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segunda-feira, 1 de abril de 2024

O ZUMBIDO NO OUVIDO TRAZ UMA MENSAGEM

Audição tem uma altíssima resolução emocional, mas há o risco de sobrecarga

Não é só a visão que está sobrecarregada por causa da tecnologia. Os ouvidos também estão. Nos últimos oito anos as buscas por zumbido no ouvido ("tinnitus") no Google explodiram. Também cresceram buscas por "protetor auricular" e "cancelamento de ruído", mapeadas no Google Trends.

Toda essa hiperatividade aparece também em números. Um dos produtos mais lucrativos da Apple são os fones sem fio Airpods. A empresa tem vendido cerca de 20 milhões deles por trimestre. Sozinhos eles geram uma receita de US$ 14,5 bilhões anuais (R$ 73,22 bilhões), mais do que a soma do faturamento do Spotify e do Twitter. No momento em que você estiver lendo este texto haverá cerca de 100 milhões de pessoas com um par de Airpods no ouvido. Talvez você seja uma delas.

O ouvido é nosso sentido mais íntimo. Escutar um bom podcast gera uma sensação de intimidade que nenhuma outra mídia consegue proporcionar. Afinal, o áudio tem uma altíssima resolução emocional, diferente do vídeo.

Só que isso também aumenta o problema da sobrecarga. Quanto mais intensos são os sons, menos deveríamos estar expostos a eles. O barulho de um café movimentado (90 decibéis) só é tolerado com segurança por até quatro horas. Uma balada ou show pode gerar 115 decibéis. Nesse patamar, bastam sete minutos de exposição para haver a possibilidade de dano.

No mundo de hoje, perdemos totalmente o controle do nosso ambiente sonoro, seja em casa, no trabalho ou em ambientes públicos. Essa perda de controle é o impulso para a busca por plugues, fones de ouvido e tecnologias de cancelamento de ruído. Criadas na década de 1950 para reduzir o ruído na cabine para os pilotos de avião, hoje elas estão em toda parte. São um dos diferenciais dos Airpods da Apple. Você coloca o fone no ouvido, e ele miraculosamente reduz os ruídos do ambiente, criando um isolamento acústico individual.

Como aponta a colunista de ciências do jornal The Guardian, Donna Lu, múltiplos estudos mostram que o uso constante de plugs podem também originar zumbido de ouvido. No próprio site da Apple há um fórum de discussão se o uso dos Airpods não está causando zumbidos no ouvido. Há diversos relatos e mais de 2.800 pessoas concordando que o problema se aplica a elas.

Curiosamente, a indústria de fones de ouvido e de aparelhos auditivos parece estar vivendo um momento de convergência. Por exemplo, a popular marca de fones Sennheiser é de propriedade da Sonova, fabricante de aparelhos auditivos e implantes cocleares. A própria Apple faz marketing dos seus Airpods como podendo ser usados para auxílio auditivo. Fica a impressão de uma espécie de veneno-remédio: uma espécie de laxante de chocolate, em que o chocolate causa a constipação que pode ser melhorada pelo laxante.

Apesar de haver avanços hoje em vários temas relacionados a bem-estar, alimentação e saúde mental, a saúde auditiva permanece de maneira alarmante na periferia da nossa consciência coletiva. Para quem tem zumbido no ouvido, vale lembrar que ele traz consigo uma mensagem: não deixar que nossa negligência e descuido, como indivíduos ou como sociedade, nos dirija ao caminho do silêncio irreversível.

Fonte: Folha de S.Paulo - 15/10/2023

segunda-feira, 18 de março de 2024

BEBER MENOS OU NADA ESTÁ NA MODA

Ronaldo Lemos

Cada vez mais gente visita bares e restaurantes sem consumir bebidas alcoólicas

Há algum tempo escrevi sobre o fenômeno do "sóbrio curioso". O nome é péssimo, mas se refere a uma tendência crescente. O fato de muitas pessoas estarem reduzindo o consumo de álcool, ou até mesmo parando de beber.

Pois bem, agora alguém inventou um nome melhor para a tendência: o "low & no". O termo refere-se às pessoas que bebem pouco ("low") ou nada ("no").

Uma pesquisa recente feita na Inglaterra pela empresa de consultoria KAM traz números interessantes: 5,2 milhões de pessoas alegam estar bebendo menos agora em comparação há dois anos.

De acordo com o relatório, há uma mudança cultural em curso. O álcool é central para uma série de atividades sociais, mas cada vez mais o hábito de não beber é normalizado. Quem não bebe não precisa mais se explicar ou mesmo pedir desculpas.

De cada 4 adultos na Inglaterra, 3 dizem estar de alguma maneira moderando o consumo de álcool. São também os mais jovens, entre 18 e 34 anos, que apresentam menor consumo de álcool e mais moderação.

É interessante também notar que as visitas a bares e restaurantes sem pedir bebidas alcoólicas estão crescendo.

Em 2023, 31% das idas aos pubs ingleses não envolviam o consumo de álcool. Entre os restaurantes, o número é de 40%.

As razões para beber menos são muitas. Por exemplo, uma parte das pessoas diz fazer isso para gastar menos.

No entanto, a parte mais significativa tem a ver com razões de saúde. Por exemplo, quem pratica atividades físicas quer perder peso, melhorar a saúde mental, dormir melhor ou melhorar a aparência.

Todos os anos a Inglaterra faz a campanha de saúde pública chamada "Janeiro Seco" (Dry January). Ela fala não só sobre a redução do consumo de álcool mas também informa sobre os hábitos relacionados à bebida e à saúde.

Afinal, a Inglaterra possui um sistema público de saúde, e os custos causados pelo consumo exagerado são absorvidos por ele. A campanha se espalhou, e hoje é realizada em toda a Europa e também nos EUA.

No Brasil, um janeiro seco jamais funcionaria, por ser véspera de Carnaval. Talvez um agosto funcione, já aproveitando a má fama do mês entre nós.

Essa tendência tem gerado na prática uma explosão na produção de bebidas sem álcool. No Brasil, as cervejas sem álcool já são realidade. Mas o mercado é muito mais diverso.

Há bebidas de todos os tipos sendo feitas com ingredientes termogênicos como gengibre ou cúrcuma. Há também o surgimento dos vinhos sem álcool. Ou ainda o crescimento das chamadas "small beers". Cervejas com baixo teor de álcool, como 1% ou mesmo 0,5%.

É no comércio que a mudança acaba se concretizando. O espaço para bebidas não alcoólicas cresceu 60% nas gôndolas, de acordo com uma das principais cadeias de lojas inglesas.

Nos restaurantes é também cada vez mais comum uma sessão ampliada de não alcoólicos, que vai além da água e dos refrigerantes. E, é claro, falar sobre o assunto também está se tornando mais comum.

Sei que com o Carnaval logo aqui o tema é anátema para muita gente. Mas esta coluna é rebelde.

Fonte: Folha de S.Paulo

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

RESPIRE FUNDO CONTRA A ANSIEDADE

Suzana Herculano

Andar me forçava a respirar direito; sentar começava tudo de novo

Eu sofro de ansiedade crônica. Meu hipocampo, cheio de problemas interessantes por resolver, vive hiperativo, tocando todo tipo de alarmes, me lembrando de todas as coisas que eu ainda não fiz, mandando meu hipotálamo liberar energia, mandar ver no entusiasmo, tensionar todos os músculos e deixá-los prontos para a tarefa seguinte. Minha ansiedade não é do tipo negativo, que remói problemas que nem existem ainda. Minha ansiedade é proativa. Eu quero fazer o que eu ainda não fiz, e eu quero fazer agora para poder seguir adiante com a próxima tarefa.

O problema é que como cognitivamente meu cérebro está animadão e pronto para fazer acontecer, em vez de borocoxô e angustiado, eu não costumo me dar conta de que a dor na cabeça que me visita constantemente é bem capaz de ser um ataque de ansiedade —e pior, causado pelos meus próprios pensamentos.

Ou não me dava conta, até mês passado. Em pleno malabarismo entre vender uma casa, comprar outra, gerenciar móveis, livros, roupas, gatos, cachorros e namorado em três endereços diferentes, e ainda tentar trabalhar, eu me descobri sentada em frente ao computador sentindo o rosto doer. Levantei para ir ao banheiro... E a dor passou assim que eu cheguei no corredor. Voltei, e lá estava o rosto doendo de novo. Que diabos?

Foi então que a Neurocientista de Plantão, que por sorte está usando o controle da respiração como estudo de caso no curso de neuroanatomia este semestre, notou que, sentada ao computador, estava respirando só pelo peito, ou pelos ombros —e não pelo diafragma, como devia, e como pessoas não angustiadas respiram. Andar pelo corredor me forçava a respirar direito, e de quebra resolvia a dor. Sentar começava tudo de novo, e a dor voltava.

Parei para consultar meus alfarrábios mentais e me informar. De fato, lá está: um achado comum de crises de ansiedade é a respiração curta, superficial, acompanhada de dor. O problema pode começar com dor vinda de outras causas, que torna a respiração superficial e rápida, o que envenena o corpo com gás carbônico e sufoca os músculos, que então doem mais ainda. Mas também pode começar com ansiedade, que, se torna a respiração superficial e rápida, dá na mesma: dor, que gera mais dor, que se autossustenta.

A beleza, contudo, é que a segunda situação é facilmente consertável porque a respiração, mesmo gerada automaticamente pelo cérebro, também aceita intervenções conscientes. Quando a dor é inteiramente causada pela ansiedade, tomar as rédeas da respiração e forçar a inspiração lenta e profunda pelo diafragma pode mudar tudo. Não é difícil: pense no seu umbigo, e pense em abaixá-lo enquanto você enche o peito de ar, pelo nariz. Faça isso devagar, depois passe ao menos tanto tempo soltando o ar aos poucos pela boca —e repita. A parte do cérebro que deixa o corpo tenso imediatamente relaxa. E se isso não for suficiente, tem uma farmácia na esquina, e um médico do outro lado do seu telefone. A solução está ao seu alcance.

Fonte: Folha de S.Paulo

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

A INFLUÊNCIA DA MACONHA NA QUALIDADE DO SONHO

Drauzio Varella

Estudos mostram resultados conflitantes sobre os efeitos dos canabinoides

Muita gente diz que fuma maconha só para pegar no sono. Contam que sem ela passam horas em luta com o travesseiro. Outros têm queixas opostas: quando fumam demoram para dormir e acordam mais vezes no meio da madrugada.

Pesquisas recentes têm apresentado resultados conflitantes sobre os efeitos dos canabinóides em parâmetros do sono, como duração, arquitetura e qualidade. O problema é que a regulação natural dos ciclos sono-vigília e a fisiologia dos endocanabinóides humanos envolvem mecanismos de alta complexidade, ainda mal conhecidos.

Para complicar, a falta e a insuficiência de sono na população urbana se tornaram uma preocupação para a saúde pública. Os especialistas recomendam que as noites de sono durem de 7 a 9 horas, objetivos que a maioria tem dificuldade para atingir. Noites mal dormidas estão associadas à morbidade e à mortalidade por acidentes com veículos e máquinas, além de comorbidades cardiovasculares, transtornos psiquiátricos, dores crônicas e ganho de peso, entre outros problemas.

Foi publicado um estudo importante sobre a influência da maconha na qualidade do sono. Os participantes fazem parte do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), uma coorte numerosa programada para a coleta de dados de saúde na população americana.

Os questionários foram distribuídos para mulheres e homens de 20 a 59 anos, divididos em dois grupos: 1) não usuários, caso não tivessem fumado maconha nos últimos 30 dias; 2) usuários recentes, caso o tivessem feito nos últimos 30 dias.

De acordo com o número de horas dormidas, foram formados dois grupos: 1) duração curta: menor do que seis horas; 2) duração longa: maior do que nove horas. Esses números representam as médias de horas de sono nas noites dos dias de semana (segunda a sexta-feira).

Os questionários também permitiram colher informações sobre a qualidade do sono: 1) se houve dificuldade para iniciar o sono, para mantê-lo durante a noite ou se a duração foi exagerada, nas últimas duas semanas; 2) se o participante se queixou de sonolência em pelo menos cinco dias no último mês.

Foram incluídas diversas variáveis demográficas: sexo, idade, raça, escolaridade, número de horas trabalhadas por semana, tabagismo, uso de álcool, fatores socioeconômicos, índice de peso corpóreo, comorbidades como diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares, além do uso de benzodiazepínicos, opioides, barbitúricos e outros sedativos ou estimulantes.

Dos 21.729 participantes analisados, 14,5% relataram ter fumado maconha nos últimos 30 dias. A análise estatística permitiu tirar as seguintes conclusões:

Os participantes dormiram em média aproximadamente sete horas por noite. Não houve diferença entre os que haviam fumado ou não nos 30 dias anteriores.

O número dos que dormiram em média menos de seis horas ou mais do que nove horas, por noite, foi maior entre os que usaram maconha.

O uso recente de Cannabis aumentou a dificuldade para adormecer e para manter o sono e o número dos que tinham dormido mais de nove horas por noite nas duas últimas semanas.

As queixas de sonolência diurna foram iguais nos dois grupos.

Usuários que fumaram 20 vezes ou mais nos últimos 30 dias tiveram mais noites com mais de nove horas de sono. O número de noites de sono mais curto (menos de seis horas) foi igual ao dos que não fumaram.

Estudos anteriores que monitoraram as características do sono por meio de polissonografia sugeriram que apenas um cigarro de maconha já pode ser suficiente para apressar o início do sono, aumentar a duração e evitar despertares no decorrer da noite. Na maioria desses estudos, no entanto, o uso repetitivo mostrou o efeito contrário: aumento do tempo para conciliar o sono, diminuição da duração e aumento do número de despertares noturnos.

No estudo presente, os que haviam fumado 20 vezes ou mais nos últimos 30 dias correram risco mais alto de dormir menos de seis horas por noite e também de ter noites de sono com mais de nove horas de duração.

Insônia é uma das queixas mais frequentes nas sociedades modernas. Fumar maconha interfere na qualidade do sono de forma mal conhecida e imprevisível. Não é um bom tratamento para noites insones. Em medicina não recomendamos fumar medicamentos.

Fonte: Folha de S.Paulo

sábado, 16 de setembro de 2023

ZURIQUE, AMSTERDÃ, COPENHAGUE... POR QUE NÃO SÃO PAULO?

Fernanda Mena


Salas de uso de drogas acolhem usuários e reduzem danos

A tensão nos territórios do centro de São Paulo por onde transita o fluxo da famigerada cracolândia chegou a patamar inédito. Ações policiais, frequentes, nada solucionam. Entre mortos e feridos, o enredo se repete: pequenos varejistas da droga são rapidamente substituídos, a cena de uso migra para outra rua, segue o baile.

Entre precariedades e bombas de gás, usuários dizem viver o inferno na Terra. Moradores e comerciantes se mobilizam contra os delitos. Todos, policiais incluídos, estão desamparados diante de um problema que requer políticas de múltiplas dimensões, muito além da abordagem criminal.

E a inspiração pode vir de cidades cujos programas e equipamentos reduziram os danos.

O mais controverso deles, as salas de uso de drogas, já foi adotado em Zurique, Amsterdã, Copenhague, Lisboa, Vancouver, Nova York e Paris.

Esses espaços, onde o consumo é permitido, mas não a venda, surgiram há mais de 30 anos, na Europa, num contexto de uso público de drogas injetáveis e de epidemia de HIV-Aids.

A polícia continua a fazer seu trabalho, mas da porta para fora. Enfermeiros e assistentes sociais supervisionam o local, que parece uma clínica, e oferecem insumos básicos, mas também portas de entrada (ou de saída) para programas de acolhimento e saúde.

Nas Américas, as primeiras salas surgiram em Vancouver, em 2003, quando a persistente cena pública local reunia usuários de heroína, cocaína, metanfetamina e crack. Elas foram alinhadas a um projeto de abrigos que não exigiam abstinência para o acolhimento, o que permitiu a muitos usuários sair da situação de rua e organizar minimamente a vida.

Em um ano, a cidade verificou menos usuários em espaços públicos, menor desordem urbana, menos lixo e queda nos pequenos delitos da região.

O Brasil tem arcabouço legal para adotar esse modelo, como já demonstrou o advogado Maurides Ribeiro, doutor em direito penal e criminologia pela USP. O artigo 33 da Lei de Drogas (11.434/2006), ao contrário da norma anterior, não criminaliza a disponibilidade de local para uso. Também admite autorização ou regulação para condutas criminalizadas pela lei —caso do uso de morfina em hospitais, por exemplo.

Na ausência de lei federal que permita esse serviço de saúde, é possível criar legislação estadual ou municipal.

O foco na saúde e na assistência social ainda choca quando o assunto é o uso de drogas.

Salas de uso supervisionado dão acolhimento a uma massa de desamparados, reduzem a angústia da população que não quer conviver com o uso de drogas no espaço público e liberam a polícia para focar seus esforços contra o crime.

Fonte: Folha de S.PauloSA

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

EFEITO REBOTE


Considerar todo cidadão doador de órgãos é medida racional que não funcionou

Deu no Painel que parlamentares querem pegar carona no caso Faustão para fazer avançar um projeto de lei que prevê o consentimento presumido para a doação de órgãos. Se a norma vingar, todos os cidadãos seriam considerados doadores a menos que especificassem o contrário.

Em tese, não haveria muito como não apoiar a iniciativa. Trata-se, afinal, de uma norma perfeitamente racional e com a perspectiva de ampliar a oferta de órgãos, salvando ou melhorando a vida de milhares de indivíduos e reduzindo gastos do SUS. É o regime vigente em vários países europeus.

O problema é que, não muito tempo atrás, entre 1997 e 2001, vigorou no Brasil a doação presumida e os resultados foram opostos aos esperados. Houve corrida de cidadãos aos postos de emissão de documentos para mudar o registro para não doador. Também aumentaram os casos de famílias que se opuseram à retirada dos órgãos. Ainda que a lei a permitisse, os hospitais não iriam iniciar uma guerra com parentes enlutados e eventualmente ter de chamar a PM. O remédio foi emendar a legislação, deixando a decisão para as famílias.

Efeitos rebote como esse não são incomuns na literatura da economia comportamental e da psicologia social. Se nos anos 1990, quando rumores e paranoias eram mais raros, a reação foi essa, não é absurdo imaginar que ela seria ainda mais exacerbada em tempos de redes sociais e fake news. Não digo que não devamos passar a um regime de doação presumida, mas é preciso proceder com calma, testando cada passo antes de torná-lo definitivo.

A chave para o sucesso é que as equipes médicas encarregadas de abordar as famílias conquistem sua confiança. Sem confiança, nada dá certo. Antes da pandemia, alguns estados brasileiros, que investiam em grupos especializados para esse primeiro contato, conseguiam índices equiparáveis aos dos países europeus que mais transplantam. A Covid, porém, deixou sequelas também aí.

Fonte: Folha de S.Paulo


terça-feira, 22 de agosto de 2023

ULTRAPROCESSADOS

Hélio Schwartsman


Livro faz radiografia de alimentos ultraprocessados e suas consequências para a saúde humana

Meus impulsos naturebas tendem a zero. Por isso, nunca dei muita atenção à grita contra os produtos químicos adicionados à comida. "Ultra-Processed People" (pessoas ultraprocessadas), do médico britânico Chris van Tulleken, me fez parar para pensar.

O livro não esconde um tom militante, mas nem por isso deixa de trazer uma profusão de dados científicos fortemente sugestivos de que o consumo dos chamados alimentos ultraprocessados (AUPs) está por trás da epidemia global de obesidade e outros agravos sanitários e ambientais.

"Ultra-Processed..." é bem completo. Fala da "descoberta" dos ultraprocessados, categoria proposta pelo cientista brasileiro Carlos Monteiro, da USP. Aventura-se pelo terreno da experimentação pessoal, na qual o autor se submete a um regime de ingesta de 80% de ultraprocessados por um mês e mede os resultados —o que, obviamente, tem mais valor retórico do que científico. Mostra por que AUPs explicam a propagação da obesidade melhor do que outras hipóteses e, por fim, oferece conjecturas para entender os vários efeitos que diferentes características dos AUPs podem estar causando.

Alguns exemplos: a extrema maciez dos alimentos pode estar por trás de problemas ortodônticos; emulsificantes afetam a microbiota intestinal, o que tem uma série de repercussões, inclusive psiquiátricas; o descompasso entre gosto e conteúdo nutricional pode levar ao consumo excessivo.

O nível de problemas que cada indivíduo enfrentará depende do nível de exposição aos AUPs, o que, por sua vez, tem muito a ver com o nível socioeconômico da pessoa. Uma das principais características dos ultraprocessados é serem muito baratos. Nesse contexto, os AUPs podem ser considerados um estilo alimentar —e um que tem muito a ver com a pobreza.

Depois de ler "Ultra-Processed" eu não comecei a abraçar árvores, mas passei a ler com mais atenção os rótulos dos produtos que levo para casa.

Fonte: Folha de S.Paulo

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

AS NOVAS DROGAS PARA COMBATER A OBESIDADE

Drauzio Varella

Elas precisam ser de baixo custo e com poucos efeitos colaterais

Tive um professor de endocrinologia que vivia em luta contra a balança. Foi um de meus melhores professores. Estudioso, treinado nos Estados Unidos num tempo em que o acesso aos centros internacionais não estava ao alcance dos médicos brasileiros.

Passávamos alguns meses sem vê-lo, e ele aparecia com 20 quilos a menos, o rosto sulcado e a roupa folgada. Meses mais tarde, recuperava o peso e a aparência de antes. Ouvi dele numa das aulas: "Quando um paciente com obesidade disser que engorda só de olhar para o prato, não é verdade. Digo por experiência própria".

Essa era a ideia que a medicina fazia da obesidade há 50 anos: simples questão de força de vontade.

Atribuir ao doente a culpa pela doença que o aflige é tradição milenar na sociedade. A hanseníase era considerada manifestação da ira divina contra os ímpios; a tuberculose, uma punição divina à vida devassa; a Aids, um anátema contra os promíscuos.

Frutos da ignorância, tais preconceitos foram desconstruídos pela ciência. No caso da obesidade, a desconstrução começou no final dos anos 1970, com os primeiros passos para a elucidação dos mecanismos moleculares dos circuitos cerebrais envolvidos nas sensações de fome e saciedade. A complexidade das reações metabólicas responsáveis pelo controle do peso corpóreo e a disseminação mundial da epidemia de obesidade criaram a necessidade de entender por que tanta gente engordava com facilidade e sofria tanto para emagrecer.

A World Obesity Foundation estima que o impacto do excesso de peso e da obesidade na economia mundial alcançará US$ 4,32 trilhões em 2035 caso a tendência atual se mantenha.

As drogas introduzidas nos anos 1980, cheias de efeitos indesejáveis, pouco ajudaram —várias foram retiradas do mercado. A única estratégia com resultados consistentes foi a cirurgia bariátrica, procedimento radical e irreversível que exige hospitalização e longo processo adaptativo.

Nos últimos anos, foram descritos diversos fatores que interferem no equilíbrio fome-saciedade, seus mecanismos de ação e a genética dos circuitos de neurônios encarregados de estimular ou inibir o apetite em animais.

Uma das descobertas mais promissoras foi o desenvolvimento de medicamentos classificados como agonistas do receptor GLP-1, no controle da glicemia em pessoas com diabetes tipo 2.

São drogas que estimulam a liberação de insulina pelas células pancreáticas, diminuem a velocidade de esvaziamento gástrico, promovem e prolongam a ação dos sinais de saciedade enviados do intestino para o cérebro. Graças a essas propriedades, os agonistas GLP-1 não raro provocam emagrecimentos da ordem de 15% a 20% do peso corpóreo. Pela primeira vez na história, surgem drogas eficazes para tratar obesidade. O sucesso comercial foi tão grande que os estoques mundiais se esgotaram, deixando à míngua os pacientes com diabetes.

Esses medicamentos serão capazes de reduzir os níveis de obesidade da população e os custos das suas complicações: hipertensão arterial, infarto do miocárdio, AVC, câncer, amputações, insuficiência renal e outras?

Acho pouco provável. Os agonistas GLP-1 são muito caros. Com mais da metade dos brasileiros adultos com IMC na faixa de excesso de peso ou obesidade, haverá recursos no SUS para distribuí-los? Sem eles, não estaremos acentuando a desigualdade social?

Os ensaios clínicos têm mostrado que a interrupção do tratamento está associada ao ganho de peso perdido. Se esses estudos forem confirmados, os medicamentos deverão ser mantidos pelo resto da vida? Os pacientes suportarão os gastos e os efeitos colaterais dessa administração contínua durante anos consecutivos? Quais as consequências do efeito "sanfona" de repetição gerado pelas interrupções seguidas de reinícios? O que acontecerá com as pessoas que sofrem de transtornos alimentares, como bulimia ou anorexia nervosa? A confiança no emagrecimento medicamentoso não será um estímulo para o sedentarismo e os exageros à mesa?

É um grande avanço dispor de drogas que ajudam a perder peso, mas, para enfrentar a epidemia de obesidade, é preciso que sejam de baixo custo e com poucos efeitos colaterais. Estamos distantes disso. Até lá, continua valendo a mensagem: "Não dá para passar o dia sentado, comendo tudo o que nos oferecem.

Fonte: Folha de S.Paulo

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

ATLETA DE FIM DE SEMANA: COMO VAI SEU CORAÇÃO

Bruno Gualano

Ao contrário do que se poderia supor, concentrar exercícios intensos em 1 ou 2 dias pode proteger contra eventos cardiovasculares

Eventos cardíacos agudos são causas comuns de incapacidade e mortalidade. Segundo o Datasus, internações provocadas por infarto do miocárdio aumentaram mais de 150% entre 2008 e 2022, o que vai na conta do envelhecimento e do estilo de vida pouco saudável da população.

A prática regular de atividade física é um dos melhores escudos contra doenças cardiovasculares. Mas há evidências de que episódios de estresse físico e emocional possam desencadear infartos e paradas cardíacas.

Torcer pela nossa seleção (e o que dizer do nosso Corinthians?), praticar sexo — que, sim, pode ser intenso e emocionante! — e jogar uma pelada de domingo são algumas atividades aparentemente inofensivas, mas que provocam alterações de pressão arterial, batimentos cardíacos, hormônios, viscosidade sanguínea e constrição dos vasos. Um desafio ao bom funcionamento do coração.

Sinal de que os peladeiros de fim de semana deveriam pendurar as chuteiras? Não é o que sugere um estudo recente.

Em posse de dados de cerca de 90 mil participantes da coorte UK Biobank (Reino Unido), cientistas associaram eventos cardiovasculares com diferentes padrões de atividade física: (1) 150 minutos ou mais, concentrados em 1 ou 2 dias semanais; (2) 150 minutos ou mais, distribuídos uniformemente ao longo da semana; e (3) menos de 150 minutos por semana.

Em comparação aos inativos do último grupo, praticantes de atividade física "concentrada" ou "distribuída" apresentaram — sem diferenças entre si — menores riscos de fibrilação arterial, infarto miocárdico, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral.

Do estudo, conclui-se que o que conta para a saúde cardíaca é a quantidade de movimento acumulado, e não sua forma de distribuição.

Traduzindo para a vida, caro leitor: se te falta tempo de segunda a sexta para se exercitar, faça-o de fim de semana, sem medo de ser feliz.

E quanto aos riscos? Como vimos, eles existem, mas são baixos e superados pelos benefícios, especialmente quando são tomados três cuidados fundamentais:

Caso tenha doenças diagnosticadas ou sintomas cardíacos (dor no peito, falta de ar), ou articulares (dor no joelho), consulte-se com um médico antes de iniciar uma rotina de exercícios intensos. Talvez lhe seja indicado um teste de esforço, no qual eventuais problemas cardíacos podem ser identificados numa situação de estresse.

O "weekend warrior" — como se diz em língua inglesa —, apesar da imponência do termo, está longe de ser um atleta profissional. Por isso, progrida gradualmente na modalidade escolhida, de modo a aprimorar seu condicionamento e prevenir as frequentes lesões ortopédicas que acossam os "guerreiros".

Sabemos que as pessoas inativas são muito mais suscetíveis a eventos cardíacos agudos. Uma maneira simples de preveni-los, portanto, é manter-se fisicamente ativo, para além do dia da pelada.

Ao contrário do que se poderia supor, as novas evidências. Assim, ganha tração a tese de que todo movimento conta.

Boas novas para os peladeiros das manhãs de domingo. E para os amantes de sábado à noite.

Fonte: Folha de S.Paulo

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

A PRÓXIMA PANDEMIA

Hélio Schwartsman

Livro faz balanço do que não funcionou na Covid-19 e tenta tirar lições para o futuro

As leis da biologia asseguram que vírus e bactérias evoluem em ritmo mais acelerado do que o de seres cujo ciclo reprodutivo é mais longo. E sempre que certos patógenos assumirem formas suficientemente novas para ludibriar nossos sistemas imunes, teremos epidemias. Num mundo em que viajantes atravessam continentes em poucas horas, elas se tornam pandemias. É questão de tempo até que venha a próxima. Devemos tentar nos preparar para ela.

É um pouco o que tenta fazer Monica Gandhi em "Endemic". A autora, que é médica infectologista, especializada em Aids, faz um bom apanhado da Covid-19, explicando didaticamente como o vírus Sars-CoV-2 se transmite, a fisiopatologia da doença e as melhores formas de lidar com ela. E, é claro, ela tem o benefício de recontar essa história com o apoio de três anos de anos de pesquisas maciças sobre a moléstia. Para nós que acompanhamos o processo em tempo real e, portanto, atabalhoadamente, é útil saber o que foi confirmado e o que não foi pelo acúmulo dos estudos. A obrigatoriedade das máscaras, para dar um exemplo, não funcionou bem.

Embora Gandhi se descreva como "esquerda da esquerda", ela faz críticas severas a decisões tomadas por governantes mais identificados com a esquerda. Segundo a autora, ao manter as restrições sociais mesmo quando parcelas significativas da população já estavam vacinadas, esses dirigentes minaram a confiança nos imunizantes, contribuindo para a hesitação vacinal. Países que levantaram as restrições mais rapidamente, à medida que a vacinação progrediu, colheram mais êxitos.

Ela também bate forte nos governantes que mantiveram as escolas fechadas por longos períodos. Os dados mostram que as crianças adoeciam muito menos do que os adultos e não eram um elo importante na cadeia de transmissão. Mantê-las longe das salas de aula por tanto tempo causou enorme prejuízo educacional e para a saúde mental dos jovens.

Fonte: Folha de S.Paulo

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

ZÉ GOTINHA E A VACINAÇÃO

Desde a Antiguidade até meados do século passado, a poliomielite (paralisia infantil) fez muito estrago. Trata-se de doença infecciosa e contagiosa causada por um vírus específico aos humanos. Em suas formas mais benignas, deixa sequelas de deformação ou paralisia dos membros inferiores; suas formas mais agressivas podem até levar à morte do paciente.

Não se sabe ao certo por que razão, essa doença recrudesceu a partir da urbanização e da industrialização. Desde o início do século 20, surtos de poliomielite passaram a assombrar o mundo, principalmente as grandes cidades. A ciência se debruçou sobre o problema e passou a buscar uma imunização.

Nos anos 1950, as primeiras vacinas eficazes apareceram no mercado americano. Chegaram em boa hora pois, só no ano de 1955, a paralisia infantil tinha contagiado 60 mil crianças americanas. Logo no ano seguinte, teve início a primeira campanha de vacinação, com aplicação da vacina desenvolvida pela equipe do doutor Jonas Salk.

Estranhamente, a adesão popular foi mais baixa do que se esperava. Principalmente entre os meninos: apenas 0,6% deles espicharam o braço. Medo da picada? É bem capaz.

Foi quando o governo americano pensou num estratagema. O artista do momento era Elvis Presley, ídolo de todos os jovens, especialmente dos meninos. O cantor foi convidado a se apresentar no Ed Sullivan Show, popular programa de televisão da época. Um terço dos americanos largaram tudo pra assistir ao show. Quem é que havia de perder uma passagem na tevê de um Elvis na flor de seus 20 anos?

Só que o artista não tinha vindo para cantar, mas para tomar a vacina contra a pólio, ao vivo, diante do país boquiaberto. Sem luvas, como se fazia à época, um médico aplicou a injeção no galã. Seis meses depois, a adesão dos meninos à vacina subiu a 80%.

Em nossa terra, em questão de vacina, Bolsonaro refugou. Mas o Lula, que parece não ter tanto medo de picada, podia aproveitar a ideia. Reforçar o Zé Gotinha com ídolos da garotada (e das mães da garotada também). Elvis Presley já se foi, mas hoje temos um vasto leque de possibilidades. Há “influencers”, cantores, atores de novela, futebolistas.

A proteção da população contra doenças infecciosas passa pela vacina, quando há. É interesse de todos que a meninada cresça com saúde. Traz alegria e alivia os gastos com o SUS.

Fonte: brasildelonge.com

terça-feira, 18 de julho de 2023

MEDO DE AVIÃO: ESPECIALISTAS EXPLICAM COMO CONTROLAR

Técnicas de respiração e conversar com os comissários podem ajudar a enfrentar a fobia

Passar horas dentro de uma aeronave não é muito animador para quase para ninguém. Mas, para algumas pessoas, só a ideia de levantar voo pode parecer uma tortura.

O medo de viajar de avião pode acontecer tanto com quem nunca voou quanto com aqueles que já passaram por alguma situação traumática durante um voo. É uma condição que envolve ansiedade e angústia, com consequências negativas para a vida da pessoa, como perder oportunidades de trabalho ou mesmo deixar de fazer a viagem dos sonhos.

"Eu tenho episódios de ansiedade muito antes da viagem. Começa no momento em que se fala em viajar", afirma a jornalista Danielle Cerati, 35.

Danielle conta que não sentia medo e já tinha feito várias viagens nacionais e internacionais de avião, até que, durante um voo de Porto Alegre a São Paulo, em 2017, o mau tempo causou tanta turbulência que ela nunca mais conseguiu viajar com tranquilidade.

"Parecia que o avião estava caindo, as pessoas começaram a rezar. Eu fiquei me segurando na cadeira. Quando cheguei em Guarulhos, estava tão atordoada que não conseguia andar direito, precisei ser amparada por um funcionário da companhia aérea", diz.

Depois dessa experiência, Danielle passou a evitar viagens, inclusive a trabalho. O medo de voar se tornou um tópico constante nas sessões de terapia.

No ano passado, ela conquistou uma grande vitória para quem tem medo de voar: conseguiu ir até a Alemanha visitar o irmão e conhecer seu primeiro sobrinho, que nasceu durante a pandemia.

"Ele já estava com dois anos e eu só o conhecia por fotos. Essa foi a motivação que me fez tomar coragem."

Para isso, Danielle tomou remédios prescritos por um médico para controlar a ansiedade durante a viagem. "Consegui viajar, mas não relaxar. Parece que os medicamentos só fizeram efeito mesmo depois que aterrissei. Aí foi difícil até para sair do aeroporto, ainda bem que eu estava acompanhada do meu marido", relata.

O psiquiatra Luiz Vicente Figueira de Mello, supervisor do Amban do IPq-HCFMUSP (Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP), explica que sentir medo é necessário para a sobrevivência da espécie. "O medo do ser humano resume-se no risco de morte", observa.

"A fobia específica de voar é situacional. É uma defesa exagerada contra o risco de morte. Desse modo, desencadeando sintomas de defesa, como evitar viajar ou passar mal durante o voo."

Para controlar esse medo, é preciso enfrentá-lo, orienta o psiquiatra. "Para isso, precisamos de tratamento ou orientação de um profissional. Atualmente, utilizamos a terapia cognitivo-comportamental (TCC), associada ou não a medicamentos, preferencialmente antidepressivos, que tendem a aumentar o limiar do medo e da ansiedade. Ansiolíticos podem ser utilizados pontualmente, ainda que com muito cuidado para não habituar o seu uso", diz.

Tammy Marchiori, neuropsicóloga, explica que a terapia cognitivo-comportamental trabalha com base em um tripé, que são as nossas emoções, a nossa cognição —nossos pensamentos— e os nossos comportamentos.

"A TCC tem base de evidência científica e é indicada para o tratamento de diversos transtornos e fobias, inclusive o medo de andar de avião", afirma.

"A primeira coisa que a gente vai fazer é uma avaliação para entender a natureza e a intensidade desse medo. Porque por mais que você pegue dez pessoas com medo de avião, cada uma vai ter um gatilho diferente", ressalta.

A TCC, esclarece a neuropsicóloga, vai atuar com a reestruturação cognitiva, ajudando a identificar e a modificar padrões de pensamentos negativos e distorcidos associados à fobia do avião.

"A pessoa que tem medo pensa que o avião vai cair ou que vai passar muito mal durante a viagem. Em geral, são pensamentos muito catastróficos. Esses pensamentos precisam ser reavaliados até serem substituídos por outros mais realistas", diz.

Durante o processo terapêutico, também é utilizada a técnica de exposição gradual. "A gente vai expondo essa pessoa, de forma gradual e controlada, a situações que envolvem voar. Pode começar, por exemplo, com a pessoa se imaginando dentro do avião. A gente pode complementar com visualização de vídeos de voos e, às vezes, até com um simulador de voo. Também é possível fazer um voo mais curto com o acompanhamento do terapeuta", conta.

O profissional também ensina estratégias para que o paciente saiba lidar sozinho com o medo e a ansiedade, como técnicas de respiração e de relaxamento muscular progressivo.

Para quem chega ao aeroporto ainda com muito medo, Maria Rita de Cássia Micheletto, chefe de cabine e gerente de comissários da GOL, informa que os passageiros podem pedir ajuda a funcionários da empresa aérea com a qual for viajar.

Maria Rita afirma que os profissionais são treinados e estão acostumados a lidar com essas situações.

"Já na recepção de boas-vindas, quando o cliente se apresenta e nos relata o medo, buscamos ouvi-lo, demonstrar segurança com esclarecimentos sobre o nosso trabalho e explicamos sobre a manutenção e segurança das aeronaves. Também é possível chamar um dos pilotos para conversar com o passageiro", diz.

Os comissários podem informar sobre as condições meteorológicas durante a viagem e áreas de possíveis turbulências. É possível visitar a cabine de comando em solo, de acordo com o que determinações da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), para que o passageiros se sintam mais seguro.

"Compreendemos perfeitamente o medo de voar. É uma sensação normal e compartilhada por muitos passageiros em todo o mundo. É importante destacar que os comissários estão totalmente cientes desse medo e são treinados para reconhecê-lo e agir de maneira cordial, educada e empática em todas as situações. A tripulação é treinada para fornecer informações sobre os procedimentos de voo, tranquilizar os passageiros e responder a quaisquer perguntas ou preocupações que possam surgir durante o voo. Eles estão lá para ajudar e garantir que todos os passageiros se sintam seguros e confortáveis durante a viagem", afirma Maria Rita.

Fonte: Folha de S.Paulo

sábado, 10 de junho de 2023

IDOSOS COM DEPRESSÃO PRECISAM DE APOIO DA FAMÍLIA

Gerontóloga explica particularidades do transtorno nessa faixa etária

Nem sempre uma pessoa com depressão reconhece que precisa de ajuda. Essa situação pode ser ainda mais comum em pacientes idosos, quando o transtorno se manifesta principalmente de forma subsindrômicas, ou seja, com sintomas menos evidentes.

Por isso, é importante que familiares e amigos mantenham contato constantemente, façam visitas e observem seu humor, explica Thais Bento Lima, gerontóloga, pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e professora do curso de pós-graduação em gerontologia da USP.

"É preciso mostrar ao idoso que ele é amado e valorizado. As pessoas próximas podem ajudá-lo a encontrar sentido nas experiências e a resgatar a confiança na sua própria identidade social e história de vida", diz Thais.

Uma forma de ajudar é orientar o idoso a procurar auxílio de profissionais e de serviços especializados. Nessas situações, muitas vezes é necessário não apenas acompanhá-lo a consultas médicas, mas também a agendar as datas.

Sinais de desânimo, desinteresse por atividades que antes davam prazer, conversar menos, falta de apetite e ter menos iniciativa para fazer tarefas rotineiras devem acender um alerta nos familiares.

"Se houver prejuízos na qualidade de vida, busque ajuda médica especializada, como psicogeriatras, geriatras, psiquiatras e neurologistas", recomenda Thais.

A gerontóloga ressalta que os médicos devem pedir exames para que sejam descartados outros quadros clínicos que podem causar sintomas depressivos, como demências, doenças cardiovasculares, hipertensão e diabetes.

"Os idosos podem ou não aderir adequadamente aos tratamentos recomendados devido ao perfil cognitivo, comorbidades e problemas relacionados com o gerenciamento de polifarmácia. Para facilitar esta adesão, os objetivos terapêuticos devem ser pactuados com o próprio idoso e deve-se contar com o envolvimento de membros da família ou cuidadores. Em geral, os objetivos são o bem-estar, a melhoria no status da funcionalidade e a retomada de papéis sociais e familiares", observa.

A especialista destaca que o tratamento da depressão é interprofissional e multidisciplinar. "Envolve o tratamento farmacológico combinado ao tratamento não farmacológico, como a prática de exercícios físicos, uma alimentação balanceada e a prática de exercícios cognitivos, que têm um impacto positivo no humor e na melhora da qualidade de vida. Há evidências de que essas atividades sejam eficazes no tratamento da pessoa idosa deprimida, melhorando também as suas funções físicas e mentais e consequentemente, sua qualidade de vida."

Mas, mesmo com o tratamento adequado, é essencial que os familiares acompanhem de perto o idoso para que ele se sinta menos sozinho e encontre um novo significado de vida. "Uma das principais causas de depressão na pessoa idosa é a solidão e, relacionado a isso, ter uma rede de suporte social fragilizada e pequena", diz.

É muito importante saber ouvir a pessoa, dar uma atenção diferenciada. Manter algum tipo de contato como fazer visitas, realizar ligações telefônicas e/ou chamadas de vídeos, que possa fazer com que a pessoa idosa, reduza a sensação de solidão e busque um novo significado de vida; a participação da família e amigos é de suma importância para auxiliar no bem-estar psicológico da pessoa idosa. Pois uma das principais causas de depressão na pessoa idosa é a solidão e relacionado a isso ter uma rede de suporte social fragilizada, e pequena.

Fonte: Folha de S. Paulo

quinta-feira, 25 de maio de 2023

O QUE É O SUS?

Ricardo de Oliveira*

Conquista histórica da sociedade brasileira, o SUS foi uma iniciativa inovadora para sua época

A Fiocruz lançou em 2009 o livro "O que é o SUS?", de autoria do professor Jairnilson Silva Paim, com objetivo de esclarecer um público não especializado sobre o que é o Sistema Único de Saúde (SUS). Considero uma leitura fundamental para quem deseja conhecer o nosso sistema de saúde, sua história, seus problemas e desafios. Mesmo passados 14 anos as questões estruturais relacionadas no livro continuam a desafiar a todos que se propõem a construir um sistema de saúde conforme pensado pelo Movimento da Reforma Sanitária Brasileira (MRSB).

O autor nos lembra que o MRSB, organizado pela sociedade civil cerca de 10 anos antes da promulgação da Constituição, conseguiu uma vitória histórica ao inscrever na nossa lei maior de 1988 o direito à saúde como dever do Estado e criado o SUS, público e universal. Pela primeira vez na história do nosso país a constituição assegurava esse direito a todos os brasileiros e brasileiras.

A Constituição não estatizou o sistema de saúde, mas definiu o setor privado como complementar ao público, cabendo ao Ministério da Saúde a definição das políticas públicas de saúde e a coordenação de todo o sistema para evitar duplicidade de esforços e desperdícios de recursos. Neste ponto o autor constata uma contradição entre o que diz a nossa Carta Magna e o que aconteceu na prática: a falta de investimento público não permitiu o crescimento necessário da infraestrutura do SUS e criou condições para ampliação do setor privado na saúde, o que, na opinião de Jairnilson Silva Paim, vai dificultar a implantação do SUS como ressaltam alguns estudiosos de políticas de saúde.

Jairnilson sintetiza o que é o SUS, conforme estabelecido na Constituição, da seguinte forma: o SUS é o conjunto de ações e serviços públicos de saúde, compondo uma rede regionalizada, hierarquizada e organizada a partir das diretrizes de descentralização, integralidade e participação da comunidade. É, portanto, uma forma de organizar as ações e os serviços de saúde no Brasil, de acordo com princípios, diretrizes e dispositivos estabelecidos pela constituição da república e pelas leis subsequentes.
O SUS foi uma iniciativa inovadora para sua época

A proposta de criação do direito à saúde e do SUS também foi uma inovação em termos de formulação, organização e gestão de políticas públicas, combinando elementos republicanos e democráticos. Abaixo listamos 7 aspectos destacados por Jairnilson Silva Paim que fizeram a proposta do sistema público de saúde uma iniciativa inovadora:

Essas inovações permitiram que a sociedade brasileira conquistasse importantes políticas públicas de saúde. O autor destaca alguns dos resultados alcançados até 2009, data de publicação da obra: o Programa de Saúde da Família (PSF), o Programa Nacional de Imunizações (PNI), a Política Nacional de Medicamentos, a Política de Saúde Mental, o Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS), a rede de bancos de sangue (os Hemocentros) e o desenvolvimento de ações de comunicação e educação em saúde, formando trabalhadores e profissionais da saúde de diversos níveis de atuação.
Os desafios para efetivação plena do direto à saúde ainda são muitos

O livro também apresenta um diagnóstico amplo sobre as dificuldades do sistema de saúde. Segundo o Paim, as questões referentes ao acesso e à qualidade das ações e dos serviços no sistema de saúde brasileiro expressam os limites e distorções dos modelos de atenção à saúde vigentes. Guardam íntimas relações com problemas referentes à distribuição desigual da infraestrutura do sistema de serviços de saúde, especialmente do número de estabelecimentos e de trabalhadores de saúde. Têm a ver, também, com problemas não resolvidos no financiamento, organização e gestão do SUS. Mesmo que o SUS possa absorver certos problemas vinculados ao modo de vida da população, é praticamente impossível ser eficiente e efetivo numa sociedade com níveis de desigualdade, pobreza e violência como a nossa.

Em relação à gestão, diz o autor: O SUS tem sofrido grande vulnerabilidade face às mudanças de governos, gestores e partidos o que compromete a sua eficiência, a continuidade administrativa e, a sua legitimidade perante a opinião pública. Dirigentes improvisados, persistente clientelismo político, alta rotatividade das equipes e engessamento burocrático exigem alternativas criativas para proteger ou blindar o SUS dos interesses e das manobras da política na saúde. Nem por isso devemos negligenciar os mecanismos de controle, nem permitir o desperdício do dinheiro público. Contudo tão relevante quanto o combate à corrupção e ao desperdício é garantir o uso racional dos recursos da saúde, para assegurar maior eficiência e efetividade. Um conjunto de amarras burocráticas, que, sob o pretexto de combater a corrupção, engessa a administração, prejudica o fluxo de insumos vitais para o cuidado das pessoas e trata a complexidade do sistema de saúde como se ele fosse um setor qualquer, não pode ser ignorado como um dos grandes responsáveis pela pouca resolutividade e baixa qualidade dos serviços do SUS.

Ainda a título de diagnóstico, o autor cita um trecho do documento "Vinte anos do SUS, celebrar o conquistado, repudiar o inaceitável", elaborado pelo Centro Brasileiro De Estudos De Saúde (CEBES) e divulgado em 2008 durante as comemorações dos 20 anos do SUS, que diz: "A sociedade brasileira investiu trabalho e esperanças na construção de um SUS para todos. É inaceitável que governos e gestores, representantes do Estado responsáveis pelo SUS, deixem de cumprir suas diretrizes elementares. Não podemos mais esconder ou justificar as tragédias cotidianas que afligem a população e que podem ser resolvidas já". Como podemos ver um documento visionário e válido hoje em dia.

A questão da digitalização da saúde não foi abordada no livro com a importância que ela tem hoje, o que é perfeitamente compreensível, até porque, esse tema assumiu uma relevância maior nos últimos anos. Mas, com certeza, hoje em dia, é um dos mais importantes desafios do SUS, devido à possibilidade que essa tecnologia descortina para ajudar a resolver problemas no atendimento à população, particularmente na ampliação do acesso aos serviços de saúde nas regiões mais remotas do país. No entanto, o autor cita a importância da sustentabilidade científica e tecnológica do SUS.

A escrita do autor nos passa a emoção com a qual o livro foi feito e cumpre plenamente seu papel de mobilizar o leitor pela importância do que foi conquistado e a necessidade de manter a mobilização social para alcançar a implantação plena do SUS. No seu entendimento o direito à saúde não é um direito natural que se alcança ao nascer. Não é uma dádiva de qualquer governo. É historicamente construído e conquistado mediante lutas sociais. Vale muito a leitura.

*Ricardo de Oliveira é engenheiro de produção e foi Secretário Estadual de Gestão e Recursos Humanos do Espírito Santo entre 2005 e 2010 e Secretário Estadual de Saúde do ES de 2015 a 2018. É autor dos livros "Gestão Pública: Democracia e Eficiência" (FGV/2012) e "Gestão Pública e Saúde" (FGV/ 2020). É Conselheiro do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e membro do comitê de filantropia da UMANE.

Fonte: Folha de S.Paulo

sábado, 6 de maio de 2023

RELATO DE UMA VICIADA EM DROGA LEGAL

Mariliz Pereira Jorge

O remédio que me tirou do inferno da insônia cobra o preço com ressaca diária

Passei uma década com dificuldade para dormir. Tive uma trégua de três anos mergulhada naquele sono ao qual só anjos sem boleto para pagar se permitem. De uns meses para cá não consigo acordar sem me arrastar da cama e esperar uma hora até que os neurônios consigam se conectar. O mesmo remédio que me tirou do inferno da insônia cobra o preço com ressaca diária.

Sou viciada em zolpidem, o remédio que virou pauta nas redações, assunto nas redes sociais, no WhatsApp, em qualquer mesa de jantar. Conheço uma dúzia de pessoas que usa, parte delas com acompanhamento médico, outra, brincando de roleta russa. Tenho experiência nos dois grupos.

Comecei com a indicação para regular o sono no ano que trabalhei num fuso diferente. Acordava às 4h15, mas não conseguia ajustar o meu relógio biológico de coruja ao amanhecer das galinhas. Funcionou. Mas o que era para ser temporário virou contínuo. Falava para mim mesma, quando quiser, eu paro. Pois é. De fato, no início, eu tomava uma meiota do comprimido e nos finais de semana deixava o sono chegar naturalmente. Mas ao menor sinal de dificuldade para dormir, minha mão seguia sorrateira até a gaveta da mesinha de cabeceira. Pronto.

Voltei ao horário que meu corpo funciona melhor, mas nada voltou a ser como antes, nem a memória. O zolpidem passou a ir para cama comigo todas as noites, se estou cansada, de férias, alegre, de pileque. Não consigo dormir sem me drogar. Ao apagar a luz, o modo zumbi é ativado e só se desarma com um comprimido inteiro.

No dia seguinte, ressaca física e moral, a promessa de procurar um médico para me desintoxicar. Falando neles, justiça seja feita, muita gente se medica por conta própria. Apesar de ser controlado, não é difícil encontrar a farmácia que faça vistas grossas para falta de receita. Adivinhe o que tem no cardápio dos traficantes, hoje, além de maconha, coca, MD etc.? Isso mesmo: zolpidem.

Fonte: Folha de S.Paulo

sábado, 29 de abril de 2023

PODEMOS USAR REMÉDIOS VENCIDOS?

Hélio Schwartsman

Boa parte das drogas dura muito mais do que prazo estimado por fabricantes

Deu na Folha que, de 2019 para cá, o Ministério da Saúde descartou R$ 2,2 bilhões em vacinas e medicamentos cuja data de validade expirara. Esse número pode ser multiplicado várias vezes se colocarmos na conta também os estoques de secretarias estaduais e municipais, hospitais privados e das farmácias que cada um de nós mantém em casa. É um desperdício considerável. Mas ele se justifica?

Como já escrevi aqui alguns anos atrás, o problema dos remédios vencidos é uma caixa-preta. Drogas que passaram do prazo de validade dificilmente farão mal a quem as toma, mas é fato que, com a passagem do tempo, elas podem perder potência e, no limite, deixar de funcionar. A deterioração depende do tipo de produto (insulinas, nitroglicerina e antibióticos líquidos estragam mais facilmente mesmo) e das condições de armazenamento. Se você guarda seus medicamentos na sauna, eles possivelmente durarão menos do que o prazo calculado pelo fabricante, mas, se você os conserva num local fresco, seco e ao abrigo da luz, sua estabilidade pode surpreender.

Quase tudo o que sabemos sobre drogas vencidas se deve aos militares norte-americanos. Eles costumam manter grandes estoques de alguns fármacos para caso de emergências que raramente se materializam. Foi por isso que pediram à FDA que realizasse um estudo sobre o assunto. A agência testou um grupo de cem drogas armazenadas e concluiu que 90% delas estavam perfeitamente aptas para consumo mesmo 15 anos após a data de vencimento. Vale repetir, 15 anos.

Minha sugestão é que mudemos as normas e procedimentos para que, antes de descartar grandes lotes ou produtos muito caros por causa da data de vencimento, nós os testemos para ver se ainda funcionam plenamente. Obviamente não é algo que você possa fazer em casa, mas que está ao alcance de ministério e certas secretarias. As Forças Armadas dos EUA fazem isso, para gáudio dos contribuintes.

Fonte: Folha de S.Paulo

domingo, 23 de abril de 2023

A SAÚDE DOS PLANOS DE SAÚDE

Drauzio Varella

Se eles quebraram, prejuízo será nosso, de nossas famílias e do SUS

Há anos escrevo que o modelo seguido pela saúde suplementar é insustentável.

Você, prezado leitor, escolhe um plano que caiba em seu orçamento. A partir da assinatura, acha que sua família nunca mais colocará os pés no SUS. A pandemia demonstrou que esse sonho estava fora da realidade para um número grande de usuários, que tiveram seus acessos dificultados ou negados pelo plano.

A jornalista Beth Koike acaba de publicar no Valor Econômico uma análise muito objetiva da crise que a saúde suplementar atravessa. Ela escreve: "A dificuldade no setor é generalizada e passa por operadoras, hospitais e laboratórios. De janeiro a setembro de 2022, as operadoras tiveram um prejuízo líquido de quase R$ 3 bilhões".

A ideia que a sociedade faz das operadoras dos planos vem dos tempos da inflação: um ramo altamente lucrativo, em que alguns empresários apareciam nas listas dos homens mais ricos do Brasil.

Naquele tempo os índices inflacionários chegaram a 80% ao mês. Aos gestores da saúde suplementar bastava retardar o pagamento dos serviços cobrados pelos hospitais, laboratórios e consultórios para que a dívida se tornasse irrisória. Uma conta de R$ 100, em um mês passava a valer R$ 56. Com mais 80% de inflação, no mês seguinte o valor caía para R$ 31. As mensalidades, entretanto, eram reajustadas com correções monetárias mais realistas. Lembro de colegas que não se davam ao trabalho de ir ao escritório do plano para receber o pagamento de consultas realizadas 60 dias antes.

Era um negócio da China Antiga. Os custos da assistência médica não lhes traziam preocupação, os ganhos vinham da generosidade do mercado financeiro.

Com o fim da inflação galopante, houve necessidade de adaptações para reduzir gastos: recusa de planos individuais, fusão de operadoras, desaparecimento daquelas de pequeno porte, corte de serviços oferecidos, retardo nas autorizações para exames e cirurgias eletivas, descredenciamento de hospitais e laboratórios de melhor qualidade, entre outras. De 2019 a 2023, os índices de reclamações (que já eram altos) duplicaram.

Anos atrás, no livro "A Saúde dos Planos de Saúde", o doutor Maurício Ceschin (ex-diretor da ANS) e eu antevíamos os problemas que agora se manifestam com tamanha gravidade.

Não era preciso ser vidente para prever as demandas de uma população que envelhece na velocidade da nossa. A faixa etária dos que têm mais de 60 anos é a que mais cresce; o que levou um século para ocorrer na Europa industrializada aconteceu aqui em menos de 50 anos.

Para agravar, envelhecemos mal: metade das mulheres e dos homens chega aos 60 anos com hipertensão arterial; o número dos que convivem com diabetes do tipo 2 anda perto dos 20 milhões e cresce ano a ano; a obesidade é uma epidemia; o alcoolismo e o fumo minam o organismo de milhões. Essas condições estão associadas a complicações que exigem tratamentos complexos e dispendiosos: infarto do miocárdio, derrame cerebral, câncer, obstruções arteriais, enfisema, problemas ortopédicos e neurológicos.

Pior, a maior parte desses agravos são crônicos, isto é, incuráveis. Nesses casos, o objetivo da assistência médica é o controle pelo resto da vida, seja hipertensão, diabetes, osteoartrite ou demência.

Em linhas gerais, 30% dessas doenças dependem de causas sociais: moradias precárias, salários baixos, ausência de saneamento etc. O estilo de vida é responsável por 50%: fumo, sedentarismo, obesidade etc. Portanto, se a assistência médica resolvesse todos os casos a seu alcance, o impacto seria de apenas 20%.

Os planos enfrentam esses desafios com um modelo antiquado: o "free for service", que estimula a realização de exames laboratoriais, radiografias e tomografias sem utilidade prática. Nós, médicos, temos grande responsabilidade nesse desperdício nababesco, pois saímos da faculdade sem noções elementares dos custos dos procedimentos que vamos indicar.

Esse modelo é insustentável. A única saída é investirmos na prevenção. Veja os americanos: gastam com saúde mais de US$ 3 trilhões anuais, para uma expectativa média de vida de 78 anos, igual à de Cuba. A saúde dos planos interessa a todo usuário. Se eles quebrarem, talvez os acionistas percam algum dinheiro, mas quem vai ficar no prejuízo seremos nós, as nossas famílias e o SUS.

Fonte: Folha de S.Paulo

sexta-feira, 14 de abril de 2023

A CHEGADA DO FENANTIL

Ruy Castro

50 vezes mais potente que a heroína e 100 mais que a morfina, mata antes de causar dependência

Lá vamos nós de novo. Chega ao Brasil uma nova e perigosíssima droga, o fentanil, e os médicos temem que se repita com ela o erro cometido com o crack nos anos 90. Na época, por tudo que se sabia do crack nas ruas de Nova York, sua implantação entre nós parecia questão de tempo. Era essencial uma ação preventiva. Mas os então ministros e secretários da saúde o ignoraram. Quando se deram conta, o crack já se instalara e se irradiara pelo país.

Com o fentanil, não teremos as cenas de sempre, em que a polícia invade uma cracolândia, dispersa os infelizes, destrói as barracas, recolhe o lixo, esguicha o território, vai embora e, em horas, a cena se recompõe. Não haverá uma fentanilândia —os usuários morrerão em casa mesmo ou onde consumirem o produto. O fentanil é um opioide 50 vezes mais potente que a heroína e 100 vezes mais que a morfina. Uma dose de 2 miligramas pode provocar parada respiratória quase imediata. Nos EUA, já se morre mais de fentanil do que em acidentes de trânsito.

O fentanil existe há décadas como anestésico em salas de cirurgia e sob controle médico. A importação de seus componentes é fiscalizada pela Anvisa, e o Brasil o fabrica em laboratórios também controlados. Seu itinerário do laboratório para os fornecedores e, destes, para os hospitais é feito sob vigilância, assim como o descarte do excedente na ampola. Mas agora temos sua fabricação em laboratórios clandestinos, o desvio de estoques legais e sua venda pelo tráfico. Há duas semanas, a polícia fez a primeira apreensão do produto no Brasil: 31 ampolas, no Espírito Santo. É pouco? Não, é só o começo.

A história das drogas mostra como o tempo exigido para a instauração das dependências está encurtando. O álcool, a maconha e a cocaína podem levar anos; os remédios tarja preta, a morfina e a heroína, muito menos.

O fentanil pode nem criar dependência. Mata antes.

Fonte: Folha de S.Paulo

segunda-feira, 27 de março de 2023

MORTES POR FENTANIL ESTÃO ÀS PORTAS DAS CASAS BRASILEIRAS

Drauzio Varella

A droga sintética está por trás de muitas mortes catalogadas como 'overdose de cocaína'

O fentanil é um opioide sintético 50 vezes mais potente que a heroína e cerca de cem vezes mais potente que a morfina.

Administrado por via oral ou intravenosa, sua ação é rápida, bem como rápida é sua eliminação do organismo, propriedades farmacológicas que justificam seu emprego em anestesia, especialmente em procedimentos pouco invasivos. É possível que você, leitor, já tenha recebido esse medicamento, numa endoscopia ou na correção de uma fratura óssea, sem saber. Os anestesistas consideram o fentanil bastante seguro, desde que administrado por mãos experientes.

O risco é o seu uso indevido, porque a margem de segurança é estreita: doses de até 2 mg podem provocar paradas respiratórias fatais.

Quanto mais curto o intervalo entre a administração de uma droga psicoativa e a sensação de prazer provocada por ela, maior o risco de dependência química. É o que explica o sucesso da nicotina: a fissura acaba em segundos já na primeira tragada. Pela mesma razão, fumar crack é mais compulsivo do que cheirar cocaína.

O que faz do fentanil uma droga de uso compulsivo é o prazer quase imediato que ele traz, seguido de sua excreção rápida. O que o torna muito perigoso são as mortes por overdose em segundos ou minutos após a administração. Na comparação, os óbitos por overdose de outros opioides como heroína ou oxicodona levam minutos ou horas para acontecer.

Nesse cenário, o exemplo dos Estados Unidos, o país que mais consome drogas ilícitas, é trágico: as mortes por overdose de drogas sintéticas aumentam a cada ano. Entre 2019 e 2020, o número duplicou. Em 2021 foram 107 mil casos, dos quais 70 mil associados a opioides sintéticos —destes, 2/3 provocados pelo fentanil.

Antes de uso restrito a adolescentes e jovens, o fentanil não tardou a chegar aos adultos. No período de 2020 a 2021, o consumo na faixa etária de 65 anos ou mais aumentou 28%.

É droga fácil de sintetizar, a maior parte da produção vem de pequenos laboratórios na China, por um preço bem menor que o da heroína. A margem de lucro é astronômica, os cartéis mexicanos compram o quilo na China por US$ 5.000, quantidade que rende em média 20 quilos depois de batizado.

Ao atravessar a fronteira americana o quilo passa a valer US$ 80 mil.

A venda dos comprimidos no varejo confere aos traficantes US$ 1,6 milhão. Para os que ganham a vida no tráfico é tentação demais. Além do que, é mais fácil e menos arriscado transportar e distribuir comprimidos do que grandes volumes de maconha ou cocaína.

Os números das apreensões feitas pelo DEA, dos Estados Unidos, refletem essa facilidade. Em outubro de 2022, na Califórnia, foram apreendidos 24 quilos de fentanil em pó, quantidade suficiente para prensar 2.500 comprimidos. Neste ano, o DEA já apreendeu 4,5 toneladas de fentanil em pó e 50,6 milhões de comprimidos, quantidade suficiente para exterminar a população americana.

Acrescentar fentanil a medicamentos vendidos clandestinamente pela internet, com os nomes de Percocet, OxyContin, Ritalina, Xanax, Adderal, Ecstazy e outos, virou prática corrente entre os traficantes, com a finalidade de potencializar o efeito psicoativo e/ou analgésico e criar dependência. Numa ação do DEA foram apreendidos 20,4 milhões desses comprimidos falsificados de aparência igual à dos verdadeiros. Encontraram doses letais de fentanil em 4 de cada 10 comprimidos analisados. Muitos dos que perderam a vida por causa desses comprimidos fake não tinham ideia de que ingeriam doses letais de fentanil.

Segundo o DEA, cerca de 75% da cocaína hoje vendida nos Estados Unidos contém fentanil. Ela está por trás de muitas mortes catalogadas como "overdose de cocaína".

Esse comércio ilícito é feito com liberdade pelo Facebook, Instagram, Telegram, TikTok, Twitter, Snapchat e pela deep web. Nessas plataformas, o fentanil é oferecido em mensagens cifradas, acompanhadas de emojis que funcionam como senhas de acesso.

Dado esse contexto internacional, fica evidente que não seríamos poupados. Neste ano, a Polícia Civil do Espírito Santo apreendeu no município de Cariacica—região metropolitana de Vitória— 31 frascos de fentanil líquido.

Estou convencido de que as mortes por fentanil estão às portas das casas brasileiras, infelizmente. Vamos agir como os avestruzes?

Fonte: Folha de S. Paulo

sexta-feira, 10 de março de 2023

AS LIÇÕES DE VIDA QUE RECEBI DO PROFESSOR ERNEY PLESMANN

Drauzio Varella

Em 1962, com ele, pela primeira vez entendi em que país eu vivia

Há professores aos quais devemos muito. Entre dezenas de outros com quem convivemos nas escolas, eles se destacaram por ampliar nossos horizontes, dar lições de vida e apontar caminhos que não teríamos encontrado sem a influência intelectual e o exemplo que nos deram.

Para mim, o professor Erney Plessmann de Camargo foi um destes.

Em 1962, quando entrei na faculdade, ele era o assistente mais jovem do Departamento de Parasitologia da USP. Eram tempos de efervescência cultural e agitação política. Analfabetismo, miséria, mortalidade infantil e desnutrição estavam por toda parte, em alguns estados a expectativa de vida mal passava dos 40 anos.

As endemias rurais constituíam o principal agravo de saúde pública. Tínhamos anualmente cerca de 120 mil casos novos de doença de Chagas. Ao redor de 1 milhão de brasileiros conviviam com o Trypanossoma causador, protozoário que Luiz Hildebrando e Erney pesquisavam. Antes concentrada nas "lagoas de coceira" do Nordeste, a esquistossomose chegava à periferia de São Paulo, trazendo com ela cirrose hepática e mortes precoces. A malária fazia parte do cotidiano amazonense.

Contraditoriamente, a faculdade nos preparava para o exercício de uma profissão liberal. O acesso dos mais pobres à assistência médica dependia da caridade pública.

A cadeira de parasitologia era um oásis nessa falta de consciência social. O professor Samuel Pessôa, chefe do departamento, soube reunir pesquisadores interessados em levar o conhecimento científico para as regiões mais remotas: Luiz Rey, Luiz Hildebrando Pereira da Silva, Leônidas e Maria Deane e o Erney, entre outros.

A parasitologia era ensinada no segundo ano do curso. As discussões acadêmicas, as pesquisas e o real interesse daquele grupo em preparar estudantes interessados em saúde pública e no pensamento científico exerceram grande influência em minha formação.

Todos aos anos, o departamento organizava a Bandeira Científica, com o objetivo de levar os segundanistas para um trabalho de campo em regiões remotas do Brasil. Na minha turma, o coordenador da expedição foi o Erney.

Antes da viagem, feita num ônibus velho cedido pelo governo do Estado, ele reuniu o grupo para explicar que iríamos para os confins da fronteira da Bahia com Sergipe, junto à cachoeira de Paulo Afonso, em que estava instalada a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), responsável pela distribuição de energia elétrica para os estados do Nordeste.

Realizaríamos exames de fezes nas crianças residentes em duas áreas separadas por uma cerca: de um lado, as que viviam nas casas reservadas aos funcionários da Chesf; do outro, as que moravam nas habitações precárias da cidadezinha ao lado, sem nem uma rua calçada sequer.

A intenção era mostrar que o termo "doenças tropicais" não passava de preconceito dos países mais ricos. Elas não eram um tributo a pagar para viver junto à linha do Equador, mas doenças do subdesenvolvimento.

Se me lembro, a prevalência de verminoses no lado da cerca em que moravam as crianças protegidas pela Chesf foi de cerca de 10%, enquanto nas que moravam na precariedade da vizinhança chegou perto de 100%.

O aspecto doentio das mulheres, homens e crianças que viviam nos casebres de pau a pique do sertão de Minas e da Bahia foi um divisor de águas: pela primeira vez entendi em que país eu vivia.

Na viagem, ficamos amigos. Conversávamos horas e horas. Falávamos de saúde pública, ciência, cinema, artes plásticas e literatura, tudo o que ele dizia me interessava.

Em 1964, Erney e outros professores foram acusados de comunistas e demitidos da universidade, uma chaga na história da USP. Convidado pela Universidade de Winsconsin, ele e a família passaram cinco anos nos Estados Unidos.

Quando o Brasil começou a voltar à civilização, ele foi contratado pela Unifesp. Mais tarde seria presidente do CNPq e do Instituto Butantan, professor emérito da USP e presidente da Fundação Conrado Wessel, entre outros cargos reservados aos cientistas mais brilhantes.

Tive o privilégio de conviver com esse intelectual, com quem aprendi tanto. Nos últimos anos, em longas conversas em mesa de bar.

Na última sexta-feira recebi a notícia do falecimento do amigo inesquecível.

Perder pessoas queridas é a provação mais cruel que o envelhecimento nos impõe

Fonte: Folha de S. Paulo