terça-feira, 24 de novembro de 2020

Pensar é mais interessante do que saber, mas é menos interessante do que olhar. (Johann Wolfgang von Goethe, escritor alemão, 1749-1832)

LUGARES

BRIENZ - SUÍÇA

ROMANCE FORENSE

Charge de Gerson Kauer
O MESTRE DO JÚRI
Por Maurício Krieger, 
advogado (OAB-RS nº 73.357) 

Em uma cidadezinha pacata, no interior do Rio Grande do Sul, chamada Crissiumal, quase nunca ocorrem homicídios. Quase nunca. 

Mas há registros de dois assassinatos, no entanto sem condenações. 

Como se sabe, nos crimes dolosos contra a vida, o julgamento ocorre perante o júri popular, formado por sete jurados. 

Na região existe um advogado de defesa que é conhecido como o “mestre do júri”, por sempre conseguir a absolvição de seus clientes. Ele é conhecido pelo pseudônimo de Marco Halley. 

Na defesa de um cidadão - acusado de matar a sua mulher por motivo de traição - o advogado começa a sua defesa:

- Caros jurados, todos na cidade sabem quem foi a vítima, quais seus hábitos, e portanto, todos sabem que essa p... teve o fim que mereceu. Ela era uma ordinária, desclassificada que já passou pelas mãos de muitos homens desta cidade”. 

O juiz interrompe e determina ao advogado que pare com as ofensas à pessoa da falecida. 

O doutor Halley observa, medita e volta à carga:

- Ok, eu paro, não vou mais chamar essa mulher de vagabunda, de safada e de prostituta!. 

Alguns desdobramentos mais e, horas depois, o réu é absolvido por 4 x 3. 

O júri era formado por quatro homens e três mulheres.

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

WHATSAPP, FERRAMENTA DO DEMÔNIO

WHATSAPP, FERRAMENTA DO DEMÔNIO
Antonio Prata

Se usássemos tambores ou sinais de fumaça, nos entenderíamos melhor

Neste ano, engolfado pelo conluio tenebroso entre confinamento e Bolsonaro, entrei em diversos grupos de zap cujo objetivo é defender e aprimorar a democracia. “Conversas progressistas”, “Esporte pela democracia”, “#estamosjuntos”, “Autores democratas”, “Escola antirracista”, “Corredores antifascistas” e por aí vai. Não houve um único grupo em que não chegássemos, em algum momento, numa batalha campal.

Engraçado (nem um pouco, na verdade) é a semelhança das brigas. Frases como “Gente, vamos respeitar a opinião alheia?”, “Discordar é uma coisa, debochar é outra!”, “Desculpa, não era esse o tom que eu quis dar”, “A gente já não tinha decidido isso, pessoal????!” e invariavelmente: “fulano saiu do grupo”, “sicrano saiu do grupo”, “beltrano saiu do grupo”.

Depois de participar da décima batalha virtual, comecei a desconfiar que o problema não era das pessoas, das causas, do desespero com o governo ou do estresse com a quarentena. A encrenca era a ferramenta. Quando penso, hoje, sobre criar um movimento coletivo via WhatsApp, a imagem que me vem à cabeça é a de servir um almoço, coletivamente, sobre uma esteira rolante.

Às 14:32:28 o Daniel põe um garfo. A Joana chega às 14:32:35 e põe a faca, o Valter, entrando às 14:32:43, reclama: “Gente, tá o garfo num lugar e a faca três metros depois, não seria mais interessante botarmos um do lado do outro?”. “Desculpa, querido, mas você chegou agora, eu e a Joana estamos aqui tentando botar a mesa, se você tivesse chegado antes, poderia ajudar mais em vez de criticar”. Aí vem alguém com a salada, outro estende a toalha por cima, a carne fica ao lado da sobremesa. Oito da noite, um desavisado entra no grupo e sugere, sem saber o que rolou ali o dia todo: “pessoal, e se puséssemos a mesa?”.

Não é a mente vazia a oficina do demônio, é o WhatsApp. Dentro dele a conversa não se concatena, os raciocínios não fecham, as decisões invariavelmente ficam no ar. É uma ferramenta perfeita pra disseminar o caos, no bom e no mau sentido. O bom sentido é a bagunça dos grupos de amigos. Ninguém ali está tentando construir nada, só quer se divertir postando memes, gifs, vídeos engraçados. Qualquer um pode entrar a qualquer hora e em qualquer ponto da conversa e simplesmente sorrir com o que passa na esteira.

Já no lado maléfico da balbúrdia está a disseminação de fake news. Justamente pelo fato de as conversas não terem começo, nem meio nem fim, tudo chega entreouvido. Frases soltas. Informações desconexas. O Trump querendo que parassem a contagem dos votos nos estados onde estava na frente e poderia perder, ao mesmo tempo em que exigia a continuação da contagem onde poderia ganhar é o tipo de loucura que só faz sentido neste mundo do WhatsApp.

O fato de estarmos vinte e quatro horas por dia com a cara no celular, discutindo em 176 grupos, simultaneamente, também não colabora muito na concentração. Incêndio no Pantanal, legalização do aborto, mamadeira de piroca, eleição na Índia, violência policial e figurinhas da Hebe fazendo coraçãozinho de mão se misturam, sem muita hierarquia e em alta velocidade. É na tela plana que germinam as Terras planas. Duvido que, se estivéssemos todos em torno de uma mesa, olhos nos olhos, as pessoas teriam coragem de dizer metade dos absurdos que enviam por WhatsApp.

Acho até que, se em vez de celulares usássemos tambores ou sinais de fumaça, nos entenderíamos melhor. Mesmo porque deve ser bem difícil comunicar, com toques de atabaque ou uma fogueira, conceitos tais como “mamadeira de piroca”.

Fonte: Folha de S. Paulo
Viver neste mundo sem se deixar contaminar por seus preconceitos morais é como passar uma temporada no inferno sem suar. (Henri Louis Mencken, jornalista americano, 1880-1956)

LUGARES

MONTEVIDÉU - URUGUAI

A MORTE DEVAGAR

A MORTE DEVAGAR
Martha Medeiros

Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

– Martha Medeiros, crônica publicada originalmente no jornal ‘Zero Hora’, em 1 de novembro de 2000. Disponível no link. (acessado em 11.7.2016).

Sobre a falsa atribuição
* Martha Medeiros é autora de poema atribuído a Neruda – ZH. Disponível no link. (acessado em 11.7.2016).
:: Poema atribuído a Pablo Neruda na Internet é de Martha Medeiros. por L&PM Editores, 13/1/2009. Disponível no link. (acessado em 11.7.2016).

Fonte: https://www.revistaprosaversoearte.com

FRASES ILUSTRADAS


domingo, 22 de novembro de 2020

REALIZEI TUDO SOZINHO

REALIZEI TUDO SOZINHO
José Horta Manzano

Domingo passado, o Brasil assistiu, surpreso, à inusitada demora na apuração dos votos. Pra quem está acostumado, há vinte anos, a conhecer os resultados na hora, a espera foi longa. Teorias conspiratórias logo se alevantaram. “Isso é obra dos russos”, “Eu te disse que os chineses iam atrapalhar”, “Só pode ser coisa da CIA” – foram as hipóteses que correram por aí.

Em típica atitude defensiva – que ocorre esporadicamente no mundo todo, mas que, no Brasil, se tornou esporte nacional –, as autoridades responsáveis logo trataram de pôr a culpa em terceiros. “Não fomos nós!” Impossibilitados de negar a evidência do atraso, acusaram a covid, os computadores, os técnicos, os fornecedores, o faxineiro, a moça do café.

Dias depois, aparece o verdadeiro culpado. “Realizei tudo sozinho”, avisa um pirata informático (=hacker). Longe de se mostrar envergonhado, exibe o orgulho de que somente os muito jovens são capazes. O rapaz, um português de 19 anos, esclarece ter cometido a façanha munido de um simples telefone celular, desses que todo o mundo tem no bolso.

Por que fez isso? Ora, pelo frisson(*). Tendo ouvido dizer que o TSE tinha reforçado a segurança do voto eletrônico, resolveu testar. O resultado foi além da expectativa: perturbou a vida de 100 milhões de eleitores e ainda deu munição aos desajustados do Planalto para lançarem suspeita sobre a lisura do pleito. Desculpem qualquer coisa aí, hein!

O mundo informático, marca dos novos tempos, é contrastado. Do lado bom, está a facilidade infantil com que a gente se comunica, pouco importando a distância. O custo das comunicações, que caiu a quase zero, também é excelente notícia. Porém, do lado mau, está essa permeabilidade do sistema.

Nos tempos de antigamente, para grampear um telefone, era preciso subir no poste e instalar o dispositivo de arapongagem. Dava mão de obra e era indiscreto. Hoje em dia, com dois cliques um operador faz o mesmo trabalho – com a vantagem de poder grampear um indivíduo ou um bairro inteiro, se assim lhe apetecer.

Antes da informática, as palavras que se diziam ao telefone chegavam ao correspondente, em seguida se perdiam no espaço e se apagavam. Hoje não funciona mais assim. Gosto de imaginar que, nalgum bunker secreto no Arizona ou em Utah, todas as comunicações e mensagens telefônicas (escritas ou de voz) são gravadas e armazenadas para eventual uso futuro.

Não é ficção científica. Pense um pouco. Se um adolescente, com um telefone na mão, consegue invadir o complexo sistema do TSE e devassar o voto de uma população do tamanho da nossa, fica demonstrada a facilidade de manipular resultado de eleição.

Falando em manipulação, se alguma já não foi feita nas eleições passadas, fica aqui a sugestão. Quem tiver telefone pode tentar. O frisson(*) é garantido. As instruções de piratagem devem se encontrar na internet, acredito eu.

Ah, ia esquecendo de prevenir. Quando você tiver ganas de falar mal de alguém, em mensagem escrita ou de voz, pense duas vezes. Esse alguém pode até um dia invadir o bunker do Arizona. Se ele descobrir a maledicência, vai dar um forrobodó dos diabos.

(*)Frisson
É palavra francesa dicionarizada no Brasil sem alteração da grafia. Em sentido próprio, significa arrepio, calafrio. Aqui foi usada no sentido figurado, dado que arrepio não seria a melhor opção. O termo é descendente longínquo do verbo latino frigere = ter frio, através da forma medieval frictio/frictionis, que acabou dando nossa fricção. A idéia é que quem tem frio treme e sente arrepios.

Fonte: brasildelonge.com

MALAIKA

Boney M. - Malaika (Sun City 1984)


Malaika (My Angel)

Malaika, nakupenda Malaika
Malaika, nakupenda Malaika
Ningekuoa mali we, ningekuoa dada
Nashindwa na mali sina we, Ningekuoa Malaika
Nashindwa na mali sina we, Ningekuoa Malaika

Pesa zasumbua roho yangu
Pesa zasumbua roho yangu
Nami nifanyeje, kijana mwenzio
Nashindwa na mali sina we Ningekuoa Malaika
Nashindwa na mali sina we Ningekuoa Malaika

Kidege, hukuwaza kidege
Kidege, hukuwaza kidege
Ningekuoa mali we, ningekuoa dada
Nashindwa na mali sina, we Ningekuoa Malaika
Nashindwa na mali sina, we Ningekuoa Malaika

Malaika, nakupenda Malaika
Malaika, nakupenda Malaika
Ningekuoa mali we, ngekuoa dada
Nashindwa na mali sina we, Ningekuoa Malaika
Nashindwa na mali sina we, Ningekuoa Malaika
Malaika (Meu Anjo)

Anjo, eu te amo Anjo
Anjo, eu te amo Anjo
Queria casar com você, queria casar com você
Não posso por não ter dinheiro, queria casar com você Anjo
Não posso por não ter dinheiro, queria casar com você Anjo

Dinheiro é o grande problema da minha vida
Dinheiro é o grande problema da minha vida
O que posso fazer sou apenas seu jovem amigo
Não posso por não ter dinheiro, queria casar com você Anjo
Não posso por não ter dinheiro, queria casar com você Anjo

Querida eu só penso em você
Querida eu só penso em você
Queria casar com você, queria casar com você
Não posso por não ter dinheiro, queria casar com você Anjo
Não posso por não ter dinheiro, queria casar com você Anjo

Anjo, eu te amo Anjo
Anjo, eu te amo Anjo
Queria casar com você, queria casar com você
Não posso por não ter dinheiro, queria casar com você Anjo
Não posso por não ter dinheiro, queria casar com você Anjo
Em Arqueologia, você quase nunca acha o que planejou encontrar. (Mary Leakey, arquóloga inglesa)

LUGARES

CASCAIS - PORTUGAL

POLÍTICA DAS ANTIGAS

 POLÍTICA DAS ANTIGAS

Houve um tempo em que a campanha eleitoral era centrada nos comícios. A propaganda dos candidatos tinha seu ponto alto na distribuição de santinhos. Ainda não eram chegados os tempos de propaganda eleitoral gratuita, de carreatas e nem de showmícios. Fundo Partidário? Nem pensar.

Os candidatos a prefeito e vice, assim como os candidatos a vereador, percorriam os bairros e de casa em casa iam vendendo o seu peixe. 

Normalmente na parte da noite o partido ou a coligação organizava um comício. Havia distribuição de santinhos e fim. Sem rodadas de bebidas ou comilanças. 

Os comícios no meu bairro eram realizados no salão de bailes do nosso clube. Naquele local, ainda criança, tive o privilégio ouvir dois dos mais brilhantes tribunos da política gaúcha e brasileira: Nadir Rossetti e Pedro Simon. Foi um verdadeiro privilégio. Mas, já que não se fazem mais oradores como antigamente. 

Numa determinada eleição municipal um candidato do meu bairro resolveu inovar. Todos os domingos, no início da noite, ele organizava uma reunião dançante na casa de seus pais. Sempre havia comes e bebes. Em meio à diversão, de forma velada, eram enaltecidas as qualidades do candidato.

Foi a primeira vez que ouvi falar de "comícios" daquela natureza. O tal candidato deu-se bem. Foi algo inédito pois um jovem iniciante na atividade política suplantou velhas raposas de todos os partidos. 

Tempos depois corria à boca pequena que nos bailes, referido edil, que era solteiro, no meio da conversa indagava de seu par: 

- A senhorita sabe com quem tem a hora de estar dançando? E de pronto dava a resposta:

- Com o vereador mais jovem de Caxias. 

Se é verdade não sei mas ele era de um tipo meio folclórico, o que emoldura a versão com uma certa credibilidade. 

FRASES ILUSTRADAS


sábado, 21 de novembro de 2020

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES

VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES 
Meraldo Zisman

A violência doméstica é uma questão global de saúde pública

O confinamento adotado como defesa contra a pandemia talvez seja necessário, mas pode gerar um aumento dos casos de violência contra mulheres, crianças e idosos. A violência psicológica é uma das formas mais prevalentes de violência doméstica, afetando mais as mulheres do que os homens, embora estudos sobre esse tema sejam escassos. 

As pesquisas abrangem muito pouco esse aspecto da agressão. Agressões, sejam elas físicas ou psicológicas, perpetradas por familiares (maridos, ligações estáveis, companheiros, namorados e até dos filhos e filhas maiores) contra mulheres de 60 anos ou mais quase não são mencionadas. Recente estudo comprovou que as participantes indicam mais frequentemente os abusos psicológicos e logo a seguir vem a queixa de serem negligenciadas. As mulheres mais velhas expressam sentimento de tristeza, raiva e medo, que incluem efeitos negativos sobre a própria Saúde. Enfatizo que tentativas dessas vítimas de recorrer aos serviços especializados não obtiveram muito êxito. 

Insisto: tornou-se imperativo criar uma rede de apoio tanto ao agressor quanto à vítima. 

É necessário e urgente o desenvolvimento de programas educacionais para os agressores e para as agredidas/confinadas. Durante o confinamento, seres vivos (humanos ou animais) são mantidos dentro de um espaço delimitado. Este tipo de violência contra as idosas ficou mais evidente durante a pandemia de COVID-19, quando vários países adotaram o confinamento (em inglês, “lockdown“), tentando evitar a circulação de pessoas para adiar o contágio de mais pessoas pelo novo coronavírus. 

Embora estejam alijadas dos processos de tomada de decisão, as mulheres são historicamente a maioria da população brasileira e compõem a maioria absoluta da força de trabalho relacionada ao assunto Saúde. Afirmo, sem medo de errar, que elas, as mulheres, têm papel fundamental para a superação das pandemias. 

Sublinho: louvar o que é deslembrado, torna querida a lembrança. Pois o que lembro, tenho, já afirmava Guimarães Rosa (1908-1967). 

Insisto: tornou-se imperativo criar uma rede de apoio tanto ao agressor quanto à vítima. 

Fonte: http://www.chumbogordo.com.br

Quando o homem olha demais para si mesmo, chega a não saber mais qual é a sua cara e qual é a sua máscara. (Pio Baroja Y Nessi, escritor espanhol)

LUGARES

KARLOVY VARY - REPÚBLICA CHECA

O PADEIRO

O PADEIRO
Rubem Braga

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento — mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

— Não é ninguém, é o padeiro!

Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?

“Então você não é ninguém?”

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não, senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina — e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”

E assobiava pelas escadas.

Rio, maio, 1956.

— Rubem Braga, no livro “Ai de ti, Copacabana”. Rio de Janeiro: Record, 2010.

Fonte: https://www.revistaprosaversoearte.com

FRASES ILUSTRADAS


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A ONDA ACABOU

A ONDA ACABOU
William Waack
Estadão 

A onda acabou e Bolsonaro é, agora, a perfeita expressão do ‘sistema’ que ele tanto detestava

A causa do fracasso eleitoral de Jair Bolsonaro nas eleições municipais é simples de ser resumida. Ele interpretou de maneira equivocada a onda disruptiva que o levou ao Palácio do Planalto em 2018. Achou que tinha sido o criador desse fenômeno político quando, na verdade, apenas surfava a onda.

O fato é que essa onda, depois de arrebentar o alvo primordial (as forças políticas ao redor do PT), se espraiou, perdeu sentido e direção, dividiu-se entre seus vários componentes antagônicos. Esvaziou-se, com Bolsonaro achando que apenas falando, apenas no gogó, manteria o ímpeto de uma onda dessas – um fenômeno político raro.

PROFISSIONALISMO – Na verdade, a principal lição oferecida a Bolsonaro pelas eleições do último domingo é a do primado da organização, capilaridade e peso das agremiações partidárias no horizonte político mais extenso. Pode-se adjetivar como se quiser o conjunto de partidos que elegeu o maior número de prefeitos e vereadores ou colocá-los onde se preferir no espectro político. O denominador comum entre eles é a existência de estruturas profissionais voltadas para a política.

É exatamente o que Bolsonaro desprezou logo que assumiu. Trata-se de um dos aspectos mais relevantes para ilustrar o fato de o presidente eleito com 57 milhões de votos há apenas dois anos ter um desempenho tão pífio como cabo eleitoral.

Todo dirigente populista, não importa a coloração política, cuida de criar um movimento para chamar de seu – com seus emblemas, palavras de ordem (ou “narrativa”), mitos e, sobretudo, uma estrutura razoavelmente hierárquica e definida, com sede e endereço.

IMPLODIU O PLS – Embora tivesse à disposição da noite para o dia um grande número de deputados federais e seus correspondentes recursos públicos, o surfista da onda política atuou para implodir o partido pelo qual se elegeu e não conseguiu colocar de pé nada parecido a uma agremiação consolidada com um mínimo de coesão.

É bem provável que Bolsonaro tenha sido vítima do mito que criou para si mesmo (e dá provas quase diárias de acreditar nisso piamente): a de ter sido escolhido por Deus e beneficiado por um milagre (sobreviver à facada) para conduzir o povo do Brasil.

Com tal ajuda “de cima”, é só esperar as coisas acontecerem.

LIMITES DAS REDES -Ocorre que mesmo os homens tornados mitos por desígnio divino precisam, como dizem os alemães, do “Wasserträger”, aquele que vai trazer a água. E isto não se consegue apenas com redes sociais.

Foi outro aspecto interessante das eleições de domingo: a demonstração dos limites de atuação das ferramentas digitais, que adquiriram relevância permanente como instrumentos de mobilização, sem serem capazes por si só de garantir predominância na luta política.

Passada a onda disruptiva (alívio para alguns, desperdício de oportunidade histórica para outros), o que se pode prever para as próximas eleições, em relação às quais Bolsonaro sacrificou qualquer outro plano?

DESAFIO DE 2020 – Se ele foi capaz, em 2018, de vencer o “establishment” e o jeito convencional de fazer política, ainda por cima dispondo de menos recursos que seus adversários “tradicionais”, em 2022 Bolsonaro só tem chances dentro do que ele mesmo chamou de “sistema”.

Do qual, ironicamente, o “outsider” acabou se tornando uma perfeita expressão: vivendo para o próximo ciclo frenético de manchetes, sem um plano ou estratégia de longo prazo, cuidando em primeiro lugar de seus interesses familiares e paroquiais, cultivando popularidade com programas assistenciais e preocupado acima de tudo em ficar onde está. É onde a onda nos deixou.

Fonte: Tribuna da Internet
Aos tímidos e indecisos tudo parece impossível porque assim lhes parece. (Sir Walter Scott, escritor escocês, 1771-1832)

LUGARES

LUBLIANA - ESLOVÊNIA

MR. MILES


A geopolítica emocional do grande viajante

Nosso intrépido viajante fez uma viagem relâmpago até Bergen, na Noruega, com o objetivo de comemorar os 50 anos de casamento de Lars de Dragun e Borhilde Nöstrom, velhos amigos do tempo em que mr. Miles praticava esqui nórdico.
A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: sou checo e vim para o Brasil fugindo de uma Europa convulsionada, sempre em brigas por poder e fronteiras. Quando tudo parecia melhor, a Europa está empobrecida, a Rússia come pedaços de Ucrânia, a Escócia quer se separar de sua Inglaterra. O que o senhor acha disso tudo? (Pavel Novak, por e-mail)

Well, my friend: antes de responder à sua pergunta, quero deixar claro que não sou um especialista em geopolítica e tudo o que posso lhe dizer vem da experiência e dos conhecimentos que adquiri como viajante. 

Meus leitores tradicionais sabem que sou um universalista: acredito, indeed, que todos os lugares da Terra pertencem aos que nela habitam e são, therefore, uma extensão de seus próprios jardins. Acredito, as well, que as diferenças entre os povos são admiráveis e que só temos a aprender com elas, investigando seus motivo, sua História, seus talentos e fraquezas.

Unfortunately, dear Pavel, nem todos pensam como eu. Governantes de inúmeros países do mundo fazem exatamente o contrário do que proponho. Erguem muros invisíveis em suas fronteiras. Discriminam seus estrangeiros e, last but not least, usam seu poderio militar ou demográfico para subjugar áreas que lhes interessam, sobretudo do ponto de vista econômico. Sempre, by the way, haverá pretextos para essa perfídia e, sempre, também, as populações dessas nações ocupadas por um ou por outro iludir-se-ão com a perspectiva de que a vida vai melhorar. E, oh, My God, vão terminar por sofrer.

Não tivesse eu tão provecta idade e tão longa vida de espectador do comportamento humano, até poderia imaginar que os recentes caminhos da globalização, da comunicação instantânea e da popularização das viagens seriam – todos eles – sinais de aproximação afetuosa entre os povos. Imagine, Pavel, se isso realmente fosse possível, que amplitude de ideias, tecnologias, culturas poderíamos compartilhar? E, no entanto, o que vejo nessas redes sociais (raramente, I must say, porque ainda prefiro a comunicação epistolar) são pessoas compartilhando convicções! Como me apavoraram os convictos! Eles já sabem tudo, sem conhecer absolutamente nada. Eles têm fés, posições políticas, enquadramentos morais, sexuais, culturais. Eles sabem o que é bom e o que é ruim sem ao menos conhecer uma bilionésima parte do que pode ser bom ou pode ser ruim. Falta-lhes humildade. Mais vale ouvir e olhar do que falar e tentar convencer.

Forgive me por tantas digressões, dear Pavel. However, eu acho que é por essas razões que as histórias se repetem. Porque somos soberbos! E por isso mesmo seguimos errando.

Sobre a Escócia, que é, of course, um assunto ao qual sou muito ligado, é evidente que considero anacrônico esse sentimento separatista. Anyway, não faz muita diferença. Eles querem continuar com o nosso dinheiro e, mais que tudo, insistem em ter nossa querida Queen Elizabeth II como sua própria rainha também. Por mim, que façam o que julguem melhor – desde que não deixem de produzir o meu scotch de cada dia. De minha parte, seguirei não usando as suas saias kilt, não acreditando em Nessie (N. da R.: o discutido monstro do Lago Ness) e – o mais importante – não pronunciando as palavras como se estivesse com uma batata quente na boca. Don’t you agree?”

Fonte: O Estadão

FRASES ILUSTRADAS


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

SEGUNDAS ONDAS

SEGUNDAS ONDAS
Hélio Schwartsman

O número de casos de Covid-19 voltou a subir, e não é só na Europa

Por alguns meses, pareceu que a Europa havia vencido a Covid-19. Mas, a partir de outubro, vários países começaram a registrar aumento nos casos. Agora, a tal da segunda onda está mais do que caracterizada. E não é só a Europa. Os EUA, embora nunca tenham controlado as transmissões, assistem agora a novos picos.

A primeira explicação para o recrudescimento foi climática. Com a aproximação do inverno boreal, as pessoas passam mais tempo em ambientes internos, o que favorece o contágio. Isso é parte importante da equação, mas não é tudo.

Nações asiáticas (China, Taiwan, Coreia do Sul) mantêm as infecções sob controle, apesar do clima mais frio, e localidades do hemisfério Sul registraram altas mesmo com o calor. Aconteceu até no Uruguai, um dos países que mais sucesso tiveram na contenção da epidemia. Em São Paulo, vivemos um preocupante aumento das internações por Covid-19 que pode prenunciar coisa pior.

Uma hipótese para explicar isso é a do esgotamento do ego, um nome pomposo para cansaço. As pessoas conseguem manter-se disciplinadas, mas não indefinidamente. A força de vontade tem limites.

Foi o psicólogo social Roy Baumeister quem lançou a ideia de que o autocontrole funciona como um músculo, sujeito a episódios de fadiga, mas que também pode ser fortalecido por exercícios. Pesquisas empíricas deram suporte a esse modelo.

Durante meses, populações que podiam mantiveram o afastamento social, mas, quando surgiram sinais de que a situação melhorava, recaíram nas velhas rotinas, o que reacendeu a epidemia. Na Europa, trabalhos mostraram uma associação entre as novas infecções e eventos de supertransmissão ligados a viagens de férias, festas, vida noturna. Algo parecido parece ocorrer em São Paulo.

Como a vacinação em massa e o esgotamento dos suscetíveis ainda estão distantes, só nos resta tentar exercitar o autocontrole. Na Ásia, estão conseguindo.

Fonte: Folha de S. Paulo
Se você acha que a educação é cara, experimente a ignorância. (Deek Bok)

LUGARES

BRUGES - BÉLGICA

NÃO TROPECE NA LÍNGUA



CRASE COM NOMES

Como já foi visto, a crase envolve, além de um substantivo feminino determinado, a regência da preposição "a". Não só verbos (V. Não Tropece na Língua 071) mas também nomes – substantivos, adjetivos e advérbios – regem ou se servem da preposição "a" para se relacionar com os substantivos ou outros termos regidos. Por exemplo: horror a lugares fechados; útil a tanta gente; paralelamente a isso... Se depois desses nomes intermediados pela preposição "a" for colocado um substantivo feminino determinado, teremos a a,  o que implica uma crase e o uso do acento indicativo dessa crase/fusão. Nesses casos, valer-se do artifício da troca do substantivo feminino pelo masculino é muito bom para tirar a prova dos nove:

Manifestou seu horror à depredação [ao estrago] do patrimônio público.
É um instrumento útil à maioria [ao grosso] dos trabalhadores.
Paralelamente à exposição [ao espetáculo] haverá distribuição de cestas básicas.

É possível fazer a associação de nomes a verbos. Há alguns nomes que apresentam o mesmo regime dos verbos de que derivam. É o caso, por exemplo, dos verbos abaixo:

OBEDECER. Obedeça à sinalização. - Devemos obediência às leis de trânsito. É uma criança obediente à sua mãe. Agiu obedientemente à legislação em vigor.

EQUIVALER. Equivale a um terço do negócio. - É equivalente à terça parte.

REFERIR-SE. No seu discurso, o presidente referiu-se à má distribuição de renda. - No seu discurso, fez referência à má gestão das empresas.

VINCULAR-SE. O diretor vinculou-se a uma associação de benfeitores do esporte. - A associação está vinculada às empresas do setor metalomecânico.

Grande parte dos nomes que exigem a preposição "a", contudo, derivam de verbos com diferente regência. Em geral, verbos transitivos diretos:

Vou APOIAR a formação de um novo grupo de trabalho. - Vou dar apoio à formação de um novo grupo de trabalho.

Salários baixos não INCENTIVAM a eficiência e o desempenho. -  Salários baixos não são incentivo à eficiência e ao desempenho.

Margarida APRECIA a sogra. - Margarida tem apreço à sogra.

Eles AMAM a pátria em que nasceram. - Eles têm amor à pátria em que nasceram.

Sempre ELOGIO as pessoas esforçadas. - Sempre faço elogios às pessoas esforçadas.

PREFERIU a uva mais cara. - Deu preferência à uva mais cara.

CONSULTAMOS a entidade indicada. - Fizemos uma consulta à entidade indicada.

Para finalizar e variar um pouco, proponho ao leitor preencher as lacunas abaixo com à(s) ou ao(s), conforme o caso:

1. Foi fechado o acesso ___ ponte / ___ túnel.

2. Deu parecer favorável ___ cobrança / __ pagamento das alíquotas antes do prazo.

3. Faremos o acordo em cumprimento ___ alínea / ___ item 9.6 do edital público.

4. O governo liberou verbas destinadas ___ restauro / ___ recuperação do patrimônio atingido pelas cheias.

5. Vinha anunciando incursões bem-sucedidas em redutos tradicionalmente ligados ___ nobreza / ___ clero.

6. É necessária sua filiação ___ sindicato / ___ associação de funcionários.

7. A venda de “best-sellers” está restrita ___ supermercados / ___ bancas.

8. Não impôs nenhuma sanção ___ obras / ___ artefatos estrangeiros.

9. As demissões estão sujeitas ___ aprovação / ___ consentimento do Conselho.

10. Fez sua adesão ___ greve / ___ motim um pouco tarde.

Confira as RESPOSTAS CORRETAS: 1. acesso à ponte/ao túnel 2. parecer favorável à cobrança /ao pagamento 3. em cumprimento à alínea/ao item 4. destinadas ao restauro/à recuperação 5. ligados à nobreza/ao clero 6. filiação ao sindicato/à associação 7. restrita aos supermercados / às bancas de revistas 8. sanção às obras /aos artefatos 9. sujeitas à aprovação/ao consentimento 10. adesão à greve/ao motim.

Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS


quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O QUE AS URNAS DISSERAM

O QUE AS URNAS DISSERAM
Hélio Schwartsman

O mais eloquente é que Jair Bolsonaro se deu mal

O que as urnas disseram no domingo? Várias coisas. A mais eloquente delas é que Jair Bolsonaro se deu mal.

Dos 13 candidatos a prefeito que o presidente decidiu apoiar, nove fracassaram já no primeiro turno, dois se elegeram —os de Ipatinga (MG) e Parnaíba (PI), que não chegam a ser megalópoles— e dois passaram para o segundo escrutínio —Rio de Janeiro e Fortaleza—, com chance maior de perder do que de ganhar.
Dos três membros da família estendida que concorreram a cargos de vereador ostentando o sobrenome Bolsonaro, só um, Carlos, o zero-dois, conseguiu uma vaga, ainda assim com 35 mil votos a menos do que obtivera em 2016.

Também parece lícito concluir que a onda niilista que tomou de assalto o eleitor em 2018 passou. Prevaleceram nomes e partidos tradicionais. Aparecem nas listas de legendas vitoriosas DEM (depois de quase ter sido extinto nos anos Lula-Dilma), MDB, PSD, PP, PSDB (se triunfar em São Paulo). O PSL, que, na esteira da eleição de Bolsonaro em 2018, se tornara o segundo maior partido (em cadeiras na Câmara), teve até aqui desempenho pior do que pífio.

A esquerda parece estar se recuperando do desastre que foram as municipais de 2016, mas sem a hegemonia do PT. O partido que brilha nestas eleições é o PSOL.

O que tudo isso diz sobre 2022? Um pouco, mas não muito. A aparente mudança de humor do eleitorado é relevante, mas seria um erro tomar os resultados de agora como uma prévia de 22. É que, em eleições locais, o eleitor tende a privilegiar questões locais. O fato de ele ter escolhido agora lideranças mais moderadas não significa necessariamente que repetirá isso no próximo pleito.

Alguns países renovam parte do Legislativo no meio do mandato do presidente. É uma opção interessante para uma eventual reforma política. Dá ao eleitor uma chance de se manifestar sobre a administração, e ao líder, uma oportunidade para corrigir rumos.

Fonte: Folha de S. Paulo
Os conselhos raramente são bem-aceitos, e são os que mais precisam que os recebem com o menor prazer. (Phiplip Chesterfield, escritor inglês)

LUGARES

KAYSERSBERG - FRANÇA

AO VENDEDOR, AS BATATAS

AO VENDEDOR, AS BATATAS
Fernando Albrecht

Uma senhora de idade foi aconselhada pelo caixa do supermercado a trazer sacola de pano, explicando que não agride o meio ambiente. A senhora pede desculpas, dizendo que não havia onda verde no seu tempo. O caixa ataca de novo.

– Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com nosso meio ambiente.

– Você está certa. Naquela época, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e cerveja eram devolvidas à loja, que as mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e os fabricantes de bebidas as reusavam. Realmente não nos preocupamos com o meio ambiente no nosso tempo. Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios.

Ela faz pausa e volta.

– Você está certa. As fraldas eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. Secávamos nossas roupas usando o sol e o vento, não nessas máquinas elétricas. Na cozinha, tínhamos que bater tudo com as mãos porque não havia eletrodomésticos. Mas você está certa. Usávamos copos de vidro ou canecas em vez de usar copos plásticos e garrafas pet, que agora lotam rios e oceanos.

E por aí se foi a velhinha carregando na ironia, exemplo a exemplo, caso a caso.

Quando eu li isso, lembrei-me de uma Piada de Caserna dos anos 50 da revista Reader’s Digest. Um recruta do exército norte-americano foi informado que ele fora transferido para a cozinha do quartel, e que sua nova função seria descascar batatas. Ao enxergar um Everest de batatas na despensa, reclamou.

– Puxa vida, sargento? Pensei que nosso exército já contava com máquina de descascar batatas!

O sargento nem se abalou.

– E tem. Você é o nosso último modelo.

Fonte: fernandoalbrecht.blog.br

FRASES ILUSTRADAS


terça-feira, 17 de novembro de 2020

ELEIÇÃO PARA PREFEITO

ELEIÇÃO PARA PREFEITO
José Horta Manzano

A cada quatro anos, quando chega a hora de escolher prefeito, volto ao assunto. O modo de eleger o chefe do Executivo municipal revela o descompasso entre o Brasil das grandes metrópoles e o dos municípios menores.

Nossa legislação eleitoral prevê que somente municípios com mais de 200 mil eleitores têm direito a organizar um segundo turno para afinar a escolha do prefeito. Isso dá 95 municípios num total de 5570.

Olhando por outro prisma, constata-se que somente 40% dos brasileiros têm direito a essa segunda votação: são aqueles que residem em municípios populosos. Os demais – que excedem 60% dos habitantes do país – têm de se contentar com o resultado do primeiro turno.

No tempo em que se votava em cédula de papel, essa restrição era compreensível. De fato, além de sair caro, a apuração demandava tempo e mão de obra. Hoje, com a generalização da urna eletrônica, a dificuldade desapareceu.

A Constituição reza que todos os brasileiros são iguais. A gente sabe que, na prática, não é bem assim, mas não vamos exagerar; já há muita desigualdade por aí, não convém criar mais uma. Não é justo que, na hora de escolher prefeito, somente os habitantes de grandes centros tenham direito a afinar o voto, enquanto, para o resto, vai com casca e tudo.

Pra ser eleito, presidente tem de receber mais de 50% dos votos. Governador idem. Prefeito de grande metrópole ibidem. Por que, então, essa discriminação contra moradores de centros menores? Será que são menos brasileiros que os outros?

Nos anos 80, quando não havia ainda segundo turno para eleição nenhuma, uma candidata à Prefeitura de São Paulo foi eleita com apenas 33% dos votos, porcentagem que abala a legitimidade do eleito. Desde que o segundo turno foi instituído, esses sustos deixaram de ocorrer na maior parte dos casos; mas ainda resta o problema dos municípios menores.

A meu ver, estão sendo vítimas de injustiça. No entanto, pensando bem, se eles que são os interessados não reclamam, por que é que eu vou me preocupar? Vamos deixar pra lá.

Volto ao assunto daqui a quatro anos. Se o destino permitir, naturalmente.

Fonte: brasildelonge.com
O fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos. (Friedrich Nietzche, filósofo alemão)

LUGARES

GUARDA - PORTUGAL

ROMANCE FORENSE

Charge de Gerson Kauer
O CASAMENTO APOSENTADO
Por George Willian Postai de Souza, 
advogado (OAB/SC nº 23.789) 

Numa metrópole germânica do Norte catarinense, na encruzilhada entre as serras Dona Francisca, do Mar e este próprio, localiza-se um dos ares mais abafados e um dos climas mais chuvosos do país. 

O dia é típico e o jantar na casa do experiente advogado, rodeado pela esposa, filhos e nora – todos profissionais da Advocacia e com atuação no ramo previdenciário – ocorre em clima de descontração. 

Um dos filhos, já casado, comenta à mesa que conhece sua esposa há dez anos e sugere já estar na hora de “trocá-la", fazendo referência à piada muito frequente entre os homens e, obviamente, de gosto questionável para as mulheres.

Continuando no tom animado da conversa, o experiente advogado relata que já está há 33 anos casado. E filosofa pendendo para a situação jurídica de seu ramo de atuação:

- Meu casamento está quase se aposentando. Mais dois anos e se aposenta integralmente.

E divaga:

- Isso porque poderia-se questionar sobre a especialidade do casamento. 

O filho mais novo também faz suas considerações:

- Seria insalubre ou até mesmo periculoso... e já teria direito aos 25 anos.

E todos caem em gargalhadas, diante da situação jurídica colocada à prova em um tema em total descompasso com a norma. 

Levando as mãos perto da orelha, em referência à fama das mulheres de não falar, mas proferir palestras para os maridos, o pai dispara: 

- Eu entendo que o casamento se enquadraria como aposentadoria especial por insalubridade, pelo ruído!...

A gargalhada é geral e a descontração permeia o clima na mesa de jantar. Contudo, sua esposa discorda:

- Eu também entendo que nosso casamento se enquadraria como aposentadoria especial, mas por periculosidade.

Todos questionam a razão - e ela sentencia o assunto com maestria:

- Gases inflamáveis!

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

ABSURDOS PRESIDENCIAIS

Charge do Brum
ABSURDOS PRESIDENCIAIS 
Eliane Cantanhêde
Estadão

Como Geisel e Aureliano, agora é Mourão que dá choque de realidade nos absurdos presidenciais

A ira despudorada do presidente Jair Bolsonaro não é só contra o futuro presidente da maior potência do planeta e o governador do principal Estado do Brasil, mas também contra o seu próprio vice-presidente, o general de quatro estrelas Hamilton Mourão, que parece, no íntimo, se divertir com o descontrole e os absurdos do presidente, que vira piada mundo afora.

“Quando acaba a saliva, tem de ter pólvora.” A patética ameaça de Bolsonaro foi dirigida a Joe Biden, mas poderia ter sido para Mourão, já que os dois estão sem se falar. Acabou a saliva e sobrou a pólvora entre eles, lembrando João Figueiredo e Aureliano Chaves. A diferença é que Figueiredo era general e Aureliano, civil; Bolsonaro é capitão e Mourão, general.

ESTILO DO JOÃO – O último presidente do regime militar também era destrambelhado, não raro ridículo, mas não estimulava golpistas, nunca ameaçou presidente nenhum, muito menos o dos EUA, nem pôs a saúde dos brasileiros em risco por ignorância e autoritarismo. O médico sanitarista Paulo Almeida Machado foi muito bem no Ministério da Saúde.

Figueiredo também abandonou o governo para lá, mas na ditadura não havia votos nem reeleição e ele não se lançou nos braços do “Centrão” da época e não saiu agredindo o Guaraná Jesus e as pessoas como “maricas” e “boiolas”. Quanto mais Figueiredo afundava no ridículo, mais Aureliano liderava a dissidência, civil e logo militar, pela redemocratização.

Por trás disso, impunha-se a autoridade do general Ernesto Geisel, que antecedeu Figueiredo, patrocinou sua ascensão à Presidência e depois se tornou fator decisivo para acordar as Forças Armadas contra o desmando, a bagunça e o próprio Figueiredo. Entre o Brasil e o seu apadrinhado, Geisel ficou com o País.

O RIVAL MOURÃO – Em outras dimensões e circunstâncias, Mourão tem mais diplomacia do que Geisel e Aureliano, mas corrige e tenta justificar o presidente e sua força é sua fraqueza: Bolsonaro não engole as comparações com seu vice, homem culto, que morou fora, fala línguas, gosta de livros, história e geopolítica. Como não suporta as comparações, Bolsonaro não suporta o próprio Mourão.

Quando o presidente desmentiu o general Eduardo Pazuello e disse que o governo não compraria a vacina “da China” ou “do Doria”, Mourão declarou: “Vai comprar, sim. Lógico que vai”. Quando o presidente fez birra e se recusou a cumprimentar o vitorioso nos EUA, Mourão foi mais ameno: ele deve estar esperando o resultado oficial…

MAIS PROVOCAÇÕES – Do outro lado, só pólvora. Bolsonaro já descartou Mourão em 2022, disse que não gasta saliva com o vice sobre assunto nenhum e ontem atacou uma proposta feita pelo Conselho da Amazônia como “mentira” do Estadão, que a publicou, ou “delírio” de “alguém do governo”. Bem… o conselho é presidido por Mourão.

Está em estudo a expropriação de terras de quem cometer crime ambiental e o presidente, furioso, disse que “o Brasil não é socialista/comunista” e que demitiria o autor – “a não ser que seja indemissível”. Só há um indemissível no governo. Logo, a pólvora teve destino certo.

VIDA DESGRAÇADA – Bolsonaro diz que sua vida “é uma desgraça”, ataca tudo e todos, isola-se no mundo, no País e nas suas patologias, com pólvora, armas, ameaças e zero medo do ridículo. Sobram o Centrão, que pula fora num estalar de dedos, a “ala ideológica”, dos filhos enrolados e um punhado de bobos, e os militares, que fazem o “toma lá (cargos), dá cá (apoio)” que sempre condenaram nos políticos.

Mourão cria horizonte para o Centrão, desdenha de filhos e ideológicos e repete Geisel no fim da ditadura, dando um choque de realidade nos militares. Não é à toa que Sérgio Moro inclui o vice nas articulações que se dizem “de centro” e para 2022, mas são de resistência. Bolsonaro passou dos limites.

Fonte: Tribuna da Internet
O gênio, esse poder que deslumbra os olhos humanos, não é outra coisa senão a perseverança bem disfarçada. (Johann Wolfgang von Goethe, escritor alemão, 1749-1832)

LUGARES

TRENTO - ITÁLIA

MENOS GOVERNO

MENOS GOVERNO*
Martha Medeiros

Só agora assisti ao documentário Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim, que foi premiado anos atrás em vários festivais de cinema. A câmera se infiltra em salas de aula da periferia e em escolas de elite também, enquanto o diretor extrai depoimentos de professores e, principalmente, de estudantes que têm entre 12 e 16 anos. Como é a relação deles com a escola? O que aprendem, o que pensam, o que sentem, o que sonham, como lidam com a autoridade e com os colegas, que futuro aguarda por eles? 

Quando o filme acabou, juntei meus restos e saí da sala arrastando os pés. A esperança havia espocado em uma cena ou outra, mas, de modo geral, a sensação com que fiquei é de que o Brasil só tem uma saída: reunir todo o dinheiro que sobrou das maracutaias e investir tudo em educação. Tudo. Fazer uma revolução radical no país através da educação. Se o governo fizesse isso, não precisaria fazer mais nada, do resto cuidaríamos nós. 

Sei que é uma utopia, mas qual a alternativa? Não existe futuro enquanto a garotada continuar desassistida, carente, cumprindo mecanicamente um currículo que não tem aplicação prática em seu desenvolvimento e se tornando vítima fácil da depressão. Se o governo não dá conta, então o que precisamos é de menos governo. Tchau, governo. 

Para que precisamos dele? O alto escalão se ocupa apenas em negociar cargos entre si, em fazer conchavos, em acumular milhões em contas na Suíça. Esqueceram por completo que existe um país implorando por ajuda. O povo brasileiro deixou de existir para quem, a priori, deveria zelar por ele. Poderiam ser indiciados por mais esse crime: abandono de lar. 

Bem feito pra nós, que nos acostumamos com a ideia paternalista de que o governo (qualquer governo) existe para solucionar nossos problemas, que é só dele a responsabilidade pelo nosso bem-estar. Deu nisso: um povo mimado. Impossível não perceber a infantilização que há na troca de farpas entre simpatizantes de partidos oponentes, agindo feito crianças: "Foi ele que começou!". 

O que importa isso agora? Estamos todos de castigo. 

O jeito é tentar se emancipar. Tomar conta da nossa rua, do nosso bairro, da nossa vida. Ser solidário com os outros, fazer mais voluntariado. Formar grupos de interesse comum, se unir com quem possui os mesmos propósitos, inventar novas maneiras de prosperar. Ser mais independente. Trocar o ressentimento pela proatividade. Usar a internet não para brigar, mas para compartilhar palestras, vídeos criativos, discussões bem embasadas, lançar novos serviços. Aproximar-se da literatura, da música, da filosofia, do esporte, da natureza, da psicologia, da arte, a fim de pensar no país de forma mais positiva e educar-se a si mesmo. 

Utopia, de novo? Desculpe, é que ser realista não está funcionando. 

Fonte: Zero Hora – 14/10/2015

(*) republicado pela pertinência

FRASES ILUSTRADAS


domingo, 15 de novembro de 2020

DEMÊNCIA DE BOLSONARO

DEMÊNCIA DE BOLSONARO
Ruy Castro 

Para nós que passamos 21 anos de vida adulta (1964-1985) sob a ditadura, os generais eram sujeitos sinistros, de óculos escuros, que nos ditavam quando, se e em quem podíamos votar, o que podíamos ler, ver, escutar, dizer e escrever e, se falássemos em instituições, direitos e liberdade, eles mandavam prender e arrebentar. Eles tinham as armas, as verbas e as canetas com as quais impor sua autoridade. E os porões, instrumentos de tortura e beleguins para aplicá-la. A mera visão de uma farda era intimidadora. Ela nos reduzia moralmente à menoridade, às calças curtas, à fralda.

Aí está algo incompreensível para um brasileirinho de hoje. Ele não entenderá como os militares podiam ter essa força. Para ele, militares são sujeitos que Jair Bolsonaro põe no governo, exibe nas redes sociais e logo começa a depreciar, diminuir, desmoralizar e, por fim, fulmina com a demissão. Em menos de dois anos, já fez isso com 16 generais, quatro brigadeiros e um almirante, e só entre os oficiais de alta patente.

Segundo levantamento da Folha, Bolsonaro demite um desses caciques por mês, até os que, por causa dele, abriram mão de suas promoções. Nada se compara, claro, ao esbofeteamento simbólico a que vive submetendo o general Eduardo Pazuello, pseudoministro da Saúde e seu mais dedicado ajudante de ordens.

Se Bolsonaro trata assim os graúdos, imagine seu apreço pelos 6.000 fardados do segundo time com que entupiu os ministérios, estatais, autarquias e bancos públicos. Só lhe servem para alimentar sua ilusão de que comprou o Exército.

Pode ser psicologia de galinheiro, mas estou certo de que Bolsonaro faz tudo isso para se compensar de humilhações em sua medíocre carreira militar. É uma forma de demência, que parece fascinar os generais – ou não se submeteriam a ela.

O brasileirinho de hoje tem razão. Se eles são assim, como conseguimos passar 21 anos sob suas botas?

Fonte: https://brasildelonge.com

WILLIAM TELL OVERTURE

GLEN CAMPBEL 
smokin' instrumental
O verdadeiro líder não precisa conduzir. Basta que ele mostre o caminho. (Henry Miller)

LUGARES

BUDAPESTE - HUNGRIA

HISTÓRIAS DO TIO ARTHUR

 HISTÓRIAS DO TIO ARTHUR

Sábados à tarde, 17,30 hs. muitos jovens tinham um programa imperdível: sintonizar a Rádio Caxias para ouvir, na voz marcante de OSVALDO DE ASSIS, as “Histórias do Tio Arthur”.
24/julho/1959
Também era possível ir aos estúdios da Rádio Caxias, no primeiro andar do City Hotel, para não apenas ouvir mas também presenciar a figura esguia do famoso radialista lendo aquelas histórias que nos faziam viajar pelo mundo dos sonhos.
Outra atração do programa era o sorteio de ingressos para o cinema Ópera. Finda a narrativa, o locutor fazia algumas perguntas sobre conhecimentos gerais e quem respondesse corretamente era premiado com um ingresso.
Havia uma garota que sempre estava presente e por ser muito estudiosa, é o que se supõe, sempre acertava as respostas.
Era verdadeiramente difícil concorrer com ela, mesmo por que, eu não era lá muito estudioso.
Num determinado sábado fui até a rádio, como já o fizera em outras oportunidades, quando as tarefas de auxílio na ferraria do meu pai o permitiam. Mas isto é outra história.
Nesse dia, uma das perguntas indagava dos jovens ali presentes o nome da Miss Universo recém eleita. Levantei o braço e fui instado a responder.
- Akiko Kojima (não sei se é assim que se escreve) - respondi.
- Ceeeerrrto, disse o Osvaldo de Assis.
Ganhei o ingresso, de acordo com as regras do jogo, mas a minha maior satisfação naquela tarde foi vencer aquela que parecia invencível. Para mim foi um dia de glória!
De qualquer maneira a sorte resolveu dar uma olhada para o meu lado uma vez que naquela semana havia acontecido o então famoso evento para a escolha da Miss Universo. O certame era transmitido pelas rádios e minhas irmãs sempre acompanhavam com vivo interesse a escolha da mulher mais bonita do mundo. 

E, o fato de uma japonesa ter vencido o certame, não deixava de ser algo inusitado. Talvez pela graça da sonoridade – Akiko Kojima - gravei o nome da vencedora como quem grava o nome de um jogador de futebol ou coisa parecida. 

CHARGES


FRASES ILUSTRADAS


sábado, 14 de novembro de 2020

UM PAÍS DE MARICAS

UM PAÍS DE MARICAS
Hélio Schwartsman

Somos, sim, covardes e medrosos, porque ainda não iniciamos o processo de impeachment

Hoje vou concordar com Bolsonaro. Peço antecipadamente desculpas pelo nível da linguagem, mas somos, sim, um país de maricas, no sentido de medrosos, covardes, poltrões. Somos tudo isso porque ainda não iniciamos um processo de impeachment contra o presidente, apesar do impressionante número de crimes de responsabilidade (e comuns) que ele acumula.

No último dia 10, uma terça-feira especialmente gorda, ele conseguiu, num intervalo de poucas horas, aniquilar a dignidade do cargo, colocar em perigo a saúde pública e ainda ameaçar ir à guerra contra os Estados Unidos, a potência militar hegemônica do planeta que nos derrotaria de olhos fechados. Os otimistas podem regozijar-se com o fato de que, desta vez, ele pelo menos não atacou o Legislativo nem o Judiciário, como fazia semanalmente até pouco tempo atrás.

Estou ciente de que, hoje, politicamente, seria quase impossível aprovar o afastamento do presidente. Desde que ele se aliou ao centrão (traindo, aliás, uma de suas promessas de campanha), tornou-se inviável obter os 2/3 de votos na Câmara e no Senado necessários para destituir o presidente. Mas eu não estou reclamando do fato de não aprovarmos o impeachment, e sim do de não o iniciarmos, para o que bastaria uma canetada do presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Como venho sustentando desde maio, temos, como sociedade, o dever moral de reagir aos descalabros presidenciais. Minha preocupação nem é com o aqui e o agora.

Dentro de uns 10 ou 15 séculos, quando historiadores forem estudar o Brasil do início do século 21, encontrarão registro dos ditos e feitos de Bolsonaro. Se não acharem também evidências de uma reação institucional a eles, parecerá aos arqueólogos do futuro que a sociedade como um todo coonestou as atitudes do presidente, o que simplesmente não é verdade. É preciso deixar marcas de que nem todos perderam a sanidade e o senso de decência nestes tempos conturbados.

Fonte: Folha de S. Paulo