quinta-feira, 16 de setembro de 2021

A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela. (Max Frisch, escritor suíço, 1911-1991)

LUGARES

MADRID - ESPANHA
A Plaza Mayor está localizada no centro de Madri e é a principal praça da cidade. A praça possui 120 metros de largura por 90 metros de comprimento. São quase 300 varandas distribuídas nos prédios que circundam a praça, protegida por pórticos de entrada. Ao redor estão outros famosos pontos turísticos madrilenos como a Porta do Sol e Plaza de la Villa. 

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

DEVEM SER CORRIGIDOS E PODEM VIR – LOCUÇÕES VERBAIS

--- Gostaria de saber qual o uso correto do verbo ser: Os débitos devem ser OU devem serem corrigidos. A.S.A., São Paulo/SP

--- Qual é a forma correta: Os compromissos não podem deixar de ser OU não podem deixar de serem cumpridos. Viviane, São Paulo/SP

Quando temos uma sequência de dois ou mais verbos referidos a um mesmo sujeito, somente o primeiro deles faz a concordância com o sujeito, ou seja, só ele flexiona, só ele é conjugado. Como nas frases acima o verbo ser é o último da sequência – o que significa que é o verbo principal –, ele permanece inalterado, não flexiona:
  • Os débitos devem ser corrigidos.
  • Os compromissos não podem deixar de ser cumpridos.
Temos aí uma locução verbal, que é o conjunto formado de verbo auxiliar mais verbo principal (no particípio, gerúndio ou infinitivo). O auxiliar exprime uma ideia acessória e indica o modo, tempo, pessoa e número do sujeito. O principal expressa a verdadeira ação ou processo verbal.

Para atender melhor às duas consultas, vamos ver apenas as locuções formadas com o infinitivo, que se compõem com dois tipos de verbo auxiliar:

1) determinam mais acuradamente os aspectos da ação verbal: costumar, começar a, andar a, continuar a, pôr-se a, vir (a), parar de, deixar de etc.
  • As clientes costumam se arrumar no próprio ateliê.
  • Continuam a estudar coisas desnecessárias.
  • Sua prisão veio a ser transformada num trunfo valioso para o governo.
2) exprimem o modo como se realiza ou deixa de se realizar a ação verbal: poder, dever, haver de, ter que/de, tornar a, chegar a, precisar, querer, desejar, buscar, conseguir, tentar etc.
  • Vocês querem ser milionários?
  • Por motivo de justiça, devemos assinalar que há políticos sérios e honestos.
  • A sociedade teve que se confrontar com cenas explícitas de transgressão à lei, como as exibidas na Fazenda Córrego da Ponte.
  • Hei de ser respeitado até pelos adversários.
Acontece que, para poderem ser aplicados, os princípios não precisam estar previstos nos textos normativos.
  • Líderes do MST chegaram a ser recebidos no Planalto pelo chefe da nação.
--- Tenho dúvidas em relação à colocação de vim e vir. Ex: Ele tem obrigação de vim OU de vir amanhã. R.G., Rio de Janeiro/RJ

Tornou-se um cacoete de muitos brasileiros essa má pronúncia do infinitivo VIR, principalmente quando, numa locução verbal, há aproximação de sons nasais: *Eles podem vim, devem vim, vão vim... Mas com algum esforço é possível começar a acertar essa pronúncia. Orientação:

1) use o infinitivo VIR depois da preposição: Ele tem a obrigação de vir; tem prazer em vir a nossa casa; fez de tudo para vir; eles têm motivos para não vir aqui.

2) use VIR numa locução de verbo auxiliar + infinitivo: Podem vir! Eles devem vir, vão vir, têm de vir.

3) use VIM, sozinho, quando quiser expressar o passado (pretérito perfeito) do verbo vir na primeira pessoa: Eu vim de casa há pouco, vim correndo. 

Fonte: www.linguabrasil.com.br

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

DE QUE CÔ QUÉ?

DE QUE CÔ QUÉ?
José Horta Manzano

Na Suíça, vigora um sistema original de democracia. Dois métodos correm paralelos, ambos destinados à manifestação da vontade popular.

Do lado tradicional do sistema, estão os representantes do povo, deputados e senadores, eleitos pelo voto universal e secreto, com mandato fixo – como em qualquer democracia que se preze.

Por outro lado, menos comum em outras partes do mundo, o método plebiscitário é muito utilizado. Embora a possibilidade também seja prevista pela Constituição de outros países (inclusive a nossa), é raramente utilizada. Não é o caso da Suíça, país onde qualquer cidadão (ou grupo de cidadãos) pode lançar uma coleta de assinaturas, conhecida como “iniciativa popular”. O objetivo é reunir um determinado número de cidadãos que, com sua assinatura, confirmam estar de acordo com a matéria proposta.

Para ser válida, a iniciativa não pode entrar em colisão com a Constituição. Portanto, antes de lançá-la, seu texto será submetido à autoridade competente para análise. Uma vez considerada constitucional, é liberada. A coleta de assinaturas pode ser iniciada e deverá estar terminada dentro do prazo estipulado. Há diferentes modalidades de iniciativa, cada qual com um determinado número de assinaturas necessárias.

Uma vez obtido o número mínimo de assinaturas dentro do prazo, as pilhas de documentos são entregues ao departamento encarregado de validá-las. Cada assinatura será conferida. Se as regras tiverem sido respeitadas e o número de assinaturas válidas tiver sido alcançado dentro do prazo fixado, o governo marcará a data do voto popular.

É um dos aspectos que integram a chamada democracia direta. Em média, o povo suíço vota quatro vezes por ano. O voto não é obrigatório. Cada votação pode reunir duas, três ou mais iniciativas. O eleitor dará sua opinião sobre cada uma delas. Tanto podem ser de âmbito municipal, cantonal ou federal.

Assim mesmo, apesar de já ter esses amplos meios de exprimir sua vontade, a população ainda conta com a possibilidade de manifestar seus desejos (ou, mais frequentemente, suas contrariedades) por meio de passeatas e manifestações ao ar livre. (“Carreatas” ainda não estão na moda aqui. E muito menos “motociclatas”.)

Passeatas, há muitas. Nessas horas, o importante não costuma ser a vestimenta dos manifestantes, mas os slogans escandidos e, principalmente, os cartazes brandidos. O que vai aparecer na mídia e na tevê são justamente os cartazes, a palavra escrita. Vê-se gente vestida de preto, branco, azul, vermelho, amarelo, cor-de-rosa, e quantas mais cores houver. Não há código vestimentar. A mensagem não está na cor da roupa, mas na palavra gritada ou escrita.

É estranho que, nas manifestações de rua do Brasil deste começo de século, a vestimenta fale mais alto que as palavras. Às vezes, penso que essa bizarrice se deve à falta de argumentos – quem não tem o que dizer, veste-se de determinado modo como marca de identificação tribal. Mas posso estar enganado.

Nos tempos do lulopetismo, vinham todos de vermelho. Até o Lula e os acólitos. Vermelho, por acaso, é a cor preferida deste blogueiro, mas isso não vem ao caso; já gostava dessa cor antes que o PT existisse. Agora, desde que o capitão assinou contrato de locação no Palácio do Planalto, a cor dos desfilantes mudou: vêm todos de verde-amarelo.

Quando de grandes movimentos do passado, como as Diretas Já e as Marchas de 1964, o povo não vinha fantasiado. As convicções, boas ou más, estavam dentro das gentes e vinham expressas em cartazes. Por que mudou?

Lula e Bolsonaro são do tipo cabeça-dura. Não lhes viria à ideia sugerir a seus devotos que variassem a cor da indumentária. Então, aproveito a deixa para dizer o que penso. Acho que tanto um lado quanto o outro ganhariam se maneirassem no uso do vermelho, por um lado, e do verde-amarelo, por outro. Do jeito que está, fica caricato. Passa a ideia de rebanho domesticado e amestrado, o que não pega bem pra ninguém.

Dado que as manifestações de rua são marcadas com antecedência e amplamente divulgadas, todos sabem se o desfile é a favor deste ou contra aquele. Por que as cores, então? Fosse eu, daria aos apoiadores instruções para que cada um viesse vestido da cor que mais lhe agrada. Não está escrito em lugar nenhum que esquerdista tem de se vestir obrigatoriamente de vermelho, nem que um neofascista deve usar roupa amarela.

Está ficando ridículo para ambos os lados. Um desfile com um bando de vermelhinhos lembra mais um reclamo de outras eras, de um tempo em que crianças trabalhavam em fábricas e mulheres não tinham o direito de voto. Um desfile com um bando de verde-amarelinhos lembra mais um circo, em que alguns parecem proteger-se enrolados numa bandeira brasileira, como se tivessem medo de sermos invadidos pela Bolívia.

Vamos! Coragem, minha gente! O importante são as ideias e, principalmente, as palavras. A vestimenta não voga.

(*) De que cô qué?
Devo uma explicação sobre o título deste artigo. Este blogueiro, que teve avó mineira de Mariana, se lembra de piadas que deviam parecer muito engraçadas no século 19. Hoje, não tenho certeza de que fariam tanto sucesso. A bizarrice da cega preferência que os manifestantes de hoje demonstram por esta ou aquela cor me lembrou uma delas.

Na empoeirada cidadezinha do interior, um cliente entra na loja de armarinhos e pede um corte de tecido.

Balconista:
– De que cô qué?

Cliente:
– De caqué cô.

Fonte: brasildelonge.com
A aventura pode ser louca, mas o aventureiro para levá-la em frente deve ser cordato. (Gilbert Keith Chesterton (escritor inglês, 1874-1936)

LUGARES

DUBROWNIK - CROÁCIA

AS CONVERSAS PRIVADAS

AS CONVERSAS PRIVADAS
Leandro Karnal

Um deposto presidente da Câmara dos Deputados colocava a mão na boca ao falar com alguém. Era uma maneira de evitar leitura labial. As conversas privadas devem ser blindadas pelo sussurro ou barreira física. Não sabemos o que falava, mas, pelo andar da carruagem, não seriam salmos de louvor ao Criador. Todo diálogo reservado aguça nossa curiosidade.

Há notáveis conversas privadas em história. Lembrarei algumas. A primeira marca o encontro entre dois líderes da unificação italiana. De um lado, Giuseppe Garibaldi, herói de dois mundos, guerreiro de camisa vermelha que entrara como um furacão no Sul da Itália e, vencendo batalha após batalha, assustava o reacionário papa Pio IX. Seus ideais eram mais republicanos do que monárquicos. Do Norte, vinha a figura majestática da casa de Savoia, patrocinadora do movimento. Vítor Emanuel II é a coroa piemontesa aspirando a ser monarca de toda península. São modelos conflitantes de unidade e do que viria a ser o reino da Itália. O rei falou com Garibaldi em Teano, região da Campânia. Há imagens do episódio, como a pintura de Pietro Aldi no Palácio de Siena ou o óleo de Sebastiano de Albertis (com Garibaldi sendo representado bem mais entusiasmado). O prestígio do líder dos camisas vermelhas é enorme. Os dois falam entre si. Garibaldi entrega a liderança ao rei e adere à política de unificação da casa de Savoia. Para o herói, o encontro de 26 de outubro de 1860 é um divisor de águas: o abandono do ideal de Giuseppe Mazzini, o romântico revolucionário que sonhara com uma Itália diferente daquela que se estava unificando sob o comando do rei. O que discutiram? Do que trataram? Nada sabemos. A literatura e o cinema podem alçar voo. Nenhum documento dará voz ao contraditório. A falta de registro histórico funciona como a mão que protege o sussurro ao celular.

Desçamos um pouco abaixo da linha do Equador. San Martín é o militar libertador do Prata e do Chile, protetor do Peru e herói da travessia dos Andes. O general tem uma conversa reservada com Simon Bolívar. Ambos estão no auge da fama. Estamos em 26 de julho de 1822. O Brasil ainda está ligado a Portugal e o resto da América Ibérica vive uma insegurança em relação à independência. Bolívar era o herói libertador do Norte. O outro, o gênio militar do Sul. Ambos carismáticos e aclamados por muitos. Conversam bastante. O local da conversa é Guayaquil, no atual Equador. Os projetos políticos dos dois militares são muito distintos. As personalidades são quase perfeitamente opostas. Os dois conversam a portas fechadas, apesar dos quadros mostrarem um encontro a céu aberto. Do que trataram? Quais foram os argumentos? Teriam consciência de que estavam fazendo história?

Há uma escassa carta do secretário de Bolívar, J. Perez, sobre o tema (descoberta em 2013). A literatura não tolera tanta curiosidade e completou, com a imaginação, o silêncio dos historiadores. Jorge Luis Borges imagina o embate entre os dois no conto “Guayaquil”. O texto vale a pena ser lido pela beleza da narrativa e pela percepção da presença argentina no continente.

Voltemos aos fatos históricos. Segue-se um banquete à conversa. Bolívar faz um brinde aos dois maiores homens da América do Sul: ele e o argentino. San Martín retribui com um brinde mais altruísta ao fim da guerra, à organização das repúblicas no Novo Mundo e à saúde do colega Bolívar. Logo em seguida, San Martín decide afastar-se da luta e entregar todo o comando a Bolívar. Mais: o general platino embarca para a França e, lá, morreria em 1848, com mais de 70 anos. Bolívar segue na política sul-americana e morreu aos 47 anos, de tuberculose, apenas 8 anos depois de Guayaquil.

Tal como Garibaldi, teria o argentino decidido que um recuo era melhor? Uma das chaves da compreensão de cada pessoa é saber como ela lida com sua vaidade. Todos somos vaidosos, sem exceção, mas a quantidade e a relação com a vaidade são distintas em cada ser. Teria o herói platino recuado por humildade, estratégia ou incapacidade de se sobrepor? Seria San Martín um caso especial de humildade argentina? Nunca saberemos. Era uma época anterior aos onipresentes gravadores em celulares.

As conversas privadas e históricas constituem um desafio importante para o conhecimento do passado. São fluxos de consciência que ajudariam muito para recompor a alma de cada personagem e suas motivações... caso tivéssemos acesso a elas. A correspondência que eventualmente tenham escrito ajuda, mas é um pouco mais elaborada. Os latinos diziam “verba volant, scripta manent”. As palavras são voláteis, dançam no ar e desaparecem. A escrita tem foro de permanência e merece uma maior atenção do autor, fazendo com que a espontaneidade da fala e o calor do momento encontrem filtros mais seguros. Nossa mania de trocar mensagens a cada segundo pelo celular está aproximando os dois estatutos. Atualizamos os latinos, pois a palavra em sua forma escrita também parece voar. Há total oralidade nos textos de WhatsApp. Como o historiador do futuro lidará com essa fonte de comunicação? Achar o celular de presidentes do Senado do Brasil numa escavação ou arquivo daqui a 500 anos, com suas mensagens intactas, revelaria o que sobre nosso mundo político? Seria uma nova pedra de Roseta? O que nossos celulares iluminam sobre nós e nosso mundo? O dramático do mundo de 2017 é que aumentamos tanto a comunicação que ela corre o risco de se tornar irrelevante. Talvez por isso a gente digite tanto: não há mais nada a dizer. 

Fonte: O Estadão

FRASES ILUSTRADAS


terça-feira, 14 de setembro de 2021

MEDALHA DE OURO PARA A VACINAÇÃO CONTRA A COVID

MEDALHA DE OURO PARA A VACINAÇÃO CONTRA A COVID
Pedro Hallal

Pelo menos por enquanto, a imunização está vencendo o cabo de guerra contra a variante delta, e a mortalidade segue caindo no Brasil

Desde o início da pandemia, todos nós, pesquisadores, temos cuidado com a maneira de revelar as boas notícias para a população. Exatamente por isso, alguns nos acusam de catastróficos, dizem que “torcemos contra”, que somos da turma do “quanto pior, melhor”. A verdade é outra: sempre temos cuidado porque as boas notícias, no caso da Covid-19, muitas vezes estimulam as pessoas a adotarem comportamentos que podem comprometer as próprias boas notícias que elas pretendem comemorar.

Inúmeras vezes, nesta coluna, mencionei que a vacinação salva vidas. Em outra ocasião, previ que a nossa vida voltaria ao “normal” na virada dos anos de 2021 e 2022. Esses textos sempre atraíram muitos leitores e geraram intensos debates. Alguns diziam que eu estava sendo excessivamente otimista. Estranhamente, outros diziam exatamente o contrário.

Pois bem, o gráfico que acompanha esta coluna mostra a evolução da média móvel de mortalidade por 1 milhão de habitantes no Brasil desde o início da pandemia. Os dados são extraídos da plataforma Our World in Data (nosso mundo em dados).

O gráfico mostra uma queda acentuada da mortalidade por Covid no Brasil, fazendo com que nosso patamar esteja próximo do observado ainda no primeiro semestre de 2020, quando a curva começou a subir de forma mais intensa. A média móvel de óbitos no Brasil, que já esteve estagnada em 1.000 e até 2.000 óbitos por dia, agora é abaixo de 500 mortes por dia. Ainda é muito, mas também é muito menos do que já foi no passado recente.

Essas notícias são excelentes e precisamos comemorá-las.

Mas o quê isso significa na prática?

Essa tendência de queda, quando combinada com razão de transmissão abaixo de 0,7, deveria tornar obrigatória a retomada das aulas presenciais, em todos os níveis de ensino. Obviamente, as aulas devem ocorrer com protocolos sanitários rigorosos;

Caso a queda persista até o final do mês de setembro, será possível elaborar protocolos mais flexíveis quanto ao uso de máscaras, especialmente em espaços abertos;

Precisamos avançar rapidamente nos passaportes sanitários, estimulando as pessoas a estarem em dia com a vacinação contra a Covid. Aqueles que optarem por manter sua liberdade individual de não se vacinar, também terão que aceitar que não terão acesso a alguns ambientes, não poderão usar transporte coletivo, entre outros.

A pandemia não acabou, mas precisamos reconhecer o avanço obtido em função da vacinação, e planejar os próximos passos. Os mesmos que ouviram a ciência no momento dos fechamentos precisam agora ouvir a ciência no momento das reaberturas. A ciência não pode ser valorizada somente quando é conveniente. Nesse momento, felizmente, a vacinação está ganhando o cabo de guerra contra a variante delta no Brasil.

Fonte: Folha de S. Paulo
Horrorizava-me a ideia de chegar a ficar velha, pois acreditava que não poderia fazer todas as coisas que me agradavam; porém, agora que o sou, descobri que já não cultivo o desejo de fazê-las. (Lay Astor, política inglesa, 1879-1964)

LUGARES

METEORA - GRÉCIA
Meteora é o nome dado ao conjunto de monatérios da igreja Ortodoxa. Fica na Grécia continental, mais exatamente a trezentos e cinquenta e dois quilômetros a noroeste de Atenas.

ROMANCE FORENSE

segredo de justica .jpg
Charge de Gerson Kauer

Segredo de justiça imprescindível

Distribuída a ação a uma Vara do Trabalho - única em cidade gaúcha de médio porte - o diretor de secretaria, como de praxe, efetuou breve leitura da petição inicial, para verificar se estavam observados os requisitos exigidos para a notificação do reclamado.

Parecia ser mais uma entre inúmeras demandas postulando horas extras, não fosse a peculiaridade da prova requerida. Diante do inusitado, o diretor telefonou para o juiz.

- Doutor, o reclamante era porteiro de motel e está pedindo horas extras, teria de trabalhar até as 14 horas, mas ficava até as 18 – o diretor explicou.

- Mas há algum pedido de urgência? – o juiz pediu detalhes.

- Não.

- Então, inclua em pauta normal de audiências – determinou.

- É que daí os autos vão ficar rolando aqui pela vara uns dois meses, e talvez isso não seja recomendável... – respondeu o serventuário.

- Não estou entendendo! - rebateu o magistrado.

- É que há um pedido de...de expedição de ofício ao Detran. O reclamante indicou várias marcas e placas de automóveis de clientes que seriam ´habituês´ no horário em que alega ter feito horas extras. E a petição requer que Vossa Excelência determine sejam informados os nomes dos proprietários dos veículos, a fim de que possa identificar essas pessoas e convidá-las para serem suas testemunhas.

- Ora! Na audiência, eu indefiro o requerimento e pronto. Cabe à parte identificar as suas testemunhas.

- Mas doutor, é que a placa do seu carro é a primeira da relação. E outros servidores podem perceber. O senhor sabe como é cidade do interior... – alertou o servidor.

- Se é assim, estamos diante de uma tutela de urgência. Abra um horário especial na pauta e permita que só as partes examinem os autos, pois pelo interesse público envolvido, a partir de agora o processo deve tramitar em segredo de justiça – o juiz determinou.

A audiência foi designada para dez dias depois. Na solenidade, o magistrado estava com paciência e bom humor como em nenhum outro dia de sua carreira. Espicha daqui, puxa dali, recomenda acolá, o juiz conseguiu que um acordo fosse celebrado - e com pagamento imediato.

- Bom pra vocês, bom pra Justiça, bom pra todos nós - disse cumprimentando as partes e seus advogados.

"Cumprido o acordo, arquivem-se os autos" – foi a tradicional frase final do termo.

Um sorriso feliz do juiz evidenciava a satisfação pelos esforços conciliatórios, ao melhor estilo “escapei desta”... 

Fonte: www.espacovital.com.br

FRASES ILUSTRADAS


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

BOLSONARO VIU O CABO DA FACA

BOLSONARO VIU O CABO DA FACA
Elio Gaspari

No tom do dia 7, iria para casa

Michel Temer morre e não conta o que faz, mas entre a noite de quarta-feira (8), quando falou por telefone com Bolsonaro, e a tarde de quinta (9), quando teve seu almoço com o presidente, apagou um incêndio.

Os fatos estão diante de todos.

Na terça-feira (7), Bolsonaro chamou o ministro Alexandre de Moraes de “canalha” e avisou que não cumpriria decisão que viesse dele.


“Se o desprezo às decisões judiciais ocorre por iniciativa do chefe de qualquer dos Poderes, essa atitude, além de representar um atentado à democracia, configura crime de responsabilidade, a ser analisado pelo Congresso Nacional.”

No mesmo dia, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), fez um discurso anódino que, espremido, emitia um estranho brilho. Era a luz da lâmina: “O tal quadrado [da Constituição], deve circunscrever seu raio de atuação. [...] Não posso admitir questionamentos sobre decisões tomadas e superadas —como a do voto impresso”.

Os bate-bocas com Bolsonaro haviam deslizado até para Zé Trovão, um caminhoneiro foragido.

Temer entrou numa confusão ao seu gosto. Baixou a bola, conseguiu a nota do recuo e até o bônus de telefonemas para Alexandre de Moraes e Luiz Fux. Repetiram-se cenas de 2015. Em abril daquele ano, quando 63% dos entrevistados pelo Datafolha achavam que deveria ser aberto o processo de impedimento de Dilma Rousseff, ela deu a Michel Temer, seu vice, a coordenação de seu jogo político. O comissariado petista começou a fritá-lo em menos de um mês. Em agosto, ele sinalizou seu afastamento do Planalto, em dezembro estava pintado para a guerra e, meses depois, a doutora caiu.

Mais tarde ele explicaria: Eu entrei para ajudar e fiz todos os acordos usando o meu cartão de crédito político. Eles não os honraram.

Só Bolsonaro sabe que acordos botou no cartão de Temer.

Uma coisa é certa, o ex-presidente acha que a situação não deve se repetir. A ver, mas ele nunca reclama antes.

Fonte: Folha de S. Paulo
Nossos sentidos nos enganam ou são insuficientes quando se trata de análise, observação e apreciação. (Pierre Bonnard, pintor francês)

LUGARES

MORRETES - PARANÁ


LEVANTANDO VOO

Martha MedeirosMartha Medeiros

Ontem minha filha embarcou num avião para uma viagem ao Exterior sem data de retorno. Está realizando um sonho antigo, mas que se tornou premente nos últimos meses. Formada, inquieta, faminta por novas experiências de vida, acumulou salários, vendeu alguns pertences, passou madrugadas pesquisando as menores tarifas de passagem e hospedagem, arrumou a mala e se foi.

Muitos pais têm vivido essa ruptura: ver seus filhos partirem em busca de mais conhecimento e amadurecimento, jovens que precisam abandonar o ninho para um voo solo a fim de descobrirem uma nova direção e um ponto de vista que os surpreenda. Querem nascer de novo, agora sem cordão umbilical de nenhuma espécie.

O mundo deu uma encolhida. Pelo WhatsApp, ela poderá postar o que está almoçando, pelo Skype verei seu novo corte de cabelo, pelo Face irei acompanhar suas fotos e bateremos papos digitais, coisa, aliás, que absurdamente já fizemos estando ela no seu quarto e eu na sala. Então, o que significa, mesmo, distância?

Nos dias atuais, as distâncias tornaram-se bem menos dramáticas, não há mais invisibilidade e silêncio, estejamos a poucos metros ou a muitos quilômetros da pessoa amada. O toque continua restrito aos corpos presentes, mas já não perdemos ninguém de vista. E isso nos libera para sofrer menos e pensar com mais positivismo sobre as separações.

Desde que a colocaram nos meus braços, na maternidade, percebi em seus olhos que ela não se conformaria com os limites impostos pela segurança de uma vida regrada. Sempre considerou o mundo seu quintal. A palavra estrangeiro nunca encontrou lugar em seu vocabulário. Todos os seus objetivos foram tratados como realizáveis, independentemente de onde, de quando, de quem, de como.

Os filhos voltam, quase todos. Nem que seja para nos visitar. Se ela não vier, eu irei até ela, não é esta a questão. O que me sensibiliza é que a nossa vida está mudando – mais uma vez. Um ciclo se encerra para dar início a outro. A família até então estruturada se decompõe para que cada um de seus membros forme outros núcleos, novas rotinas. Ela voltará um dia, mas para morar em seu próprio apartamento. Ou voltará para morar em São Paulo. Ou voltará casada. Voltará – mas nunca mais a mesma. O que vivemos juntas nesses últimos 23 anos virou memória desde ontem. A partir de agora, estaremos iniciando uma viagem inédita ao futuro, estando aqui ou estando fora.

Não posso ficar triste, mesmo com o coração apertado. É da vida esse chamado, que é atendido por aqueles que têm coragem de partir e mais coragem ainda de chegar. De chegar neles mesmos, que é onde cada um, não importa a via escolhida, confirma a razão da própria existência.

Fonte: Facebook

FRASES ILUSTRADAS


domingo, 12 de setembro de 2021

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Hélio Schwartsman

Redes sociais não são um serviço público, mas uma relação entre particulares

Vamos admitir, só para efeitos de argumentação, que Jair Bolsonaro e seus acólitos estejam genuinamente interessados na liberdade. Será que, neste caso, a medida provisória que proíbe empresas que administram redes sociais de vetar mensagens e banir usuários se justifica? Penso que não.

Os bolsonaristas se valem de uma visão bem interesseira de liberdade quando reclamam para si o direito de postar o que desejarem, mas não reconhecem que as empresas também devem ter a liberdade de escolher o que circulará em suas páginas. A fundamentação aqui pode ser tanto mercadista como filosófica.

No primeiro caso, o administrador pode argumentar que, se sua rede for povoada por ogros que afugentam anunciantes e usuários capazes de manejar talheres, ele perderá dinheiro, o que o frustra a razão de ser da empresa, que é gerar lucros. Pode também dizer que, ao excluir um usuário, ele não viola sua liberdade de expressão, já que esse indivíduo segue livre para transmitir suas ideias por outros meios.

Liberdade de expressão não é direito a megafone, e redes sociais não são um serviço público, mas uma relação entre particulares regida pelas regras contratuais com as quais o usuário concorda ao abrir sua conta.

É no plano filosófico que as coisas ficam mais interessantes. O liberalismo valoriza a liberdade devido a um saudável ceticismo. Não sabemos de antemão o que é melhor para a sociedade e temos certeza de que os objetivos mudam ao longo do caminho. Não há linha de chegada. Nesse contexto, que não é dos mais auspiciosos, o melhor que podemos fazer é deixar que todos persigam seus interesses e defendam suas ideias, torcendo para que a resultante seja virtuosa. Quando aceitamos que o debate deve ser travado na arena da racionalidade, a tendência é que os melhores argumentos prevaleçam.

O problema hoje é que alguns questionam a própria ideia de que as discussões devem ser racionais.

Fonte: Folha de S. Paulo

EXPRESSÕES PORTUGUESAS

EXPRESSÕES PORTUGUESAS

Muitas vezes usamos certas expressões mas não temos ideia do que elas significam. São ditados ou termos populares que através dos anos permaneceram sempre iguais, significando exemplos morais, filosóficos e religiosos. Tanto os provérbios como os ditados populares constituem uma parte importante de cada cultura. Historiadores e escritores sempre tentaram descobrir a origem dessa riqueza cultural, mas essa tarefa nunca foi nada fácil. Veja aqui algumas dessas expressões ou ditados populares:

Com o rei na barriga

A expressão provém do tempo da monarquia em que as rainhas, quando grávidas do soberano, passavam a ser tratadas com deferência especial, pois iriam aumentar a prole real e, por vezes, dar herdeiros ao trono, mesmo quando bastardos. Nos nossos dias esta expressão refere-se a uma pessoa que dá muita importância a si mesma.

Com a corda toda

Antigamente, os brinquedos que possuíam movimento eram acionados torcendo um mecanismo em forma de mola ou um elástico, que ao ser distendido, fazia o brinquedo mexer-se. Ambos os mecanismos eram chamados de “corda”.

Assim, quando se dava “corda” totalmente a um brinquedo, ele movia-se de forma mais agitada e frenética. Daí a origem da expressão.

Bicho de sete cabeças

Tem origem na mitologia grega, mais precisamente na lenda da Hidra de Lerna, um monstro de sete cabeças que, ao serem cortadas, renasciam. Matar este animal foi uma das doze proezas realizadas por Hércules. A expressão ficou popularmente conhecida, no entanto, por representar a atitude exagerada de alguém que, diante de uma dificuldade, coloca limites à realização da tarefa, mesmo até por falta de disposição para enfrentá-la.

Tapar o sol com a peneira

https://aesquinadatecla.blogspot.com

Peneira é um objeto circular de madeira com o fundo em rede de metal, seda ou crina, por onde passa a farinha ou outra substância moída. Qualquer tentativa de tapar o sol com a peneira é inglória, uma vez que o objeto é permeável à luz. A expressão teria nascido dessa constatação, significando atualmente um esforço mal sucedido para ocultar uma asneira ou negar uma evidência.

Farinha do mesmo saco

Homines sunt ejusdem farinae” esta frase em latim (homens da mesma farinha) é a origem desta expressão, utilizada para generalizar um comportamento reprovável. Como a farinha boa é posta em sacos diferentes da farinha ruim, faz-se essa comparação para insinuar que os bons andam com os bons enquanto os maus preferem os maus.

Sangria desatada

Diz-se de qualquer coisa que requer uma solução ou realização imediata. Esta expressão teve origem nas guerras, onde se verificava a necessidade de cuidados especiais com os soldados feridos. É que, se por qualquer motivo, se desprendesse a ligadura colocada sobre as feridas, o soldado morreria, por perder muito sangue.

Fonte: descobrirportugal.pt
Deus não podia estar em todas as coisas, por isso criou as mulheres. (provérbio judeu)

LUGARES

MUNIQUE - ALEMANHA


TOCANDO EM FRENTE

 SOLEDAD / ABEL PINTOS

FRASES ILUSTRADAS


sábado, 11 de setembro de 2021

Se as duas pessoas se amam, não pode haver final feliz. (Ernest Hemingway)

LUGARES

VALENCIA - ESPANHA

OS SONHOS DO REI

OS SONHOS DO REI

“Os sonhos do rei”: conto indiano que nos fará compreender o comportamento de muitos na pandemia

Um dia, um rei teve um sonho: sentado em seu trono, no salão central do palácio, ao olhar à sua volta, viu que várias raposas entravam e saíam pelas janelas do salão, correndo de um lado para o outro, à sua volta. Assustado, chamou seus áugures e conselheiros e lhes pediu que decifrassem o sonho, mas nenhum deles deu uma resposta que lhe satisfizesse. Mandou, então, que se espalhassem proclamas por todo o reino descrevendo seu sonho e prometendo a recompensa de um saco de moedas de ouro para quem o decifrasse satisfatoriamente.

No meio da floresta, um lenhador muito pobre, de nome Ravi, leu o proclama e pensava, sentado em um tronco de árvore, sobre como seria bom se ele soubesse o significado daquele sonho, pois um saco de moedas de ouro o redimiria de sua miséria. Quando assim pensava, pousou um belo e pequeno pássaro colorido próximo dele, no tronco, e lhe falou:

“- O que o entristece, Ravi? Gostaria de saber o significado deste sonho do rei?”
Ravi se assustou:

“- O quê? Um pássaro que fala!”

“- Não só falo, como também sei o significado deste sonho, e posso te contar, com a condição de que você volte aqui e divida este saco de ouro comigo. Combinado?”

Bem, pensou Ravi, meio saco de moedas de ouro é sempre melhor do que nenhum saco de moedas de ouro; assim, ele concordou com a condição do pássaro, e este prosseguiu:

“- O sonho do rei significa que o ar do reino está impregnado de traição; que ele se acautele para que não seja traído!”

Assim, Ravi foi e se apresentou ao rei, que, muito grato pela explicação, que coincidia exatamente com o que ele já intuía estar acontecendo, deu-lhe de imediato o saco de moedas de ouro. Porém, no caminho de casa, Ravi começou a pensar:

“-Minha miséria é tamanha que necessitava de todo este saco de ouro para me redimir dela, e não apenas metade. Também, para que um passarinho necessita de moedas de ouro, cada uma delas quase do seu tamanho? Que miserável explorador! O que vai fazer com isso? “

Assim pensando, resolve tomar outro caminho para casa, evitando o ponto de encontro com o pássaro e guardando todo o ouro para si. Com as moedas, pôde construir uma casa bem melhor e mais confortável do que sua choupana, e ali viver com relativo conforto.

Um dia, porém, passado algum tempo, o rei tem outro sonho: sentado em seu trono, ao olhar para cima, viu que havia um punhal pendente do teto, prestes a cair sobre sua cabeça. Assustado, acorda e chama seus guardas:

“- Não chamem ninguém; vão diretamente à casa daquele lenhador, Ravi, e o tragam aqui. Só ele entende de sonhos, neste reino. Diga-lhe que lhe darei dois sacos de moedas de ouro como recompensa.

Qual não foi a surpresa de Ravi ao ver a guarda real em sua porta; tentou se esquivar do convite, mas foi informado pela mesma que a recusa a um convite do rei era punida com a morte. Assim, pediu que lhe contassem o sonho e lhe dessem um dia para pensar; no dia seguinte, estaria com o rei. Quando os guardas se retiraram, porém, entrou em desespero: como faria para salvar a sua vida?

Sua única saída foi voltar à floresta e sentar-se naquele tronco, pondo-se a lamentar. Em breve, o pássaro veio:

“- O que houve, Ravi? O rei teve um novo sonho?

“- Sim… Se puder me ajudar, comprometo-me a, seja lá o que for que eu receba, dividir contigo, com certeza!”

– Então, o pássaro, aceitando a proposta, falou:

“- O sonho do rei indica que o ar do reino está impregnado de violência; vai e diz a ele para que se acautele para não ser vítima de nenhum ato violento!”

Ao falar do significado do sonho ao rei, este, mais radiante que nunca, entregou a Ravi, os dois sacos de ouro. No caminho de volta para casa, porém, Ravi pôs-se a pensar:

“- Como esse passarinho é desleal e aproveitador! Usa minha dor e aflição para enriquecer às minhas custas! É um vil e ordinário! Já terá sua recompensa em uma bela pedrada!”

Com este pensamento em mente, Ravi se dirige ao local do encontro; pega uma pedra na mão e a esconde às costas.

Quando o pássaro se aproxima, ela a lança com força, mas o pássaro, espertamente, levanta voo a tempo, e a pedra apenas passa de raspão. Assim, Ravi volta para casa e passa a viver com ainda maior comodidade e luxo.

Porém, o tempo gira, e, um dia, o rei tem um novo sonho. Agora, sentado em eu trono, vê ovelhas muito brancas entrando e saindo pelas janelas, e correndo à sua volta. Sem hesitações, chama sua guarda e manda que tragam Ravi à sua presença, com a promessa da recompensa de três sacos de ouro.

Perplexo ante a guarda á sua porta, Ravi usa a mesma estratégia de ouvir o sonho e pedir um dia para pensar. Porém, agora, seu desespero é total e sem perspectivas: se é que o pássaro sobreviveu, como haveria de confiar nele novamente, após quase morrer através de suas mãos? Como havia sido estúpido, ingrato e brutal! Reconhecendo seu erro passado, chorou amargamente.

Sem ter mais o que fazer, Ravi arrastou-se até a floresta e sentou-se no antigo tronco. Para sua surpresa, o pássaro, em breve, aproximou-se e pousou ao seu lado:

“-Novo sonho do rei, Ravi?”

Sem caber em si de alegria, Ravi pôs-se de joelhos ante o pássaro, pedindo-lhe mil perdões por sua conduta passada. O pássaro, sem dar muita atenção a estas demonstrações de arrependimento, concordou em dizer o significado do sonho, com a mesma condição de sempre: metade da recompensa.

“- Diga ao rei que as ovelhas representam pureza; agora, há pureza e honestidade impregnando o ar do reino. Que ele desfrute e fique em paz.”

Correndo na direção do rei e relatando o sonho, Ravi recebeu abraços e condecorações de um soberano ainda mais feliz, pois, afinal, agora a notícia era boa. Ao receber seus três sacos de moedas de ouro, Ravi, desta vez, finalmente, mostrou-se sinceramente determinado a corrigir seus erros passados, e foi ao ponto de encontro:

“- Aqui está, belo pássaro colorido: o meio saco de ouro que te devia da primeira vez, um saco de ouro que te devia da segunda vez e um saco e meio que te devo por este terceiro sonho. Ao todo, três sacos de ouro, tudo o que acabo de receber, além de meu pedido de perdão.”

Para sua surpresa, porém, o pássaro lhe disse:

“- Não necessito de moedas de ouro, Ravi; tudo o que preciso são sementes para me alimentar, um galho para pousar, asas para voar e meu canto, para embelezar meus dias. Tenho tudo isso sem necessitar de ouro. Também não necessito de seu pedido de perdão, pois nunca esperei que você agisse de maneira diferente. No primeiro momento o ar do reino estava impregnado de traição, e você me traiu; no segundo momento, o ar do reino estava impregnado de violência, e você foi violento comigo. Agora, o ar do reino está impregnado de pureza e honestidade, e você está sendo puro e honesto comigo. Poucos homens são capazes de serem fieis a si mesmos, sem se deixarem contaminar pelo ar à sua volta, e nunca esperei que você fosse um deles. Leve seu ouro e seja feliz se puder, apesar da miséria continuar vivendo dentro de ti.

Extraído (linguagem adaptada) do Katasaritsagara, ou “Oceano do rio de contos” indiano.
Obs: não é demais lembrar que o elemento ar, em várias tradições, está associado ao mundo emocional, à psique humana.

O texto foi trazido da página de Lúcia Helena Galvão, filósofa.

Fonte: https://www.revistapazes.com