quinta-feira, 22 de outubro de 2020

SAI COFRINHO, ENTRA COFRINHO JR.

SAI COFRINHO, ENTRA COFRINHO JR.
Carlos Brickmann (*)

Chico Rodrigues, DEM, o senador cuja história entrou para os anais, tirou 121 dias de licença do Senado. Assim, a decisão do ministro Barroso – que nome predestinado! – de afastá-lo do cargo por 90 dias foi suspensa pelo próprio ministro, por ter-se tornado desnecessária. Mas o importante nem é isso: é que, licenciando-se por 121 dias, um senador automaticamente passa o cargo ao suplente.

No caso, o suplente é Pedro Arthur Ferreira Rodrigues (DEM), filho de Chico Rodrigues e herdeiro, pelo menos temporário, de seu mandato. E passa a desfrutar das mordomias do cargo. Citando a frase clássica, a família é a base da sociedade. E ninguém, claro, criticará tão belo exemplo de solidariedade entre pai e filho.

A história não termina por aqui. Chico Rodrigues insiste em dizer que o dinheiro localizado no insólito esconderijo era destinado ao pagamento de seus empregados. Vá lá, vá lá, mas que é que pode ocorrer se suas empresas crescerem, graças a seu trabalho e seu tino gerencial, e contratarem mais funcionários? Chico Rodrigues, em vídeo que enviou aos senadores, também diz que, ao enfiar o dinheiro no providencial esconderijo sob suas cuecas, tomou “a decisão mais irracional de sua vida”.

Engano: a decisão mais irracional de sua vida foi candidatar-se; e a dos eleitores, dar-lhe o voto. Mas aceitemos. Só que, quando alguém está prestes a ser preso, costuma mastigar e engolir as provas. Errar o lado do aparelho digestivo é novidade.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista

Fonte: Brasildelonge.com
Uma boa ação jamais deixa de ser punida. (Gore Vidal)

LUGARES

PAISAGENS ALPINAS

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

USOS E NÃO USOS DO ARTIGO DEFINIDO E INDEFINIDO (2)

Vimos, na semana anterior, as regras gerais de emprego do artigo definido e indefinido. Há, no entanto, muito mais: o uso é variado e amplo. Normalmente nos guiamos pela intuição, mas é possível estabelecer algumas normas que presidem o uso ou a omissão do artigo. Vejamos caso a caso.

          - Só é possível comparecer ao baile com trajes de época.
“De época” é expressão usada para designar algo (fantasia, móvel, filme) que traz o estilo ou as características de determinado período (no passado). Com o artigo (da), seríamos obrigados a determinar qual a época.

          -  (A) Maria Cleusa pediu que você ligasse para ela.
O artigo junto ao nome de batismo da pessoa é facultativo: no Sul do Brasil é sempre usado, ao passo que em outras regiões dispensa-se o artigo sistematicamente.

          - João Figueiredo pediu para ser esquecido.
Os nomes próprios de pessoas, quando usados por inteiro, não devem ter artigo; este no entanto poderá ser usado se com a pessoa mencionada houver familiaridade, real ou pretensa: Agradeci a ajuda da Nilcéa P. Lemos na elaboração da tese. Comprei um disco da Gal Costa

          - Gostaria de descer o Amazonas até os Andes.
Usa-se o artigo com nomes próprios geográficos, nomes de países e de alguns Estados brasileiros (o Paraná, o Rio de Janeiro, a Bahia, o Rio Grande do Sul, o Espírito Santo etc.).

          - Visitarei Belo Horizonte e Salvador nos próximos dias.
Nomes de cidades prescindem de artigo. Há exceções: o artigo pode ser usado quando o nome da cidade deriva de um substantivo comum: o Rio de Janeiro, o Cairo, o Porto, sendo optativo em outros casos: (o) Recife, (a) Laguna (SC). 

          - Finalmente visitarei a Ouro Preto dos meus sonhos.
Nomes de cidades passam a admitir o artigo desde que acompanhados de qualificação (“dos meus sonhos”, neste caso).

          - Sua Alteza casou com Dona Teresa Cristina. / Espero não ter interrompido V. Exa.
Não se usa artigo antes de pronomes pessoais e de tratamento.

          - Falei com a srta. Ana, sua secretária, antes de vir procurá-la, senhora deputada.
Dentre as expressões de tratamento, senhor, senhora e senhorita são as únicas que admitem artigo, mas não quando vocativo, ou seja, quando nos dirigimos à própria pessoa.

          - Santo Antônio é seu padroeiro e confidente.
Os adjetivos São, Santo e Santa, quando acompanhados de nome próprio, não admitem artigo; tampouco se articula Nosso Senhor e Nossa Senhora.

          - Voltou para casa mais tarde do que de hábito. / Voltou para a casa dos pais depois da separação.
O artigo é omitido antes da palavra casa quando designa residência, lar. Mas não quando particularizada ou usada na acepção de prédio, estabelecimento

          - Finalmente estou em terra – já não aguentava o enjoo do navio.
Omite-se o artigo junto ao vocábulo terra quando em oposição a bordo, mar.

          - Esteve em palácio por convocação do Governador.
Costuma-se omitir o artigo com a palavra palácio quando designa a residência ou o local de despacho de um chefe de governo.

          - Pagou R$ 4,00 o quilo da maçã. / Custa mil o metro.
O artigo é usado nas expressões de peso e medida com o sentido de “cada”.

          - O inverno brasileiro é moderado.
Usa-se o artigo com as estações do ano, exceto quando elas vêm precedidas de de, significando "próprio de", como em “gosto do sol de inverno”.

Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

CEMITERIO DE MALANDRO

CEMITERIO DE MALANDRO
Por Daniel Funabashi*

A cada dia que passa, vejo mais e mais pessoas se aventurando em day trade e opções. Na maioria dos casos elas têm uma característica em comum: não entendem nada ou quase nada sobre esses ativos e se expõem ao risco da ruína.

Semana passada tive a triste experiência de ver dois amigos quebrarem no day trade, mesmo após repetidos avisos de que o day trade é um “esporte de alto desempenho” e apenas “atletas de ponta” realmente se destacam nesse “esporte”.

No final da semana, não satisfeito com o fracasso no day trade, um deles me perguntou o que eu achava de uma operação de opções que ele viu na internet, quanto ele poderia ganhar e quanto poderia perder – Para quem não sabe, opções são ativos altamente voláteis, que têm data certa de vencimento e, portanto, deixam de existir após essa data, ou seja, seu dinheiro pode virar pó. São popularmente conhecidos como “o cemitério de malandro”, pois muitas pessoas entram buscando ganhos elevados, num curto espaço de tempo. Mas o que a minha experiência mostra é que o apelido tem muito fundamento.

Respondi a ele com a seguinte frase “Se você não entende como o preço de um ativo se comporta ou os fatores que influenciam na sua precificação, não invista nele, invista no seu próprio conhecimento e volte apenas quando souber”. Espero do fundo do coração que esse meu amigo siga meu conselho e invista no aprimoramento pessoal, antes de se aventurar no mundo das opções ou decidir voltar ao day trade.

No mundo dos investimentos não existe dinheiro fácil. Sem disciplina e paciência, você dificilmente alcançará o que almeja. O mercado é implacável e cobra caro daqueles que se expõem de forma imprudente.

Se você quer começar já e não possui conhecimento, peça ajuda a um assessor de investimentos, ele é um especialista que pode te mostrar as melhores opções, de acordo com os seus objetivos e seu perfil. Em paralelo, dedique-se a aprender. Estude com afinco, para que quando você decida operar em day trade ou opções, isso não seja uma aventura, mas sim, uma jornada rumo aos seus objetivos.

Para terminar com um cliché: “investir em conhecimento sempre rende os melhores juros” (Benjamin Franklin).

*Daniel Funabashi é mestre em Finanças pela Cass Business School de Londres e sócio da iHub Investimentos, um escritório de assessoria de investimentos credenciado à XP Investimentos, a maior plataforma de investimentos da América Latina.

Fonte: http://fernandoalbrecht.blog.br
Condenamos tudo o que nos parece estranho, assim como o que não entendemos. (Michel de Montaigne, Escritor francês, 1533-1592)

LUGARES

SANTIAGO DE COMPOSTELA 
- ESPANHA - 

O ANALISTA DE BAGÉ

OUTRA DO ANALISTA DE BAGÉ

No começo de sua carreira o analista de Bagé também era chamado para atender casos a domicílio. Como na vez em que um peão foi chamar o analista no meio da noite. Era para o seu patrão, seu Vespasiano. Enquanto encilhava o cavalo, o analista de Bagé pediu detalhes sobre o caso. O peão que seu Vespasiano tava variando.
- Pensa que é metade gente, metade animal.
- Que animal?
- Cavalo.
- Que pêlo?
- Castanho.
- Que metade?
- A de baixo.
- Bueno. Pelo menos vou poder charlar com o homem.
Chegaram na estância quase de manhãzinha. Seu Vespasiano já estava de pé, mastigando seu milho. Recebeu o analista de Bagé com desconfiança.
- Que lhe traz aqui?
- Pôs vim olhar a sua tropa. Um cavalo meu desgarrou pra estas bandas.
- E tu cria cavalo no consultório, tchê?
- Tem cliente que só à patada.
- Pôs seu cavalo não está aqui.
- Só vendo.
Saíram para o campo. O analista de Bagé a cavalo e o seu Vespasiano galopando ao seu lado. Olharam toda a tropa. Aí o analista começou a examinar seu Vespasiano de cima para baixo.
- Tá me olhando por quê? – quis saber seu Vespasiano, carrancudo.
- Acho que to reconhecendo meu castanho.
- Endoidou? Eu sou o Vespasiano.
- Só até a cintura.
- Prá baixo também é meu.
- Então mostra a marca.
- O que?
- Quero ver a marca na anca. Se não tá marcado, é meu.
A discussão ainda durou um pouco mas no fim seu Vespasiano se convenceu que não era metade cavalo. Lamentou bastante porque naquele jeito estava economizando montaria. Mas a família suspirou aliviada. Não agüentava mais a bosta no tapete. (VERÍSSIMO, Luis Fernando. O Analista de Bagé, Porto Alegre : L&MP Editores, 1995, p. 254) 

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 20 de outubro de 2020

TUITE-16

TUÍTE-16
José Horta Manzano

Seguindo uma tradição da América espanhola iniciada em 1692, quando indígenas atearam fogo ao Palacio Nacional da Cidade do México, arruaceiros incendiaram e destruíram ontem a Igreja da Assunção de Santiago (Chile), que tinha sido inaugurada em 1876.

O templo chileno é o mais recente exemplo desse bizarro pendor hispano-americano de exprimir insatisfação queimando edifícios públicos e religiosos. Outro exemplo desse comportamento medieval é o Palacio Quemado, de La Paz (Bolívia), criminalmente incendiado em 1875.

No Brasil, temos grande respeito por edifícios, templos e toda obra humana. Preferimos incendiar e arrasar florestas, o que traz vantagem dupla. Por um lado, nos livramos do mato; por outro, abrimos espaço para erguer edifícios e templos à vontade.

Ah, e tem mais um benefício: dado que a destruição da vegetação enxuga a atmosfera e desertifica o clima, o problema das enchentes das metrópoles brasileiras se resolve sozinho. Como é que ninguém pensou nisso antes?

Fonte: https://brasildelonge.com

NOMEAÇÃO DE KASSIO MARQUES É INCONSTITUCIONAL

Charge do Cazo 
NOMEAÇÃO DE KASSIO MARQUES É INCONSTITUCIONAL
Modesto Carvalhosa
O Globo

Nomeação de Kassio Marques é inconstitucional e tornará o Senado ainda mais ilegítimo

O inconformismo de Merval Pereira (O Globo, dias 6/10 e 10/10) com a falta de reação da sociedade brasileira à indicação do senhor Kassio Nunes para ocupar o cargo de ministro do Supremo Tribunal constitui um repto a todos nós, cidadãos, e às próprias autoridades judiciárias, ameaçadas com tal barbaridade.

A Constituição de 1988, em seu artigo 101, determina que os ministros do STF devem ser escolhidos dentre cidadãos de notável saber jurídico e reputação ilibada. Trata-se de uma exigência constitucional incontornável, a que não pode o Supremo furtar-se de fazer cumprir.

FERE OS REQUISITOS – O Sr. Kassio Nunes fere os dois requisitos. E mais. As duas infringências estão imbricadas, acopladas. Uma contamina a outra. O indicado não tem notável saber jurídico e mente ao tentar se apresentar como sábio do Direito. O indicado, nos documentos curriculares que apresenta, altera a verdade sobre fatos juridicamente relevantes, com o propósito de ostentar notável saber jurídico que não possui.

Cabe aos nossos pouquíssimos partidos políticos decentes, urgentemente, arguir a inconstitucionalidade direta e notória do ato administrativo que indicou o Sr. Kassio Nunes para, assim, tornar inválido e ineficaz o placet que o Centrão dará a seu nome no dia 22 próximo, no Senado Federal.

SABER JURÍDICO – Como leciona o mestre José Afonso da Silva, “notável saber jurídico, exigido pela Constituição, refere-se especialmente à habilitação científica em alto grau nas matérias sobre que o Tribunal tem de pronunciar-se. Não bastam, porém, a graduação científica e a competência profissional presumida do diploma. O candidato deve ser portador de notoriedade, relevo, renome, fama, e sua competência ser digna de nota, notória, reconhecida pelo consenso geral da opinião jurídica do país e adequada à função”.

E, sobre a reputação ilibada, ensina o mesmo autor, fundado em Castro Nunes: “A reputação ilibada é outra notoriedade que se requer, mas agora no campo da ética, do comportamento humano. É a boa- fé, a perfeita idoneidade moral”. E os autores lembram que essa regra já era aplicada aos magistrados romanos.

UMA HUMILHAÇÃO – O fato é que a indicação do Sr. Kassio Nunes, se confirmada, tornará o Senado ainda mais ilegítimo perante o povo brasileiro. E o Supremo será humilhado ao ter que acolher uma pessoa que, durante os próximos 23 anos, comporá, sem idoneidade moral e jurídica, seu colégio.

Está nas mãos do Supremo, provocado pelos partidos que se opõem ao descalabro ético desta República, declarar a inconstitucionalidade da indicação e da aprovação pelo Senado Federal do Sr. Kassio Nunes, por infringir o disposto no referido artigo 101 da Constituição.

Fonte: Tribuna da Internet
Substituir o amor próprio pelo amor aos outros é trocar um tirano insuportável por um bom amigo. (Concepción Arenal)

LUGARES

CASTELO DE CHAMBORD - FRANÇA
O Castelo de Chambord, é um palácio localizado em Chambord, Loir-et-Cher, França. É um dos mais conhecidos castelos do mundo devido à sua distinta arquitetura em estilo Renascentista francês que combina as formas medievais francesas tradicionais com as estruturas clássicas italianas. Embora seja o maior palácio do vale do rio Loire, foi construído apenas para servir de pavilhão de caça para Francisco I de França, que mantinha a sua residência no Château de Blois e no Château d'Amboise. 


ROMANCE FORENSE

O ESTAGIÁRIO INICIANTE

Em demanda na qual o autor postula a concessão de liminar, o escrivão intima o advogado por telefone, dada a necessidade de o mesmo se manifestar sobre importante aspecto não abordado na inicial. O advogado, então, imediata e laconicamente, solicita a providência a um estagiário que contratara havia poucos dias: 

- Precisamos examinar esse processo e falar nos autos. Faz isso ainda hoje, pois me comprometi com o escrivão – determina o advogado, estendendo um papel contendo o número do processo. 

O estagiário vai ao cartório judicial, onde "fala" longamente com a escrevente que atendia o balcão. Ela não entende o que ele deseja - e tudo fica por isso mesmo.

Envolvido pela azáfama do escritório, o advogado esquece de cobrar os desdobramentos seguintes. 

Três dias depois, o escrivão novamente telefona. Preocupado com o não-atendimento ao que o juiz determinara no despacho, o servidor ressalta que o prazo iria se esgotar em 24 horas, e que o juiz analisaria o requerimento no estado em que se encontrava o processo, mesmo que o autor não o instruísse corretamente. 

Surpreso, o advogado informa ao escrivão que já providenciara, mas pede que o mesmo aguarde ao telefone, para que possa verificar o cumprimento da sua determinação. Chama, então, o estagiário: 

- Sabes aquele processo em que tínhamos que falar nos autos com urgência? 

- Sim, doutor, me lembro bem – responde o estagiário. 

- E então, o que houve? O escrivão está na linha, dizendo que o prazo está esgotando e que nada dissemos – retrucou. 

- Olha, doutor, eu estive no cartório naquele mesmo dia e conversei com a atendente. Ele me disse que o senhor tem um prazo a cumprir com urgência – responde o estagiário, com extrema ingenuidade, logo complementando que "eu esperei que o senhor voltasse a me chamar"... 

Perplexo, o advogado volta ao telefone e explica o ocorrido: 

- Escutaste, não é?! Pois eu peço desculpas. Ainda não cumprimos a determinação. Antes, terei de explicar ao meu novo estagiário que ´falar nos autos´ é peticionar, e não conversar sobre eles! 

Ao que o escrivão, conhecido por sua ironia, brinca, encerrando o telefonema: 

- Claro, doutor, vamos aguardar. Ninguém nasce sabendo. Não esqueça de ensinar ao seu estagiário que peticionar em Juízo é ato privativo dos advogados... 

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

DINHEIRO NA ORDEM DO DIA

DINHEIRO NA ORDEM DO DIA
Marli Gonçalves

Pegou em dinheiro? Lave bem as mãos, cantando “parabéns a você”, dizem, é o tempo de fazer isso de forma completa. Use álcool em gel, líquido, água sanitária, purificadores, acenda um incenso, tome banho e passe sal grosso do pescoço para baixo, que ultimamente o dinheiro, além de vivo, é sujo e passa por lugares inimagináveis

Não só porque esse dinheiro que tocou pode conter bactérias, mas porque pode estar impregnado com o pior vírus: o da corrupção. E aí ele, o dinheiro, se originou e andou por lugares incríveis, alguns até bem pequenos. Ultimamente o dinheiro está mesmo na Ordem do Dia. Tudo bem que os bancos não são lá aquelas coisas, mas a quantidade de dinheiro vivo, vivíssimo, que estamos vendo todos os dias sendo aprendido é realmente espantosa, assim como as mais variadas formas de guardá-lo, para lavá-lo sem água. O colchão absolutamente saiu de moda. Cofre? Bem, cofrinho, talvez.

Olha que estou falando em dinheiro guardado, não só sobre o dinheiro que foi manchete espetacular essa semana quando o tal senador Chico, com quem Bolsonaro há pouco tempo disse ter uma relação estável, casadinhos, tentou esconder entre as nádegas e o que ele deve achar uma merrequinha, um troco, perto do que, ao que parece, foi usurpado dos cofres públicos– e da Saúde, minha gente! Somos um país campeão de mortes, passamos de 150 mil mortes e mais de um milhão de casos de Covid-19, e os caras roubando dinheiro dos equipamentos de respiração, dos itens de proteção, dos remédios!

Pelo menos a situação do senadorzinho foi exposta e constrangedora nos detalhes. Pelo menos pudemos rir das notas borradas, da cueca. Desopilamos um pouco nosso fígado.

Esses últimos dias, só de cabeça, lembro de ter visto na tevê a apreensão de um armário desses de ferro, grande, com três gavetonas forradas, repletas de dinheiro – notas de 100 reais arrumadinhas, esticadas, para caber mais; isso fora os pegos em outras operações, em flagrantes nas estradas, misturados com armas e drogas pesadas. Vi até notas sendo jogadas, às gargalhadas, na água, como brincadeira em festa de bandidos no mar, e por eles próprios filmadas. Não são pequenas quantias, são milhares de reais, dólares, euros, que essa gente é tão troncha e grosseira que nem em arte mais tenta investir. Gosta de ver a bufunfa.

Não nos admira o interesse e pressa em implantar a tal nota de 200 reais, com o coitado do lobo guará, que na realidade ninguém cuida, só queima. Foi tanta a pressa que esqueceram de detalhes como o do tamanho das notas que pode confundir os deficientes visuais. Até a tinta usada para essa nova nota laranja anda passeando fora da Casa da Moeda, o que ajuda na falsificação que já ocorre. Tudo muito mal explicado, como sempre.

É a nossa cara de otários que se estampa nas notas que poucos verão. Somos nós os vira-latas laranjas; nós, os brasileiros que ainda temos de aguentar as falas de um presidente e seu vergonhoso governo e equipe. Gente que parece não ter fim em pensar e promover retrocessos em todas as áreas. Que confunde a Nação com o galinheiro de suas ideias esdrúxulas, com seus atos e vontades a bel prazer.

Pior ainda é ver um povo tão necessitado e que se vende por tão pouco. Não entende que é uma obrigação do governo a ajuda em um momento de emergência como este. Ninguém está dando nada. Não é benevolência. É obrigação. A cada dia sabermos de mais e mais milhares, inclusive vários já milionários, que pediram e receberam, na maciota, o auxílio emergencial. Conheço – e você também deve conhecer – muitas pessoas bem pobres que precisaram, pediram, e tiveram o auxílio negado. Continuaram invisíveis aos olhos do Poder Público. E desabrigados da Justiça e suas cegueiras momentâneas.

Mas parece que sempre foi assim, e a política está cada vez mais sórdida, porque agora – agora, agora, exatamente, não, porque a bem da verdade também já tivemos um governo popular petista implantando bolsas para comprar seus próprios sapatos – tenta comprar votos e aprovação.

Aprovação logo de quem, de quem negou e nega a pandemia, as medidas, acaba com a maior operação já feita contra a corrupção no país, a Lava Jato, e bate no peito com orgulho disso. Um governo com vários “líderes” e operadores que de pijamas e remela nos olhos, cedinho, recebem a Polícia Federal na porta de suas casas. Casas essas com gavetas, caixas, malas cheias de dinheiro vivo, grosso e palpitante – quem sabe precisam para fazer a feira ou o mercado, umas comprinhas.

Por dinheiro, o povo parece fechar os olhos sem compreender o quanto o futuro do país está sendo comprometido. Abusar da necessidade premente de miseráveis, roubar dinheiro público, corromper, e ainda vir com moralismos, falando em Deus, família (e tem uma família especialista em usar dinheiro para pagar coisas bem grandes), até quando isso será suportado?

Fonte: https://www.chumbogordo.com.br
É possível descobrir mais sobre uma pessoa numa hora de brincadeira do que num ano de conversa. (Richard Lindgard)

LUGARES

ATENAS - GRÉCIA
Junto à Praça Omonia de Atenas enconta-se Dromeas ("corredor", em Inglês), uma escultura de vidro e ferro com 12 metros de altura, criada em 1994 pelo artista Costas Varotsos. Tem a forma de um enrome corredor e lembra que a Grécia é o berço da maratona.

INFINITA HIGHWAY

Martha Medeiros

Histórias on the road sempre me cativaram, pois se há um lugar onde tudo pode acontecer é na beira de uma estrada. É quando estamos em movimento, com nossas trivialidades deixadas pra trás, a mercê apenas de emoções não programadas. 

Se tiver um posto de gasolina ou um restaurante muquirana no meio do caminho, tanto melhor. Não é dentro do carro que a aventura acontece, mas nos pit-stops. 

Há, em especial, duas histórias que nunca esqueço. Uma se passa no ótimo conto de Milan Kundera, O Jogo da Carona. Um casal de namorados sai de viagem, até que eles param para abastecer num posto. A garota vai até o banheiro e, na volta, faz para o namorado o clássico sinal de quem pede carona. 

Ele entra na brincadeira: ao retomar a estrada, os dois tratam-se como se nunca tivessem se visto. A conversa entre os dois "desconhecidos" começa charmosa, divertida, mas aos poucos vai ficando tensa: eles passam a revelar uma nova faceta de si próprios, e terminam a jornada num enfrentamento pesado, como se realmente fossem dois estranhos. Uma viagem sem volta. 

A outra história de estrada é a do filme Pão e Tulipas, em que uma dona de casa viaja em excursão com a família, mas é esquecida pelo ônibus num restaurante. A família segue sem dar falta dela, que fica sozinha, sem dinheiro e sem documentos, num local que não conhece.

Ela então resolve que esta é uma oportunidade imperdível para se reinventar: vai pra Veneza, adota outro nome e inaugura uma nova vida, em tudo diferente da que tinha. 

É uma metáfora clássica: na estrada (em princípio, uma linha reta que une dois pontos) é que se pode descobrir que os caminhos desta vida são inúmeros e que podemos mudar de rota de uma hora pra outra. 

Nos filmes e livros, isso acontece com frequência, mas fora das telas e páginas, o espírito de aventura não é tão elevado. Dias atrás aconteceu pra valer: um homem parou num posto de gasolina nos arredores de Pesaro, na Itália, e depois voltou para a estrada sem se dar conta de que havia esquecido a mulher, que tinha ido ao banheiro. 

Ele rodou por 360 quilômetros na sua infinita highway, numa boa, enquanto ela, em vez de aproveitar a chance para criar uma nova vida onde sua presença fosse mais notada, chamou a polícia e foi no encalço do banana, que a esta altura já estava em Milão. 

Era ou não o momento de dar o pulo-do-gato? A italiana poderia ter feito da sua história um poema, uma canção, um thriller, mas como isso exige inspiração e ousadia, tudo deve ter acabado apenas numa tremenda e infinita bronca.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 18 de outubro de 2020

O TRISTE FIM DE UM CANDIDATO SINCERO

O TRISTE FIM DE UM CANDIDATO SINCERO
Antônio Britto

Discurso do candidato sincero não foi reproduzido em nenhum dos 5.570 municípios 

“Bom dia, amigas e amigos.

Sou candidato, quero e preciso do voto de todos.

E para ajudar na decisão de vocês, antecipo aqui algumas coisas que penso, algumas coisas que gostaria de fazer se eleito.

Primeiro, eu acredito na política. Apesar da moda contra, a política segue sendo a única forma, na minha opinião, de mediar os conflitos naturais em nossa cidade, promover o diálogo e construir acordos e soluções. Então, o primeiro papel do prefeito tem que ser conversar e conversar muito com a população, claro, mas também com os vereadores, com os outros poderes. Acho que dá para fazer isso sem cair na corrupção que todos detestamos.

Eu disse melhorar e não chegar ao ideal porque nenhum problema será resolvido em menos de três ou quatro diferentes mandatos, muito a fazer em pouco tempo e sem recursos.

Terceiro, e fundamental: as soluções além de não serem simples necessariamente vão custar algo para alguém. Se a população, por exemplo, não quiser corte nas despesas e nos privilégios de alguns funcionários, precisa concordar com aumento de impostos. Se não quiser aumento de impostos nem corte de despesas, precisa examinar a possibilidade de concessões e privatizações. E se não quiser nada disso, tem que concordar que só ser eficiente na arrecadação e na gestão não basta.

Um famoso político inglês, em tempos de guerra, falou em sangue, sofrimento, suor e lágrimas. Não vamos ser dramáticos, mas a nossa guerra contra o atraso, a miséria, a pobreza da prefeitura e, pior, a dos moradores vai exigir, ao menos, muito suor e algum sofrimento.

Gostaria que vocês aceitassem meu convite, apoiassem essa proposta. Mas prefiro que saibam antes de votar o que terão de ouvir de mim ou de qualquer candidato quando for eleito e cair na realidade. Pesquisem um pouco –quem promete soluções simples geralmente é o mesmo pessoal que eleito denuncia “herança maldita” , diz que “está de mãos amarradas”, “infelizmente não posso fazer mais”.

Então, eu estou simplesmente dizendo durante a campanha para não precisar dizer depois de eleito.”

Nota complementar: o texto acima não foi ao ar em nenhum programa de propaganda eleitoral dos 5.570 municípios brasileiros. O candidato, autor do discurso, foi denunciado como “suicida político” pela equipe de marketing do seu programa, acusado de traidor pelos candidatos a vereador e, a pedido do partido, teve cancelado seu registro para disputar as eleições.

O novo candidato, para economizar tempo, decidiu praticar a utilização de “acervo doutrinário comum” –moda entre altas autoridades do país– e autorizou o pessoal de marketing a fazer um “melhores momentos” de propostas que sejam simples, gerem otimismo e garantam votos. As primeiras pesquisas indicam que a estratégia está dando certo, a exemplo do que acontece em boa parte das principais cidades brasileiras.

Fonte: https://www.poder360.com.br

BRING ME SUNSHINE

THE JIVE ACES
THE JIVE ACES, é uma banda formada em 1989 no Reino Unido. Numa excelente produção, a banda executa "Bring me Sunshine". Para saber mais sobre a banda clique aqui
Um homem nunca deveria ter vergonha de confessar que errou, pois na verdade é como dizer, por outras palavras, que hoje ele é mais sábio do que foi ontem. (Jonathan Swift)

LUGARES

COLMAR - FRANÇA

PENITÊNCIA

Felipe V, rei da Espanha
PENITÊNCIA
José Horta Manzano

Você sabia?

Nos anos 1600, a Espanha era dona de meio mundo. Além do espaço peninsular, a coroa contava com outras possessões: as extensas colônias na América, as Filipinas, entrepostos comerciais na costa africana e ainda territórios na Europa: Sardenha, Sicília, Milão, o Condado da Borgonha (hoje na França), a Bélgica, os Países Baixos, Luxemburgo e alguns territórios hoje alemães. Era um império vastíssimo que despertava muita cobiça.

No ano de 1700, Carlos II, rei da Espanha, morreu sem deixar descendência. Ele era da poderosa linhagem dos Habsburgos – a Casa da Áustria –, família cujos membros reinaram por séculos na Alemanha, na Áustria, na Espanha, na Croácia, na Hungria e em outros territórios.

Famílias da alta nobreza europeia costumam ser muito entrelaçadas e exibir parentesco intrincado. Esse fenômeno perdura até nossos dias. Os reis e rainhas atuais são todos primos próximos ou distantes. É fácil entender que, com a morte de Carlos II, tenha aparecido meia dúzia de pretendentes ao trono, todos oriundos dessa consanguinidade e, de certa forma, parentes do falecido.

Como não houve meios de se pôr de acordo, o jeito foi entrar em guerra. Desses conflitos antigos, não se fala muito. A razão é simples: vivemos num mundo de imagem e dessas velhas guerras não há foto, nem filme, nem vídeo. O máximo que se tem é uma ou outra pintura, em geral executada décadas mais tarde.

A Guerra de Sucessão espanhola foi feroz; representou um prenúncio dos futuros conflitos mundiais. Opôs a dinastia dos Habsburgos à dos Bourbons. Batalhas travaram-se não só na Europa, mas também na América, entre colonos ingleses, espanhóis e franceses. É complicado explicar em duas linhas os comos e os porquês do enfrentamento. Alguns números dão uma ideia da amplitude. A guerra se estendeu de 1701 a 1714. É impossível calcular o total de vidas humanas perdidas, visto que os observadores da época não dispunham dos instrumentos de hoje. As estimativas variam muito, mas a contagem mais impressionante chega a 1.250.000 mortos, entre militares e civis. A fome e a doença são a causa principal de mortes civis.

Importante batalha ocorreu em 1713 na região de Valencia, na cidadezinha de Xàtiva. Dado que o enredo é complicado, não vale a pena descer aos pormenores. Convém notar que a memória coletiva dos habitantes guarda gosto amargo dos massacres de que seus antepassados foram vítimas. O ressentimento contra os Bourbons perdura até hoje.

Passados 300 anos, é justamente a Casa de Bourbon que ocupa o trono espanhol. Tanto Juan Carlos I como seu filho e atual rei, Felipe VI, pertencem a essa dinastia. Em Xàtiva, que hoje conta com 30 mil habitantes, há um museu de arte que abriga pinturas. Entre os quadros, há um retrato do rei Felipe V, aquele que reinava na época da batalha de 1713. Artisticamente, não é nenhuma obra-prima, mas representa justamente o detestado opressor, fato que incomoda os nativos.

Nos anos 1950, o diretor do museu era um señor mais ousado que seus antecessores. Um dia, tomou a decisão de pendurar o quadro de cabeça para baixo. Está até hoje nessa posição. Ficou combinado que só voltará à posição original no dia em que um dos descendentes pedir desculpas pelo massacre que seus antepassados cometeram contra o povo da cidadezinha.

Até hoje, nenhum dos reis da Espanha aquiesceu ao pedido. Para surpresa de visitantes do museu que não conhecem a história, o quadro continua de ponta-cabeça. A depender da vontade dos habitantes de Xàtiva, assim vai continuar.

Fonte: https://brasildelonge.com

FRASES ILUSTRADAS

sábado, 17 de outubro de 2020

QUER PASSAR POR PANACA?

Charge do Sponholz
QUER PASSAR POR PANACA?
Percival Puggina

Quer passar por panaca? Defenda coisas tão absurdas quanto religião, família e valores

“Panta rei” – tudo flui -, afirmava o filósofo Heráclito, no séc. V a.C. Essa antiga idéia, segundo a qual a evolução é regra universal e irrestrita, foi firmando parceria com uma outra, segundo a qual tudo caminha no sentido da perfeição. Esse pacote de crenças está muito presente na cultura contemporânea. A maior parte das pessoas acredita piamente nela. Que tudo muda é verdade, não é certo, porém, que toda mudança implique evolução e aperfeiçoamento.

No século passado, o evolucionismo recebeu dois importantes reforços através de Herbert Spencer e de Charles Darwin. O primeiro expôs uma teoria segundo a qual a evolução é uma passagem do simples ao complexo, do menos ao mais coerente; o segundo deu-lhe a conhecida dimensão biológica: a sobrevivência e o desenvolvimento dos indivíduos são determinados por sua capacidade evolutiva e de adaptação ao ambiente.

ABUSO RELATIVISTA – Não consegui localizar o ponto exato em que o evolucionismo se associou à tese do “constante aperfeiçoamento das coisas”, mas aconteceu aí um abuso semelhante ao que os modernos relativistas cometeram com a teoria física da relatividade. Assim como o que era físico ganhou uma descabida dimensão “moral” (o relativismo), “mudança” passou a ser sinônimo de “aperfeiçoamento”.

E daí? E daí decorre um monte de absurdos. Tudo que é antigo é imperfeito e tudo que é moderno é perfeito; o que muda evolui e o que permanece involui; tudo que se faz hoje supera o que se fazia ontem. Vive-se sob o império da moda: o jovem é bonito e sábio; o velho é feio e burro. Essa curiosa associação de novidade com qualidade produz uma espécie de iconoclastia de fraldas à qual nada antigo resiste.

AMOR E FAMÍLIA – A começar pelo amor – coisa antiga demais – que se esgota na curtição recíproca, não implica laços nem o respeito indispensável à relação entre as pessoas. Como estabelecer, por exemplo, a supremacia do novo sobre o antigo nas relações entre pais e filhos, entre alunos e professores?

Poucas coisas tão antigas e, portanto, tão “superadas” quanto a instituição familiar. Desencadeou-se contra ela um furioso ataque. Afrouxaram seus elos; abriram-na e desoneraram seus membros de maiores deveres; por fim, cumpriu-se a tarefa de desorientá-la com ideias que são droga e drogas que turvam a mente. Tudo moderno, bom e politicamente corretíssimo. Aliás – quer passar por panaca? – defenda coisas tão absurdas quanto religião, família e valores.

Fonte: Tribuna da Internet

BOLSONARO E A CORRUPÇÃO

BOLSONARO E A CORRUPÇÃO
Hélio Schwartsman

Há uma semana, ele declarou que não havia corrupção em seu governo

Os deuses sabem ser irônicos. Poucas horas depois de Jair Bolsonaro ter afirmado que daria uma voadora no pescoço de quem praticasse corrupção em sua gestão, a Polícia Federal flagrou o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), vice-líder do governo, com cerca de R$ 100 mil em sua residência, dos quais R$ 30 mil se encontravam em sua cueca, algumas notas "entre as nádegas", como fizeram questão de publicar, por pudicícia, alguns veículos.

A operação policial que apanhou o repleto senador é parte de uma investigação sobre desvio de verbas destinadas ao combate à Covid-19. Uma semana antes dessa pilhéria divina, o presidente declarara que não havia corrupção em seu governo e que por isso ele acabara com a Lava Jat o.

Embora Bolsonaro tenha no passado dito que tinha "quase uma união estável" com Rodrigues, esse não é o caso controverso mais próximo do presidente. Abstraídos os vários rolos de ministros, dois de seus filhos são investigados por desvio de verbas nas famosas "rachadinhas", um nome mais simpático para peculato. Contra o primogênito, o senador Flávio, já há um impressionante acervo de provas. Até a primeira-dama recebeu cheques, cuja soma chega a R$ 89 mil, do arquissuspeito Fabrício Queiroz e de sua fiel esposa.

OK, tecnicamente a família não faz parte do governo, o que, se desobriga o presidente de dar-lhes voadoras no pescoço, não o dispensaria de oferecer explicações à sociedade.

Para quem já atingiu a ataraxia, é possível divertir-se com esse pregar de peças do destino. Mas é preciso reconhecer que, no fundo, a culpa é nossa. Como já escrevi aqui, o Brasil merece Bolsonaro. Ele não apenas foi eleito democraticamente —apesar dos sinais prévios inequívocos de que não era confiável— como sua popularidade vem crescendo —apesar do desastre que é sua administração e da pilha de mais de 150 mil mortos pela Covid-19. Democracia tem consequências.

Fonte: Folha de S. Paulo

NO PAÍS DOS ABSURDOS

NO PAÍS DOS ABSURDOS
Edmilson Siqueira

… estamos caminhando para que todos os absurdos que ocorrerem na política brasileira não mais espantarão pelo ineditismo. Será mais um político que fez aquilo que outro ou outros já tinham feito. E assim vamos caminhando para bater todos os recordes do absurdo na política…

Em se tratando de política brasileira não há limites. Há uma frase que já deve ter sido modificada mil vezes por aí, mas que na essência diz que qualquer coisa absurda que aconteça no Brasil, procure na Bahia (ou em Minas, depende de quem usa a frase) que encontrará antecedente. A frase pode ser injusta com o estado citado, mas estamos caminhando para que todos os absurdos que ocorrerem na política brasileira não mais espantarão pelo ineditismo. Será mais um político que fez aquilo que outro ou outros já tinham feito. E assim vamos caminhando para bater todos os recordes do absurdo na política.

Se já não bastasse um assessor de um deputado pernambucano ser flagrado, em 2005, com cem mil dólares na cueca, fato esse que foi seguido de outros absurdos, pois nem o assessor nem o deputado foram punidos e a origem do dinheiro também não foi explicada até hoje, agora aparece um senador da República, vice-líder do governo, pego numa operação da Polícia Federal com a cueca cheia de dinheiro sujo. Sujo, no caso, com sentido duplamente qualificado, se é que me entendem.

Aí vem o presidente da República e diz que no governo dele não tem corrupção, embora em menos de dois anos, já ululem fatos de sobra sobre malversação do erário, tanto nos arredores da cadeira presidencial, quanto na intimidade da família Bolsonaro.

Hoje mesmo, sexta-feira, a Revista Crusoé – em mais um dos vários “furos de reportagem” que vem publicando há meses e se tornando o mais importante veículo da imprensa política brasileira – mostrou que a relação de Fabrício Queiroz com os Bolsonaros começou bem antes da data que as investigações alcançaram. Ou seja, são amigos do peito há quase 20 anos, desde o primeiro mandato do filho 01 na Assembleia do Rio de Janeiro. E Queiroz, à época, já estava implicado em processo de homicídio, ao lado do “parça” Adriano da Nóbrega, que mais tarde viria a ser um dos mais violentos chefes de milícia do Rio, liderando um tal de “escritório do crime” especializado, entre outras coisas, a assassinar por encomenda, até ser morto na Bahia pela PM, ao resistir à prisão. Como se vê, corrupção e outras mazelas, sempre fizeram parte da família Bolsonaro.

Para continuar no campo dos absurdos, quando veio a público o dinheiro sujo do senador do DEM, vice-líder do governo, seu pares mais chegados e que consideram nada de mais ter algumas centenas de milhares de reais dentro de casa, se calaram. Alguns chegaram ao absurdo de questionar a guarda do dinheiro da na cueca . “logo ele, tão experiente…”. Os que se indignaram com o fato e condenaram o senador pego em flagrante delito foram poucos. Mas foi só o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, determinar o óbvio afastamento do senador apanhado com as cuecas recheadas de notas de cem reais, para que o grupo de senadores, talvez tão safados quanto o encuecado, saíssem em sua defesa, dizendo ser “um absurdo um ministro afastar um senador numa decisão monocrática, que o Senado é soberano e ele é quem decide que deve ou não continuar exercendo suas nobres funções para as quais foi eleito pelo povo…”

Como se vê, são as bobagens de sempre em defesa de um colega descaradamente corrupto e da corrupção em geral. E isso, embora se constitua um absurdo, não é inédito. Em governo recentes assistimos a infindáveis desfiles de desculpas esfarrapadas para flagrantes delitos, sem contar a descoberta não de uma cueca, de uma mochila ou de uma única mala recheada de notas de reais, dólares e euros (as três preferidas da bandidagem com mandato), mas sim de um apartamento inteiro servindo de cofre a nada menos que 51 milhões de reais guardados em mais de uma dezena de malas e caixas. A descoberta do apartamento recheado foi em setembro de 2017. Os acusados pelos crimes foram condenados em 2019, mas, por mais absurdo que pareça, ainda estão soltos aguardando julgamento da fieira de recursos que a bondosa Justiça brasileiro oferece a todos os facínoras ricos que podem pagar caros advogados com o dinheiro fruto da corrupção. Já se tentou proibir que advogados sejam pagos com dinheiro da corrupção, mas a OAB e outras entidades ligadas à advocacia, por mais absurdo que pareça, berraram muito por aí e os políticos, que seriam prejudicados com a medida, não a aprovaram, claro.

No país dos absurdos há, por exemplo, uma empresa estatal que foi criada para administrar a implantação de um trem-bala. Os petistas criaram a estatal para o trem, mas não conseguiram fazer o trem. Ora, se não tem trem, não pode continuar existindo uma empresa criada para administrar a implantação do trem. Mas estamos no Brasil e a empresa já tinha centenas de apaniguados dos políticos nela empregados, mamando o erário, que é o que eles mais sabem fazer. Constatado o “elevado serviço social” que a empresa do trem que não existe prestava à “comunidade” (comunidade lá das negas deles, bem entendido), ela continuou existindo, sem qualquer objeto ou objetivo, sem qualquer produto ou produção. E custando alguns bilhões de reais por ano, por mais absurdo etc. e tal…

Só que a história não acaba aí. Tem mais absurdos…

Veio o governo-tampão de Temer e ele, fiel a quem lhe sustentou nos anos anteriores (o PT), manteve a empresa do trem agora já considerada totalmente fantasma. E quem substituiu Temer foi um candidato que não só esbraveja contra a corrupção, como prometera acabar com as estatais todas. Ora, se prometera acabar com estatais que, embora deem prejuízo, produzem alguma coisa, imaginem o que aconteceria com uma estatal que nada produz e nem tem objetivo algum. Pois no país dos absurdos, a estatal não só continuou existindo e nenhuma das outras, até praticamente dois anos de mandato, foi extinta ou vendida. Ensaia-se uma tímida desestatização dos Correios, para o ano que vem, se os absurdos do país dos absurdos não suplantarem, como têm suplantado até aqui, a lógica e o bom senso.

É isso mesmo: a existência de funcionários fantasmas que já é um absurdo, ganhou um novo patamar no Brasil. Temos sim uma empresa inteirinha fantasma, cheia de funcionários fantasmas para cuidar de um trem idem, que jamais saiu e nem vai sair na próxima década do papel.

E assim, de absurdo em absurdo, os políticos brasileiros vão destruindo toda e qualquer esperança de que esse país saia da encalacrada situação a que chegou, por obra e graça dos políticos eleitos pelo povo que, ao invés de se tornarem empregados desse povo que o elegeu, passam a ser seus carrascos.

Estamos em plena campanha eleitoral para prefeitos e vereadores. Eu ia dizer que se trata de mais uma chance para votarmos em cidadãos honestos e interessados em melhorar de fato o país, mas acabei de ouvir o horário eleitoral obrigatório no rádio (outro absurdo) e cheguei à triste e realista conclusão: não há qualquer esperança de melhorar.

Fonte: https://www.chumbogordo.com.br
As faltas que cometo não me ajudam, perturbam-me demasiado. (Georges Bernanos)

LUGARES

MOSCOU - RÚSSIA

FRASES ILUSTRADAS

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

NOVA FAIXA SOCIAL

NOVA FAIXA SOCIAL
Sandra Pujol

Se observamos com cuidado, podemos detectar a aparição de uma nova faixa social que não existia antes: pessoas que hoje têm entre sessenta e oitenta anos.

A esse grupo pertence uma geração que expulsou da terminologia a palavra envelhecer, porque simplesmente não tem em seus planos atuais a possibilidade de fazê-lo.

É uma verdadeira novidade demográfica, semelhante ao surgimento da adolescência; na época, que também era uma nova faixa social, que surgiu em meados do século XX para dar identidade a uma massa de crianças desabrochando, em corpos adultos, que não sabiam, até então, para onde ir ou como se vestir.

Este novo grupo humano, que hoje tem cerca de sessenta, setenta ou 80 anos, levou uma vida razoavelmente satisfatória.

São homens e mulheres independentes que trabalharam durante muito tempo e conseguiram mudar o significado sombrio que tanta literatura latino-americana deu por décadas ao conceito de trabalho.

Longe dos tristes escritórios, muitos deles procuraram e encontraram, há muito tempo, a atividade que mais gostavam e na qual ganham a vida.

Supostamente é por isso que eles se sentem plenos; alguns nem sonham em se aposentar.

Aqueles que já se aposentaram desfrutam plenamente de seus dias, sem medo do ócio ou solidão, crescem internamente. Eles desfrutam do tempo livre, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, carências, esforços e eventos fortuitos, vale bem a pena contemplar o mar, a serra e o céu.

Mas algumas coisas já sabemos que, por exemplo, não são pessoas paradas no tempo; pessoas de cinquenta, sessenta ou setenta, homens e mulheres, operam o computador como se tivessem feito isso durante toda a vida.

Eles escrevem e veem os filhos que estão longe e até esquecem o antigo telefone para entrar em contato com seus amigos para os quais escrevem e-mails ou mandam whatsapps.

Hoje, pessoas de 60, 70 ou 80 anos, como é seu costume, estão lançando uma idade que AINDA NÃO TEM NOME. Antes, os que tinham essa idade, eram velhos e hoje não são mais... hoje estão física e intelectualmente plenos, lembram-se da sua juventude, mas sem nostalgia, porque a juventude também é cheia de quedas e nostalgias e eles bem sabem disso.

Hoje, as pessoas de 60, 70 e 80 anos celebram o Sol todas as manhãs e sorriem para si mesmas com muita frequência ... Elas fazem planos para suas próprias vidas, não com as vidas dos demais.

Talvez, por algum motivo secreto que apenas os do século XXI conheçam e saberão, a juventude é carregada internamente.

A diferença entre uma criança e um adulto é, simplesmente, o preço de seus brinquedos.

Fonte: https://www.facebook.com
Quem fala muito mente sempre porque se esgota seu estoque de verdades. (Millôr Fernandes)

LUGARES

LUGANO - SUÍÇA


MR. MILES



RESTAURANTES SEM COZINHA

Agora instalado em Burlington, no Estado norte-americano de Vermont, mr.Miles diz que foi levar Trashie, a raposa das estepes siberianas, para curtir o ar do mais belo dos outonos. Embora Trasie não possa mais ver,nosso correspondente fica maravilhado com os uivos de prazer que sua mascote profere diante de paisagens com folhas amarelas e escarlates em um ambiente de sonho. A seguir a pergunta da semana:

Dear mr.Miles, o senhor poderia nos explicar como fazer para identificar o que chama de restaurante pega-turistas? Thank you!


Regina Passy, por e-mail

"Well, my dear, confesso que minha definição foi, sim, um tanto quanto exagerada. Os estabelecimentos mencionados realmente pegam os turistas por um motivo muito simples: eles estão sempre nas proximidades de alguma atração muito visitada ou caminho entre duas delas.

Em alguns lugares, indeed, eles o fazem literalmente: aliciadores travestidos de garçons ficam na porta, dirigindo-se aos transeuntes e tentando convencê-los de que a casa que defendem é melhor e oferece mais vantagens que as concorrentes.

Unfortunately, um turista cansado depois de intensa atividade está realmente propenso a ser seduzido pelo restaurante mais à mão. O que não significa, however, que ele vá comer mal. Apenas que, com certeza, não comerá bem. Vou lhe apresentar, dear Regina, um exemplo clássico de gastronomia pega-turista. A belíssima Piazza Navona, em Roma, com suas hipnóticas esculturas de Bernini, tem perto de trinta restaurantes em suas margens.A paisagem, portanto, é sempre bonita, o que, by the way, já aumenta em 30% os valores do cardápio.

Ocorre que, recentemente, meu bom amigo Maciellis, um grego muito cioso de cada prato que pede - ele vive orientando os garçons  sobre a cocção das carnes, o tempero das saladas e até a cremosidade das sopas-, encontrou outro grego, de Salonica, na função de maître de um desses restaurantes. Conversa vai, conversa vem, Maciellis obteve a informação de que - believe me! - apenas três das casas de repasto da famosa praça têm cozinhas. Como? Restaurantes sem cozinha?

Indeed, darling: 90% dos estabelecimentos da Piazza Navona dispõem apenas de aparelhos de micro-ondas e refrigeradores. Os pratos oferecidos em seus cardápios são fabricados em alguma indústria nas proximidades e ficam congelados até que algum incauto decida comê-los.

Você há de convir, dear Regina, que estabelecimentos assim não podem produzir gastronomia virtuosa, nem concorrem a estrelas do Guia Michelin. A mim me parece que um restaurante sem cozinha é como um teatro sem palco ou banheiro sem porcelanas. Don´t you agree?

Uma maneira quase sempre eficiente de encontrar estabelecimentos oportunistas é verificar se existe, à mostra, opções de menu a preço fixo. Bons restaurantes não fazem esse tipo de promoção. Estou de acordo que, sometimes, esses combinados são muito econômicos e nossos vizinhos escoceses, fartamento conhecidos por sua sovinice, gostam de frequentá-los. Isso, of course, quando não estão fazendo convescotes nas praças.

Anyway, admito que essas considerações têm um toque de mau humor. Na verdade, cada viajante tem o direito de fazer o que quiser de seu estômago. Nevertheless, como considero a cozinha de cada lugar uma parte valiosa de sua cultura, sugiro que, ao menos uma vez, o visitante exponha-se ao melhor da gastronomia local. Isso não significa visitar restaurantes muito caros. A melhor cozinha de cada lugar está, quase sempre, nos bairros que não têm qualquer interesse para turistas. Naqueles pequenos bistrôs ou tascas visitados, cotidianamente, por trabalhadores da própria cidade. Escolha os mais cheios, sobretudo se forem os mais antigos.

Aposto que, ao menos, eles terão cozinhas. Don´t you agree?

Fonte: O Estadão

FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

AS RELIGIÕES E O TRABALHO AOS SÁBADOS

AS RELIGIÕES E O TRABALHO AOS SÁBADOS
Hélio Schwartsman

Ao analisar dois casos, STF definirá os limites da liberdade religiosa

A liberdade religiosa foi uma das mais importantes invenções da modernidade. Ao estipular que o Estado não segue nenhuma fé, mas assegura a todos os cidadãos o direito de professar o credo que preferirem, ela foi vital para eliminar as guerras religiosas, uma das causas de conflito mais mortíferas do último milênio.

Os contornos exatos da liberdade religiosa começarão a ser definidos pelo STF, num julgamento que vai contrapô-la a outros princípios constitucionais, notadamente a igualdade de todos diante da lei.

Concretamente, o Supremo decidirá sobre dois casos, o de uma professora adventista que foi dispensada por recusar-se a trabalhar após o pôr do sol das sextas-feiras e o de um candidato a cargo público que pleiteou o direito de mudar a data de uma etapa do concurso a fim de não violar a guarda do sábado.

Não vejo problemas em o Estado exercer a cortesia pública. Se há brasileiros que consideram imoral fazer prova no sábado (não vale exigir justificativas racionais das religiões, pois não sobraria nenhuma), que se ofereça uma alternativa. Não penso que esse tipo de gentileza viole o princípio da igualdade.

O que eu penso ser fundamental é que os editais dos concursos especifiquem claramente as exigências do cargo que possam afetar crenças religiosas. Um bombeiro ou um policial sempre podem ser convocados para atuar em qualquer dia e hora, então, quem guarda o sábado deve abster-se de ingressar nessas carreiras. Outro exemplo elucidativo: médicos têm o direito de não realizar abortos (objeção de consciência), mas os que fazem essa opção não devem pleitear o cargo de ginecologista no serviço público, no qual é necessário realizar os abortos previstos em lei.

E nem penso que esse tipo de restrição constitua um fardo muito pesado para o crente. O propósito mesmo de tabus religiosos é cobrar um sacrifício custoso para demonstrar lealdade à causa.

Fonte: Folha de S. Paulo
Ah, que diferença entre o juízo que fazemos de nós e o que fazemos dos outros! (Johann Goethe)

LUGARES

METEORA - GRÉCIA

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


 PONTO E VÍRGULA

Comentário ouvido num bonde Que moça culta, a Maria Eduarda: usa ponto e vírgula! (Mário Quintana)

Tinha razão o poeta gaúcho. O ponto e vírgula traz em si algumas sutilezas que poucos captam. Mas, por outro lado, todos acabam usando este útil sinal gráfico em enumerações, leis e sequências ou para separar orações. Em síntese, o ponto e vírgula:

1 - Separa os vários membros de uma enumeração descritiva ou narrativa:

Em sua oração fúnebre, Péricles refere-se ao heroísmo dos combatentes mortos; à dor de suas mães; à gratidão dos sobreviventes e à necessidade de guardar a memória dos que morreram pela pátria.

Anota Celso Luft que o ponto e vírgula “é inevitável sobretudo entre os vários membros de enumeração e paralelismo cuja estrutura interna contenha vírgula”, como neste período:

Participaram daquela reunião: Roberto M. Lacerda, 43 anos, que veio a ser reitor entre 72 e 76; Caspar Stemmer, engenheiro, mais tarde prefeito do câmpus, também reitor de 76 a 80; Ernani Bayer, hoje membro do CFE; Acácio Santiago, professor, e toda a equipe técnica.

2 - Separa as orações adversativas (introduzidas por mas, porém, contudo, todavia, entretanto) e as conclusivas (caracterizadas por logo, portanto, assim, então, por isso, consequentemente etc.), esteja subentendida ou explícita a conjunção, quando se quer fazer uma pausa maior do que vírgula:
  • Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.
  • Era incrível a variedade dos adornos; contudo, a pessoa não gostou de nenhum.
  • Há muitos modos de afirmar; há um só de negar tudo. [conj. adversativa implícita]
  • As doses eram diminutas; tinham, portanto, de aguardar longo prazo pelo efeito.
  • A natureza das relações sociais constitui a base do desenvolvimento das capacidades humanas; logo, das qualificações.
  • "Tinha a pedra na mão, mas já não era necessária; jogou-a fora." [conjunção conclusiva subentendida antes da última oração]
3 - Separa os considerandos, incisos de leis ou decretos e os diversos itens de uma enumeração. Três exemplos:

O Governador do Estado, 
Considerando que ... ;
Considerando que ... ;
Considerando, finalmente, que ... , decreta

Constataram os técnicos vários problemas:
a) vazamento de água;
b) ruptura da rede em três pontos e
c) alteração do medidor.

Art. 14. Os infratores das disposições desta Lei ficam sujeitos às seguintes sanções:
I - notificação;
II - multa;
III - cassação do atestado;
IV - embargo da obra.

É importante observar que se usa letra minúscula depois de ponto e vírgula. A única exceção fica por conta dos Considerandos. Caso você opte pela inicial maiúscula em cada item/linha de uma enumeração, feche todos eles com o ponto final.

Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

IMPÉRIO DO CONSUMO

O IMPÉRIO DO CONSUMO
Eduardo Galeano

“Esta ditadura da uniformização obrigatória impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.” (Eduardo Galeano)

A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.

A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

“Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.

O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.

Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.

Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.

Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.

A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.

Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?

O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.

O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.

A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.

O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?

A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.

A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

Publicado originalmente na revista Carta Capital, em 30.12.2010.

Fonte: www.revistaprosaversoearte.com