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quarta-feira, 13 de maio de 2026

AS CHAVES DO AUTOMÓVEL

Era para ser apenas mais uma viagem de trabalho a São Leopoldo (RS). Reunião marcada, horário contado, discurso mentalmente ensaiado. Tudo dentro do roteiro — até o motorista resolver improvisar.

Estacionou o carro, desceu com a habitual confiança de quem já repetiu aquele gesto mil vezes, apertou o botão do alarme e… clic. Silêncio. Meio segundo depois, o estalo da consciência: as chaves estavam sorrindo, tranquilas e solitárias, na ignição.

Do lado de fora.

Com o carro trancado.

A cena ganhou contornos de espetáculo. O motorista contornava o veículo, espiava pelos vidros, puxava a maçaneta como quem testa a sorte na loteria. Tentou abrir uma fresta com os dedos, depois com um pedaço de papelão encontrado não se sabe onde. Nada. O automóvel, firme em sua integridade moral, recusava qualquer negociação.

Foi então que surgiu ele.

Um desconhecido de andar calmo, olhar experiente e uma serenidade suspeita. Aproximou-se com a naturalidade de quem já viu aquele filme antes.

— Se pagar uma cerveja, eu tiro a chave sem nenhum dano.

A proposta era inusitada, mas justa. Entre esperar um chaveiro oficial, comprometer a agenda e talvez ouvir uma longa palestra sobre distração, uma cerveja parecia investimento estratégico.

— Fechado.

O estranho arregaçou as mangas invisíveis da perícia. Não tinha capa, mas naquele momento era um herói urbano. Pegou uma pequena haste metálica — que surgiu do nada, como truque de mágico — e começou a trabalhar com precisão cirúrgica.

Aos poucos, formou-se uma plateia. Como toda boa intervenção pública, atraía curiosos. Pessoas interromperam seus caminhos para assistir ao que já estava sendo tratado como um evento cultural da calçada. Comentários sussurrados, palpites técnicos infundados e aquele silêncio respeitoso que antecede o clímax.

E então — clac! — a porta cedeu.

O estranho abriu com elegância, alcançou a ignição e, num gesto teatral, entregou as chaves ao proprietário. A plateia quase aplaudiu. Faltou apenas trilha sonora.

Foi quando um gaiato, desses que surgem para dar o arremate final, perguntou em voz alta:

— Você faz isso por profissão?

O silêncio que se seguiu foi mais profundo que o anterior. O herói improvisado respirou fundo. Olhou para o motorista, depois para a pequena multidão, e disse com um meio sorriso cansado:

— É por isso que eu não interfiro na dificuldade dos outros.

Pegou o rumo da esquina, deixando atrás de si um misto de gratidão, constrangimento e reflexão.

O motorista entrou no carro, agora devidamente abastecido de chaves — e de humildade. Quanto à cerveja, foi paga com gosto. Afinal, certas lições saem baratas.

E desde então, toda vez que tranca o carro, ele confere duas vezes. Não por medo de errar de novo — mas porque heróis anônimos nem sempre aceitam pagamento em lúpulo.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

LANÇAMENTO DO VERONA

Não fazia tempo que estávamos morando em Jaraguá do Sul quando a Ford anunciou o lançamento do Verona, um automóvel médio, com linhas muito bonitas, ao menos era o que dava para ver pelos anúncios televisivos.

Como o Marcos sempre gostou de automóveis, com o único objetivo de provocá-lo, eu falava em casa que talvez viesse a comprar um carro novo, no caso, um Verona.

Esse tipo de conversa se repetiu por muitas vezes mas efetivamente nunca cogitei em realizar tal aquisição pois minha necessidade, na medida em que os filhos cresciam, era de um carro maior e não menor. Minha prioridade era espaço.

O tempo passou e um certo dia, conversando com o Gilmar Moretti ele me disse que havia conhecido meu filho.

- Qual deles? perguntei, já que tenho três (3) filhos.

Um pequeno de óculos…

- Já sei, respondi. É o mais novo. - Mas como você o conheceu?

Então o Moretti me disse que viu aquele garoto de uns oito (8) anos de idade dentro da loja, olhando os carros em exposição.

- Fui falar com ele e então ele me pediu o preço do Verona. Notando a desenvoltura do garoto continuei dando-lhe corda. Ficamos conversando por um bom tempo. Gostei do papo do menino (grande novidade). Perguntei-lhe o nome e de quem era filho. Foi quando fiquei sabendo que o Sr. era o pai daquela figura.

- Não sei se chegamos a falar em preços mas recordo de ter-lhe dito que gostaria de falar comigo, pois tinha umas ofertas especiais e de veículos superiores ao Verona, de acordo com as minhas necessidades.

O Marcos nunca falou comigo sobre o assunto. De qualquer maneira, achei bonita a sua iniciativa.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

CICLISTA COLOMBIANO

Lá pelo final dos anos cinquenta (50) apareceu na cidade um ciclista colombiano que se propunha pedalar durante quatro dias e quatro noites sem parar.
Todo aquele espaço defronte à catedral foi interditado e o referido atleta iniciou a sua maratona por um trajeto circular. 

A curiosidade foi grande. Muitas pessoas passavam pela então praça Rui Barbosa para ver o ciclista. Alguns permaneciam mais tempo para, quem sabe, descobrir uma fraude, já que aguentar tanto tempo pedalando era algo meio surreal. 

Mas como o percurso era um oval contínuo, depois de alguns minutos de observação percebia-se que era algo monótono. 

Mesmo assim, pude testemunhar que algumas vezes ele era parado por membros da sua equipe, possivelmente para se alimentar e para as necessidades fisiológicas, mas sem nunca parar de pedalar, sendo que tais "paradas técnicas" eram bem rápidas. 

Dizia-se que nas madrugadas, o dito ciclista passava as horas cantando. Nunca vi. Mas amigos meus que confirmaram o fato. 

Esses mesmos, mais velhos que eu, inventaram uma quadrinha que era dita alto e bom som: - Luís Fernando Zuluaga/ faz quatro dias e quatro noites/ que não caga. Aqui o Luís Fernando é usado apenas para os fins de métrica pois não recordo o nome do dito cujo, mas o sobrenome, esse sim, era Zuluaga. 

Ao que me lembro, ele cumpriu os quatro dias e quatro noites pedalando, feito que foi repetido em outras cidades gaúchas. Confira aqui

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

PASSE LIVRE

Sempre chegavam novos moradores no bairro. Muitas famílias vindas do interior e mesmo de municípios vizinhos se instalavam por lá. Geralmente eram atraídos pela possibilidade de emprego na empresa Eberle, que não ficava muito distante. Era o caso da família do Tóio, oriundos de alguma cidade vizinha.

Tóio, o nosso personagem, era um rapaz com cerca de vinte (20) anos de idade. Mentalmente andava pela casa dos dez (10). Gostava muito muito de futebol e acompanhava as notícias dos clubes da capital assim como dos grandes centros. No seu mundo de fantasias, ele se dizia um craque.

Seu sonho era disputar o campeonato varzeano, jogando pelo clube do bairro. A chance nunca chegava. Para tanto, ele deveria apresentar a documentação comprobatória de plenas condições para ser inscrito pelo clube junto à Liga Caxiense de Futebol.

Claro que isto tudo era alimento para o seu mundo de fantasia.

Outras vezes, o engodo era o fato de ele estar fora da melhor forma física, não sendo recomendável participar de qualquer disputa sem estar em condições para tal. De fato, o Tóio era um pouco gordinho para a prática de esportes e precisava aprimorar o condicionamento físoco.

Mas dada à insistência, foi simulada a assinatura de um contrato com o clube e a partir daquela data, ele passou a considerar-se oficialmente como atleta legalizado.

Só que as oportunidades para jogar nunca chegavam. Utilizavam-se desculpas de toda ordem.

- Que tal uma estréia numa preliminar com Grêmio ou Inter num confronto contra o o Juventude ou o Flamengo? Já pensou, estádio lotado e talvez uma chance de ser visto pelo treinador de um clube da capital?

E assim, a direção do clube ia levando.

Certo dia, num fim de tarde, o Tóio veio desesperado até a sede do clube. Estava desolado. Sua família estava prestes a voltar para a sua terra natal. Por isto, ele queria que a direção lhe desse o passe livre para poder jogar pelo clube de sua cidade.

Nem todos sabiam da história do Tóio e da assinatura de um contrato com o clube. Enfim, ninguém resolvia o problema do pobre rapaz, até que alguém, mais sagaz, pegou uma folha de papel e escreveu qualquer coisa e o entregou ao Tóio, dizendo-lhe que mediante aquele documento ele estava livre para atuar em qualquer clube.

Para ele, o papel era um autêntico "passe livre". Com o documento em mãos saiu correndo em direção à sua casa, feliz da vida...

domingo, 3 de janeiro de 2021

CHÁCARA EBERLE

Foto: O Pioneiro
CHÁCARA EBERLE

Cursei o quarto e o quinto ano primário no Colégio Abramo Eberle, que na época funcionava provisoriamente em pavilhões de madeira nos fundos da atual Codeca, que por sua vez tomou o lugar de um restaurante, também de madeira, edificado em função dos pavilhões da Festa da Uva(*). 

Carrego comigo uma saborosa recordação daquele restaurante onde, no intervalo do meio da manhã, eu ia com uns trocados comprar um ou dois croquetes de carne, jamais superados em qualquer lugar por onde eu tenha passado. 

Certa manhã de primavera, cheguei cedo ao colégio, não no afã de estudar, mas de jogar bola com os outros colegas, o que sempre fazíamos até ouvirmos o toque do sino anunciando que todos deviam compor as filas para ingressar nas salas de aula. 

Naquela manhã notei que havia um senhor sentado nos degraus próximos do portão da escola. Quando dele me aproximei ele perguntou se aquela grande construção era um hotel ou um hospital, ao mesmo tempo em que apontava para a casa do Sr. Julio Eberle. A casa despontava imponente por entre as árvores da Chácara Eberle. 

Respondi que não era hospital e nem hotel, mas sim a residência do dono daquela empresa, apontando para o conjunto de prédios que formavam a Metalúrgica Abramo Eberle. 

O homem, muito simples por sinal, ficou surpreso com a minha informação e comentou: 

- Mas então ele deve ter uns dez ou doze filhos. 

Respondi não saber ao certo, mas era dois ou três, no máximo. 

Então veio o comentário daquele senhor, o que gratificou o meu dia: 

- Mas ah rato véio, seu! 

(*) http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/geral/cidades/noticia/2018/07/memoria-restaurante-da-exposicao-na-rua-alfredo-chaves-em-1954-10395345.html