Martha Medeirosterça-feira, 1 de setembro de 2026
NEM TODO MUNDO
Martha Medeirossegunda-feira, 31 de agosto de 2026
POR QUE EU ESCREVO
terça-feira, 25 de agosto de 2026
POR QUE ESCREVO SEM PARAR?

segunda-feira, 24 de agosto de 2026
ENORME HAROLDO
terça-feira, 18 de agosto de 2026
UMA CASA EM FRENTE AO MAR
Martha Medeirossegunda-feira, 17 de agosto de 2026
ESPÓLIO COMO MOEDA DE TROCO
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
O DIABO NO ESPAÇO
terça-feira, 11 de agosto de 2026
SE ARREPENDIMENTO MATASSE

segunda-feira, 10 de agosto de 2026
ESCULTURAS DE GELO
terça-feira, 4 de agosto de 2026
SEM PALAVRAS
Martha Medeirossegunda-feira, 3 de agosto de 2026
A GRANDE MÚSICA SECRETA
O britânico Bernard Shaw (1856-1950), tão genial como dramaturgo quanto ranheta como pensador, explicou sua aversão aos instrumentos de sopro: "Eles prolongam a vida de quem os toca". Poder-se-ia perguntar como Shaw, que não tocava nenhum instrumento, conseguiu chegar aos 94 anos, se a expectativa de vida no Reino Unido, quando ele nasceu, era de menos de 40. E que bom que um instrumento de sopro —a humilde gaita de boca— tenha permitido ao carioca Mauricio Einhorn chegar em grande forma aos 93 anos para nos presentear com esse disco recém-lançado, "Mauricio and Horns", talvez a suma de sua carreira a serviço da música brasileira.
Não só dela, mas da mais secreta música brasileira. O jovem Mauricio já era um dos músicos que, nos anos 1950, cozinhavam a futura bossa nova, ao lado de Johnny Alf, Durval Ferreira e Bebeto Castilho, seus parceiros em "Estamos Aí", "Nuvens", "Tristeza de Nós Dois", "Batida Diferente", "Disa" e "Sambop", alguns dos primeiros clássicos instantâneos do gênero. Foi também um dos pilares da ponte jazz-bossa nova, que resultaria no samba-jazz.
E por que secreta? Porque você já ouviu Mauricio Einhorn em incontáveis discos de que ele participou como acompanhante de cantores brasileiros e americanos, e nunca ficou sabendo que aquelas mágicas passagens de gaita eram dele. Agora, graças ao produtor marroquino Jacques Muyal, a quem o jazz deve mais do que poderá pagar, temos um raro Mauricio em primeiro plano, gravado este ano no Rio, com um timaço a apoiá-lo: a big band de Idriss Boudrioua e os convidados Paquito d’Rivera e Lula Galvão.
Mas, como estamos no Brasil, "Mauricio & Horns", prensado na Alemanha, não sairá fisicamente aqui. Você não o encontrará nas nossas já poucas lojas. Pode ser escutado completo no Spotify, mas talvez você só esteja sendo informado disso por esta coluna. Para nossa indústria fonográfica, não merecemos ter nem a grande música que produzimos.
Só podemos produzi-la. E, como eu disse, mesmo assim em segredo.
Fonte: Folha de S.Paulo - 07/12/2025terça-feira, 28 de julho de 2026
GINA

segunda-feira, 27 de julho de 2026
ENEA!
quinta-feira, 23 de julho de 2026
A DECADÊNCIA DAS LOURAS
terça-feira, 21 de julho de 2026
O AMOR QUE A VIDA TRAZ
Martha MedeirosAí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo. Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.
E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos. Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada o amor solicitado. E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase. Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fôlego.
Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você havia encomendado, mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que você desconfia que nem lhe pertence. Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu. Olhe pra você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em você no elevador, o amor que era pra não vingar e virou compromisso, olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica, não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!
Aquele amor discretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém para o qual um amor discretinho costuma ser desprezado, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado. Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns!
Aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
EMBATUCANDO A IA
quinta-feira, 16 de julho de 2026
LIÇÃO DE HUMANIDADE
terça-feira, 14 de julho de 2026
BANALIDADES ETERNAS
Fabrício Carpinejar
segunda-feira, 13 de julho de 2026
MEMÓRIA MÁGICA
terça-feira, 7 de julho de 2026
CASA DE VÓ
Martha MedeirosLá em cima havia a churrasqueira e algumas árvores, mas o mais tentador era um quartinho misterioso, um depósito meio sem função, nosso QG infantil, que às vezes servia de casa de bonecas, em outras de redação de jornal — eu tinha o topete de escrever as aventuras da família. Se os fundos da casa eram mágicos, a casa propriamente dita era nossa Neverland. Tinha lareira, tinha adega, tinha sótão. Era como estar dentro de um cenário de filme, e havia também a Lucia, uma empregada alemã que parecia uma agente da Gestapo, nunca vi loura tão séria e retesada, mas preparava um cachorro-quente que jamais os Estados Unidos viram igual. Sério: a casa da avó da gente desbanca qualquer Epcot Center.
Hoje estas casas antigas foram derrubadas para dar lugar a prédios imensos, mas mesmo dentro de um apartamento é possível existir uma “casa de vó”, porque casa é só uma maneira de chamar, o que vale é o espírito do lugar, e havendo uma avó que entenda seu papel de proprietária não de um imóvel, mas de um segredo, está garantida a magia. Casa de vó é onde a lasanha e o pastelão ganham um sabor diferente, onde os ponteiros do relógio correm mais lentos, onde os ruídos são mais audíveis, onde o teto parece mais alto, onde a luz entra mais discreta entre as persianas, onde os armários escondem roupas antigas e fundos falsos, e só isso é falso, tudo mais é verdadeiro. Casa de vó é onde os brinquedos não surgem prontos, são inventados na hora. É onde a gente encontra os restos da infância dos nossos pais. E fotos de bisavós, de tios… epa, este sujeito aqui, quem é? Acalme-se, é o namorado novo da sua avó, você achou que ela ficaria viúva para sempre? Ela é sua avó, não um matusalém.
Se as avós não são mais as mesmas de antigamente, em suas casas ainda sobrevive um encanto que não muda. Será sempre um lugar secreto onde encontraremos um piano sem uso, alguns recortes de jornal, anéis coloridos, um bicho preguiçoso, uma máquina de escrever ou de costura, algo que seja estranho aos olhos de uma criança — e espaço, muito espaço para uma imaginação que não é estimulada nem na Disney, nem na rotina maluca de hoje, só mesmo lá dentro, no endereço do nosso afeto mais profundo, onde tudo é permitido.
Fonte: Zero Hora

