Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 1 de setembro de 2026

NEM TODO MUNDO

Martha MedeirosMartha Medeiros

Nem todo mundo quer ser campeão, presidente, celebridade. Há quem queira apenas viver de um jeito que não seja julgado por ninguém 

A gente acredita que existe um senso comum regendo nossos gostos e opiniões, porém somos sete bilhões pensando e vivendo de forma muito distinta uns dos outros.

Nem todo mundo é regido pelo dinheiro, por exemplo. Dinheiro é bom, é necessário e, quanto mais, melhor – mas esse “mais” não obceca a todos. Há quem troque o “mais dinheiro” por “mais sossego” e “mais tempo ocioso”. Qual o sentido de trabalhar insanamente se já se tem o suficiente para viver com dignidade?

Nem todo mundo gostaria de morar numa mansão com uma dezena de quartos e espaço de sobra para se perder: tenho uma amiga que desistiu do apartamento cinematográfico onde morava, pois ela não conseguia enxergar os filhos nem conversar com eles – eram longos os corredores e muitas as portas. Parecia que a família vivia num hotel, e não num lar. Trocou por um apartamento menor e aproximaram-se todos.

Nem todo mundo prefere mulheres com cara de boneca e corpo de modelo, ou homens com rosto de galã e corpo de fisiculturista. Imperfeições, exotismo, autenticidade, um look de verdade, natural, sem render-se a uma busca sacrificada pela beleza, ah, o valor que isso ainda tem.

Nem todo mundo gosta de bicho, de doce, de praia, de ler, de criança, de festa, de esportes, e nem por isso merecem ser expulsos do planeta por inadequação crônica. Seus prazeres estão fora do catálogo da normalidade e ainda assim são criaturas especiais a seu modo, enquanto que outras pessoas podem cumprir todas as obviedades consagradas e isso não adiantar nada na hora da convivência: são ruins no trato, fracas de humor e voltadas para o próprio umbigo, apesar de seu exemplar enquadramento social.

Nem todo mundo veio ao mundo para brigar, para reclamar, para agredir, para difamar, para fofocar, para magoar, para atrapalhar – hábitos de muitos, até arrisco dizer que da maioria, já que é mais fácil chamar a atenção através do nosso pior do que do nosso melhor. O pior faz barulho, o pior ganha as manchetes, o pior gera comentários, o pior recebe os holofotes, o pior causa embaraço. Porém, há os que vieram em missão de paz e não se afligem pela discreta repercussão de seus atos.

Nem todo mundo quer casar, quer filhos, quer fazer faculdade. Nem todo mundo quer ser campeão, presidente, celebridade. Há quem queira apenas viver de um jeito que não seja julgado por ninguém, há quem queira apenas se expressar de um modo menos exuberante e mais íntimo, há quem queira apenas passar pela vida nutrindo a própria identidade, não se preocupando em colecionar seguidores, admiradores e afetos de ocasião.

Sem jogar pra torcida, há quem queira apenas estar bem consigo mesmo.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

POR QUE EU ESCREVO

Ruy Castro

Entre outros motivos, porque não sei fazer mais nada Um futuro pesquisador não encontrará uma única linha inédita nas minhas gavetas

Minha colega Mirian Goldenberg tirou-me as palavras da boca outro dia. Disse que, com ou sem a IA, ela continuará a escrever. É exatamente o que eu queria dizer. Há quase 100 anos não faço outra coisa e é difícil dispensar velhos hábitos. Além disso, não sei fazer mais nada —nunca dirigi um carro, mal consigo trocar uma lâmpada e não sei cozinhar nem macarrão. O tempo em que podia estar desenvolvendo essas habilidades foi gasto lendo pessoas que escreviam bem e tentando aprender com elas.

Assim como as crianças da pré-história, comecei escrevendo nas paredes, não das cavernas e com uma costela de mamute embebida em sangue, mas nas da sala de casa mesmo, e a lápis. Logo cheguei à máquina de escrever e, ainda quase imberbe, vi-me numa Redação de jornal. O Rio tinha então 15 jornais diários, mas eu estava justamente no que queria: o heroico Correio da Manhã. Foi minha introdução ao combate entre a página impressa e o obscurantismo, no caso, vencido por este. O jornal foi destruído pelo regime militar na sequência do AI-5, em 1968, mas isso desenvolveria em nós, seus órfãos, uma casca grossa que nos valeria para sempre.

Dali passei por uma quantidade de veículos e, não muito comum na profissão, orgulho-me de nunca ter produzido uma linha em que não acreditasse. Claro que me arrependo de muitas, mas, na época, me pareciam as corretas. Quero crer também que haja uma coerência entre elas: desafio um futuro pesquisador a encontrar, em milhares de artigos, crônicas e reportagens, um elogio a um governante.

Ele também não encontrará nas gavetas uma única página que possa chamar de "inédita", não publicada. Poemas, então, nem pensar —por respeito aos poetas que admiro, jamais cometi um na vida. Tudo que produzi até hoje foi escrito para sair amanhã, na semana seguinte, dali a três meses ou no ano que vem. Tudo com destino marcado: colunas de jornal, uma reportagem para uma revista, um livro já programado pela editora.

O problema, Mirian, será: o que fazer no Além?

Fonte: Folha de S.Paulo - 18/12/25

terça-feira, 25 de agosto de 2026

POR QUE ESCREVO SEM PARAR?

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Escrevo sem parar, escrevo cinco textos por semana, para que você nunca deixe de se apaixonar por mim.

Escrevo sem parar para que você me abrace pelas costas, e nem lhe veja se aproximar de mim, distraído como sou diante das janelas abertas, que apareça com seus pés de vento e pluma e me enlace e encaixe sua cabeça em meus ombros e diga que me ama suspirando, como alguém que diz um bom dia nos ouvidos.

Escrevo sem parar para lhe convencer do quanto preciso de você, do jeito que for, do jeito que é.

Escrevo para me casar com você, para planejarmos as férias, para um dia você deixar que o nosso filho jogue bola dentro de seu ventre.

Escrevo porque não me dei por vencido, não me dei por satisfeito, não sinto que o meu amor é suficiente para garantir o seu amor e farei surpresas no interior das surpresas até que tudo entre nós seja conhecido.

Escrevo sem parar em qualquer canto ou movimento, com caneta, lápis, teclado e unha na tela, a tinta dos meus escritos estará em seus olhos verdes.

Escrevo sem parar, mesmo que não me leia, mesmo que me esqueça, mesmo que não tenha vontade de falar comigo.

Escrevo sem parar porque há datas quebradas, há datas com uma única asa para voar e o esforço das pernas em correr para ganhar impulso.

Escrevo sem parar porque a água é madura com as pedras redondas no fundo do leito, porque eu sou maduro quando toco os seus pés na cama.

Escrevo sem parar, pois caminho um pouco mais com a boca em cada beijo nosso.

Escrevo sem parar em nome do que não vi, não vi você andando de bicicleta.

Escrevo sem parar para chamar a sua atenção, pela carência que ilumina os meus enganos, pela fé que conserta o meu juízo, pela esperança que refaz a nossa memória.

Escrevo sem parar para curar a sua tristeza, para que não se isole nos pensamentos loucos, para jamais conclua que é melhor ficar sozinha.

Escrevo sem parar para vê-la de novo abrindo a porta de nossa casa.

Escrevo sem parar para admirá-la por encontrar um modo de tomar banho de sol no inverno, ainda que cheia de casacos, com o mesmo tempo de frente e de costas.

Escrevo sem parar porque meu sangue deve ser quente e sua cerveja gelada.

Escrevo sem parar como um mendigo que se cobre de jornal e não lê as notícias que estão em sua cara, que prefere inventar a próxima manhã, absurdamente desatualizado da própria vida e só sabendo de você.

Escrevo sem parar por orgulho e teimosia, por insistência e vaidade, já que não encontrei nada melhor que substituísse seu riso.

Escrevo sem parar pelo dom de confundir o espaço dos travesseiros e me prender em seus cabelos quando deitamos juntos.

Escrevo sem parar, como um animal da respiração, baixo a cabeça e escrevo, este meu violão sem cordas, esta minha flauta sem pinos, este saxofone sem garganta.

Escrevo sem parar a procurar um perdão melhor do que o de ontem, uma confissão mais sincera para amanhã, palavras que confirmem o quanto sou seu desde sempre.

Escrever é a minha decisão de estar com você.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ENORME HAROLDO

Ruy Castro

Haroldo Costa foi o Orfeu com que Tom e Vinicius dividiram a cultura brasileira O repórter que cobria uma nova montagem da peça não sabia que estava diante do criador do personagem

Na noite de 10 de setembro de 2010, eu entrava no Canecão para a estreia de "Orfeu", uma nova versão da peça "Orfeu da Conceição", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, quando vi o enorme amigo à minha frente: Haroldo Costa. Enquanto nos abraçávamos, um repórter se materializou entre nós e, de costas para Haroldo, começou a me fazer perguntas. Expliquei-lhe que não tinha nada a dizer. Quem ele devia entrevistar era o homem ao meu lado –nada menos que o Orfeu da encenação original, estreada no Teatro Municipal no dia 25 de setembro de 1956.

O repórter levou constrangedores segundos para entender o que eu estava falando e, ao se virar para Haroldo, não sabia o que perguntar. Tive de dar-lhe a ficha: era Haroldo Costa, o Orfeu de Tom e Vinicius, e não somente isso. Nos meses anteriores à estreia, fora o protagonista de incontáveis reuniões na casa de Vinicius em Ipanema, ajudando o diretor Leo Júsi a desenvolver seu próprio personagem e todos os demais. E sobrava-lhe cacife para tal: egresso do Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento, nos anos 40, Haroldo passara metade dos anos 50 na Europa com o seu "Brasiliana", um espetáculo de dança brasileira, e, de volta ao Rio, tinha mais experiência do que toda aquela equipe junta.

O Orfeu da nova encenação, dirigida por Aderbal Freire-Filho, era o novato Érico Brás. Haroldo, espero que convidado para a estreia, teria passado despercebido ali se eu não tivesse alertado o repórter. Não sei se ele se sentiu magoado ou se já se habituara àquele esquecimento. Era o Brasil.

E olhe que ele era famoso —comentarista da transmissão dos desfiles das escolas de samba no Carnaval pela TV Globo. Todos os anos, seu rosto bonito e generoso ocupava as telas por duas madrugadas inteiras.

Em 1956, Tom e Vinicius dividiram a cultura brasileira em antes e depois, com sua decisiva participação. Mas, na maioria das matérias sobre sua morte, no Rio, sábado último (13), aos 95 anos, Haroldo reduzia-se a um comentarista de Carnaval.

Fonte: Folha de S.Paulo - 17/12/2025

terça-feira, 18 de agosto de 2026

UMA CASA EM FRENTE AO MAR

Martha MedeirosMartha Medeiros

Nunca mais escrever uma única linha, basta, tempo esgotado, já disse tudo o que tinha e o que não tinha para dizer, nada mais a acrescentar

Sabe aqueles dias em que você pensa o que ainda estou fazendo aqui?

Sendo “aqui” uma cidade em que você corre o risco de ser assaltada, em que mil festas, peças e lançamentos acontecem e você não consegue participar de quase nada por falta de tempo ou cansaço, e em que você fica dia e noite na internet conferindo as postagens de gente que mal conhece, permitindo que a felicidade e a inteligência alheias minem aos poucos sua autoestima, já que você, sendo bem franca, não é tão feliz, nem tão linda, nem tão espirituosa, nem tão brilhante. Sabe aqueles dias?

Tenho tido uns dias assim. Em que me visualizo numa casa à beira-mar com uma longa extensão de areia para minhas caminhadas, seguindo uma dieta mediterrânea com peixes, azeites e tomates que muito me atraem, lendo finalmente os livros que acumulei na esperança de que chegaria a hora deles, cometendo alguns pecados capitais como a preguiça, a luxúria e a gula, passando os dias ouvindo música, gastando pouco, vestindo quase nada, recebendo visitas ocasionais, aprendendo a cozinhar, namorando um pescador, ah, essas fantasias que nem mesmo originais são.

Por escrito, esse desapego soa como o Éden, mas vivenciado, sabemos que nem sempre é tão fácil. Pessoas acostumadas a estarem plugadas na tomada geralmente não suportam mais do que três dias de mansidão, o que dirá três anos, o que dirá o resto da vida, esta que pode durar ainda umas três décadas.

O que fazer quando se está tão desinteressada do que se tem?

Hoje foi um dia em que me transportei para o clichê de todo workaholic: adeus, estresse, vou abrir uma pousada – eu que nunca sonhei em ter uma pousada. Sonho, neste instante, em não ter carro, não ter compromissos, não ter agenda, não ter coisa alguma. Raspar minhas economias no banco e torrá-las na manutenção de um cotidiano simplificado.

Nunca mais escrever uma única linha, basta, tempo esgotado, já disse tudo o que tinha e o que não tinha para dizer, nada mais a acrescentar. Agora, só leitura, só silêncio, só papo furado com o pescador. Segunda vez que o pescador aparece nesta história, já estou apaixonada antes mesmo de conhecê-lo.

E à noite, olhar as estrelas, beber meu vinho e morrer de um tédio bom. Quando a santa paz começasse a dar nos nervos, poderia voltar à urbe, rever os amigos, pegar um cinema, renovar o estoque de livros, de queijos, de frescuras e retornar correndo para a beira da praia, fazer um rabo de cavalo e se sentir personagem de um filme – eu sempre enxergo esses ermitões de meia-idade como charmosos personagens de um filme alternativo, de baixo orçamento e pouca bilheteria.

Mas esse filme ainda não saiu do papel e amanhã é segunda-feira. Acorda, dona Martha.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

ESPÓLIO COMO MOEDA DE TROCO

Ruy Castro

As tecnos brigam pelo presente da Warner, não pelo seu passado O que já foi um fabuloso patrimônio cinematográfico nada significa diante do monopólio da comunicação

A Warner —antiga Warner Brothers, o maior estúdio de Hollywood depois da MGM— está a leilão nos EUA entre forças poderosas. Seu controle por esta ou aquela tecno significará quase um monopólio da comunicação por quem se sair vencedor. O irônico é que em disputa está o presente da Warner —enorme, apesar da situação quase falimentar a que foi levada por fusões malsucedidas. Já seu passado, um patrimônio da cultura americana, será no máximo um bônus para quem levar a marca.

É uma marca com 102 anos de história, desde que os irmãos Harry, Jack, Sam e Albert Warner se estabeleceram em Hollywood em 1923. Da Warner saíram "O Cantor de Jazz" (1927), primeiro filme sonoro da história, com Al Jolson, os caleidoscópicos musicais de Busby Berkeley, os filmes de gângsteres com James Cagney, Edward G. Robinson e Humphrey Bogart, a fabulosa linha de desenhos animados com destaque para Pernalonga, os capa-e-espada com Errol Flynn, grandes dramas com Bette Davis e Joan Crawford, os musicais de Doris Day e clássicos como "Relíquia Macabra" (1940), "Casablanca" (1942), "O Pirata Sangrento" (1952), "Juventude Transviada" (1955), "Rastros de Ódio" (1956), "Um Rosto na Multidão" (1957), "Clamor do Sexo" (1962), "My Fair Lady" (1963), "Uma Rajada de Balas" (1967).

Como todos os estúdios, a Warner sangrou com a perda do monopólio de produção e exibição e teve de se diversificar. Investiu em televisão, jornalismo, futebol (dela nasceu o Cosmos, que contratou Pelé para o futebol americano) e música popular (com a gravadora WEA, que teve sob contrato João Gilberto, Tom Jobim, Gilberto Gil e um escrete de artistas internacionais). Em tudo, o empenho pela qualidade.

Mas as atuais tecnologias são outra coisa. A Warner há muito não é mais dos Warners, que, um dia milionários, hoje seriam pobretões diante dos magnatas das tecnos.

Quem vencer a guerra pela Warner ganhará de lambujem um espólio que, já tendo sido a sua razão de existir, será apenas moeda de troco para seus novos donos.

Fonte: Folha de S.Paulo - 14/12/2025

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O DIABO NO ESPAÇO

Carlos Heitor Cony

Não foi um sonho, muito menos uma visão. Mas consta que um astronauta, numa dessas naves tripuladas que passeiam pelo espaço, enquanto seus colegas, obedecendo aos horários da base de Houston, dormiam em complicados leitos, montava guarda na cabine de comando e viu o Diabo, em passeio, sem ajuda de qualquer equipamento, apenas com seus chifres, rabo e pés fendidos, caminhando pelo cosmos, aparentemente procurando alguma coisa.

Sabendo que o Pai das Trevas, desde o início do mundo domina uma boa tecnologia, o astronauta tentou comunicar-se com ele. Para sua surpresa, o Diabo entrou na faixa sonora da cabine e os dois conversaram. O diálogo está nos arquivos secretos da Nasa, esperando hora propícia para divulgação.

Após considerações gerais sobre os destinos da humanidade, o astronauta quis saber do destino do próprio Diabo, o que fazia ele ali sozinho, aparentemente perdido no espaço, desorientado e deprimido. Apesar de ser considerado o inventor da Mentira, o Diabo falou a verdade. Estava deixando o planeta Terra onde, desde a revolta dos anjos, antes da criação do Mundo, decidira implantar o Mal e a Desgraça na obra de Deus.

O astronauta quis saber a razão de tão humilhante retirada. Seria um derrota diante das forças do Bem? Nada disso - informou o Diabo. Ele ia embora da Terra porque sua atividade tornara-se supérflua com o advento da Internet. Procurava agora um planeta em estágio tecnológico menos adiantado do que o nosso, sem um tipo de comunicação onde qualquer um pode fazer um estrago bem maior do que ele na comunidade internacional e na vida de cada um.

Fonte: Folha de S.Paulo - 21/09/2004

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SE ARREPENDIMENTO MATASSE

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Ao colocar em ordem sua biblioteca ou guarda-roupa, veja se terá condições de terminar a tarefa.

Depende de tempo livre, de férias, de folga. Não tente fazer no meio da semana, de qualquer jeito. 

Não seja levado pela passionalidade que é tirar tudo do lugar para ajeitar pouco a pouco.

O chão estará cheio de pilhas de livros e não poderá caminhar livremente pela casa durante semanas.

A cama estará carregada de roupas e não haverá nem espaço para dormir.

Sua vontade é de chorar. Começou algo que não imaginava que ocuparia tanto tempo.

Ficou projetando que seria fácil e rápido e agora se arrepende amargamente de seu impulso.

Não tem como finalizar a arrumação, assim como é tarde para colocar os objetos de volta.

Piorou o que estava ruim. Já quer jogar fora seus livros prediletos ou as camisas novas somente para não precisar dobrar mais ou procurar espaço nas estantes apertadas.

Às vezes, para não enlouquecermos, a bagunça é o nosso anjo da guarda.

Fonte: carpinejar.blogspot.com.br

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ESCULTURAS DE GELO

Ruy Castro

Quantos shows memoráveis nunca foram gravados e escorreram para o esquecimento? Um show de Nara Leão em Campinas, gravado pelo sonoplasta, nos revela um ser humano em comunhão conosco

Um de meus pesadelos recorrentes envolve algo que talvez não exista de verdade, só simbolicamente: as esculturas de gelo. São as possíveis obras-primas condenadas a serem apreciadas por poucos e por pouco tempo, antes de degelarem e escorrerem rumo ao esquecimento. E, por esculturas de gelo, não se entendam apenas figuras recortadas a cinzel, mas toda espécie de arte efêmera —como a música popular. Quantos shows memoráveis nunca foram gravados? Terá havido registros de Carmen Miranda no Cassino da Urca, em 1938? De Dolores Duran no Beco das Garrafas, em 1957? De João Gilberto e João Donato, juntos, em 1963, na Itália?

Em 1984, Nara Leão deu um show no Centro de Convivência Cultural de Campinas. Ela não sabia, mas algo letal já se formava silenciosamente em seu cérebro. Dois anos depois, no Japão com Roberto Menescal, viu-se ausente no meio de uma canção. Parou de cantar. Menescal, sem saber o que acontecia, cantou por ela. Um minuto depois, Nara voltou a si, sem saber que estavam no palco em Tóquio. De volta ao Rio e constatada a doença, não se abateu —com a ajuda de Menescal, continuou a cantar e gravar, até ser vencida de vez em 1989.

O show em Campinas pode ter sido um de seus últimos ainda em plenas condições. Acompanhada só por seu violão, cantou por mais de uma hora o melhor de seu repertório, de "Olé, Olá", de Chico Buarque, e "Diz que Fui Por Aí", de Zé Kéti, até standards da bossa nova e a americana "There Will Never Be Another You". Osny Chaos, sonoplasta do Centro, gravou tudo. Quarenta anos depois, uma cópia doméstica em CD acaba de me chegar às mãos, cortesia de meu amigo campineiro, o jornalista Edmilson Siqueira.

O que devemos a Osny não tem preço. Esta é uma Nara na intimidade, sem o frio perfeccionismo dos discos oficiais. Às vezes, Nara dirige-se delicadamente à platéia, quase que pedindo desculpas pelo que vai cantar.

Não é uma cantora, mas um ser humano em comunhão conosco —que um simples gravador impediu que tivesse o destino do gelo.

Fonte: Folha de S.Paulo - 13/12/25

terça-feira, 4 de agosto de 2026

SEM PALAVRAS

Martha MedeirosMartha Medeiros

Acabo de ser apresentada ao trabalho de John Koenig, um web designer americano que lançou uma série na internet chamada Dicionário das Dores Obscuras (Dictionary of Obscure Sorrows). A intenção é nomear emoções ainda indefinidas. Qual é o nome para aquele desejo de desaparecer que nos acomete no meio de uma quinta-feira qualquer? Como se chama aquele frisson ao fazermos um ligeiro contato visual com algum desconhecido? 

Que palavra resumiria o desconforto de perceber que estamos apenas repetindo a história já vivida por tantos? E a angústia de que o tempo está passando cada vez mais rápido? A cada semana, Koenig posta belos vídeos de cerca de três minutos apresentando uma palavra inventada para conceituar tudo isso. O texto é inteligente, melancólico e comove. Como diz uma amiga minha: como é que ninguém pensou nisso antes?

O projeto é original (vale a pena dar uma olhada, está no YouTube), mas fiquei pensando: a gente precisa mesmo nomear o inominável? Me vieram à cabeça dezenas de situações que experimento e que nunca foram batizadas. Por exemplo, algo bom me deixar inexplicavelmente triste. Lembrar cenas de um passado remoto que não sei se aconteceram mesmo ou se inventei. 

Abrir meu coração e, ainda assim, parecer que estou mentindo. Ter a súbita consciência de que não faz sentido me preocupar com o que quer que seja. Não conseguir desviar os olhos do fogo. Estar numa festa e sentir como se estivesse vendo tudo aquilo de fora, como se eu não estivesse ali de verdade. Imaginar coisas terríveis acontecendo com quem mais amo, logo com eles.

Ao entrar nesse assunto, é inevitável lembrar a palavra saudade, que não existe no vocabulário de quem fala inglês. Anglo-saxões costumam sentir falta (I miss you), mas não possuem um substantivo que defina essa sensação de ausência dolorida. 

Nós possuímos e a usamos sem parcimônia. Nas redes sociais, declaramos sentir saudade de amigos, inimigos, de tudo e de todos, da última festa, do último beijo, do último churrasco, saudade de ontem e também dos velhos tempos, saudade dos outros, de nós mesmos, saudade de quem se foi para sempre e de quem viajou semana passada, saudade de sabores, de músicas, de turmas, de épocas. É tanta saudade assim? Ou o fato de termos uma palavra à mão é que invoca tamanha nostalgia?

Como escreveu Adélia Prado: a coisa mais fina do mundo é o sentimento. Ele não se presta a banalizações. Portanto, esses inúmeros insights que me ocorrem e que ocorrem também a você, sem que haja nenhuma palavra que os especifique e conceitue, talvez sejam os últimos meios de conceder algum lirismo à nossa existência. A poesia é o verdadeiro dicionário das dores obscuras.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A GRANDE MÚSICA SECRETA

Ruy Castro

Você já se emocionou com a gaita de Mauricio Einhorn e nunca soube disso. Para as nossas gravadoras, o Brasil não merece ter nem a fabulosa música que produz

O britânico Bernard Shaw (1856-1950), tão genial como dramaturgo quanto ranheta como pensador, explicou sua aversão aos instrumentos de sopro: "Eles prolongam a vida de quem os toca". Poder-se-ia perguntar como Shaw, que não tocava nenhum instrumento, conseguiu chegar aos 94 anos, se a expectativa de vida no Reino Unido, quando ele nasceu, era de menos de 40. E que bom que um instrumento de sopro —a humilde gaita de boca— tenha permitido ao carioca Mauricio Einhorn chegar em grande forma aos 93 anos para nos presentear com esse disco recém-lançado, "Mauricio and Horns", talvez a suma de sua carreira a serviço da música brasileira.

Não só dela, mas da mais secreta música brasileira. O jovem Mauricio já era um dos músicos que, nos anos 1950, cozinhavam a futura bossa nova, ao lado de Johnny Alf, Durval Ferreira e Bebeto Castilho, seus parceiros em "Estamos Aí", "Nuvens", "Tristeza de Nós Dois", "Batida Diferente", "Disa" e "Sambop", alguns dos primeiros clássicos instantâneos do gênero. Foi também um dos pilares da ponte jazz-bossa nova, que resultaria no samba-jazz.

E por que secreta? Porque você já ouviu Mauricio Einhorn em incontáveis discos de que ele participou como acompanhante de cantores brasileiros e americanos, e nunca ficou sabendo que aquelas mágicas passagens de gaita eram dele. Agora, graças ao produtor marroquino Jacques Muyal, a quem o jazz deve mais do que poderá pagar, temos um raro Mauricio em primeiro plano, gravado este ano no Rio, com um timaço a apoiá-lo: a big band de Idriss Boudrioua e os convidados Paquito d’Rivera e Lula Galvão.

Mas, como estamos no Brasil, "Mauricio & Horns", prensado na Alemanha, não sairá fisicamente aqui. Você não o encontrará nas nossas já poucas lojas. Pode ser escutado completo no Spotify, mas talvez você só esteja sendo informado disso por esta coluna. Para nossa indústria fonográfica, não merecemos ter nem a grande música que produzimos.

Só podemos produzi-la. E, como eu disse, mesmo assim em segredo.

Fonte: Folha de S.Paulo - 07/12/2025

terça-feira, 28 de julho de 2026

GINA

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar 

Não se estarei casado ou solteiro na próxima semana, não sei onde estarei morando no próximo ano, não sei se ligarei a máquina de lavar e de secar direto do celular, não sei se me apaixonarei pela voz do computador, não sei o que me espera.

Os tempos são rápidos e provisórios.

O que me acalma diante da enxurrada de notícias, aplicativos solicitando atualização e links abertos é comprar no supermercado um caixinha de palitos Gina e um pacote de Pastelina.

São as únicas embalagens que permanecem iguais desde a minha infância.

Gina e Pastelina não mudaram. Algo não mudou no mundo. Algo segue intocável há quatro décadas.

É como uma casa que não foi destruída no bairro em que nasci.

É como um brinquedo embalado e jamais usado.

Gina e Pastelina são objetos de colecionador que tenho o direito de adquirir semanalmente.

Recordo do tempo em que íamos toda a família para a churrascaria Barranco, e que os palitos serviam para brincar com os meus primos. Quebrávamos cinco Ginas ao meio, juntávamos suas pontas e derramávamos uma gota de água no centro em comum das varetas. Incrivelmente, a madeira absorvia o líquido e começava a inchar. Os palitinhos cada vez mais abertos formavam uma estrela pulsando, uma estrela se agigantando, uma estrela engolindo a mesa.

Só com o cheiro da Pastelina, sou levado de volta para a alegria do intervalo da escola. Equilibrando um copo de guaraná e o pacotinho de massa frita, sentava no terceiro banco de pedra do pátio, meu camarote imutável para assistir as meninas jogando vôlei.

Gina e Pastelina me proíbem de envelhecer. Gritam “estátua” para mim e não me mexo.

É melhor do que chá de melissa: desaparece a enxaqueca, refaz a minha linha de tempo do Facebook, acaba com bloqueio criativo.

Gina e Pastelina resistiram aos layouts modernos, à ânsia de consumismo, às tentativas de se mostrar diferente por fora e apenas por fora.

Desconheço quem inspirou o logotipo da Pastelina. Tampouco muda a minha admiração ter consciência de que a modelo dos artefatos de madeira foi a polonesa Zofia Burk, que depois não conseguiu mais emplacar nenhuma campanha.

Ela será sempre a rainha da minha cozinha: dona de casa feliz e radiante, com seu cabelo de penico dos anos 70, o olhar roubado de Jesus Cristo, a dentição de quem nunca conheceu uma cárie.

Ele será sempre o rei do meu eterno recreio: o feiticeiro narigudo, de fraque, gravata borboleta e cartola, que somente entregará a receita da Pastelina se a Coca-Cola mostrar a sua.

Fonte: carpinejar.blogspot.com.br

segunda-feira, 27 de julho de 2026

ENEA!

Ruy Castro

O Flamengo de 2025 foi o melhor em tudo. E asterisco é a avozinha. Eneacampeão quer dizer campeão nove vezes, todas conquistadas em campo

Enea. Nome lindo, não? Não conhecia. Nasceu do grego "enneas", nove —o número 9. Dele derivou Eneias, herói troiano da "Eneida", de Virgilio, e, por associação, nomeando também bravura, vitória, liderança. Tudo a ver com o Flamengo de 2025, eneacampeão brasileiro, primeiríssimo em nove enormes exigências: mais vitórias, menos derrotas, mais gols pró, menos contra, melhor do turno, melhor do returno, mandante mortal, visitante idem e com o craque do campeonato —mesmo com jogadores insones pela conquista, quatro dias antes, do tetra da Libertadores. E asterisco é a avozinha.

É um enea a ser gravado com orgulho na taça, antes que tentem de novo reduzi-lo a octo, alegando a decisão legaloide que atribuiu o título de 1987 a um expoente da 2ª divisão. Octo, o Flamengo foi em 2020, por já ter vencido em 1980, 82, 83, 87 (sim!), 92, 2009 e 19. E o enea de 2025 faz jus a mais uma tradição rubro-negra: foi conquistado em campo, como os oito anteriores. Como observou Mauro Cezar Pereira, meu colega do UOL, nenhum deles pelo fax ou no tribunal.

Mauro Cezar vai além. O título de 1987, afrontando as instâncias esportivas, foi dado por um truculento ministro do STF ao vencedor de um campeonato disputado por Sport, Joinville, Náutico, Ceará, CSA, Inter de Limeira, Rio Branco do Espírito Santo, Bangu, Portuguesa, Athletico Paranaense, Atlético Goianiense, Vitória, Guarani, América, Criciúma e Treze da Paraíba. Com todo o respeito a esses clubes, o que o Flamengo venceu tinha Corinthians, São Paulo, Santos, Palmeiras, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Bahia, Coritiba, Goiás, Santa Cruz, Internacional, Grêmio, Fluminense, Vasco e Botafogo.

O Flamengo de 1987 entrava em campo com Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Aldair e Leonardo; Andrade, Ailton e Zico; Renato Gaúcho, Bebeto e Zinho. Dos 11, 10 chegaram à seleção brasileira. Cinco seriam tetracampeões mundiais: Jorginho, Aldair, Leonardo, Bebeto e Zinho. O que tinham a fazer na 2ª divisão?

Perdão, amigos, mas é enea —véspera do deca.

Fonte: Folha de S.Paulo - 06/12/25

quinta-feira, 23 de julho de 2026

A DECADÊNCIA DAS LOURAS

Carlos Heitor Cony

Não tenho nem pretendo ter procuração das louras para defendê-las das acusações de burrice e cafonice, que estão se avolumando nos últimos tempos contra elas. Leio num jornal que as louras não estão com nada, nem no cinema, na TV, nem na vida em geral. As deusas de alguns anos atrás estão com dificuldade para renovar contrato e já não causam gritos e sussurros por onde passam.

Pior: uma caçadora de talentos, dessas que dão dicas para empregos de futuro, recomenda que as pretendentes façam as unhas, usem vestidos comportados, falem só o essencial mas em hipótese alguma sejam louras, nem naturais nem artificiais.

"O quê que é isso?" - era o bordão de famoso locutor esportivo do passado, quando via jogadas violentas que mereciam cartão vermelho. É o que me pergunto: "O quê que é isso?" Onde está a lei que pune a discriminação, seja a discriminação que for?

Não aceito a teoria de que a onda contra as louras possa ser atribuída ao despeito, à inveja. O furo deve ser mais em cima. O que há de morena burra também não é mole.

Quanto à beleza em si, há gosto para tudo. Helena de Tróia, segundo a tradição, é a mulher mais bonita da história e da lenda. Segundo a tradição, era loura, diferenciando-se de outras mulheres do Mediterrâneo que costumam ser morenas.

E a mulher mais inteligente que conheci era loura, uma loura até suspeita, parecia artificial, no detestável estilo de "amarelo ovo". Não chegava a ser feia mas não era bonita, embora não merecesse ser jogada fora.

Herdei de meu pai um ditado esquisito: "Fugir de gato que faz him e de mulher que sabe latim". Esta loura não sabia latim mas sabia tudo da vida e o pouco que me ensinou foi o bastante. Se não cheguei lá, a culpa não foi dela.

Fonte: Folha de S.Paulo - 28/09/2004

terça-feira, 21 de julho de 2026

O AMOR QUE A VIDA TRAZ

Martha MedeirosMartha Medeiros

Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico. Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira já estaria mais do que bom. Você quer um amor assim. É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.

O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos. Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar. O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja pra assistir em casa, no DVD. E seria bom que gostasse dos seus amigos. E precisa ter um emprego seguro. Bom humor, sim, bom humor não pode faltar. Não é querer demais, é? Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da Playboy. Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.

Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo. Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.

E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos. Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada o amor solicitado. E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase. Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fôlego.

Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você havia encomendado, mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que você desconfia que nem lhe pertence. Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu. Olhe pra você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em você no elevador, o amor que era pra não vingar e virou compromisso, olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica, não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!

Aquele amor discretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém para o qual um amor discretinho costuma ser desprezado, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado. Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns!

Aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 20 de julho de 2026

EMBATUCANDO A IA

 Ruy Castro

Ao contrário de nós, humanos, ela é capaz de aprender com os próprios erros. Mas não é muito convincente se lhe perguntamos por que pizzas redondas vêm em caixas quadradas

Há dias, escrevi aqui que, ao perguntar à IA em que ruas Tom Jobim morou no Rio, ela me respondeu que Tom Jobim nunca morou nas ruas, mas em casas e apartamentos nas ruas tais e tais. Era só o que eu queria confirmar —o nome das ruas em que Tom morara. Mas a IA, levando a coisa ao pé da letra, informou-me que Tom nunca morara em situação de rua, o que todo mundo sabe. Aproveitei para dizer que, enquanto a IA for tão exata e burra, teremos alguma chance contra ela.

Horas depois, um leitor comentou que acabara de fazer a mesma pergunta à IA e ela respondera corretamente, dando apenas os endereços de Tom. Intrigado com isso, fiz o mesmo que o leitor e constatei que, de fato, a IA passara a dar a resposta certa. Ao ver a quantidade de leitores rindo da sua gafe, ela se corrigira. Esta é uma prova do seu potencial de perigo —diferentemente de nós, humanos, a IA é capaz de aprender com os próprios erros.

Continuo a pensar que, ao contrário do que apregoam, a IA não é infalível. Apenas como exercício, fiz-lhe há pouco uma série de perguntas e acredito tê-la embatucado —achei que, às vezes, vacilou nas respostas. Algumas: "Qual é o sentido da vida?"; "Há vida depois da morte?"; "O que é a consciência?"; "Como saber se o nada existe se não o vemos nem sentimos?"; "Se o passado passou e o futuro ainda não chegou, como pode existir o presente?"; "Como era o Cosmo antes do Big Bang?"; "Estamos sozinhos no Universo?"; "Se duas pessoas lerem a mente uma da outra ao mesmo tempo, que pensamento estarão lendo?".

E olhe que essas me pareciam fáceis. Em outras, sua resposta não me convenceu: "Onde estão os ossos de Dana de Teffé?"; "Por que pizzas redondas vêm em caixas quadradas?"; "Por que lavamos as toalhas de banho se já estamos limpos ao usá-las?"; "Onde estão os manuscritos de Shakespeare?"; "Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?".

Só houve uma pergunta a que a IA me pareceu dar uma resposta satisfatória. Perguntei: "Existe Deus?". E ela respondeu no ato: "Agora existe".

Fonte: Folha de S.Paulo - 04/12/2025

quinta-feira, 16 de julho de 2026

LIÇÃO DE HUMANIDADE

Carlos Heitor Cony

Vi o documentário sobre o desastre com o Concorde, em Paris, que matou mais de 100 pessoas, em não me lembro mais qual ano. Foi o início do fim do primeiro supersônico disponível na aviação comercial. Pouco depois, os Concordes que sobraram foram retirados de circulação e parece que destinados a museus e exposições.

Não foi o custo do aparelho nem o alto preço das passagens para se voar nele que motivaram a sua aposentadoria. Tampouco o desastre em si, uma vez que qualquer homem e qualquer coisa por ele produzida estão disponíveis ao desastre.

O que espantou os especialistas foi a insignificância da causa que provocou a catástrofe. Ao rolar na pista para a decolagem, um dos pneus do aparelho foi cortado por uma pequena peça metálica, de 40 centímetros, desprendida de um outro avião que decolara pouco antes. O piloto do Concorde não poderia ver objeto tão pequeno e aparentemente tão inofensivo.

A peça fez explodir um dos pneus das rodas que estavam sendo recolhidas. Um pedaço do pneu bateu com violência na asa esquerda, fazendo um furo, pelo qual saiu o combustível, logo inflamado por uma fagulha. Menos de dois minutos após a decolagem, mais de cem mortos, a poucos quilômetros do aeroporto De Gaulle.

A desproporção entre a causa e o efeito me horrorizou. As criações mais sólidas do homem, que parecem indestrutíveis, perfeitas, costumam ir para o brejo por motivos banais, como o iceberg que afundou o Titanic. No caso do Concorde, a tecnologia da época era bem mais adiantada. Mas o resultado foi o mesmo. Os dois casos são uma lição de humildade que habitualmente esquecemos não apenas na vida pública, mas na vida pessoal de cada um de nós.

Fonte; Folha de S.Paulo - 12/10/2004

terça-feira, 14 de julho de 2026

BANALIDADES ETERNAS

Fabrício CarpinejarFabrício Carpinejar

Você esqueceu o tamanho de sua vida? Largue o Facebook e sua linha cronológica. Apague o celular e o laptop, desligue-se da virtualidade e das imagens editadas e com filtro.

Precisa do brilho da poeira voando, da companhia dos ácaros e das traças. A alergia é prova do retorno ao passado. O espirro é o nosso túnel do tempo.

Vá até a garagem ou o quartinho ou o alto de um armário ou debaixo de sua cama, onde esconde as tralhas de seu passado físico. O passado de papel e de objetos, o passado de fotos, canetas coloridas e medalhas de latão. Tem que enfrentar o trabalho de abrir caixas fechadas, romper a fita adesiva com estilete e lamentar o elástico das pastas estourando.

Mexa nos cadernos da escola, acompanhe a mudança de sua letra, o quanto era caprichada no Ensino Fundamental e ganha contornos de euforia, rebeldia e pressa. Começa emendada e submissa, em seguida vira separada e caixa alta, sem respeitar mais nada, nem pai, nem mãe, muito menos vírgula. Duvido que não se emocione. 

Soltará uma gargalhada de saudade ao reencontrar o rabisco de algum colega no forro da capa dura. Como existia valor naqueles recados de amizade eterna vencendo o nosso tédio nos dois períodos de matemática na segunda-feira de manhã!

Ninguém merecia despertar fazendo cálculos. Lembrará que já foi muito amado. Lembrará as provas difíceis que enfrentou afixando fórmulas pelas paredes do quarto. Achará guardanapos de bares, figurinhas avulsas de álbuns, letras de canções em inglês traduzidas grosseiramente e sinopses de filmes. 

Observará o mundo em miniatura com atenção extrema, respirando devagar, buscando reconstituir o tempo de suas escolhas e o ineditismo de suas descobertas. Vários rostos dedilhados serão novamente atuais. Concluirá, estranhamente, que nenhuma lembrança morre na data que aconteceu. Emocionado, quase chorando, não se contém de vergonha e se repreende em voz alta: — Era o que faltava, virar poeta depois de velho.

Do fundo das caixinhas de CDs e fitas cassetes, puxará um envelope perfumado com uma carta de amor. Escrita por namorada da escola, no instante em que ela rompe o namoro de dois anos.

— Por que você conservou esta tristeza?, — pergunta a si mesmo. E logo responde: — Para rir dos próprios dramas, só pode ser.

Você jurava que morreria, que se mataria, que nunca amaria de novo naquela época. E sobreviveu e recuperou o coração e amou tantas e tantas outras vezes.

É bom testemunhar as suas promessas sendo quebradas, as suas opiniões mudando, os gostos se transformando radicalmente, que nada é definitivo e tudo é eterno.

Não perceberá que está há mais de quatro horas sentado no chão e revirando coisas antigas. Não viu o tempo passar. A gente nunca vê o tempo passar. Mas é ele que nos olha e nos guarda.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 13 de julho de 2026

MEMÓRIA MÁGICA

Ruy Castro

Anthony Hopkins, alcoólatra, um dia acordou magicamente sem vontade de beber Já outros alcoólatras famosos do cinema tiveram lutas dolorosas contra a dependência

Anthony Hopkins acaba de publicar sua, como se diz, autobiografia, "Até Que Deu Tudo Certo". Bem, como praticante da biografia e estudioso do gênero, posso garantir que o que chamamos de autobiografia não existe. Supondo que uma autobiografia seja uma biografia do próprio autor, só faria jus a essa definição se usasse os mesmos recursos de um biógrafo de verdade ao biografar alguém, não? Entre outros, conversar com pelo menos 200 pessoas que conviveram com o biografado, ouvir suas memórias, arrancar suas informações. Mas o dito autobiógrafo não faz isto. Ouve apenas a si mesmo, à sua memória. E esta nem sempre é confiável —tende a "esquecer" certas passagens.

Em sua crítica do livro na Folha, Ana Paula Sousa observa que Hopkins classifica seu alcoolismo nos anos 1970 como tendo chegado "ao fundo do poço". E estranha, com razão, como ele descreve "o fim da dependência como quase num passe de mágica". "O desejo de beber se foi", diz Hopkins, e ele "encontrou Deus". É no que dá só depender da própria memória. Um biógrafo de verdade dedicaria capítulos ao que deve ter sido a luta de Hopkins para sair do fundo do poço.

Muitos astros do cinema foram alcoólatras: Buster Keaton, Spencer Tracy, Montgomery Clift, Ava Gardner, Elizabeth Taylor, Sterling Hayden, Rita Hayworth, William Holden, Errol Flynn, John Cassavetes, Carrie Fischer, Leonard Nemoy, Robin Williams, Drew Barrymore. Os britânicos, como Hopkins, foram legião: Richard Burton, Richard Harris, Peter O’Toole, Albert Finney, Oliver Reed. Todos têm biografias com passagens dolorosíssimas sobre suas dependências.

Nenhum deles teve a felicidade de Hopkins: acordar um dia, magicamente, "sem desejo de beber" —quando, na vida real, a necessidade matinal de beber é aguda, por se ter passado as últimas horas dormindo. E, como bônus, ele ainda "encontrou Deus".

Hopkins devia classificar seu livro não como autobiografia, mas como uma memória —a sua própria e só ela. E não muito precisa, como soem ser as memórias.

Fonte: Folha de S.Paulo - 30/11/2025

terça-feira, 7 de julho de 2026

CASA DE VÓ

Martha MedeirosMartha Medeiros

Eu faço todo o possível para respeitar a opinião e o gosto alheios. Ainda não cheguei à tolerância total, mas tenho feito progressos. Hoje consigo aceitar tranquilamente que alguém considere água tônica uma delícia ou que seja fã da banda Calypso. Cada um na sua. Mas preciso evoluir mais, muito mais, porque ainda fico perturbada quando alguém diz que foi passar a lua-de-mel na Disney. Tudo bem, é uma escolha, um direito, o que tenho a ver com isso? Ainda assim, não consigo evitar o espanto. Dois adultos apaixonados em lua-de-mel na Disney. Jantando com o Mickey!

Isso não significa que eu seja desprovida de espírito lúdico e de apreço à fantasia. Certa vez ouvi a Luana Piovani, num programa de TV, dizendo que a casa dos avós dela foi sua Disney. Bingo. A casa da minha avó também foi, Luana. Tinha uma espécie de morro nos fundos da casa, todo gramado, que dava para um outro nível do quintal. Bem no centro deste morro (deve ser um morrinho, mas a memória de uma criança não respeita proporções exatas) havia uma pequena escada de pedras, porém a gente subia sempre pela grama, claro. Éramos 13 primos fazendo trekking naquele latifúndio.

Lá em cima havia a churrasqueira e algumas árvores, mas o mais tentador era um quartinho misterioso, um depósito meio sem função, nosso QG infantil, que às vezes servia de casa de bonecas, em outras de redação de jornal — eu tinha o topete de escrever as aventuras da família. Se os fundos da casa eram mágicos, a casa propriamente dita era nossa Neverland. Tinha lareira, tinha adega, tinha sótão. Era como estar dentro de um cenário de filme, e havia também a Lucia, uma empregada alemã que parecia uma agente da Gestapo, nunca vi loura tão séria e retesada, mas preparava um cachorro-quente que jamais os Estados Unidos viram igual. Sério: a casa da avó da gente desbanca qualquer Epcot Center.

Hoje estas casas antigas foram derrubadas para dar lugar a prédios imensos, mas mesmo dentro de um apartamento é possível existir uma “casa de vó”, porque casa é só uma maneira de chamar, o que vale é o espírito do lugar, e havendo uma avó que entenda seu papel de proprietária não de um imóvel, mas de um segredo, está garantida a magia. Casa de vó é onde a lasanha e o pastelão ganham um sabor diferente, onde os ponteiros do relógio correm mais lentos, onde os ruídos são mais audíveis, onde o teto parece mais alto, onde a luz entra mais discreta entre as persianas, onde os armários escondem roupas antigas e fundos falsos, e só isso é falso, tudo mais é verdadeiro. Casa de vó é onde os brinquedos não surgem prontos, são inventados na hora. É onde a gente encontra os restos da infância dos nossos pais. E fotos de bisavós, de tios… epa, este sujeito aqui, quem é? Acalme-se, é o namorado novo da sua avó, você achou que ela ficaria viúva para sempre? Ela é sua avó, não um matusalém.

Se as avós não são mais as mesmas de antigamente, em suas casas ainda sobrevive um encanto que não muda. Será sempre um lugar secreto onde encontraremos um piano sem uso, alguns recortes de jornal, anéis coloridos, um bicho preguiçoso, uma máquina de escrever ou de costura, algo que seja estranho aos olhos de uma criança — e espaço, muito espaço para uma imaginação que não é estimulada nem na Disney, nem na rotina maluca de hoje, só mesmo lá dentro, no endereço do nosso afeto mais profundo, onde tudo é permitido.

Fonte: Zero Hora