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sábado, 14 de outubro de 2023

MATA! ESFOLA!

Carlos Heitor Cony
Por que ainda não enforcaram o Roberto Jefferson, o corrupto, o homem que defendeu Collor, o acusador sem provas? Como acreditar num país que poupa criminosos deste tipo, que roubam o povo, agridem a ética e enxovalham a nação?

Por que afinal, após tantas provas, ainda não amarraram o Paulo Maluf num pau-de-arara, deixando-o sem pão e sem água até que ele estertore de dor e raiva, morrendo como um cão, indo pagar no inferno a culpa de seus nefandos crimes?

Por que Garotinho e sua mulher continuam impunes, ludibriando o povo com suas trapaças eleitorais e suas improbidades na administração pública, quando, num país decente, com imprensa decente, o povo devia ser convocado para, em praça pública, apedrejar o casal, deixando os corpos insepultos para serem devorados pelos cães?

Por que... por que... por que... --são muitos os por quês levantados diariamente nas cartas dos leitores aos jornais e revistas e nos e-mails de cidadãos honrados, extremamente éticos, que querem matar e esfolar, querem ver sangue.

Costumo receber mensagens nesse sentido, gente indignada com o descalabro reinante. Reclamam que o cronista insiste em remar contra a maré, não participando do moralismo (agora chamado de ética) que exige sangue, na base do "Mata! Esfola!"

Citei Roberto Jefferson, Maluf e os Garotinhos aleatoriamente. Não os acuso de nada, não é minha função nem tenho o conhecimento bastante da causa deles. Lembrei esses nomes e poderia lembrar o de muitos outros contra os quais é pedido o linchamento sumário. Desejo apenas mostrar a vulgaridade desse tipo de indignação. Frequentemente, a história prova que os sentimentos coletivos de repúdio ou admiração foram provocados por má informação ou burrice.

Fonte: Folha de S. Paulo - 12/07/2005

sábado, 7 de outubro de 2023

HOMENS NÃO SÃO OS RESPONSÁVEIS PELA PAZ DAS DEMOCRACIAS


Foram as mulheres, cansadas de limparem a sujeira quando as armas se calavam, que reduziram a quantidade de guerras

Seja sincero: você, leitor, homem, macho, quantas vezes por dia, ou por semana, ou por mês, pensa no Império Romano? É a pergunta do momento, varrendo as redes sociais.

Tudo começou como brincadeira de uma influenciadora sueca, o que quer que isso seja —influenciadora não ser sueca—, que exortou suas seguidoras a fazerem a pergunta a seus maridos, namorados, pais, irmãos.

As respostas são aterradoras, ou inspiradoras, consoante a perspetiva: os homens pensam muito no Império Romano. Alguns, várias vezes por semana. Por que?

Especialistas ouvidos a respeito falam do ideal de virilidade que Roma sempre desperta nos homens nostálgicos: são as legiões, os gladiadores, a conquista, o domínio.

Para quem acredita que o gênero é mera construção social, estamos conversados: você mostra o acrônimo "SPQR" ("Senatus Populusque Romanus", "o Senado e o Povo Romano", de preferência com uma águia em cima) e o homem saliva de imediato, pronto para a batalha.

Eu próprio, de vez em quando, também viajo para lá. Embora, no meu caso, prefira a República ao Império: sou mais Cícero que Suetônio. Sintomas da meia-idade?

Não duvido da obsessão masculina pelos romanos. Não duvido das razões para isso. E depois, nas minhas leituras profissionais, encontro essa frase: "Desde a era romana que não se passavam setenta e cinco anos [de 1945 a 2020] sem que houvesse guerra entre as maiores potências do mundo."

A frase pertence a Robert Trager e Joslyn Barnhardt no seu "The Suffragist Peace: How Women Shape the Politics of War" (a paz sufragista: como as mulheres influenciam a política da guerra). É verdadeira: estamos mais pacíficos que nunca.

Há várias razões para isso. Mas uma delas, defendida pelos autores, é feminina: quando você concede a metade da população o direito de voto, há mudanças em política. Importantes e mensuráveis.

Mudanças internas, para início de conversa: quando as mulheres começaram a votar, a despesa dos estados aumentou. O mesmo aconteceu com os machos. A grande diferença está na natureza da despesa: com elas, mais dinheiro para saúde e educação; com eles, mais dinheiro para infraestruturas e defesa.

As mesmas diferenças existem na política internacional quando se analisa o período entre as guerras napoleônicas e o tempo presente: as democracias em que só os homens podiam votar tinham 30% mais probabilidades de iniciar um conflito com outro Estado do que as democracias em que as mulheres podiam votar.

Pelos vistos, as democracias tornam os estados mais pacíficos, mas não por influência masculina. Aliás, é exatamente o contrário: uma das conclusões mais perturbantes do livro é que as democracias masculinas não realizaram o sonho pacifista de teóricos como Thomas Paine ou Kant.

Diziam eles, com aquele otimismo iluminista que também produziu a guilhotina, que o mundo ficaria mais pacífico quando os homens, todos os homens, pudessem escolher os seus governantes.

No fim das contas, eram os homens, sobretudo os mais pobres, que marchavam para as guerras caprichosas de reis e rainhas. Seriam eles a exigir governos mais diplomáticos.

Azar. Os teóricos subestimavam o entusiasmo deles pela carnificina. Foi esse entusiasmo que deixou pasmos vários governantes ao longo do século 19 e até às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Sempre que um novo conflito aparecia no horizonte, havia euforia entre os machos.

Na sombra dessa euforia, estavam as mães, as mulheres, as filhas. As cuidadoras dos estropiados. As indigentes. As viúvas. As órfãs.

Não admira que as primeiras sufragistas, ao lutarem pelo direito de voto no século 19, tenham elegido a guerra e as suas consequências como um dos principais argumentos para terem uma palavra sobre os assuntos políticos. E, pelos vistos, tiveram, para melhor.

Não vem mal ao mundo se os homens pensam frequentemente no Império Romano. Se o estudarem, na sua grandeza e miséria, é até de louvar. Como perguntava o Monty Python, o que é que os romanos alguma vez fizeram por nós, além de nos terem dado os aquedutos, a lei, a irrigação, o saneamento, o vinho, as estradas, a ordem pública e tudo o resto?

Mas não foram os romanos, nem os seus admiradores, que introduziram na equação da política de massas a urgência da paz. Foram elas, cansadas de limparem a sujeira quando as armas se calavam.

Fonte: Folha de S.Paulo

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

NUNES, MENDONÇA E ZANIN

José Horta Manzano
Vale a pena anotar como se comporta profissionalmente cada um dos três ministros do STF entronizados mais recentemente. Refiro-me a Nunes e Mendonça, nomeados por Bolsonaro, e a Zanin, nomeado por Lula.

Logo ao emitir seus primeiros votos, Zanin deixou a plateia de queixo caído. Seu posicionamento em matéria de entorpecentes, de homofobia e de furto famélico foi ducha fria para os ardores progressistas da militância lulopetista. Quem esperava dele um comportamento de ‘pasionaria’ deu com os burros n’água.

Já os indicados por Bolsonaro, que oficiam há mais tempo no STF, jamais surpreenderam ninguém. Desde o primeiro voto, posicionaram-se rigorosamente na linha de interesse daquele que os nomeou. Como cães de guarda, servem aos interesses do bolsonarismo.

Os votos de Mendonça e Nunes costumar divergir do voto dos colegas. Os dois não parecem se importar em se posicionar às vezes contra o bom senso. A obediência cega a um chefe destituído surge como objetivo obstinado, atitude que, no distinto público, levanta certa inquietação.

Cabe a curiosidade de saber por que razão, apesar de estarmos na era pós-bolsonárica, Mendonça e Nunes persistem na reverência ao antigo “chefe”. Será por convicção ou por outro motivo?

E Zanin, por que razão ousa se posicionar no campo oposto ao do cliente (Lula), que ele defendeu por tantos anos? Será por convicção ou por outro motivo?

Quanto a Zanin, me parece que ele aposentou a vida de advogado. Ela entrou no passado e a página está virada. Agora, abrigado sob o manto de magistrado, seus votos são ditados pela consciência, sem conexão sistemática com o ideário de antigos clientes. Daí a disparidade de vistas entre o velho lulismo e o nascente “zanismo”.

Quanto a Mendonça e Nunes, seus votos mostram persistente apego ao antigo chefe. É compreensível que, no geral, apoiem causas conservadoras, mas o julgamento dos atos do 8 de Janeiro é outra coisa. O que está em jogo estes dias não tem a ver com pautas de costumes, como homofobia, racismo ou aborto. Está-se avaliando a que ponto a depredação dos palácios do governo revelou-se parte de um amplo projeto de golpe de Estado – fracassado.

É perturbante a insistência com que Mendonça e Nunes tentam desconstruir a tese aceita por todos os outros ministros. Fica evidente que a tentativa de minimizar os acontecimentos e apresentá-los como um passeio dominical é uma estratégia para beneficiar o chefe que, mais dia menos dia, estará no banco dos réus pelo mesmo motivo.

Em resumo, a atitude dos que foram nomeados pelo capitão é a de quem deve favor a alguém mais importante. Agem como agiriam integrantes de uma estrutura mafiosa, baseada em fidelidade canina e submissão absoluta, regime no qual o menor sinal de infidelidade pode ser punido com rigor.

Ainda bem que são só dois.

Fonte: https://brasildelonge.com/

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

REFORMA AGRÁRIA NO LEGISLATIVO

Hélio Schwartsman

Constituinte armou complô contra São Paulo quando criou teto de deputados federais

A democracia brasileira é representativa. Isso significa que os tamanhos de bancadas de deputados e de algumas Casas legislativas deveriam ser proporcionais à população. Assim, a cada novo Censo, deveria ocorrer um processo de recalibragem.

Há uma chance de que isso ocorra nas câmaras municipais. É que a Constituição estabelece um teto para o número de vereadores de cada cidade segundo o total de habitantes. E, pelos novos dados, 140 municípios precisariam cortar edis, e 198 poderiam a partir de agora expandir seus plenários. A doutrina entende que reduções são obrigatórias, e as ampliações, opcionais.

Entre a doutrina e a realidade pode haver um abismo. Cidades que perderiam vereadores podem judicializar a matéria, e não é impossível que algum magistrado se veja tentado a "corrigir" a metodologia do IBGE.

Não são, contudo, as câmaras municipais que me preocupam, mas a federal. Pelo novo Censo, sete estados, RJ, BA, RS, PI, PB, PE e AL, deveriam ter suas bancadas reduzidas, e sete, SC, PA, AM, MG, CE, GO e MT, ampliadas. Mas o redesenho não é automático (depende de lei complementar), e os dois Censos anteriores a este já foram solenemente ignorados pelos parlamentares.

E esse nem é, creio, o maior escândalo. Muito mais grave é o complô que os constituintes armaram contra o estado de São Paulo, quando estabeleceram o teto de 70 deputados (há também um piso de 8). Numa conta de guardanapo, SP, com 22,2% da população do país, faria jus a 114 das 513 cadeiras da Câmara, mas tem sua representação tolhida em 44 assentos, o que equivale mais ou menos a um RJ. Registre-se que o princípio federativo já se faz presente no Senado, não havendo motivo para redobrá-lo na Câmara.

Na outra ponta, temos Brasília, que nem é um estado, mas uma cidade (e só a terceira maior do país), com direito a oito deputados e três senadores.

O Legislativo precisa de uma reforma agrária urgente.

Fonte: Folha de S.Paulo

segunda-feira, 12 de junho de 2023

PRA QUE SERVE UM MINISTÉRIO?

Reunião ministerial
José Horta Manzano
Nossa Constituição não é específica ao falar de ministérios e de seus titulares. Parece partir do princípio que as funções desses auxiliares do presidente da República são de conhecimento de todos, portanto não vale a pena se estender em explicações detalhadas.

Vivemos num país de forte tradição cartorial. Já reparou nas intermináveis linhas de palavrório que aparecem na escritura de um lote de 10m x 10m situado num grotão qualquer? É um blablá tão comprido que te dá a impressão de estar comprando um castelo.

O fato é que essa fixação em dar a volta completa, abarcar um tema inteirinho e trancar a porta, sem deixar brecha para interpretações divergentes, acaba sendo perniciosa. Quando uma lei ou um regulamento não vem já esmiuçado, os cidadãos acabam raciocinando de forma extravagante: “Se não é proibido, forçosamente é permitido”.

Pela Lei Maior, a única condição para atribuir a chefia de um ministério é que o titular seja brasileiro. Explicitamente, não há limite de idade, não há exigência de notório conhecimento da área, não há proibição de nepotismo, não há imposição de reputação ilibada, não há obrigação de apresentar certidão negativa de antecedentes criminais.

Segundo nossa percepção, o que não está explicitamente proibido, só pode ser permitido. A razoabilidade não está entre as qualidades principais de nosso andar de cima. Eis por que o ministério do presidente – não só de Lula, mas de todos os predecessores – lembra mais um amontoado de figuras díspares, saídas não se sabe de onde, manifestamente incompetentes para assumir o encargo que lhes foi confiado.

A escolha de ministros não segue um padrão lógico, que vise a colocar o melhor especialista em cada área. Lula, como Bolsonaro, tem distribuído cargos de ministro segundo critérios que pouco têm a ver com qualificação do titular. Amizade pessoal, cumprimento de promessa de campanha, “indicação” de alguém, afiliação a este ou àquele partido – esses são os parâmetros. Como resultado, o conjunto dos ministros dá contribuição importante para que o país continue bloqueado e parado no tempo.

Lula tem ministro encrencado com a justiça, ministro incompetente, ministro apadrinhado por figurão, ministro que requisita avião da FAB para ir a leilão de cavalos. É uma pilha de figurinhas repetidas, daquelas que não têm valor. Há muita figura decorativa com título de ministro.

Como consertar a situação? A solução mais rápida e certeira só pode vir do Congresso, afinal são os parlamentares que fazem as leis. Teriam de ser especificados (e gravados na pedra) os critérios obrigatórios para a nomeação de ministro de Estado. Em país cartorial, as regras têm de ser explicitadas tim-tim por tim-tim.

Fonte: brasildelonge.com

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

FALTA O PAÍS

Cristovam Buarque*

Temos um presidente, mas ainda não temos um país

A reação à substituição do comandante do Exército mostra que temos um presidente, mas ainda não temos um país. Imprensa, políticos, opinião pública e militares se surpreendem, porque consideram as FFAA como instância com poder político próprio, separada do Brasil e seus dirigentes, presidente, parlamentares, ministros do supremo, governadores. O próprio presidente Lula reconhece que precisa de boas relações com o Exército, Marinha e a Aeronáutica, o Ministro da Defesa insiste que seu papel é pacificar e retomar estas relações, como se elas não fossem subordinadas às estruturas republicanas.

Este comportamento de temor do poder civil ao poder militar decorre do corporativismo como o país funciona. A reunião do presidente com os comandantes das FFAA pareceu mais um encontro para atender reivindicações da corporação, do que para cobrar obrigações dos militares com o país. Fizemos as FFAA antes de fazer uma nação. Fizemos um Exército que se vê como instância à parte, não parte do Estado Republicano. Esta não é característica apenas das FFAA.

Na véspera da demissão do comandante do Exército, o presidente se reuniu com os reitores de universidades que foram criadas antes de um sistema educacional que atenda ao país, alfabetizando crianças para o mundo contemporâneo. A universidade não tem armas, no mais se relaciona com o resto do Brasil de forma parecida às FFAA: uma entidade separada. Quando reunido com os reitores, Lula ofereceu trazer de volta as condições que o governo anterior negou, só não as asfixiando totalmente graças ao esforço heróico dos reitores, professores, alunos e demais servidores, mas não apresentou a proposta do que o Brasil espera delas para erradicar o analfabetismo de adultos, melhorar a qualidade da educação de base, colocar o Brasil entre os países de ponta na ciência e na tecnologia.

Montamos fábricas de automóveis, antes de uma população com renda suficiente para compor seus produtos. Para viabilizá-las, asseguramos subsídios e concentramos a renda na sociedade, e agora não sabemos como distribui-la, nem como fazer a indústria ser livre do protecionismo. Porque ao longo da história o país tem sido usado para atender aos interesses das corporações organizadas na sociedade, sem um espírito nacional comum. Até os incentivos à agricultura estão voltados para exportar e não para alimentar a população. Somos um celeiro habitado por famintos. Os políticos agem pensando no próprio partido, no próximo mandato e nos seus colégios eleitorais, dentro do horizonte de tempo limitado à próxima eleição. A economia e a sociedade estão organizadas para atender cada segmento no presente, não ao Brasil no futuro.

Temos um presidente de todo o Brasil, mas na verdade preside a soma das corporações, militares e civis, empresários e trabalhadores, partidos e culturas, estados ou municípios. O Lula tem legitimidade para substituir o comandante do Exército, mas ainda nos falta um país que permita fazer as reformas das FFAA, das universidades, da política fiscal, da distribuição estrutural de renda, da educação de base, que continua prisioneira dos municípios e, por ser desigual e sem qualidade, não está servindo para consolidar a nação que unifique os segmentos corporativos. Nada parece indicar a quebra do corporativismo e a chance de termos um país para o presidente governar, acima das corporações.

Não é uma tarefa fácil e vai exigir décadas, mas se o atual presidente não fizer com sua legitimidade, sensibilidade e experiencia, será difícil dar o salto necessário para inventar e construir o país, unindo suas partes em uma nação. Vamos continuar com um presidente e sem um país.

*Cristovam Buarque foi ministro, senador e governador

Fonte: https://www.metropoles.com

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

UM COMUNISTA EM CADA ESQUINA?

Gaudêncio Torquato*

O comunismo é uma quimera. Não há de sobreviver em um país com a dimensão continental como o nosso

Não vai aqui nenhum gesto de desprezo, muito menos de desrespeito, a quem ousa discordar do governo a se instalar em 1º de janeiro de 2023, por enxergar nele uma porta para a chegada do comunismo ao país. O que se ouve hoje da turba que se posta na frente de alguns quartéis não tem nexo. Ou, em outras palavras, trata-se de ignorância sobre o que se passa aqui e alhures. É enxergar o horizonte com muito cisco no olho. Pior é constatar que há quadros das Forças Armadas que ainda apostam nessa maluquice.

Para tentar explicar minha análise, peço ao leitor um pouco de paciência para pinçar velhos, porém nem sempre lembrados, conselhos.

A democracia é o sistema dos contrários, o que pressupõe divergência entre divisões da sociedade sobre suas metas. Alimenta-se da seiva dos partidos, que constituem parte, parcela, pedaço da sociedade. Dessa forma, a democracia se assenta na concorrência entre siglas, no debate de ideias, na livre expressão de cada parte para ilustrar, orientar e convencer as massas.

O Brasil tem um sistema democrático, fixado em normas constitucionais, ancorado em Três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), com claras normas sobre direitos individuais e coletivos, e extensa descrição dos papéis dos órgãos de Estado, como as agências de controle e de segurança, a par do capítulo sobre deveres dos cidadãos. Há de se admitir que não temos ainda uma democracia consolidada, podendo até ser considerada um projeto em formação, ante as democracias mais antigas.

Nos tempos de Platão e Aristóteles, o cidadão carregava uma missão. Honrar e defender a polis. Passou o tempo e a democracia direta da Ágora, a praça central de Atenas, ganhou novos contornos. O Estado passou por extraordinária evolução, ao substituir o espaço feudal do absolutismo pelo espaço da República. O poder absoluto – de inspiração divina dos Reis – cedeu lugar ao poder do povo. Um poder corporificado no Estado moderno pelo ideário da Revolução Francesa, com seu escopo do governo representativo, das liberdades, dos direitos e deveres dos cidadãos – expressão, produção, comércio – incorporando os avanços civilizatórios que plasmaram a mais forte democracia do mundo ocidental, a norte-americana, plasmada sob o lema do primeiro presidente da nova ordem, Abraham Lincoln: “a democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo”.

Temos de admitir que a frase virou slogan de palanque. O governo do povo virou, em muitos países, o governo de minorias, o governo pelo povo se transformou em um governo para profissionais e um governo para o povo acabou cedendo lugar a uma administração para amigos e seus grupos. Tais desvirtuamentos ocorreram ao sabor dos jogos tramados para conquistar o poder. Que deixou de ter em mira um ideário, com um caudaloso veio de causas, e ter como alvo a construção de cidadelas de Tio Patinhas.

Ora, a esses vieses, adicionamos, por aqui, uma fileira de mazelas. O Brasil urbano revela-se parecido com o Brasil rural em toda a sua trajetória. O império coronelista do princípio do século retrasado fincou raízes em outros roça­dos. O novo coronelismo arranjou um habitat. O voto de cabresto, prática fraudulenta dos tempos da oligarquia rural, transfe­riu-se ao domínio dos “novos donos do poder”.

Os traços do passado colonial impregnam nossa identidade, banhando-a com a lama dos velhos tempos: a pobreza educacional das massas; a pe­versa disparidade de renda entre classes; o sistema político resistente às mudanças; o sistema de governo ortodoxo (hiper-presidencialismo); e a continuidade de mazelas históricas, entre as quais reinam, absolutas, o patrimonialismo e o assistencialismo de caráter populista-paternalista. Sob essa teia esburacada, a concentração de for­ças permanece sob a égide do Estado todo-poderoso, bem visível na função de cobrador de impostos, eixo repressor (policialesco), distri­buidor de favores e com poder de definir os destinos da sociedade.

Conclusão: o Brasil tenta construir, lenta e gradualmente, desde o século XIX, o altar da Cidadania. Em 1881, tinha 12 milhões de habitantes, dos quais poucos eram imunes à ma­nipulação dos governos. Hoje, são 215 milhões de habitantes. E mais de 30 milhões de famintos. Milhares sujeitos à influência dos governantes. O que temos, hoje, em vez de Cidadania, é Estadania, a dependência do Estado, o favor, migalhas, esmola.

E o mundo? Algumas democracias evoluíram na linha dos direitos e deveres, como a norte-americana. Mas as margens da pirâmide cresceram em quase todos os lugares, com exceção de alguns países, como os escandinavos. E os regimes comunistas? Ora, trabalham com o capital. Caso da China, um capitalismo de Estado. Na Rússia, grupos empresariais se multiplicam. O capital é a mola do crescimento. Quem insiste em velhas teses está de farol baixo, casos da Venezuela e Cuba. A Coréia do Norte é uma redoma. O porto seguro é a social-democracia. Que inspira países europeus.

O comunismo é, portanto, uma quimera. Não há de sobreviver em um país com a dimensão continental como o nosso, com tantas riquezas, com a índole de um povo de sangue negro, indígena e português, e uma tradição que preza a criatividade, a liberdade, as livres manifestações e de uma alegria contagiante. Podemos compreender rompantes à direita e à esquerda como sinais de um tempo tempestuoso. Temos em nossa frente, a caminhada para o centro, saída eficaz para acomodar as placas tectônicas.

Em suma, quem vê comunista em cada esquina precisa correr urgente ao oculista.

*Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político

Fonte: 

https://www.metropoles.com

domingo, 13 de novembro de 2022

O AR ESTÁ MAIS LEVE, MAS É BOM NÃO ESQUECER QUE O ÓDIO NEONAZISTA SE ESPALHA

Jorge Coli

Filme retrata efeitos da contaminação do vírus mental do extremismo em pessoas aparentemente comuns

O ar parece mais leve e, pouco importa que tempo faça, tudo está mais luminoso. O sorriso que não quer ir embora, nem quando esbarro em algum bolsonarista rabugento. Meu casal de cachorros olha para mim: os dois estão felizes, decerto porque me veem alegre.

Tranquilo, divirto-me seguindo a vexaminosa dança de acasalamento em torno do presidente eleito, feita pelos inimigos de outrora, a começar pelos pastores Malafaia e Edir Macedo, e executada por Arthur Lira com pirueta de verdadeira estrela do balé.

Tudo em paz, portanto.

Até que um amigo me convidou para ver o filme "Soft & Quiet" (suave e tranquilo). Já o classifiquei nos primeiros lugares dos meus melhores, mais perfeitos, mais intensos filmes da história.

Não tinha ouvido falar de sua diretora, Beth de Araújo. É americano-brasileira, nascida e criada em San Francisco. Sua mãe tem origem chinesa, e seu pai é brasileiro. Faz questão de mencionar, na biografia do seu site, que possui dupla cidadania, do Brasil e dos Estados Unidos.

Nunca havia realizado um longa-metragem antes. Escolheu parâmetros nada fáceis: o filme é feito em um único plano-sequência e, em decorrência, tudo se passa em tempo real.

Desde "Festim Diabólico" (1948), de Hitchcock, alguns filmes, não muitos, foram realizados segundo o princípio do "single shot", e vários têm bela qualidade. Mas nenhum atingira a altura de "Festim Diabólico". "Soft & Quiet" surge agora como outra perfeita obra-prima.

A comparação com Hitchcock e a qualificação pomposa de "perfeita obra-prima" são enganadoras, porém. A intensidade humana, violenta, atingindo a histeria, de "Soft & Quiet" nada tem da frieza expositiva de "Festim Diabólico".

Beth de Araújo filmou em quatro dias seguidos, cada dia do começo ao fim, na ordem da narração. Escolheu sobretudo o material do quarto dia, quando os atores habitavam plenamente os personagens e dominavam as situações.

Isso permitiu uma convergência entre cinema e teatro como é muito difícil obter. Sem cortes ou rupturas, a verdade das interpretações é crucial e dela depende a adesão do espectador. Mas o domínio da direção cinematográfica aumenta muito o poder da direção de atores.

É difícil escrever sobre o filme tendo que preservar o leitor de spoilers. Porque as descobertas sucessivas, muito paulatinas, são essenciais para o envolvimento quase hipnótico de quem assiste.

A história se passa em uma pequena cidade do norte da Califórnia. Em uma cabina de banheiro público, uma mulher verifica um teste de gravidez e chora. Momento íntimo, frágil. Ela sai e vê, na frente de uma escola, um menino que aguarda sua mãe atrasada. Ela é professora e faz companhia ao garoto, amiga e afetuosa. Mas algumas observações suas, estranhas, sobre uma faxineira negra parecem enxertar algo de incompreensível e de perturbador.

Emily, a professora, organiza um clubinho de mulheres neonazistas, cujo sinal de reconhecimento é o do "white power", o mesmo feito por aquele assessor de Bolsonaro durante uma sessão do Senado que a Polícia Legislativa concluiu como criminoso. Esse pequeno grupo também se diverte levantando o braço, no gesto que corresponde ao da saudação nazista.

São boa gente. Têm filhos. Uma está grávida. Mas não aguentam mais a invasão dos estrangeiros que, por causa da cultura woke, progridem mais facilmente nas carreiras do que elas, embora esses estrangeiros, negros, latinos, judeus, sejam menos inteligentes, menos higiênicos, muito barulhentos e bagunceiros. Então, combinam ações e estratégias futuras para defender a supremacia branca.

Até que acontece um confronto, e se desencadeia o inferno.

Diversamente dos filmes de terror em que há um assassino psicopata e que provocam um medo saído dos abismos maiores de nossos inconscientes, "Soft & Quiet" é a exposição de horrores bem objetivos. Horrores que existem em nossos dias pelo mundo afora e muito no Brasil dos últimos quatro anos.

Nossa angústia apavorada ao assistir ao filme (o produtor falou em "desconforto", o que é uma palavra muito fraca diante do que vemos) surge porque seguimos a infiltração íntima de uma fé nazista no âmago das pessoas e seus efeitos. Pessoas que convivem conosco, ao nosso lado, aparentemente comuns, mas que estão contaminadas por um vírus mental feito de fé e de desrazão.

Neonazismo não é um exagero de esquerdista nem um fenômeno menor. Radicalizações extremistas ocorrem em todo o planeta.

Não muito longe de minha casa: alunos do colégio Porto Seguro, em Valinhos, colégio caro, que foram expulsos, chamam-se a si mesmos de "neonazistas do Porto" — que educação tiveram esses jovens nas famílias e nessa escola? E, pior, pipocam grupo neonazistas em várias outras escolas —particulares— por todo o Brasil. Suas manifestações enchem-se de expressões racistas.

A intolerância emana até mesmo de professores: no Amapá, uma docente de universidade não aceita orientandos de esquerda! Essas pessoas tomadas por ódio extremista estão disseminadas, no Brasil inteiro, no mundo inteiro. Acham-se perto de cada um.

A Folha deu a notícia, com a foto, de uma adolescente de 12 anos, negra, linda, sorridente e feliz, que comemorava o resultado das eleições em Belo Horizonte. Seu nome: Luana Rafaela Oliveira Barcelos. Foi baleada e morreu. Com ela, morreu também Pedro Henrique Dias Soares. Mais pessoas foram baleadas.

A declaração do autor dos disparos, que foi preso, Ruan Nilton da Luz, é expressiva: "Em depoimento à polícia, ele disse que passou o dia da eleição bebendo e, em dado momento, ficou desorientado, pegou armas e saiu caminhando pelo bairro, disparando contra pessoas que comemoravam a vitória do petista". Perfeito exemplo de fé política irracional que se manifesta pelo crime.

"Soft & Quiet" faz sentir, faz intuir, com uma autoridade da qual não se escapa, os movimentos internos dessas convicções que embriagam mais do que qualquer cachaça ou cerveja.

O ar continua leve, e não consigo perder a alegria de nos vermos livres daquele pesadelo que durou seis anos, mas é bom não esquecer que a peste do neonazismo, insidiosa ou brutal, anda se infiltrando por todos os lados.

Fonte: Folha de S. Paulo

sábado, 12 de novembro de 2022

MENTIRAS E VERDADES, O TRISTE PAPEL DA DESINFORMAÇÃO

Claudia Costin

Só é possível libertar-se de mistificações intencionais por meio do pensamento crítico

Findos o processo eleitoral e os distúrbios que a ele se associaram, as redes sociais seguiram repletas de notícias fabulosas que chegaram mesmo a incluir uma pretensa presidente do Tribunal de Haia associada ao nome civil e a uma foto de Lady Gaga ou a uma alegada prisão do presidente do TSE, entre inúmeros outros relatos assemelhados aos que consumíamos durante a pandemia.

Mas, fatos como esses, por tristes que sejam, não são novos na história da humanidade. Em dois livros que li recentemente, o "Livre" da escritora albanesa Lea Ypi e o "Fome Vermelha" da Anne Applebaum, a desinformação aparece, em tempos passados, com consequências, por vezes, trágicas.

A primeira obra, autobiográfica, retratando a infância e juventude da premiada autora e professora de ciência política na London School of Economics, mostra como, durante o regime de Enver Hoxha, seus pais tiveram que ocultar-lhe fatos de suas histórias de vida ou "biografias", para evitar que sofresse perseguições na escola ou que entregasse inadvertidamente seus pais ao regime. Além disso, a verdadeira situação vivida pelo país era encoberta pela mitificação do líder e de Stálin, o que fez com que Ypi, ao perder a inocência e perceber o que ocorrera, pudesse olhar de forma crítica inclusive para os que se opuseram ao partido na guerra civil de 1997 e que também tentavam encobrir verdades.

O livro de Anne Applebaum, um relato impressionante e bem documentado da grande fome de 1932 a 1934 na Ucrânia, traz a constatação de que autocracias são capazes de intencionalmente dizimar milhares de pessoas para enfrentar riscos percebidos ao seu poder totalitário, como fez Stálin, usando como uma de suas armas a desinformação. O recolhimento de praticamente todos os grãos disponíveis em boa parte do país, a partir de cotas impossíveis de serem atingidas, teoricamente para financiar a industrialização e, mais tarde, para punir pequenos camponeses resistentes às fazendas coletivas, resultou numa fome que levou não só à morte por inanição, mas à destruição completa de cidades inteiras no país.

Um grande esforço foi feito para apagar os arquivos, mudar dados do censo de 1937 que iria revelar o que ocorrera na verdade: um plano para substituir boa parte da população ucraniana anterior por russos e poder, assim, ter de fato a Ucrânia como uma colônia bem-comportada sob a gestão de Stálin.

A desinformação assume múltiplos formatos e vem de diferentes fontes. Mas só é possível libertar-se de mistificações intencionais por meio da promoção do pensamento crítico e da desconstrução democrática de projetos totalitários.

Fonte: Folha de S. Paulo

INFELIZ DO PAÍS QUE NECESSITA DE HERÓIS

Leandro Karnal*

Em uma de suas falas, Leandro Karnal na palestra "Civilização e Barbárie" no Sesc em 2016, chama a atenção para o dano que a crença em salvadores da pátria traz para para a democracia. Leia abaixo a transcrição do fragmento da fala de Karnal.

O messianismo é anterior à crise, mas ele se reforça em crise. Quando Dom Sebastião desapareceu em 1578, Portugal passou a esperar o rei perfeito, o rei que morreu cedo, solteiro… e até os últimos reis de Portugal, como Dom Manuel II, tiveram que jurar que se Dom Sebastião voltasse, eles lhe entregariam o trono.

O sebastianismo volta ao Brasil como forma messiânica em Canudos, no Contestado (entre Paraná e Santa Catarina), e isso tudo é uma grande aspiração política: "Vai vir a pessoa que vai refazer o país". Tal ideal já atingiu Collor, o qual foi o modelo messiânico caçador de marajás — isso já foi de vários sentidos, aplicado a várias personagens. Citando Bertolt Brecht, "Infeliz do país que necessita de heróis", porque a necessidade de heróis demonstra fraqueza dos subordinados.

Eu quero cada vez menos políticos carismáticos e mais eficazes, menos cheios de aura, de retórica brilhante, e cada vez mais trabalhadores e éticos. Aquele político magnético, com aqueles olhares de um "church" ou que lançava seus discursos inflamados, e aquela força retórica dos políticos clássicos do século XX são, em minha opinião, a médio e longo prazo, danosos – são sempre um espetáculo, como foi Eva Perón, que não era uma política formal, mas era importante. Eu quero políticos cada vez mais técnicos, cada vez menos ideológicos, ainda que não exista neutralidade em política, e cada vez menos discursos ideológicos de esquerda e direita, cada vez mais eficácia, produtividade, ética e trabalho para o grande grupo. Então, esperar salvadores da pátria é algo ruim. Qual é o problema de horizonte hoje?

Em 1984, eu estava num comício em Porto Alegre pelas Diretas Já. Estava terminando a graduação em História, e a gente lutava pela volta das eleições diretas, cassadas no governo Castello Branco. Por pressão e uma série de motivos isso ocorreu, tendo a ditadura militar fim em 1985, e subiu ao poder, como fruto do nosso esforço, José Sarney — após anos de ditadura, o ex-presidente do PDS da Arena subia ao poder. Fizemos campanhas contra Sarney quando eu era um estudante de pós-graduação – precisávamos de eleições com voto direto popular, e isso ocorreu em 1989. Em 1990, assumiu Collor, o primeiro presidente eleito desde 1960.

Havia quem não gostasse de Lula, então veio Dilma. Dilma tinha seus críticos, então veio Temer. O problema atual não é a existência de um Messias, mas a inexistência de qualquer ser humano viável para governar este país. Então, ocorre a substituição de Lúcifer por Satanás, Satanás pelo Demônio, e assim nós vamos indo. O problema desse esvaziamento da política é que nesse entardecer, profetizado por Lenin em 1905, surgem os monstros.

A democracia é uma experiência sempre difícil. Para Churchill, ela é o pior dos sistemas, com exceção de todos os outros tentados até hoje. Boris, um conservador, diz que ela é uma superstição numérica. O público sempre votará em alguém parecido com ele mesmo e o público é medíocre. Por fim, aprendemos a duras penas que a democracia é um grande avanço, mas não representa uma revolução ética.

*Leandro Karnal (São Leopoldo, 1º de fevereiro de 1963) é um historiador brasileiro, atualmente professor da UNICAMP na área de História da América. Foi também curador de diversas exposições, como A Escrita da Memória, em São Paulo, tendo colaborado ainda na elaboração curatorial de museus, como o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo.

Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutor pela Universidade de São Paulo, Karnal tem publicações sobre o ensino de História, bem como sobre História da América e História das Religiões.

Fonte: https://provocacoesfilosoficas.com

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

ELEITORES DO LULA

O mesmo Lula, o mesmo palanque e a mesma história…
Duarte Bertolini
Acabei votando em Lula, com nariz tapado, dedos cruzados, figas várias e muitas rezas. Não votei para eleger Lula, mas para nos livrar de Bolsonaro, uma tragédia que eu havia ajudado a surgir. Pode ser contraditório, pode ser um sofisma, hesitei até o dia da eleição, mas as ações de Roberto Jefferson e, principalmente, de Carla Zambelii, me mostraram que deveria trabalhar ativamente, votando para afastar da política esta praga nefasta.

Lula falou em união, mas sinceramente, conhecendo o PT, acho muito difícil. O palanque dos papagaios de pirata que acompanhavam o presidente eleito mostrava que o PT, infelizmente, repetia aquela celebre frase de Paulo Maluf sobre Leonel Brizola: “Não esqueceu nada e não aprendeu nada”. Acho a citação injusta com Brizola, mas é uma tirada muito boa e, a meu ver, se aplica inteiramente ao PT.

AS MESMAS CARAS – Lula fez questão de exibir no palanque muitos daqueles que o ajudaram a construir sua carreira de escândalos, como a mostrar que “agora estamos de volta, se preparem…”.

Do outro lado, o fanatismo religioso e messiânico dos bolsonaristas continua intacto e, receio, até aumentou, pois agora eles têm mais um inimigo a combater de morte, porque o resultado das urnas os impedirá de continuar reverenciando o mito que os conduziria à felicidade eterna.

No campo bolsonarista nada mudou, absolutamente nada. Não percebi aceitação do resultado ou desejo de que o Brasil encontre algum rumo com Lula. O mais suave que ouvi foi que “Lula será cobrado a todo momento, durante todo tempo, como nunca se imaginou que poderia ser”.

SINTO-ME EXCLUÍDO – São poucos os bolsonaristas que conheço e com os quais ainda mantenho contato (fui excluído ou cancelado por quase todos por ser um infiel, descrente e agente de satanás, creio eu).

Só recebi mensagens e notícias de fraudes, conclamações para orar pelo mito, lamúrias veementes de luto pelo Brasil, avisos de fugas em massa de brasileiros, choros de perda de emprego por congelamento de investimentos de empresários, apoio às violências dos caminhoneiros, e por ai vai.

Espero que tenhamos tirado um peso descomunal de nossas costas, mas a alternativa não é muito risonha pelo histórico, por suas crenças, pelos mesmos personagens e pela soberba de Lula.

RETROCESSO SOCIAL – Gostaria de estar enganado, mas acho que ainda vamos ter que aturar durante muitíssimo tempo esses moralistas fanáticos, que buscam um retrocesso social.

Por isso, é preciso cuidado para não cairmos na armadilha inversa, permitindo que novamente sobressaia o lado perverso da turma petista, cuja aversão em 2018 nos motivou a votar na aventura terrível de Bolsonaro.

Os atores estão todos aí. Resta saber se o roteiro será o mesmo.

Fonte: Tribuna da Internet

domingo, 30 de outubro de 2022

DIFERENÇAS QUE A EDUCAÇÃO PODE PRODUZIR

Edgar Flexa Ribeiro
A classe dirigente paulista, logo após sua derrota na Revolução de 1932, tomou explicitamente a decisão de “formar uma nova elite capaz de contribuir para o aperfeiçoamento das instituições, do governo e a melhoria do país”, e organizou-se para tanto.

Um grupo de empresários fundou a Escola Livre de Sociologia e Política em 1933, e logo depois, em 1934, Armando Salles de Oliveira, então interventor, funda a Universidade de São Paulo - a USP - com a colaboração de Júlio de Mesquita Filho, entre outros.

Nas palavras de Sergio Milliet: “De São Paulo não sairão mais guerras civis anárquicas, e sim uma revolução intelectual e científica suscetível de mudar as concepções econômicas e sociais dos brasileiros”.

Naquele momento, derrotado em suas pretensões, São Paulo identificou a necessidade, e aproveitou a oportunidade, para tratar da formação de suas elites. E com isso fixar prioridades, interesses, perspectivas e projetos locais - mas com projeção nacional.

O projeto USP floresceu e cresceu. Na geração seguinte à de sua fundação, 26 anos depois, as pretensões paulistas chegavam à Presidência da República pela primeira vez depois de 1930 com a posse de Jânio Quadros, em 1960. Jânio revelou-se apenas um projeto pessoal.

Mas no ano anterior, em 1959, já tinham começado a circular os primeiros “fusquinhas” feitos no Brasil. A indústria automobilística, que nascia em São Paulo, começava a mudar a face do país. E sempre os paulistas ocupando um considerável espaço nas decisões nacionais.

Em 1994, São Paulo volta afinal ao poder na segunda geração desde que a USP foi criada: tendo comandado a formulação e implantação do Plano Real como Ministro da Fazenda, no governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso é eleito Presidente da República.

Sessenta anos depois de sua criação, a USP cumpria as propostas de seus fundadores.

Evidentemente, o Brasil era outro. Mas São Paulo industrializado, modernizado e sempre rico já mostrava que seu projeto de poder ia talvez até além do que previram os seus iniciadores.

A indústria paulista como um todo, a indústria automobilística em particular, ganhara importância nacional. E para tornar o automóvel acessível “fez-se de um tudo”.

A principal consequência disso é que todas as outras formas de mobilidade das populações - e de recursos para organizar a expansão das cidades - desapareceram.

Todo mundo tem que ter automóvel ou andar de ônibus. As estradas de ferro, os transportes de massa sobre trilhos, desapareceram. O metrô aparece, mas como um “repeteco”, em áreas já desenvolvidas, e não para organizar a expansão em áreas ainda mal urbanizadas.

As cidades cresceram desordenadamente, problemas novos foram criados, prioridades foram esquecidas. Cai o imposto sobre os carros para quem já pode, e quem ainda não pode que se amontoe nas filas dos ônibus até poder ter seu “carrinho”.

O “êxito“ paulista teve seu preço. E a novíssima, moderníssima e tumultuada Brasília é um excelente exemplo – para não citar outros.

Até hoje não se tratou a sério da ligação ferroviário entre o planalto central e o litoral da região sudeste. A segunda maior safra de soja do mundo chega aos portos no lombo de caminhões – e ainda querem fazer trem-bala para levar bacanas entre Rio e São Paulo.

Não há crise “nos portos”, a crise está no acesso a eles. E vamos em frente, de automóvel, no projeto paulista.

Assim correram as coisas. E nesse processo histórico caímos no presente: o país todo vive sob uma única “moeda”, emitida em São Paulo, fundada nos seus interesses e que comanda o resto. Como toda moeda, essa tem também duas faces. São antagônicas, mas são interdependentes: uma não resiste nem progride sem a outra. Só que com outros nomes: CUT e FIESP - ou seus apelidos: PSDB e PT. Tudo a serviço da mesma causa, cada face a seu modo: tomar o poder nacional.

Está chegando 2014. A carranca na frente da barcaça, venha de onde vier, tenha a cara que tiver, terá uma dessas origens e estará ancorada no mesmo projeto. É uma moeda só, e suas duas faces terminam sempre se compondo – afinal, é isso que lhe dá valor...

Edgar Flexa Ribeiro, educador.

Fonte: Blog do Noblat

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

OS HERDEIROS INCOMPETENTES E A IRRACIONALIDADE DO PRESIDENCIALISMO

Percival Puggina

Senhores leitores. De denúncias estamos mais do que abastecidos. Estamos lotados. Não há mais espaço, seja nas gavetas, seja no HD. Dispenso-me de mencionar a saturação dos também repletos estômagos e suas náuseas. Penso que já passamos da hora. É tempo de começarmos a nos preocupar com a explicação que daremos a nossos filhos e netos quando nos questionarem sobre o que fizemos com o país em que lhes toca viver.

Aos que têm tantas respostas certas para perguntas erradas, chegará certamente o dia em que alguém fará as perguntas corretas: “Por que, diabos, vocês perseveram no mesmo erro, eleição após eleição, crise após crise? Por que, mais de um século após a Proclamação da República, vocês insistem em manter um sistema de governo que nunca funcionou direito?”. E eu ainda dirijo a mim mesmo esta outra pergunta: “Já não estás cansado, escriba, de escolher, a cada eleição, quem te parece menos pior? O mal menor?”. Sim, estou! E como estou!

Em 1891 decidimos seguir, em parte, o modelo adotado nos Estados Unidos. Se funcionava lá, nos parecia razoável supor que funcionasse aqui. Mas o que era razoável aos olhos de Benjamim Constant e seus companheiros, há muito revelou não ser! Um inteiro século de evidências o comprovam. Eis por que observo atentamente os acontecimentos do Tio Sam. Pela primeira vez percebo os eleitores norte-americanos um pouco frustrados com algo que nos acompanha a cada eleição presidencial e na maior parte dos pleitos majoritários que nos são disponibilizados: forte rejeição aos dois candidatos e, como consequência, a nação legitimamente confiada a mãos imperitas e desacreditadas. Não seria diferente com uma vitória da Sra. Clinton. Se enfrentarem um processo de impeachment, verão o quanto dói uma saudade…

A irracionalidade do nosso presidencialismo berra nas páginas dos livros de história. Somos uma nação de condenados. Por imposição de um modelo institucional, somos sentenciados a suportar, longamente, governos incompetentes, corruptos, a respeito dos quais se acumulam suspeitas que se transformam em evidências e cujos males vamos tolerando em nome de uma governabilidade de regra capenga, negocista e inconfiável.

Se há algo que me amaina a consciência é saber que nos últimos 30 anos, nos meios de comunicação do Rio Grande do Sul, ninguém mais insistentemente do que eu combateu o presidencialismo. Aprendi a rejeitá-lo, primeiramente, nos ensinamentos do meu pai, o deputado Adolpho Puggina, e nos artigos de Mem de Sá, de Carlos de Brito Velho e Raul Pilla; posteriormente, no convívio com o dileto amigo e mestre prof. Cézar Saldanha Souza Júnior. Os primeiros morreram sem ver os infortúnios destes anos de bruma e tormenta. Mas sei o quanto padeceu seu discernimento, nas dificuldades dos em que viveram, escutando o silêncio suscitado por seus clamores. O que sentiram não terá sido diferente do que sinto agora, nesta quadra da minha existência, tendo vivido os abalos de 1961, 1964, 1969, 1992, e os audíveis e inaudíveis ruídos destes últimos desregrados e corrompidos anos. O mundo avança e o Brasil se arrasta em seus emaranhados institucionais. Sinto como se as centenas de palestras e programas de rádio de que participei tivessem entrado por um ouvido e saído pelo outro; como se o que escrevi em centenas de artigos e, pelo menos, em dois capítulos de livros recentes, tivessem entrado por um olho e saído pelo outro.

Sim, estou cansado desse presidencialismo, cuja maior competência consiste em gerar crises sem lhes dar solução que não as agrave. Sim, estou cansado de ver a nação fechar os olhos ao mal que vê porque a medicina institucional – sabe-se – pode matar o paciente. Então, vivemos da denúncia. Quanto bem nos faz denunciar! Mas isso não desfaz o que somos: herdeiros incompetentes …

Fonte: Tribuna da Internet - 02/06/2017

sábado, 22 de outubro de 2022

COMO SUPERAR O ÓDIO ELEITORAL NO BRASIL

Rodrigo Tavares

Polarização atingiu um nível perigoso em 2018 e 2022, mas há estratégias já testadas para recuperarmos o pacto coletivo

O Brasil está em guerra civil. Nos últimos anos, famílias rasgaram-se, amizades desfizeram-se e o contrato social coletivo, já frágil, implodiu. Possivelmente nunca o país esteve tão polarizado. Certamente que há um histórico de conflitos internos violentos ao longo dos últimos cem anos, seja no formato de revoltas (Jacareacanga, Quebra-Milho), levantes (Integralista), revoluções (de 1930, Constitucionalista de 1932,), golpes de Estado (1964), insurreições (anarquista de 1918) e movimentos de guerrilha (Araguaia, Caparaó). O Brasil também é um dos países com maior insegurança urbana do mundo. Mas os conflitos internos sempre foram relativamente efêmeros ou regionais. Nenhum deles opôs dezenas de milhões de brasileiros a outras dezenas de milhões de brasileiros.

A divisão atual entre bolsonaristas e lulistas, ou entre a direita radical e a esquerda democrática já não pode ser retratada como uma antipatia ou embirração, própria de disputas eleitorais. É de ódio e repugnância que falamos. Tal como um qualquer país em guerra civil, parte do Brasil cortou relações com a outra parte de si próprio. E sem a necessidade de universalizar o uso da violência armada.

Qualquer que seja o resultado destas eleições, o Brasil precisa iniciar um longo processo de pacificação. Além de recuperar a economia e reduzir a pobreza, o cardápio de prioridades do presidente eleito deveria ser reconciliar o país.

Mas como fazê-lo? A coluna entrevistou Guy Banim, um reconhecido especialista internacional, com 25 anos de experiência em mediação de conflitos em países como Nepal, Mianmar, Moçambique, Afeganistão ou Irlanda. Já trabalhou para várias organizações multilaterais e é atualmente professor visitante no Colégio da Europa, um instituto de ensino e treinamento de pós-graduação dedicada a temas internacionais.

Pós-eleições, o primeiro desafio para o presidente brasileiro é reconhecer de que há uma hostilidade de massas que precisa ser resolvida. Não será fácil. A inclinação natural de qualquer político é de exacerbar a sua base de apoio para engordar as expectativas de vitórias eleitorais futuras. No caso de vitória de Bolsonaro, a pauta será a da destabilização, não a da harmonização cívica.

Depois, em sociedades desmembradas, o lado que adquirirá o poder não poderá expropriar o lado perdedor. Guy Banim salienta que a literatura acadêmica e a experiência de dezenas de conflitos demonstram que "a exclusão sistemática de algum grupo específico do acesso ao poder, a oportunidades, a serviços e à segurança cria um terreno fértil para a mobilização de protestos e reivindicações legítimas. Quem vencer as eleições terá de adotar políticas de longo prazo que considerem também as aspirações econômicas e sociais dos derrotados. Fomentar a participação de jovens, organizações, movimentos e redes que apoiaram Bolsonaro ou Lula é fundamental." Se excluído ou perseguido, o bolsonarismo ou o lulismo crescerá e poderá tornar-se violento. A coesão social não representa o cancelamento do debate, mas um espaço democrático no qual o pluralismo pode florescer pacificamente.

As artes e a cultura também podem exercer um papel fundamental. Os criadores e gestores culturais têm de puxar os extremos pelas orelhas para os trazer para um espaço comum de debate, imaginação e criação. Funcionou na Colômbia e na Irlanda. Cabe às artes transpor o seu vínculo político natural à esquerda para criar elementos de partilha coletiva.

Guy afirma também que, no caso brasileiro, tal como no americano, se o teatro de guerra está nas redes sociais, as estratégias de resolução de conflitos deveriam priorizar este território digital. As redes, apesar de todos os seus benefícios, tornaram-se também instrumentos que acentuam estratificações e categorizações sociais, além de amplificarem as fraquezas e vulnerabilidades humanas. Uma boa solução para mitigarmos a versão nefasta das redes sociais é o The Commons Project, um projeto lançado em 2017 com o objetivo de despolarizar o debate público e privado nos Estados Unidos.

A premissa central do The Commons é que a maioria das pessoas nos EUA não é promotora ativa da polarização. Em vez disso, a polarização é algo que lhes acontece. São vítimas, não réus. Através de ferramentas próprias, o The Commons consegue identificar os milhões de pessoas no Twitter e Facebook que estão mais suscetíveis a serem polarizadas. Depois criam conteúdos moderados para testar reações. Em seguida, facilitadores entram em contato direto com os usuários das redes de forma a desmistificar dogmas, aquietar medos e a incutir alguma literacia digital. As metodologias aplicadas permitem chegar de forma direta e personalizada a potencialmente milhões de pessoas. O Brasil precisa de um programa semelhante.

O nosso otimismo leva-nos a acreditar que muitos dos que votam em Lula ou Bolsonaro têm mobilidade ideológica e fazem opções políticas de forma utilitarista. Não guardam rancores nem pularam para nenhuma trincheira. Mas há dezenas de milhões de brasileiros que são agudamente bolsonaristas, lulistas, antibolsonaristas ou antilulistas. É nesta fatia demográfica que nos deveríamos concentrar. No final do século 19, o Brasil teve um presidente que recebeu a alcunha de "Pacificador", depois de ter posto termo à Revolução Federalista. Vamos precisar de um novo presidente com as mesmas habilidades. Para isso, precisa de ser um presidente democrático.

Fonte: Folha de S. Paulo

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

NÃO TOMAREI PARTIDO PORQUE TODOS OS MEUS AMIGOS ESTARÃO CERTOS

Jorge Alberto Salton

Como o sol na foto de meu amigo Juarez Lopes, um ano vai e outro vem. E eu estou parafraseando Mel Brooks, que, aos 95 anos, escreveu em sua autobiografia: "Nunca tomo partido porque todos estão certos".

Neste ano eleitoral teremos de optar: manter amizades ou assumir publicamente um candidato a presidente. Um colega e amigo já foi claro: quem não acompanhar o voto dele não será mais seu amigo. Por quê? Porque ele tem absoluta certeza de que está certo em sua escolha.

O problema – ou a solução – é que nosso voto tem a ver com nossa história de vida. Inclusive, mantê-lo secreto também. O silêncio sobre política pode, sim, na atual conjuntura maniqueísta, significar a opção pelos amigos.

Esse é um dos meus "bons propósitos" para o ano de 2022. Não sei se vou conseguir.

Essa questão me fez lembrar de uma situação vivida em dois momentos: na adolescência e no velório do meu pai. Deu o acaso de eu estar junto quando meu pai – ele foi prefeito por duas vezes – recebeu em sua casa um amigo que fora avisá-lo de que não votaria nele.

Um homem influente em uma vila da cidade achou melhor contar de viva voz do que deixar a informação chegar por outros, na forma de fofoca. Meu pai disse que ele tinha suas razões e que não havia qualquer problema. Seguiram conversando sobre outros assuntos, rindo e se despediram numa boa.

Assim que ele deixou nossa casa, estabeleceu-se uma polêmica: a reação amistosa era a atitude correta? Afinal, havia uma disputa eleitoral.

Meu pai reafirmou em palavras o que havia mostrado em atitude: a amizade tinha mais valor que a disputa política.

Os anos se passaram, muitos anos, e na noite do velório do meu pai, um homem de bastante idade aproximou-se e perguntou se eu era filho do Wolmar e se eu era o adolescente assim assado… "Sim, lembro-me do senhor porque sua atitude provocou debate na nossa família", respondi. Disse-me ele que conquistou, na época, a admiração de seus familiares e de muitos na vila em que morava: o sujeito que teve a coragem de ir à casa do candidato dizer que não votaria nele.

E assim foi até o dia da votação. Porém, a fila foi andando, andando, e quando chegou a vez de ele depositar o voto na urna… "Não consegui não votar no Wolmar. Votei no Wolmar e isso me fez muito bem, mas não pude contar para ninguém. Ganhara fama… Com que cara contaria?!".

E com emoção, completou: "Na frente da urna, percebi que o Wolmar e eu éramos muito iguais. Para nós, a amizade tinha muito valor".

Fonte: https://www.neipies.com

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

MEDO E RANCOR

William Waack

Ao armazenar medo e rancor, o Brasil está se tornando um país de inimigos irreconciliáveis

É bastante óbvio que as campanhas de Lula e Bolsonaro tivessem concentrado fogo em destruir a imagem do adversário. Durante bastante tempo a atual campanha foi descrita como um campeonato de rejeições. Venceria a rejeição mais baixa. Agora, a de Lula oscilou um pouco para cima, a de Bolsonaro um pouco para baixo.

Mantêm-se razoavelmente próximas, com Bolsonaro mais rejeitado do que Lula. Ambos sofreram e desferiram ataques violentos, muitos abaixo da linha da cintura, mas as duas táticas aparentemente não funcionaram como as campanhas supunham.

PECADOS “PERDOADOS” – A explicação provavelmente se deve a um fenômeno de postura dos eleitores que tem a ver com medo e rancor. É bastante nutrido o contingente dos que dizem não votar em um candidato de jeito nenhum. Nem que isso signifique fazer uma escolha que jamais teria sido considerada.

Não, não se trata de votar no “menos pior” (sob qualquer ponto de vista). Trata-se de fazer qualquer coisa para evitar a vitória de quem se tem mais medo e/ou rancor. Está aí o “perdão” concedido a cada um. Perdoam-se pecados de Lula, pois ele impede uma vitória de Bolsonaro. E vice-versa.

A atual eleição é provavelmente a mais “emocional” de uma já longa série de pleitos presidenciais pós-redemocratização. Há pouco de “racional” na opção por um candidato motivada por medo e rancor do outro.

XINGAMENTOS – Talvez seja esse um motivo central para entender qual a razão de xingamentos não “colarem” no oponente. “Ladrão e corrupto” ou “genocida e fascista” já foram levados em conta por quem tem medo e/ou rancor por um ou pelo outro.

Nas categorias convencionais com as quais se pretende explicar formação de opinião e comportamento eleitoral há sempre referência a questões sociais e estruturais mais profundas.

Como a insegurança trazida por desemprego, por exemplo, “culpa” deste ou daquele personagem político. Ou uma situação percebida como desvantajosa e atribuída por um grupo social a outro, que leva igualmente ao “rancor” por alguma figura pública (e, por outro lado, à acolhida de promessas populistas).

NAS REDES SOCIAIS – No ambiente tóxico incentivado por redes sociais, esses fatores “clássicos” perdem um tanto de sua relevância. Estudiosos das redes sociais costumam dizer que um dos principais obstáculos na análise dos dados é identificar claramente grupos socioeconômicos nas várias plataformas, embora algumas delas correspondam a determinados padrões culturais, de idade, de consumo e poder aquisitivo.

O principal problema do medo e rancor como motivação eleitoral não é apenas a óbvia “qualidade” (ou falta de) da escolha. É a relevância para o que vem depois.

O Brasil está, infelizmente, se tornando um país de irreconciliáveis.

Fonte: O Estadão

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

TEMOS A DEMOCRACIA QUE QUEREMOS?

Jaime Pinsky
Tão habituados estamos com o comportamento de muitos servidores públicos, civis e militares, oriundos dos Três Poderes, que corremos o risco de considerar normal o que é apenas comum. Legislar em causa própria, criar leis e portarias que não objetivam vantagens senão para si e apaniguados, aumentar o próprio salário, quando poucas remunerações de trabalho conseguem acompanhar a inflação, utilizar informações privilegiadas para comprar e vender (imóveis, ações e até fundos de renda fixa), colocar parentes, seguidores e cupinchas em cargos públicos, utilizando sua força de trabalho para fins privados, tudo isso existe e é comum. Mas, não é normal.

Normalizar, ou até naturalizar o que é apenas comum, habitual, é o primeiro passo para deixar de lado a ética e o compromisso com a sociedade. Seria ocioso lembrar que funcionários públicos, sejam eles motoristas e contínuos, sejam juízes, senadores e professores titulares não têm o direito de abandonar as normas que devem reger todos os membros de uma sociedade, inclusive eles. É o que diz a lei. É o que alega a Constituição.

Quando um servidor público abre mão da ética e passa a agir apenas em benefício de seus familiares, ou de seus partidários; quando ele começa a considerar normal a prática de hábitos tão arraigados no funcionalismo como a rachadinha, ou a utilização de informações privilegiadas, ou ainda a utilização do cargo para obtenção de vantagens, o edifício democrático fica abalado.

E aí chegamos à discussão sobre o que é, para nós, o tal Estado Democrático de Direito. É pra valer, ou apenas um rótulo formal? Uma realidade ou uma fachada? Algo como um rótulo conveniente? Rótulo conveniente, sim. Afinal, fica bem brincarmos de democracia. Fica bem fingirmos que aqui todos são iguais perante a lei. Só que, na verdade, não são.

Vamos ser claros: um país que permite a fome endêmica de parte substancial de sua população não é um Estado democrático. Um país em que, constitucionalmente, todos gozam dos mesmos direitos, mas apenas os oriundos de determinadas faixas sociais frequentam as prisões por períodos superiores a 30 dias não é uma democracia. Ou acreditamos que apenas entre os mais pobres e de pele mais escura é que se localizam os inimigos da democracia? Que só entre aqueles que moram na periferia e nos morros, nas invasões e nos acampamentos é que encontramos os que impedem o crescimento de nossa economia e o avanço em bens públicos? Falcatruas com dinheiro público não é coisa de bandidinho pé de chinelo.

O fato é que achamos normal que grande parte dos políticos possa beneficiar potenciais eleitores e cabos eleitorais em redutos geográficos, ou setor de atividade, com dinheiro público, mesmo que à custa do esvaziamento de programas fundamentais à saúde pública como farmácia popular, que logo não terá verba para a distribuição de remédios contra hipertensão arterial e diabetes, problemas que atingem enorme parcela da população brasileira.

Achamos normal a redução do salário, o esvaziamento social do papel do professor de escola pública, depois que ela se popularizou. Pelo visto, agora, a escola não precisa mais ser tão boa, já que deixou de abrigar os rebentos dos mais ricos, que se transferiram para instituições particulares, preferencialmente bilíngues. Tudo normal, dentro de nossa concepção de Estado Democrático de Direito.

E há mais, muito mais. Muitos de nós achamos suficiente lutar contra a expulsão de gente pobre de áreas de mananciais, ou de parques naturais, onde construíram seus barracos improvisados. É verdade que não se deve comprometer trechos de mata virgem e cursos de água necessários ao fornecimento do líquido a cidades. Mas achamos que pessoas preferem viver ao lado de um córrego poluído, ou só o fazem por falta de alternativa?

E qual a alternativa que oferecemos, nós, os arautos da democracia, os organizadores de abaixo-assinados? O que fazemos, de fato, pela democracia, além de apregoar lemas populistas inconsequentes? Claro, conceber e executar um programa sério de assentamento de milhões de pessoas sem teto exige mais do que palavras de ordem berradas por pseudodemocratas com saudade da guerra fria... Ou, pior ainda, simplesmente ordenar que os "invasores" sejam retirados à bala.

Assim funciona a nossa democracia, onde todos deveriam ser iguais perante a lei, mas não são. É um sistema político que não tem a ver com o discurso igualitário proferido por gente conservadora, transvestida em defensores da igualdade social. É uma democracia construída por meras declarações de intenção, uma democracia formal e não real, uma democracia em que o comum virou normal, em que o normal é isso que está aí, em que os que realmente mandam não querem mudar.

Fonte: http://www.jaimepinsky.com.br

domingo, 2 de outubro de 2022

EM LOUVOR DO VOTO INÚTIL

Alexandre Schwartsman

… Não a assinei, nem pretendo fazê-lo, assim como não tenho a menor intenção de entregar meu voto, inútil, ao ex-presidente (muito menos ao atual, já adianto). E sequer é pelo lamentável programa econômico, cuja expressão mais recente só revela que nada esqueceram, nem aprenderam com os erros que levaram o país a uma das piores recessões dos últimos 50 anos…

Colegas economistas, a quem respeito, discordam das propostas do PT, mas mesmo assim lançaram recentemente uma carta de apoio ao dito “voto útil” em Luis Inácio Lula da Silva. Não a assinei, nem pretendo fazê-lo, assim como não tenho a menor intenção de entregar meu voto, inútil, ao ex-presidente (muito menos ao atual, já adianto).

E sequer é pelo lamentável programa econômico, cuja expressão mais recente só revela que nada esqueceram, nem aprenderam com os erros que levaram o país a uma das piores recessões dos últimos 50 anos, ainda atribuída às “pautas-bomba” e outras atividades paranormais. Por pior que seja, não é, nem de longe, o motivo da minha recusa.

Não votarei em Lula no primeiro turno, tampouco, se houver, no segundo, porque não estou minimamente convencido das credenciais democráticas do PT, como, inclusive, tive a oportunidade de escrever há cerca de quatro anos, sob circunstâncias não muito distintas das atuais.

No que diz respeito à liberdade de expressão, trata-se do partido que ainda propõe o “controle social da mídia”. Ainda que muitas interpretações possam caber em tal rótulo, deixo aqui a utilizada por Lula há cerca de um ano: “Eu vi como a imprensa destruía o Chávez. Aqui eu vi o que foi feito comigo. Nós vamos ter um compromisso público de que vamos fazer um novo marco regulatório dos meios de comunicação”. Quem quiser que se (auto) engane, mas, não resta dúvida que o propósito da coisa é impedir que a “imprensa destrua o governo”. Super democrático.

A propósito, órgãos de imprensa que criticavam o governo petista foram devidamente rotulados como Partido da Imprensa Golpista por jornalistas a soldo do partido. Ah, e também por deputados do PT, como Emiliano José, em texto devidamente divulgado pela Fundação Perseu Abramo. Da mesma forma que as redes bolsonaristas de hoje, a militância digital da época atacava com gosto a imprensa, ou melhor, “a grande mídia”.

Aliás, se a questão é o assédio a jornalistas, militantes do partido têm o que contar, como a violência verbal sofrida por Miriam Leitão em 2017. Em nota oficial, o partido disse lamentar o ocorrido, afirmando, porém, que: “Não podemos (…) deixar de ressaltar que a Rede Globo, empresa para a qual trabalha a jornalista Miriam Leitão, é, em grande medida, responsável pelo clima de radicalização e até de ódio por que passa o Brasil”. Quem mandou a Miriam trabalhar para a Globo, né?

Se a defesa da liberdade de expressão se limita apenas aos interesses do partido, o respeito às instituições não chega mais longe. Por exemplo, em 2018 o então deputado Wadih Damous defendeu o fechamento do STF (lembra alguém?), centrando fogo, vejam só, no ministro Luiz Roberto Barroso, afirmando: “não foi para isto que esta turma foi colocada lá”, e, continuando, “ou nós enquadramos essa turma ou essa turma vai enterrar de vez a democracia”.

Em sua “autocrítica” oficial, partido lamentou apenas: (a) “priorizar ‘o pacto pluriclassista’ que permitiu a vitória de Lula em 2002; (b) “não ‘impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público’”; (c) não “modificar os currículos das academias militares e de promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista”; e (d) não “redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação (sic)”.

Dito de outra forma, se algum arrependimento houve foi o de não avançar no aparelhamento das instituições de estado a favor dos interesses do partido, um primor de compromisso democrático.

E, finalizando, não nos esqueçamos do “mensalão”. Sei bem que hoje isto é considerado café pequeno perto do orçamento secreto, mas continuo sem entender como um erro justifica outro. O partido nada viu de censurável em corromper o Congresso para se manter no poder, tanto que repetiu a dose com o “petrolão”.

Faço questão que meu voto vá pra quem tem comprometimento com a democracia, o que, de cara, exclui os dois líderes das pesquisas. Pode ser inútil, mas dormirei bem à noite.

Fonte: Folha de S. Paulo - 30/09/2022

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

A SITUAÇÃO DO ENSINO NO BRASIL EM ESTADO DE COMA

Por Francisco Bend
Por que a diferença de qualidade do ensino público para o privado? Os professores da rede pública ganham praticamente o mesmo salário dos professores que ensinam em escolas particulares atualmente, então não reside no professor a causa do ensino pago ser melhor, razão pela qual somos obrigados a pesquisar com mais profundidade os motivos que levaram a este desnível.

Ora, o ensino no Brasil remonta à sua descoberta, quando os padres católicos iniciaram a catequese com os índios e inauguração de escolas para os filhos dos imigrantes e das famílias mais abonadas que vinham para o Brasil enriquecer.

A partir do momento que o Império passou a construir escolas públicas, estas jamais tiveram o mesmo ambiente escolar, as mesmas construções, bibliotecas, a tradição no ensino que os padres trouxeram de várias partes da Europa, e não somente de Portugal.

Portanto, há séculos, a escola particular se notabiliza pela organização, e, na sua maior parte, pertence a grupos religiosos que usam da disciplina e metodologia interna métodos de aprendizado inexistentes na escola aberta, além de os investimentos na área educacional por parte do governo serem desviados de seus objetivos e para onde haviam sido locados inicialmente.

BRIZOLA E DARCY

Por outro lado, sabemos que educar o povo nunca foi meta de governo algum, com exceção do projeto de Brizola e Darcy Ribeiro, os CIEPS, que ministravam a carga horária de ensino, mas também propiciavam tempo integral às crianças, retirando-as das ruas e protegendo-as das más influências e de ambientes negativos.

Por exemplo, as agressões a professores não existem nos colégios pagos, enquanto que, nos públicos, diariamente a imprensa veicula notícias sobre esta falta de educação e respeito para com os mestres.

Portanto, a educação chegou a níveis tão deteriorados e por culpa dos governos, que até os pais deveriam voltar a frequentar o ambiente escolar e aprender a reverenciar quem ensina seus filhos!

O próprio povo não dá valor ao ensino, vamos ser realistas. O Bolsa-Família demonstra que o interesse é pela doação, e não pelo aprimoramento profissional, intelectual e da mão de obra especializada.

MANIPULAÇÃO

O governo conseguiu depois de décadas de ensino deficiente, comandar o povo conforme a sua vontade e interesse, manipulando-o vergonhosa e despudoradamente. Em consequência, os pais transmitem aos seus filhos o mesmo descaso e desvalorização ao estudo, mas os obrigam a pedir esmolas e conseguirem qualquer trabalho que renda alguns tostões para ajudarem em casa, ou seja, o mesmo meio em que vivem de pobreza e de dependência das benesses do governo será o mesmo às crianças pela falta de tradição e costume, apelo e desejo, de se instruírem, de progredirem, de se desenvolverem.

O resultado se expressa nos programas de TV, na ausência de leitura, de não se ler jornais, revistas, e do descaso pela situação política e social do País, importando tão somente a diversão, no caso, futebol, carnaval, o churrasquinho fim de semana regado a boas cervejas geladas. E o futuro, a Deus pertence!

Eu afirmaria que não bastariam pesados investimentos na área educacional se não vierem acompanhados de programas de valorização do estudo estensivos aos pais, de modo que incentivem seus filhos a estudar, apesar dos exemplos nada edificantes de nossas autoridades e, na maioria das vezes, do próprio ambiente familiar, lamentavelmente.