indução de pensamento e influência dos costumes. É a arma perfeita nas mãos do Status Quo, pois venceu e vence suas batalhas sem dar sequer um tiro.

Para que as mudanças que não mudem tenham sua continuidade, ocorre então a necessidade de ferramentas visando manter toda esta penúria, e o meio de alcançar estas metas é o sucateamento da educação brasileira. Vamos sendo criados de modo que a imensa maioria não perceba que está sendo iludida nos joguetes do poder, e aqueles que sabem como funciona isso tudo entram num processo de conformismo com a situação.

Não existiu até hoje um verdadeiro plano de reforma educacional esclarecedora, primando pelo efetivo ensino que consiga quebrar com estas correntes de um nocivo controle das vontades do inconsciente e subconsciente brasileiro, não precisando aqui descrever o tenebroso projeto do Escola sem partido(sic). Hábitos e costumes tão profundamente incrustados no consciente nacional só são passíveis de mudança através da educação. Por isto, a educação brasileira permanece arcaica, pois vai de encontro aos interesses daqueles que, como o corcunda anão mestre no xadrez relatado por Walter Benjamin, tem nos políticos os fantoches de suas vontades.

Sendo assim, cada vez mais dou razão a afirmativa de Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”.

Fonte: https://www.revistaprosaversoearte.com
Quando os deuses desejam nos punir, respondem às nossas preces. (Oscar Wilde, Escritor irlandês, 1854-1900)

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