sexta-feira, 29 de setembro de 2017

DOS MEUS LIVROS

A Pastoral Americana - Philip Roth

Comentário:
Decadência: eis a palavra-chave desta obra; a decadência do ser humano, a decadência de um povo e a decadência de um país.

Antes de mais nada, a crítica; a visão crítica dos Estados Unidos da América a que Roth já nos habituou em quase todos os seus livros: está aqui tudo: a criminalidade, mesmo jovem, o absentismo, o moralismo, o conservadorismo, etc. Até no aspeto económico: a necessidade de mão-de-obra barata, com a deslocalização para a Ásia de muitas indústrias.

Num plano mais pessoal, fica bem patente a nostalgia e a saudade nas recordações de infância. A vida de Seymour Levov (heróica na juventude e trágica no final) exprime a visão negativa do destino e da condição humana. É que por oposição a essa infância feliz há uma realidade grotesca, medonha, que atinge o Sueco Lvov: a sua filha que aos 16 anos se torna assassina, terrorista, é violada e adere a uma seita radical. Por detrás disto está um inevitável e dramático choque de gerações – “Você amou sua filha como se fosse a porra de uma coisa”; talvez a causa do conflito esteja nesse culto da posse, típico do sistema capitalista, mas também num excessivo zelo pelo cumprimento das normas; a geração antiga tende para o “certinho e direitinho”, nunca preparando os filhos para a quebra do protocolo, para a necessária e incontornável quebra das regras.

Mas, para além do conflito de gerações está também um terrível choque pessoal, um destino dramático e doloroso.

Por todo o livro é nítido um certo lamento do envelhecimento e, ao mesmo tempo uma visão romântica do passado a condizer com uma visão pessimista do futuro e uma leitura bem negra do presente. O cancro de que sofre o escritor /personagem/narrador é o símbolo dessa visão cinzenta da realidade do país e do mundo.

A Pastoral e a contrapastoral: “A filha que o transporta para fora da sonhada pastoral americana e para dentro de tudo o que representa a sua antítese e o seu inimigo, para a fúria, a violência e o desespero da contrapastoral — para a selvajaria nativa americana.” A vida certinha, feliz, perfeita do Sueco Levov representava a Pastoral americana – a cartilha do sucesso, em que cada geração é um aperfeiçoamento da anterior. Mas a filha, que representa a última geração corta com a Pastoral; ela e a sua geração são a sua antítese. Assim, neste aspeto, a obra assume uma feição algo catastrofista ou, pelo menos, pessimista em relação ao destino da América. Revoltada contra a guerra do Vietname e contra o comodismo, bem como a acomodação da geração dos pais, a juventude dos anos 60, aqui representada por Merry, torna-se contestatária. E o país não está preparado para a compreender.

Mas a revolta não era apenas contra a guerra. Esse foi apenas o ponto de partida; era contra todo o modelo de vida capitalista. Contra a pastoral burguesa. Em causa estava por exemplo a procura de mão de obra barata. A crise económica, da qual a ruína da indústria das luvas é símbolo, vai dando lugar à crise social. Multiplicam-se os movimentos de contestação e os atentados. O livro de Roth torna-se premonitório em relação à América atual.

Um ritmo narrativo por vezes muito lento torna o livro algo enfadonho, ao contrário de outras obras de Roth. Por exemplo, porquê tanto espaço para declarar a futilidade dos concursos de misses? E porquê tanto pormenor na descrição dos métodos de fabrico de luvas de couro? Não vejo como o leitor possa seriamente beneficiar disso… é certo que Roth traça um desenho aprimorado da realidade norte-americana, especialmente nas suas faces mais negras, mas o exagero de pormenores retira, em alguns capítulos, esse prazer da leitura que todos procuramos.

SINOPSE (in wook.pt)
Philip Roth aborda frequentemente a necessidade humana de demolir, desafiar, opor, separar. 

Neste livro, contudo, foca-se no oposto: a necessidade de viver uma vida calma e normal. 

Seymour «Sueco» Levov, um lendário atleta universitário, devotado homem de família, trabalhador esforçado e próspero herdeiro, envelhece na triunfante América do pós-guerra, vendo esfumar-se tudo o que ama quando o país começa a efervescer nos turbulentos anos 60. 

Nem o mais tranquilo e bem-intencionado cidadão consegue escapar à vassourada da história, nem o Sueco pode permanecer para sempre na felicidade da amada e velha quinta em que vive com a sua bela mulher e a filha, que se torna uma revolucionária terrorista apostada em destruir o paraíso de seu pai. A inocência do Sueco Levov é varrida pelos tempos - como tudo o que foi criado pela sua família, através de gerações, deitado por terra na violenta explosão de uma bomba no seu bucólico quintal.

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

sábado, 23 de setembro de 2017

DOS MEUS LIVROS

Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

Comentário:
A quem lê este livro é impossível não recordar o imortal D. Quixote. Quaresma é, tal como o cavaleiro de La Mancha, o idealista ingénuo, o homem que cumpre um sonho se bem que singelo, inocente. Ele era funcionário. Mas, ao contrário de todos os outros (afundados na passividade rotineira) ele vai à procura de um ideal, neste caso a defesa intransigente dos valores da Pátria, que ele considera a melhor de todas. O Brasil é o seu valor supremo e ele pagará caro por esse sonho de mostrar aos seus concidadãos essa grandeza.

Este enredo tão peculiar e interessante é o ponto de partida para um livro cheio de interesse, pela beleza de uma linguagem simples, direta, como quem conversa com o leitor mas também e acima de tudo pela deliciosa crítica, sempre num tom bem-disposto, bem-humorado. Os alvos são vários; a mordacidade da crítica atravessa toda a vida social daquele Brasil de início de século, mas desses alvos sobressaem especialmente dois: os políticos e os funcionários públicos. Os políticos, apenas interessados no voto deixam-se levar por um populismo calculista e por um amor ao poder que os leva aos mais baixos “jogos” de influências; esses jogos são por sua vez conduzidos pela corrupção – tudo se decide mediante os pedidos e os favores. Os funcionários públicos, por sua vez, são criticados pela sua indolência, pela passividade, pela inutilidade e por uma cultura pedante, sem conteúdo.

Mas não fica por aqui a pena mordaz de Lima Barreto. São também seus alvos os costumes: por exemplo o casamento como único objetivo da mulher, o papel passivo do elemento feminino, como espécie de figura decorativa que, no entanto é vítima de um crónico machismo; a personagem Isménia, por exemplo, morre vítima dessa condição feminina. É ainda apontado o pedantismo e a ostentação dos licenciados e até dos escritores dados ao barroco. Os militares são inúteis e corruptos; as suas promoções são obtidas por influências e a sua competência é nula. Mas nem o povo escapa; o desleixo e a indolência são os seus principais defeitos, a par do diletantismo e ignorância das classes altas – “Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isto! Eu, há bem quarenta anos, que não pego em livro...” (fala do general amigo de Quaresma). Mais interessados no poder do que no progresso do país, militares e políticos controlam o povo, conduzindo-o a revoltas e a conflitos dos quais só eles beneficiam.

Em suma, estamos perante um livro que marcou o início do modernismo literário no Brasil, um livro marcante em termos históricos e que podia e devia ser mais divulgado, pelo menos em Portugal.

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

DOS MEUS LIVROS

O Homem que sabia Javanês e outros contos - Lima Barreto

Comentário:

Lima Barreto é considerado um dos mais importantes escritores brasileiros, embora pouco conhecido em Portugal. Viveu na transição do século XIX para o XX pelo que o seu estilo enquadra-se no realismo então em voga, essencialmente na ênfase que dá à crítica social e política.Mas esta obra vai mais além; o sentido de humor e a sátiratornam este livro delicioso de ler.

O seu estilo é leve, fluido, direto, colocando a narração dos factos acima de quaisquer considerações ou descrições exageradas. A sua linguagem é acessível e sempre bem-humorada.

Desta edição do Polo Editorial do Paraná constam 17 pequenas narrativas. O conto que dá título ao livro é uma pérola; uma preciosidade pela crítica deliciosa e bem-disposta à forma como algumas pessoas ascendem socialmente. O homem não sabia absolutamente nada de javanês. Mas fingiu que sabia e acabou ensinando essa estranha língua e daí à subida na escala política foi um pequeno passo. 
O homem não era inteligente; era esperto; e é essa esperteza saloia, tão típica dos políticos que aqui é retratada e satirizada.

Mas há muitos outros tipos sociais retratados e por vezes parodiados nestes contos e dos quais aponto alguns exemplos. 

Em Três Génios de Secretaria, a crítica ao funcionalismo público: negligente, incompetente, maledicente. Mas todos temos um pouco de funcionário público: “todos nós nascemos para empregado público”. A burocracia, bem kafkiana é a lógica do sistema – a lógica da idiotice em que todos, afinal, com o nosso espírito de funcionário público, nos enquadramos.

Em O Número da Sepultura conta-se a história de Zilda, esposa clássica, recatada e de bons costumes, a quem uma vez aconteceu algo de pouco habitual. Mas só uma vez… É a sátira à classe média, a pequena burguesia sem grandes aspirações, por isso mesmo conservadora nos costumes e reticente a qualquer risco.

Em O Falso Dom Henrique V, Lima Barreto constrói uma narrativa completamente diferente: cria um contexto histórico para o qual transpõe a acérrima crítica política às realidades do seu tempo, nomeadamente às políticas sociais injustas e às intrigas palacianas em que “vale tudo” para atingir o poder político.

O pequeno conto O Pecado constitui uma crítica brutal à igreja católica.

No conto O Filho de Gabriela, Lima Barreto explica de que forma a origem social e, principalmente, a consciência dessa origem social condicionam a vida de qualquer ser humano. Horácio nasceu pobre e enjeitado; os seus pais adotivos, no entanto, nunca deixaram de lhe fazer sentir a distância que a sua condição impunha; e seria o próprio Horácio a interiorizar a sua inferioridade. Com consequências terríveis.

Em jeito de conclusão podemos dizer que estamos perante um livro que consegue aliar de forma notável as mensagens que o autor quer transmitir a um formato de leitura muito agradável. E quando assim é, só se pode dizer que vale a pena ler!

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

LIVRAI-NOS DE TODO O MAL

Hélio Schwartsman

Sem capital político para aprovar a reforma da Previdência, o governo Temer busca comprar a confiança do mercado com uma agenda ambiciosa de privatizações.

Para os entusiastas do mercado, privatizações são uma espécie de pílula mágica, que resolve todos os problemas. Elas não apenas serviriam para tornar a economia mais eficiente (melhores produtos e serviços a preços mais baixos) e reduzir o tamanho do Estado como ainda permitem ao país fazer caixa para reduzir dívida e juros.

Já para a esquerda, privatizações são tóxicas. Seriam uma forma ardilosa de transferir patrimônio público para as mãos de particulares e ainda reduzir o poder do Estado de promover o bem comum. Mesmo quando recorrem a elas, governos que se dizem de esquerda se desdobram para nunca chamá-las pelo nome. Dilma, por exemplo, recorreu ao eufemismo "concessões", que nada mais são que privatizações por prazo fixo.

Obviamente, nenhuma dessas posições, que retratei de forma caricata, admito, para em pé. Há exemplos históricos de privatizações que deram certo, revertendo em maior eficiência e justa remuneração pela alienação patrimonial, e de transferências que são mais bem descritas como roubalheira descarada. O modo como o processo é conduzido importa mais do que os conceitos teóricos.

No caso do Brasil de hoje, vejo as privatizações como algo interessante. Não tanto por acreditar que obteremos grandes ganhos de eficiência ou atingiremos preços fantásticos, mas simplesmente porque reduziríamos a influência de políticos sobre setores importantes da economia.

No nosso presidencialismo de cooptação, a distribuição de cargos de empresas públicas segundo interesses políticos não só abre avenidas para a corrupção (como vimos com as diretorias da Petrobras) como ainda tende a resultar em chefias menos competentes que o possível. Só nos livrar disso já seria um bom negócio.

Fonte: Folha de S. Paulo

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

UMA DIZ. A OUTRA DESDIZ

Ruy Castro

Os sites de curiosidades que abundam online celebraram outro dia os 20 anos de Janus, uma tartaruga residente na Suíça. Até aí, nada demais, e nem os 20 anos de uma tartaruga são notícia –sabe-se de algumas que chegaram a quase 200, como a famosa Harriet, que já era adulta quando foi estudada pessoalmente por Charles Darwin para seu livro "A Origem das Espécies", de 1859, e só morreu em 2006. Mas Janus tem uma característica: é uma tartaruga de duas cabeças.

Tartarugas de duas cabeças também não são incomuns. Às vezes nasce uma delas, dizem que por má separação dos embriões. Só que, em seu habitat natural, têm vida curta porque, como costumam ter também seis patas, movem-se com dificuldade e são presa fácil de predadores. Mas Janus está a salvo: seu lar é o Museu de História Natural de Genebra, onde lhe fazem todas as vontades e passam o dia alimentando-a com folhas verdes e deliciosas. O nome Janus é o do deus romano de duas faces —uma virada para a frente, outra, para trás—, que lhe permitem ver o presente e o passado e cuidar das mudanças e transições.

Ao ler isto, não pude deixar de pensar em Michel Temer. Ele também parece ter duas cabeças. Uma diz uma coisa e a outra, em seguida, volta atrás e desdiz. Nas tartarugas, isso não altera a ordem das coisas, mas não fica bem em presidentes. E tem sido assim desde o começo de seu governo —promessas que não se cumprem, decisões que se revelam desastrosas e são abandonadas e uma formidável capacidade de fazer de conta que esse vai-não-vai levará o país a algum lugar.

A exemplo de Janus —o deus, não a tartaruga—, Temer devia estar cuidando das mudanças e transições. Pois esqueça. E, assim como Janus —a tartaruga, não o deus—, dizem que ele também gosta de folhas verdes.

Nesse caso, não esqueça.

Fonte: Folha de S. Paulo