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quarta-feira, 23 de julho de 2025

SAUNA CLUBE EM JOINVILLE

Havia uma pendência a ser resolvida em Joinville. A Panamante era credora do Sauna Clube daquela cidade e como a coisa fosse um pouco complicada convidei o Dr. Cláudio para tal empreitada. O Cláudio topou a parada de imediato, mesmo por que era a oportunidade de encontrar-se com um primo da Bete, sua esposa, que estava morando naquela cidade. O advogado do devedor era o Dr. Adauto com quem tive um relacionamento mais próximo alguns anos depois, já na condição de magistrado. Fizemos contato com o advogado e por coincidência, o primo da Bete era sócio do Sauna Clube. Primeiramente fomos até a sede do clube para refazer nossas forças. Depois de uma sauna úmida, alguém chamou o garçom para pedir alguma coisa. Quando ele se aproximou não tive dúvidas de que o conhecia e então dirigi-lhe a palavra: 

- Você é o Arpino, que jogou no Flamengo de Caxias, não é? 

- Sou sim, mas faz muito tempo. 

- Eu sei. E digo mais, você foi para o Flamengo em duas oportunidades, na primeira, em seu primeiro jogo, como centroavante, você marcou três gols e o jogo terminou empatado em três a três. Você saiu e tempos mais tarde retornou ao Flamengo, agora jogando como zagueiro central. 

O cara ficou de boca aberta e admirado com as minhas lembranças, deixou três cervejas na nossa mesa, dizendo que era brinde da casa. Alguns anos depois, quando judicava em Guaramirim, fiquei sabendo pela imprensa que o Arpino estava muito doente, com câncer. Cheguei a fazer contato com alguns conhecidos em Caxias mas não sei se de alguma forma ele recebeu alguma ajuda. 

domingo, 23 de março de 2025

OVOS FRITOS E ARROZ BRANCO

Cada pessoa que se dispõe a viajar para o exterior o faz movido por razões particulares. Há os que gostam de visitar sítios arqueológicos, outros que curtem o visual dos Alpes, outros ainda o charme de Paris, tudo sem falar dos inúmeros roteiros alternativos, como do turismo religioso, por exemplo.Há quem passe grande parte do seu tempo dentro dos centros de compras/

Cada viagem tem a sua própria história, mesmo que os lugares visitados sejam os mesmos de viagens anteriores. Sempre há a possibilidade de almoçar ou jantar num restaurante diverso daquele de outras visitas. 

Há os que não se adaptam à culinária estrangeira, oferecendo ferrenha resistência ao mais inocente dos pratos, desde que o visual ou a denominação não lhe sejam minimamente familiares. 

 Também há aqueles turistas que se aventuram com o dinheiro muito bem contado e aí a questão assume outros contornos. Numa viagem recente havia um casal de argentinos que todos os dias, no café da manhã, enchia uma sacola de sandwihs e frutas e tudo era consumido na hora do almoço. 

Conhecer outros povos envolve entrar na sua cultura, colocar-se no lugar deles e a partir daí buscar a compreensão do por que disto ou daquilo. Experimentar pratos típicos, embora muitas vezes, nós turistas, pobres mortais, sejamos engambelados, mesmo assim se tem a noção de alguns aspectos culturais do lugar visitado. 

A escolha do prato dentre um sem número de sugestões num cardápio cheio de nomes sofisticados nem sempre resulta satisfatória. Será ótimo se der certo mas existe o risco de o pedido ficar aquém da expectativa. É o risco que se corre quando o propósito é evitar os lanches rápidos, nem sempre saudáveis e muitas vezes mais dispendiosos. 

Bem, não gostar do nome ou da aparência de determinada comida, chega a ser compreensível. Mas sair do Brasil para conhecer a França levando consigo a pré-disposição de rejeitar quaisquer pratos é um exagero. 

Uma colega de excursão, ao que se sabe bem situada financeiramente, não gostava de nada, ou melhor, só comia arroz com ovos fritos. Não há dúvidas que para nós brasileiros é uma combinação das mais apreciadas mas a nossa colega não pedia outra coisa. 

Mas este não era o problema. A questão mais grave estava em que ela não sabia se expressar em outro idioma que não fosse o português o que implicava uma tarefa nem sempre muito simples para a nossa guia. 

Se é certo que a culinária faz parte da cultura de um povo, o gosto por arroz branco e ovos fritos é coisa tipicamente brasileira e nada tradicional em solo francês. Significa dizer que a cada refeição, o pedido especial daquela viajante excêntrica se transformava numa novela com direito a gran finale. 

Primeiro, havia a dificuldade para explicar ao garçom o que aquela senhora desejava. Depois, como o prato devia ser preparado, o ponto de cozimento dos ovos e o arroz branco bem soltinho. Dadas as explicações ao garçom, ficava a expectativa quanto à competência na transmissão do pedido ao chef. 

Finalmente, se a preparação do prato não atendesse às exigências daquela senhora, o clima ficava pesado, tão pesado quanto ela. Muitas vezes me perguntei a razão pela qual uma pessoa sai do seu mundinho tranqüilo e se mete a viajar pelo mundão, tão somente para se irritar e para estragar o passeio dos outros. 

Um psicólogo teria naquela mulher um precioso material para uma tese de doutorado.

domingo, 16 de março de 2025

DEUS EXISTE

Era hora do almoço quando terminamos a visita ao castelo de Guimarães. Entramos num restaurante próximo e fomos atendidos por um rapaz muito gentil que se revelou brasileiro. Nos permitimos pedir-lhe uma sugestão. Não lembro o nome do prato mas aceitamos correr o risco por conta da boa vontade do nosso conterrâneo. No exato momento em que éramos servidos, chegaram outros turistas, três (3) casais para ser mais exato. Ocuparam uma mesa bem próxima da nossa. Eram americanos, o que supomos pelo idioma característico. Um deles, mais latino que os demais, olhou para o nosso prato e fez uma cara de espanto, mas sem deixar de ser simpático. Ao atendê-los, o garçom tentava explicar os diversos pratos constantes do menu quando aquele mesmo sujeito apontou para o nosso prato e por meio da universal mímica disse: "o mesmo". O pedido dos nossos vizinhos demorou um pouco e quando os pratos chegaram nós já estávamos de saída. Então, dei o troco, no bom sentido, ao nosso simpático vizinho, arranhando algo em inglês e apontando para o imenso prato à sua frente:

- God exists! Here is the proof.

Ele entendeu a brincadeira, soltou uma sonora gargalhada, não sem antes levantar e me estender a mão como que agradecendo a dica, embora dada de forma inversa.

domingo, 9 de março de 2025

ARENA DI VERONA

(republicação)
Verona é uma dessas cidades que conquista as pessoas ao primeiro contato. Quando lá estive pela vez primeira era verão. Ao lado da Arena estavam depositadas peças típicas de cenários teatrais. A minha curiosidade foi saciada ao saber que era a época do Festival de Óperas que acontece todos os anos na Arena. Visitando o interior daquela magnífica construção foi possível imaginar a grandiosidade dos espetáculos ali apresentados. De pronto elegi o festival como um dos meus sonhos de consumo, cuja concretização só aconteceu anos depois quando deixei de viajar com excursões e seus pacotes fechados. Como primeira ópera elegi AIDA de Verdi. A temperatura estava agradável e a organização estava impecável. A platéia, segundo as estimativas, girava em torno de vinte (20) mil pessoas. O espetáculo foi magnífico. A acústica era perfeita. A Marcha Triunfal se mostrou de uma beleza indescritível. Foi uma das experiências mais fascinantes da minha vida. Noutra temporada fui assistir NABUCO, também de Verdi. A principal motivação para eleger aquela ópera é que a mesma não era encenada todos os anos. Mas foi especialmente preparada para o sesquicentenário da unificação italiana. Abro um parêntesis. Vá Pensiero ou o Coro dos Escravos Hebreus, é considerado o segundo hino nacional italiano, mas para muitos é o verdadeiro hino nacional. Então, aquela seria uma ocasião especial. E foi. A Arena estava lotada. Ao término de Vá Pensiero, por uns momentos o silêncio foi total até a explosão de aplausos que não findava nunca. Emocionante. Uma senhora sentada ao meu lado, francesa, ao que pareceu-me, simplesmente chorava. O maestro aguardava pacientemente pelo término dos aplausos e como a manifestação do público continuasse vibrante, gesticulou para os cantores e interpretou tais manifestações como um pedido de bis. E assim foi feito. Jamais esquecerei daquela noite. A última experiência, ao menos até este momento, foi Carmen de Bizet, uma apresentação prejudicada pelo mau tempo. Choveu bastante até a hora prevista para o início do espetáculo. Aquela era a última apresentação da temporada de óperas, sem possibilidades, portanto, de retornar dias depois. Afora isto, dias depois, lendo a crítica especializadas, tomei conhecimento de que aquela foi uma das mais pobres montagens daquela ópera. Para empanar ainda mais o brilho daquela noite, eu havia assistido partes de apresentações de outros anos, via internet. Uma delas, inclusive, na noite de encerramento do festival, com uma grandiosidade fantástica. Em tais ocasiões, o público recebe umas velas que são acesas no final do espetáculo proporcionando um visual muito bonito. Clique aqui. Naquela noite, porém, em razão das chuvas, as velas não foram distribuídas como de hábito. Mesmo assim foi um belo espetáculo. 

quarta-feira, 5 de março de 2025

CINEMA

Rádio e cinema se completavam como divertimento e cultura. Minha iniciação ao cinema ocorreu no início dos anos cinquenta com dois filmes que a memória insiste em guardar. No meu bairro, antes mesmo da construção do convento das carmelitas existia uma propriedade que suponho era dos Padres Paulinos. Nela havia uma construção de madeira, um pavilhão de apenas um pavimento. Pelo tipo de material existente em seu interior, concluo que naquele local funcionava a gráfica dos paulinos. Atrás da construção havia um campo de futebol e mais para os fundos havia um pequeno prédio edificado com pedras, muito antigo. Naquele local tomei conhecimento da maravilha do cinema. Assisti ao Conde de Monte Cristo e um filme sobre Joana D'Arc, com a Ingrid Bergmann. A minha idade? Não sei mas o Google me informa que o filme é de 1948 e a beleza daquela Joana é eterna. Mas o conforto do cinema perto de casa durou pouco. A gráfica naquele local foi desativada, o prédio demolido e as sessões cinematográficas que eram esporádicas já não aconteceram mais. Mas o SESI surgiu com um programa social do tipo "cinema na rua". Nas noites quentes de verão o Serviço Social da Indústria anunciava que no bairro tal, horário tal, estaria exibindo no local de costume o filme tal. Era um tremendo programa. Os funcionários do SESI colocavam uma tela branca na fachada de uma casa, de onde era possível a conexão elétrica e de um veículo postado em local apropriado era feita a projeção da película. Normalmente eram comédias, tanto nacionais como estrangeiras. Foi através dos filmes de rua que fiquei sabendo da dupla Bud Abbot e Lou Costello, do Gordo e o Magro, dos Irmãos Marx, além de alguns mocinhos e bandidos dos bang bang. Era diversão garantia. Sim, éramos felizes. Aos poucos o bairro distante foi sendo engolido pela cidade e o cinema nas ruas foi sendo engolido pelo progresso, ou seja, pelo surgimento das casas apropriadas - os cinemas. Em Caxias tínhamos cinco (5) cinemas que funcionavam todos os dias da semana. Guarani, Central, Ópera, Imperial e Real. Por diversas razões fui assíduo frequentador dos dois primeiros. Ficavam próximos um do outro - talvez menos de cinquenta (50) metros e pertenciam a donos diversos, de modo que não havia sobreposição de títulos. Aos sábados e domingos a primeira sessão do Cine Guarani iniciava às 19,30hs enquanto que a do Cine Central tinha início às 20,00hs. A diferença de horário conjugada com a proximidade dos dois estabelecimentos, permitia sair de um e imediatamente ingressar em outro cinema para desfrutar de dois filmes na mesma noite. A mesma tática era possível entre os cines Guarani e Ópera, da mesma empresa. Os horários eram mais elásticos e geralmente eram utilizados quando havia algum filme do tipo longa metragem. Uma particularidade: A diferença de horário nas salas de exibição pertencentes à mesma distribuidora se dava por questões meramente logísticas. Por exemplo, os cines Central e Real pertenciam à mesma distribuidora e no sábado exibiriam o mesmo filme. Os filmes em rolos eram seccionados em partes e acondicionados em recipientes metálicos. Iniciada uma sessão no Cine Central às 20,00hs, ao final daquela primeira parte um funcionário recolhia o recipiente e saía às pressas em direção ao cine Real para, exibir o mesmo filme, em outro horário e em outra sala de projeções. E assim era a rotina de um funcionário todos os finais de semana. Mas antes da minha liberdade de ir ao cinema nos horários noturnos, houve a época das matines. Nossa preferência era pelo Central pois além de exibir dois filmes com um pequeno intervalo entre um e outro, o mais aguardado de todos era o episódio dos famosos seriados, uma espécie de novela que sempre terminava com o mocinho enfrentando uma situação crítica que poderia levá-lo à morte. Como ele iria safar-se da armadilha que os agentes do mal havia armado contra ele era a grande incógnita que durante toda a semana aguçava a imaginação de todos. Foram muitos os seriados: Zorro, Círculo Vermelho, Homem Bala, etc... E depois da matine ainda ocorriam os escambos de gibis, revistas em quadrinhos que eram trocados na frente do cinema. Outra particularidade acontecia na sexta-feira com a chamada Avant Premier, quando determinado filme seria exibido pela primeira vez. Muitos preferiam assistir no lançamento para não correr o risco de ficar sabendo do desfecho de uma determinada trama revelada por algum incauto ou mesmo algum estraga-prazer. Mas em termos de programação o ponto alto se dava nas quartas-feiras, tradicionalmente o dia de namorar. Era "Dia da Dama", oportunidade em que moças acompanhadas de seus pretendidos não pagavam ingresso. Por aquela época cumpri com certa regularidade o meu papel de "Chá de Pera", aquele que acompanha a irmã e o futuro cunhado, tanto ao cinema quanto a outros passeios. Tradicionalmente uma moça não saia de casa acompanhada apenas pelo namorado. Um tercius, mesmo que fosse um menor de idade, devia estar junto para empatar avanços mais ousados de parte a parte. Por fim faço um registro acerca do cenário musical dos cinemas, e de modo especial do Cine Guarani. Antes do início da exibição cinematográfica, o tempo era preenchido com música através do sistema de som, geralmente com música orquestrada. Um LP, de. modo especial, marcou época na minha memória: Yellow Bird com a Orquestra de Lawrence Welk. Cada cinema, no momento de apagar as luzes, anunciava o início do espetáculo com a música que identificava aquela casa. Era executada a chamada "Característica Musical". O Cine Guarani era identificado pela ópera do mesmo nome de Carlos Gomes. Já o Real tinha como marca identificadora a Marcha Triunfal da ópera Aida, de Verdi. O Ópera entoava O Coro dos Ferreiros, igualmente de Verdi, enquanto que o Central era mais popular com a Cavalaria Rusticana, que nas matines provocava a juventude a acompanhar o ritmo batendo com os pés no chão. Por fim o Imperial com a Cavalaria Ligeira, de Franz Von Suppé. .... Os filmes? Conforme a época dançamos de acordo com a música. Houve o tempo dos bang-bang ou faroeste. Tarzan teve seu tempo. As chanchadas brasileiras com Oscarito e Grande Otelo e as comédias com o inesquecível Cantinflas. Como esquecer os água e açúcar com Joselito ou com a Marisol? E o Gordo e o Magro? Chegou o tempo dos épicos italianos com o fortão Maciste. Mas chegaram as comédias com Ugo Toniazzi e companhia. Os filmes franceses disseram presente e como tudo que é bom dura pouco brotaram os Kung Fu, que proliferaram de modo avassalador. Já não foi possível aguentar.

domingo, 2 de março de 2025

BOLONHA: UMA CIDADE E TRÊS APELIDOS

A região da Emilia-Romagna, no norte da Itália, foi eleita pela Lonely Planet, com o título de "Melhor Destino Europeu de 2018". A escolha da Emilia-Romagna como nosso destino foi mera (e feliz) coincidência. E Bolonha é a capital da região.



Com certeza as atrações de Bolonha pesaram forte na escolha de "melhor destino europeu". 

Para os fins deste registro me atenho ao apelidos que a cidade orgulhosamente ostenta: La Dotta, La Rossa e   La Grassa.

O primeiro deles, La Dotta (a sábia), vem do fato da cidade abrigar a mais antiga universidade italiana, onde o matemático polonês Nicolau Copérnico estudou.

O segundo apelido, La Rossa (a vermelha), se refere a suas construções históricas, todas com o telhado vermelho.

O terceiro apelido de Bolonha, La Grassa (a gorda) tem tudo a ver com a culinária, a começar pelo famoso molho à bolonhesa foi inventado na cidade, como o próprio nome indica.

A escolha de Bolonha como destino levou em conta o seu importante entroncamento ferroviário,circunstância que facilita sobremaneira os deslocamentos, tanto de curta, como de média e longa distância. Posso dizer que valeu a pena, uma vez que optamos por não alugar carro.


Embora o apelo promocional da Lonely Planet, o afluxo turístico nos pareceu pouco expressivo, sem as muvucas de Paris, Veneza e outras. Uma ótima pedida para que buscava sossego.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

EU JÁ FUI CANTADO

O Giron era nosso colega dos tempos de faculdade. Ele pertencia ao grupo dos homens sérios, ou seja, era casado e sua idade estava bem adiante da idade da maioria dos componentes da turma. Era contabilista de profissão e tinha um raciocínio muito rápido. Se notabilizava pelas perguntas (muitas) que fazia aos professores. Houve uma época em que o nominamos de "Gironsprudência". A propósito e a título de gozação, certa feita, antes de iniciada a aula, o Saldanha colocou no quadro uma tabela de preços, fictícia. é claro, para perguntas dirigidas aos professores. Pelo placar, enquanto alguns deveriam pagar valores mínimos, ao Giron competia pagar somas astronômicas. Pois bem. Certa noite tínhamos uma aula de Direito Civil. O professor era o Dr. Renan, que explicava as diferenças entre a menoridade e maioridade e as formas de aquisição desta última. Em meio à explanação, como era de se esperar, o Giron pediu esclarecimentos. Só que desta vez, por traz da pergunta havia um caso concreto a resolver com um cliente do escritório de contabilidade. No fundo, a dúvida do aluno-consulente era se um rapaz de 16 anos de idade, vindo a contrair matrimônio, teria direito a obter a carta de motorista. Ao invés de formular a pergunta de forma direta, o Giron foi colocando detalhes, a começar pelo fato de uma moça de 28 anos de idade ter seduzido um rapaz de 16. (Risos). A moça engravidou e seu pai exigiu a reparação do mal pelo casamento. (Mais risos). Para auxiliar o início da nova família, o pai da sedutora propôs-se a presentear o genro com um caminhão. (Risos e mais risos). O professor Renan ouvia pacientemente as colocações do nosso colega e com a mesma paciência, mas com os olhos, acompanhava os demais nos risos. O Giron ficou um pouco nervoso e a cada vez que tentava remendar a situação, tudo piorava. Até que, lançou mão do argumento extremo:
- Professor, nós mais velhos, sabemos que antigamente eram as mulheres que deviam cuidar-se dos homens, mas nos tempos modernos, a coisa se inverteu.

Foi quando o Ivo, que sentava bem à frente, com a rapidez de raciocínio que sempre o caracterizou, virou-se para o Giron e num tom de concordância, asseverou:

- É, eu já fui cantado.

Aí a classe veio abaixo. O professor Renan, vendo que não teria mais condições de transmitir conhecimentos (e ele os tinha de sobra), de maneira aproveitável, saiu-se com esta:

- Meus caros. O Giron está correto. A aula está encerrada. Vamos todos direto para casa, mas, cuidado, por que as mulheres estão por aí mesmo...

domingo, 23 de fevereiro de 2025

CARTÃO DE CRÉDITO

O cartão de crédito é uma dessas maravilhas tecnológicas que veio para facilitar a vida de todos, menos dos incautos que sem observar as cautelas mínimas acabam tendo dissabores e prejuízos financeiros. Há também aqueles que tomam todos os cuidados para não perder a tarjeta mas se perdem na sua utilização com gastos acima das possibilidades. Não é o meu caso, ao menos até agora.

Utilizo o cartão de crédito quase que exclusivamente em viagem, principalmente para o exterior. Com o cartão no bolso e a facilidade de saques em bancos eletrônicos, não enfrento aquele estresse de carregar alguns mil euros ou dólares e ter que guardá-los em algum lugar seguro, se é que este lugar existe. Na medida em que necessito de moeda corrente realizo saques a valores reais, fugindo da aquisição da moeda no mercado paralelo.

Mesmo assim, tudo o que é possível pagar com o cartão de crédito assim o faço, tais como restaurantes, museus, casas de espetáculo, etc. O grande perigo é o risco de perder o cartão de crédito no exterior e ficar sem dinheiro. Para prevenir dissabores, levo um cartão na carteira e outro fica guardado em outro local. O mesmo ocorre com a minha esposa, de sorte que na prática, viajamos com quatro (4) cartões de crédito.

Certa feita, no recuado ano de 2004, quase precisei utilizar o cartão reserva. Recém saídos do território espanhol e ingressado nos domínios portugueses, nosso primeiro destino era Lisboa. Paramos para um pipi sotp no primeiro auto grill lusitano que encontramos na auto estrada. Também aproveitaríamos para esticar as pernas e almoçar.

Munidos com o menu bandeja fizemos as nossas escolhas e nos dirigimos ao caixa. Entreguei o meu Visa para a moça e aguardei. Para minha surpresa notei que ela lutava para retirar o cartão de uma fenda e olhando bem, pude verificar que ela passara o cartão naquela fenda por onde sai o cupom fiscal, ao invés do lugar apropriado onde é feita a certificação da idoneidade do cartão.

Diante do inusitado, pedi-lhe que cuidasse para não danificar o cartão e em seguida a ajudei a retirá-lo daquele lugar, não entendendo bem por que assim agiu e nem como conseguiu enfiá-lo em uma fenda tão estreita.

Retirado o cartão, o temor era de que as partes magnéticas tivessem sido inutilizadas. A prova dos nove viria a seguir pois ainda não havia pago a despesa. Desta vez a funcionária introduziu o cartão no local adequado e a simples aparição da palavra “processando” no painel da maquininha, me deu a tranquilidade de que tudo estava bem. E estava, a não ser por um pequeno detalhe, que por sorte, durou pouco tempo.

Depois de autorizada a transação, a funcionária pediu-me para digitar a senha. Como naquela época os cartões ainda não eram dotados de chip não era necessária qualquer senha para autorizar a transação. No lugar da senha dos tempos atuais, era lançada a assinatura no ticket que era emitido. Eu disse-lhe que as operações não dependiam de qualquer senha e que bastava assinar o comprovante. Apresentei-lhe o meu passaporte para que ela pudesse se certificar de que o cartão realmente era meu. Não obtive sucesso algum.

Diante da insistência quanto à necessidade da senha, já perdendo a paciência eu disse-lhe que não sabia de senha alguma mas que ela, se soubesse, poderia dá-la. E foi o que ela fez ao virar a maquininha para o seu lado e pressionar a tecla enter por duas vezes.

Minha esposa, que estava ao meu lado vendo toda a dificuldade enfrentada e o inusitado da situação, virou-se para o lado afim de que a pobre atendente não visse o riso que ela tinha dado causa.

De lá para cá a tecnologia avançou de forma admirável, facilitando a vida de usuários da tarjeta assim como dos atendentes de um modo geral. 

Até que alguém disse: Faça-se o Pix, e o Pix foi concebido.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

SEPARAÇÃO FRUSTRADA

Nunca gostei de advogar na área de família. Na magistratura não tinha como escapar, ao menos naquelas comarcas de vara única. Mas há situações que é inevitável o envolvimento. Certa tarde fui procurado por um sujeito que aparentava ser um pouco mais velho que eu. Ele havia sido abandonado pela esposa e portanto desejava formalizar a separação o quanto antes. Não forneceu maiores detalhes apenas adiantou que a "fujona" não morava mais em Caxias e sim numa cidade do sul catarinense, de onde era natural. Segundo me informou ela estava trabalhando numa ótica daquela cidade e me forneceu o endereço. Como eu tinha previsto uma viagem para Santa Catarina relacionada com minha inscrição no concurso para a magistratura, disse-lhe que dentro de poucos dias passaria por aquela cidade faria contato com ela. E assim foi feito. Falei com ela num ambiente reservado do seu local de trabalho. Tudo explicado ela concordou com a separação e abriu mão do privilégio de fazer tramitar a ação na sua cidade. Por sua própria sugestão, o processo deveria ser encaminhado ao fórum da comarca de Caxias do Sul. Não tinham filhos e nem bens a partilhar. Não exigia pensão alimentícia e concordava em abrir mão da mesma de forma expressa. Bastava que eu lhe informasse o dia e horário em que se realizaria a audiência, comprometendo-se a ela comparecer. Elaborada a petição, agendada a audiência, que seria num determinado dia, às 14,00 hs., comuniquei a data aos interessados, pedindo também que eles viessem ao meu escritório na parte da manhã para os ajustes finais, não dando chance a qualquer surpresa de última hora. As coisas seriam facilitadas dado que o meu escritório distava do fórum não mais do que cinquenta metros. Na data aprazada, o meu cliente compareceu ao escritório e ela não. Dei-lhe orientação que mesmo assim comparecesse ao fórum na parte da tarde pois era bem o possível que ter havido algum imprevisto com ela. Foi o que aconteceu, segundo fiquei sabendo mais tarde. À tarde fui ao fórum e nada da presença do meu cliente e muito menos da sua consorte. Nem mesmo notícias dele eu tive até que passado uns três anos o encontrei em algum lugar que não lembro. 
- E daí? E a separação? 
Aí veio a explicação, convincente, por sinal. 
No dia da audiência, ao sair do meu escritório encontrou-se com a esposa. Começaram a conversar a respeito dos termos da separação e como não houvesse nenhuma discordância, entenderam que era desnecessário falar comigo previamente. Como se aproximava a hora do almoço, resolveram almoçar juntos e durante o qual voltaram as lembranças de tempos passados. Delas para uma sugestão de passar por um motel não precisou muito. E no motel redescobriam os segredos que um dia os uniu. Alí mesmo selaram uma reconciliação, que até aquele dia perdurava sem sobressaltos. Coisas do amor! 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

ENCONTRO RELIGIOSO

Chegamos na capital americana no final da tarde de sexta-feira. Jantamos nas proximidades do hotel e depois saímos para um reconhecimento da cidade, mas o passeio verdadeiro seria no dia seguinte.

Por ser sábado de manhã notamos que havia um movimento intenso de pessoas por todos os lugares por onde passamos. Mas ao chegarmos ao Capitólio percebemos uma incomum aglomeração de pessoas, em sua esmagadora maioria, do sexo masculino.

Então, ficamos sabendo que se tratava de um encontro religioso cujo mote era o "retorno da mulher ao lar".

Pelo noticiário, o evento concentrou cerca de um milhão e meio de pessoas. A praça do Obelisco, aquele enorme espaço defronte ao Capitólio estava completamente lotada.

Como é fácil imaginar, nosso passeio por ali ficou um tanto prejudicado. Para compensar fomos visitar um museu dedicado à aviação, programa que compensou a frustração por não termos visitado outros pontos de interesse.

No final da tarde passamos pelo Capitólio e o movimento de pessoas já era quase nulo. Os serviços de limpeza pública é que agora tomavam conta do logradouro acomodando montanhas de lixo em pontos estratégicos.

À noite saímos para um tour pela cidade e ao passarmos pelo Obelisco não havia mais nada, nem pessoas e nem lixo. Igualzinho ao Brasil.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

VELHA SENHORA

(republicação)
Na nossa casa paterna há uma nogueira que já produziu muitos frutos. Nosso pai, com muita paciência sempre colhia os frutos que caiam por terra. Algumas nozes ele as colhia na própria planta para retirar a casca ainda verde com a qual preparava um saboroso licor. Na Páscoa, nos presenteava com um substancial pacote de nozes.

Além dos frutos, a nogueira nos proporcionava uma sombra magnífica a amenizar as tardes de verão.

Papai partiu e não há mais o tradicional presente de Páscoa. A nogueira, como que sentindo a ausência do nono Lodovico, definha desde então. Hoje, com bem mais de setenta anos, visivelmente ela vai se despedindo da vida. Seus frutos são raros e a sombra é quase nenhuma.

Certa feita, ainda adolescente, meu tio Bepi Rigotti, que nos visitava com  muita frequência, me disse que aquela era uma árvore inteligente, pois enquanto o frio não acabasse definitivamente, seus brotos não apareceriam.

Passei a observar a nogueira e de certa forma tinha procedência o que dissera meu tio. Ao menos já não ocorriam geadas após o início da brotação.

Sabedoria popular ou não, o fato é que os antigos, até por necessidade, observavam mais e interpretavam melhor os sinais da natureza. 

domingo, 9 de fevereiro de 2025

FEIRA DE DOMINGO

Depois de um tour pelo Canadá retornamos a Nova York, de onde retornaríamos ao Brasil.

Era um domingo à tarde e nas proximidades do nosso hotel, a movimentação de pessoas e de veículos estava um tanto tumultuada. Nosso ônibus estacionou um pouco distante da portaria do hotel.

Deixamos nossas malas e saímos para aproveitar o final de tarde. Para nossa surpresa nos deparamos com um imenso feirão que ocupava cerca de dez (10) quarteirões. Vendia-se de tudo. Comia-se de tudo. Uma festa!

Caminhamos especulando as variadas ofertas existentes nas barraquinhas. A rigor não compramos nada. Mas não resistimos ao visual e principalmente ao aroma de umas espigas de milho verde que estavam sendo preparadas numa dessas barraquinhas. Compramos duas. Tão deliciosas que voltamos para comprar mais duas. Algumas voltas depois retornamos ao hotel.

Quando saímos, à noite, já não havia mínimos sinais da intensa movimentação vespertina. O trânsito, finalmente livre, fluía normalmente. O lixo produzido por toda aquela parafernália não dava o mínimo sinal de ter existido.

O fato me fez lembrar de uma daquelas frases institucionais ditas motivadoras, dos tempos dos militares:

"Povo desenvolvido é povo limpo".

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

SECRETÁRIA DA HORA

Nos tempos da advocacia, lá pelos anos setenta, fiz parte de um escritório cuja clientela sempre aumentava. 

Tínhamos uma secretária excelente. Seu nome era Marli. 

Com o volume de serviço aumentando, acabamos aumentando para quatro o número de advogados, o que acarretou a necessidade de admitirmos uma auxiliar para a Marli, principalmente para serviços externos. 

Contratamos uma uma garota que ainda precisava ser lapidada, enquanto que a Marli, como estudante de Direito, permaneceu auxiliando-nos internamente. 

No período vespertino sua jornada de trabalho encerrava às 17,00hs. Daí em diante, a nova secretária recepcionava clientes e e dava conta dos atendimentos telefônicos. 

Eu tinha por hábito deixar a porta da minha sala completamente aberta só vindo a fechá-la quando do atendimento a algum cliente. 

Certa tarde, sem ninguém para atender, elaborava uma petição qualquer quando percebi que alguém na sala de recepção estava realizando uma ligação telefônica. Logo após ouvi, naquela voz inconfundível: "dezessete horas, vinte minutos e dez segundos" e logo em seguida a novel secretária agradecia à informação com um "obrigada". E dava uma discreta risadinha de admiração. 

Uns dois ou três minutos depois a chamada e a resposta se repetiram, assim como se repetiu um respeitoso "obrigada". E outra vez a risadinha. 

Em suma, ela ligava para a rádio-relógio. 

No dia seguinte dei conta do ocorrido para a Marli que depois nos disse que teve um imenso trabalho para convencer a sua auxiliar de que aquela voz era uma gravação e que não era necessário agradecer. 

Com certeza ela aprendeu muito mais coisas com a Marli.

domingo, 2 de fevereiro de 2025

CAMBALACHO EM HONFLEUR

Depois de alguns tropeços acabei assimilando alguns macetes de viagens. Por exemplo, antes de escolher o hotel via internet passei a ler os comentários dos hóspedes. Talvez seja o melhor termômetro para decidir a escolha. Por não ter tomado aquelas precauções quase entrei numa fria no interior francês. Tínhamos reserva de hotel em Honfleur, para o que levamos em conta a localização do mesmo que era bem central. Na manhã daquele dia, quando tentamos confirmar a reserva, a ligação era transferida para a caixa de mensagens, o que achamos muito estranho. Tentamos programar o GPS para nos levar até o local e descansar depois de um dia bem agitado. Contudo, o endereço não constava do banco de dados do GPS. Acabamos constatando que não era uma rua, e sim, uma espécie de servidão. Depois de muitas buscas, junto à prefeitura conseguimos uma informação que poderia nos levar ao local, porém, não tivemos êxito. Paramos num outro hotel e o rapaz que nos atendeu foi muito solícito e conseguiu contato telefônico. Cerca de meia hora depois uma moça veio nos buscar e nos conduziu até o nosso destino. Mais surpresas à frente, primeiro que não era um hotel e sim um studio, ou seja, um apartamento. No anúncio dizia ter estacionamento, porém, estava lotado e ficava um pouco distante dos aposentos. Por fim, ficamos sabendo pela moça, que o endereço informado no anúncio pela internet, era do dono do studio e não do studio propriamente dito. Desistimos e fomos em busca de novas acomodações, mas sem a mínima ideia por onde começar. Na época o Air BNB não era conhecido. Eis que lembramos do Gîte de France e logo encontramos um, mas não tinha vaga. Logo adiante encontramos o Gîtes le Canet. Fomos atendidos pela proprietária, a simpática e atenciosa Viviane Merieult. Houvera uma desistência e portanto tinha uma vaga. Era uma propriedade rural, distante quatro quilômetros de Honfleur. Nosso quarto ficava ao lado de um pequeno curral onde as ovelhas pastavam mansamente. Mais aos fundos, um galinheiro de onde viriam os ovos que a Viviane colocaria todas as manhãs, junto com o pão ainda quentinho e outras delícias. Lugar simples mas dotado de tudo o que precisávamos, inclusive uma mini cozinha. Os aposentos eram um pouco pequenos mas nada que atrapalhasse o nosso bem estar. A temperatura caíra muito e precisamos ligar a calefação. Havíamos comprado pão, queijos e frios e ainda um vinho tinto, e assim preparamos o nosso jantar. Em princípio ficaríamos apenas uma noite naquele local, mas gostamos tanto que acabamos ficando três noites. Com respaldo nos comentários dos hóspedes, nunca mais tivemos problemas com acomodações, principalmente aquelas contratadas via internet. Também por precaução, relatei todo o ocorrido junto ao site através do qual havia feito a reserva. Informei que já havia cancelado o pagamento pelo cartão de crédito e que estaria à disposição para quaisquer esclarecimentos complementares. Em resposta recebi um pedido de desculpas por parte do site e nunca fui cobrado por aquelas diárias.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

ALEX E SEU VIOLÃO

O que o Alex tinha de genialidade musical também tinha de geniosidade comportamental. O conheci na metade dos anos sessenta (60) em razão da política estudantil. 

Sempre tivemos um bom relacionamento e quase cheguei a trabalhar com seu pai, que era advogado e contador. 

Os Beatles eram a bola da vez em termos de música para a juventude. O Alex passou a cultivar uma cabeleira mais longa. Fisicamente, ao menos de rosto, lembrava John Lennon. Estava sempre envolvido com eventos musicais e era um tanto vanguardista. 

Fez parte de alguns conjuntos musicais da cidade, mas penso que pelo seu temperamento, nunca deu continuidade a qualquer participação. Preferia compor. 

Alguém das nossas relações comentou, certa feita, um fato sucedido que dá bem a ideia da sua personalidade. 

Um amigo o teria convidado para uma festa de aniversário. 

- Aparece lá em casa hoje à noite - era o convite. E acrescentou: 

- Não esqueça de trazer o violão. 

No horário combinado o Alex foi recebido pelo aniversariante. Entregou-lhe o violão acrescentando que no dia seguinte passaria para pegá-lo de volta. 

Ou seja, o Alex, com certa dose de razão, entendeu que o convite tinha como causa primeira fazer dele o animador da festa do aniversariante, e não a amizade que ele julgava existir entre ambos. 

Assim era o Alex. Chegou a época do vestibular determinando o fim da política estudantil secundarista e cada um foi para o seu lado.

domingo, 26 de janeiro de 2025

ESTACIONAMENTO EM LUCCA

Ao contrário das demais cidades da Toscana que havíamos visitado, Lucca, embora sendo do período medieval, está localizada numa planície, ao contrário das demais que via de regra foram edificadas nas partes mais elevadas, sempre em busca de proteção contra os ataques inimigos. Não que em Lucca houvesse desleixo contra a ação dos invasores. Ao contrário, a parte antiga forma uma cidade fortificada, rodeada por uma muralha de uns oito metros de altura. Literalmente rodeada, uma vez que a parte antiga foi edificada num formato redondo. Internamente, as ruelas têm a mesma disposição, com o que, vista de cima, pode-se dizer que a cidade é formada por anéis, uns dentro dos outros, que vão diminuindo gradativamente, até chegar ao ponto central, onde há um grande espaço que se transforma na praça principal. 

Ao chegarmos em Lucca nos deparamos com a muralha mas ainda não sabíamos que o formato da cidadela era circular. Fomos seguindo o contorno da cidade e ao encontrar um grande portão de acesso enveredamos por ele. Sabíamos de antemão que nas cidades históricas, via de regra, somente os moradores têm permissão para circular com seus automóveis e motos e por isto existem estacionamentos fora das muralhas, sendo que as visitas são feitas a pé. 

Logo na entrada encontramos um estacionamento cujo pagamento é controlado através de parquímetros. Mas também verificamos que havia uma placa informando que estacionamentos irregulares estavam sujeitos ao guincho. Sendo assim, poderíamos deixar nosso automóvel no local sem maiores problemas. Foi o que fizemos. Adquirimos um ticket para quatro (4) horas, marcamos o local onde estávamos estacionados e fomos seguindo as ruelas até chegar à praça central. 

Aproveitamos para almoçar e depois saímos a caminhar pela cidade. Satisfeitos com o que havíamos comido e visto, com bastante antecedência resolvemos dar por finda a visita a Lucca e dali partiríamos para Montecattini Terme, pequena cidade próxima de Florença, a partir de onde iríamos incorporar uma excursão de brasileiros nossos conhecidos. 

Convictos de que estávamos no rumo certo, caminhamos despreocupadamente até chegar às muralhas. Sem avistar nenhuma entrada, caminhamos para a esquerda, sem sucesso e depois para a direita, igualmente sem sucesso. Estávamos perdidos. 

Busquei informações com um rapaz que estava carregando uma van e o detalhe mais significativo que pude lhe fornecer foi que próximo ao nosso estacionamento atravessamos uma pequena ponte sobre um canal. Ele prontamente entendeu a nossa dificuldade, nos informando que estávamos exatamente no lado oposto àquele que queríamos chegar. 

Agradecemos e quando pensamos em atravessar a cidade para chegar ao ponto almejado, verificamos que já o nosso tempo já estava esgotando, faltando algo como uns vinte (20) minutos. Consideramos a hipótese de nos perdermos novamente, já que as ruas eram todas circulares e estreitas. Nem a sombra dos prédios poderia nos ajudar a manter uma direção e nem um ponto de referência qualquer, como uma torre de igreja, uma montanha, etc., poderia nos manter sempre no mesmo rumo. 

Conjecturamos que se os italianos levassem à risca a advertência quando ao uso do guincho, teríamos problemas sérios pela frente. Então, resolvemos empreender uma forte caminhada, o fazendo rente à muralha, na certeza de que daquela maneira fatalmente chegaríamos até o tão esperado estacionamento. 

A estratégia se afigurou apropriada e localizamos nosso automóvel antes mesmo de vencer o prazo estabelecido no ticket. Para nosso alívio, não encontramos nenhum policial nas imediações e se chegássemos atrasados, naquele dia, ao menos, não haveria apreensão de veículos. É que ficamos sabendo, posteriormente, que tais procedimentos fiscalizatórios são feitos aleatoriamente, oportunidade em que, o efeito pedagógico mais eficiente é a tolerância zero. 

Agradável surpresa nos proporcionou um bilhete deixado junto ao para-brisas, escrito por algum francês, que vendo a placa do nosso automóvel, deu-nos as boas vindas no idioma de Voltaire.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

EFEITOS COLATERAIS

O meu filho caçula sempre enjoava quando viajávamos. Tentamos de tudo e nada dava resultado. O que mais ajudou era iniciar a viagem com ele em jejum. Só iria comer alguma coisa depois de umas duas horas de viagem. Detalhe: ele não tomava Dramin de jeito nenhum. Iríamos passar um feriadão em Caxias e no dia anterior troquei os pneus dianteiros do meu carro. A viagem transcorria sem sobressaltos. Chegando em Pouso Redondo ele disse que precisava vomitar e só deu tempo para deslocar o carro para o acostamento, que por sinal estava em obras. Não deu outra. Fui para a valeta e estourei um pneu. O Marcos aliviou seus azedumes estomacais enquanto troquei o pneu estourado. Parei na primeira borracharia para os necessários reparos, e como era meio-dia, conduzi minha esposa e filhos até uma lanchonete dizendo-lhes para providenciar algo para comer. Ao sair, ela quis sabe onde eu ia e o que eu ia fazer. Furioso, nada respondi. Procurei uma farmácia e comprei Dramin em gotas. Retornei à lanchonete, pedi um copo com um pouco de água e adicionei gotas de Dramin segundo a prescrição do rótulo. Alcancei o copo para o Marcos que não disse nada e tomou todo o conteúdo. Seguimos em frente e ao invés do remédio levar o Marcos a uma sonolência ou coisa parecida, o efeito manifestou-se de modo invertido. O Marcos, que já era falante por natureza, acusou o rebote, ficou completamente aceso e não parou de falar até chegarmos ao nosso destino. Fiquei com receio daquela reação e nunca mais dei Dramin a ele, mas o emocional dele reagiu de uma forma tal que nunca mais enjoou.

domingo, 19 de janeiro de 2025

SEMPRE LIGADO

Chegamos no centro histórico de Bruxelas no final da tarde. Depois de ouvir do nosso guia as explicações e recomendações de praxe, ficamos livres para passear. Como não poderia deixar de ser, iniciamos pela Grand-Place (Grote Markt), que é a praça central de Bruxelas. É considerada por alguns a praça mais bonita do mundo, integrando a lista de Patrimônio Mundial da Unesco desde 1998.

Imagem: Google

Nuvens ameaçadoras não incentivaram ninguém a deslocamentos mais distantes. Portanto, um dos locais mais disputados foi a Galeria Hubert, margeada de lojas de marcas famosas. Caminhar por ela é comprovar uma frase segundo a qual existe um mundo melhor, mas é bem mais caro.

Imagem: Google

Como previsto veio a chuva, ou melhor, veio muita chuva. Até mesmo a galeria, com seu magnífico teto em forma de arco, não suportou a quantidade de água derramada e em alguns locais já não era possível caminhar completamente a salvo.


Em meio ao quase caos que se seguiu, um cidadão continuou vasculhando sabe Deus o que em seu smartphone. Imperturbável, abriu um guarda-chuvas e nem ligou para as pessoas que passavam por ele. Especulativamente,  pode-se dizer que ali estava uma pessoa de bem com a vida.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

CADERNETA ESCOLAR

Imagem: Google
No tempo que existia disciplina nas escolas, uma das boas práticas era o aluno portar a caderneta escolar. Nela eram anotadas a presença e/ou ausência do aluno, recomendações dos professores, etc. Era o meio de os pais acompanharem a vida escolar dos filhos e corrigir erros de percurso.

Certo dia, na hora do almoço, perguntei ao meu filho caçula o que havia ocorrido na escola naquele dia.

- Nada, ele me respondeu, não conseguindo disfarçar um certo desconforto.

A luz de alerta acendeu e pedi para que ele trouxesse sua caderneta escolar. E não é que havia uma anotação justamente naquele dia?

Não era nada relacionado com indisciplina, mais com o excesso de conversa na sala de aula. A anotação pedia o comparecimento dos pais ao colégio. Os dois irmãos acompanharam a cena com visível cumplicidade e instinto de proteção ao irmão mais novo.

Até hoje eles não sabem que dei um tiro no escuro e acertei.

De qualquer modo, a experiência serviu para deixá-los cientes de que nós, seus pais, estávamos atentos ao comportamento deles no colégio.

A bem da verdade, aquela foi a única vez que notamos algo de anormal na vida escolar dos três.

domingo, 12 de janeiro de 2025

MEMÓRIA FOTOGRÁFICA

Era uma época em que a fotografia digital se apresentava como a grande novidade. A liberdade dos fotógrafos amadores. Duas eram as dificuldades a superar: a) o pequeno espaço dos cartões de memória; b) a duração das baterias. O primeiro problema era de fácil solução, com alguns "memory stik" sobressalentes ou mesmo uma visita a uma casa fotográfica para gravar tudo num CD para liberar o cartão. O segundo problema, por ser mais dispendioso, era mais complexo. Pensei que estando em Paris seria mais fácil encontrar uma loja da Sony para adquirir uma bateria sobressalente e por um preço, digamos, convidativo. Encontramos a loja, numa travessa da "Champs", não muito distante do Arco do Triunfo. Uma loja pequena mas dotada de todos os modelos de bateria próprias daquela marca famosa. Como sempre, a Lourdes se expressou em francês com a pessoa que veio nos atender e ao ouví-la ele indagou de imediato se éramos brasileiros. Surpresos, respondemos afirmativamente. Então, antes de qualquer pergunta nossa ele se adiantou dizendo que fomos traídos pelo nosso sotaque. E emendou depois dizendo que havia morado no Brasil. Conversamos um pouco e depois saímos a fotografar. Ocorreu de passarmos por Paris em outra viagem, dois ou três anos após. A máquina fotográfica já era outra e a necessidade de nova bateria também. Lembramos da loja e como era de fácil localização, lá fomos nós. Ao ingressarmos no recinto, a mesma pessoa nos atendeu, desta vez, com um largo sorriso receptivo, saudando os amigos brasileiros que retornavam à sua loja. A memória do sujeito era fotográfica!