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quarta-feira, 20 de maio de 2020

A MORAL

Por Sérgio Jockymann

Pois, houve uma época em que Vila Velha teve um juiz muito rigoroso, o doutor Flodoaldo de Andrade, que usava um bigode muito sério e era casado com a dona Delmira Gomes de Andrade e morava num palacete no outro lado da praça. O doutor Flodoaldo já entrou em Vila Velha de cara fechada e depois de ter dado dois passeios pela praça, se espalhou o boato que ele usava um colete de aço para manter a espinha em pé. De bom mesmo ele só tinha a mulher, que andava num passinho miúdo e tinha uma boca tão vermelha, que não havia menino de mais de doze anos que não se lembrasse dela quando fechava os olhos. Até o coronel, que andava muito bem servido com a mulata Maria, quando via passar a dona Delmira, tinha uma tosse seca e curta e uma esperança que um dia alguém arrebentasse com a cabeça do juiz, para que houvesse mais uma viúva no mundo.

O douto Flodoaldo já entrou na cidade implicando com o cinema e baixou uma portaria proibindo menor de quinze anos de ir ao cinema de noite, pelo que recebeu o elogio de todos os pais e um palavrão daquele tamanho, escrito a giz na porta do palacete. Depois disso, o doutor Flodoaldo também resolveu regular a entrada de menores nos bailes e proibiu que tocasse jazz-band na casa da Zoé, por causa do barulho. Ja nesse ponto, o coronel começou a sentir um tremor no olho sempre que passava pelo juiz e comentou que mais cedo ou mais tarde, o homem fazia uma bobagem. Uma semana depois disso, o coronel foi passar uma semana na fazenda e o doutor Flodoaldo fez a bobagem.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

FARROUPILHA

Por Sérgio Jockymann

Pois, em Vila Velha, contavam essa história e, por sinal, quem andou contando pela primeira vez foi o coronel, num domingo que a mulher do Joãozinho fugiu com um agrimensor e o marido tinha querido beber veneno. O coronel foi um dos que impediu, o que "O Independente" chamou no dia seguinte de "tresloucado gesto", coisa que já naquele tempo só o vibrante semanário tinha a coragem de dizer de gestos tão desesperados. Ninguém conseguiu descobrir nenhuma razão para que o Joãozinho continuasse vivendo e nem as anedotas pornográficas do seu Aristides, conseguiram reanimar o marido enganado, mesmo porque todas elas tinham mulher no meio e no desfecho a vítima suspirava e concordava:

- Mulher não presta mesmo.

Assim, o coronel que tinha Joãozinho em muita conta, porque entre outras coisas ele fazia a contabilidade da Prefeitura, resolveu contar essa história que depois correu mundo.

- Essa é do Flores.

Pelo menos foi o que o coronel disse e portanto deve ser responsabilizado por todos os contratempos decorrentes. De qualquer modo, pondo a mão na consciência, não se vai encontrar nenhum outro governador que tivesse gostado tanto de pôquer e bendito sejam os governadores jogadores porque pelo menos só saíam fora do sério no pano verde. Mas o ilustre governador, seja lá quem for ele, jogava um pôquer muito animado com um paulista que tinha só Deus sabe quantos pés de café. O ilustre governador perdia e não era homem que encarasse uma coisa dessas com muita esportividade. Claro que poderia ter mandado dar quantos tiros quisesse no paulista, mas quem joga pôquer sabe que a graça está em ganhar na mesa. Foi assim, que numa das jogadas, o senhor governador resolveu passar um respeitável cachorro e o paulista, depois de duas piscadinhas nervosas, limpou a garganta e avisou:

quarta-feira, 6 de maio de 2020

O EXÉRCITO

Por Sérgio Jockymann

Pois, o coronel não era muito flor de se cheirar, embora depois de certa idade ter melhorado muito. Entre os trinta e os quarenta, teve lá o seus ardores guerreiros e brigou por brigar em todas as revoluções que apareceram pela frente e em outras que apareceram por trás. Mas isso de andar brigando também tem os seus cansaços e um dia, chupando um chimarrão, o coronel se pôs a pensar em tudo que tinha feito e no que ainda tinha para fazer e achou que nem sempre tinha sido tão sabido como pensava nem tão burro quanto parecia. Claro que tinha medalhas, citações e até uma espada de prata, que segundo o Clarimundo, pouco avesso a essas honrarias, não servia nem para cortar costela. Mas tinha também muitos furos de bala pelo corpo, três balas metidas na carne só para doer quando o tempo estava para chuva e dinheiro muito minguado para tanta honra.

O chimarrão tem essas virtudes. É uma bebida sem pressa, que esquenta o corpo e esfria a cabeça, até que o pior toupeira do mundo a descobre que tem miolos e que sabe pensar. Ora, no coronel, que já tinha descoberto tudo isso há muito tempo, os pensamentos foram crescendo, crescendo, até que ele deu um murro no joelho, largou um palavrão e desabafou:

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A CAMPANHA

Por Sérgio Jockymann
Pois um dia, toda a redação do vibrante órgão de imprensa de Vila Velha, "O Independente", composta de um diretor e três redatores, teve uma importante reunião a fim de tratar de graves problemas da cidade. O mais grave de todos era que "O Independente", que nos bons tempos chegava a vender 500 exemplares, agora a pau e corda conseguia vender 165. Cada cem exemplares não vendidos provocavam a despedida de um redator e assim os três restantes sentiam o problema de um modo muito particular. Quanto ao Alfredo, diretor proprietário, que nos bons tempos possuía duas castelhanas importadas, estava agora reduzido aos carinhos de sua legítima esposa, que era uma santa criatura, mas não dessas capaz de entusiasmar um marido para qualquer coisa mais violenta que um chá com bolinhos.

Vai daí que o problema de aumentar a circulação de "O Independente" era de fato de suma gravidade. O Armando, um dos redatores mais afoitos e sonetista famoso, chegou a sugerir uma campanha contra o coronel, mas o Alfredo depois de pesar os contra não achou nenhum pró e discordou:

- O que nós precisamos é de algo diferente.

Ora, no dia anterior, por falta de dinheiro o Arnaldo tinha sido convidado a sair da casa da Zoé e naquele momento queimava de raiva e amargura. E tão logo o Alfredo falou em algo diferente, a inspiração brotou de sua cabeça:

- Vamos lançar uma campanha de moralização.

O Alfredo pensou nas castelhanas e deu um suspiro. Mas como elas já tinham partido, se sentiu meio irmão do Arnaldo e aceitou a idéia.

- Isso mesmo. Vamos lançar uma campanha de moralização.

No dia seguinte, "O Independente" publicava na primeira página um violento soneto do Arnaldo, intitulado "Sodoma e Gomorra". Soneto que deu muito trabalho porque Gomorra só rimava com corra, desforra e borra e por mais que o Arnaldo procurasse não encontrou nenhuma outra rima. Ao contrário do que se esperava, o soneto não teve a mínima repercussão, sendo que ainda para mal dos pecados, um gaiato encontrou uma outra rima para Gomorra e fez uma paródia pornográfica como o diabo em noite de sábado.

Alfredo então achou que um soneto não bastava e preparou uma edição especial, que abria com uma manchete memorável:

- Vila Velha, a cidade do pecado.

Arnaldo tinha escrito o texto na frente da janela que dava para a casa da Zoé. Cada vez que uma gargalhada rebentava do outro lado, era uma frase candente que ele punha no papel. Como era um oposicionista ferrenho, lá pelas tantas saiu a dizer que o grande responsável era um certo coronel que acobertava todos os vícios e alimentava todas as infâmias. O Clarimundo, que pelo sentido da frase achou que infâmia era outra coisa, acordou o coronel com o jornal na mão.

- Coronel, estão dizendo que o senhor dá de comer para todas as meninas da Zoé.

O coronel leu o artigo e levantou a sobrancelha esquerda, sinal mais do que evidente de que não tinha gostado.

- Me chama o Alfredo.

Meia hora depois, o Alfredo estava no gabinete do coronel.

- Que negócio é esse?

- Vamos moralizar a cidade.

O coronel deu um murro na mesa e explodiu:

- Alfredo, se tu pensa que vai arrancar dinheiro da Zoé, está enganado.

O Alfredo disse que não queria arrancar dinheiro de ninguém, mas pura e simplesmente tornar Vila Velha uma cidade decente.

- Decente como?

Alfredo disse. E levou mais cinco minutos dando a relação de todas as degradações, que iam desde a casa da Zoé, até a expulsão de quatro irmãs que moravam na entrada da cidade e que, a bem da verdade, se deve dizer que nunca cobraram um tostão de ninguém, mas faziam o que faziam por puro amor à arte. Alfredo tomou fôlego e concluiu: 

- Vamos convocar todas as mães de família, todos os padres, todos os homens de bem para uma campanha moralizadora.

O coronel quando pensou nos homens de bem de Vila Velha teve um arrepio.

- Alfredo, entendi o problema. Manda buscar aquelas castelhanas que eu te empresto dinheiro.

O Alfredo fez um ar muito frio e respondeu que não sabia do que o coronel estava falando.

- Ah, é assim? Pois vou apoiar a campanha.

O outro não quis acreditar.

Vou. Quer saber do que mais? Vou te ajudar a desmascarar todos os cretinos da cidade. Amanhã passo no jornal.

O Alfredo saiu da casa do coronel pisando em nuvens. O único que não gostou da novidade foi o Arnaldo, que já estava com um soneto pronto chamando o coronel de Borgia dos Pampas.

- Mas ele vai apoiar mesmo?

- Me deu a palavra.

E de fato, no dia seguinte, o coronel entrou na redação do jornal com um ar muito satisfeito.

- Tenho todo o material aqui. Cartas, fotografias, confissões, testemunhos. Tudo.

A redação de "O Independente" ficou de boca aberta. O coronel jogou a papelada em cima da mesa.

- Primeira reportagem: a história de duas castelhanas que o diretor do Independente sustentava. Com uma fotografia do diretor de cuecas, gentilmente cedida por uma das vítimas. Segunda reportagem: a história de uma mulher da vida que durante seis meses emprestou dinheiro para o Arnaldo que só pagou com um soneto. E aqui está o soneto. Querem ouvir mais?

Ninguém queria.

- Muito bem, meus anjinhos. Podem publicar tudo isso no próximo número.

E inexplicavelmente no próximo número de "O Independente", o jornal publicava um artigo sobre Maria Madalena e um soneto do Arnaldo que começava assim: "Oh, tu, filha do pecado que mendigas um perdão". (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 126)

quarta-feira, 22 de abril de 2020

O FALSÁRIO

Por Sérgio Jockymann

Pois, até os cinquenta e quatro anos, o Antunes foi apenas um humilde tipógrafo de "O Independente", vibrante órgão usualmente semanal de Vila Velha, embora se tornasse sempre diário durante as campanhas políticas, quando era tão independente quanto pretendia. O Antunes apareceu em Vila Velha com quarenta anos e uma história comprida e embrulhada sobre uma litografia paulista, que chegou a ser a primeira da América do Sul e de repente faliu. Era um sujeito quieto e pacífico, que uma vez por semana visitava as meninas da Zoé, pagava duas cervejas e voltava para casa, onde passava noites de domingos, trabalhando com placas de chumbo, com uma finalidade que ninguém sabia e também não se interessava.

Até que um dia, pagou as duas cervejas com uma nota novinha de quinhentos mi réis e fez brotar uma pulga atrás da orelha da Zoé, que era mulher vivida e não tinha pulgas com tanta facilidade como outras pessoas. A Zoé virou e revirou a nota até que pediu para falar com o Antunes.

- Onde foi que você arranjou dinheiro novo?

O Antunes ficou com olhinhos de cobra e perguntou qual era o problema. A Zoé não olhou a nota, olhou o Antunes durante bem um minuto e ficou convencida.

- Antunes, esse dinheiro é falso.

O Antunes quase chorou.

- Como foi que você descobriu?

- Pelo tamanho dos teus olhos, infeliz. Conheço a freguesia.

Ele piscou duas vezes, depois começou a rir.

- Você é uma diaba de mulher esperta, Zoé.

Ela nunca foi modesta.

- Ah, isso sou mesmo.

O Antunes tornou a rir e confessou desavergonhadamente.

- Pois é dinheiro falso mesmo.

- Quem foi que fez?

- Eu.

A Zoé nunca pensou que o Antunes tivesse tanta capacidade e por isso levou um tempo enorme para acreditar naquilo.

- Como foi que você fez?

- Ah, isso é um segredo.

Pegou a nota com a ponta dos dedos e pôs de encontro à luz.

- Veja, tem até marca d'água.

A Zoé olhou e teve que reconhecer que era perfeita.

- Será que passa?

O Antunes se ofendeu.

- Se não passar, passo o resto da vida como frade. Levei quarenta anos para fazer essa obra prima.

A Zoé ainda estava desconfiada.

- Posso levar no banco?

- À hora que quiser.

No dia seguinte, a Zoé foi no banco, chamou o caixa e disse que achava que a nota era falsa. O caixa virou e revirou e deu o veredito:

- Verdadeira.

A Zoé não se convenceu e foi na coletoria. Mesma coisa.

- Tem certeza?

- Absoluta.

Foi aí que o diabinho da cobiça entrou no corpo da Zoé e naquela noite ela pagou duas cervejas para o Antunes.

- Antunes, você sabe que sou uma mulher de negócios.

O Antunes sabia.

Como diz o coronel, um artista sem um homem de negócios do lado termina na miséria.

O Antunes tornou a concordar. A Zoé encheu mais um copo, pediu um conhaque e propôs:

- Você fabrica e eu distribuo. Cinquenta po cento.

O Antunes rebentou numa gargalhada e disse que não.

- Sessenta para você, quarenta para mim.

O Antunes cada vez ria mais alto.

- Dou setenta por cento.

Só piorou a risada do Antunes. Diante disso, a Zoé achou que dez por cento era melhor do que nada e fez a proposta - cheia de humildade. Mas o Antunes negou novamente. A Zoé teve uma crise de choro, lembrou para o Antunes que sempre tinha lutado contra a sorte, que já estava chegando aos quarenta, que mais dez anos e só Deus sabe onde ela estaria, mas o Antunes continuou negando.

- Quer dizer que não quer me dar dez por cento?

- Não.

- Olho grande desgraçado, vou te rogar uma praga que teus dentes vão quebrar até comendo manteiga.

A Zoé era famosa pelas pragas que rogava, mas nem assim conseguiu fazer com que o Antunes mudasse de idéia.

- Mas que diabo, homem, qual é o problema?

De repente, o queixo do Antunes tremeu, os olhos se encheram de lágrimas e entre soluços ele desabafou:

- Cada nota de quinhentos mil réis me custa mais de cinco contos.

E a Zoé, que sempre foi uma mulher sensível, desandou a chorar também. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 131)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

A CAMA

Por Sérgio Jockymann
Pois, o Polaco sempre foi meio maluco. A começar por aquela mania de andar catando cobra em tudo que era canto, que deixava o pessoal de Vila Velha de cabelo em pé. A casa do Polaco vivia cheia de caixas esquisitas que, uma vez por mês, saíam de Vila Velha para a Europa. Ninguém se metia com aquele carregamento em Vila Velha, mas em Porto Alegre houve um funcionário da Alfândega que teimou que era contrabando e enfiou a mão lá dentro. Berrou cobra e caiu duro com três jararacas agarradas no pulso. Depois disso, as caixas do Polaco ficaram em paz. É verdade que o coronel tentou descobrir quem diabo podia se interessar pelas cobras da cidade, mas o Polaco não falava português e o coronel não falava polonês, pelo que os dois desistiram de se entender. O coronel encerrou o assunto com uma frase histórica:

- Hoje em dia até porcaria se vende.

Ora vai que o Polaco numa dessas caçadas apanhou uma papa-pinto, feia como todos os diabos, com aquele papo amarelo e dois metros e meio de comprimento, que se tomou de amores por ele. Por mais que o Polaco enxotasse a bicha de casa, lá estava ela no outro dia. Uma semana depois os ratos sumiram como por encanto e o Polaco adotou a papa-pinto, que andava pela casa como se fosse um cachorrinho. As visitas não gostavam muito de ver aquela bicharoca deslizando pelo assoalho, mas o Polaco numa horrenda mistura de português e polonês explicava que papa-pinto não tem veneno. Duro de acreditar num negócio desses, porque cobra feia estava ali, com aquele comprimento todo e aquela finura nojenta de cipó apodrecido. Mas era a pura verdade. A papa-pinto só comia seu três ovos por dia e alguns bichinhos distraídos. Fora disso só fazia dormir ao sol. Mas aí veio o inverno e uma noite, sem que o Polaco pedisse, a danada da cobra subiu pelo pé da cama e se refestelou embaixo das cobertas. O Polaco riu, coçou a cabeça da cobra e dali por diante a desgraçada virou companhia de cama. Bem, mas aí Dom Felipe resolveu apoiar o levante paulista e se meteu pelo mato para recrutar uma tropa, a fim de conquistar Vila Velha. E quando já tinha dezesseis malucos, bateu na casa do Polaco numa noite de esfriar até brasa viva.

- Dom Felipe, comandante da Tropa Revolucionária Gaúcha.

O Polaco respondeu com a sua mistura indecifrável e Dom Felipe não fez questão de entender.

- A casa tá confiscada provisoriamente.

Meia hora depois, o ordenança implicou que as caixas continham cachaça e meteu a mão lá dentro da maiorzinha. Nem chegou a tirar. Ficou ali vidrado, olhando para os outros sem dizer palavra, até que virou o corpo e caiu. Meia hora e já estava todo preto. Dom Felipe ficou danado da vida.

- Tranca o Polaco num quarto e joga esse bicharedo lá dentro.

O Polaco ainda tentou explicar que não tinha culpa, mas não adiantou. Foi jogado num quartinho com mais de oitenta cobras de todos os tamanhos. Ficou num canto, duro como estátua, enquanto o cobraredo todo se remexia pelo chão. Dom Felipe deu a justiça por concluída e foi examinar o resto da casa. Quando deu com a cama, arrancou as botas e avisou a tropa:

- Cinco da manhã me acorda. Vou dormir um sono só.

A tropa se aboletou pela sala e pela cozinha e Dom Felipe começou a roncar como um rolo de pia esvaziando água. E roncando ficou até que, lá pela meia-noite, acordou com um visgo escorrendo pelo braço esquerdo. Meio que acordou e ainda meio acordado, afastou aquela coisa e virou de borco. Aí acordou por inteiro, porque justamente debaixo de sua barriga, a papa-pinto começou a se espremer para se livrar daquele peso. Dom Felipe abriu a boca para gritar, mas tudo o que saiu foi um bafo. Quando ele puxou o ar de volta teve um soluço que estremeceu a barriga e a papa-pinto, mais do que depressa, desceu pelo umbigo e enfiou a cabeça pelo meio das pernas de Dom Felipe. Nem foi berro o que ele deu, mas um ronco de porco sangrando. Quando a tropa entrou no quarto ele estava caído para o lado, com os olhos vidrados. O Fagundes ergueu as cobertas e deu com aqueles dois metros e meio de cobra e não quis saber de mais nada. Largou pela casa aos berros, com a tropa toda atrás. Cinco da manhã, o Polaco abriu a porta do quartinho e com passinhos de um centímetro cruzou o portal. Foi logo para o quarto, onde deu com Dom Felipe chorando como criança de colo. Deixou a revolução paulista no dia seguinte e se fechou na estância com rosário na mão. Recuperou o juízo, mas jamais recuperou a tranquilidade na cama. Por mais que a mulher pedisse e implorasse, teimava em dormir com uma calça de couro cru. E com ela morreu após doze anos de castidade mais absoluta, porque como dizia o Padre Ramão:

- Perdi o gosto pela vida.

E só o Polaco achava que era bem feito, mas de um homem que dorme com cobra pode-se esperar tudo na vida. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 123)

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A PAIXÃO

Por Sérgio Jockymann

Pois, a Terezinha, quando veio ao mundo, pegou o pai já de paternidade encerrada e a mãe de desespero iniciado porque já andava com quarenta e oito anos e, segundo a medicina do mundo inteiro, longe e distante de surpresas desse tipo. Mas nem a natureza se comportava bem em Vila Velha, pelo que a Terezinha veio ao mundo, enquanto sua mãe saía dele, pronunciando uma frase célebre:

- Eu sabia que tava muito velha pra essas coisas.

Donde bateu um remorso medonho no coronel Firmino, que ficou pai e mãe da Terezinha, pronto a saldar com ela todas as dívidas que havia contraído com a mulher. Era a Terezinha pedir e o coronel Firmino atendia, política educacional que não ajudou a nenhum dos dois. A Terezinha nem tinha dez anos e já pegava paixões malucas, como aquela de querer um camelo, o que obrigou o pai a uma conversa de cinco dias com o dono de um circo, que terminou com a entrada triunfal do bicho na estância. A Terezinha subiu, olhou o panorama, pediu para descer e declarou:

- Não gostei dele.

O coronel teve que sair com o camelo a reboque por meio Estado, atrás de um circo que quisesse o animal. Nem por isso deixou de atender os pedidos da filha. Muito pelo contrário, aí é que ficou mais bobalhão, ao ponto até de comprar um narguilé para a Terezinha, que enfiou limonada dentro da engenhoca no primeiro dia e, no segundo, já dizia ao pai que o aparelho havia nascido para fazer bolha de sabão. No terceiro dia, o coronel não sabia mais o que fazer com aquele narguilé no meio da sala e deu de presente para o mascate Salim. E nem ficou aí a Terezinha, fez mil e duzentas iguais até que na milésima ducentésima primeira, entrou numa capelinha do Forte e saiu de lá transtornada.

Pai, tou de paixão com o padre.

O coronel Firmino disse que aquilo era obra da finada e pediu que a filha desistisse da idéia, mas a Terezinha já começou a ter um ataque e a coisa foi indo, até que o pai não teve outro remédio senão bater na capela. O padre era um recruta recém passado a pronto, filho de colonos italianos e quando ouviu a notícia caiu de joelhos e se benzeu. O coronel Firmino ficou revoltado e se pôs a provar que a vida eclesiástica não tinha o menor futuro.

- A Papa tu não chega, meu filho. Casa com ela que mais de que bispo você ganha.

O padre ergueu a batina e saiu em disparada coxilha abaixo, mas isso tampouco mudou a idéia da Terezinha, que se aboletou na aranha e saiu atrás do coitado por onde ele rezasse missa. Sentava sempre na primeira fila, a danada, e ficava lá piscando os olhinhos moleques para o padre que passava por todas as cores do arco-íris. Mas nem era isso que deixava o padre Fiori mais doido. O pior era que na saída da missa lá vinha o coronel Firmino com seus argumentos financeiros.

- Não tem alma pecadora que valha vinte cabeças de gado, padre.

O padre Fiori fez um retiro de seis semanas e nem bem saiu do convento, já estava o coronel Firmino com seu Buick imenso à espera dele. E tanto fez, tanto insistiu, tanto argumentou, que um dia o padre pôs os olhos na Terezinha e começou a duvidar da própria vocação. Mais uma semana e lá estava ele na frente do bispo confessando suas fraquezas. O bispo que era muito velho e muito vivido, disse que se tinha que haver um desastre, que houvesse enquanto era pouco.

- Peça licença ao Papa.

Oito pedidos fez o padre Fiori antes de apelar para todos os seus parentes, contra-parentes e conhecidos italianos. Nos meses seguintes, onde houvesse um Fiori, lá estava uma carta do padre pedindo os seus bons ofícios. E tanto escreveu que um dia veio a tal licença comemorada com champanhe na estância do coronel Firmino. Em três dias saíram as proclamas e no quarto o Fiori, trajando uma pavorosa roupa azul-marinho estava diante do altar, tremendo dos pés a cabeça, ainda meio zonzo pela rapidez da transformação. Pela porta da Igreja entrou o coronel Firmino de braço com a Terezinha, muito linda no seu vestido branco. E veio vindo ela, até ficar ao lado do Fiori, quando se voltou e lhe deu um longo olhar. Depois piscou três vezes, deu um risinho afogado, chamou o pai com o dedinho e disse para que toda a igreja ouvisse:

- Não gostei dele sem batina.

Deu meia volta e saiu da Igreja num passinho saltitante, enquanto o coronel Firmino levava a mão ao peito e se estendia de comprido no corredor. No meio da correria, só o Fiori não se movia, de olhos pregados no crucifixo, que havia em cima do altar. O coronel Firmino já chegou morto em casa. A Terezinha um ano depois casou com um primo e sentou a cabeça. Vítima mesmo só foi o coitado do padre Fiori, que se apresentou de joelhos ao bispo, que por mais vivo e velho que fosse, não agüentou a novidade.

- Cinco anos de penitência e quando terminar, vá salvar os índios do Mato Grosso.

O padre Fiori disse que faria a penitência com todo o prazer, mas que pedia humildemente ao bispo que não o enviasse para o Mato Grosso.

- Não é pelos índios, senhor, é pelas mulheres.

Pediu perdão a Deus e afirmou:

- Nunca mais quero pôr os olhos em cima de uma mulher na minha vida.

E não pôs. Foi ser capelão de uma penitenciária masculina, onde segundo o testemunho de alguns detentos, jamais citou, uma vez que fosse outra santa que não fosse Nossa Senhora. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 119)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O TESOURO

Por Sérgio Jockymann
Pois, se há coisa que Vila Velha sempre teve para dar e vender foi tesouro escondido. Teve e tem, porque até hoje não passa ano sem que um ilustre cidadão se ponha a cavar com todo o desespero d'alma no fundo do quintal só porque a esposa sonhou com um panelão cheio de moedas de ouro. Também nisso Vila Velha é muito original, porque todos os tesouros enterrados no seu solo, foram enterrados dentro de panelões de ferro. Claro que apareceram alguns em sonhos, enterrados em arcas de madeira, mas não foram levados a sério. Tesouro escondido para impor respeito tinha que ser enterrado em panelão de ferro e por jesuíta, porque as outras ordens não mereciam confiança. Outra exigência é que o tesouro fosse visto em sonhos e de preferência pela esposa. Assim, nos áureos tempos, nem bem passava a lua de mel e já as esposas se punham a sonhar com panelões de ferro nos momentos mais impróprios. Jamais apareceu um só desses panelões, mas nem por isso o pessoal de Vila Velha deixou de crer na sua existência, porque afinal há coisas no mundo que só a fé explica.

Assim pois, quando dona Maneca acordou sentada na cama numa madrugada de sexta-feira e anunciou:

quarta-feira, 25 de março de 2020

PAVIO

Por Sérgio Jockymann

Pois, basta olhar um touro para se saber que não há nada dentro daquela cabeça. Tanto é verdade, que o valor de um bicho desses está justamente quase na outra extremidade. E foi justamente após uma longa e cuidadosa olhada na parte em questão de um touro do major Aparício, que seu Feliciano decidiu comprar o bicho. Pagou trinta contos, o que deu assunto suficiente para Vila Velha perder o sono e não faltou até peregrinação para examinar as qualidades do bicho. Ha, sim, era um lindo touro. Desses com jeito grave de desembargador aposentado. Cada vez que parava de ruminar e derramava um olhar pela assistência, todo mundo continha a respiração aguardando uma citação em latim. Isso punha o seu Feliciano nas nuvens, porque até então ele só criava gado do tipo que todo mundo carneia, não para aproveitar a carne, mas só para não ver aquele espantalho vivo. Só o nome do bicho era uma desconsideração. Chamava-se Pavio, por força de um incidente de nascimento, quando em pleno trabalho de parto, o lampião apagou e o capataz só atinava a berrar:

- Aumenta o pavio, aumenta o pavio.

Como o peão ajudante era surdo, não entendia os berros e por fim o capataz só gritava:


- Pavio, Pavio.

O bicho que veio, já veio com nome feito. Houve uma tentativa de batizar o coitado com um nome mais sonoro, mas não adiantou porque todo mundo só perguntava:

- Como vai o Pavio?

E aí o nome pegou e o Pavio ficou.

Seu Feliciano conseguiu uma explicação medonha para o nome e até as damas, embora tapando os ouvidos, concordaram com a história. Pavio cresceu e se fez touro. Tudo sem alarde, porque era discreto. Mas os instrumentos indispensáveis para a sua atividade eram de provocar entusiasmo nos criadores, que profetizavam um futuro risonho para seu proprietário:

- Esse bicho vai pagar-se muito cedo.

Veio a primavera e após uma conferência rápida com o veterinário, seu Feliciano mandou que o Pavio fosse apresentado às futuras esposas. E aí a tragédia começou. O Pavio não apenas passeou sobranceiro pelo meio das vacas, como meteu os chifres na mais aflita. Seu Feliciano que havia convidado a família inteira para a cerimônia, ficou vermelho como um tomate e fez o sinal da cruz. Só não explodiu ali mesmo, porque a dona Dadinha acalmou:

- Tudo na vida leva tempo.

Mas no dia seguinte, a terrível cena se repetiu. E durante a semana toda, por maior que fosse a insistência das damas, o Pavio não demonstrou a menor intenção de sair do celibato. Na segunda-feira, o dr. Honório foi arrancado da cama às três da manhã e às cinco já examinou o bicho.

- E daí?

- Tá inteiro, seu Feliciano.

- Inteiro e não tem apetência?

- Vai ver que é uma fase.

Trinta dias e a fase não passava. O Honório foi chamado de incompetente, quis sacar o revólver e quase que uma desgraça se transforma em duas. Veio a família toda acalmar seu Feliciano enquanto o dr. Honório insistia:

- Competência ele tem, o que não tem é vontade.

Receitou uma mudança de ração que não produziu o menor resultado. Quando entrou o segundo mês, a cidade inteira já falava mal do bicho. Era dizer Pavio e todo mundo caía na gargalhada. No terceiro mês, seu Feliciano deu uma bofetada no filho do Antoninho do Cartório, porque o rapaz teve o atrevimento de sugerir:

- Bota o Pavio com o boi que ele se acha.

Coisas como essa abalam a alma de um homem. Seu Feliciano não dormia mais. No quarto mês, trouxe lá das barrancas do Uruguai o João Capetinha, que era benzedor afamado. O homem veio, deu três voltas ao redor do Pavio e disse que era olho grande.

- Tem inveja nesse bicho, seu Feliciano.

Pendurou um sapo morto no pescoço do Pavio, que nem por isso mudou de atitude. Aí veio a Siá Chica, que misturou umas porcarias e passou o resultado em certas partes do touro. O Pavio ficou meio inquieto, mas foi inquietação de solteirão dessas que a gente vence sem companhia. Nesta altura um castelhado disse que vaca branca com pinta preta na testa era bater e valer. O Pavio deu uma chifrada na que encontraram. Seu Feliciano arrancava os cabelos e já começava a sofrer do mesmo mal.

- Raio de bicho cafajeste.

E começou a ter raiva do Pavio. Todo o dia, ia para a frente do touro e xingava o coitado com o que havia de pior. Também não resolveu, mas pelo menos aliviou um pouco a pressão da casa. Até que um ano depois, seu Feliciano tomou uma resolução drástica. Entrou na estrebaria, caminhou direto para o bicho, estendeu o dedo e jurou:

- Tu vai ser o primeiro boi de trinta contos.

Dizem até hoje que o Pavio não dormiu aquela noite e que as duas da manhã mugiu quinze minutos sem parar. Às quatro, seu Feliciano acordou e mandou preparar os instrumentos.

- Esse serviço eu quero fazer pessoalmente.

Cinco horas o Pavio deixou de mastigar, olhou para os lados e sem mais nem menos deu um urro pavoroso. Foi urrar e sair num arranco, levando metade da parede com ele. Ficou um segundo para pegar a orientação certa e se abalou pelo campo. Seu Feliciano que vinha saindo de casa, deu um berro ainda maior.

- Pega esse sem vergonha.

E saiu a pé atrás do Pavio que desabalava pela coxilha. Quando seu Feliciano, mais morto que vivo, chegou no topo e olhou para baixo, se atirou no chão e começou a rolar de um lado para outro. O pessoal que chegou ainda deu com ele rindo e rolando, rolando e rindo. Lá embaixo o Pavio cumpria a sua missão. E embora o dr. Honório negue de pés juntos que isso seja possível, a verdade é que dali para frente, sempre que seu Feliciano chegava na estrebaria dizia:

- Sai dessa moleza se não tu vira boi.

O Pavio bufava e saía correndo pela porta atrás de serviço. E só por isso, seu Feliciano sempre que tinha visita, apontava para o Pavio e dizia:

- Esse bicho é um Ruy Barbosa.

E Pavio tomava ar de sério como se fosse confirmar com uma citação latina. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 108)

quarta-feira, 18 de março de 2020

O SISTEMA

Por Sérgio Jockymann 

Pois, o Belisário era epilético, desses de cair no meio da rua. Fora disso era pacata pessoa, cujo único defeito era fazer trocadilhos. Isto é, não bem fazer, mas repetir. O Belisário em toda sua vida, só conseguiu fazer cinco trocadilhos e gastou a existência toda a repetir o repertório. O mais famoso era o do sujeito que apanhado por uma tempestade foi parar num boliche e depois de três doses de cachaça declarou: 

- Já que tão todos reunidos vou falar de um sobretudo.

Os velhos acharam o trocadilho formidável, mas os novos começaram a dar trabalho para o Belisário, que após rir sozinho, tinha que explicar:

- Já que tão, jaquetão. Sobretudo é um assunto geral.

Aí os jovens espremiam um risinho e o Belisário se retirava muito vexado. Aliás, foi por causa do número cada vez maior desses vexames que subitamente o Belisário deu para ocupar seus dias com cálculos e mais cálculos. Comprava aquele papel de embrulho amarelo e enchia resmas e resmas com números enormes. Tanto escrevinhou que terminou despertando a atenção da cidade.

- O que é isso Belisário?

Ele sorria e abanava a cabeça. Ficou assim três anos, até que uma noite na Farmácia do seu Oscar, entrou com aquele seu jeito humilde e na primeira pausa da conversa, declarou:

- Descobri um sistema de ganhar na roleta.

Ora, o pessoal naquele momento estava empenhado em depor o Getúlio e por isso não deu muita importância à revelação. Mas Belisário não se deu por achado e passou três meses inteirinhos batendo na mesma tecla, sempre que alguém desse oportunidade. Nem assim conseguiu reconhecimento da população, pelo que se vestiu de negro e anunciou que estava de luto pela inteligência da cidade. Ficou assim até a quermesse do Padre Ramão, quando dois uruguaios instalaram uma roleta beneficente. Balisário esperou pelo sábado, entrou na barraca, pediu dois mil réis de fichas, o que era um despropósito, fez alguns cálculos e ganhou cinco vezes seguidas. Depois, trocou seu dinheiro, lançou um olhar de desprezo para os circunstantes boquiabertos e disse:

- Não aposto mais de pena.

No dia seguinte, o Padre Ramão nem conseguiu terminar o sermão, porque as senhoras comentavam escandalosamente a façanha do Belisário. O coitado por sinal, ficou tão emocionado que teve um ataque na porta de casa. Foi atendido por todos os médicos da cidade, porque o coronel anunciou que se tratava de um homem de valor incomensurável. Mal se restabeleceu e logo uma comissão de cidadãos de destaque sentou à volta da cama:

- Como é isso, Belisário?

Belisário sacudiu a cabeça e disse que era segredo. No dia seguinte, um caixote cheio de papéis foi roubado de sua casa por um grupo de desconhecidos conhecidíssimos, mas nem assim o mistério foi esclarecido. Seu Amaral teve que reconhecer que ninguém entendia a letra do Belisário.

- Mas se nota que tem coisa.

Durante uma semana se discutiu onde valia mais a pena aproveitar os talentos do Belisário e venceu a proposta do coronel:

- Punta del Este. Não fica bem tirar dinheiro aqui de dentro.

Belisário foi chamado, ouviu a proposta de viagem, estadia e mais vinte por cento e não aceitou.

- Quero metade.

Seu Amaral só faltou chorar. Seu Aristides lembrou em palavras comovidas as vezes que o Belisário havia sido erguido do chão por pessoas de destaque. Mas nem assim o Belisário se comoveu. E quando o coronel berrou que ele era um explorador, o danado teve um ataque fulminante. Foi uma correria, porque como disse seu Aristides:

- Imagine se o vivente bate as botas logo agora!

O Belisário não bateu, mas tampouco mudou de ideia. Nada menos de dezenove reuniões foram realizadas a portas fechadas, depois do que o coronel foi obrigado a admitir que metade era melhor do que nada. Na semana seguinte, escoltado por três figuras de honestidade comprovada, mais o Clarimundo de reboque para evitar a tentação dos comprovados, o Belisário arrancou para Punta del Este, onde chegou após três ataques e doze dias de viagem. Mal chegou teve outro e dos feios, que pôs em perigo não a sua vida, mas a vida dos acompanhantes. Seu Aristides chegou a chorar, enquanto o Belisário se esticava no chão. Seu Amaral, que sempre foi muito devoto, caiu de joelhos e começou a implorar:

- Não agora, Patrão Véio, não agora.

Na noite seguinte, o quinteto entrou no cassino. O Belisário examinou as mesas, escolheu uma e ficou quatro horas sem dizer palavra. Depois voltou para o quarto do hotel e passou o resto da noite fazendo cálculos. Terminou e teve outro ataque. Desta vez, seu Amaral já disse que era castigo e seu Aristides bateu com a cabeça na porta, dizendo que neste mundo não podia mesmo haver felicidade. Só seu Morais não falava, mas seu pomo de Adão mais parecia um pistão de automóvel. No terceiro dia, o Belisário jantou calmamente e anunciou que ia começar o roubo. Foi para a mesa e ganhou uma hora e meia, depois do que pediu para trocar as fichas e teve outro ataque. Não fosse o gerente do cassino reclamar teria ficado embaixo da mesa. Mas o gerente foi lá e exigiu que seu Aristides levasse o homem. Seu Aristides passou a ordem ao Clarimundo, que se negou alegando que tinha recebido a missão de fiscalizar o recebimento do dinheiro. Seu Aristides teve que ir lá e puxar o Belisário pelas pernas até a saleta. Quando o Belisário se refez os dois foram para o quarto, onde já encontraram os demais afundados num mar de argentinas e uruguaias. O Belisário teve outro ataque e acabou com a festa. No dia seguinte, por imposição do Clarimundo, o pessoal voltou para casa. Seu Aristides ainda teimava que podiam voltar ao Cassino, mas seu Amaral não conseguiu enfiar o Belisário dentro do salão de jogos. Tentou oito vezes, mas nas oito vezes, a segurança impediu:

- Enfermos, no.

Seu Morais fez um discurso contra a má vizinhança dos uruguaios, jurou que um dia ainda atravessaria a fronteira para conquistar aquela terra de injustiça, e depois limpou o pó dos sapatos. A Viagem de volta durou apenas seis dias, porque o Belisário não teve permissão para ter ataques fora do carro. A entrada e Vila Velha foi triunfal e quando seu Aristides largou o dinheiro em cima da mesma do coronel, o secretário da Prefeitura começou a cantar o Hino Nacional.

- Mil e duzentos contos, coronel.

Durante meia hora a sala trovejou, com os piores palavrões do mundo. Só o Belisário não abria a boca. Sorria com uma superioridade esmagadora. Só deixou de sorrir, quando o coronel lhe passou duzentos contos e disse que estava certo.

- Mas era a metade.

- Fora as despesas, meu filho. E tiveram oitocentos contos de despesa.

O Belisário olhou o coronel e não disse palavra. Mas uma hora depois, o Clarimundo entrou na sala esbaforido:

- O Belisário tá indo embora. Alugou o carro do Schutz, pôs a mãe dentro e se largou na estrada.

A cidade inteira saiu atrás dele, mas vinte quilômetros depois desabou um temporal que acabou com a perseguição. Um mês depois, o Belisário mandou uma carta de Buenos Aires perdoando todo mundo e oferecendo sua fórmula. Seu Aristides leu, levou a mão ao peito e caiu ao comprido. Todo cálculo do Belisário, era baseado na sua última descoberta: que nove vezes nove não era oitenta e um, mas oitenta e dois. Seu Morais até o fim da vida teve um tremor no lado direito da cara. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 99)

quarta-feira, 11 de março de 2020

O SORVETE

Por Sérgio Jockymann

Pois, três coisas mudaram a vida de Dom Tibúrcio. Primeira, ele foi sargento para São Paulo e voltou major. Segunda, enquanto ia, o tio e três primos morreram afogados no rio Uruguai e ele perdeu a estância. Terceira, mal voltou ganhou vinte e cinco contos da Sul América Capitalização. Assim, em três meses ele passou de seu Tibúrcio a major Tibúrcio e de major Tibúrcio a Dom Tibúrcio, o que lhe abriu as portas não apenas da Associação dos Pecuaristas, mas também do Clube Comercial, onde foi aceito depois que o coronel destacou sua principal qualidade.

- É viúvo e tá cheio de mulher empacada aqui dentro que merece uma oportunidade.

Dom Tibúrcio se portou à altura da nova situação. Deu para tomar banho diariamente, aparar o bigode uma vez por semana e cuspir apenas na escarradeira. Aliás, nisso era tão zeloso que uma vez atravessou o clube inteiro para depositar seu catarro no saguão. E isso que durante o percurso passou por três janelas sem uma só vez cair na tentação de tirar proveito delas. Até dona Candinha, que era muito refinada e já tinha ido duas vezes a Buenos Aires, achou que essa atitude punha Dom Tibúrcio definitivamente no rol dos homens civilizados. Mas por dentro, Dom Tibúrcio guardava uma mágoa imensa: nunca tinha comido sorvete. Todos os sábados quando o pessoal tomava cerveja no bar, sempre aparecia um despeitado para dizer:

- O que falta em Vila Velha é uma sorveteria.

E logo outro comentava.

- Em dia quente não tem nada como um bom sorvete.

E aí por mais que Dom Tibúrcio se fingisse de desinteressado, aparecia sempre um terceiro para perguntar:

- O senhor já provou sorvete?

E ele vexado tinha que admitir que não e sofrer calado o ar de superioridade dos demais. Um ano depois de sua entrada no clube, Dom Tibúrcio sugeriu ao Café Central que instalasse uma sorveteria, mas o proprietário abanou a cabeça.

- Com essa porcaria de luz não ia dar.

Dom Tibúrcio então começou a pressionar o coronel para melhorar a Usina Elétrica, mas a situação política estava meio delicada e a Intendência tinha medo de jogar dinheiro fora.

- Só tem verba pra fuzil, avisou o coronel.

O verão seguinte foi o pior dos últimos cinquenta anos e a fabriquinha de gelo do seu Fritz não dava conta dos pedidos. Até a cerveja andava choca e a água das moringas vinha morna e com gosto de barro. Consequentemente sorvete passou a ser o assunto preferido de todas as rodas e seu Antoninho teve a desfaçatez de dizer que ia a Santa Maria só para tomar sorvete. Para mal dos pecados, Dom Tibúrcio começou a arrastar a asa para a filha do major Otávio, que teve a indelicadeza de perguntar ao seu pretendente o que ele achava de sorvete. Dom Tibúrcio avermelhou até o dedão do pé e saiu da casa do major Otávio decidido a tirar aquela mancha do seu passado. No dia seguinte partiu para Porto Alegre a negócios. Só para o seu capataz teve a coragem de confessar:

- Só vou comer esse sorvetinho desgraçado.

E nem bem se instalou no Grande Hotel, caminhou decidido para a maior confeitaria, se aboletou numa mesa e pediu:

- Me dá um prato de sorvete.

O garçon disse que sorvete era servido em taça, mas Dom Tibúrcio não quis saber de conversa.

- Quero um prato. E um prato fundo.

O garçon perguntou de que qualidade e Dom Tibúrcio ficou irritado:

- Bota de tudo que não sou de andar escolhendo.

E antes que o garçon se afastasse quatro passos, ainda fez uma recomendação:

- E me traz uma colher grande.

Disseram depois que toda a confeitaria havia caído na gargalhada, mas isso não foi verdade. A verdade é que de repente caiu um silêncio de cemitério em dia de semana e só de olhar em volta, Dom Tibúrcio sentiu que estava impondo respeito. O prato fundo cheio de sorvete veio do balcão até a mesa, seguido pela admiração geral e só uma mocinha tossiu quando Dom Tibúrcio apanhou a colher. Assim mesmo foi repreendida pela mãe. Dom Tibúrcio empunhou a colher, cheirou disfarçadamente o sorvete, limpou a boca com as costas da mão e se lançou à aventura. Tirou uma colherada enorme de sorvete do prato e de um golpe enfiou tudo na boca. Por um momento, pareceu que lhe haviam dado com uma marreta nas costas. Ele entesou o corpo, arregalou os olhos e atirou a perna esquerda para frente. Mas aí deu com o olhar dos outros, retesou os músculos e engoliu. O garçon perguntou se ele estava bem e Dom Tibúrcio teve que tentar duas vezes abrir a boca, até conseguir falar:

- Tou acostumado com isso desde piá.

E com um ar de desafio limpou o prato com colheradas rápidas. Mal engoliu a última e a confeitaria inteira aplaudiu. Dom Tibúrcio sorrindo acenou para o pessoal, jogou a barbaridade de cinco réis em cima da mesa, levantou e saiu triunfalmente. Ficou três dias sem voz, com um lenço amarrado em volta da face, porque lhe doíam até os dentes que não tinha. Mas nem uma só vez pediu auxílio. Quando a voz voltou, retornou para Vila Velha e discorreu cinco horas sobre as delícias do sorvete. Mas para o seu capataz teve um desabafo:

Tu olha pro prato e não diz. Mas, vou te contar, é um negócio pra macho.

E em prato fundo, apesar de todo o progresso, continua sendo. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 104)

quarta-feira, 4 de março de 2020

O OLHO


O OLHO
Por Sérgio Jockymann

Pois, a Tirana está morta e nesta altura não há mais como a ciência descobrir o que havia com ela. O fato é que todos os contemporâneos juram que haviam e até hoje em Vila Velha, quando um estancieiro se lembra dela, faz o sinal da cruz. Também ninguém sabe como começou. O que todo mundo sabe é que, um dia, a Tirana botou o olho no touro do major Matias e acabou com a descendência dele. Há uns que dizem que o touro do major Matias foi o primeiro, outros dizem que foi o segundo e ainda existe um grupo que jura que foi o terceiro. Numa coisa todos concordam: que foi somente porque a Tirana descobriu a potência do seu olho. E dizem que ela olhou para o touro do major Matias de propósito porque ele havia derrubado sua tapera. Ela olhou e olhou comprido, como fazia sempre nesses casos, cuspiu para o lado e disse:
- Pode capar que não tem mais serventia.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

BANG

BANG

Pois, só Deus sabe o que levou Pop Thumstone a bater em Vila Velha. E a bater em Vila Velha justamente no princípio do século, quando ela nem cidade era. Era apenas uma ruazinha que começava na Igreja e terminava logo ali. Pop cruzou o Uruguai e bateu em Vila Velha em companhia de dois gêmeos mudos que passavam o tempo trocando cotoveladas e rindo de piadas que ninguém contava. O coronel que havia era outro, coronel Bento, veterano, não da Guerra do Paraguai, mas de outra bem pior: da Revolução de 93.

Pop levou apenas uma hora para descobrir quem mandava na cidade e mais cinco minutos para saber que o coronel Bento ainda tinha mais inimigos que gostaria de ter. Pop ajeitou o coldre e tocou para a estância do coronel Bento, com os dois gêmeos mudos. Deu por lá às onze da manhã de domingo, justamente no dia em que o filho do coronel Bento estava de aniversário. Foi se chegar e ninguém falou mais. Vila Velha jamais havia visto o coldre naquela posição e um Colt 45 ainda era o máximo de progresso. Pop olhou o coronel Bento e disparou:

- Serrê su brazo deretcho.

O coronel Bento levou meia hora para entender o inglesol de Pop. E quando entendeu, entendeu ainda menos.

- O que é que o gringo quer?

- Matairê suz enemigus.

Isso o coronel Bento entendeu e mais do que entender, gostou. Caía do céu aquele gringo maluco, porque agora havia paz demais sem uns maragatos de menos.

- Tu atira bem?

Pop então começou a cometer pecados. Num segundo sacou da arma e cortou cinco espetos. A peonada toda embasbacou. O coronel Bento ficou tão entusiasmado que pediu outras demonstrações. Foram duas horas de tiroteio, não apenas de Pop, mas também dos gêmeos. Atiraram em tudo que o coronel Bento pediu e sempre com uma certeza de demônios. Quando terminou o tiroteio, o coronel Bento bateu nas coxas e trovejou:

- Semana que vem vai ter defunto novo da Vila.

As comemorações começaram imediatamente e foram até o pôr do sol, quando o coronel Bento se despediu dos novos contratados e foi para a cama. E ali começou a pôr a cabeça no lugar, porque dona Ritinha já deu de implicar com os gringos.

- Isso é gente perigosa.

- Mas que perigosa, mulher.

- Tu viu como eles atiram. Não erram uma. Quinze dias de trabalho e não tem mais maragato vivo por aqui. O Júlio de Castilhos não vai gostar.

- Mas aí é que tá o bom, minha veia. Quando o velho reclamar, eu digo que foram os gringos e tá acabado.

Houve uma pausa enorme e quando o coronel Bento já estava quase pegando no sono, dona Ritinha perguntou:

- Véio! E quem é que vai convencer o gringo que tá acabado?

O coronel Bento sentou na cama, de dedo em riste para responder, mas não respondeu coisa alguma. Ficou olhando para a mulher, que armou uns olhos inocentes. Num segundo, o coronel Bento viu aqueles Colts trovejando na sua direção e seu corpo jogado de um lado para outro pelo impacto das balas. No dia seguinte, mandou chamar os gringos e desfez o negócio.

- É muito progresso pra Vila Velha. O negócio aqui é ainda à antiga. Não convém apressar muito.

No dia seguinte, Pop e os gêmeos estavam trabalhando para o major Fidêncio, maragato meio milagroso que havia escapado da revolução com muito negaceio. E ao meio-dia, Pop e os gêmeos bateram na estância do coronel Bento e disseram:

- Manheina diuelo na cailhe principal.

Os gêmeos se cutucaram satisfeitos e Pop completou:

- Ocho hoiras.

Montaram nos cavalos e saíram num trote desaforado. O coronel Bento levou uma hora inteira para voltar a si e conseguir falar. Dona Ritinha quis desandar numa choradeira, mas o marido não deixou.

- Tu não chora por gringo, mulher.

- Mas que gringo, veio. Tou chorando é por ti.

O coronel Bento não acreditou.

- Por mim? Mas tu até que tá muito louca.

- Mas eu vi o jeito dos gringo atirar, meu véio.

O coronel Bento cuspiu para o lado e riu:

- Pois até que nem atiram mal.

E saiu para reunir o pessoal. Nem houve sesta. Saíram uns vinte para a Vila. Chegaram na pensão de seu Olegário, lá por volta das oito da noite, e nem deram como vai. Já foram para o quarto dos fundos, onde Pop tomava um banho e os gêmeos limpavam as armas. Foram muito respeitadores, tanto que o capataz do coronel bateu primeiro na porta. O gêmeo que abriu já abriu morto com um tiro na testa. O outro correu para a janela e morreu com um pé fora e outro dentro do quarto. Pop nem falou. Olhou aquele pessoal todo e só depois de um minuto comprido achou que era engano de data:

- Manheina.

O capataz cuspiu dentro da tina por puro desaforo.

- Mas tu até é sem-vergonha, gringo. Então tu acha que o coronel Bento vai deixar para amanhã o que pode fazer hoje? Taca fogo nele. 

Pop ainda deu um berro:

- Honor.

Mas o capataz não ouviu. Completou o serviço e quando voltou para a fazenda contou ao coronel Bento:

- O gringo morreu chamando a mãe dele, uma tal de Honor.

E o coronel Bento achou muito justo:

- Mãe é mãe.

E anos depois contava ao outro coronel:

- Tu imagina, não sei da onde aquele gringo foi tirar a idéia que eu ia me sujar, brigando com qualquer um no meio da rua.

E o outro coronel disse que talvez lá no Texas fosse diferente. É, vai ver que era mesmo. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 94)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O RETARDADO

O RETARDADO
Por Sérgio Jockymann

Pois, trinta nos depois se pode contar a real e verdadeira história do internamento do casal russo, que durante tantos anos foi inexplicável para Vila Velha. Há mesmo gente que até hoje aponta o fato como uma prova das crueldades que o coronel andou cometendo no mundo, o que de forma alguma representa a verdade. A verdade é que quando os Petrov apareceram em Vila Velha, o coronel até que foi muito gentil e chegou até a ouvir a história toda da fuga do velho Ivan, da Rússia, levando as joias da família debaixo do braço. Dona Sofia não falava na presença de estranhos e só balançava a cabeça confirmando as palavras do marido. Depois de contar todo seu drama, Ivan disse que  vinha  à Vila Velha em busca de paz e tranquilidade.
O russo protestou dizendo que não era para ele.
- Para sua senhora, então?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A ROLETA


Por Sérgio Jockymann

Pois, só Deus sabe o que era um depois-do-meio-dia em Vila Velha em pleno verão. Os mais valentes se jogavam na cama, afundavam o rosto no travesseiro e dormiam por puro medo de enfrentar a vida. Até os cães se deixavam ficar na primeira sombra e apenas os gatos mais sem-vergonhas atravessavam a rua. E assim mesmo iam num passo de morrer na primeira esquina. Só o vento soprava e soprava quente, empurrando o pó pelas ruas desertas. Doutorzinho de cidade agüentava quinze dias porque no décimo-sexto bebia o que houvesse para beber. Ora, às vezes, o Diabo, por puro desfastio, somava uma ressaca com uma insônia e o resultado era sempre desastroso. Os amaldiçoados iam para o Café Central, onde ficavam a meio pau, olhando os redemoinhos e jurando fugir da cidade tão logo desse quatro horas. E de fato, na hora da sesta, quem não sesteava ficava à mercê do diabo, que enchia a cabeça dos infelizes, com os mais horrendos pensamentos. Foi assim num depois-do-meio-dia de sábado, que o Nequinho se esparramou na cadeira do café e resmungou:

- Por que ninguém dá um tiro na cabeça para variar?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O RÁDIO

Por Sérgio Jockymann

Pois, seu Valentim sempre foi um sujeito muito fechado. Nasceu assim, de lábios colados, que não abriu nem para dizer sim na frente do padre, porque, quando casou, respondeu a tradicional pergunta com um rápido aceno de cabeça. Dona Sofia havia nascido para ele, porque também era outra que nem para rezar abria a boca. Foram os dois viver lá no Capão Bonito, onde seu Valentim recebia as notícias do capataz com um sonoro: 

- Hum.

E foi tudo o que disse quando nasceu o segundo filho e o médico muito contristado lhe participou que dona Sofia havia encerrado a carreira de poedeira. Ela também não fez o menor comentário diante da notícia e com isso os dois continuaram a viver muito bem, criando os filhos com meia dúzia de palavras. O mais velho saiu ao pai e quando o capataz morreu mordido de cobra, tomou o seu lugar e era de ver a dificuldade que ele tinha para fazer o relatório semanal para o velho. Começou por espremer as palavras ainda inteiras, mas, ao cabo de cinco anos, inventou uma linguagem própria, que tornava os diálogos com o velho um primor de eloqüência. 

- Vêlhas, cinco.

- Hum.

- Ortas, duas.

- Hum.

E assim o pai ficava sabendo que haviam nascido cinco ovelhas e morrido outras duas. O caçula no entanto teve umas papagaices inexplicáveis e, tão logo fez onze anos, foi deportado para um internato, sob a acusação que fazia muito barulho. La ficou o Rubinho em Porto Alegre colecionando cursos, até que, quando se formou em medicina, decidiu enviar um presente de rei ao pai. Comprou um rádio Telefunken com bateria e tudo e despachou para Vila Velha com mil recomendações. O extraordinário é que o rádio resistiu aos trambolhões da viagem e, mal foi posto sobre a mesa, derramou uma conversarada em castelhano, que embasbacou a família inteira. Rubinho explicou que era uma emissora de Buenos Aires, mas não houve quem entendesse a explicação. Quando ele iniciou uma aula sobre o milagre da radiofonia, o pai congelou o discurso com um olhar aborrecido. Rubinho ficou danado da vida e voltou para Porto Alegre, não sem antes dizer para o irmão que a família toda estava doida. No dia seguinte, seu Valentim acordou cedo e ligou o rádio. Meia hora depois, dona Sofia sentou a seu lado e os dois ficaram na frente do aparelho até às nove da noite, quando o filho mais velho avisou que era hora de dormir.

- Nhã em mais.

Seu Valentim foi para o quarto, deitou na cama e ficou uma hora olhando o teto. Depois se virou para a esposa e comentou:

- Hum.

Ela suspirou duas vezes e os dois dormiram. Mal amanheceu lá estavam outra vez diante do aparelho. Seu Valentim fez a única coisa que sabia fazer: ligou o rádio. Depois chamou a mulher e os dois ficaram ali até às nove da noite, sem dizer palavra. Às vezes, quando tocava um tango conhecido, o marido olhava para a mulher e balançava a cabeça e ela sorria e suspirava. Almoço, café da tarde e jantar, tudo teve que ser servido ali mesmo, porque os dois não quiseram levantar e ir para a mesa. A empregada ficou preocupada, mas o filho deu de ombros e não comentou coisa alguma. Só avisou os dois às oito horas.

- Arde.

E durante uma semana essa rotina não sofreu a menor modificação. Os dois velhos acordavam às seis e iam para a frente do aparelho até às oito da noite. Dalí iam para o quarto, onde seu Velentim dizia seu hum e dona Sofia suspirava sua resposta e mais nada. No oitavo dia, no entanto, lá pelas sete da noite, a bateria se foi e o rádio após alguns estalidos se foi com ela. Seu Valentim abriu e fechou o volume, dona Sofia bateu de leve no aparelho, os dois encostaram o ouvido nele e depois se olharam sorrindo. O filho que vinha entrando estranhou a mudez do rádio e perguntou o que havia no seu vocabulário especial:

- Há?

Seu Valentim acendeu o cigarro lentamente, quebrou a cinza na unha do polegar, passou a mão pelos ombros da esposa e disse:

- Só queria ver quanto tempo durava esse falador.

Olhou a esposa, orgulhoso do longo discurso que havia pronunciado e arrematou:

- Morreu cedo, o infeliz.

E no dia seguinte mandou enterrar o aparelho com a bateria e pôs uma cruz em cima. Naquele momento de tristeza, dona Sofia teve um instante de piedade:

- Não sei como agüentou tanto tempo falando desse jeito.

E logo baixou a cabeça envergonhada de falar tanto. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 76)