domingo, 28 de fevereiro de 2021

A NATUREZA NOS ENSINA A AGIR COLETIVAMENTE

Ilustração: Catarina Bessell

A NATUREZA NOS ENSINA A AGIR COLETIVAMENTE
Por Clarice Cudischevitch

Simon Levin mistura matemática, biologia e sociologia para entender o comportamento humano

Por que peixes nadam em cardumes? Como pássaros voam em bando tão harmonicamente? O que motiva pessoas a não usarem máscara em uma pandemia? Um dos fenômenos mais fascinantes das ciências da vida é, justamente, o conflito entre o comportamento individual e o coletivo. Mas ele não é exclusivo do mundo biológico. O ecólogo Simon Levin o extrapola para as ciências sociais buscando entender condutas de uma espécie em particular: a humana.

Isso porque, embora a seleção natural atue nas diferenças entre indivíduos, a cooperação existe na natureza desde o nível celular até em diferentes animais. Diretor do Centro de BioComplexidade e professor de ecologia e biologia evolutiva da Universidade de Princeton (EUA), Levin aplica a matemática, sua formação original, para estudar essas duas tendências conflitantes.

Na biologia, elas já são relativamente conhecidas. Pela seleção natural, os organismos mais aptos a sobreviver têm mais chances de passar suas características para os descendentes e, assim, perpetuar seus genes. Em “O Gene Egoísta”, o biólogo Richard Dawkins afirma que um comportamento coletivo, como voar em bando, é adotado por conferir maior probabilidade de sobrevivência a uma linhagem genética.

Quando falamos de interações humanas, no entanto, a conversa é mais complexa. Se peixes nadam em cardumes para benefício mútuo –lutar contra predadores, por exemplo–, adotar um comportamento coletivo que gere benefícios em maior escala para a sociedade geralmente implica restringir ações individuais. “Precisamos aprender com a natureza como alcançar a cooperação”, diz Levin.

Na matemática, é a teoria dos jogos, técnica que modula o comportamento estratégico de agentes em diferentes situações, que dá conta de entender essas relações. Um exemplo clássico: se as pessoas priorizassem o transporte público ao carro, o congestionamento diminuiria, beneficiando a todos. Nesse cenário, no entanto, indivíduos acabariam saindo de carro para aproveitar o fluxo do trânsito, voltando a sobrecarregar as vias. Para a coletividade, seria melhor a cooperação do que ações individuais egoístas.

Essa mistura de matemática com sociologia e toques de biologia é útil para entender a pandemia da Covid-19. Levin, que passou mais de 40 anos estudando a dinâmica de doenças infecciosas, explica que, no caso do coronavírus, aplicamos modelos que predizem a disseminação do vírus, as diferenças entre pacientes com e sem sintomas e outros aspectos que ajudam a pensar em estratégias. Mas falta o componente social.

“Vemos grupos que hesitam em se vacinar. Por quê?”, questiona Levin. “Há os que se recusam a usar máscaras. China, Japão e Ásia em geral são países mais abertos a esse tipo de proteção, enquanto outros, como a Suécia, resistem. Entender isso é um problema das ciências sociais.”

Levin vai além: como decisões coletivas são tomadas? Como normas sociais são criadas e mantidas? Como indivíduos interagem? Um de seus estudos do momento quer entender a dinâmica das polarizações políticas. “Pessoas fazem parte de grupos diferentes, que às vezes se sobrepõem. Desenvolvemos modelos em que os indivíduos mudam suas opiniões ou migram de grupo baseados em interações com outras pessoas.”

Modelos desse tipo também são aplicados em contextos internacionais. Analisam, por exemplo, não apenas as relações entre nações, mas também as influências de organizações como ONU e OMS nas decisões e mudanças de posicionamento dos países.

Tantas incursões interdisciplinares renderam a Levin, hoje com 79 anos, uma produção científica de quase 700 publicações. Doutor desde 1964, é verdade que o cientista não começou agora, mas o segredo é outro.

“Conto com um grupo maravilhoso de estudantes e nada poderia acontecer sem eles”, diz. “O trabalho é fruto de muita colaboração, por isso o esforço de formar pessoas é tão importante. A razão de eu ainda ter alunos é justamente o quanto eu aprendo com eles e vejo o quanto podem construir. Quando as pessoas trabalham juntas podem fazer muito mais.” Eis aí um exemplo humano bem-sucedido de comportamento coletivo.

Fonte: Folha de S. Paulo

JACARÉ MORDE?

JACARÉ MORDE? 


Aceitei o convite para uma pescaria no pantanal. Nosso grupo era formado de casais, com exceção da minha pessoa e do Irineu Passold, então secretário da saúde do município.

Assim, formamos a dupla de pescaria e tivemos o Banana como piloteiro. 

Pois foi o Banana que um dia arriscou sairmos mais cedo para tentarmos uns dourados. Mas isto é outra história. 

Um ou dois dias antes, a pescaria andava de mal para pior. Vendo um jacaré no sol e com o fito de quebrar a monotonia, perguntei ao piloteiro: 

- Banana, jacaré morde? 

Ele pensou, avaliou a pergunta e respondeu de forma suscinta: 

- Se pisar nele, sim. 

Como o Banana não era de muitas palavras, nossa conversa ficou por aí mesmo. 

À tarde voltamos ao rio, o sol estava mais forte ainda, não havia vento e para piorar, os peixes estavam sem apetite. Pensei na conversa matutina e lasquei: 

- Banana, estive pensando no que você me disse de manhã. Se eu estiver deitado, descansando, curtindo a vida numa boa e alguém pisar em mim, eu também sou capaz de morder! 

O Banana foi tomado de surpresa e começou a rir intensamente que quase caiu do barco. 
A vida é como um sonho. É o acordar que nos mata. (Virginia Woolf)

LUGARES

ATENAS - GRÉCIA

EVERYBODY'S TALKING AT ME

MÚSICA DO FILME MIDNIGHT COWBOY

FRASES ILUSTRADAS


sábado, 27 de fevereiro de 2021

O PREÇO DA LIBERDADE

O PREÇO DA LIBERDADE
Ruy Castro

Ressurge uma frase usada no passado pelos avós dos que hoje tramam um autoassalto ao poder

Outro dia, num debate sobre política na TV, escutei alguém dizer: “Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”. Fiquei encantado —havia anos não ouvia essa frase do filósofo George Santayana. Não que ela tivesse deixado de valer. É que, pela quantidade de vezes em que foi citada no século 20, era como se entrasse e saísse por conta própria dos textos. Quando isso acontece, não há frase que aguente —o conteúdo se esgota e fica a frase pela frase. E ela já fora abandonada.

Várias outras frases clássicas da política correm o risco de ter de pedir aposentadoria: “A história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa” (Karl Marx). “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas” (Samuel Johnson). “Não existe almoço grátis” (popularizada por Milton Friedman). “Tudo deve mudar para que tudo fique na mesma” (Giuseppe Tomasi di Lampedusa).

E o que dizer dos achados dos nossos frasistas? “Política é como nuvem. Você olha e está de um jeito. Olha de novo e já mudou” (Magalhães Pinto). “O que vale não é o fato, mas a versão” (José Maria Alckmin). “Política é a arte de engolir sapos” (Nereu Ramos). “Política é a arte de namorar homem” (Rubem Braga).

Seja como for, essas citações ficaram sofisticadas demais para o que está acontecendo hoje no Brasil. Nossa realidade se brutalizou de forma a não comportar mais análises, só constatações —e alertas. Nunca se viu, por exemplo, uma interferência política tão nociva e ofensiva em todos os setores da administração. Os canais da Justiça estão sendo meticulosamente obstruídos para dar um verniz de legalidade à fratura institucional em preparo. E há fanáticos e sicários se armando e juntando munição para o caso de resistência. Está na cara.

Diante disso ressurge, quem diria, uma frase muito popular no passado entre os avós dos que hoje tramam um autoassalto ao poder: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.

Fonte: Folha de S.Paulo
Certas mulheres amam tanto seu marido que, para não gastá-lo, usam o de suas amigas. (Alexandre Dumas Filho, romancista)

LUGARES

GRANADA - ESPANHA
A Alhambra
A Alhambra localiza-se na cidade e município de Granada, comunidade autónoma da Andaluzia, na Espanha, em posição dominante no alto duma elevação arborizada na parte sudeste da cidade. Trata-se dum rico complexo palaciano e fortaleza (alcazar ou al-Ksar) que alojava o monarca da Dinastia Nasrida e a corte do Reino de Granada. O seu verdadeiro atractivo, como noutras obras muçulmanas da época, são os interiores, cuja decoração está no cume da arte islâmica. Esta importante atracção turística espanhola exibe os mais famosos elementos da arquitectura islâmica no país, juntamente com estruturas cristãs do século XVI e intervenções posteriores em edifícios e jardins que marcam a sua imagem tal como pode ser vista na actualidade. (wikipédia)

A MORTE DOS GIRASSÓIS

A MORTE DOS GIRASSÓIS
Caio Abreu

Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira.” Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral.”

Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.

Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.

Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.

Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.

Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.

Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a ideia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.

Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro.Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.

Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo. (Zero Hora, 18.3.1995)

Fonte: revistaprosaversoearte.com

FRASES ILUSTRADAS


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

SPAM OFICIAL

SPAM OFICIAL
José Horta Manzano

Costumo receber entre 30 e 50 spams por dia. Nunca abri nenhum deles. Assim que aparece um novo, verifico (sem abrir) quem é o remetente; em seguida, incluo o endereço na lista de indesejáveis. A partir daí, todo email vindo desse remetente não aparecerá mais em minha caixa de recepção – vai direto para a lata de lixo.

Sem ser especialista no assunto, imagino que certas firmas ganham dinheiro vendendo listas de emails a empresas interessadas em espalhar mensagens não solicitadas. Não estou inscrito em nenhuma rede social. Como esse povo consegue incluir, nas listas, nome de gente que não aparece em rede social, não saberia dizer. Muito provavelmente, utilizam algum software que rastreia todos os blogues, copia endereços email e prepara as listas.

Nunca dei muita importância ao fato, visto que tenho a solução pra não ser importunado. Hoje chegou um spam enviado por remetente novo. Achei curioso o endereço mdh.gov.br, que faz pensar numa repartição do governo brasileiro. Fui verificar.

Pois imagine o distinto leitor que realmente é uma repartição. E não é de terceiro escalão. Trata-se do mui oficial Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Sim, precisamente o ministério da impagável dona Damares!

Nem bem comecei a escrever este texto e – opa! – já pintou novo spam do mesmo ministério. Talvez seja uma prática corriqueira por parte de ministérios do atual governo, mas pra mim é novidade. Achei surpreendente que ministérios da Presidência se disponham a comprar listas pirateadas na internet. Tempos modernos.

Logo na home page do ministério, quase colada à foto de dona Damares, está a notícia principal. Narra que foram anuladas 25% das anistias concedidas a ex-cabos da FAB, o que representa economia de 86 milhões de reais por ano para os cofres públicos. Em seguida, um longo texto começa mencionando uma lei de 1964 e continua por páginas. Não estando interessado, não prestei atenção.

Mas lembrei da fortuna que doutor Bolsonaro gastou – dos mesmos cofres públicos – para subornar as excelências do Senado e da Câmara a fim de votarem como ele desejava. Segundo a imprensa, foram 3 bilhões (bi). Se essa extravagância (feita pra salvar da cadeia presidente & filhos) tiver de ser financiada com o dinheiro economizado na aposentadoria dos cabos, vai levar 35 anos pra ressarcimento total. Vão ter de anular muita anistia.

Fonte: brasildelonge.com
A ignorância é a maior multinacional do mundo. (Paulo Francis)

LUGARES

FLORENÇA - ITÁLIA
(Ponte Vecchio)
A Ponte Vecchio (Ponte Velha) é uma Ponte em arco medieval sobre o Rio Arno, em Florença, na Itália, famosa por ter uma quantidade de lojas (principalmente ourivesarias e joalharias) ao longo de todo o tabuleiro. Acredita-se que tenha sido construída ainda na Roma Antiga e era feita originalmente de madeira. Foi destruída pelas cheias de 1333 e reconstruída em 1345, com projecto da autoria de Taddeo Gaddi. Consiste em três arcos, o maior deles com 30 metros de diâmetro. Desde sempre alberga lojas e mercadores, que mostravam as mercadorias sobre bancas, sempre com a autorização do Bargello, a autoridade municipal de então. Durante a Segunda Guerra Mundial, a ponte não foi danificada pelos alemães. Acredita-se que tenha sido uma ordem direta de Hitler. Existe uma referência à ponte e ao Rio Arno na famosa ária O Mio Babbino Caro, da ópera Gianni Schicchi de Giacomo Puccini.

MR. MILES


Como encontrei com Trashie

“My friends: vinha relutando em contar-lhes sobre ela, porque, por meses, eu mesmo não estava certo de como iria lidar com o assunto. O fato é que, quando a conheci, em janeiro do ano passado, durante uma curta escala em Novosibirsk, não supunha que ela se tornaria such a special travel companion. Ouvi seu triste lamúrio em um beco com sacos de lixo congelados. Mal conseguia mover-se, a pobre. 

Era tão branca quanto a neve, com doces olhos acinzentados que imploravam por ajuda. Tentei apanhá-la, mas ela ganiu de dor. Havia uma fratura em sua pata traseira. De um golpe, reduzi a fratura, aproveitando a experiência que adquiri no hospital de campanha de El Alamein. Com as mãos congelando, improvisei uma tala com duas pequenas ripas. E quis levá-la para o hotel, em busca de quem lhe desse acolhida. Believe me: não foi preciso. Ela me seguiu, com o rabo abanando. 

Dei-lhe o nome de Trashie, porque foi no lixo que a encontrei. Na hospedaria, Trashie rejeitou a atenção dos outros. Chegou a mostrar os dentes para a recepcionista. Levei-a para o meu quarto e ofereci leite em um pires. Trashie desdenhou, com os olhos sorrindo. Tomei um scotch antes de dormir. Ela pulou em meus joelhos. Divertido, molhei o dedo no whisky. Trashie lambeu-no com avidez. Despejei uma dose no leite. A pequena cadela, que acredito ser uma raposa das estepes siberianas, limpou o prato. 


A história é longa para uma coluna, mas o fato é que fui obrigada a levá-la comigo para Londres. Descobri que ela se comportava como uma lady: silenciosa, próxima, discreta. Asseada como uma gata. Besides, aprendi que Trashie não toma whisky com menos de doze anos. E só aceita alguns tipos de single malt. 

Porque sou incapaz de deixá-la em uma dessas cadeias a que chamam hotéis de cachorros, Trashie tem viajado comigo. Quando não pode entrar em algum ambiente, espera-me na porta, impávida.

Tem saudades de casa, porque seus olhos ficam úmidos quando ouve diálogos em russo. Nessas ocasiões, my friends, acaba com meu whisky.

Fonte: Mr.Miles/Facebook

FRASES ILUSTRADAS


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

VACINA E LIBERDADE

VACINA E LIBERDADE
Hélio Schwartsman

Só devemos criar restrições que sejam absolutamente indispensáveis

Se tudo der muito certo, o que é improvável, o Brasil conseguirá vacinar toda a sua população-alvo contra a Covid-19 perto do final deste ano. Países mais organizados e menos populosos podem lograr esse feito em prazos menores, mas, mesmo assim, serão meses.

Não surpreende, portanto, que já haja nações adotando certificados de vacinação como pré-requisito para permitir que cidadãos participem de atividades coletivas não essenciais, como frequentar bares, estádios, cinemas etc.

Não é difícil vislumbrar a injustiça intrínseca da proposta. O governo estaria criando duas classes de cidadãos, uns com mais, outros com menos direitos, com base num critério, a vacinação, à qual nem todos tiveram acesso. Há também dúvidas quanto à eficácia da medida, já que estar vacinado não é garantia de que o indivíduo não transmita a doença, especialmente diante das novas variantes do vírus que estão emergindo.

São objeções que merecem séria consideração, mas não argumentos definitivos. À primeira delas podemos contrapor que também seria uma injustiça prolongar, em nome da ideia abstrata de não cometer injustiça, a crise no setor de serviços e entretenimento, quando já haveria condições razoavelmente seguras de retomar essas atividades, ainda que apenas para parte da população.

A questão da eficácia também é relativa. Segurança absoluta existe apenas para quem embarcou num longo voo espacial antes da pandemia. Para os demais o que temos é redução do risco. E, por tudo o que sabemos de vacinas, não há muita dúvida de que uma pessoa que foi imunizada tem menor probabilidade de desenvolver e de transmitir a doença do que uma que não o foi.

Reconheço que é tudo muito difícil e sujeito a incertezas, mas acho que, como diretriz geral, deve prevalecer a ideia de que só devemos criar restrições que sejam absolutamente indispensáveis e relaxá-las à medida que vão deixando de sê-lo.

Fonte: Folha de S. Paulo
Ninguém prega melhor do que a formiga e ela não fala. (Benjamin Franklin, político americano)

LUGARES

ROTA DO VINHO - ALSÁCIA

A Rota do Vinho da Alsácia é formada por uma estrada super estreita que interconecta pequenos vilarejos desta região da França, famosa pela enormidade de vinhedos ao seu redor. Embora no mapa ela começa antes de Estrasburgo e termina depois de Colmar, é entre estas duas cidades, cerca de 75 km,  que estão as cidadezinhas mais famosinhas e que valem a pena parar. Na prática, podemos dizer que começa em Estrasburgo e termina em Colmar, ou vice-versa. (http://viciosdeviagem.com)

NÃO TROPECE NA LÍNGUA



ONLINE, EGRÉGORA, IDIOSSINCRASIA, EDIÇÃO
--- Em nossa revista, surgiu uma dúvida: como se escreve “on-line”. Após consultar vários dicionários e revistas da área de informática, verificamos que cada um trata a expressão de uma forma: com hífen, sem hífen, online, on-line, on line. J. A. A., Ouro Preto/MG
Prefiro a grafia online. O inglês, quando quer se referir a algo “diretamente conectado ao ou controlado por um computador”, utiliza o termo sem hífen – online: “an online printer”, por exemplo. O Longman Dictionary of Contemporary English (1995) registra online tanto para o adjetivo quanto para o advérbio. 
Mas, para você ver que a questão do hífen não é rigorosa e não confunde só a nós brasileiros, já no verbete “on-air” (que seria o equivalente a “online” no rádio), o hífen está presente: “an on-air interview”. O mesmo se dá com “on-stream” (em operação). Então, por analogia, poderíamos hifenizar on-line, até por uma questão visual. A forma “on line” é que não tem nenhum respaldo, no meu entendimento.
--- Desejo saber o significado da palavra egrégora. Neto, Recife/PE

FRASES ILUSTRADAS


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

AS TENTAÇÕES DO IMEDIATISMO

AS TENTAÇÕES DO IMEDIATISMO
Hélio Schwartsman

Abraçado ao centrão, Bolsonaro dá rédeas soltas ao imediatismo econômico

Jair Bolsonaro descobriu o caminho das pedras. Ele até que tentou seguir as bandeiras de sua campanha eleitoral, na qual rejeitou o "establishment" político, notadamente o centrão, e afirmou que governaria com o apoio de frentes parlamentares, em especial o das bancadas BBB (bíblia, boi e bala).

É óbvio que não deu certo. Ironicamente, foi uma derrota sua no Congresso, o generoso auxílio emergencial de R$ 600, que o fez experimentar as delícias do populismo. Com a ajuda de emergência, até grupos demográficos que pareciam bastiões inexpugnáveis do PT passaram a aprovar a gestão do capitão reformado.

Bolsonaro gostou e agora, abraçado ao centrão, dá rédeas soltas ao imediatismo econômico. Acaba de intervir na Petrobras e ameaça fazer o mesmo no setor elétrico, para assegurar preços baixos aos consumidores/eleitores.

O imediatismo é um dos muitos problemas que assombram as democracias. Pela lógica imposta por mandatos de quatro anos, sempre vale a pena para o governante sacrificar o futuro para se dar bem no presente. Como o auxílio emergencial mostrou, é fácil arrancar aplausos distribuindo benesses.

Os termos da equação seriam alterados se os mandatos durassem 20 ou 50 anos. Nesse cenário, responsabilidade fiscal e uma estratégia política baseada em ganhos incrementais mas constantes ganhariam importância eleitoral. Não recomendo, porém, o esticamento dos mandatos. Aí perderíamos uma das principais virtudes da democracia, que é a relativa facilidade com que ela despacha os maus políticos para casa.

O sistema só funciona bem quando o "establishment" se convence da necessidade de preservar o médio e o longo prazos e veta os arroubos populistas mais escandalosos dos dirigentes de turno. Até pareceu que o Brasil havia chegado a esse ponto de amadurecimento institucional nos anos FHC, Lula 1 e a primeira metade de Lula 2, mas, como vimos, era só uma ilusão.

Fonte: Folha de S.Paulo
Do sublime ao ridículo só há um passo. (Napoleão Bonaparte, imperador francês, 1769-1821)

LUGARES

COLÔNIA DEL SACRAMENTO - URUGUAI

DE RESSACA

DE RESSACA
Luis Fernando Veríssimo

Hoje, existem pílulas milagrosas, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque você as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. Além de saúde era preciso coragem. As novas gerações não conhecem ressaca, o que talvez explique a falência dos velhos valores. A ressaca era a prova de que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo.

Cada porre era um desafio ao céu e às suas feras. E elas vinham: Náusea, Azia, Dor de Cabeça, Dúvidas Existenciais – as golfadas. Hoje, as bebedeiras não têm a mesma grandeza. São inconsequentes, literalmente. Não é que eu fosse um bêbado, mas me lembro de todos os sábados de minha adolescência como uma luta desigual entre a cuba-libre e o meu instinto de autopreservação. A cuba-libre ganhava sempre. Já dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte.

Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos trinta, “nunca mais” dura pouco. Ou então o próximo sábado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. Não sei o que a cuba-libre fez com meu organismo, mas até hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu pé encolhem.

Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um Alka-Seltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava nem sempre conseguia completar a operação. Às vezes dissolvia as aspirinas num copo de água, engolia o Alka-Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama. Mas os métodos variavam.

Por exemplo:

Um cálice de azeite antes de começar a beber – O estômago se revoltava, você ficava doente e desistia de beber.

Tomar um copo de água entre cada copo de bebida – O difícil era manter a regularidade. A certa altura, você começava a misturar a água com a bebida, e em proporções cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida.

Suco de tomate, limão, molho inglês, sal e pimenta – Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodca ficava um bloody-mary, mas isto era para mais tarde um pouco.

Sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene – Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cartões do sabonete Eucalol. Embebia-se um algodão na testa e deitava-se com os pés na direção da ilha de Páscoa. Ficava-se imóvel durante três dias, no fim dos quais o tempo já teria curado a ressaca de qualquer maneira.

Uma cerveja bem gelada na hora de acordar – Por alguma razão o método mais popular.

Canja – Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar. No entanto, muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham de ser socorridos às pressas antes do afogamento.

Minha experiência maior era com a cuba-libre, mas conheço outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Você sabia que o uísque escocês que tomara na noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com uísque falsificado era muito grande, você acordava se sentindo como uma harpa guarani e no depósito de instrumentos da boate Catito’s em Assunção.

A pior ressaca era de gim.

Na manhã seguinte, você não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro, o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido tão aguçado que ouvia até os sinos da catedral de São Pedro, em Roma.

Ressaca de martini doce: você ia se levantar da cama e escorria para o chão como óleo. Pior é que você chamava a sua mãe, ela entrava correndo no quarto, escorregava em você e deslocava a bacia.

Ressaca de vinho. Pior era a sede. Você se arrastava até a cozinha, tentava alcançar a garrafa de água e puxava todo o conteúdo da geladeira em cima de você. Era descoberto na manhã seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticínios e mastigando um chuchu para alcançar a umidade. Era deserdado na hora.

Fonte: https://www.mensagenscomamor.com

FRASES ILUSTRADAS


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

PROPOSTAS AFINS

PROPOSTAS AFINS
Propostas afins

Eduardo Affonso (*)

Amigues,

Vocês já se divertiram à beça com a proposta estapafúrdia de se implantar uma linguagem neutra que, trocando um “O” por um “E”, acabaria com todes es problemes de machisme, misoginie, homofobie, transfobie etcétere.

Mas a ideia, em si, não é ruim. O que estraga é ser pouco abrangente e se limitar à questão de gênero. Há várias outras formas de opressão linguística – e a maior delas é… a opressão linguística.

Eu aproveitaria que todos os livros terão que ser reescritos e mandaria ver numa linguagem realmente inclusiva. Muita gente não entende, por exemplo, a diferença entre “mau” e “mal”. E deve se sentir muito mau contando a história do lobo mal para os filhos, sem saber quando está usando um adjetivo ou um advérbio.

Solução: uniformizamos a grafia, e daqui pra frente será “mao”. Tanto fará ser bom ou mao, andar bem ou mao acompanhado. Isso no singular, porque no plural continuará havendo males que vêm para o bem, e os bons acabarão pagando pelos maus.

De uma penada só, lá se vão 25% dos erros de português.

“Mas” e “mais” são outra desgraça que pode estar com os dias contados se adotarmos a grafia única “maes”.

O corretor ortográfico vai criar caso nos primeiros dias, maes nunca maes teremos dúvidas se é para usar a conjunção adversativa ou o advérbio de intensidade.

Outros 25% de erros eliminados.

“Menos” ou “menas”? Menes.

“Meio” ou “meia”? Meie, seja adjetivo, advérbio, numeral ou substantivo.

“Há” ou “a”? Ah!, seja artigo, verbo, preposição ou interjeição – e ah crase vai fazer companhia ao trema, ah fita para máquina de escrever e ao estado civil de “desquitada” no limbo das coisas que perderam ah razão de existir ah muito tempo.

Ah menes que você seja uma pessoa meie lenta, já terá percebido que ah inúmeras vantagens nessas alterações – ah maior delas sendo outros 25% de correções a menes ah fazer nas provas do Enem, nas matérias dos jornais, nos tuítes de ministros da Educação.

Finalmente, a pergunta que não quer calar: por que o português tem que ser tão complicado? Deve haver um porquê. Talvez porque um monte de filólogos mortos tenha decidido assim – mas por quê?

Não importa. Na reforma contra o preconceito linguístico tudo vai virar “pq”.

Pq? Pq sim. Não tem que ter pq.

E lá se vão os 25% de erros restantes.

Por isso, pensem duas vezes antes de criticar seus amigues progressistes e as fórmulas mirabolantes que eles inventaram para resolver os problemas do mundo com uma canetada. Eles podem ser çem noção mas não estão çem por cento errados. (O “ç” também é uma mão na roda, né não?)

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Fonte: brasildelonge.com
Os homens não se tornam mais civilizados por seu desejo de acreditar, mas por sua boa disposição em duvidar. (Henry Louis Mencken, jornalista americano, 1880-1956)

LUGARES

KARLOVY VARY - REPÚBLICA CHECA

Karlovy Vary é uma cidade termal situada na parte ocidental da República Checa, na confluência dos rios Ohře e Teplá. Karlovy Vary é assim chamada depois que o imperador Carlos IV fundou a cidade na década de 1370. A cidade é historicamente famosa pelas suas termas. A cidade também é conhecida pelo seu Festival Internacional de Cinema e pelo seu licor famoso Karlovarská Becherovka. Até à sua expulsão em 1945, a maioria de habitantes desta cidade falava alemão.