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quarta-feira, 24 de junho de 2026

CHUVA, BARRO E FRIO

1961 foi o ano em que o Cristóvão de Mendoza passou a funcionar no novo prédio. As aulas eram distribuídas em três turnos: dois vespertinos e um noturno. Fiquei no primeiro turno vespertino, cujas aulas iniciavam por volta do meio-dia e findavam às quatro da tarde. O deslocamento podia ser feito por transporte coletivo, mas, nos dias quentes de verão, eu e outros colegas preferíamos ir e voltar caminhando. Em dias de chuva, seguíamos de ônibus.

Segundo recordo, a Avenida Júlio de Castilhos era pavimentada apenas até o Parque Cinquentenário. O viaduto ainda não existia; o aterro formava um paredão que represava as águas, formando um pequeno lago;  e as águas da chuva desciam com força — era a natureza agindo. Contudo, por motivos que não recordo, no inverno daquele ano ocorreu uma greve no transporte coletivo. Ficamos sem opção: era caminhar ou caminhar. O barro que se acumulava no trecho não pavimentado da Júlio era infernal. Por vezes, era preferível passar defronte ao atual Estádio Centenário, o que tornava mais longa a caminhada. Ao menos, pelo trecho alternativo, as ruas se apresentavam menos enlameadas. De qualquer maneira, calçado nenhum ficava imune aos avanços da umidade. Tudo era aprendizado...

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O BEIJO PEDAGÓGICO

Na Schützenfest de Jaraguá do Sul, aquela prima germânica da Oktoberfest de Blumenau, tudo parecia seguir o roteiro conhecido: música alta, calor respeitável, trajes típicos disputando espaço com sorrisos avermelhados pelo chope, e o salão principal ladeado de camarotes no alto, como uma galeria onde se via e se era visto. Um grupo de amigos, fiéis à tradição e ao contrato, alugava sempre o mesmo camarote por todo o período da festa. Tinha acesso confortável, banheiro por perto e um corredor externo providencial para esfriar a cabeça, aliviar os ouvidos e, com sorte, recuperar a noção de tempo.

O inconveniente vinha disfarçado de tentação: a cisterna etílica — leia-se barril de chope — ficava colada à porta do camarote. Bastava um descuido e lá vinham eles, os menudos de copo vazio e olhar treinado, que fingiam admirar a arquitetura enquanto, sub-repticiamente, “furavam” o chope alheio. Foi aí que o Airton entrou em cena. Alto, forte, campeão de judô, trajado como mandava o figurino. Postava-se à porta com a serenidade de um monge e a prontidão de um segurança. Ao flagrar o furador em ação, não gritava nem reclamava: abraçava. E beijava. Beijava com entusiasmo, na face do incauto, usando lábios estrategicamente umedecidos por algum tempero generoso dos comes da noite — mostarda, talvez, ou algo com alho suficiente para marcar memória.

A cena virou atração paralela. Os locatários e familiares aguardavam o próximo “cliente” como quem espera o refrão da música. O corredor, antes rota de fuga térmica, transformou-se em palco. Em pouco tempo, a fama correu mais rápido que o chope: quem se aventurava a furar barril saía com lembrança afetiva demais para contar aos amigos. Resultado? Os neo-bebuns foram rareando, o chope passou a durar mais e o Airton ganhou um título honorário que ninguém ousou contestar: guardião do barril e distribuidor oficial de beijos pedagógicos. Na Schützenfest, afinal, aprende-se que toda festa tem regras — e algumas lições vêm com tempero.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O CASO DA LINHA SUL BRASIL

O Caso de Linha Sul Brasil

A Linha Sul Brasil pertencia ao município de Modelo que, por sua vez, integrava a Comarca de Pinhalzinho. Dizia-se que, por aquelas bandas, a autoridade policial não se fazia presente. Aos domingos, a rua principal do vilarejo transformava-se em uma autêntica "cancha reta" — espaço destinado a corridas de cavalo, disputadas sempre entre dois concorrentes.

Outra lenda local envolvia as partidas de bocha: comentava-se que, após a bola parar, o jogador podia sacar seu revólver (sempre um calibre .38) e atirar nela para empurrá-la ainda mais para perto do bochim, garantindo a pontuação.

O poder na região era disputado por duas famílias tradicionais. Dessa rivalidade, entre vários outros conflitos, resultou um processo por tentativa de homicídio. O réu era um sujeito conhecido como Pedro que, conhecedor das leis da fronteira, havia se mandado para os lados do Paraguai.
O Incidente na Rodoviária

Constava no inquérito que Pedro, ao chegar ao local onde hoje funciona a rodoviária, avistou um desafeto da família adversária. Pedro estava do lado de fora da lanchonete e a vítima, do lado de dentro. Ao notar que o rival esboçara um movimento interpretado como o de sacar uma arma, Pedro antecipou-se: puxou a sua e disparou duas vezes.

A vítima foi atingida por dois projéteis. Curiosamente, o vidro da lanchonete que separava os dois apresentava apenas um único furo. Diante do fato inusitado, o povo da cidade justificava a façanha dizendo que aquilo só fora possível graças à mira milimétrica que Pedro adquirira nos treinos de bocha.
O Interrogatório

Mesmo estando, por assim dizer, foragido, Pedro compareceu espontaneamente para o interrogatório. Era um homem alto, magro, de cabelos loiros que puxavam para o ruivo. O vasto bigode seguia o mesmo tom.

Após a qualificação feita pelo escrivão, comecei com as perguntas de praxe antes de entrar no mérito do crime. Eu tinha o hábito de conversar amistosamente com réus e testemunhas; no interior, o simples fato de prestar declarações em juízo costuma deixar as pessoas mais simples extremamente nervosas.

Assim, antes mesmo de indagar o réu sobre os disparos, fiz uma provocação informal:

— Seu Pedro, dizem que lá na Sul Brasil todo mundo anda ferrado. É verdade? — perguntei, usando a gíria local para "armado".

— E não ande pra ver! — respondeu ele, com uma ponta de indignação.

Embora minha cadeira fosse um pouco mais alta, inclinei-me para a frente, fixei o olhar deliberadamente na cintura do réu e voltei à carga:

— E cadê o berro?

— Pois não é que me tomaram?! — exclamou, ainda mais indignado.

— Mas nem mesmo um daqueles "paraguaios"? — insinuei, sugerindo que ele pudesse ter trazido algo de sua temporada no país vizinho.

Nesse exato momento, o réu jogou o corpo para trás na cadeira, virou-se na direção de seu advogado e, com os dedos polegar e indicador da mão direita, alisou o imenso bigode. Meneou a cabeça e, apontando para mim discretamente com os olhos, comentou com o defensor:

— ... Tá querendo me pegá...

quarta-feira, 27 de maio de 2026

QUE CIDADE GRANDE!

Fui titular da Comarca de Guaramirim por aproximadamente dois (2) anos. Guaramirim, seguindo o modelo das cidades de colonização alemã, nasceu e cresceu às margens do Rio Itapocú e da estrada geral que levava à Joinville. 

Assim concebida, a cidade não se concentrava ao redor da igreja, da praça e da prefeitura, como é a regra dos pequenos povoados. 

A rigor, não existe praça, a igreja fica num lado da cidade e a prefeitura, naquela época, ficava na posição que pode-se considerar como sendo o centro da cidade. Associado a isto há o fato de a cidade estar localizada num vale, onde praticamente não existem (ou não existiam) edificações nos montes próximos. 

Em tais condições, não era possível visualizar a cidade como um todo, retirando do observador a possibilidade de mensurar o tamanho do lugar. 

Em 1985 fui promovido para a Comarca de Xaxim, no oeste do Estado. Tomadas as providências de praxe e despachada a nossa mudança, pusemo-nos na estrada para o longo trajeto. 

A cidade de Xaxim estava toda edificada à esquerda da BR282, no sentido litoral-interior, e mesmo assim, ela não pode ser visualizada de longe, tudo por conta de o aglomerado estar encoberto por uma pequena elevação, contornada pela estrada, e ainda por estar abaixo do nível da rodovia. Visão da cidade, mesmo, só após contornar a montanha. Assim, de um momento para outro, a paisagem se transforma radicalmente e do alto é possível visualizar a cidade. 

Ao contrário de Guaramirim, tínhamos diante dos olhos uma cidade planejada, ruas pavimentadas e em linha reta, quarteirões regulares, enfim, via-se que ali existiu um projeto urbanístico. 

Na medida em que nos aproximávamos do nosso destino, eu ia falando para os meninos, a fim de criar neles a expectativa. Chegando ao ponto em que era possível ver a cidade, avisei:

- Chegamos! Todos olharam curiosos para o nosso novo destino e o Miguel, que já tinha incubado o vírus da arquitetura e urbanismo, comentou mais do que depressa:

- Que cidade grande!

quarta-feira, 13 de maio de 2026

AS CHAVES DO AUTOMÓVEL

Era para ser apenas mais uma viagem de trabalho a São Leopoldo (RS). Reunião marcada, horário contado, discurso mentalmente ensaiado. Tudo dentro do roteiro — até o motorista resolver improvisar.

Estacionou o carro, desceu com a habitual confiança de quem já repetiu aquele gesto mil vezes, apertou o botão do alarme e… clic. Silêncio. Meio segundo depois, o estalo da consciência: as chaves estavam sorrindo, tranquilas e solitárias, na ignição.

Do lado de fora.

Com o carro trancado.

A cena ganhou contornos de espetáculo. O motorista contornava o veículo, espiava pelos vidros, puxava a maçaneta como quem testa a sorte na loteria. Tentou abrir uma fresta com os dedos, depois com um pedaço de papelão encontrado não se sabe onde. Nada. O automóvel, firme em sua integridade moral, recusava qualquer negociação.

Foi então que surgiu ele.

Um desconhecido de andar calmo, olhar experiente e uma serenidade suspeita. Aproximou-se com a naturalidade de quem já viu aquele filme antes.

— Se pagar uma cerveja, eu tiro a chave sem nenhum dano.

A proposta era inusitada, mas justa. Entre esperar um chaveiro oficial, comprometer a agenda e talvez ouvir uma longa palestra sobre distração, uma cerveja parecia investimento estratégico.

— Fechado.

O estranho arregaçou as mangas invisíveis da perícia. Não tinha capa, mas naquele momento era um herói urbano. Pegou uma pequena haste metálica — que surgiu do nada, como truque de mágico — e começou a trabalhar com precisão cirúrgica.

Aos poucos, formou-se uma plateia. Como toda boa intervenção pública, atraía curiosos. Pessoas interromperam seus caminhos para assistir ao que já estava sendo tratado como um evento cultural da calçada. Comentários sussurrados, palpites técnicos infundados e aquele silêncio respeitoso que antecede o clímax.

E então — clac! — a porta cedeu.

O estranho abriu com elegância, alcançou a ignição e, num gesto teatral, entregou as chaves ao proprietário. A plateia quase aplaudiu. Faltou apenas trilha sonora.

Foi quando um gaiato, desses que surgem para dar o arremate final, perguntou em voz alta:

— Você faz isso por profissão?

O silêncio que se seguiu foi mais profundo que o anterior. O herói improvisado respirou fundo. Olhou para o motorista, depois para a pequena multidão, e disse com um meio sorriso cansado:

— É por isso que eu não interfiro na dificuldade dos outros.

Pegou o rumo da esquina, deixando atrás de si um misto de gratidão, constrangimento e reflexão.

O motorista entrou no carro, agora devidamente abastecido de chaves — e de humildade. Quanto à cerveja, foi paga com gosto. Afinal, certas lições saem baratas.

E desde então, toda vez que tranca o carro, ele confere duas vezes. Não por medo de errar de novo — mas porque heróis anônimos nem sempre aceitam pagamento em lúpulo.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

ADOÇANTE E COLÍRIO

Meu dileto amigo João Alberto sempre foi um exemplo de método, disciplina e autocontrole — desses que fariam um relógio suíço pedir dicas. Comedido nas refeições, zeloso com a saúde e atento à forma física, era um modelo de equilíbrio. Se há quem beba socialmente, João Alberto fumava socialmente: acendia um cigarro sem compromisso, sem vício, apenas quando a inspiração — ou a telha — mandava.

Gostava de cachimbo, mas não tanto pelo fumo em si; o que realmente o encantava era o ritual: escolher o tabaco, acomodá-lo, acender com solenidade, como se estivesse celebrando uma cerimônia diplomática. Também apreciava um bom cafezinho e, no fórum, por expressa recomendação sua, o café jamais era adocicado. Algumas gotas de adoçante bastavam para satisfazer seu rigor científico com o paladar.

De vez em quando pingava colírio nos olhos. Segundo me recordo, havia passado por alguma cirurgia corretiva — dessas que a gente nunca sabe exatamente o quê, mas que exigem cuidados permanentes e justificam frascos misteriosos sobre a mesa.

Nossas salas eram contíguas, ligadas por uma porta. Na hora do café, fazíamos a pausa regulamentar: ora ele vinha à minha sala, ora eu ia à dele. Em uma dessas ocasiões, enquanto ele pingava o adoçante no café, notei que o frasco de colírio repousava perigosamente próximo da xícara. Não resisti à tentação:

— Não vá confundir adoçante com colírio!

O tempo passou. Numa segunda-feira — ele costumava passar os fins de semana em Chapecó —, João Alberto chegou ao fórum com certo atraso, o que não era de seu feitio. Mais estranho ainda: mesmo dentro do prédio, não tirava os óculos escuros. Antes que eu abrisse a boca, ele se adiantou:

— Irineu, tu és um bocudo!

Sem entender, fiquei em silêncio. Ele prosseguiu:

— Ontem, em vez de pingar colírio nos olhos, por tua influência, pinguei adoçante. A reação foi uma tremenda ardência! Parecia que eu tinha chorado cebola em pó.

Tentei me desculpar, mas ele logo me tranquilizou, com aquela serenidade de quem assume a própria tragédia doméstica:

— A culpa é minha. Quem mandou ouvir palpites de terceiros?

Desde então, toda vez que vejo um frasco sobre a mesa, desconfio: em certos casos, o perigo não está no veneno — está na sugestão.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O GOLPE DO BAR

Defronte à antiga Faculdade de Direito, lá nos altos da agência Ford, em Caxias do Sul, funcionava um bar minúsculo, desses que cabem mais histórias do que fregueses. Foi ali que o Mário e eu chegamos num final de tarde qualquer, com aquela pressa calma de quem só quer um cafezinho para manter o estudante acordado, eis que que as aulas ocorriam à noite.

Encostados ao balcão, de pé, saboreávamos o café quando surgiu a figura: um jovem que eu conhecia apenas de vista, presença frequente na praça central. Era desses que não caminhavam, circulavam; não conversavam, garimpavam. Especialista em encontrar incautos e lapidar histórias conforme o brilho do possível lucro. Um aprendiz de estelionatário, digamos assim, ainda em fase de estágio supervisionado pela própria esperteza.

Eu sabia bem de seus truques. Trabalhara perto da antiga agência do Banco do Brasil, território profissional do rapaz, onde ele exercitava sua arte com a constância de um funcionário público — só que sem crachá.

No bar, ele se aproximou do Mário e, com grande teatralidade, esfregou o polegar no indicador: o gesto universal do “dinheiro”. Em seguida, passou a gesticular como quem dizia ser surdo e mudo, compondo um personagem digno de um cinema mudo de quinta categoria. Estrategicamente, posicionei-me às suas costas, pronto para qualquer sinal de alerta, como um anjo da guarda especializado em golpes de baixo orçamento.

Enquanto o estranho diálogo gestual avançava, enfiei a mão no bolso e encontrei uma moeda. Soltei-a no chão, casualmente. O tilintar metálico ecoou no bar como um sino de igreja. Milagre imediato: o pseudo surdo virou-se num átimo. O mudo, então, recuperou a audição e a orientação espacial. Ao iniciar o movimento para apanhar a moeda, fui mais rápido: pisei firme sobre a mesma, selando o milagre inverso.

O Mário, que já havia entendido a cena, caiu na gargalhada, café quase saindo pelo nariz. O jovem, percebendo que sua encenação fora desmascarada por uma simples moeda de troco e um pé bem colocado, desistiu da apresentação. Escapuliu do bar com a dignidade possível, provavelmente em busca de plateias menos críticas e bolsos mais distraídos.

Ficamos nós ali, com o café já frio e a certeza reconfortante de que, às vezes, um pouco de atenção e uma moeda no chão bastam para encerrar um espetáculo inteiro.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

O OFFICE BOY

Por volta de 1962, eu era uma dessas criaturas úteis e ligeiras chamadas office boy. Trabalhava numa empresa do ramo metalúrgico, lotado no escritório, e, como mandava a hierarquia natural das coisas, por ser o mais novo — na idade e no emprego — sobravam-me as missões nobres: levar papéis, buscar café, pagar contas e conhecer a cidade a pé antes de qualquer outro meio de transporte.

Alguns meses depois, chegou um novo colega - Delfim era o seu nome. Interiorano recém-desembarcado na cidade grande, foi alocado na loja de autopeças da mesma empresa. Assim como eu, herdou as tarefas que ninguém disputava. Cabia-lhe entregar peças para oficinas e, quando faltava algo, sair à caça em outras concessionárias. Sem saber, Delfim inaugurava, em versão pedalada, o embrião da peste moderna conhecida como motoboy.

Numa de suas primeiras empreitadas, recebeu ordem expressa: buscar uma determinada peça na agência Ford. Lá foi ele, montado na bicicleta da firma, com a coragem dos iniciantes e a inocência dos que ainda acreditam que tudo se resolve com boa vontade.

Chegando ao balcão, explicou — ou tentou explicar — o que viera buscar. O balconista, depois de alguns minutos de tradução simultânea do “delfinês” para o português técnico, concluiu que seria mais prudente falar diretamente remember the chefe. Indicou o telefone e sugeriu:

— Liga pro teu patrão e pede mais detalhes.

E saiu para atender outros clientes, deixando Delfim a sós com o aparelho.

O telefone, convém lembrar, era daqueles pretos, pesados, jurássicos, com disco e tudo. Um objeto tão familiar quanto um fóssil para quem acabara de trocar o interior pela cidade. Nem toda casa tinha telefone, e quando tinha, ele ficava lá, imóvel, respeitado como se fosse um parente importante.

Delfim ficou parado, encarando o monstro. Não ousava tocá-lo. O balconista, ao voltar e perceber que nada havia acontecido, compreendeu o drama e orientou com simplicidade: — Levanta o aparelho.

Delfim obedeceu. Mas obedeceu demais. Agarrou o telefone inteiro — base, fio e tudo — e ergueu o conjunto com cuidado, como quem resgata um bezerro recém-nascido.

Nesse instante, o balconista entendeu tudo: a origem, o espanto, a falta de intimidade com a modernidade. Calmamente, tomou a iniciativa, fez a ligação e falou diretamente com Rubens, o chefe do Delfim, resolvendo a questão em poucos minutos.

Delfim saiu dali com a peça certa, uma nova experiência no currículo e a certeza silenciosa de que, na cidade grande, até os telefones exigiam manual de instruções.

Vivendo e aprendendo — às vezes, começando pelo jeito certo de atender um telefone.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O DIA EM QUE O TANQUE VIROU MURALHA

O futebol se despede nesta semana de uma de suas figuras mais carismáticas e folclóricas. Aos noventa e sete anos, partiu Juarez, o eterno "Tanque". Nascido em Blumenau, Santa Catarina, ele fez história no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense na década de 50 como um autêntico centroavante rompedor — daqueles que levavam a defesa adversária arrastada e não pediam licença para estufar as redes. Porém, entre tantos gols, uma das páginas mais curiosas de sua biografia não foi escrita na grande área adversária, mas sim debaixo das próprias traves.

A história aconteceu em uma tarde de futebol raiz na Serra Gaúcha. O Grêmio enfrentava o Juventude em Caxias do Sul, vencia a partida e tentava segurar a pressão dos donos da casa. Sob a meta tricolor, encontrava-se Germinaro, um goleiro argentino que, fazendo jus à fama da época, era dono de um temperamento vulcânico.

Naqueles tempos, a arquitetura dos estádios deixava a torcida a pouquíssimos metros da goleira, quase respirando o mesmo ar dos jogadores. Cansado de ouvir as incessantes ofensas que lhe eram dirigidas pelos caxienses, Germinaro perdeu as estribeiras. Em dado momento, o argentino abandonou sua posição e investiu furiosamente contra os torcedores, quase derrubando o alambrado na força do ódio. Diante da confusão generalizada, o juiz não teve outra alternativa senão expulsar o esquentado arqueiro gremista.

O grande problema é que as regras do jogo eram outras, muito mais cruéis do que as atuais, e o limite de substituições já havia sido alcançado. Sem poder colocar um goleiro reserva em campo, a única solução era improvisar e levar o jogo até o apito final. Foi então que Juarez, o Tanque, tirou a sua farda de artilheiro, vestiu uma camisa de goleiro e marchou rumo ao travessão.

Sem a menor intimidade com a nova posição e com as luvas, o "TANQUE" tentou fazer o básico. Mas, ao tentar repor a bola em jogo, acabou sofrendo um forte encontrão de um atacante adversário e foi ao chão. Foi a deixa perfeita para a malandragem do futebol entrar em ação.

O massagista gremista invadiu o campo em disparada, aplicando generosas e demoradas doses do seu "líquido milagroso" — o bom e velho éter — na perna do atacante-goleiro. Aqueles minutos preciosos de cera técnica foram saboreados com gosto pelos visitantes para esfriar a partida e garantir o resultado, enquanto a torcida local, debruçada no alambrado e fervendo de indignação, reclamava aos berros com o bordão bem conhecido:

—  "Cera! Cera! Cera!").

Foi-se o Tanque, mas ficaram as histórias de um futebol romântico que não volta mais. 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

GANCHO E TONINHO: O REENCONTRO

Nos tempos heróicos da preparação para o vestibular — quando café substituía sangue e apostilas viravam travesseiro — nasceu uma forte amizade entre o Gancho e o Toninho.

Eram inseparáveis. Sentavam lado a lado, estudavam lado a lado, colavam (ops, consultavam mentalmente) lado a lado. Ambos eram “aprontadores”. 

O apelido “Gancho” não vinha de nenhuma vida pregressa na pirataria — embora o queixo proeminente lhe desse certo ar de capitão do Caribe. Diziam que, se ele pensasse muito, o queixo apontava para o norte magnético. Já Toninho era simplesmente Toninho para diferenciar de outro Antônio da turma, menos carismático e infinitamente menos dramático.

O tempo passou, os diplomas chegaram e a vida adulta os sequestrou para direções opostas. Gancho mergulhou de cabeça (e queixo) na administração financeira de uma empresa lá no norte do país. Planilhas tremiam diante dele. Números se alinhavam por respeito.

Toninho, por sua vez, foi para o sistema bancário. Tornou-se gerente — daqueles de sala própria, mesa imponente e expressão concentrada que faz qualquer cliente pensar duas vezes antes de pedir desconto na taxa.

Anos depois, em uma viagem pelo sul, Gancho decidiu rever o velho amigo, que então gerenciava um banco em Joinville. Chegou animado, nostálgico e, como sempre, com espírito de porco.

Aproximou-se da sala do gerente. A porta estava entreaberta. Lá dentro, Toninho, de cabeça baixa, concentradíssimo em relatórios, não percebeu a aproximação silenciosa.

Gancho, tomado por aquele velho impulso estudantil de provocar o colega antes da prova, decidiu repetir os velhos tempos. Pegou o molho de chaves e — clac! — arremessou-o sobre a mesa com precisão cirúrgica.

Toninho levantou a cabeça.

Reconheceu o queixo antes mesmo do rosto.

Mas, num reflexo teatral digno de novela das oito, levantou-se e bradou em alto e bom som:

— Guardas! Guardas!

Em segundos, dois brutamontes encarregados da segurança surgiram como se estivessem esperando apenas o sinal dramático. Mãos firmes seguraram Gancho pelos braços.

E ali, pela primeira vez na história, o queixo do capitão pirata empalideceu.

Gancho amarelou. Literalmente. Se fosse possível medir a pressão arterial pelo formato do queixo, os aparelhos teriam apitado.

Foi então que Toninho não aguentou.

Caiu na gargalhada.

Riu com gosto, com eco, com juros compostos de felicidade acumulada. Mandou os guardas soltarem o “perigoso invasor”, que agora recuperava a dignidade junto com a circulação sanguínea.

— Você continua o mesmo, seu aprontador! — disse Toninho, ainda enxugando lágrimas.

— E você continua dramático! — respondeu Gancho, ajeitando o paletó e conferindo se as chaves estavam todas ali.

Abraçaram-se como nos velhos tempos de vestibular, quando o maior risco da vida era errar a alternativa “C”. Sentaram-se, colocaram as histórias em dia, compararam planilhas, clientes, juros e cabelos brancos.

E ali, naquela sala de gerente, ficou provado que o tempo pode mudar cidades, cargos e até o CEP dos amigos — mas não altera a essência de dois bons aprontadores.

Principalmente quando um deles ainda acha uma excelente ideia jogar um molho de chaves para “dar um susto”. (Com revisão da IA)

quarta-feira, 25 de março de 2026

GLAUBER OU FELLINI?

Percorremos as diversas dependências do Castello Sforzesco, em Milão. Estava no programa que próximo ponto a visitar era a majestosa catedral da cidade.  

Na saída, enquanto aguardávamos a chegada de todos os companheiros de viagem, fui fazendo alguns registros fotográficos com uma filmadora Sony, que também fotografa. 

Caminhando em direção a um chafariz, cruzei com dois jovens casais. Passaram por mim com aquele ar típico de quem já visitou três países em cinco dias e agora se sente autoridade em estética renascentista. Seguiram adiante. E eu segui filmando.

Mas não segui ileso.

Logo após cruzarem por mim, ecoou uma voz em tom de deboche, suficientemente alta para cumprir sua missão:

— Aí vai mais um Fellini.

O comentário, claro, referia-se ao lendário Federico Fellini — talvez pela minha concentração artística, talvez pelo simples fato de eu estar parado olhando para um castelo com seriedade suspeita.

Detalhe: eram brasileiros.

Continuei a gravação com a dignidade de quem já foi comparado a um gênio do cinema europeu (ainda que em tom de chacota). Finalizei a cena. Respirei. Ajustei o enquadramento da alma.

E então, projetando a voz com precisão diplomática, declarei:

— Melhor seria o Glauber Rocha!

Referia-me, evidentemente, ao nosso incendiário Glauber Rocha — porque se é para ser cineasta imaginário, que seja com tropicalismo, câmera na mão e uma ideia na cabeça.

O silêncio que se seguiu foi digno de plano-sequência. Imagino que naquele instante os jovens casais tenham experimentado uma súbita epifania geopolítica: o mundo é grande, mas o idioma português tem surpreendente alcance internacional.

Talvez tenham aprendido que, onde quer que você esteja — em Milão, em Marte ou na fila do pão — sempre existe a possibilidade concreta de encontrar brasileiros, ou alguém que compreenda perfeitamente o que você diz.

E, quem sabe, responda com um upgrade cinematográfico. (apoiado com IA)

quarta-feira, 11 de março de 2026

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO

O fim de um namoro tem as mais diversas causas. Umas trágicas, outras engraçadas. Outras ainda decorrem de mal entendidos. E há os que nem chegaram a iniciar. Enfim, cada fim de caso é um caso. 

O Eugenio, moço de poucas palavras, encontrou uma maneira peculiar de frustrar os sonhos de namoro  da Rosinha.

É preciso dizer que o Eugenio era um rapaz disputado pelas moças da comunidade e de fora também. De boa estampa, de boa família, trabalhador e afamado pé-de-valsa. O tempo ia passando e nada de namoro, o que gerava preocupação à dona Eulália, sua mãe, para quem, a vida no interior passava pela formação de uma família.

- Não tem "percisão", dizia Eugenio à sua mãe, sempre que ela tocava no assunto.

Até que apareceu a Rosinha, faceira e faladora. Dançar com o Eugenio era um imenso prazer e vice-versa, verdade seja dita. Dizem até que quando os músicos começava a afinar os instrumentos, os dois já adentravam ao salão para os primeiros passos. 

Segundo os faladores, certa feita, antes mesmo da música, o Eugenio foi para o salão, levando a Rosinha consigo, e bradou alto e bom som:

- Gaiteiro, me "persegue". 

Mas nada de namoro.

A Rosinha, no seu projeto de conquistar o Eugenio, começou a agradar a dona Eulália, o que a tornou fiadora de um namoro à vista. 

- Geninho, meu filho, esta moça é de boa família. Você já pediu ela em namoro?

- Não tem "percisão", dizia ele, sempre econômico nas palavras.

Dos planos da Rosinha constava uma festa de aniversário para a qual pediu a ajuda da dona Eulália. Seguiram-se os preparativos e uma recomendação especial ao Eugenio para comprar um belo presente para aquela moça tão querida.

Aquilo foi minando os pensamentos do Geninho. O dia da festa se aproximava e ele não havia comprado nada para ela. Eis que surgiu uma ideia que resolveria o assunto de uma vez por todas. Passou na venda do Libório e encomendou um metro de fumo em rolo e um pacote de palhas. Pediu para preparar uma embalagem bonita e no dia da festa, Geninho não compareceu, mandou o pacote pelo seu irmão menor com a desculpa de ir cuidar da criação.

A rosinha ficou decepcionada, mas não perdeu as esperanças. Porém, quando pôs-se a abrir os pacotes e constatou a natureza do presente do Geninho, seus sonhos se desfizeram. Ela pôs-se a chorar e correu para casa. 

O falatório na vila foi grande. Alguns comentários maldosos colocaram em dúvida a masculinidade do Geninho, que continuou levando a vida ao seu estilo, até o dia que seus olhos encontraram os olhos da Jovina. Bastaram poucos meses para acontecer o casório do qual resultaram cinco filhos. E a vida continuou previsível como sempre.

quarta-feira, 4 de março de 2026

ANESTESIA REVOLUCIONÁRIA

O pós-64 não inventou todas as proibições, mas teve o cuidado de reforçar as já existentes, como os jogos de azar, especialmente os ditos carteados — que continuaram proibidos com a mesma eficiência de sempre, ou seja, nenhuma. Acrescentou, porém, outras restrições, entre elas a do consumo da famosa “branquinha”, substância reconhecidamente subversiva, capaz de derrubar governos, dentaduras e até a própria dignidade humana.

Foi nesse ambiente de sobriedade forçada que, num sábado à noite, um grupo de amigos resolveu ir a um baile na vizinha Nova Petrópolis. Entre eles estava João Carlos, doravante tratado apenas por JC, talvez por economia de letras, talvez por já prenunciar um certo espírito de agente secreto da resistência etílica.

O problema é que JC padecia de uma dor de dente monumental, dessas que fazem o sujeito reconsiderar pecados passados e promessas futuras. A ciência popular, sempre à frente da oficial, recomendava bochechos com cachaça, seguidos da ingestão do remédio, para não desperdiçar o princípio ativo. Nada para o santo, registre-se; tudo em nome da saúde bucal.

O bolicheiro, homem honesto e temente às autoridades — visíveis e invisíveis —, negava o fornecimento do precioso medicamento. Mas a dor de dente é argumento forte, quase irrefutável, e talvez o próprio bolicheiro tivesse conhecimento empírico dos efeitos terapêuticos da marvada. Cedeu. Uma vez. Depois outra. E mais uma, sempre em nome da medicina caseira.

Com o avançar dos bochechos terapêuticos, o bolicheiro começou a desconfiar. Ou JC tinha o dente mais resistente do Rio Grande, ou a dosagem eficaz ainda não fora atingida. Talvez o homem conhecesse exatamente a medida correta do remédio; talvez apenas temesse a presença de algum dedo-duro, infiltrado entre uma polca e um vanerão.

Negado o novo fornecimento, JC, já com a dor devidamente instalada — segundo ele, agora ainda maior —, indignou-se. Pensou um pouco, como fazem os grandes estrategistas, e lançou a pergunta fatal:

— Conhaque é proibido?

Diante da resposta negativa do bolicheiro, JC resolveu definitivamente seu problema pelo resto da noite. O dente, reza a tradição oral, nunca mais foi assunto. Já a ressaca, essa sim, apareceu no dia seguinte, mas como não constava na lista de proibições, foi devidamente tolerada.

E assim, em tempos de tantas restrições, a criatividade popular mostrou mais uma vez que, quando falta a branquinha, sempre há um conhaque disposto a salvar a pátria — ou pelo menos um dente inflamado.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

MAIS SORTE QUE JUÍZO!

Vez por outra me deparo com relatos na rede social, de turistas azarados. Automóveis arrombados de onde são furtadas malas, equipamentos e tudo o quanto possa representar valor econômico para os meliantes e dor de cabeça para as vítimas.

Há casos de automóveis arrombados em locais pouco movimentados, como quando alguém estaciona próximo a uma praia.

E não é não Brasil. Os casos registrados estão ficando cada vez mais frequentes em países do dito Primeiro Mundo. Barcelona desponta na pole position. Mas há outras cidades e outros países.

Inúmeras vezes utilizei o automóvel como meio de transporte. Andei pela Itália, França, Alemanha, Espanha, Portugal, Suíça, etc. e nunca tive a desagradável surpresa de ter sido alvo de um arrombamento. Mas foi por pouco.

Em certa oportunidade, viajando pela Itália, alguém nos sugeriu visitar a pequena cidade de Atri, na região de Abruzzo, entre o mar Adriático e os Apeninos. 

De um modo geral, a circulação e o estacionamento em cidades históricas não é recomendável, tanto pela logística como pelo custo financeiro.

Mas todas, ou quase todas essas cidades, oferecem espaços públicos para o "parquegiamento", geralmente situados em local próximo do centro turístico.

Segui a regra: Encontrei um espaço público, que era gratuito e após uma pequena caminhada fomos conhecer a pequena cidade. Aproveitamos para almoçar por lá mesmo, onde encontramos uma brasileira trabalhando no restaurante.

E como tínhamos outros objetivos por diante, iniciamos a pequena descida rumo ao estacionamento. Lá chegando, simplesmente gelei! O vidro da porta do motorista estava baixado (abetto). Todos os nossos pertences estavam no porta-malas. Antevi o caos.

Abri o compartimento de bagagens e senti um alívio imediato. Tudo estava no lugar, exatamente como eu havia acomodado antes de partir da nossa pousada.

Analisadas as prováveis hipóteses, cheguei à conclusão de que o automóvel que locamos não era do tipo que fecha o vidro automaticamente, assim que o motor é desligado.

Mas a conclusão mais apropriada para o caso que vivenciamos foi a de que temos mais sorte do que juízo, sorte que outros viajantes/turistas, não tiveram em suas desventuras.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

UM PASSEIO POR TREZE TÍLIAS

Cruzar o portal de Treze Tílias é experimentar uma espécie de "defeito" geográfico encantador. De repente, o asfalto catarinense parece sussurrar em alemão e o ar ganha o frescor alpino do Tirol. Não é apenas uma cidade temática; é um pedaço da Áustria que decidiu criar raízes no meio do Meio-Oeste catarinense, com uma teimosia poética e uma organização que beira a perfeição.

O que primeiro salta aos olhos é o rigor da estética. As casas não são meras construções; são declarações de amor à tradição. Os telhados inclinados, as sacadas de madeira entalhada e a profusão de flores — que parecem brotar com uma disciplina militar, mas com a leveza de uma valsa — compõem um cenário onde o caos urbano não se atreve a entrar. A limpeza das ruas é tamanha que o visitante hesita antes de deixar cair qualquer mínima folha de papel; há um respeito silencioso que emana das calçadas impecáveis.

Caminhando pelo centro, percebe-se que a organização não é apenas para os olhos, mas para a convivência. É uma cidade feita para ser percorrida sem pressa, onde cada detalhe foi pensado para acolher. E é nesse espírito de acolhimento que surge um detalhe que aquece o coração de quem passa: os bebedouros públicos para pets.

Em Treze Tílias, a hospitalidade austríaca não faz distinção de espécies. Ao lado das fontes de água cristalina para os humanos, encontram-se estruturas charmosas, integradas à arquitetura local, desenhadas especificamente para que os cães e gatos que acompanham seus donos (ou os que por ali circulam) possam se refrescar.

É um gesto que resume a alma do lugar: se há ordem e beleza para as pessoas, deve haver dignidade e cuidado para os animais.

Esses pequenos monumentos à empatia, espalhados estrategicamente, dizem muito sobre o povo local. Em uma terra famosa pela escultura em madeira, a maior obra de arte de Treze Tílias acaba sendo a sua harmonia cotidiana. O som dos sinos das igrejas e o aroma do apfelstrudel que escapa das confeitarias misturam-se à imagem dos pets saciando a sede em águas limpas, sob a sombra das tílias que dão nome ao lugar.

Visitar Treze Tílias é, acima de tudo, um lembrete de que a organização e a limpeza não são frias quando acompanhadas de gentileza. A "Viena brasileira" nos ensina que o progresso de uma cidade se mede também pela altura do bebedouro de um animal de estimação. (IA)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

SCALA SANTA DI CAMPLI

No Brasil temos as pousadas rurais, os hotéis fazenda. Na Itália encontramos estabelecimentos denominados de Agriturismo. O contato direto com os proprietários proporciona receber dicas sobre lugares não catalogados nos guias de turismo. 

Certa feita, turistando pela região de Abruzzo, na Itália, recebi a indicação para conhecer a pequena cidade de Campli e a sua Scala Santa.

A Scala Santa di Campli é um santuário católico único e historicamente significativo.  Ela é famosa por ser um dos poucos lugares no mundo — e o primeiro fora de Roma — a receber o privilégio papal de conceder a Indulgência Plenária aos fiéis que a sobem de joelhos, tal como a original Scala Santa de Roma (a escadaria que, segundo a tradição, Jesus subiu para o julgamento de Pôncio Pilatos).

Chegamos cedo para conhecer o local e de pronto ficou evidente a ausência de turistas. Aliás, para os residentes, que encontramos pelo caminho, nós é que viramos atração turística. 

Com o auxílio da IA, aqui estão os detalhes principais para entender a importância deste local:

1. Estrutura e Ritual

A estrutura é composta por uma escadaria de 28 degraus de madeira de oliveira.

Os fiéis sobem os degraus exclusivamente de joelhos, rezando e meditando sobre a Paixão de Cristo. Este ato de penitência serve para a remissão dos pecados.

No topo da escada, há uma capela chamada Sancta Sanctorum, onde se encontra um altar com relíquias (incluindo fragmentos da Cruz de Cristo).

Diferente da subida (focada na dor e penitência), a escada de descida é percorrida a pé normalmente e celebra a Ressurreição, com afrescos alegres e luminosos.

2. História e Privilégio Papal

Foi instituída em 1772 graças a um privilégio concedido pelo Papa Clemente XIV.

A concessão deste privilégio foi um feito diplomático notável para a época, permitindo que os fiéis obtivessem o mesmo perdão espiritual que obteriam em Roma, mas sem precisarem viajar até lá. Isso elevou o status de Campli a um centro de peregrinação importante.

3. Arte e Simbolismo

O santuário é também uma obra de arte barroca projetada para guiar a emoção do peregrino:

Paredes da Subida: Estão decoradas com seis grandes telas que retratam cenas dramáticas da Paixão de Cristo, ajudando na imersão do fiel durante a penitência.

Paredes da Descida: Contrastando com a subida, são decoradas com medalhões que representam a alegria da Ressurreição de Cristo e anjos festivos.

Saímos de Campli gratos pela indicação que recebemos e satisfeitos por conhecer algo diverso do lugar comum ofertado aos turistas. 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

OS MOSAICOS DE RAVENA

Ao programar uma viagem para a Itália, a Jú, da Lovetur (Florianópolis), recomendou muito uma visita à cidade de Ravena, na Emilia-Romagna, para conhecer os seus famosos mosaicos bizantinos.

Foi uma super dica!

Em Ravena, o tempo não corre. Caminha-se por suas ruas com a impressão de que a cidade decidiu guardar a memória do mundo não em palavras, mas em fragmentos — pequenos, irregulares, quase insignificantes quando vistos isoladamente. E, no entanto, é justamente dessa soma de minúsculas partes que nasce uma das maiores expressões artísticas da humanidade: o mosaico.

Ao entrar na Basílica de San Vitale ou no Mausoléu de Galla Placidia, o visitante percebe que não se trata apenas de arte decorativa. Os mosaicos de Ravena não adornam o espaço; eles o dominam. A luz que atravessa as janelas encontra o ouro, o azul profundo e os verdes ancestrais, refletindo-se em milhares de tesselas que parecem vibrar, como se estivessem vivas. Cada passo muda o ângulo, cada olhar revela um novo brilho. Nada é estático. Nada é óbvio.

É impossível não pensar no trabalho silencioso e quase sobre-humano de quem os criou. Montar um mosaico é um exercício de paciência extrema e de fé no resultado final. As pequenas peças — de vidro, pedra ou cerâmica — são colocadas uma a uma, muitas vezes sem que o artesão possa ver o conjunto completo enquanto trabalha. Exige-se precisão milimétrica, sensibilidade cromática e uma compreensão profunda de luz e perspectiva. Um erro mínimo pode comprometer a harmonia de todo o painel. É arte que se constrói no detalhe, na repetição, na persistência — virtudes raras em qualquer época, ainda mais na nossa.

Mas os mosaicos de Ravena vão além da dificuldade técnica e da beleza estética. Eles carregam um significado cultural e espiritual imenso. Criados entre os séculos V e VI, atravessaram impérios, guerras, transformações religiosas e mudanças de mentalidade. São testemunhos visuais de um momento em que o Império Romano se dissolvia e o mundo medieval começava a se formar. Neles, o poder político, a fé cristã e a herança clássica convivem lado a lado, fundidos em imagens de imperadores, santos e símbolos eternos.

Há também algo de profundamente humano nessa arte fragmentada. Cada tessela, sozinha, é quase nada. Juntas, constroem o sublime. Ravena nos lembra que a beleza pode nascer da soma de imperfeições, de pedaços aparentemente insignificantes que, quando organizados com propósito, atravessam séculos e continuam a falar conosco. Em um mundo apressado, seus mosaicos ensinam a lentidão; em uma época de excessos, ensinam o valor do detalhe.

Talvez seja por isso que Ravena não se impõe com grandiosidade imediata. Ela se revela aos poucos, como seus mosaicos. E quem se permite olhar com atenção sai transformado, com a sensação de ter tocado não apenas a arte, mas o próprio tecido do tempo — cuidadosamente montado, peça por peça, por mãos que já não existem, mas cuja obra permanece luminosa e eterna. (Com auxílio da IA)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

VIA CRUCIS EM BOLONHA

Dia de pagar todos os pecados. Explico: Percorremos uma via crucis, materialmente falando, que para minha surpresa tinha quinze (15) estações ao invés das tradicionais quatorze (14). Percorre-la, faz parte da visita ao Santuário Della Madona di San Luca. No primeiro dia aqui em Bolonha fotografei o santuário do terraço da Basílica de San Petrônio, donde se pode ter uma idéia do que teríamos pela frente.


Bolonha é famosa por seus pórticos. O que muita gente não sabe é que o maior pórtico do mundo é aquele que liga a Porta Saragoza ao Santuário hoje visitado. Com quase 4 km de extensão, o caminho porticado é dividido entre 1520 metros percorridos no trecho plano e 2276 metros no trecho em subida. Fizemos o segundo trecho. Mais informações


Da Porta Saragoza até a Basílica são superados 666 arcos – mas a numeração oficial pára no arco numero 661 – e 15 capelas. A maior parte da subida apresenta-se em forma de rampa e em alguns poucos trechos há degraus. Pelos nossos cálculos toda a extensão percorrida equivale a cerca de 1600 ou mais degraus. Algo como um prédio de cem (100) andares.


Enfrentamos o desafio com muita garra, assim como uma quantidade razoável de pessoas. Mas o destaque foram as pessoas da cidade, principalmente muitos jovens aproveitando as condições do local para a prática de exercícios físicos. Só o fato de o caminho ser feito à sombra em razão dos pórticos já é um apelo muito forte para enfrentar o percurso. Mas para quem não é chegado a enfrentar desafios, existe um trenzinho turístico que parte da Piazza Maggiore e faz uma parada às portas do Santuário.

A importância do santuário para a cidade tem a ver com o milagre da chuva. Diz-se que em abril de 1433 depois de uma série de tremores, as chuvas castigavam Bolonha, inundando a cidade, destruindo plantações, e prevendo tempos difíceis. Somente uma ajuda divina poderia controlar a fúria da natureza e para isso os sacerdotes resolveram trazer a pintura da Madonna di San Luca em procissão pela cidade. Assim que a imagem cruzou na porta de Saragoza, a chuva imediatamente cessou e as pessoas gritaram o milagre. Segundo a tradição todos os anos no mês de maio realiza-se a uma procissão revivendo o dia do milagre.

A nota negativa foi chegarmos ao alto no horário do meio-dia, encontrando a igreja fechada, sendo que a mesma só reabriria próximo das quinze (15) horas. Pensamos em almoçar pois tínhamos a informação da existência de uma pizzaria nas proximidades. Efetivamente existe a pizzaria, mas pelo jeito, a mesma funciona no mesmo horário da igreja. Só água e refrigerantes naquelas maquininhas pague-leve. Achamos que seria muito tempo de espera para visitarmos a igreja e inclusive a escalada de mais alguns degraus da torre, de onde teríamos uma visão panorâmica da cidade.

Mesmo assim conseguimos desfrutar de uma bela paisagem lá do alto.




Mas também colhemos duas fotos do Google tomadas de pontos não acessíveis aos mortais amadores como nós e que dão bem a ideia da grandiosidade do local.

Imagem: Tripadvisor.it


Então decidimos voltar, assim como outros tantos visitantes. Mas, tudo na vida tem suas compensações. Junto à Porta Saragoza, ao final da descida, bem próximo ao estádio do Bologna, encontramos a Trattoria Meloncello.


Pedimos dois pratos típicos de Bolonha: gramigna, que é uma pasta com ragú de carne e torteloni. Pratos deliciosos e dignos de receber menção nominal, com a nossa recomendação da Trattoria.

Gramigna

E, como estivéssemos exaustos, nada melhor do que um merecido descanso. Em casa fui procurar no Google informações sobre a 15ª estação na via crucis. Pois segundo a wikipédia, o Papa João Paulo II sugeriu que fosse criada uma décima-quinta estação para recordar a ressureição de Jesus, embora esta seja opcional. Está explicado.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

VERANEIOS

Costumava ir à praia com a minha irmã mais velha. Meu cunhado ia nos finais de semana e voltava para Caxias para trabalhar. Então, sempre havia alguém da família para fazer companhia à minha irmã com os quatro filhos pequenos. 

Era a Praia Rainha do Mar, destino de muita gente da região de Caxias mas também de Porto Alegre, da região do Vale dos Sinos e do Taquari. A colônia de férias do Banrisul era naquela praia e era o point da juventude, eis que nela funcionava uma boate. 

As amizades de verão geralmente são efêmeras mas deixam sempre uma ponta de saudade. Uma dessas amizades aconteceu com um tal de Paulinho, que era de Porto Alegre. Apaixonava-se com facilidade e rompia seus namoros com mais facilidade ainda, o que fazia dele um sujeito dramático. 

Ele havia se apaixonado por uma menina mas logo o romance terminou. Coisas de praia. 

Por aqueles dias, junto com outros amigos, ocupamos uma mesa na boate do Banrisul, onde tomamos algumas cervejas. Só que o Paulinho não deixava o garçom retirar as garrafas vazias e ia posicionando as mesmas uma ao lado da outra, formando uma fila. 

Num determinado momento, estávamos apenas o Paulinho e eu sentados, um de cada lado da mesa, enquanto os demais amigos estavam na pista de dança. Depois de muitas cervejas e aguentar sua interminável choradeira, eis que a paixão do Paulinho aproximou-se de nós e referindo-se às garrafas vazias, disse: 

- Paulinho, o que é isso? 

Com ares de vítima, o Paulinho, que àquelas alturas já enrolava a língua para falar, respondeu: 

- Este é o muro da vergonha!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

DOIS FILHOS: MESMO NOME

Quartanista de Direito, comecei a trabalhar na Comunidade Sindical de Caxias do Sul, sob a supervisão do Dr. Julinho Costamilan. Passei a atender assuntos diversos de interesse dos sindicalizados.

Dos diversos atendimentos, um deles, inusitado por sinal, ocorreu com um associado do Sindicato dos Metalúrgicos. Veio à minha sala acompanhado de um dos dirigentes sindicais, que me pediu dedicar-lhe especial atenção. 

Era um empregado da Marcopolo, empresa que tive a hora e o prazer de trabalhar e da qual guardo mui gratas recordações. Em princípio pensei tratar-se de mais uma reclamatória trabalhista das tantas que atendíamos sistematicamente, e no caso da Marcopolo sempre havia a necessidade de uma boa averiguação eis que o seu RH sempre foi muito eficiente e organizado. 

Mas o caso era outro e não necessitava de maiores investigações, já que os documentos que de pronto me foram apresentavam por si só explicavam a natureza do problema jurídico a ser resolvido. 

Italianão bem despachado, o nóvel cliente foi logo dizendo que tinha dois filhos com o nome Itacir. O mais velho já contava com seus dezoito anos de idade enquanto que o mais novo ainda não tinha um mês de vida, ou seja, era um temporão. 

As duas certidões de nascimento estavam ali nas minhas mãos e com um simples passar de olhos era possível confirmar a veracidade do problema que o meu cliente tinha trazido para que eu resolvesse. Ali estavam duas certidões de nascimento de duas pessoas registradas com o nome Itacir, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, tendo em comum os mesmos avós, enfim, tudo exatamente igual a não ser a data do nascimento. 

Na conversa informal que tivemos acerca do ocorrido, perguntei ao distraído pai como aquilo chegou a acontecer ao que respondeu simplesmente que havia esquecido. 

Então, indaguei, como foi a descoberta de que tinha dois filhos com o mesmo nome. Segundo ele, ao entregar a certidão de nascimento do temporão ao RH da empresa, para fins de percepção do Salário Família, o funcionário encarregado das devidas anotações percebeu a duplicidade. - Porco cane! é mesmo, disse ele. 

Ali mesmo recebeu a orientação de procurar um advogado para arrumar os papéis. Assim, procurou o sindicato da sua categoria profissional, ao qual era associado, e nessa condição chegou ao nosso escritório para as providências necessárias. A solução do problema não seria nada difícil à vista do óbvio e principalmente levando em conta a tenra idade de um do filho mais novo. 

A razão de pedir a retificação em juízo era tão evidente que de imediato colhi a assinatura do desmemoriado pai da necessária procuração, assim como relacionei os demais documentos que seriam necessários à propositura da ação retificatória. Por fim, o principal de tudo, indaguei qual seria o nome definitivo do segundo Itacir. Ali mesmo ele declinou Moacir. 

Depois das providências preliminares, preparei a petição inicial, submetendo-a ao Dr. Julio para assinatura e, em tempos em que o Judiciário não estava tão assoberbado de ações, a solução definitiva não tardou, para alívio do pai distraído, evitando problemas futuros à sua prole.