domingo, 2 de outubro de 2022

EM LOUVOR DO VOTO INÚTIL

Alexandre Schwartsman

… Não a assinei, nem pretendo fazê-lo, assim como não tenho a menor intenção de entregar meu voto, inútil, ao ex-presidente (muito menos ao atual, já adianto). E sequer é pelo lamentável programa econômico, cuja expressão mais recente só revela que nada esqueceram, nem aprenderam com os erros que levaram o país a uma das piores recessões dos últimos 50 anos…

Colegas economistas, a quem respeito, discordam das propostas do PT, mas mesmo assim lançaram recentemente uma carta de apoio ao dito “voto útil” em Luis Inácio Lula da Silva. Não a assinei, nem pretendo fazê-lo, assim como não tenho a menor intenção de entregar meu voto, inútil, ao ex-presidente (muito menos ao atual, já adianto).

E sequer é pelo lamentável programa econômico, cuja expressão mais recente só revela que nada esqueceram, nem aprenderam com os erros que levaram o país a uma das piores recessões dos últimos 50 anos, ainda atribuída às “pautas-bomba” e outras atividades paranormais. Por pior que seja, não é, nem de longe, o motivo da minha recusa.

Não votarei em Lula no primeiro turno, tampouco, se houver, no segundo, porque não estou minimamente convencido das credenciais democráticas do PT, como, inclusive, tive a oportunidade de escrever há cerca de quatro anos, sob circunstâncias não muito distintas das atuais.

No que diz respeito à liberdade de expressão, trata-se do partido que ainda propõe o “controle social da mídia”. Ainda que muitas interpretações possam caber em tal rótulo, deixo aqui a utilizada por Lula há cerca de um ano: “Eu vi como a imprensa destruía o Chávez. Aqui eu vi o que foi feito comigo. Nós vamos ter um compromisso público de que vamos fazer um novo marco regulatório dos meios de comunicação”. Quem quiser que se (auto) engane, mas, não resta dúvida que o propósito da coisa é impedir que a “imprensa destrua o governo”. Super democrático.

A propósito, órgãos de imprensa que criticavam o governo petista foram devidamente rotulados como Partido da Imprensa Golpista por jornalistas a soldo do partido. Ah, e também por deputados do PT, como Emiliano José, em texto devidamente divulgado pela Fundação Perseu Abramo. Da mesma forma que as redes bolsonaristas de hoje, a militância digital da época atacava com gosto a imprensa, ou melhor, “a grande mídia”.

Aliás, se a questão é o assédio a jornalistas, militantes do partido têm o que contar, como a violência verbal sofrida por Miriam Leitão em 2017. Em nota oficial, o partido disse lamentar o ocorrido, afirmando, porém, que: “Não podemos (…) deixar de ressaltar que a Rede Globo, empresa para a qual trabalha a jornalista Miriam Leitão, é, em grande medida, responsável pelo clima de radicalização e até de ódio por que passa o Brasil”. Quem mandou a Miriam trabalhar para a Globo, né?

Se a defesa da liberdade de expressão se limita apenas aos interesses do partido, o respeito às instituições não chega mais longe. Por exemplo, em 2018 o então deputado Wadih Damous defendeu o fechamento do STF (lembra alguém?), centrando fogo, vejam só, no ministro Luiz Roberto Barroso, afirmando: “não foi para isto que esta turma foi colocada lá”, e, continuando, “ou nós enquadramos essa turma ou essa turma vai enterrar de vez a democracia”.

Em sua “autocrítica” oficial, partido lamentou apenas: (a) “priorizar ‘o pacto pluriclassista’ que permitiu a vitória de Lula em 2002; (b) “não ‘impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público’”; (c) não “modificar os currículos das academias militares e de promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista”; e (d) não “redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação (sic)”.

Dito de outra forma, se algum arrependimento houve foi o de não avançar no aparelhamento das instituições de estado a favor dos interesses do partido, um primor de compromisso democrático.

E, finalizando, não nos esqueçamos do “mensalão”. Sei bem que hoje isto é considerado café pequeno perto do orçamento secreto, mas continuo sem entender como um erro justifica outro. O partido nada viu de censurável em corromper o Congresso para se manter no poder, tanto que repetiu a dose com o “petrolão”.

Faço questão que meu voto vá pra quem tem comprometimento com a democracia, o que, de cara, exclui os dois líderes das pesquisas. Pode ser inútil, mas dormirei bem à noite.

Fonte: Folha de S. Paulo - 30/09/2022

O CASO DO CAVALO VERDE

Fernando Albrecht
Entre as pegadinhas célebres feitas no passado envolvendo o símbolo máximo do gaúcho, o cavalo, está o causo do cavalo verde. O jornalista Justino Martins, da revista Manchete, já dizia nos anos 1960 que o sonho do gaúcho era ser cavalo ou avião da Varig. Bueno, só causo.

Um veterinário que estava de plantão no Hospital Veterinário recebeu um telefonema aflito. Qual seria o problema?

– É que meu cavalo está ficando verde.

– Como assim, verde? No pelo?

– Não só no pelo. Está passando para mim, que Deus e o senhor me ajudem!

A essa altura, o veterinário tinha toda sua atenção. Quis mais detalhes.

– Pois é, doutor. Começou pelas patas depois minhas botas ficaram verdes, depois foram minhas pernas, roupas e depois todo o corpo. Como pode isso?

– Realmente, nunca tinha visto coisa igual. Passe seu endereço que vou lá ver o que se trata.

– Pois não. Meu nome é Marechal Osório. Eu e meu cavalo estamos na Praça da Alfândega. Restamos lá 24 horas por dia.

Fonte: https://fernandoalbrecht.blog.br
Ao contrário do que se diz, pode-se enganar a muitos durante muito tempo. (James Thurber)

LUGARES

ORTIGIA - ITÁLIA
Ortígia é uma pequena ilha italiana onde se encontra o centro histórico de Siracusa, Sicília. Segundo a lenda, recebeu o nome de Ortígia quando os deuses a deram a Ártemis; as ninfas da ilha fizeram brotar a fonte de Aretusa para agradar Ártemis. Wikipédia

FREDDIE MERCURY AND MONTSERRAT CABALLE

HOW CAN I GON ON
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FRASES ILUSTRADAS

sábado, 1 de outubro de 2022

CUIDAR DOS PAIS

Valter Hugo Mãe

A minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.

Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. Eu daria todos os melhores presentes à minha mãe.

Rabujo igual aos que amam. Quando amamos, temos urgência em proteger, por isso somos mais do que sinaleiros, apontando, assobiando, mais do que árbitros, fiscalizando para que tudo seja certo, seguro. E rabujamos porque as pessoas amadas erram, têm caprichos, gostam de si com desconfiança, como creio que é normal gostarmos todos de nós mesmos. Aos pais e aos filhos tendemos a amar incondicionalmente mas com medo. Um amigo dizia que entendeu o pânico depois de nascer o seu primeiro filho. Temia pelo azedo do leite, pelas correntes de ar, pelo carreiro das formigas, temia muito que houvesse um órgão interno, discreto, que disfuncionasse e fizesse o seu filho apagar. Quem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda. Passeiam nos afectos. É outra coisa.

Ficar para tio parece obrigar-nos a uma inversão destes papéis a dada altura. Quase ouço as minhas irmãs dizerem: não casaste, agora tomas conta da mãe e mais destas coisas. Se a luz está paga, a água, refilar porque está tudo caro, há uma porta que fecha mal, estiveram uns homens esquisitos à porta, a senhora da mercearia não deu o troco certo, o cão ladra mais do que devia, era preciso irmos à aldeia ver assuntos e as pessoas. Quem não casa deixa de ter irmãos. Só tem patrões. Viramos uma central de atendimento ao público. Porque nos ligam para saber se está tudo bem, que é o mesmo que perguntar acerca da nossa competência e responsabilizar-nos mais ainda. Como se o amor tivesse agentes. Cupidos que, ao invés de flechas, usam telefones. E, depois, espantam-se: ah, eu pensei que isso já tinha passado, pensei que estava arranjado, naquele dia achei que a doutora já anunciara a cura, eu até fiz uma sopa, no mês passado até fomos de carro ao Porto, jantámos em modo fino e tudo.

Quando passamos a ser pais das nossas mães, tornamo-nos exigentes e cansamo-nos por tudo. Ao contrário de quem é pai de filhas, nós corremos absolutamente contra o tempo, o corpo, os preconceitos, as cores adequadas para a idade. Somos centrais telefónicas aflitas.

Queremos sempre que chegue a Primavera, o Verão, que haja sol e aqueçam os dias, para descermos à marginal a ver as pessoas que também se arrastam por cães pequenos. Só gostamos de quem tem cães pequenos. Odiamos bicharocos grotescos tratados como seres delicados. O nosso Crisóstomo, que é lingrinhas, corre sempre perigo com cães musculados que as pessoas insistem em garantir que não fazem mal a uma mosca. Deitam-nos as patas ao peito e atiram-nos ao chão, as filhas que são mães podem cair e partir os ossos da bacia. Porque temos bacias dentro do corpo. Somos todos estranhos. Passeamos estranhos com os cães na marginal e o que nos aproveita mesmo é o sol. A minha mãe adora sol. Melhora de tudo. Com os seus lenços como coisas líquidas e cristalinas ao pescoço, ela fica lindíssima. E isso compensa. Recompensa.

Comemos o sol. Somos, sem grande segredo, seres que comem o sol. Por isso, entre as angústias, sorrimos.

Falemos sempre de qualquer pessoa como se ela estivesse presente. (Chiara Lubich)

LUGARES

TRENTINO ALTO-ÁDIGE - ITÁLIA

O Trentino-Alto Ádige é uma região situada no extremo norte da Itália. Tem mais de um milhão de habitantes e uma área de 13 607 km². A capital é Trento. Wikipédia

QUANDO VIAJAR É PERIGOSO

Por Janer Cristaldo
Em uma discussão no Facebook, ouvi de uma conterrânea uma frase curiosa: viajar é perigoso. Dado o contexto – discutíamos questões de Dom Pedrito -, a moça não falava dos riscos usuais de uma viagem, tipo queda de avião, doença no estrangeiro, roubo, perda de bagagens. Nada disso. A moça se referia ao risco de o viajante adquirir senso crítico. Ora, esta é a mais nobre motivação de uma viagem.

A frase que vou citar é de Chesterton e nada tem de novo para quem me acompanha: não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela. Você não conhece seu país se dele não sair. Muito menos sua cidade. Para mim, sair do Brasil foi fundamental para conhecer o Brasil. O homem não conhece exatamente valorando. O homem só conhece comparando.

Viajar ilustra, costuma dizer-se. É verdade, embora haja pessoas que podem dar voltas ao mundo e não vão aprender nada. Mas o mais inculto dos viajantes – mesmo aquele que só viaja em excursões - tem olhos, e olhos servem para ver. Digamos que alguém vá a Paris, Londres ou Estocolmo. Ao pegar um ônibus urbano, pode ocorrer que pegue um daqueles que inclinam um lado para o passageiro subir. Por mais curto que este alguém seja, vai perceber que há países onde o ônibus se inclina para facilitar seu embarque. Então surge a pergunta: por que em meu país os ônibus não se inclinam para que eu suba?

Quando voltei da Suécia, em 72, fui convidado para uma entrevista na televisão pelo jornalista Ernani Bês. Fui à emissora, fiquei esperando em uma sala, o programa entrou no ar e nada de ser chamado. Perguntei o que estava ocorrendo.

- É a policial federal. Há dois agentes aqui que não querem tua entrevista.

Fui falar com os policiais. Qual é a restrição? Não sou comunista, não vou falar de socialismo nem países socialistas, a entrevista é sobre a Suécia.

- Você não pode comparar.

Estavam ali para proibir qualquer comparação entre Suécia e Brasil. Que não se preocupassem. Eu pretendia falar apenas da Suécia. A entrevista finalmente saiu e as comparações – inevitáveis – ficaram com o telespectador. Se eu dizia que todo cidadão sueco pagava até quinze coroas em medicamentos – o que fosse além das quinze era subsidiado pelo Estado – é claro que lá do outro lado da tela o brasileiro se perguntava: e por que eu tenho de pagar tudo?

Comparar também é perigoso.

Nos anos 70, o que mais atraía turistas à Suécia era a propalada liberdade sexual, divulgada até mesmo por instituições oficiais para atrair mão-de-obra imigrante ao país. A Suécia foi o primeiro país europeu a liberar a pornografia e era procurada pelos liveshows, espetáculos em que atores faziam sexo em um teatro e os assistentes eram muitas vezes convidados a participar da festa. (Aqui no Brasil, livrinho sueco dava cadeia, como se constituísse uma ameaça às instituições do país). Além da pornografia, o bem-estar da social-democracia nórdica era sua segunda marca registrada. Mas não foi a pornografia nem o bem-estar social o que mais me marcou na Suécia. E sim um pequeno incidente do cotidiano.

Fui postar uma carta. Na fenda de uma caixa automática, pus uma moeda de duas coroas. Em vez de uma cartela com selos, recebi de volta um impresso com um pedido de desculpas. Não havia mais selos na caixa. Para recuperar minhas coroas - ou os selos - teria de telefonar para um número X.

Decidi pagar para ver. Estava na Suécia há menos de um mês e falava o sueco precariamente. Os problemas começaram com meu nome, que na língua lá deles se pronuncia Ianér. Do outro lado da linha, uma voz me pediu para soletrá-lo. E como é que diz jota em sueco? Pacientemente, a moça aventou outras palavras. Confirmei a letra que, descobri então, pronunciava-se "ií". Mas o pior estava por vir. Eu morava na Öregrundsgatan, informação que tampouco foi fácil de passar. Muito bem - disse a moça - amanhã, às 11hs, o senhor receberá o equivalente, em selos, a duas coroas. O senhor prefere a série do rei ou a série da ponte?

Recém-chegado naquelas bandas, apenas balbuciando o idioma local, eu preferia mesmo era piedade. Qualquer uma, respondi. Dia seguinte, mal passavam dois ou três minutos das onze, o carteiro enfia um envelope em minha porta. Nele vinham os selos, série do rei, com um compungido pedido de desculpas dos Correios.

Estou na Europa! - pensei, incrédulo. Este terá sido o episódio mais marcante de meus dias de Suécia. Lá, o Estado respeitava os direitos mínimos do cidadão. Um ano depois, encerradas minhas deambulações por aqueles nortes, voltei ao Brasil. Em Porto Alegre, fui telefonar de um orelhão e a máquina engoliu a ficha. Chamei a CRT, expliquei o caso, perguntei como devia fazer para telefonar. Ora, ponha outra ficha - me respondeu a moça.

Subi em meus tamancos. Eu quero a minha ficha de volta. A moça disse nada poder fazer. Pedi para falar com seu superior. Ela me passou alguém que também me sugeriu pôr outra ficha. Respondi que não pretendia pôr ficha nenhuma, queria a minha de volta, etc., pedi falar para com seu superior, falei com outro superior, repetiu-se toda a lenga-lenga e esta terceira e última instância me bateu o telefone na cara. Indignado, fui à televisão reivindicar meus direitos. O próprio jornalista que comentou o fato deveria estar pensando que eu havia voltado pirado da Escandinávia, contaminado talvez por alguma escandinavite aguda.

Nada disso. Eu havia vivido em um país onde o cidadão era respeitado. Para um brasileiro, isto era mais marcante que qualquer liveshow. Não por acaso, os países socialistas proibiam seus cidadãos de viajar à Europa ocidental. O viajante voltaria comparando.

Por que um operário, alemão como eu e meu vizinho - perguntava-se o alemão oriental - pode comprar na hora um Mercedes e eu tenho de esperar cinco anos para comprar um Trabant? Por que os dentistas usam anestesia em outros países, enquanto eu tenho de extrair dentes sem anestesia? Por que as universidades européias têm máquinas de xerox à disposição dos alunos e eu tenho de registrar na polícia até mesmo uma máquina datilográfica? Estas notícias não chegavam apenas a partir das viagens de ocidentais a seus parentes do outro lado, mas também através da televisão e do rádio que conseguiam burlar fronteiras. Os soviéticos consideravam um perigo viajar. E por isso proibiam as viagens.

Mais tarde ocorreu o inverso. O PC português, por exemplo, proibia seus militantes de ir a Moscou. Ao voltar, eles nada queriam saber com o comunismo.

De fato, viajar é perigoso. Viajar leva a comparar. E comparar leva a pensar. Melhor ficar em Dom Pedrito.

FRASES ILUSTRADAS

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A SITUAÇÃO DO ENSINO NO BRASIL EM ESTADO DE COMA

Por Francisco Bend
Por que a diferença de qualidade do ensino público para o privado? Os professores da rede pública ganham praticamente o mesmo salário dos professores que ensinam em escolas particulares atualmente, então não reside no professor a causa do ensino pago ser melhor, razão pela qual somos obrigados a pesquisar com mais profundidade os motivos que levaram a este desnível.

Ora, o ensino no Brasil remonta à sua descoberta, quando os padres católicos iniciaram a catequese com os índios e inauguração de escolas para os filhos dos imigrantes e das famílias mais abonadas que vinham para o Brasil enriquecer.

A partir do momento que o Império passou a construir escolas públicas, estas jamais tiveram o mesmo ambiente escolar, as mesmas construções, bibliotecas, a tradição no ensino que os padres trouxeram de várias partes da Europa, e não somente de Portugal.

Portanto, há séculos, a escola particular se notabiliza pela organização, e, na sua maior parte, pertence a grupos religiosos que usam da disciplina e metodologia interna métodos de aprendizado inexistentes na escola aberta, além de os investimentos na área educacional por parte do governo serem desviados de seus objetivos e para onde haviam sido locados inicialmente.

BRIZOLA E DARCY

Por outro lado, sabemos que educar o povo nunca foi meta de governo algum, com exceção do projeto de Brizola e Darcy Ribeiro, os CIEPS, que ministravam a carga horária de ensino, mas também propiciavam tempo integral às crianças, retirando-as das ruas e protegendo-as das más influências e de ambientes negativos.

Por exemplo, as agressões a professores não existem nos colégios pagos, enquanto que, nos públicos, diariamente a imprensa veicula notícias sobre esta falta de educação e respeito para com os mestres.

Portanto, a educação chegou a níveis tão deteriorados e por culpa dos governos, que até os pais deveriam voltar a frequentar o ambiente escolar e aprender a reverenciar quem ensina seus filhos!

O próprio povo não dá valor ao ensino, vamos ser realistas. O Bolsa-Família demonstra que o interesse é pela doação, e não pelo aprimoramento profissional, intelectual e da mão de obra especializada.

MANIPULAÇÃO

O governo conseguiu depois de décadas de ensino deficiente, comandar o povo conforme a sua vontade e interesse, manipulando-o vergonhosa e despudoradamente. Em consequência, os pais transmitem aos seus filhos o mesmo descaso e desvalorização ao estudo, mas os obrigam a pedir esmolas e conseguirem qualquer trabalho que renda alguns tostões para ajudarem em casa, ou seja, o mesmo meio em que vivem de pobreza e de dependência das benesses do governo será o mesmo às crianças pela falta de tradição e costume, apelo e desejo, de se instruírem, de progredirem, de se desenvolverem.

O resultado se expressa nos programas de TV, na ausência de leitura, de não se ler jornais, revistas, e do descaso pela situação política e social do País, importando tão somente a diversão, no caso, futebol, carnaval, o churrasquinho fim de semana regado a boas cervejas geladas. E o futuro, a Deus pertence!

Eu afirmaria que não bastariam pesados investimentos na área educacional se não vierem acompanhados de programas de valorização do estudo estensivos aos pais, de modo que incentivem seus filhos a estudar, apesar dos exemplos nada edificantes de nossas autoridades e, na maioria das vezes, do próprio ambiente familiar, lamentavelmente.
Seria presunção pensar que aquilo que sabemos não é acessível à maioria dos outros homens. (Konrad Lorenz)

LUGARES

BAVIERA - ALEMANHA

O Castelo de Neuschwanstein (em alemão, Schloss Neuschwanstein) é um palácio alemão construído na segunda metade do século XIX, perto das cidades de Hohenschwangau e Füssen, no sudoeste da Baviera, a escassas dezenas de quilómetros da fronteira com a Áustria. Foi construído por Luís II da Baviera no século XIX, inspirado na obra de seu amigo e protegido, o grande compositor Richard Wagner. A arquitectura do castelo possui um estilo fantástico, o qual serviu de inspiração ao "Castelo da Bela Adormecida", símbolo dos estúdios Disney. Apesar de não ser permitido fotografar o seu interior, é um dos edifícios mais fotografados da Alemanha e um dos mais populares destinos turísticos europeus, além de também ser considerado o "cartão postal" daquele país. O nome Neuschwanstein é uma referência ao "cavaleiro do Cisne", Lohengrin, da ópera com o mesmo nome. (Wikipédia)

MR. MILES


O homem que visitou 312 países

Ainda da Ásia, mas agora da Indonésia, onde tem outro afilhado aniversariando, nosso incansável viajante manda as noticias desta semana:

Gostaria de saber se O Homem mais viajado do mundo parou de viajar, pois sempre que leio sua coluna, vejo que ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos. Não muda nunca?
Roque Risarto, por email

Well, my friend: atendendo ao seu pedido e ao de muitos outros leitores que não compreenderam minhas respostas anteriores, vou atualizar o número de países que visitei: foram 312!. Sim: são muito mais do que os países atualmente existentes. Tomei a liberdade, if you don't mind, de incluir países que já existiram várias vezes em realidades diferentes. Por exemplo: fui ao Zimbabwe e à Rodésia; ao Alto Volta e à Burkina Faso; à Iugoslávia e à Sérvia, a Birmânia e à Mianmá, o Ceilão e Sri Lanka and so on. Foram várias dezenas de países que tive o prazer de visitar em situações diferentes. Geograficamente, eles ficam no mesmo lugar (com ligeiras variações), mas visitar um deles foi uma experiência diferente do que visitar o outro. Do you know what I mean?

As condições políticas, institucionais, sociais e demográficas mudaram do mesmo modo que os países mudaram de mandantes. A população, quase sempre, permaneceu a mesma, mas mesmo ela, however, sofreu mudanças de status — para pior ou para melhor —, que, for sure, justificaram meu retorno, com alegrias e decepções.

Vou assumir, agora, esse número, para evitar questionamentos futuros. Mesmo ele talvez tenha algum erro, porque, apesar de minha memória e minha coleção de 36 tomos de passaportes encadernados, é possível que eu tenha esquecido de alguma passagem, já que, as you know, minha vida é viajar.

Relembro que comecei cedo, depois que herdei inesperada fortuna de uma contraparente que jamais cheguei a conhecer.: Shame on me: imprevidente, gastei tudo. Mas, at least, gastei meu dinheiro com o que deve ser gastado. Conhecendo e ganhando, dia a dia, mais tolerância e discernimento. Anos mais tarde, contudo, eu já havia me tornado sócio-remido de oito programas internacionais de milhagem que me permitem, ainda hoje, viajar quando quero pelo planeta. Também fiz, thank God, inúmeros amigos, padrinhos e compadres no mundo dos hotéis, pousadas e restaurantes — razão pela qual, como muitos sabem, jamais forneço dicas pontuais, de modo a não magoar pessoas queridas around the world.

Não sou um colecionador de países e nem ponho agulhas em mapas para registrar minha passagem — um episódio, by the way, irrelevante para as outras pessoas.

O número que consta dessa coluna era apenas uma ficção para dar noção de grandeza — e foi, of course, inúmeras vezes contestado por queridos viajantes que estiveram em uma quantidade ainda maior de lugares.

Quero lembrar que esse número só surgiu, nos anos 60, quando fui entevistado por uma linda jornalista do San Francisco Chronicle. Contei muitas de minhas histórias para a bela repórter e ela quis saber em quantos países eu havia estado. É claro que eu não tinha qualquer número para mencionar. Mas, de modo a poder marcar um segundo encontro, garanti a ela que iria pesquisar com denodo. Três dias depois surgi com um número suficientemente grandioso para convencê-la a passar a noite comigo. Essa é a única realidade.

Agora, entretanto, pesquisei e tenho essa nova informação: 312 países. É muito. Depende do ponto de vista. Gosto mutio de tê-los visitado. But, unfortunately, confesso que, pelo menos cem deles só conheço superficialmente. Ainda vou voltar!

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

VOTO DESPARELHADO

Golden Gate Bridge, San Francisco (California)
José Horta Manzano
De quatro em quatro anos volto ao assunto na época das presidenciais. Mas vamos começar pelo começo.

No Brasil, a colonização europeia chegou pela costa marítima. No primeiro século, com a notável exceção do vilarejo de São Paulo, os numerosos estabelecimentos portugueses estavam à beira-mar, de norte a sul do território.

Diferentemente dos EUA e do México, países com duas faces costeiras, o Brasil só pode contar com a costa atlântica. Sem a atratividade de uma outra face marítima, nosso povoamento demorou a penetrar fundo no território. A construção da nova capital federal, Brasília, e os incentivos dados nos anos 1970 à internalização do “progresso” não provocaram caudalosa marcha para o Oeste. O grosso da população e das atividades do país continuaram concentradas numa faixa de poucas centenas de quilômetros ao longo da faixa costeira.

Assim é até hoje. Veja um exemplo flagrante. Nosso país, com seus 4.400 km de extensão leste-oeste, cobre 4 fusos horários. No entanto, quando o locutor de alguma estação de rádio de projeção nacional ouvida em todo o território proclama, com voz empolada, que são 10 horas, está dando somente a hora da costa atlântica.

É verdade que cerca de 90% dos brasileiros se encontram dentro desse fuso, mas não deixa de ser injusto para com os demais. O relógio de mato-grossenses, amazonenses e vizinhos ainda está marcando 9 horas. Devem sentir-se cidadãos de segunda zona. Pior ainda são os acrianos, para os quais são ainda 8 horas. Ah, e tem o caso dos habitantes de Fernando de Noronha. São poucos, mas merecem atenção como os demais. Os relógios do arquipélago estão marcando 11 horas.

Até aqui, tratei de uma indelicadeza para com parte da população. Fica feio, mas não é ilegal. Já o que vem a seguir resvala para terreno pantanoso.

Faz uns vinte anos que os brasileiros do exterior temos direito de votar nas presidenciais. Vota-se somente para presidente, visto que, no Congresso, ainda não foram criadas vagas de deputados e senadores para defender especificamente os interesses dos expatriados.

Brasileiros da Nova Zelândia são os primeiros a apertar teclas na urna eletrônica. Em seguida, vêm os conterrâneos estabelecidos na Austrália, no Japão, na China, e assim por diante, até a Terra girar e o dia clarear em território nacional. Começam primeiro a votar os fernando-noronhenses, em seguida votam os da grande faixa que segue a hora de Brasília. Uma hora depois, abrem-se as urnas de amazonenses e mato-grossenses. Por último, vêm os acrianos.

Enquanto isso, continua o voto no exterior. A Terra vai girando – Ásia, África, Europa – e as urnas vão se abrindo. E chega a vez dos Estados Unidos. Consulados da costa atlântica são seguidos pelos do interior do país até chegar à costa do Pacífico.

No Brasil, cada estado encerra a votação às 17 horas locais. Os últimos a bloquear as maquinetas são os do Acre, que só terminam de votar duas horas depois do grosso da população do país. Fechadas as urnas do Acre, todos os veículos de informação anunciam a esperada estimativa geral colhida na boca de urna. Em seguida, vão pingando, um atrás do outro, resultados parciais daqui e dali. Em meia hora ou coisa assim, conhece-se o nome do(s) vencedor(es).

Até aí, beleza pura. Só que… nos EUA, na costa do Pacífico, as urnas ainda estão abertas e há gente esperando pra votar. Temos aí um grave problema. Em princípio, o horário de votação de todos os brasileiros tem de estar encerrado pra que se saiba dos resultados. Como é possível terem esquecido os que votam em Los Angeles ou em San Francisco? E não são poucos.

Chegamos assim à bizarra situação de ver eleitores que votam sabendo já do resultado, como se o voto deles não fizesse a menor diferença. Ou, pior ainda, podendo, sim, fazer diferença no caso de resultado apertadíssimo.

É uma anomalia que tem de ser sanada. Quem sabe para as próximas eleições, quando estará menos absorvido em se esquivar de ataques da extrema-direita belicosa, o TSE vai poder se debruçar sobre esse problema.
Como fazer então?
A França, que tem ilhas e pequenos territórios ao redor do planeta, já resolveu o problema faz tempo. Os eleitores do exterior não votam no domingo, mas um dia antes, no sábado. Assim, sem afobação, as seções eleitorais transmitem o resultado a Paris. Os votos do estrangeiro ficam armazenados no computador central à espera do fim do voto nacional.

Pra tudo tem remédio, basta querer.

Fonte: brasildelonge.com
Ambição é uma pobre desculpa por não ter suficiente senso de preguiça. ( Steven Wright)

LUGARES

SÃO PETERSBURGO - RÚSSIA

A Catedral do Salvador sobre o Sangue Derramado ou Igreja da Ressurreição do Salvador sobre o Sangue Derramado é uma igreja ortodoxa russa de São Petersburgo, situada na margem do canal Griboedov próximo ao parque do Museu Russo e da Nevsky Prospekt. Wikipédia

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


TENDÊNCIA A VIVER – REGÊNCIA
-- Minha dúvida diz respeito ao uso da preposição de em situações como “a tendência é de”. Tenho encontrado frases ora com a preposição, ora sem, como exemplifico a seguir. Maria Laís Pestana, São Paulo/SP
  • Tendência é de que problemas com chuvas aumentem em São Paulo. Portanto, a tendência é que I. 
  • Tendência é ampliar política de benefícios.
  • Tendência é de aumentar as exportações agropecuárias este ano.A tendência é de as provas oficiais se expandirem para além do Estado.
  • A tendência é as taxas futuras seguirem o comportamento do mercado de câmbio.
  • Em outubro, tendência é de melhoraMercado não teme mais Lula e a tendência é a queda do dólar.
O substantivo tendência pode ser regido por mais de uma preposição, quais sejam a, de, em, para:
  • Tem tendência à embriaguez.
  • Opõe-se à sua tendência de conferir o ascendente.
  • Observou a tendência natural das crianças em contrariar tudo.
  • A senhora respondeu que não tinha tendências para freira.
Contudo, quando se tem a construção tendência + verbo ser + predicativo (ou oração predicativa), a preposição pode ser omitida. Aliás, a frase fica melhor sem ela:
  • A tendência é melhorar.
  • Nossa tendência é conquistarmos o hexa.
  • A tendência é a queda dos preços.
--- No jornal O Estado de S. Paulo de 1º/10/02, na coluna Espaço Aberto, foi publicado o artigo “Para onde vamos”, de Rubem de Freitas Novaes. Dele extraí o excerto: “Descontado o exagero, é muito apropriada ao momento que vivemos.” Pergunto se a regência do verbo viver está correta. A. A. F., São Paulo/SP

Segundo os dicionários, o verbo viver é usado com a preposição em no caso de complemento de lugar:
  • Ele vive em São Paulo há anos.
  • Vive na casa do sogro.
A mesma regência acontece nas expressões “viver em paz” e “viver em família”. Também se usa a preposição em quanto se tem um adjunto adverbial de tempo posposto ao verbo:
  • Nossos avós viveram em um século marcado por profundas transformações.
  • Vivemos/estamos vivendo numa época de muita violência.
  • Esse autor viveu no século das Luzes.
Por outro lado, o verbo viver dispensa qualquer preposição quando significa “passar a vida; vivenciar, experimentar, passar por; fruir, desfrutar, aproveitar (a vida)”
  • Ela disse que nunca viveu certas experiências.
  • Vive uma vida folgada.
  • Os melhores momentos da minha infância foram vividos solitariamente.
  • Vivemos bons momentos juntos.
Assim sendo, o autor da frase poderia defender sua redação dizendo que ali o verbo viver é transitivo direto (sendo o pronome “que” o objeto direto) porque ele quis lhe dar o sentido de “experimentar, gozar, desfrutar”: os momentos que vivemos = os momentos vividos, os momentos presentes

Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

MUSEU MOSTRA QUADROS ESPOLIADOS DE JUDEUS

Berna - um dos tesouros exibidos em exposição
Por Rui Martins

Museu de Arte de Berna expõe quadros de judeus espoliados pelos nazistas

A importância da atual exposição do Museu de Arte de Berna é também política, didática, histórica além de artística, partindo de um controvertido legado de quadros, recebidos de um diretor de museu, negociante de arte, colecionador e organizador de exposições alemão, vindo da época do nazismo. Isso porque nos mostra como o poder político pode ditar normas artísticas e impedir a livre manifestação e a evolução natural das artes.

Durante o nazismo alemão se cristalizou o conceito de arte degenerada e isso envolvia a literatura, a pintura e a música. Tudo quanto fugia do modelo clássico e naturalista da arte alemã, e isso poderia ser por seu pacifismo e pessimismo, era condenado, considerado decadente, e devia ser destruído, pondo-se assim fim à diversidade artística. A perseguição à “arte degenerada” incluía seus possuidores e também os artistas judeus. Enquanto os nazistas depuravam seus museus e galerias da chamada “arte degenerada”, ela florescia principalmente na França, para ser reprimida durante a invasão pelos nazistas alemães.

É esse o contexto da exposição Gurlitt, um Balanço. Gurlitt é o nome de uma tradicional família de colecionadores e expositores de arte alemães. Quem nos interessa é Cornelius Gurlitt, colecionador de quadros de arte, cujo destino mudou em setembro de 2010, aos 77 anos, quando passou por um simples controle de alfândega na fronteira alemã, ao voltar de trem de Zurique para Munique. Ao abrirem sua sacola, encontraram um pacote em dinheiro vivo, no valor de 9 mil euros, apreendidos por não haver um documento de origem, suspeitando-se de fraude fiscal.

Cerca de um ano depois, a polícia financeira fez uma busca num apartamento alugado por Cornelius em Munique e ali se depararam com muitos caixotes de latas de conserva que, na verdade, escondiam pinturas de arte bem guardadas e em perfeito estado de conservação. No total, eram 1406 quadros e desenhos sem moldura, salvados da época nazista pelo pai de Cornelius, o diretor de museu Hildebrand Gurlitt. Seus autores eram prestigiosos pintores da “arte degenerada” como Renoir, Matisse, Picasso, Paul Klee, Kokoschka, Kandinsky, Max Beckmann e outros.

A dúvida sobre a origem desses quadros surgiu na mesma época, em 2010, quando Cornelius Gurlitt vendia em Colônia, na Alemanha, O Domador, uma pintura expressionista de Max Beckmann, que deixara a Alemanha em 1937, para viver em Paris e depois em Amsterdã, embora cidades ocupadas pelos nazistas. Em 1947, Beckmann emigrou para os Estados Unidos onde foi professor na Universidade de Saint Louis, morrendo três anos depois em Nova Iorque.

Ora, quem se encarregara na época da venda do quadro O Domador era Alfred Flechtheim, judeu dono de uma galeria que fugira da Alemanha em 1933. O fato do quadro ter ficado com Hildebrand Gurlitt levantou a suspeita de ter havido nesse caso e muitos outros um tipo de espoliação de arte por compra a bom preço de judeus forçados a fugir ou já sem recursos.

Entretanto, Cornelius defendia a ideia de que seu pai queria salvar os quadros de uma destruição ou de ficarem com os russos no fim da guerra.

Em favor de Hildebrand Gurlitt existiam cartas de Beckmann falando do seu apoio. Mas outros quadros eram de obras espoliadas pelos nazistas entre 1940-41. Essa questão ainda estava em debate, quando Cornelius morreu em Munique aos 81 anos, legando em doação todos seus quadros, mais de 1.600, por testamento ao Museu de Arte de Berna.

A partir da aceitação do precioso legado, o Kunstmuseum decidiu fazer uma minuciosa pesquisa sobre os quadros herdados. Há quatro anos, numa exposição precedente, sob o título As Espoliações Nazistas e suas Consequências sobre quadros cuja origem permaneciam duvidosas, houve uma primeira avaliação. Nela, se fez um primeiro balanço da pilhagem de bens de judeus pelos nazistas dentro do contexto histórico e do papel desempenhado na época por museus e negociantes de arte.

Concluiu-se pela implicação de Hildebrand Gurlitt nas vendas forçadas e no comércio de obras de “arte degenerada”, provenientes de espoliações e confiscações dentro de museus. Assim, entre algumas obras legadas havia uma relação direta com a vida de pessoas perseguidas, principalmente artistas, colecionadores e negociantes de arte judeus. Previa-se a restituição de obras espoliadas, o que de fato ocorreu nestes últimos anos.

No decurso das investigações, apurou-se que, em 1937, houve um movimento nazista para retirar e confiscar de todos os museus alemães as obras de arte moderna consideradas “degeneradas”. No total foram mais de vinte mil obras expressionistas, abstratas, dadás, incluindo também obras criadas por artistas de esquerda e judeus, retiradas dos museus alemães. Uma parte dessas obras foram vendidas, fora da Alemanha por Hildebrand, para financiar a guerra alemã contra os Aliados.

Ao fim da guerra, em 1945, oficiais norteamericanos encarregados da proteção de obras de arte confiscaram a coleção de Hildebrand, que, não tendo sido condenado, as recebeu de volta em 1950, e retornou às suas atividades de organizador de exposições de arte na Alemanha, até 1956, quando morreu vítima de um acidente de trânsito, ficando sua coleção com o filho Cornelius.

A exposição Gurlitt – Um Balanço estará aberta até 15 de janeiro 2023, no Kunstmuseum Bern. Interessados podem ter acesso pelo link www.gurlitt.kunstmuseunbern.ch

Essa provação vivida pelos artistas alemães durante o nazismo, deve servir como alerta contra toda tentativa de grupos políticos ou religiosos decididos a condenar e impedir seja qual for o tipo de diversidade cultural, seja pelo corte de verbas, pelo fechamento de escolas ou perseguição dos artistas.

Fonte: https://www.chumbogordo.com.br
Todo homem decente se envergonha do governo sob o qual vive. (H. L. Mencken)

LUGARES

MONTE SAINT- MICHEL - FRANÇA

O Monte Saint-Michel é uma ilha rochosa na foz do Rio Couesnon, no departamento da Mancha, na França, onde foi construído uma abadia e santuário em homenagem ao arcanjo São Miguel. Seu antigo nome é "Monte Saint-Michel em perigo do mar". Wikipédia

NEM TURISTA, NEM APRENDIZ

Ruy Castro

Há 110 anos, Roquette-Pinto foi à Amazônia como cientista

Não é uma data a justificar oba-obas oficiais. É muito mais. No dia 22 de julho próximo, serão 110 anos da viagem do cientista Edgard Roquette-Pinto (1884-1954) à Amazônia, a convite do general Candido Rondon, em mais uma expedição para desbravar a região, contatar tribos e demarcar fronteiras. Em cada viagem, Rondon levava um perito para cada disciplina. Ao chamar Roquette-Pinto, levou um homem-equipe.

Naquela expedição, Roquette foi cartógrafo, etnógrafo, sociólogo, geógrafo, arqueólogo, botânico, zoólogo, médico, farmacêutico, legista, linguista, desenhista, fotógrafo, sonoplasta e folclorista. Registrou toda a aparência da região: folha, árvore, floresta, composição dos solos, contorno dos rios, variedade da fauna.

Nas visitas às tribos já contatadas, mediu o crânio de seus membros, comparou pesos e alturas, analisou suas endemias e descreveu seus conhecimentos, formas de produção, comércio e transporte, relações familiares, língua, hábitos religiosos e coreografias. Anotou musicalmente seus cantos e gravou-os em cilindros de cera. Roquette realizou até a primeira autópsia de um indígena --por acaso, uma mulher.

A morte estava sempre ao lado: dias e dias de caminhada sem sol visível, à mercê de calor, animais, flechas, armadilhas, varíola, beribéri, malária. De volta ao Rio em dezembro, doou ao Museu Nacional uma tonelada e meia de objetos, que transportara em carro de boi pela selva. As anotações musicais foram entregues ao jovem Villa-Lobos para serem harmonizadas.

Em 1916, Roquette condensou tudo em sua obra-prima, "Rondônia", um tratado multidisciplinar sobre aquele Brasil recém-revelado e um libelo contra a tese, então corrente, de que nossas mazelas se deviam à composição étnica.

Roquette-Pinto não foi à Amazônia em trem de luxo, com lençóis levados de casa e em companhia de grã-finas. Não foi como turista, muito menos aprendiz.

Fonte: Folha de S. Paulo - 05/05/2022

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 27 de setembro de 2022

O LIVRE ARBÍTRIO É UMA ILUSÃO?

Por centenas de anos, filósofos antigos e cientistas contemporâneos apontaram para a possibilidade intrigante de que o livre arbítrio é uma ilusão. Embora geralmente a maioria dos humanos acredite ter um controle relativo sobre suas decisões, pesquisadores como Benjamin Libet contestaram essa noção.

A ideia de que os humanos podem não ter autonomia completa sobre suas vidas questiona até que ponto temos controle. Se o livre arbítrio é uma ilusão e nosso controle é realmente limitado, então coisas como lei criminal e status social podem ser questionadas.

Mas essas conclusões são bem fundamentadas? Para avançar nossa compreensão coletiva do livre arbítrio , o Dr. Uri Maoz está liderando um projeto de pesquisa colaborativa que reúne neurocientistas e filósofos de todo o mundo.

Uma exploração do livre arbítrio

O que é livre arbítrio, realmente? A definição de livre arbítrio é: “o poder ou capacidade de escolher entre alternativas ou de agir em certas situações independentemente de restrições naturais, sociais ou divinas”. Em outras palavras, ter livre arbítrio é ter controle indefinido sobre si mesmo e suas decisões. O livre arbítrio nos permite escolher entre o certo e o errado, bem como uma miríade de escolhas mundanas todos os dias: ônibus ou bicicleta, sopa ou salada, etc.

O conceito de livre arbítrio vem com a assunção da responsabilidade pelas próprias decisões, boas e más. Essa suposição está em alinhamento estrito com o idealismo, a política e a estrutura social da América: os americanos têm controle sobre suas escolhas e, portanto, têm controle sobre seus resultados.

Para aqueles que acreditam que o livre-arbítrio é uma ilusão, coisas como lei criminal, provisão de bem-estar e status social podem estar fora de nosso controle. Sua postura levanta a questão: se não temos controle absoluto, podemos ser julgados absolutamente por nossas circunstâncias?

Maoz, neurocientista computacional da Chapman University, explica: “O livre arbítrio está na base de muitos dos nossos pilares sociais. Nosso sistema jurídico presume algum tipo de liberdade. Existem teorias econômicas que pressupõem que as pessoas são livres para tomar suas decisões. Por todas essas coisas, entender como somos livres, os limites de nossa liberdade, como é fácil manipular nossa liberdade, e assim por diante, eu acho que é importante. ”

A pesquisa de Maoz desafia as suposições controversas sobre o livre arbítrio que surgiram de nomes como Libet e Sam Harris , um conhecido autor e apresentador de podcast que declarou: “O livre arbítrio é uma ilusão. Nossas vontades simplesmente não são de nossa própria criação. ” A base para a ousada conclusão de Harris depende fortemente de experimentos conduzidos na década de 1980.

Nesses experimentos, os participantes foram solicitados a realizar tarefas simples, como pressionar um botão ou flexionar o pulso . Enquanto estavam sentados em frente a um cronômetro, com eletrodos de EEG monitorando a atividade cerebral presos às suas cabeças, os participantes foram instruídos a anotar o momento em que tomaram consciência de sua decisão de se mover.

O que os pesquisadores descobriram foi que os sinais de EEG foram identificados em média meio segundo antes que os participantes notassem sua consciência de sua decisão de se mover. Essa lacuna entre o sinal do cérebro e a consciência humana tornou-se conhecida como “potencial de prontidão”. Os pesquisadores acreditam que isso ajudou a provar que as decisões são tomadas primeiro no cérebro, antes que uma pessoa tome conhecimento de sua decisão.

Temos livre arbítrio?

Ao longo dos anos, várias falhas importantes foram identificadas nesses experimentos, o que gerou um debate no mundo da ciência. O trabalho de Maoz também questiona suas conclusões instáveis. Tendo empreendido uma série de experimentos para quantificar e testar o livre arbítrio, Maoz é um dos maiores líderes de pensamento em volição e tomada de decisão de nosso tempo.

“Eu não diria que há evidências convincentes agora de que não temos livre arbítrio”, disse Maoz, “na verdade temos evidências de que há muitos problemas com este experimento Libet … Mesmo se você realmente pudesse prever estes decisões muito arbitrárias de qual mão você levanta, não parece generalizar para decisões importantes da vida. ”

Aqueles que discordam das descobertas do experimento geralmente o fazem por alguns motivos. Os experimentos realizados por Libet, que ele alegou indicarem falta de livre arbítrio, podem não ter provado muito. As próprias premissas nas quais ele conduziu esses experimentos parecem estar equivocadas.

Libet acreditava que o atraso entre os sinais de EEG e a consciência dos participantes de sua decisão de se mover, ou o “potencial de prontidão”, mostrava que as decisões estavam sendo tomadas antes que a pessoa soubesse o que faria. As descobertas, no entanto, podem apontar para algo muito mais simples e menos científico.

Uma questão em torno da legitimidade do experimento é que uma certa quantidade de erro humano parece ser inerente a seus parâmetros. Afinal, os participantes foram solicitados a anotar o momento preciso em que tomaram conhecimento de sua decisão de realizar uma tarefa. É discutível que os humanos sejam capazes de registrar isso com precisão avançada.

Além disso, é questionável se Libet poderia ter provado com alguma certeza que os sinais de EEG lidos nos participantes estavam de fato ligados à sua decisão de movimento ou ao movimento em si. Ele poderia facilmente ter captado outros estímulos, como uma expectativa de movimento. As ferramentas usadas neste experimento poderiam realmente ler o momento exato em que os participantes tomaram a decisão de realizar uma tarefa com alguma precisão precisa? Provavelmente não.

Em 2010, o Dr. Aaron Schurger e seus colegas propuseram que as descobertas de Libet não faziam nada para provar que o livre arbítrio é uma ilusão. Em vez disso, eles mostraram que o cérebro humano, quando confrontado com uma tarefa arbitrária, às vezes simplesmente vira a balança em direção a uma decisão nebulosa em detrimento de outra, salvando-nos de refletir incessantemente entre decisões sem conseqüências reais.

Isso não indica necessariamente que os humanos não tenham controle total sobre o processo de tomada de decisão. Em vez disso, talvez demonstre que os humanos são biologicamente programados para conservar tempo e energia, não se demorando em decisões sem importância.

Embora os experimentos do Dr. Libet possam não ter feito nenhum progresso real para responder a perguntas antigas sobre o livre arbítrio, eles ajudaram a alimentar discussões importantes. As ramificações do que significaria a falta de livre arbítrio podem ser o que está mais em jogo no debate, e também é um ponto crucial da pesquisa de Maoz.

Mesmo que a existência ou não existência do livre arbítrio permaneça indeterminada, algumas das mentes mais brilhantes do mundo estão se reunindo para buscar respostas . Nesse ínterim, é seguro presumir que, embora possamos não estar processando conscientemente cada uma das decisões subalternas que tomamos, as decisões maiores com implicações maiores são aquelas que podemos controlar.

Fonte: https://www.pensarcontemporaneo.com
Não me uses sem motivo; não me guardes sem honra. (inscrição nas espadas e punhais fabricados em Toledo)

LUGARES

STEIN AM RHEIN - SUÍÇA

Stein am Rhein é uma comuna da Suíça, no Cantão Schaffhausen, com cerca de 3.110 habitantes. Estende-se por uma área de 5,75 km², de densidade populacional de 541 hab/km². Confina com as seguintes comunas: Eschenz, Hemishofen, Öhningen, Wagenhausen. A língua oficial nesta comuna é o Alemão. Wikipédia

ROMANCE FORENSE

Cachorro comedor de ovelha...
Por Ronaldo Sindermann, advogado (OAB/RS nº 62.408)

O empregado da fazenda de um conhecido desembargador traz, por uma estrada em Bagé, um rebanho de ovelhas, quando surge pelo inóspito caminho uma Toyota Hilux reluzente.

Para na frente do campeiro e desce um cara de terno preto, camisa risca de giz, gravata vermelha e sapatos de couro de jacaré, que propôs:

- Meu nobre senhor, se eu adivinhar quantas ovelhas tem neste rebanho, o amigo me dá uma?

O velho gaúcho pensa e meio desconfiado responde:

- Sim! Não são minhas, mas pago para o patrão.

Então o cara volta até a camioneta, pega um notebook, se conecta via celular à Internet e começa a pesquisar.

Identifica a área do rebanho via satélite, calcula a criação de ovinos na região da fronteira, examina a média de abate, raças, quantidade de lã, baixa tabelas, cruza dados e depois de alguns minutos, diz ao campeiro:

- O amigo tem 634 ovelhas neste rebanho e 32 estão prenhas.

O gaúcho admite que estava certa a quantidade de animais.

- Pode levar a ovelha que eu prometi!

O cara pega o bicho e o coloca no porta-malas da Toyota. Quando está fechando a tampa, o gaudério pergunta:

- Desculpe, mas se eu adivinhar a sua profissão, o amigo me devolve o animal?

Duvidando que acertasse, o cara concorda.

- O senhor é candidato a deputado! - diz o gaúcho.

- Incrível! Como adivinhou?

- Por quatro razões.

- Quais?

- Primeiro, pela frescura da sua roupa. Segundo, parou sem que eu o chamasse. Terceiro, está bancando o esperto. E, quarto, nota-se que não entende nada de ovelhas.

Há um hiato e logo o empregado do desembargador ruralista arremata:

- Devolve já o meu cachorro!

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

DIÁRIO DE VIAGEM AO URUGUAI

Mauro Calliari

No país de maior renda per capita da América Latina, inspirações para nossas cidades

Monte.VI.d.E.O

Todo nome esconde uma história e muitas versões. Para Montevidéu, a melhor de todas é a de que, quando os espanhóis navegaram ao longo da costa do Rio da Prata, foram contando os morros. Um, dois, três... no sexto morro, construíram a futura capital. Portanto, Montevideo (como se escreve em espanhol) é o Monte número VI (seis, em algarismos romanos), na direção do Este (leste) a Oeste. Não deixa de ser irônico que um país tão plano tenha sua toponímia ligada a um morrinho.

Cidades e vazios

O Uruguai é ainda mais urbanizado que o Brasil, mas com uma concentração espantosa: mais de 40% da população uruguaia mora numa cidade só, Montevidéu. Depois da capital, só existem oito cidades com mais de 50 mil habitantes.

Apesar de terem crescido já após a independência, o traçado das cidades é tipicamente espanhol, no formato de tabuleiro, que ganha o bonito nome de "damero". Na sempre imponente praça central, se encontram os símbolos do poder: o religioso —a Catedral—, o político —a Intendência— e o simbólico —a onipresente estátua de Artigas, às vezes em seu cavalo, como em Paysandú, às vezes a pé mesmo, como em Carmelo.

Ao redor do centro, as típicas casas geminadas, de um ou dois andares, convivem com lojas, papelarias, cartórios, escritórios, escolas e órgãos públicos. A mistura é boa e permite aquela variedade de pessoas — estudantes, aposentados, funcionários do comércio, que dá vitalidade às cidades. Nas calçadas, há pequenas gentilezas urbanas como banquinhos. Nada melhor para ver a vida passar enquanto se toma o seu mate.

A exceção é a região de Maldonado. Ali está Punta del Este, a queridinha dos turistas brasileiros e argentinos. O investimento estrangeiro ali parece estar reproduzindo pedaços de Miami, com aqueles prédios enfileirados, olhando para o mar. A urbanização recente se descola da passada. Em vez dos bulevares aerados, uma faixa de rolamentos contínua, com poucas travessias e uma monotonia urbana diferente do centro antigo, com seus cafés charmosos e comércio.

Dois cassinos exprimem essa mudança. O Enjoy, no antigo hotel Conrad, em Punta, é construído para receber quem chega de carro. O de Piriápolis, no Argentina Hotel, da década de 1930, ao contrário, recebia os turistas na estação de trem. O trem não existe mais, mas os turistas saem dos corredores largos e vão andar na rambla, a frente de mar que evoca —de longe— a Riviera Francesa.

Negócios brasileiros na paisagem

Além dos produtos nas gôndolas, duas marcas aparecem com frequência nas ruas das cidades uruguaias. Itaú e Igreja Universal. O Itaú, aliás, faz campanha ostensiva para captar clientes, num país em que grande parte das pessoas não têm conta no banco. Tudo se paga e se compra numas redes de lojas que oferecem de câmbio a pagamento de contas, loteria esportiva e ingressos esportivos.

Vacas e pessoas

Nos extensos campos, há, plantações e vacas. O pessoal diz que são mais de três vacas para cada habitante. Além de exportar, o Uruguai tem um dos grandes consumos de carne do mundo. Pedi um bife à milanesa num restaurantinho na bucólica cidade de Treinta y Tres e o que veio à mesa foi um filé de brontossauro com mais de dois palmos de largura. Perguntei à gentil garçonete se o pessoal comia isso tudo sozinho. "Por supuesto!".

Urbanidades

Gentileza parece definir as relações com as pessoas que surgem na vida dos viajantes. Raramente, em qualquer país do mundo, alguém é atendido em lojas, restaurantes, ônibus, loterias com tanta gentileza. Pedidos de informação que em outros lugares geram muxoxo, aqui são recompensados com explicações longas e detalhadas.

Me pergunto se isso é fruto da escala. Nas cidades menores, como Mercedes ou Mello, é normal que pessoas estejam menos apressadas. Mas isso também acontece em Montevidéu. Espremidos entre dois gigantes, a noção de nação é forte, e o fato de presidentes de espectros políticos terem se sucedido sem rupturas ou loucuras, é significativo. "Somos um país pequeno", parece ser a explicação para tudo o que acontece ou não acontece por lá.

Montevidéu e Buenos Aires

Comparações são sempre amplificações de uma percepção pessoal, mas são irresistíveis. Nessa simplificação, diria que Buenos Aires é a multidão. A multidão está em toda parte. Na feira de San Telmo passeando, em frente à casa Rosada protestando, na Bombonera e no Monumental de Núñez, cantando e pulando, num parque de Palermo tomando sol, na calle Florida saindo do trabalho. Nos últimos tempos há até multidões de estudantes fazendo fila nos quiosques para comprar as figurinhas da Copa, que estão em falta. "É a última Copa de Messi".

Em Montevidéu, ao contrário, saímos da multidão e entramos a escala do indivíduo. No pôr do sol, pequenos grupos de casais e pessoas sozinhas vão até a beira do rio Prata e se aboletam na rambla conversando baixo ou lendo. Na sede da prefeitura não há nenhum guarda para controlar quem sobe ao mirante do prédio para ter uma visão fabulosa da cidade. Alguns bairros, como Cordón, têm trechos tão bucólicos quanto as fotos de São Paulo na década de 1960. A calma ocorre até na chegada ao futebol. Fui a pé do centro até o histórico estádio Centenário e me aboletei ao lado de grupinhos que tomavam mate enquanto olhavam as botinadas dos jogadores do Peñarol.

Andar a pé

O traçado, a planura e a infraestrutura contribuem para andar a pé nas cidades uruguaias. Em Salto, vi crianças bem pequenas caminhando sozinhas para a escola. Em Colônia, carros param para qualquer pedestre. Em Montevidéu, o trânsito piora um pouco as coisas e há poucas travessias na avenida que segue a praia. Entretanto, chega uma certa hora que tudo se acalma e a cidade se esvazia. Na volta para o hotel, uma noite numa rua escura, me vi caminhando atrás de uma mulher sozinha. Em São Paulo, é comum que a pessoa se vire assustada quando isso acontece. Em Montevidéu, ela nem deu bola e seguiu seu caminho tranquila.

Gardel

Ah, sim. Carlos Gardel era mesmo uruguaio e nasceu em Taquarembó. O simpático museu fora da cidade não tem muita coisa, mas é pródigo em certidões e notícias que comprovam seu local de nascimento.

Fonte: Folha de S. Paulo