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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

VIAJAR É TUDO DE BOM

Em sala de espera de consultório dentário sempre tem revistas à disposição dos clientes. Novas ou antigas, encontra-se de tudo. Pouco importa o assunto já que a preocupação é com a broca que logo, logo irá atacar algum dente que teima em doer.

Pois numa dessas ocasiões, folheando uma  revista especializada em viagens, encontrei uma frase que adotei na hora:

"Prefiro histórias para contar a objetos para mostrar".

Desde então, nunca mais parei de viajar. E assim pretendo continuar, ao menos enquanto eu tiver forças para arrastar a minha mala.

Qualquer destino é bom. Ver coisas novas, vivenciar hábitos diferentes e tudo o mais que compõe uma viagem, nos afasta daquela sensação de que moramos no umbigo do mundo. 

A cada nova viagem acrescentamos mais conhecimento ao nosso acervo mental. Passamos a olhar os outros povos sob outra ótica. 

A síntese de Mário Quintana diz tudo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

TECNOLOGIA

Estávamos instalados em Treviso.  Depois do café da manhã fomos de carro até a estação ferroviária onde deixamos a máquina e compramos os bilhetes para ir de trem para Veneza. A pessoa que nos vendeu os bilhetes foi muito atenciosa. Sabendo que éramos brasileiros nos brindou com material turístico de Treviso.

Depois de meia hora até chegamos em Veneza. Estava muito quente. A primeira providência, ainda na Estação, foi procurar o banheiro e logo veio uma dificuldade. Pagar menos de um Euro para ingressar na casinha. A catraca só abre mediante o pagamento. A máquina aceita moedas de 0,50, 0,20 e 0,10 centavos. Temos apenas moedas de 1,00 euro. Até descobrirmos que havia uma máquina auxiliar ao lado que fazia a troca da moeda de maior valor, demorou um pouco. Mas, descoberta a novidade, fizemos o câmbio e entramos sem maiores problemas.

O retorno: A Estação Ferroviária é enorme e há linhas para as mais diversas localidades. Chegamos na estação passando um pouco das 17,00 hs. e por isto perdemos o trem. Na verdade chegamos em tempo. Ocorre que é preciso validar os tickets numas maquininhas que existem por todo lugar na estação. Demoramos para validar os nossos, eis que a máquina não estava funcionando direito. Um funcionário da estação teve dificuldades para validá-los para nós. Não sei se foi isto que atrasou o nosso embarque. Acho que mesmo assim não teríamos tempo para tal. Não teve alternativa: restava esperar a próxima saída. Demoramos um pouco para identificar o nosso terminal mas por fim encontramos e embarcamos no trem que vai em direção a Udine. Para não errar, é preciso identificar o horário numas tabelas que existem afixadas no saguão. Identificado o ponto final (Udine no nosso caso), é preciso verificar se o seu destino faz parte do itinerário e então, tudo fica fácil. 

Desembarcamos em Treviso, e ali mesmo na estação compramos uns sanduíches e coca-cola para comer no hotel, pois como se sabe, não tem janta em dias de semana. Tive um pouco de dificuldades para pagar o estacionamento. Eu estava colocando o ticket do lado errado. Mas logo acertei. Como eu não sabia o valor total, coloquei uma nota de 20 euros e para minha surpresa recebi cerca de 12 euros de troco, tudo em moedas. Ou seja, todas as moedas que Lourdes tinha descartado durante o dia, retornaram com juros. Enfim, vivendo e aprendendo.

* Apontamentos de uma viagem à Itália em 2009

quarta-feira, 29 de julho de 2026

NO RASTRO DAS FREIRAS

Não sei exatamente quantas horas dormimos, mas com certeza foi uma noite agradável — se é que dá para dizer que uma noite num avião possa ser algo agradável. Na fileira ao lado da nossa, viajaram duas religiosas, assim identificadas pelas vestes características. De manhã, depois do café, minha esposa observou que uma drlas retirou, de uma valise de mão, um grande frasco de creme hidratante. Elas utilizaram o creme para as mãos, e daí veio o comentário acerca de como tinham conseguido passar com frascos contendo material líquido, se tal era proibido. Aventei que o hábito que vestiam podia ser o álibi perfeito para que não fossem revistadas.

Chegamos a Milão por volta das 13 horas, no horário local. São cinco horas de diferença em razão do fuso horário e do horário de verão. A primeira etapa foi passar pela imigração. No local apropriado, formaram-se várias filas e, de imediato, percebemos que o fluxo estava demorando mais do que o normal. Logo notamos que mulheres que viajavam sozinhas ficavam mais tempo no guichê, onde se percebia que respondiam a várias perguntas. Notei que as freiras, já hidratadas, estavam numa fila ao lado da nossa. Eureka! Mudamos para a fila delas, pois não seria crível que, na sua condição, fossem submetidas ao mesmo interrogatório daquelas, digamos, suspeitas. Dito e feito: foi tudo muito rápido. (01/08/2009)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

VASECTOMIA

Conheci a mãe do Gilberto em uma tarde qualquer numa rua central da cidade. Ela era professora, baixinha e transbordava simpatia — o tipo de pessoa que você gosta de graça. O encontro foi mais rápido que Taylor Swift mudando de namorado, mas o melhor ficou para o caminho até o escritório.

Enquanto caminhávamos, o Gilberto me contou que tinha acabado de revelar para a mãe sua intenção de fazer uma vasectomia. Ele e a esposa, já tinham duas meninas e decidiram fechar a fábrica definitivamente.

A reação da boa senhora ao receber a notícia? Um misto de drama grego com desespero materno:

— Meu filho, não faça uma coisa dessas! Tu vais ficar gordo como os porcos!

Sempre muito respeitoso, o Cláudio teve que respirar fundo e dar uma verdadeira aula de anatomia e urologia ali mesmo. Explicou, tim-tim por tim-tim, que o procedimento moderno não tinha absolutamente nada a ver com a castração feita em suínos no interior.

Dona Coruja ouviu tudo em silêncio absoluto. Não comentou uma única palavra — o clássico sinal de que, na cabeça dela, o filho ainda corria o risco de virar um leitão de feira. O Gilberto me contou o causo chorando de rir. E, convenhamos, quem não riria?

quarta-feira, 15 de julho de 2026

OS CANHOTOS

Para a criançada qualquer espaço mais ou menos plano servia para improvisar um "campinho" para a prática do futebol. Nem precisava ter goleiras - duas pedras, uma de cada lado, serviam para demarcar os limites da porta por onde a bola deveria passar. Trave superior nem precisava. Decidia-se no olho, o que sempre gerava muitas discussões. Algumas vezes a coisa era resolvida no tapa. O importante era ter o campinho. Todo lugar tinha um. Nós tínhamos diversos desses espaços mas o preferido dos domingos de manhã, por ser um pouco maior que os demais, ficava bem próximo da Vila Sindical. Dez horas da manhã, depois de cumprida a obrigação de ir à missa, lá estávamos nós. Geralmente os dois melhores jogadores ou os que despontassem como líderes, iam formando cada um a sua equipe, escolhendo dentre os atletas presentes, um por vez, um para cada time. O método assegurava, ao menos teoricamente, a equivalência de forças. Depois era só diversão. Pausa. O nosso bairro acabou sendo o destino de muitas famílias de origem alemã que vinham à cidade em busca de trabalho, oriundas, quase todas, do vale do Rio Caí. Num certo domingo de manhã, a convite de outros garotos que já estavam enturmados, se apresentaram para jogar três irmãos, os mais novos moradores do bairro: Milton, Sadi e Remi. A única semelhança entre eles era que só só batiam com o pé esquerdo. O Milton era alto, atacante e goleador e exímio cabeceador. Acumulava responsabilidades por ser o mais velho da família e se voltava mais para o trabalho para ajudar nas despesas de casa. A mãe era viúva e só tinha uma irmã além dos dois manos. Pouco participou das nossas brincadeiras dominicais. O Sadi era meio-campista. Tinha um excelente domínio de bola e era exímio driblador. Depois da sua primeira intervenção, passou a ser muito disputado na formação das equipes. Logo se tornou o batedor oficial de penaltis da equipe pela qual estivesse jogando. Com a idade, conquistou uma cadeira cativa em qualquer escalação do Floriano, que disputava o campeonato varzeano da cidade. Nem mesmo os exercícios do ano de serviço militar alteraram sua massa física, Permaneceu magro o que lhe dava vantagem nos deslocamentos em campo. Já o Remi, que era da minha idade, se destacou mais como defensor. Para mim era o melhor dos três. Pena que nunca levou nada a sério, nem mesmo o futebol. Poderia ter virado profissional. Entretanto, o seu esporte preferido, embora o tapete verde, era outro: o carteado e por aí se perdeu um talento. Mas faço o registro dos canhotos pois com a chegada deles a qualidade dos nossos times pelos campinhos da vida melhorou sensivelmente.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

RECRUTA GAGO

Seu nome era Josué, apelido Jépe. Um pouco descontado das idéias. Era gago. Mas só gaguejava quando ficava contrariado. Ou seja, não era portador de uma gagueira permanente. Veio a convocação para o serviço militar. Na caserna, seu superior imediato era um sargento, este, gago em tempo integral. Para não "falhar” na hora dos comandos inerentes à Ordem Unida, o sargento falava “cantando”. Por conta da gagueira ou quiçá por insegurança, o sargento era de se fazer respeitar à base de ameaças. O recruta, sempre que interpelado pelo sargento, naturalmente se sentia ameaçado e a gagueira acordava. Na chamada matinal ao ouvir seu número de identificação ser pronunciado pelo sargento, respondia - Jo - Jo - Josué. Alguns colegas não conseguiam represar o riso. Daí porque o sargento cismava com o Jépe que ele não era gago, antes, se fazia de ser. A reprimenda vinha em forma de prisão no próprio quartel. Livre e solto, a cena se repetia, com o recruta cada vez mais contrariado. - Sol...Sol...Soldado Josué se a - a - apresentando. A solução encontrada foi simples: atribuir-lhe tarefas isentas de qualquer comunicação verbal. Uma dessas tarefas consistia em rachar lenha junto ao paiol, onde também estavam depositados explosivos e munições de uso do exército. A primeira e mais importante orientação passada ao recruta foi no sentido de não permitir o ingresso naquele recinto de quem quer que fosse. A manhã transcorria sem quaisquer incidentes até que um Capitão por lá apareceu para conferir o estoque de explosivos. Seguindo à risca os termos da ordem recebida, o Jépe impediu o Capitão de ingressar no paiol. Foi o estopim para ser deflagrado um intenso bate-boca que resultou numa cena hilária do recruta, munido de um machado, correndo atrás do Capitão, que valentemente escapuliu do embate. Seguiu-se nova prisão e tudo voltou como dantes no quartel do Abrantes.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A SURDEZ DO MARLO

A Fishfest era um evento sempre esperado. Um grupo de amigos organizava a festa, cada um com atribuições aplicáveis às respectivas habilidades. O Marlo era um deles, e sua principal incumbência relacionava-se com a preparação dos diversos pratos a serem servidos. Naquela noite não foi diferente. Dentre os comensais participantes estavam muitos médicos, eis que o Marlo era proprietário de um laboratório de análises clínicas e, como tal, seu relacionamento com a classe médica era óbvio.

Em dado momento, ocorreu um grande corre-corre para os lados da cozinha. Houve muita agitação e logo espalhou-se a notícia de que o Marlo havia infartado. Com incrível rapidez, uma ambulância chegou ao local e dali o Marlo foi transportado ao serviço de urgência, acompanhado do cardiologista Wanderlei, que também fazia parte da comissão organizadora do evento.

Como não poderia deixar de ser, a festa murchou. Ficamos todos à espera de notícias, que vieram em forma de alívio: às custas de mais choques do que o normal, o Marlo foi reanimado.

Passadas algumas semanas, encontrei o Marlo caminhando pelas ruas centrais. Nos cumprimentamos na forma costumeira e o assunto não poderia ser outro: a sua saúde depois do infarto. Como ele sempre estava de bom humor, permiti-me indagar-lhe se ele havia "visitado" o lado de lá. Sua resposta veio no mesmo tom:

— Eu tenho deficiência auditiva. Deus me chama, mas eu não ouço.

Nos despedimos depois de uma breve troca de palavras. Passados alguns meses, o estimado amigo, já "curado" do problema auditivo, ouviu o chamado de Deus e partiu.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

CHUVA, BARRO E FRIO

1961 foi o ano em que o Cristóvão de Mendoza passou a funcionar no novo prédio. As aulas eram distribuídas em três turnos: dois vespertinos e um noturno. Fiquei no primeiro turno vespertino, cujas aulas iniciavam por volta do meio-dia e findavam às quatro da tarde. O deslocamento podia ser feito por transporte coletivo, mas, nos dias quentes de verão, eu e outros colegas preferíamos ir e voltar caminhando. Em dias de chuva, seguíamos de ônibus.

Segundo recordo, a Avenida Júlio de Castilhos era pavimentada apenas até o Parque Cinquentenário. O viaduto ainda não existia; o aterro formava um paredão que represava as águas, formando um pequeno lago;  e as águas da chuva desciam com força — era a natureza agindo. Contudo, por motivos que não recordo, no inverno daquele ano ocorreu uma greve no transporte coletivo. Ficamos sem opção: era caminhar ou caminhar. O barro que se acumulava no trecho não pavimentado da Júlio era infernal. Por vezes, era preferível passar defronte ao atual Estádio Centenário, o que tornava mais longa a caminhada. Ao menos, pelo trecho alternativo, as ruas se apresentavam menos enlameadas. De qualquer maneira, calçado nenhum ficava imune aos avanços da umidade. Tudo era aprendizado...

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O BEIJO PEDAGÓGICO

Na Schützenfest de Jaraguá do Sul, aquela prima germânica da Oktoberfest de Blumenau, tudo parecia seguir o roteiro conhecido: música alta, calor respeitável, trajes típicos disputando espaço com sorrisos avermelhados pelo chope, e o salão principal ladeado de camarotes no alto, como uma galeria onde se via e se era visto. Um grupo de amigos, fiéis à tradição e ao contrato, alugava sempre o mesmo camarote por todo o período da festa. Tinha acesso confortável, banheiro por perto e um corredor externo providencial para esfriar a cabeça, aliviar os ouvidos e, com sorte, recuperar a noção de tempo.

O inconveniente vinha disfarçado de tentação: a cisterna etílica — leia-se barril de chope — ficava colada à porta do camarote. Bastava um descuido e lá vinham eles, os menudos de copo vazio e olhar treinado, que fingiam admirar a arquitetura enquanto, sub-repticiamente, “furavam” o chope alheio. Foi aí que o Airton entrou em cena. Alto, forte, campeão de judô, trajado como mandava o figurino. Postava-se à porta com a serenidade de um monge e a prontidão de um segurança. Ao flagrar o furador em ação, não gritava nem reclamava: abraçava. E beijava. Beijava com entusiasmo, na face do incauto, usando lábios estrategicamente umedecidos por algum tempero generoso dos comes da noite — mostarda, talvez, ou algo com alho suficiente para marcar memória.

A cena virou atração paralela. Os locatários e familiares aguardavam o próximo “cliente” como quem espera o refrão da música. O corredor, antes rota de fuga térmica, transformou-se em palco. Em pouco tempo, a fama correu mais rápido que o chope: quem se aventurava a furar barril saía com lembrança afetiva demais para contar aos amigos. Resultado? Os neo-bebuns foram rareando, o chope passou a durar mais e o Airton ganhou um título honorário que ninguém ousou contestar: guardião do barril e distribuidor oficial de beijos pedagógicos. Na Schützenfest, afinal, aprende-se que toda festa tem regras — e algumas lições vêm com tempero.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O CASO DA LINHA SUL BRASIL

O Caso de Linha Sul Brasil

A Linha Sul Brasil pertencia ao município de Modelo que, por sua vez, integrava a Comarca de Pinhalzinho. Dizia-se que, por aquelas bandas, a autoridade policial não se fazia presente. Aos domingos, a rua principal do vilarejo transformava-se em uma autêntica "cancha reta" — espaço destinado a corridas de cavalo, disputadas sempre entre dois concorrentes.

Outra lenda local envolvia as partidas de bocha: comentava-se que, após a bola parar, o jogador podia sacar seu revólver (sempre um calibre .38) e atirar nela para empurrá-la ainda mais para perto do bochim, garantindo a pontuação.

O poder na região era disputado por duas famílias tradicionais. Dessa rivalidade, entre vários outros conflitos, resultou um processo por tentativa de homicídio. O réu era um sujeito conhecido como Pedro que, conhecedor das leis da fronteira, havia se mandado para os lados do Paraguai.
O Incidente na Rodoviária

Constava no inquérito que Pedro, ao chegar ao local onde hoje funciona a rodoviária, avistou um desafeto da família adversária. Pedro estava do lado de fora da lanchonete e a vítima, do lado de dentro. Ao notar que o rival esboçara um movimento interpretado como o de sacar uma arma, Pedro antecipou-se: puxou a sua e disparou duas vezes.

A vítima foi atingida por dois projéteis. Curiosamente, o vidro da lanchonete que separava os dois apresentava apenas um único furo. Diante do fato inusitado, o povo da cidade justificava a façanha dizendo que aquilo só fora possível graças à mira milimétrica que Pedro adquirira nos treinos de bocha.
O Interrogatório

Mesmo estando, por assim dizer, foragido, Pedro compareceu espontaneamente para o interrogatório. Era um homem alto, magro, de cabelos loiros que puxavam para o ruivo. O vasto bigode seguia o mesmo tom.

Após a qualificação feita pelo escrivão, comecei com as perguntas de praxe antes de entrar no mérito do crime. Eu tinha o hábito de conversar amistosamente com réus e testemunhas; no interior, o simples fato de prestar declarações em juízo costuma deixar as pessoas mais simples extremamente nervosas.

Assim, antes mesmo de indagar o réu sobre os disparos, fiz uma provocação informal:

— Seu Pedro, dizem que lá na Sul Brasil todo mundo anda ferrado. É verdade? — perguntei, usando a gíria local para "armado".

— E não ande pra ver! — respondeu ele, com uma ponta de indignação.

Embora minha cadeira fosse um pouco mais alta, inclinei-me para a frente, fixei o olhar deliberadamente na cintura do réu e voltei à carga:

— E cadê o berro?

— Pois não é que me tomaram?! — exclamou, ainda mais indignado.

— Mas nem mesmo um daqueles "paraguaios"? — insinuei, sugerindo que ele pudesse ter trazido algo de sua temporada no país vizinho.

Nesse exato momento, o réu jogou o corpo para trás na cadeira, virou-se na direção de seu advogado e, com os dedos polegar e indicador da mão direita, alisou o imenso bigode. Meneou a cabeça e, apontando para mim discretamente com os olhos, comentou com o defensor:

— ... Tá querendo me pegá...

quarta-feira, 27 de maio de 2026

QUE CIDADE GRANDE!

Fui titular da Comarca de Guaramirim por aproximadamente dois (2) anos. Guaramirim, seguindo o modelo das cidades de colonização alemã, nasceu e cresceu às margens do Rio Itapocú e da estrada geral que levava à Joinville. 

Assim concebida, a cidade não se concentrava ao redor da igreja, da praça e da prefeitura, como é a regra dos pequenos povoados. 

A rigor, não existe praça, a igreja fica num lado da cidade e a prefeitura, naquela época, ficava na posição que pode-se considerar como sendo o centro da cidade. Associado a isto há o fato de a cidade estar localizada num vale, onde praticamente não existem (ou não existiam) edificações nos montes próximos. 

Em tais condições, não era possível visualizar a cidade como um todo, retirando do observador a possibilidade de mensurar o tamanho do lugar. 

Em 1985 fui promovido para a Comarca de Xaxim, no oeste do Estado. Tomadas as providências de praxe e despachada a nossa mudança, pusemo-nos na estrada para o longo trajeto. 

A cidade de Xaxim estava toda edificada à esquerda da BR282, no sentido litoral-interior, e mesmo assim, ela não pode ser visualizada de longe, tudo por conta de o aglomerado estar encoberto por uma pequena elevação, contornada pela estrada, e ainda por estar abaixo do nível da rodovia. Visão da cidade, mesmo, só após contornar a montanha. Assim, de um momento para outro, a paisagem se transforma radicalmente e do alto é possível visualizar a cidade. 

Ao contrário de Guaramirim, tínhamos diante dos olhos uma cidade planejada, ruas pavimentadas e em linha reta, quarteirões regulares, enfim, via-se que ali existiu um projeto urbanístico. 

Na medida em que nos aproximávamos do nosso destino, eu ia falando para os meninos, a fim de criar neles a expectativa. Chegando ao ponto em que era possível ver a cidade, avisei:

- Chegamos! Todos olharam curiosos para o nosso novo destino e o Miguel, que já tinha incubado o vírus da arquitetura e urbanismo, comentou mais do que depressa:

- Que cidade grande!

quarta-feira, 13 de maio de 2026

AS CHAVES DO AUTOMÓVEL

Era para ser apenas mais uma viagem de trabalho a São Leopoldo (RS). Reunião marcada, horário contado, discurso mentalmente ensaiado. Tudo dentro do roteiro — até o motorista resolver improvisar.

Estacionou o carro, desceu com a habitual confiança de quem já repetiu aquele gesto mil vezes, apertou o botão do alarme e… clic. Silêncio. Meio segundo depois, o estalo da consciência: as chaves estavam sorrindo, tranquilas e solitárias, na ignição.

Do lado de fora.

Com o carro trancado.

A cena ganhou contornos de espetáculo. O motorista contornava o veículo, espiava pelos vidros, puxava a maçaneta como quem testa a sorte na loteria. Tentou abrir uma fresta com os dedos, depois com um pedaço de papelão encontrado não se sabe onde. Nada. O automóvel, firme em sua integridade moral, recusava qualquer negociação.

Foi então que surgiu ele.

Um desconhecido de andar calmo, olhar experiente e uma serenidade suspeita. Aproximou-se com a naturalidade de quem já viu aquele filme antes.

— Se pagar uma cerveja, eu tiro a chave sem nenhum dano.

A proposta era inusitada, mas justa. Entre esperar um chaveiro oficial, comprometer a agenda e talvez ouvir uma longa palestra sobre distração, uma cerveja parecia investimento estratégico.

— Fechado.

O estranho arregaçou as mangas invisíveis da perícia. Não tinha capa, mas naquele momento era um herói urbano. Pegou uma pequena haste metálica — que surgiu do nada, como truque de mágico — e começou a trabalhar com precisão cirúrgica.

Aos poucos, formou-se uma plateia. Como toda boa intervenção pública, atraía curiosos. Pessoas interromperam seus caminhos para assistir ao que já estava sendo tratado como um evento cultural da calçada. Comentários sussurrados, palpites técnicos infundados e aquele silêncio respeitoso que antecede o clímax.

E então — clac! — a porta cedeu.

O estranho abriu com elegância, alcançou a ignição e, num gesto teatral, entregou as chaves ao proprietário. A plateia quase aplaudiu. Faltou apenas trilha sonora.

Foi quando um gaiato, desses que surgem para dar o arremate final, perguntou em voz alta:

— Você faz isso por profissão?

O silêncio que se seguiu foi mais profundo que o anterior. O herói improvisado respirou fundo. Olhou para o motorista, depois para a pequena multidão, e disse com um meio sorriso cansado:

— É por isso que eu não interfiro na dificuldade dos outros.

Pegou o rumo da esquina, deixando atrás de si um misto de gratidão, constrangimento e reflexão.

O motorista entrou no carro, agora devidamente abastecido de chaves — e de humildade. Quanto à cerveja, foi paga com gosto. Afinal, certas lições saem baratas.

E desde então, toda vez que tranca o carro, ele confere duas vezes. Não por medo de errar de novo — mas porque heróis anônimos nem sempre aceitam pagamento em lúpulo.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

ADOÇANTE E COLÍRIO

Meu dileto amigo João Alberto sempre foi um exemplo de método, disciplina e autocontrole — desses que fariam um relógio suíço pedir dicas. Comedido nas refeições, zeloso com a saúde e atento à forma física, era um modelo de equilíbrio. Se há quem beba socialmente, João Alberto fumava socialmente: acendia um cigarro sem compromisso, sem vício, apenas quando a inspiração — ou a telha — mandava.

Gostava de cachimbo, mas não tanto pelo fumo em si; o que realmente o encantava era o ritual: escolher o tabaco, acomodá-lo, acender com solenidade, como se estivesse celebrando uma cerimônia diplomática. Também apreciava um bom cafezinho e, no fórum, por expressa recomendação sua, o café jamais era adocicado. Algumas gotas de adoçante bastavam para satisfazer seu rigor científico com o paladar.

De vez em quando pingava colírio nos olhos. Segundo me recordo, havia passado por alguma cirurgia corretiva — dessas que a gente nunca sabe exatamente o quê, mas que exigem cuidados permanentes e justificam frascos misteriosos sobre a mesa.

Nossas salas eram contíguas, ligadas por uma porta. Na hora do café, fazíamos a pausa regulamentar: ora ele vinha à minha sala, ora eu ia à dele. Em uma dessas ocasiões, enquanto ele pingava o adoçante no café, notei que o frasco de colírio repousava perigosamente próximo da xícara. Não resisti à tentação:

— Não vá confundir adoçante com colírio!

O tempo passou. Numa segunda-feira — ele costumava passar os fins de semana em Chapecó —, João Alberto chegou ao fórum com certo atraso, o que não era de seu feitio. Mais estranho ainda: mesmo dentro do prédio, não tirava os óculos escuros. Antes que eu abrisse a boca, ele se adiantou:

— Irineu, tu és um bocudo!

Sem entender, fiquei em silêncio. Ele prosseguiu:

— Ontem, em vez de pingar colírio nos olhos, por tua influência, pinguei adoçante. A reação foi uma tremenda ardência! Parecia que eu tinha chorado cebola em pó.

Tentei me desculpar, mas ele logo me tranquilizou, com aquela serenidade de quem assume a própria tragédia doméstica:

— A culpa é minha. Quem mandou ouvir palpites de terceiros?

Desde então, toda vez que vejo um frasco sobre a mesa, desconfio: em certos casos, o perigo não está no veneno — está na sugestão.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O GOLPE DO BAR

Defronte à antiga Faculdade de Direito, lá nos altos da agência Ford, em Caxias do Sul, funcionava um bar minúsculo, desses que cabem mais histórias do que fregueses. Foi ali que o Mário e eu chegamos num final de tarde qualquer, com aquela pressa calma de quem só quer um cafezinho para manter o estudante acordado, eis que que as aulas ocorriam à noite.

Encostados ao balcão, de pé, saboreávamos o café quando surgiu a figura: um jovem que eu conhecia apenas de vista, presença frequente na praça central. Era desses que não caminhavam, circulavam; não conversavam, garimpavam. Especialista em encontrar incautos e lapidar histórias conforme o brilho do possível lucro. Um aprendiz de estelionatário, digamos assim, ainda em fase de estágio supervisionado pela própria esperteza.

Eu sabia bem de seus truques. Trabalhara perto da antiga agência do Banco do Brasil, território profissional do rapaz, onde ele exercitava sua arte com a constância de um funcionário público — só que sem crachá.

No bar, ele se aproximou do Mário e, com grande teatralidade, esfregou o polegar no indicador: o gesto universal do “dinheiro”. Em seguida, passou a gesticular como quem dizia ser surdo e mudo, compondo um personagem digno de um cinema mudo de quinta categoria. Estrategicamente, posicionei-me às suas costas, pronto para qualquer sinal de alerta, como um anjo da guarda especializado em golpes de baixo orçamento.

Enquanto o estranho diálogo gestual avançava, enfiei a mão no bolso e encontrei uma moeda. Soltei-a no chão, casualmente. O tilintar metálico ecoou no bar como um sino de igreja. Milagre imediato: o pseudo surdo virou-se num átimo. O mudo, então, recuperou a audição e a orientação espacial. Ao iniciar o movimento para apanhar a moeda, fui mais rápido: pisei firme sobre a mesma, selando o milagre inverso.

O Mário, que já havia entendido a cena, caiu na gargalhada, café quase saindo pelo nariz. O jovem, percebendo que sua encenação fora desmascarada por uma simples moeda de troco e um pé bem colocado, desistiu da apresentação. Escapuliu do bar com a dignidade possível, provavelmente em busca de plateias menos críticas e bolsos mais distraídos.

Ficamos nós ali, com o café já frio e a certeza reconfortante de que, às vezes, um pouco de atenção e uma moeda no chão bastam para encerrar um espetáculo inteiro.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

O OFFICE BOY

Por volta de 1962, eu era uma dessas criaturas úteis e ligeiras chamadas office boy. Trabalhava numa empresa do ramo metalúrgico, lotado no escritório, e, como mandava a hierarquia natural das coisas, por ser o mais novo — na idade e no emprego — sobravam-me as missões nobres: levar papéis, buscar café, pagar contas e conhecer a cidade a pé antes de qualquer outro meio de transporte.

Alguns meses depois, chegou um novo colega - Delfim era o seu nome. Interiorano recém-desembarcado na cidade grande, foi alocado na loja de autopeças da mesma empresa. Assim como eu, herdou as tarefas que ninguém disputava. Cabia-lhe entregar peças para oficinas e, quando faltava algo, sair à caça em outras concessionárias. Sem saber, Delfim inaugurava, em versão pedalada, o embrião da peste moderna conhecida como motoboy.

Numa de suas primeiras empreitadas, recebeu ordem expressa: buscar uma determinada peça na agência Ford. Lá foi ele, montado na bicicleta da firma, com a coragem dos iniciantes e a inocência dos que ainda acreditam que tudo se resolve com boa vontade.

Chegando ao balcão, explicou — ou tentou explicar — o que viera buscar. O balconista, depois de alguns minutos de tradução simultânea do “delfinês” para o português técnico, concluiu que seria mais prudente falar diretamente remember the chefe. Indicou o telefone e sugeriu:

— Liga pro teu patrão e pede mais detalhes.

E saiu para atender outros clientes, deixando Delfim a sós com o aparelho.

O telefone, convém lembrar, era daqueles pretos, pesados, jurássicos, com disco e tudo. Um objeto tão familiar quanto um fóssil para quem acabara de trocar o interior pela cidade. Nem toda casa tinha telefone, e quando tinha, ele ficava lá, imóvel, respeitado como se fosse um parente importante.

Delfim ficou parado, encarando o monstro. Não ousava tocá-lo. O balconista, ao voltar e perceber que nada havia acontecido, compreendeu o drama e orientou com simplicidade: — Levanta o aparelho.

Delfim obedeceu. Mas obedeceu demais. Agarrou o telefone inteiro — base, fio e tudo — e ergueu o conjunto com cuidado, como quem resgata um bezerro recém-nascido.

Nesse instante, o balconista entendeu tudo: a origem, o espanto, a falta de intimidade com a modernidade. Calmamente, tomou a iniciativa, fez a ligação e falou diretamente com Rubens, o chefe do Delfim, resolvendo a questão em poucos minutos.

Delfim saiu dali com a peça certa, uma nova experiência no currículo e a certeza silenciosa de que, na cidade grande, até os telefones exigiam manual de instruções.

Vivendo e aprendendo — às vezes, começando pelo jeito certo de atender um telefone.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O DIA EM QUE O TANQUE VIROU MURALHA

O futebol se despede nesta semana de uma de suas figuras mais carismáticas e folclóricas. Aos noventa e sete anos, partiu Juarez, o eterno "Tanque". Nascido em Blumenau, Santa Catarina, ele fez história no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense na década de 50 como um autêntico centroavante rompedor — daqueles que levavam a defesa adversária arrastada e não pediam licença para estufar as redes. Porém, entre tantos gols, uma das páginas mais curiosas de sua biografia não foi escrita na grande área adversária, mas sim debaixo das próprias traves.

A história aconteceu em uma tarde de futebol raiz na Serra Gaúcha. O Grêmio enfrentava o Juventude em Caxias do Sul, vencia a partida e tentava segurar a pressão dos donos da casa. Sob a meta tricolor, encontrava-se Germinaro, um goleiro argentino que, fazendo jus à fama da época, era dono de um temperamento vulcânico.

Naqueles tempos, a arquitetura dos estádios deixava a torcida a pouquíssimos metros da goleira, quase respirando o mesmo ar dos jogadores. Cansado de ouvir as incessantes ofensas que lhe eram dirigidas pelos caxienses, Germinaro perdeu as estribeiras. Em dado momento, o argentino abandonou sua posição e investiu furiosamente contra os torcedores, quase derrubando o alambrado na força do ódio. Diante da confusão generalizada, o juiz não teve outra alternativa senão expulsar o esquentado arqueiro gremista.

O grande problema é que as regras do jogo eram outras, muito mais cruéis do que as atuais, e o limite de substituições já havia sido alcançado. Sem poder colocar um goleiro reserva em campo, a única solução era improvisar e levar o jogo até o apito final. Foi então que Juarez, o Tanque, tirou a sua farda de artilheiro, vestiu uma camisa de goleiro e marchou rumo ao travessão.

Sem a menor intimidade com a nova posição e com as luvas, o "TANQUE" tentou fazer o básico. Mas, ao tentar repor a bola em jogo, acabou sofrendo um forte encontrão de um atacante adversário e foi ao chão. Foi a deixa perfeita para a malandragem do futebol entrar em ação.

O massagista gremista invadiu o campo em disparada, aplicando generosas e demoradas doses do seu "líquido milagroso" — o bom e velho éter — na perna do atacante-goleiro. Aqueles minutos preciosos de cera técnica foram saboreados com gosto pelos visitantes para esfriar a partida e garantir o resultado, enquanto a torcida local, debruçada no alambrado e fervendo de indignação, reclamava aos berros com o bordão bem conhecido:

—  "Cera! Cera! Cera!").

Foi-se o Tanque, mas ficaram as histórias de um futebol romântico que não volta mais. 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

GANCHO E TONINHO: O REENCONTRO

Nos tempos heróicos da preparação para o vestibular — quando café substituía sangue e apostilas viravam travesseiro — nasceu uma forte amizade entre o Gancho e o Toninho.

Eram inseparáveis. Sentavam lado a lado, estudavam lado a lado, colavam (ops, consultavam mentalmente) lado a lado. Ambos eram “aprontadores”. 

O apelido “Gancho” não vinha de nenhuma vida pregressa na pirataria — embora o queixo proeminente lhe desse certo ar de capitão do Caribe. Diziam que, se ele pensasse muito, o queixo apontava para o norte magnético. Já Toninho era simplesmente Toninho para diferenciar de outro Antônio da turma, menos carismático e infinitamente menos dramático.

O tempo passou, os diplomas chegaram e a vida adulta os sequestrou para direções opostas. Gancho mergulhou de cabeça (e queixo) na administração financeira de uma empresa lá no norte do país. Planilhas tremiam diante dele. Números se alinhavam por respeito.

Toninho, por sua vez, foi para o sistema bancário. Tornou-se gerente — daqueles de sala própria, mesa imponente e expressão concentrada que faz qualquer cliente pensar duas vezes antes de pedir desconto na taxa.

Anos depois, em uma viagem pelo sul, Gancho decidiu rever o velho amigo, que então gerenciava um banco em Joinville. Chegou animado, nostálgico e, como sempre, com espírito de porco.

Aproximou-se da sala do gerente. A porta estava entreaberta. Lá dentro, Toninho, de cabeça baixa, concentradíssimo em relatórios, não percebeu a aproximação silenciosa.

Gancho, tomado por aquele velho impulso estudantil de provocar o colega antes da prova, decidiu repetir os velhos tempos. Pegou o molho de chaves e — clac! — arremessou-o sobre a mesa com precisão cirúrgica.

Toninho levantou a cabeça.

Reconheceu o queixo antes mesmo do rosto.

Mas, num reflexo teatral digno de novela das oito, levantou-se e bradou em alto e bom som:

— Guardas! Guardas!

Em segundos, dois brutamontes encarregados da segurança surgiram como se estivessem esperando apenas o sinal dramático. Mãos firmes seguraram Gancho pelos braços.

E ali, pela primeira vez na história, o queixo do capitão pirata empalideceu.

Gancho amarelou. Literalmente. Se fosse possível medir a pressão arterial pelo formato do queixo, os aparelhos teriam apitado.

Foi então que Toninho não aguentou.

Caiu na gargalhada.

Riu com gosto, com eco, com juros compostos de felicidade acumulada. Mandou os guardas soltarem o “perigoso invasor”, que agora recuperava a dignidade junto com a circulação sanguínea.

— Você continua o mesmo, seu aprontador! — disse Toninho, ainda enxugando lágrimas.

— E você continua dramático! — respondeu Gancho, ajeitando o paletó e conferindo se as chaves estavam todas ali.

Abraçaram-se como nos velhos tempos de vestibular, quando o maior risco da vida era errar a alternativa “C”. Sentaram-se, colocaram as histórias em dia, compararam planilhas, clientes, juros e cabelos brancos.

E ali, naquela sala de gerente, ficou provado que o tempo pode mudar cidades, cargos e até o CEP dos amigos — mas não altera a essência de dois bons aprontadores.

Principalmente quando um deles ainda acha uma excelente ideia jogar um molho de chaves para “dar um susto”. (Com revisão da IA)

quarta-feira, 25 de março de 2026

GLAUBER OU FELLINI?

Percorremos as diversas dependências do Castello Sforzesco, em Milão. Estava no programa que próximo ponto a visitar era a majestosa catedral da cidade.  

Na saída, enquanto aguardávamos a chegada de todos os companheiros de viagem, fui fazendo alguns registros fotográficos com uma filmadora Sony, que também fotografa. 

Caminhando em direção a um chafariz, cruzei com dois jovens casais. Passaram por mim com aquele ar típico de quem já visitou três países em cinco dias e agora se sente autoridade em estética renascentista. Seguiram adiante. E eu segui filmando.

Mas não segui ileso.

Logo após cruzarem por mim, ecoou uma voz em tom de deboche, suficientemente alta para cumprir sua missão:

— Aí vai mais um Fellini.

O comentário, claro, referia-se ao lendário Federico Fellini — talvez pela minha concentração artística, talvez pelo simples fato de eu estar parado olhando para um castelo com seriedade suspeita.

Detalhe: eram brasileiros.

Continuei a gravação com a dignidade de quem já foi comparado a um gênio do cinema europeu (ainda que em tom de chacota). Finalizei a cena. Respirei. Ajustei o enquadramento da alma.

E então, projetando a voz com precisão diplomática, declarei:

— Melhor seria o Glauber Rocha!

Referia-me, evidentemente, ao nosso incendiário Glauber Rocha — porque se é para ser cineasta imaginário, que seja com tropicalismo, câmera na mão e uma ideia na cabeça.

O silêncio que se seguiu foi digno de plano-sequência. Imagino que naquele instante os jovens casais tenham experimentado uma súbita epifania geopolítica: o mundo é grande, mas o idioma português tem surpreendente alcance internacional.

Talvez tenham aprendido que, onde quer que você esteja — em Milão, em Marte ou na fila do pão — sempre existe a possibilidade concreta de encontrar brasileiros, ou alguém que compreenda perfeitamente o que você diz.

E, quem sabe, responda com um upgrade cinematográfico. (apoiado com IA)

quarta-feira, 11 de março de 2026

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

O fim de um namoro tem as mais diversas causas. Umas trágicas, outras engraçadas. Outras ainda decorrem de mal entendidos. E há os que nem chegaram a iniciar. Enfim, cada fim de caso é um caso. 

O Eugenio, moço de poucas palavras, encontrou uma maneira peculiar de frustrar os sonhos de namoro  da Rosinha.

É preciso dizer que o Eugenio era um rapaz disputado pelas moças da comunidade e de fora também. De boa estampa, de boa família, trabalhador e afamado pé-de-valsa. O tempo ia passando e nada de namoro, o que gerava preocupação à dona Eulália, sua mãe, para quem, a vida no interior passava pela formação de uma família.

- Não tem "percisão", dizia Eugenio à sua mãe, sempre que ela tocava no assunto.

Até que apareceu a Rosinha, faceira e faladora. Dançar com o Eugenio era um imenso prazer e vice-versa, verdade seja dita. Dizem até que quando os músicos começava a afinar os instrumentos, os dois já adentravam ao salão para os primeiros passos. 

Segundo os faladores, certa feita, antes mesmo da música, o Eugenio foi para o salão, levando a Rosinha consigo, e bradou alto e bom som:

- Gaiteiro, me "persegue". 

Mas nada de namoro.

A Rosinha, no seu projeto de conquistar o Eugenio, começou a agradar a dona Eulália, o que a tornou fiadora de um namoro à vista. 

- Geninho, meu filho, esta moça é de boa família. Você já pediu ela em namoro?

- Não tem "percisão", dizia ele, sempre econômico nas palavras.

Dos planos da Rosinha constava uma festa de aniversário para a qual pediu a ajuda da dona Eulália. Seguiram-se os preparativos e uma recomendação especial ao Eugenio para comprar um belo presente para aquela moça tão querida.

Aquilo foi minando os pensamentos do Geninho. O dia da festa se aproximava e ele não havia comprado nada para ela. Eis que surgiu uma ideia que resolveria o assunto de uma vez por todas. Passou na venda do Libório e encomendou um metro de fumo em rolo e um pacote de palhas. Pediu para preparar uma embalagem bonita e no dia da festa, Geninho não compareceu, mandou o pacote pelo seu irmão menor com a desculpa de ir cuidar da criação.

A rosinha ficou decepcionada, mas não perdeu as esperanças. Porém, quando pôs-se a abrir os pacotes e constatou a natureza do presente do Geninho, seus sonhos se desfizeram. Ela pôs-se a chorar e correu para casa. 

O falatório na vila foi grande. Alguns comentários maldosos colocaram em dúvida a masculinidade do Geninho, que continuou levando a vida ao seu estilo, até o dia que seus olhos encontraram os olhos da Jovina. Bastaram poucos meses para acontecer o casório do qual resultaram cinco filhos. E a vida continuou previsível como sempre.

quarta-feira, 4 de março de 2026

ANESTESIA REVOLUCIONÁRIA

O pós-64 não inventou todas as proibições, mas teve o cuidado de reforçar as já existentes, como os jogos de azar, especialmente os ditos carteados — que continuaram proibidos com a mesma eficiência de sempre, ou seja, nenhuma. Acrescentou, porém, outras restrições, entre elas a do consumo da famosa “branquinha”, substância reconhecidamente subversiva, capaz de derrubar governos, dentaduras e até a própria dignidade humana.

Foi nesse ambiente de sobriedade forçada que, num sábado à noite, um grupo de amigos resolveu ir a um baile na vizinha Nova Petrópolis. Entre eles estava João Carlos, doravante tratado apenas por JC, talvez por economia de letras, talvez por já prenunciar um certo espírito de agente secreto da resistência etílica.

O problema é que JC padecia de uma dor de dente monumental, dessas que fazem o sujeito reconsiderar pecados passados e promessas futuras. A ciência popular, sempre à frente da oficial, recomendava bochechos com cachaça, seguidos da ingestão do remédio, para não desperdiçar o princípio ativo. Nada para o santo, registre-se; tudo em nome da saúde bucal.

O bolicheiro, homem honesto e temente às autoridades — visíveis e invisíveis —, negava o fornecimento do precioso medicamento. Mas a dor de dente é argumento forte, quase irrefutável, e talvez o próprio bolicheiro tivesse conhecimento empírico dos efeitos terapêuticos da marvada. Cedeu. Uma vez. Depois outra. E mais uma, sempre em nome da medicina caseira.

Com o avançar dos bochechos terapêuticos, o bolicheiro começou a desconfiar. Ou JC tinha o dente mais resistente do Rio Grande, ou a dosagem eficaz ainda não fora atingida. Talvez o homem conhecesse exatamente a medida correta do remédio; talvez apenas temesse a presença de algum dedo-duro, infiltrado entre uma polca e um vanerão.

Negado o novo fornecimento, JC, já com a dor devidamente instalada — segundo ele, agora ainda maior —, indignou-se. Pensou um pouco, como fazem os grandes estrategistas, e lançou a pergunta fatal:

— Conhaque é proibido?

Diante da resposta negativa do bolicheiro, JC resolveu definitivamente seu problema pelo resto da noite. O dente, reza a tradição oral, nunca mais foi assunto. Já a ressaca, essa sim, apareceu no dia seguinte, mas como não constava na lista de proibições, foi devidamente tolerada.

E assim, em tempos de tantas restrições, a criatividade popular mostrou mais uma vez que, quando falta a branquinha, sempre há um conhaque disposto a salvar a pátria — ou pelo menos um dente inflamado.