quarta-feira, 14 de abril de 2021

VÍRUS BRASILEIRO

VÍRUS BRASILEIRO
José Horta Manzano

Os jornais televisivos desta terça-feira abriram todos com a notícia principal: a França fecha seus aeroportos para todo voo proveniente do Brasil. Dos países com os quais temos relações mais próximas, três já tomaram medida idêntica – França, Portugal e Reino Unido.

Não estou familiarizado com viagem em jatinhos executivos, mas imagino que a restrição lhes diga respeito também. Pelo jeito, deve ter por aí muita gente fina aborrecida por não poder mais dar um pulinho a Paris pra degustar um croissant fresquinho saído do forno de uma boulangerie.

Emissoras de rádio e de tevê têm feito programas especiais com entrevistas e mesas redondas em torno das quais se discute a periculosidade da variante brasileira do coronavírus e os meios de evitar sua propagação.

No Brasil, adeptos de teorias complotistas juram de pés juntos que essa variante mais peçonhenta do vírus veio direto da China, desenvolvida por comunistas malvados cuja única intenção é derrubar nosso presidente, para poderem em seguida dominar o mundo. Por seu lado, gente com a cabeça no lugar começa a considerar uma origem interna. A nova cepa teria conseguido desenvolver-se em nosso país justamente por encontrar aqui terreno propício.

Ainda é cedo pra apontar culpados. Vamos esperar que a pesquisa científica tire as devidas conclusões. (A não ser que a CPI o faça…) A tese de que a variante brasileira teria nascido no Brasil mesmo faz sentido. A contínua sabotagem com que o capitão nos brindou desde a chegada da pandemia – com recusa de distanciação social, de máscara e de confinamento – criou terreno fértil para mutações aceleradas do vírus.

Enquanto não se determina com exatidão a origem do novo patógeno, o que se percebe é mais uma picaretada na rápida destruição da imagem do Brasil no exterior. Essa descida de nosso país ao limbo dos ‘emergentes que não conseguem emergir’ é efeito secundário indesejável do ambiente tóxico que se instalou em terras nacionais.

Euclides da Cunha disse que o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Tomando como gancho o pensamento do escritor, pode-se dizer que todo brasileiro conservou, lá no fundo do peito, a alma forte do sertanejo. Todavia, a conjunção Bolsonaro + pandemia é dose pra leão. Não sei se vai dar pra aguentar.


Observação
Está chegando a hora em que as redes devotas vão ter de se render à evidência. O “vírus chinês” se naturalizou e procriou. Os filhinhos, todos nascidos em território nacional, são gente de casa. Recusam-se a ser tratados como estrangeiros. Cada um deles é agora um legítimo vírus brasileiro.

Fonte: brasildelonge.com

O PARADOXO DE BOLSONARO

O PARADOXO DE BOLSONARO
Hélio Schwartsman

Quanto mais crimes de responsabilidade o presidente comete, mais nos acostumamos com a situação

Atribui-se a Eubulides de Mileto o paradoxo do monte (“sorítes”). Um grão de areia obviamente não constitui um monte. Se eu adicionar um segundo grão ao primeiro, ainda não tenho um monte. Nem com um terceiro. Mas, se eu continuar com esse processo, em algum momento eu chegarei lá. De quantos grãos eu preciso para fazer um monte?

O diálogo entre Jair Bolsonaro e o senador Jorge Kajuru pode sem grandes pinotes interpretativos ser enquadrado como mais um crime de responsabilidade, ou até dois, se valorizarmos a linguagem chula.

Pelas contas da Folha, em janeiro já havia 23 situações que poderiam ser classificadas como crimes de responsabilidade do presidente. Nos últimos três meses, Bolsonaro adicionou novos itens à lista. Quantos delitos mais ele precisa cometer para que tenhamos um monte de ilícitos e o Congresso decida pará-lo?

Filósofos, matemáticos e linguistas estão há 2.500 anos propondo soluções engenhosas para paradoxos como os de Eubulides, que fazem recurso à indeterminação ou à vagueza dos termos. Numa delas, a filósofa Diana Raffman traz a noção de histerese e sustenta que os limites em que os termos serão usados são elásticos e se relacionam com a história dos objetos.

Assim, se um objeto já era reconhecido por todos como um “monte de areia”, poderá continuar a ser chamado de monte mesmo que perca uma quantidade de grãos que, fosse outro o objeto, levaria a um rebaixamento de monte para pilha.

Vincular a categoria à história, porém, pode ser diabólico quando lidamos com questões institucionais. É mais ou menos o que estamos presenciando. Quanto mais crimes de responsabilidade Bolsonaro comete, mais nos acostumamos com a situação e mais difícil fica estabelecer que ele já excedeu o limite que exige uma ação. Em suma, quanto mais ele viola a lei, menor a possibilidade de que venha a ser punido —o que nos leva a uma outra família de paradoxos.

Fonte: Folha de S.Paulo
Um idealista é um homem que, partindo do fato de que uma rosa cheira melhor que uma couve, deduz que uma sopa de rosas teria também melhor sabor. (Ernest Hemingway, Escritor americano, 1899-1961)

LUGARES

RIBEAUVILLE - FRANÇA

Ribeauvillé (alemão Rappoltsweiler) é uma comuna francesa na região administrativa da Alsácia, no departamento Alto Reno. (wikipédia)

A HISTÓRIA DO AVENTAL DA VOVÓ

A HISTÓRIA DO AVENTAL DA VOVÓ

O uso principal do avental da vovó era para proteger o vestido, mas além disso, servia como luva para retirar panelas quentes do forno. Era maravilhoso para enxugar as lágrimas das crianças e em certas ocasiões, limpar o rosto sujo. O avental servia para trazer do galinheiro os ovos, pintos a serem reanimados e às vezes, os ovos rachados que terminavam no forno. Quando chegava visita, o avental servia de abrigo às crianças tímidas e quando fazia frio, vovó agasalhava nele os braços.

O avental servia também para avivar o fogo quando era agitado sobre ele. Era ele que transportava as batatas e a madeira seca até a cozinha.

Servia de cesto para trazer os numerosos legumes da horta. Depois da colheita das ervilhas, era a vez dos repolhos. No fim da temporada, era utilizado para recolher as maçãs que caíram da árvore.

Quando chegava visita inesperada, era surpreendente ver a rapidez com que o velho avental fazia desaparecer a poeira.

No momento de servir a refeição, vovó ia na escadaria sacudir o avental e os homens que trabalhavam no campo sabiam logo que deviam sentar-se à mesa.

Vovó utilizava o avental também para colocar a torta de maçã apenas saída do forno na janela para esfriar, enquanto que hoje sua neta coloca para descongelar.

Levará muitos anos até que alguém invente algum objeto que possa substituir o bom e velho avental que serviu para tantas coisas.

Fonte: https://www.recantodacostura.com.br

FRASES ILUSTRADAS


terça-feira, 13 de abril de 2021

TERRA EM TRANSE

TERRA EM TRANSE
Dorrit Harazim (*)

Desde o início da pandemia, a parte dos brasileiros em condições de optar pelo iluminismo entendeu a seriedade do perigo, adotou medidas protetivas individuais, assumiu sua responsabilidade coletiva. Sempre se manteve decidida a não compactuar com o obscurantismo.

Para que o combate à covid-19 tivesse alguma chance de êxito ou racionalidade, teria bastado convencer o outro Brasil. Esse outro Brasil em estado de mitomania, aguerrido, porém fiel, teria seguido com disciplina religiosa qualquer ordem de distanciamento, uso de máscara ou confinamento emanada da boca do seu líder.

Tamanho poder e privilégio somente o presidente tinha, com tudo à disposição – cadeia nacional de rádio e TV diária, se quisesse, redes sociais, confiança cega de seguidores. Nenhum ministro da Saúde, nenhuma sumidade científica, nenhum acadêmico, celebridade ou vencedor do “BBB” teria, sozinho (nem em conjunto), eficácia semelhante.

O presidente da República preferiu incentivar o descarrilamento de vidas.

(*) Dorrit Harazim é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 11 abril 2021.

Fonte: brasildelonge.com
O honesto se conforma em sonhar com aquilo que o pecador realiza. (Platão, filósofo grego, 428-348 a.C.)

LUGARES

RÜDENSHEIM AM RHEIN - ALEMANHA

Rüdesheim am Rhein é uma cidade da Alemanha, localizada em uma região do vale do rio Reno declarada Patrimônio da Humanidade e que é um dos grandes pontos turísticos do país. A região foi primeiro colonizada pelos celtas, sucedidos pelos romanos, alamanos e francos, cujas culturas deixaram vários sítios arqueológicos importantes nas redondezas. A povoação apareceu documentada pela primeira vez em 1074, e somente em 1818 recebeu foro de cidade. Hoje é um ativo ponto turístico por causa de suas construções históricas, museus, festivais e centros de cultura, e tem grande produção de vinhos.

ROMANCE FORENSE

A Martaruga
Marta Maria procurava se esforçar na farmácia onde trabalhava com duas funções, embora uma só constasse na carteira: era vendedora, mas obrigada a também atuar como limpadora. Nas horas de menor movimento, recebia do gerente a determinação de assear as prateleiras e limpar, uma a uma, as caixinhas de medicamentos que ficavam empoeiradas.

Na faxina, Marta Maria ia bem. Nas vendas, mal. Não conseguia cumprir as quotas.

Isso irritava o gerente da filial, que tinha a expectativa de prêmio mensal sempre que a equipe de vendas superasse as exigências dos donos da rede.

O gerente, todos os sábados, fazia a média e constatava: Marta Maria vendia menos do que 70% da quota mínima. Por isso, destinou-lhe um apelido: "Martaruga".

Quando chegava um cliente chato - desses que só especula preço e não compra - com papel e caneta para anotar as ofertas, o gerente ironicamente comandava:

- Vou lhe passar a nossa especialista "Martaruga".

Tanto foi assim que, um dia, Marta Maria esgotou a paciência, pediu demissão, procurou um advogado e ingressou com ação por dano moral:  "o apelido caracteriza uma notória humilhação e não apenas um trocadilho" - afirmou a petição inicial. Houve prova testemunhal, mas a decisão dos dois graus de jurisdição foi a de improcedência da reclamatória.

O relator no tribunal regional caprichou na verborragia: "nos dias atuais, ao influxo das concepções filosófico-sociais mais modernas, às quais o direito não poderia permanecer insensível, busca-se a valoração do ser humano na plenitude de sua existência físico-espiritual, do ser humano dotado de sentimentos e de auto-estima, do ser humano como ente inacabado que anseia a sua progressiva integração nas relações de vida em sociedade".
 

Mas, dando uma guinada, analisou a prova testemunhal e concluiu que "Martaruga" não era um apelido ofensivo !

Como decisões judiciais são para ser cumpridas, o advogado convenceu "Martaruga", aliás Marta Maria, de que ela deveria se conformar e, afinal, manter seu novo emprego de recepcionista num escritório de Advocacia tributária. Ela acedeu.

Mas partiu para a vingança surpreendente: comprou algo estranho numa loja da Avenida Júlio de Castilhos, colocou numa caixa de papelão enrolada para presente - com papel com a logotipia da rede de farmácias onde trabalhara. E, justamente no dia do aniversário do gerente, fez com que um motoboy entregasse o “mimo”.

Quando o destinatário recebeu o vistoso pacote, pensando que fosse alguma lembrança mandada pela empresa, ele inflou o peito e chamou os colegas para que compartilhassem da sua alegria.

Caixa aberta, dentro dela estava um cágado (assim mesmo, com acento no primeiro "a") e um cartão: "De Martaruga para o gerente mais cagado da rede...".

Sem acento no primeiro ´a´.  


Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS


segunda-feira, 12 de abril de 2021

DISCURSO À NAÇÃO BRASILEIRA

DISCURSO À NAÇÃO BRASILEIRA
Thiago Amparo

Falta ao presidente da república decência política, eis um discurso que faria se a tivesse.

Brasileiros e brasileiras. Primeiro, quero agradecer a Deus por estar vivo, repetindo o que eu disse à nação em 1º janeiro de 2019. Não posso afirmar o mesmo sobre outros 350 mil brasileiros e brasileiras. “E daí? Lamento”, eu disse em abril de 2020 sobre a “gripezinha”. Confesso que errei. Errei como Epitácio Pessoa, quando no auge da gripe espanhola em 1919, discursou pregando o nacionalismo e austeridade fiscal (“Todos os brasileiros devem fazer do bom nome do Brasil uma questão de honra nacional”, disse). Hoje, afastado da presidência, confesso que errei.

Meus colegas cidadãos, as mortes por Covid-19 estão sob os meus ombros. Eu menti, quando em 10 de junho, eu disse à Nação “que, por decisão do STF, as ações de combate à pandemia (fechamento do comércio e quarentena, p.ex.) ficaram sob total responsabilidade dos governadores e dos prefeitos''. A Constituição Federal, no seu artigo 23, estabelece que “é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios cuidar da saúde e assistência pública.” Eu menti e sabia que estava mentindo. Sei que minha omissão deliberada matou milhares.

Quando eu disse, perante o mundo todo nas Nações Unidas em 22 de setembro de 2020, que “parcela da imprensa brasileira politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população”, eu estava me referindo a mim mesmo. Politizei o vírus por omissão, pisoteei com meus próprios pés cada um dos mortos pelo vírus que poderiam estar vivos hoje. Quando eu disse, neste mesmo dia, que “sob o lema ‘fique em casa’ e ‘a economia a gente vê depois’, quase trouxeram o caos social ao país”, eu menti e sabia que estava mentindo. Sei que a economia só será retomada com vacinação em massa.

Brasileiros e brasileiras, quando eu disse em 24 de outubro de 2020 que vacina obrigatória só em cachorro, eu quis esconder o meu próprio fracasso. Como nenhum outro presidente no mundo, eu lutei ativamente contra a vacina, porque é no caos que eu floresço. Se eu não tivesse rejeitado a oferta da Pfizer de 70 milhões de doses lá em agosto de 2020, como eu conseguiria manter o caos no país para depois galvanizá-lo em benefício próprio? Sou relevante porque quero destruir o país para depois dizer que vim para por ordem no lugar. Hoje, afastado da presidência, confesso que errei.

Sei que estão irritados. Quando, à luz do que aconteceu primeiro no Paraguai, um tsunami de protestos inundou a matança em curso por aqui, percebi que a maré havia virado. A vacina acabou, o apoio popular apagou, o auxílio sumiu, a economia esfriou, os militares ficaram sem discurso, o dólar não baixou, o mercado mofou. Não teve spray mágico de Israel, não deu tempo de ganhar o Congresso como Orban na Hungria ou “fuzilar a petralhada” como Duterte nas Filipinas.

Cá estou eu, sozinho no escuro, sem cavalo que fuja a galope, o que fazer senão renunciar?

***

Câmeras de TV são desligadas. Pronunciamento ao vivo se encerra. O 38º Presidente da República do Brasil se levanta. Naquela manhã, Jair Bolsonaro fora suspenso de suas funções como presidente após ter sido recebida denúncia de genocídio pelo pleno do Supremo Tribunal Federal e por dois terços da Câmara dos Deputados, como determina a Constituição Federal. Nos próximos 180 dias a nação respirará sem aparelhos ao julgamento em cadeia nacional. Bolsonaro sairá da presidência e entrará para os livros de história como o presidente que sonhou que o país só iria “mudar matando uns 30 mil”. Outros 320 mil morreram.

Fonte: Folha de S. Paulo - 07/03/2021
Alguns vencem por seus crimes, outros são derrotados por suas virtudes. (William Schakespeare)

LUGARES

BATALHA - PORTUGAL
A Batalha é uma vila portuguesa no Distrito de Leiria. A povoação foi fundada pelo rei D. João I, juntamente com o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, para agradecer o suposto auxílio divino concedido na vitória da batalha de Aljubarrota (14 de Agosto 1385). (wikipédia)

MELHOR, PIOR. PIOR, MELHOR

Fabrício CarpinejarFabrício Carpinejar

Aquele que convive com pais mais velhos entenderá o que digo.

Eles são representantes da contraespionagem.

Podem falar a verdade em qualquer área da vida, menos quando abordam a própria saúde. Não há como confiar literalmente em seu estado. Pregam peças em abundância.

Tendem a piorar quando não é nada e subestimar quando é grave. Engrandecem o alarme falso e boicotam os chamados sérios.

Se têm uma enxaqueca agem com o acento de um derrame. Se têm uma indisposição já convocam uma coletiva com os filhos para adiantar o testamento. Se sofrem de uma gripe tapam o rosto com cobertor aguardando a caveira encapuzada e a sua foice.

Colocam uma lupa na letra miúda das bulas. Dor de garganta é câncer. Dor nas costas é osteoporose. Dor no ouvido é surdez.

Eu até prefiro o exagero ao menosprezo. Melhor um fóbico a um cético. A prevenção, ainda que errada, continua sendo um cuidado.

Os pais me complicam mesmo ao negar os seus ataques mais contundentes e menosprezar a autenticidade do quadro clínico. Encontram-se à beira da morte e fingem que é uma fraqueza passageira.

A pressão dispara acima dos 23 e procuram me convencer que é  normal e que só precisam descansar um pouco. "É apenas uma tontura, vou tirar um cochilo e melhoro". 

A desidratação avança no Saara da testa e a crise se reduz a um desconforto momentâneo, resultado de algo que se comeu no almoço.

Quando não estão mal querem correr ao hospital. Quando estão mal querem ficar em casa a todo custo. É enlouquecedor. No primeiro caso, julgam os filhos como omissos. No segundo, os filhos são autoritários e pretendem forçar internações.

Não tenho problema com o teatro, não me irrito com a invenção dos sintomas, desgastante é ter que provar a doença para o doente.

Fonte: Facebook