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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

Número: 016
Data: 14/02/2018
Título: A FOLHAS TANTAS E ESTADO - MAIÚSCULA OU NÃO

Juiz catarinense pede informação sobre o uso correto: “O depoimento da testemunha encontra-se à folha 22, a folhas 22, as folhas 22 ou às folhas 22 do processo?”

Para citar uma folha só, as duas primeiras formas podem ser utilizadas. A história dessa expressão começa com a locução adverbial “a folhas tantas”, que quer dizer “a certa altura, em dado momento”. No livro Locuções adverbiais (Curitiba: UFP, 1985) exemplifica-se assim: "D. Maria a folhas tantas avocou o processo a si. A mulher a folhas tantas pôs-se a chorar". Daí a substituir a palavra “tantas” por um número foi um pulo. Alguém resolveu fazer assim e acabou se tornando tradição na área jurídica.

Transcrevo observação do gramático Napoleão Mendes de Almeida: Na linguagem forense se diz a folhas vinte e duas – significa “a vinte e duas folhas do início do trabalho” como quem diz “a vinte e duas braças”. O mesmo se diga de “a páginas vinte e duas”.

O usual é escrever abreviado: a fls. 20 / a fls. 11 e 12 / a fls. 1-15. Nesses casos também se usa de fls. x. Mas nada impede que se adote a expressão de acordo com as normas gramaticais, distinguindo-se então o singular à (para uma só folha) do plural às (várias folhas):
  • O depoimento se encontra à fl. 3.
  • Ver depoimento (fl.10) etc.
  • Citado às fls. 3-9.
  • Ver citação (fls. 11 e 12).
A propósito, vale notar que é equívoco usar a expressão “a fls.” ou “de fls.” (assim sem o n°) como equivalente ou substituto para “conforme peça juntada aos autos / na petição inicial / nos autos” ou similar. Por exemplo, em vez de dizer "Condeno o réu a entregar o imóvel descrito a fls.", diga-se "Condeno o réu a entregar o imóvel descrito na petição".

ESTADO COM MAIÚSCULA

Sobre o emprego da inicial maiúscula na palavra Estado persistem dúvidas, porquanto o Formulário Ortográfico de 1943 é omisso no tocante a território da Federação. Orienta ele, no item 49, 5°, que se empregue a letra inicial maiúscula “nos nomes que designam altos conceitos religiosos, políticos ou nacionalistas: Igreja (Católica, Apostólica, Romana), Nação, Estado, Pátria, Raça, etc.”, observando que “esses nomes se escrevem com inicial minúscula quando são empregados em sentido geral ou indeterminado”.

Ocorre que estado, com minúscula, também é substantivo que significa uma situação, condição, e há casos em que só a inicial maiúscula pode precisar o sentido da frase:
  • Vive num estado deplorável. [também poderia ser “Vive num Estado deplorável”]
  • A ação de reparação de dano promovida por Almeida contra Seguros será julgada no estado em que se encontra. [na condição ou no Estado da Federação?]
  • Um traçado encefalográfico reto é hoje, em muitos estados, a definição legal de morte. [em muitas situações ou em muitos Estados americanos?]
Normalmente não existirá ambiguidade, mas para que o redator não se dê ao trabalho de ver caso por caso, é mais cômodo usar maiúsculas não só quando se trata de “poder juridicamente organizado” mas também sempre que se referir a uma unidade da Federação:
  • O governador visitou o Estado todo.
  • Muitos migrantes foram mandados de volta ao seu Estado.
  • Mora no Estado do Paraná.
Neste último caso (quando aparece o nome Paraná, Sergipe, São Paulo etc.), usa as maiúsculas quem considera a palavra Estado como parte do nome próprio. Quanto ao plural, nunca será erro escrever "Estados", porém é mais comum o uso das minúsculas, entendendo-se que aí há o emprego "em sentido geral":

Visitou todos os estados e municípios para colher dados.
A doença foi erradicada nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Instituto Euclides da Cunha
Luiz Fernando de Queiroz, diretor
Rua Marechal Deodoro, 235 cj. 1204
CEP 80020-907 - Curitiba - PR
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Fonte: https://www.linguabrasil.com.br

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


Número: 015
Data: 07/02/2018
Título: VERBOS VISAR E PENALIZAR

Solicitou-me uma aluna de Direito da UFSC que discorresse sobre a regência do verbo visar, uma vez que ela tinha escrito “tal medida visa o bem comum” e seu professor, num excesso de zelo, corrigiu a frase para “visa ao bem comum”.

Com efeito, professores mais conservadores ensinam que “visar”, como verbo transitivo direto, tem o sentido apenas de dirigir a pontaria ou pôr o visto em: Visou o alvo, está visando a refém; visaram o cheque, visou o passaporte. Já com o sentido de ter em vista, pretender, objetivar, deve-se usar o mesmo verbo com a preposição A. Neste caso, visar torna-se transitivo indireto: O regulamento do condomínio visa à comodidade de todos e ao bem-estar coletivo. Visamos a garantir sua segurança.

Mas existe o dinamismo do idioma a ser considerado. “A regência, como tudo na língua, a pronúncia, a acentuação, a significação, etc., não é imutável. Cada época tem sua regência, de acordo com o sentimento do povo, o qual varia, conforme as condições novas da vida. Não podemos seguir hoje exatamente a mesma regência que seguiam os clássicos; em muitos casos teremos mudado” (Antenor Nascentes, 1960, apud Celso P. Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal, 1987:534).

Esse é o caso do verbo visar, que vem perdendo a preposição, sobretudo antes de um infinitivo, como nestes exemplos:
  • Sua missão visava encontrar resposta para o imponderável.
  • Foram implementadas medidas políticas que visavam regular a sociedade, produzindo sujeitos disciplinados, produtivos, hierarquizados.
  • O princípio da razoabilidade visa, ademais, impor valores.
Mesmo diante de substantivo, a forma direta tem tido a preferência:
  • As artes visam a expressão do belo e o despontar da sensibilidade.
  • A divulgação deve ser impessoal, visando unicamente o interesse público.
Essa regência já está abonada por bons dicionários e bons autores, como Domingos Paschoal Cegalla: “Entretanto, nessa última acepção [de ter em vista, objetivar] não é sintaxe condenável dar ao verbo visar objeto direto” (Minigramática da Língua Portuguesa, 1996), e Celso Cunha/ Lindley Cintra: “Esta última construção [com objeto direto], condenada por alguns gramáticos, é a dominante na linguagem coloquial e tende a dominar também na língua literária, principalmente quando o complemento vem expresso por uma oração reduzida de infinitivo: O ataque visava cortar a retaguarda da linha de frente” (Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985).

Devo esclarecer que este último exemplo é de Euclides da Cunha. Quem não costuma usar a preposição, portanto, está bem acompanhado!

PENALIZAR

Depois da discussão sobre deletar e protocolar, questionou-se a utilização de "penalizar". Devo dizer que é lícito, sim, empregar este verbo no sentido de “apenar, punir, infligir pena a”, conforme registram alguns dicionários. Como verbo transitivo direto que é, também pode ser usado na voz passiva. Exemplos:
  • Pelo art. 304 do CBDF, será penalizado com multa de 40 a 200 ORTNs o clube que incluir em sua equipe atleta sem condição de saúde para a partida.
  • A ré interpôs recurso de apelação, alegando que não pode ser penalizada por erro a que não deu causa.
Os meios de comunicação de massa atacam a benevolência da justiça e a falta de severidade das penas, fazendo ressurgir as teorias que penalizam infratores cada vez mais jovens e reacendem o debate sobre as vantagens dos castigos extremos.

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quinta-feira, 5 de outubro de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA


Número: 014
Data: 31/01/2018
Título: DELETAR, PROTOCOLAR E OUTROS VERBOS

Jocélia Borges, de São Paulo, quer saber qual o correto e qual a diferença entre protocolar e protocolizar. E Sandra Regina Martins, de Florianópolis, pergunta sobre “alguns verbos de cunho técnico e que não constam no dicionário, tipo disponibilizar, itemizar, customizar e outros do gênero. Às vezes preciso utilizar algum desses verbos e não sei se devo”.

Digamos que você pode, Sandra. “Tudo o que se vê tem um nome” (PVOLP, 1999, p. XXII) e tudo o que se faz também é denominado. Se o ser humano cria objetos, inventa instrumentos e descobre novos afazeres, precisa dar-lhes nomes, que vão sendo incorporados à língua.

A questão é que normalmente na área técnica e científica eles têm vindo do inglês, e aí deveriam pelo menos sofrer uma nacionalização na ortografia. Por que escrever "ticket" ou "copydesk" se podemos escrever tíquete e copidesque? Ou "linkar" no lugar de lincar? Na verdade, por que lincar se temos ligar? Por que deletar e não apagar?

A resposta pode ser dada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Arnaldo Niskier: “O certo é que a língua portuguesa cresceu, até mesmo em virtude da introjeção de termos ligados ao desenvolvimento científico e tecnológico e de muitos estrangeirismos.(...) Não há como conter esse crescimento, mesmo que, por vezes, seja ele fruto de (...) um lamentável ‘linguicídio’, palavra que, aliás, consta do nosso Vocabulário”. Refere-se ele ao Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (PVOLP), organizado pela ABL, cuja edição de 1999 registra a grafia correta e a classe gramatical de 350 mil verbetes. Nele já constam vocábulos como lincar e deletar.

Outro fator que responderia a essa fácil adesão ao estrangeirismo – mesmo nacionalizado – é “a lei do menor esforço”. Consta que o escritor português José Saramago, numa visita ao Brasil, indignou-se ao escutar no saguão do hotel: “Vamos checar”. O Nobel de Literatura não se conteve: “Ora, pois, não se pode mais verificar, averiguar”? O caso é que checar (aportuguesamento do inglês to check) é muito mais fácil de dizer e escrever do que seus sinônimos em português.

Enfim, a língua é mais dinâmica do que os dicionários. Na sua 1ª edição, por exemplo, o Aurélio não consignava o verbo alocar, termo cuja autenticidade hoje ninguém discute. O Aurélio Século XXI ainda não trazia os verbos mencionados pela leitora Sandra, mas os dicionários lançados em 2009 já incorporaram customizar e disponibilizar. De qualquer forma, verbos como agilizar, oportunizar, otimizar, customizar, acessar, deletar, itemizar estão legitimados... pelo uso.

PROTOCOLAR E PROTOCOLIZAR

Ambas as formas – dicionarizadas – têm o sentido de “registrar no protocolo”. Protocolar é uma simplificação brasileira do verbo original protocolizar, formado pelo adjetivo protocolar + o sufixo izar, que indica ação. Para fugir de possível confusão entre o adjetivo protocolar (“FHC teve com ACM uma conversa curta e protocolar”, por exemplo) e o verbo protocolar, um amigo meu sai pela tangente ao empregar "protocolizar" quando usa o infinitivo, utilizando a forma mais rápida e simples nos outros casos:

Favor protocolizar todos os ofícios, solicitou ela.

Afirmou o juiz que o recurso foi protocolado fora do prazo.

O partido protocolou no Senado denúncia de que o deputado estaria envolvido em muitas irregularidades.

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quarta-feira, 27 de setembro de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA




Número: 013
Data: 24/01/2018
Título: REITOR, PADRE, PASTOR, JUIZ, ONÇA-PINTADA

Dentre a profusão de pronomes de tratamento que a língua portuguesa nos faculta, gostaria de hoje destacar um: Vossa Magnificência (abrev. V. Magª. ou V. Maga.). É assim que os manuais ensinam a tratar os reitores de universidades. Nada contra a fórmula – a não ser que é empolada, difícil de escrever e pronunciar.

Nas gramáticas mais antigas não encontrei referência à figura do reitor. As listas de pronomes de tratamento, até a década de 1960, dedicavam maior preocupação às autoridades eclesiásticas: iam alfabeticamente de abade, abadessa, arquiduque, freira, patriarca, prior, tenente-coronel, até o v de vereador. Nos anos 70 nova hierarquia se estabelece. Em termos de cerimonial, segue-se o Decreto 70.274/72, assinado pelo presidente Emílio G. Médici, que coloca os reitores das universidades federais numa graduação acima dos reitores das estaduais. Os livros de gramática, de qualquer modo, não faziam e não fazem distinção: o pronome é “Vossa Magnificência”; o vocativo, “Magnífico”.

Contudo, em virtude da propagação das instituições de ensino superior, vem caindo em desuso esse tratamento demasiadamente cerimonioso, até porque já não existe um distanciamento tão grande entre a pessoa do reitor, o corpo docente, os alunos e a comunidade em geral. Entrou nos costumes e é, pois, perfeitamente aceita hoje em dia a fórmula Vossa Excelência (abreviada V. Exa. ou V. Exª.) para tratar os reitores. A invocação, neste caso, pode ser simplesmente Senhor Reitor, ou então o tradicional Magnífico Reitor.

PADRE E PASTOR: VOSSA SENHORIA

Nessa linha de evolução dos costumes, também podemos nos atualizar em relação aos padres e pastores. Com a proliferação de religiões no final do milênio, os padres católicos, pastores evangélicos e outros líderes religiosos se tornaram figuras mais comuns. Havendo necessidade de se dirigir a eles por escrito, use o simples e correto Vossa Senhoria.

JUIZ: VOSSA EXCELÊNCIA

Como todo profissional da área jurídica bem sabe, o tratamento a juízes e desembargadores continua sendo Vossa Excelência. Aceitam-se, porém, dois vocativos: Meritíssimo Juiz ou Senhor Juiz.

FLORA E FAUNA: HÍFEN

Observe uma nota de cinquenta reais: lá está escrito onça-pintada, com hífen, porque se trata do felino estampado na cédula, e não de uma onça pintada por algum artista.

Igual raciocínio se aplicaria a uma baleia-branca, para dar outro exemplo. Uma criança pode mostrar a “baleia branca” que desenhou; mas, com hífen, a palavra só pode se referir a determinada subespécie de cetáceo.

Segundo o Acordo Ortográfico (2009), todas as palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas devem ser hifenizadas, como em: baleia-azul, baleia-de-bossa, jacaré-do-papo-amarelo, mico-leão-dourado, arara-vermelha, martim-pescador, canário-da-terra, canário-do-reino, joão-de-barro, cisne-de-pescoço-preto, faisão-real, espada-de-são-jorge, capim-limão, canela-da-índia, boldo-baiano, morango-do-campo, cana-de-açúcar, erva-cidreira, ruiva-dos-tintureiros etc.

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quarta-feira, 20 de setembro de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

 
Número: 012
Data: 17/01/2018
Título: À MEDIDA QUE OU NA MEDIDA EM QUE + TORNAR PÚBLICO


São duas locuções diferentes, embora semelhantes na aparência. Cuidemos para não fazer um cruzamento entre elas, como neste caso: "*À medida em que recuavam, o exército russo e a população civil iam queimando plantações e destruindo fábricas".

I - A locução conjuntiva à medida que está classificada entre as conjunções subordinativas proporcionais; portanto, tem o mesmo significado de à proporção que:

À medida que os relógios de precisão se sofisticaram, a velocidade se tornou vital.

No caso do Mal de Alzheimer, que é a principal doença da memória, os neurônios são destruídos à medida que a enfermidade avança.

“À medida que o regime foi se consolidando, só o caminho que Jango preconizava, de resistência política, é que podia mesmo prevalecer”, Brizola reconheceu.

À medida que eram desocupados, galpões impregnados de fuligem passaram a ganhar cores e aromas.

II - A segunda locução não se encontra nos livros de gramática tradicionais, mas está legitimada pelo uso. Não é "invenção de brasileiro". Em francês, por ex., se diz "dans la mesure où". Em italiano: "I diritti umani hanno in potenza una dimensione culturale, nella misura in cui un diritto culturale è un diritto all'identificazione". Na medida em que se encaixa nas conjunções causais, tendo o sentido aproximado de “pelo fato (razão, motivo) de que, uma vez que, já que, porquanto”:

O Estado, na medida em que se responsabiliza apenas pelo financiamento do Ensino Fundamental, estaria se abstendo de cumprir seu papel de promotor do bem comum.

O currículo escolar daria então sua contribuição na medida em que abrisse discussões ideológicas e metodológicas.

Essa concepção de linguagem está associada à teoria da comunicação e é falha na medida em que reserva ao emissor um papel ativo e ao receptor um papel passivo.

A requisição distingue-se da desapropriação na medida em que somente a União pode requisitar a desapropriação, entre vários outros fatores.

TORNAR PÚBLICAS AS MANOBRAS E TORNAR PÚBLICO QUE...

*Ela voluntariamente "tornou público" as manobras do governo. Atendendo às regras da concordância nominal – o adjetivo concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere –, corrija-se essa frase para:

Ela voluntariamente tornou públicas as manobras do governo.

Acredito que o redator da frase inicial foi induzido ao erro pelo fato de ser mais usual a expressão “tornar público” (no masculino), que é assim usada com o conectivo “que”:

A empresa Santec torna público que estão abertas as inscrições.

O governo do Estado torna público que no dia 17 dará início ao processo.

Não havendo o conectivo, mas sim um substantivo, é preciso fazer a devida concordância:

[masc. singular] ...torna público o balanço da empresa.
[masculino plural] ...torna públicos os resultados obtidos.
[femin. singular] ...torna pública a realização de processo licitatório.
[feminino plural] ...torna públicas as datas de abertura dos envelopes.

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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

 

Número: 011

Data: 10/01/2018

Título: A QUESTÃO DO TREMA

Oficialmente já não se usa mais o trema, que em Portugal havia sido abolido em 1932. A exceção fica para as “palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros: hübneriano, de Hübner, mülleriano, de Müller, etc.” (cf. Acordo Ortográfico Da Língua Portuguesa - Decreto 6.583, de 29 de setembro de 2008). Nos nomes próprios estrangeiros mantém-se não só o trema como “quaisquer combinações gráficas ou sinais diacríticos não peculiares à nossa escrita”, como por exemplo ett, ff, m antes de t.

Por estarmos familiarizados com a pronúncia de vocábulos como antiquíssimo, cinquenta, cinquentenário, consequência, equestre, equitativo, liquidificador, liquidação, sequela, sequestrador, subsequente, tranquilidade, aguentar, ambiguidade, linguística, linguiça, sagui, pinguim, unguento, a presença do trema não faz nem fazia diferença para nós, sendo por isso dispensável.

O trema, contudo, se não faz falta nas palavras de uso comum, é imprescindível nos nomes próprios – e não apenas nos de origem estrangeira – pois ele informa sua leitura correta. Para exemplificar: só quem conhece bem a nossa História vai falar corretamente “Via Anhanguera” – com o u pronunciado – mesmo que ali não encontre o trema. E somente quem é de Curitiba sabe que o nome do parque Barigui deve ter o u proferido; uma pessoa de fora, se não encontrar essa palavra tremada, por certo lerá a última sílaba como dígrafo, isto é, como gui de guia. Então é conveniente, para o bem de todos, que se escreva Anhangüera e Barigüi, mesmo porque ambos os nomes, sendo de origem indígena (em tupi, anhangüera quer dizer “diabo velho”, e barigüi, “mosquito”), podem ser enquadrados na norma dos estrangeiros.
A REGRA

Empregava-se o trema nas “sequências gu e qu seguidas de e ou i, nas quais o use pronuncia”. Em outras palavras: trema só nos grupos gue, gui, que, qui que tenham o u pronunciado (atonamente, como semivogal, pois se configura aí um ditongo crescente).

A ideia do trema era mostrar a diferença de pronúncia entre GUEto, GUIsado, QUENte, QUIlo e alcaGÜETO (verbo), saGÜI, freQÜENte, tranQÜIlo, por exemplo. Embora sem trema, a pronúncia dessas palavras continua a mesma.

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quinta-feira, 7 de setembro de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

 

Número: 010
Data: 03/01/2018
Título: TODA (A) FAMÍLIA, TODO MUNDO, TODO O BRASIL

Modernamente, no Brasil, mais do que em Portugal, nota-se uma diferença semântica entre toda família e toda a família.  Distingue-se um caso de outro apenas pela inserção do artigo definido: de “qualquer família” o sentido passa para “a família inteira”. Exemplo:

Revistavam todo homem que ali passasse. [= todos os homens]

Revistaram todo o homem. [= o homem por inteiro, de cima abaixo]

O pronome indefinido TODO + substantivo traduz a ideia de “qualquer, cada”. Implica o conjunto dos seres em questão. Igual ao plural: todos os. Trata-se de fenômeno linguístico em que o singular vale pelo plural, pela totalidade.

Todo ser humano tem alma.

Nem todo terreno é fértil.

O coração de todo brasileiro está com a seleção canarinho.

Toda atividade que os órgãos judiciais exercem, excluindo a função jurisdicional propriamente dita, é administrativa. 

Toda autoridade administrativa deve respeitar as leis.

O adjetivo TODO + O + substantivo tem o sentido de “inteiro, completo”. Implica inteireza ou plenitude. O artigo é obrigatório.

Todo o terreno (que pretendemos comprar) é fértil.

Disse nosso diretor que toda a escola receberá pintura nova e outras benfeitorias. 

Queimou toda a casa.

Nestes casos é até mais comum a posição inversa: “Queimou a casa toda, capinaram o terreno todo, a escola toda desfilará, viajou o ano todo, dorme o dia todo” etc.  

PLENITUDE

Ao usar um substantivo abstrato como afeição, carinho, apreço, capricho, humildade, força etc., coloque o artigo para demonstrar como é pleno, completo, esse sentimento ou qualidade:

Com todo o amor, despeço-me.

Li sua carta com toda a atenção.

Você tem todo o direito de não acreditar nessa afirmação.

Mostra em seu ateliê todo o vigor da sua arte. 

Manuseia os utensílios com todo o zelo, como se fossem de cristal.

ARTIGO FACULTATIVO

Por admitirem dupla interpretação (qualquer ou inteiro), é optativo o uso do artigo nas seguintes expressões:

Em todo (o) caso, me submeterei ao teste.

Encontramos lixo em toda (a) parte, a toda (a) hora, todo (o) tempo.

Estaremos lá a todo (o) custo, todo (o) preço, todo (o) risco.

A bem da verdade, é facultativo o artigo no emprego de todo = qualquer. Também seria correto escrever, v.g., “a impessoalidade deve nortear toda a atividade administrativa”. Como advertiu Celso Luft: “Na dúvida, empregue tranquilamente todo o, com artigo, que estará sempre certo. Todo o vale para todos os casos. Quando se erra, é pela falta do artigo; nunca o inverso”.

TODO MUNDO

Sem o artigo, é expressão de uso coloquial, significando “a gente, todos nós, as pessoas em geral”:

Todo mundo ficou perplexo com a bomba no Senado.

Quase todo mundo perde com a inflação.

Nem todo mundo aplaudiu o esquema de Luxemburgo.

Com o artigo, quer dizer “o mundo inteiro, a população mundial”:

Todo o mundo ocidental conhece as histórias dos irmãos Grimm.

Esperamos que todo o mundo se una pela paz.

TODO O BRASIL, TODA SANTA CATARINA

No caso de estados e países, o artigo é usado somente quando ele é de praxe diante desses nomes:

A exoneração do ministro deixou todo o Brasil em suspense.

Achamos todo Portugal uma fábula.

Percorreu toda a Bahia a pé.

O viajante encontra um relevo acidentado em toda Santa Catarina.

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quinta-feira, 31 de agosto de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

 

Número: 009
Data: 27/12/2017
Título: XÉROX OU XEROX E OUTROS PARES + PRONOME RELATIVO

As duas formas podem ser usadas: se você pronuncia como palavra oxítona, escreva xerox, sem o acento gráfico, a exemplo de outras marcas registradas que se tornaram nomes comuns, como pirex, gumex, perfex, durex etc. Mas é possível acentuar o vocábulo, xérox, de acordo com a norma ortográfica relativa às paroxítonas terminadas em X, tal qual fênix, ônix, látex e dúplex (também pronunciado como oxítona: duplex).

Quando existem alternativas de pronúncia e escrita, é bobagem ficar corrigindo as pessoas que falam ou escrevem diferente da gente. Deixando a escolha a cada um, vejamos outros casos de dupla grafia ou de uso optativo entre duas formas de se expressar:

. assoalho e soalho
. a maquinaria e o maquinário [mas não *a maquinária]
. abdome e abdômen
. aluguel (pl. aluguéis) e aluguer (pl. alugueres, sobretudo em Portugal)
. aterrissar e aterrizar [formação vinda de aterrar + sufixo izar, eis uma forma conciliadora para quem prefere a pronúncia com som de Z]
. bile e bílis
. de pé e em pé [no sentido de estar ereto sobre os próprios pés, não sentado nem deitado, enquanto “ir a pé” significa deslocar-se sem veículo algum].
. destrinçar e destrinchar
. garçom (pl. garçons) e garção (pl. garções)
. germe e gérmen
. hidrelétrica e hidroelétrica
. humo e húmus
. infarto e enfarte  [mas não *infarte]
. maquiagem e maquilagem
. mestria e maestria
. nuança e nuance
. porcentagem e percentagem
. quadriênio e quatriênio
. quatorze e catorze
. quociente e cociente
. quota e cota
. termelétrica e termoelétrica
. vitrina e vitrine

REGÊNCIA VERBAL: FALTA DA PREPOSIÇÃO

          *Sabe aquele lugar que você planejava viver no futuro? A inauguração é hoje.

Assim foi escrito no lançamento de um condomínio na capital catarinense. A construtora se preocupou com os “apartamentos totalmente mobiliados”, mas a agência de propaganda falhou na redação do texto. O correto de acordo com a norma-padrão seria:

Sabe aquele lugar em que você planejava viver no futuro?

Isso porque o verbo viver reclama a preposição em [você vive em um lugar], que deve aparecer nitidamente na frase. Neste caso, a preposição se desloca para a frente do pronome relativo que, que introduz a oração subordinada na qual se encontra o verbo que rege a preposição. Outros exemplos:

A marca em que você sempre confiou está de volta. [confiar em]

Só faço as coisas de que gosto. [gostar de]

Não publicou as notas mais importantes a que me referi. [referir-se a]

Ninguém precisou se perguntar a que pressões aludia o presidente. [aludir a]

A gramática interior do falante lhe permite saber a preposição adequada a cada situação. É natural dizermos “confiou na marca, gosto de coisas boas, eu me referi a notas importantes, ele aludia a pressões”; porém, é preciso um bom ouvido para reconhecer a falta da preposição quando ela está distante do verbo. Nem todas as pessoas, por exemplo, sentem que o slogan da Texaco [*O posto que você confia] fere as normas gramaticais. Mas seria muito bem-vinda a retificação da frase para “o posto em que você confia”.

Na fala cotidiana a tendência é simplificar deixando de lado essas particularidades. Todavia, quem quer escrever de acordo com o padrão culto formal não pode omitir essa preposição que antecede o pronome relativo.

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quinta-feira, 24 de agosto de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA




Número: 008
Data: 20/12/2017
Título: PASSOU PELO RIO GRANDE – RERRATIFICAÇÃO, DE/EM FÉRIAS, PROCEDER

Uma regrinha que vale a pena lembrar: a palavra rio, quando se refere a um curso d’água, deve ser grafada com inicial minúscula, mesmo quando junto de um nome próprio. Apenas o nome em si do rio terá inicial maiúscula:

Os limites físico-geográficos entre os municípios de Florianópolis e São José foram estabelecidos pela Lei 247/48, considerando o limite do rio Araújo.

Deixemos a maiúscula para descrever uma localidade, uma cidade, um território qualquer. É esse detalhe que permite distinguir uma coisa da outra. As mesmas frases trazem diferente informação a partir da mudança de minúscula para maiúscula:

Passou pelo rio Grande. [curso d’água]
Passou pelo Rio Grande. [cidade ou Estado]

Adorei o rio. [curso d’água]
Adorei o Rio. [cidade]

Chuvas transformam o rio Vermelho em lamaçal. [curso d’água]
Chuvas transformam o Rio Vermelho em lamaçal. [localidade na Ilha de SC]

RERRATIFICAÇÃO

Orandina Vieira, de Florianópolis/SC, solicita explicação sobre a palavra rerratificação, que ela tem visto em documentos antigos escrita também de outras formas: re-ratificação e re/ratificação.

Esse termo normalmente é aplicado a convênios em que se deseja retificar alguma cláusula, ratificando o restante do documento. Portanto o “re” inicial é uma redução de retificar, e não o prefixo re- [repetição, movimento para trás], como dá a entender a grafia rerratificação. A princípio – ou para quem não é do ramo – parece que se vai fazer uma nova ratificação, o que seria uma redundância, já que ratificar quer dizer “reafirmar, confirmar, corroborar”.

Pela lógica, então, seria correto escrever re/ratificação ou re-ratificação, como muito se fez enquanto não havia registro formal. No entanto, já se começa a reverter o erro implícito na grafia rerratificação – alguns tribunais estão escrevendo reti-ratificação, termo que por certo estará nos dicionários em futuras edições.

DE/EM FÉRIAS E REGÊNCIA DE PROCEDER

--- É melhor dizer ele está de férias ou ele está em férias? Proceder à apuração ou a apuração? F. S., Campo Grande/MS

I. Pode-se dizer das duas maneiras:

Ele está em férias. Vou entrar em férias.

Ele está de férias. Vou entrar de férias.

Mas basta você acrescentar um adjetivo às férias para que se reduzam as opções – aí só se deve usar a preposição em:

Os trabalhadores das indústrias têxteis entrarão em férias coletivas amanhã.

Sairemos em férias regulamentares... e merecidas!

II. Conforme a norma-padrão, na acepção de “realizar, executar, levar a efeito” o verbo proceder é transitivo indireto, o que significa que ele sempre se liga ao seu complemento através de uma preposição – A, no caso: quem realiza algo procede a alguma coisa. Assim, com objeto indireto no masculino, temos a seguinte construção de frase:

Vão proceder a um rigoroso inquérito sobre os bingos no país.

O Ministério vai proceder ao levantamento de todos os gastos na área.

Na versão feminina fica:

O juiz deve proceder a uma nova convocação dos depoentes.

A junta procedeu à apuração dos votos.

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quinta-feira, 17 de agosto de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

  

Número: 007
Data: 13/12/2017
Título: VIR AO ENCONTRO DE, VIR DE ENCONTRO A

Vir de encontro a e vir ao encontro de são duas expressões semelhantes na forma mas opostas na ideia que exprimem. É importantíssimo saber a diferença entre elas, não só para interpretar corretamente um texto (supondo que ele esteja correto) como para informar de maneira precisa o que se quer dizer ao usar tal expressão. O problema é que ambas podem se encontrar no mesmo tipo de frase, por exemplo:

(1) A promessa veio de encontro aos nossos desejos.

(2) A promessa veio ao encontro dos nossos desejos.

Dependendo da promessa, você escolhe a primeira ou a segunda opção. Em (1), o prometido deve ser desagradável, ruim, pois “de encontro a” dá ideia de oposição, contrariedade. Em (2), o sentido muda completamente, pois “ao encontro de” sugere algo agradável, bem-vindo; dá ideia de favorecimento. Portanto, ao ler cada uma das frases abaixo, você a interpreta conforme a expressão utilizada:

Sem dúvida, a construção de uma usina termelétrica virá de encontro aos interesses dos habitantes da localidade a ser atingida.

Os homens públicos devem vislumbrar saídas que venham ao encontro das aspirações não só do seu eleitorado mas de toda a população.

“O deficiente só dá audiência [na TV] porque vem ao encontro de nossos desejos mais íntimos de saciar a curiosidade sobre um assunto proibido.”

A instalação de uma feira no bairro vem de encontro à vontade da minoria abastada.

Comportamentos antiéticos deveriam levar a pessoa a repensar os valores de sua profissão, pois caso contrário ela estará indo de encontro a todos os princípios de seu juramento.

Em suma, a interpretação depende do contexto. Em geral a própria frase ou o parágrafo traz uma palavra negativa ou positiva que corrobora a expressão em uso. Observe os grifos:

Os noivos subiram a escadaria da igreja para ir ao encontro da felicidade.

Acho ótima sua ideia. Ela vem ao encontro do que eu tinha imaginado.

Infelizmente seu projeto vai de encontro ao desejo da maioria.

Essa medida arbitrária virá de encontro às aspirações da sociedade.

Além disso, as expressões são usadas no seu sentido mais óbvio, de “encontrar” mesmo, por um lado, e de “bater, ir contra”, por outro, como nos seguintes exemplos:

Subiu a rampa para ir ao encontro do Presidente.

O carro desgovernou-se e foi de encontro ao muro.

Voltem o mais rapidamente à nossa companhia, ao encontro de seus amigos do campo e dos bairros; visitem nossas casas; conversem conosco.

Guarde este resumo:

AO ENCONTRO DE: a favor, favorável a; para junto de 

DE ENCONTRO A: contra; em oposição, em prejuízo de

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quinta-feira, 10 de agosto de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

  

Número: 006
Data: 06/12/2017
Título: CONCORDÂNCIA E ACENTOS: QUÓRUM, FÓRUM, CÂMPUS, HÁBITAT

A matéria deixou de ser votada por falta de quórum.

Havia esquecido os documentos no Fórum, lembrou-se depois.

Reza a gramática que devem ser acentuadas todas as palavras paroxítonas terminadas em I, IS, US, UM, UNS, como júri, lápis, bônus, álbum, álbuns. Daí o acento agudo em quórum e fórum, pois são palavras de origem latina que foram aportuguesadas. Antigamente elas eram escritas em latim, o que exigia sua grafia em itálico ou sublinhada: quorum, forum.

Igualmente deve-se acentuar a palavra câmpus em português, sendo idêntico o plural. Muitas editoras já adotam essa grafia, embora ela esteja dicionarizada apenas como latim, cujo plural é campi. Neste caso deve-se usar o itálico:

Dirigiu-se ao campus da UFSCar tão logo chegou a São Carlos.

  • Mas, se preferir, escreva:
  • Dirigiu-se ao câmpus da UFSCar tão logo chegou a São Carlos.
  • Em suma, temos: câmpus/câmpus ou campus/campi.

Outro caso é o do latim habitat. A exemplo de déficit e superávit, termos latinos que vêm sendo acentuados graficamente para informação da pronúncia, hábitat também recebe acentuação, dispensando assim o itálico ou grifo pertinente a palavras estrangeiras. Exemplo:

  • Os wapixanas estão se defendendo da exploração e ganância de pessoas e laboratórios sobre os conhecimentos e recursos do hábitat indígena.

VERBO ANTECIPADO AO SUJEITO COMPOSTO

A base da concordância verbal é, resumidamente: sujeito simples com um só núcleo no singular – verbo no singular [João saiu]; com um só núcleo no plural – verbo no plural [Elas saíram]; sujeito composto (formado por mais de um núcleo) – verbo no plural [João e Maria saíram].

Contudo, existe um caso em que o verbo pode ficar no singular mesmo se referindo a um sujeito composto: é quando se coloca o verbo na frente do sujeito, contrariando a ordem natural que é “sujeito e predicado/verbo”. Antecipado ao sujeito, o verbo pode ou concordar com o núcleo mais próximo ou com o conjunto. Vejamos uma frase com sujeito composto na ordem direta: ”A Lei nº 2.089/88 e demais disposições em contrário ficam revogadas”. Essa mesma frase pode ser construída na ordem indireta de duas maneiras: 

  • Ficam revogadas a Lei nº 2.089/88 e demais disposições em contrário.
  • Fica revogada a Lei nº 2.089/88 e demais disposições em contrário.

Ao pluralizar, concordando com o conjunto, você estará mais seguro e evitará possíveis ambiguidades. Todavia, é bom saber que existem as duas possibilidades. Às vezes o singular soa melhor nesses casos de anteposição, e também, por uma questão de estilo, você pode querer usar essa inversão. Exemplos das duas opções (núcleos do sujeito em itálico):

  • Ali pelo parque sempre passava uma senhora com os sete filhos e várias avós com os netinhos.
  • A pedido do Governador, redigiu-se novamente o Decreto n° 9.959 e as alterações contratuais dele decorrentes.
  • Nas mãos não se refletem unicamente a nossa vivência psíquica e o nosso estado anímico.
  • No livro, narram-se a queda dos preços do café a partir da crise de 1929 e os desmandos do populismo getulista.

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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

 

Número: 005
Data: 29/11/2017
Título: FÓRMULAS DE MODÉSTIA E MAJESTADE + MULTI

De Campo Grande/MS escreve o leitor O. M. de Araújo para perguntar o que é plural majestático.

Em duas palavras, é o emprego da 1ª pessoa do plural no lugar da 1ª pessoa do singular. Significa dizer “(Nós) queremos manifestar nossa satisfação” em vez de “(Eu) quero manifestar minha satisfação”.

Os antigos reis de Portugal adotaram a fórmula “Nós, el-rei, fazemos saber...” procurando, num estilo de modéstia, diminuir a distância que os separava do povo. Até que no início do séc. XVI, com D. João III, aparece o absolutismo real e a consequente mudança da fórmula para a 1ª pessoa: “Eu, el-rei, faço saber que...” Entretanto os altos prelados da Igreja continuavam a usar o pronome NÓS como um tratamento de humildade e solidariedade com os fiéis. Só que, crescendo a Igreja em poder e bens temporais, aquele plural começou a dar a impressão não de modéstia mas sim de grandeza e majestade. Daí o nome “plural majestático”.

Sua outra denominação é “plural de modéstia”. Ainda o utilizam escritores, oradores e políticos, que dessa forma pretendem fundir-se em simpatia com seus leitores, ouvintes e correligionários, parecendo com eles compartilhar suas ideias e afastando qualquer noção de importância pessoal, vaidade e orgulho.

Mas veja bem: não é necessário que numa correspondência formal ou num discurso o redator tenha de usar a 1ª pessoa do plural para “não ficar mal”. De modo algum! Desde que ele esteja falando em seu próprio nome e não no de uma coletividade ou da empresa como um todo, é natural que se expresse na primeira pessoa do singular:

  • Venho transmitir-lhe meus cumprimentos...
  • Solicito a colaboração de todos...
  • Recebam os meus agradecimentos...
  • Tenho a certeza do seu empenho...
  • Minha intenção é dar o melhor de mim pela comunidade...

Quando, porém, prefere usar o plural majestático, o redator ou orador deve saber que verbos e pronomes vão para o plural, mas os adjetivos permanecem no singular, flexionando de acordo com a pessoa que fala ou a quem eles se referem. Por exemplo:  

  • Sejamos claro e sucinto (falou o doutor).
  • O mestre agradeceu dizendo: “Nós nos sentimos orgulhoso com esta homenagem”.
  • Não pretendemos ser vaidoso, acreditem.
  • Estamos imunizada contra os ataques solertes da oposição – bradou a deputada.  

Claro que quando o redator quer se referir também à coletividade, à instituição junto, deve empregar todos os termos (verbos, pronomes e adjetivos) no plural:  

  • Nós nos sentimos felizes com a lembrança do nosso nome...
  • Não seremos responsáveis pelas atitudes dos concorrentes.
  • Estamos cientes do ocorrido em nossas instalações.
  • Sejamos pacientes e peçamos a Deus pelo melhor para o Brasil.  

Ainda é possível, dentro de um mesmo discurso, ofício, tese, parecer etc., mesclar parágrafos de 1ª pessoa do singular com outros de 1ª pessoa do plural, dependendo da situação ou da realidade a ser destacada (pessoal ou institucional).  

MULTI

O prefixo multi está arrolado entre aqueles que se ligam diretamente ao substantivo ou adjetivo, isto é, sem hífen e sem deixar espaço, a não ser que a segunda palavra comece com a letra “i” ou com “h”: multi-isquemia, multi-irrigação; multi-habitacional, multi-habilidade. Porém é preciso estar atento a um detalhe: para não desfigurar a pronúncia, dobra-se o S ou o R dos radicais iniciados com essas letras, por exemplo: multi + setorial = multissetorial; multi + secular = multissecular; multi + racial = multirracial. Outros exemplos:

  • Foi elogiado o multiatendimento dispensado aos participantes da Feira.
  • Eles prestam serviços a várias empresas simultaneamente utilizando o sistema de multiusuário.
  • Cem voluntários serão investigados por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores.
  • Multiempresas montaram uma ousada multiestrutura para atrair os turistas do Norte.

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