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terça-feira, 3 de novembro de 2026

A CARTEIRA DE TRABALHO

Martha MedeirosMartha Medeiros

Estava em frente ao computador, como quase sempre estou, esperando que alguma ideia inspiradora descesse do céu para me ajudar a escrever a coluna desta quarta-feira. Enquanto a ideia brilhante não vinha, li o jornal e fiquei ainda mais estarrecida com as notícias sobre o Brasil. Desperdícios, obras inacabadas, tudo ficando para depois, para um dia, para quando Deus quiser, e pensei: não, não vou falar de novo sobre o atraso do país. Aí a palavra atraso me remeteu ao atraso de um pagamento, e fui fazer algumas contas – a tela do computador seguiu em branco.

Foi então que a zeladora bateu à porta do meu apartamento e entregou a correspondência. Entre a papelada havia um envelope sem selo, sem carimbo, só com meu nome escrito. Abri. Não havia um bilhete, um telefone para contato, um e-mail, coisa alguma – apenas a minha carteira de trabalho.

A minha carteira de trabalho! Onde ela estava, e com quem? Eu a teria perdido na rua? Mas quando é que eu portei essa carteira pela última vez, se há quase 20 anos trabalho como autônoma? Jurava que ela estava repousando no fundo de alguma gaveta, e ela me retorna pela porta da frente, assim, como quem volta de um passeio.

A primeira sensação foi a de que entrei para a categoria das destrambelhadas. Como é possível alguém perder algo sem se dar conta? E não foi uma caneta, um pente, e sim um documento. Quanto tempo ele passou fora de casa sem que eu percebesse? Por precaução, fui dar uma espiada no quarto das minhas filhas para ver se suas roupas continuavam penduradas nos armários.

Respirei fundo e abri aquela carteira de trabalho emitida em 1981, com orelhas em todas as folhas desbotadas e frágeis pelo tempo em que estiveram abandonadas, pegando chuva, sendo manuseadas por pessoas estranhas, vá saber. Na primeira página, minha foto: uma estagiária com expressão de pavor, nunca havia trabalhado antes, nada suspeitava sobre seu futuro. A assinatura, ao menos, era segura.

E então, página por página, fui investigando a mim mesma, recordando de todos os lugares onde trabalhei, por quanto tempo, se havia sido demitida, promovida, reajustada. A parte dos salários foi a mais cômica. Em um emprego, eu ganhava 90 mil. No emprego seguinte: 250 mil. E no outro, 1 milhão!! Por fim, em meu último emprego, eu ganhava a gloriosa quantia de 1 milhão e 600 mil cruzeiros mensais. Morra de inveja, Eike.

Depois dessa turnê pelo passado de um país cuja moeda mudava de nome todo ano e cuja inflação fazia nossos rendimentos atingirem essa saraivada de dígitos, fechei a carteira de trabalho e fui tratar de desvendar o mistério de seu retorno ao lar. Desvendado (não revelo porque é bom manter algum mistério nesta vida, e também porque o espaço acabou), voltei conformada para minhas contas, lamentando que não se façam mais milionários como antigamente.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

ALIMENTANDO O MONSTRO QUE ME DESTRUIRÁ

Ruy Castro

Surpreso, acabo de saber que a Wikipédia me aposentou como biógrafo. Mas o que seria dela sem a miríade de informações que chupa alegremente dos biógrafos e historiadores?

Artigo recente num site a respeito da produção de biografias afirma que, em vista da tecnologia, os biógrafos terão de procurar novas maneiras de trabalhar se quiserem continuar a ter leitores. De repente, vejo-me citado: "Até há pouco, quem quisesse saber sobre a vida da Carmen Miranda teria de ler o livro do Ruy Castro ["Carmen, Uma Biografia"]. Hoje temos a Wikipédia". Epa! Sem saber, eu fora aposentado pela Wikipédia! Que chato! E logo agora que ainda me via com anos de trabalho pela frente! Conformado, calcei as pantufas, sentei-me na cadeira de balanço, estendi uma manta sobre as pernas e fui à dita Wikipédia para aprender sobre Carmen Miranda.

O verbete de Carmen na Wikipédia tem nada menos que 34 telas. Fui brindado com duas generosas menções ao meu livro, o que achei justo —ou ele teria de se referir a mim em pelo menos metade das linhas. Dele constam informações que levantei sobre Carmen até então nunca publicadas —sua infância na Lapa, seus namorados, as pessoas que a ajudaram a deslanchar como cantora e detalhes íntimos sobre suas dependências químicas.

Ainda me lembro de como foi difícil chegar a elas nos cinco anos de trabalho que o livro me tomou, envolvendo mais de 250 informantes e colaboradores. Hoje este livro não poderia ser feito, porque 100% das pessoas que conviveram com Carmen e com quem falei entre 2000 e 2005 já morreram. E não me consta que a tão reputada Wikipédia tenha a capacidade de ressuscitar fontes.

Aliás, pergunto-me como seria a Wikipédia sem a miríade de informações a custo levantadas pelos biógrafos e historiadores, os quais, tendo suas obras publicadas, veem essas informações tornadas públicas e, daí, aptas a serem alegremente chupadas por ela e servidas ao público à revelia deles.

"Carmen, Uma Biografia" não é o meu único livro a abastecer verbetes da Wikipédia —Wikipédia esta que não me serviu de muita coisa quando eu os estava escrevendo. No fundo, é como se eu estivesse alimentando o monstro que me destruirá.

Fonte: Folha de S.Paulo - 27/12/2025

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

HISTÓRIA MAL CONTADA

Carlos Heitor Cony

Cinqüenta anos após a morte de Vargas, tragédia fartamente relembrada pela mídia nos dias que correm, espanta-me o fato de até hoje não ter sido apurado o crime da rua Toneleros que deu partida e pretexto para a crise política que levou o presidente da República ao suicídio.

Basta uma consulta aos dois jornais que mais amplamente cobriram o caso. Um deles, a "Tribuna da Imprensa", da qual uma das vítimas do atentado era dono e principal articulista, e que seria o único alvo da emboscada, publicou declarações do próprio Carlos Lacerda, ainda no hospital onde cuidava do ferimento em seu pé. Disse Lacerda que havia três pistoleiros atirando contra ele, numa fuzilaria infernal. As declarações de Lacerda foram publicadas com destaque na edição do dia seguinte, 5 de agosto de 1954.

O filho de Lacerda, que estava junto do pai no momento dos tiros, disse a mesma coisa: três pistoleiros atirando sem parar. "O Globo", na edição do dia 6, publica um desenho reconstruindo o atentado, mostrando três pistoleiros na rua Toneleros disparando suas armas.

O tiro que feriu o pé de Lacerda era de uma arma calibre 38. Os tiros disparados pelo assassino Alcino (que mataram o major Vaz), eram de uma arma calibre 45. Lacerda teria sido atingido por um outro pistoleiro ou ele próprio, segundo uma versão nascida naquela mesma noite, teria disparado contra o pé, de propósito ou casualmente, coisa que ocorre com frequência aos atiradores circunstanciais. O laudo do hospital que atendeu o jornalista está desaparecido até hoje.

Quando se obteve um nexo entre o atentado e a guarda pessoal de Vargas, a versão original foi esquecida, sepultada pelo IPM da República do Galeão que apurava o caso. O próprio Lacerda mudaria de opinião, dias mais tarde, afirmando que havia um só pistoleiro. Como se vê, o caso foi mal apurado e nele cabem versões que contradizem a história oficial que continua manipulada.

Fonte:Folha de S.Paulo - 24/08/2004

terça-feira, 27 de outubro de 2026

DO QUE NÃO SENTIMOS FALTA EM PARIS

Por Evandro Barreto

Pelo que contam os passaportes, somos todos brasileiros. Mas, à menor provocação das circunstâncias, logo nos revelamos riograndenses do norte ou do sul, mineiros ou pantaneiros, baianos ou acreanos, nativos do Jardim Paulista ou do Jardim de Alá. Com nossos valores e nossas frescuras, atravessamos o mundo sem perder de vista a esquina de casa.

No entanto, quando estamos em Paris esquecemos que sábado é dia de feijoada no “Bolinha” enquanto derrotamos um cassoulet na “Fontaine de Mars”. Do alto da torre, vemos o sol se por sem suspirarmos pelos crepúsculos do Guaíba ou de Iracema. Manhã de verão e não estou no Leblon? Pas grave. O verão de lá dura o ano inteiro e hoje tem Beethoven na Salle Pleyel. O casal de Bel’zonte, presença constante no Inhotim, chega a uma conclusão, enquanto percorre o Parc Monceau: “Esta é outra cidade sem mar que nos agrada muito”.

Nova Iorque nos sacode, Londres nos impõe respeito, Roma nos emociona, mas Paris nos completa a todos. Italianos como Yves Montand, holandeses como Van Gogh, espanhóis como Picasso, suíços como Godard, americanos como Hemingway, brasileiros como Santos Dumont só ficaram prontos quando chegaram aqui.

Você, não sei, mas quando volto ao Brasil revejo a última viagem como uma criança gira um caleidoscópio. Fragmentos coloridos das sucessivas temporadas vão-se justapondo e combinando de modo aleatório para formar imagens inéditas, em que o totalmente novo realimenta o conhecido, preenchendo espaços, abrindo rotas, prenunciando iluminações e desafios num quebra-cabeças sem fim. Paris tem sempre a resposta e nada me faltará.

Fonte: www.conexaoparis.com.br

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

21ANOS SEM FUMAR

Ruy Castro

O cigarro só parece dar prazer porque aplaca a fissura que ele mesmo cria. Descobrir isso me deu a sensação de ter sido tapeado nos 37 anos em que fumei

No próximo dia 5 de janeiro, completo 21 anos sem fumar. É como chegar de novo à maioridade. Precisei disso para concordar com o que sempre ouvi dizer e nunca levei a sério —que fumar é um ato infanto-juvenil que as pessoas levam pela vida afora. É verdade, mas aprendi também que não é só isso.

Há uma diferença entre começar a fumar e continuar a fumar. Começa-se porque os adultos em volta fumam e porque queremos ser adultos. Mas só continuam a fumar aqueles cujo organismo supera os primeiros dias de ingestão de fumaça —os que não suportam seus efeitos param por ali mesmo. E os que não acusam tais efeitos não veem razão para parar. Foi o meu caso. A propaganda maciça, a facilidade para comprar e o baixo custo do produto dão continuidade ao uso. E, com este, fecha-se rapidamente o ciclo: vem a dependência.

O século 20 criou uma fascinante liturgia sobre o suposto charme de fumar —os cigarros importados, os isqueiros Zippo, os cinzeiros subtraídos de hotéis históricos (o meu, trazido na mala "por engano", era do Algonquin, de Nova York). Fumava-se no avião, nas salas de espera, até no hospital —médicos fumavam. Mas o principal e diabólico argumento do discurso referia-se ao prazer de fumar.

Passei por todas as etapas acima e hoje sei de onde vem esse prazer. Fumar, em si, não dá prazer. Só parece dar, porque aplaca a fissura que ele próprio cria —pelo fato de que o cigarro anterior acabou há 15 ou 30 minutos. Ou seja, quem nunca fumou não sentirá necessidade de fumar nem falta do "prazer". Essa descoberta deu-me a dura sensação de ter sido tapeado nos 37 anos em que fumei.

Escrevo isto ao ler no Globo (14/12) a frase do diretor-geral da Philip Morris no Brasil: "Cigarros pertencem aos museus". E por que não? Sua empresa continua a vender nicotina em vapes sem fumaça, sachês que se colocam na gengiva, bastões de folhas de tabaco aquecido e outras formas de causar dependência. E, num aparente ato falho, disse: "Provocam menos dano". É só a nova estratégia.

Fonte: Folha de S.Paulo - 24/12/2025

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

BOTA MULHER NA PARADA

Carlos Heitor Cony

Não chega a ser uma frustração, tampouco é motivo de glória para mim. Nunca participei de uma parada militar, dessas que se realizam anualmente no Dia da Pátria, que por sinal é hoje e terá comemorações certamente condignas.

Apesar de oficial da reserva, nos anos em que prestei serviço militar sempre acontecia alguma coisa que me dispensava --ou eu próprio me dispensava-- do cívico desfile. Mas conheci amigos e colegas amarrados numa parada, vendiam a alma para descolarem um lugar de destaque, uma bandeira, um cachorro, qualquer coisa que sobressaísse do ordinário-marche da tropa.

Houve um ano em que, no CPOR de São Cristóvão, passei uma semana limpando fuzis-mauser 1918 para que eles brilhassem na parada de 7 de setembro. Dois contratempos tornaram inúteis meu sacrifício pela pátria: Não pude desfilar porque, dias antes, pulando um obstáculo, tive uma distensão muscular que me botou uma semana na enfermaria. Além disso, naquele ano choveu pra burro e os fuzis limpos e lubrificados por mim, deixaram de ser reluzentes, transformando-se num ferro velho e gosmento.

Foi no ano em que Luíz Reis e Haroldo Barbosa fizeram um sambinha gostoso sobre a necessidade de se colocar mulher em tudo na vida. Numa das estrofes, eles diziam que respeitavam os desfiles militares mas que eles precisavam de mulher para se tornarem melhores. Havia o refrão que nunca esqueci: "Ai, ai, ai meu capitão, bota mulher na parada e me chama pra empurrar canhão!"

Gostei do sambinha mas nem assim, nem com mulher na parada, eu gostaria de empurrar canhão. Mas admiro e louvo todos aqueles que, no dia de hoje, dedicado à Pátria amada salve, salve, mesmo sem mulher no pedaço, empurrarão os canhões que nos defendem da vilania e da peçonha dos nossos inimigos.

Fonte: Folha de S.Paulo - 07/09/2004

terça-feira, 20 de outubro de 2026

MEUS FAVORITOS

Martha MedeirosMartha Medeiros

Estarei fora de Porto Alegre durante todo o período da Feira do Livro, mas para não me sentir totalmente afastada do evento, deixo aqui minha seleção de favoritos do ano, advertindo que nunca li tão pouco como em 2013, portanto, muita coisa boa ficou de fora. Um toque: antes de adquirir algum livro citado, dê uma folheada e leia a orelha – você sabe, gosto é gosto.

Melhor livro que daria um ótimo filme: Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera. Foi lançado no verão passado e ainda não saiu da minha cabeça.

Melhor livro que virou filme: Eu e Você, de Niccolò Ammaniti. Estreará em novembro, com direção de Bernardo Bertolucci.

Melhor livro de crônicas: Um Operário em Férias, de Cristóvão Tezza, um autor que circula com desenvoltura por todos os gêneros e merece o título de um dos maiores escritores em atividade.

Melhor livro que encerra a discussão sobre a diferença entre literatura masculina e feminina: o excelente Partir, da carioca Paula Parisot. É um road book: um homem vive uma série de experiências na estrada, ao deixar São Paulo rumo ao Alasca – pois é, logo ali, o Alasca. Escrevendo na primeira pessoa, Paula dá vida a um cara convincente, que em nenhum momento é traído pela feminilidade da mulher que o inventou.

Melhor livro de esposa de autor consagrado: O Verão sem Homens, de Siri Hustvedt, que vem a ser a senhora Paul Auster.

Melhor romance: Philip Roth, sempre ele, com seu magnífico O Professor do Desejo.

Melhor livro de bolso: Carta ao meu Juiz, de George Simenon.

Melhor livro que reli: O Apanhador no Campo de Centeio, que virou musical em cartaz atualmente em Porto Alegre. Mais um exemplo do amadurecimento do nosso teatro. Direção, coreografia, elenco, adaptação – a turma arrasa, e ainda tem as canções especialmente compostas para a peça pelo Thedy Corrêa. Assista logo, a temporada está quase acabando. É imperdível.

Melhor livro experimental, o que for que isso signifique: Miranda July com seu interessante O Escolhido foi Você.

Melhor livro divertido e com ótimos diálogos: O Substituto, de David Nicholls.

Melhor livro lançado em 1923, mas que só fui ler agora: A Consciência de Zeno, de Italo Svevo.

Melhor livro gaúcho: bom, em terra de Fabrício Carpinejar, Cíntia Moscovich, Leticia Wierzchovski, Paula Taitelbaum, dos veteranos Armindo Trevisan, Verissimo, Lya Luft, Assis Brasil, do patrono Luis Augusto Fischer, dos jornalistas David Coimbra, Mariana Kalil, Cláudia Laitano, do médico e colunista J.J. Camargo e de tantos outros talentos com livro na praça, não me atreverei a escolher um só. Mas o prêmio de mais hilariante relato sobre a praga que é telefonar para os serviços de atendimento ao consumidor vai para o conto “Hormônio do Demônio II”, que está em Sangue Quente, de Claudia Tajes.

Como se vê, tem para todos os gostos, inclusive (espero) para o seu.

Boa Feira!

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A VITÓRIA DE JO ANN

Ruy Castro

Uma menina de 14 anos foi símbolo da luta pelo direito de seus colegas à educação. 600 membros da Guarda Nacional em farda de combate garantiram a integração racial numa escola

Em 1964, a revista americana Look, com seus seis milhões de exemplares semanais, dedicou a página dupla central a uma ilustração feita pelo artista Norman Rockwell. Na cena, uma menina negra, escoltada por quatro agentes federais a caminho de uma escola pública branca, passa diante de um muro onde se leem as pichações "nigger" e "KKK" (referência à organização supremacista Ku Klux Klan) e se vê a mancha de um tomate escorrendo, atirado contra o muro —ou contra ela. Era o auge do movimento pelos direitos civis nos EUA, cem anos depois de uma guerra civil que se propunha a evitar que tais coisas acontecessem.

A imagem de Rockwell se referia a um fato ocorrido oito anos antes em Clinton, cidade de 4.000 habitantes no racista estado do Tennessee, quando 12 meninas e meninos negros, aptos a ingressar na escola secundária, foram ofendidos e atacados durante dias pelos brancos da cidade, que não admitiam a integração racial em suas escolas. A essa agressão se juntavam os alunos brancos, ofendendo seus colegas negros, pondo-os a correr e os alvejando com giz e apagadores.

A chegada à cidade de repórteres dos jornais e revistas de Nova York forçou o governador do estado a garantir o direito daquelas crianças à educação, convocando 600 membros da Guarda Nacional em farda de combate e cem patrulheiros rodoviários para conter a ira da majoritária população branca. Com isso, o ginásio de Clinton se tornou a primeira escola integrada do sul do país e Jo Ann Allen, uma corajosa garota de 14 anos, o símbolo daquela luta.

Em 2016, Jo Ann, que seguiria a carreira da enfermagem, teve a glória de ver o quadro de Rockwell, um óleo sobre tela de 91 x 150 cm, ser pendurado pelo presidente Barack Obama numa parede da Casa Branca, com sua presença. Obama lhe disse que, se não fosse por ela, talvez ele próprio não estivesse ali para prestar-lhe aquela homenagem.

Jo Ann Allen morreu na semana passada em Los Angeles, aos 84 anos. Há um memorial em Clinton em homenagem à sua luta.

Fonte: Folha de S.Paulo - 21/12/2025

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

CHEGAREMOS LÁ

Carlos Heitor Cony

Como tudo na vida, podia ser melhor ou pior. As Olimpíadas deste ano, para os nossos lados, chegou a ser razoável, sobretudo nos últimos lances, com o ouro do vôlei masculino e o bronze na maratona, que poderia ter dado mais um ouro para o Brasil, não fosse a falha da segurança que não impediu um fanático de atrapalhar a vitória de nosso atleta.

Não fizemos feio nem bonito. Em Atlanta foi melhor, tivemos mais medalhas, mas em Atenas a empolgação da nossa torcida foi maior. Aos poucos, o povão começa a se interessar pelos resultados, mesmo naquelas modalidades que não compreende bem, como o lançamento de discos, hipismo, saltos acrobáticos, os diversos estilos de natação e iatismo.

Basquete, vôlei, futebol, esportes coletivos em geral, têm apelo maior, são vistos e geralmente compreendidos. Mesmo assim, gradualmente, estamos criando uma mentalidade que se não chega a ser olímpica, está caminhando para isso. Neste particular, o Comitê Olímpico Brasileiro está de parabéns. Roma não se fez num dia.

O trabalho do COB se bifurca em duas frentes importantes: a primeira, e a mais imediata, é forçar o governo a criar uma política do esporte levada a sério, que esqueça os paredros profissionais do futebol e pense globalmente na valorização dos nossos atletas, técnica, física e moralmente. A segunda é de fundo marqueteiro, criar condições para que o atletismo em sua forma mais nobre, que é a olímpica, ganhe mentes e corações, ganhe ruas e torcidas inflamadas. O futebol é considerado a pátria em chuteiras. É bom mas é pouco. No dia em que tivermos 11 medalhas de ouro numa Olimpíada teremos chegado lá.

Fonte: Folha de S.Paulo - 31/08/2004

terça-feira, 13 de outubro de 2026

IMOBILIDADE DO INVERNO

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Terrível no inverno não é passar frio, mas tentar não passar frio.

É se antecipar ao desconforto do vento e da tremedeira.

Passamos a estação inteira nos adiantando para não sofrer e terminamos sofrendo o dobro.

Nunca conseguimos nos agasalhar para o frio psicológico.

Planejamos um momento em que estaremos protegidos que nunca chega. Sempre falta uma coisa que encerra o aconchego que criamos detalhadamente.

É como se refugiar num abrigo antiaéreo e deixar a sacola de mantimentos lá em cima. Subir ou não subir de volta?

Quantas vezes já tremi a noite inteira somente porque não desejava me levantar para buscar um edredom?

Dentro do sono, eu pensava: será que vou ou não vou? E, por fim, dormia com a angústia da dúvida, tremendo, chamando a gripe para conviver comigo.

Inverno é um dilema permanente, um descuido irreversível.

Vou assistir a um filme na sala com a minha mulher, preparamos pipoca e chocolate quente, puxamos o edredom, demoramos para encontrar o lugarzinho ideal, para nos encaixar entre as almofadas e o encosto, no instante em que alcançamos a perfeição alguém se dá conta da ausência do sal. Qual será a alma caridosa a largar a fortaleza e trazê-lo da cozinha? A tristeza é que – se um sair – recomeçará todo o reposicionamento delicado que levou horas para ser feito.

A ânsia de não sofrer contratempos supervaloriza o incômodo. A mania de querer uma situação ideal nos põe em perigo.

Qualquer movimento em casa é acampamento, com o medo permanente de sair do fundo da barraca após o esforço de montá-la. É trazer tudo para não se mexer depois, mas sempre existe um lapso.

Inverno é frustração, é distração letal.

Quem já não enfrentou o banho rápido, desafiou o gelo do lençol, friccionou seus pés com os pés da esposa, abraçou forte sua companhia debaixo da montanha de cobertas, suspirou de felicidade quando se enxergou novamente quente e, de repente, verifica que a persiana tem uma fresta de luz? É preciso muita coragem para abandonar o acolhimento custoso e reiniciar os trabalhos.

No inverno, por maior que seja a cautela, esqueceremos algo.

Perderemos consecutivamente a vantagem que adquirimos com a prevenção.

Basta encontrar uma posição para se morrer feliz que seremos impelidos a ressuscitar.

Fonte: carpinejar.blogspot.com.br

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

NO PEITO DOS MONSTROS BATE UM CORAÇÃO

Ruy Castro

Frankenstein, a Múmia e o Lobisomem não pediram para ser o que eram Temos de rever também os casos de o Médico e o Monstro, Drácula e o querido Godzilla

Ouço dizer que filmes recentes, como "Frankenstein", de Guillermo del Toro, até que enfim estão enxergando o lado humano dos monstros do cinema. Folgo em saber e só lamento que tenha demorado tanto. Há anos, em já incontáveis artigos, insisto em afirmar que no peito da Múmia, do Lobisomem e da Criatura do doutor Frankenstein também bate um coração.

A Múmia era originalmente um egípcio apaixonado por uma garota cujo pai a prometera ao faraó. A menina se via muito mais nos braços do rapaz do que nos do faraó, que, apesar de faraó, era quase uma múmia viva. O pai não quis correr riscos e providenciou a eliminação do jovem. Morto e mumificado, este passou os 4.000 anos seguintes quieto em sua tumba no Egito, até que, por volta de 1922, arqueólogos ingleses a descobriram e violaram.

Foi uma imprudência. Assim que aberto o sarcófago, dois ou três dos arqueólogos tombaram mortos pelo bafo da Múmia. Os sobreviventes a levaram para o Museu Britânico, em Londres, onde, por artes do sobrenatural, ela ressuscitou e saiu em busca da sua bem-amada, reencarnada, veja só, numa inglesa. Mas Londres não estava preparada para receber em seus salões uma Múmia em tiras milenares e imundas, donde ela foi perseguida e, para se defender, começou a matar. Que culpa tinha?

Com o Lobisomem, a mesma coisa. Um aristocrata inglês tem a fatalidade de ser mordido por um lobo numa noite de Lua cheia e, quando essa Lua se repete, ele se transforma num homem-lobo que estraçalha a dentadas os incautos passando pela floresta. Nos filmes, ao morrer a tiros, o Lobisomem reverte ao formato humano. Sempre torci para que, nesse momento, ele fosse mostrado vertendo uma lágrima, símbolo de seu infeliz destino. Mas, até hoje, nunca. Vamos ver agora.

Por fim, a pobre Criatura. Construída com restos de cadáveres por um cientista irresponsável, como ela podia ser recebida em sociedade? Por falta de espaço, deixo para outra ocasião a alta conta em que também tenho o Médico e o Monstro, Drácula e o querido Godzilla.

Fonte: Folha de S.Paulo - 20/12/2025

terça-feira, 1 de setembro de 2026

NEM TODO MUNDO

Martha MedeirosMartha Medeiros

Nem todo mundo quer ser campeão, presidente, celebridade. Há quem queira apenas viver de um jeito que não seja julgado por ninguém 

A gente acredita que existe um senso comum regendo nossos gostos e opiniões, porém somos sete bilhões pensando e vivendo de forma muito distinta uns dos outros.

Nem todo mundo é regido pelo dinheiro, por exemplo. Dinheiro é bom, é necessário e, quanto mais, melhor – mas esse “mais” não obceca a todos. Há quem troque o “mais dinheiro” por “mais sossego” e “mais tempo ocioso”. Qual o sentido de trabalhar insanamente se já se tem o suficiente para viver com dignidade?

Nem todo mundo gostaria de morar numa mansão com uma dezena de quartos e espaço de sobra para se perder: tenho uma amiga que desistiu do apartamento cinematográfico onde morava, pois ela não conseguia enxergar os filhos nem conversar com eles – eram longos os corredores e muitas as portas. Parecia que a família vivia num hotel, e não num lar. Trocou por um apartamento menor e aproximaram-se todos.

Nem todo mundo prefere mulheres com cara de boneca e corpo de modelo, ou homens com rosto de galã e corpo de fisiculturista. Imperfeições, exotismo, autenticidade, um look de verdade, natural, sem render-se a uma busca sacrificada pela beleza, ah, o valor que isso ainda tem.

Nem todo mundo gosta de bicho, de doce, de praia, de ler, de criança, de festa, de esportes, e nem por isso merecem ser expulsos do planeta por inadequação crônica. Seus prazeres estão fora do catálogo da normalidade e ainda assim são criaturas especiais a seu modo, enquanto que outras pessoas podem cumprir todas as obviedades consagradas e isso não adiantar nada na hora da convivência: são ruins no trato, fracas de humor e voltadas para o próprio umbigo, apesar de seu exemplar enquadramento social.

Nem todo mundo veio ao mundo para brigar, para reclamar, para agredir, para difamar, para fofocar, para magoar, para atrapalhar – hábitos de muitos, até arrisco dizer que da maioria, já que é mais fácil chamar a atenção através do nosso pior do que do nosso melhor. O pior faz barulho, o pior ganha as manchetes, o pior gera comentários, o pior recebe os holofotes, o pior causa embaraço. Porém, há os que vieram em missão de paz e não se afligem pela discreta repercussão de seus atos.

Nem todo mundo quer casar, quer filhos, quer fazer faculdade. Nem todo mundo quer ser campeão, presidente, celebridade. Há quem queira apenas viver de um jeito que não seja julgado por ninguém, há quem queira apenas se expressar de um modo menos exuberante e mais íntimo, há quem queira apenas passar pela vida nutrindo a própria identidade, não se preocupando em colecionar seguidores, admiradores e afetos de ocasião.

Sem jogar pra torcida, há quem queira apenas estar bem consigo mesmo.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

POR QUE EU ESCREVO

Ruy Castro

Entre outros motivos, porque não sei fazer mais nada Um futuro pesquisador não encontrará uma única linha inédita nas minhas gavetas

Minha colega Mirian Goldenberg tirou-me as palavras da boca outro dia. Disse que, com ou sem a IA, ela continuará a escrever. É exatamente o que eu queria dizer. Há quase 100 anos não faço outra coisa e é difícil dispensar velhos hábitos. Além disso, não sei fazer mais nada —nunca dirigi um carro, mal consigo trocar uma lâmpada e não sei cozinhar nem macarrão. O tempo em que podia estar desenvolvendo essas habilidades foi gasto lendo pessoas que escreviam bem e tentando aprender com elas.

Assim como as crianças da pré-história, comecei escrevendo nas paredes, não das cavernas e com uma costela de mamute embebida em sangue, mas nas da sala de casa mesmo, e a lápis. Logo cheguei à máquina de escrever e, ainda quase imberbe, vi-me numa Redação de jornal. O Rio tinha então 15 jornais diários, mas eu estava justamente no que queria: o heroico Correio da Manhã. Foi minha introdução ao combate entre a página impressa e o obscurantismo, no caso, vencido por este. O jornal foi destruído pelo regime militar na sequência do AI-5, em 1968, mas isso desenvolveria em nós, seus órfãos, uma casca grossa que nos valeria para sempre.

Dali passei por uma quantidade de veículos e, não muito comum na profissão, orgulho-me de nunca ter produzido uma linha em que não acreditasse. Claro que me arrependo de muitas, mas, na época, me pareciam as corretas. Quero crer também que haja uma coerência entre elas: desafio um futuro pesquisador a encontrar, em milhares de artigos, crônicas e reportagens, um elogio a um governante.

Ele também não encontrará nas gavetas uma única página que possa chamar de "inédita", não publicada. Poemas, então, nem pensar —por respeito aos poetas que admiro, jamais cometi um na vida. Tudo que produzi até hoje foi escrito para sair amanhã, na semana seguinte, dali a três meses ou no ano que vem. Tudo com destino marcado: colunas de jornal, uma reportagem para uma revista, um livro já programado pela editora.

O problema, Mirian, será: o que fazer no Além?

Fonte: Folha de S.Paulo - 18/12/25

terça-feira, 25 de agosto de 2026

POR QUE ESCREVO SEM PARAR?

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Escrevo sem parar, escrevo cinco textos por semana, para que você nunca deixe de se apaixonar por mim.

Escrevo sem parar para que você me abrace pelas costas, e nem lhe veja se aproximar de mim, distraído como sou diante das janelas abertas, que apareça com seus pés de vento e pluma e me enlace e encaixe sua cabeça em meus ombros e diga que me ama suspirando, como alguém que diz um bom dia nos ouvidos.

Escrevo sem parar para lhe convencer do quanto preciso de você, do jeito que for, do jeito que é.

Escrevo para me casar com você, para planejarmos as férias, para um dia você deixar que o nosso filho jogue bola dentro de seu ventre.

Escrevo porque não me dei por vencido, não me dei por satisfeito, não sinto que o meu amor é suficiente para garantir o seu amor e farei surpresas no interior das surpresas até que tudo entre nós seja conhecido.

Escrevo sem parar em qualquer canto ou movimento, com caneta, lápis, teclado e unha na tela, a tinta dos meus escritos estará em seus olhos verdes.

Escrevo sem parar, mesmo que não me leia, mesmo que me esqueça, mesmo que não tenha vontade de falar comigo.

Escrevo sem parar porque há datas quebradas, há datas com uma única asa para voar e o esforço das pernas em correr para ganhar impulso.

Escrevo sem parar porque a água é madura com as pedras redondas no fundo do leito, porque eu sou maduro quando toco os seus pés na cama.

Escrevo sem parar, pois caminho um pouco mais com a boca em cada beijo nosso.

Escrevo sem parar em nome do que não vi, não vi você andando de bicicleta.

Escrevo sem parar para chamar a sua atenção, pela carência que ilumina os meus enganos, pela fé que conserta o meu juízo, pela esperança que refaz a nossa memória.

Escrevo sem parar para curar a sua tristeza, para que não se isole nos pensamentos loucos, para jamais conclua que é melhor ficar sozinha.

Escrevo sem parar para vê-la de novo abrindo a porta de nossa casa.

Escrevo sem parar para admirá-la por encontrar um modo de tomar banho de sol no inverno, ainda que cheia de casacos, com o mesmo tempo de frente e de costas.

Escrevo sem parar porque meu sangue deve ser quente e sua cerveja gelada.

Escrevo sem parar como um mendigo que se cobre de jornal e não lê as notícias que estão em sua cara, que prefere inventar a próxima manhã, absurdamente desatualizado da própria vida e só sabendo de você.

Escrevo sem parar por orgulho e teimosia, por insistência e vaidade, já que não encontrei nada melhor que substituísse seu riso.

Escrevo sem parar pelo dom de confundir o espaço dos travesseiros e me prender em seus cabelos quando deitamos juntos.

Escrevo sem parar, como um animal da respiração, baixo a cabeça e escrevo, este meu violão sem cordas, esta minha flauta sem pinos, este saxofone sem garganta.

Escrevo sem parar a procurar um perdão melhor do que o de ontem, uma confissão mais sincera para amanhã, palavras que confirmem o quanto sou seu desde sempre.

Escrever é a minha decisão de estar com você.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ENORME HAROLDO

Ruy Castro

Haroldo Costa foi o Orfeu com que Tom e Vinicius dividiram a cultura brasileira O repórter que cobria uma nova montagem da peça não sabia que estava diante do criador do personagem

Na noite de 10 de setembro de 2010, eu entrava no Canecão para a estreia de "Orfeu", uma nova versão da peça "Orfeu da Conceição", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, quando vi o enorme amigo à minha frente: Haroldo Costa. Enquanto nos abraçávamos, um repórter se materializou entre nós e, de costas para Haroldo, começou a me fazer perguntas. Expliquei-lhe que não tinha nada a dizer. Quem ele devia entrevistar era o homem ao meu lado –nada menos que o Orfeu da encenação original, estreada no Teatro Municipal no dia 25 de setembro de 1956.

O repórter levou constrangedores segundos para entender o que eu estava falando e, ao se virar para Haroldo, não sabia o que perguntar. Tive de dar-lhe a ficha: era Haroldo Costa, o Orfeu de Tom e Vinicius, e não somente isso. Nos meses anteriores à estreia, fora o protagonista de incontáveis reuniões na casa de Vinicius em Ipanema, ajudando o diretor Leo Júsi a desenvolver seu próprio personagem e todos os demais. E sobrava-lhe cacife para tal: egresso do Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento, nos anos 40, Haroldo passara metade dos anos 50 na Europa com o seu "Brasiliana", um espetáculo de dança brasileira, e, de volta ao Rio, tinha mais experiência do que toda aquela equipe junta.

O Orfeu da nova encenação, dirigida por Aderbal Freire-Filho, era o novato Érico Brás. Haroldo, espero que convidado para a estreia, teria passado despercebido ali se eu não tivesse alertado o repórter. Não sei se ele se sentiu magoado ou se já se habituara àquele esquecimento. Era o Brasil.

E olhe que ele era famoso —comentarista da transmissão dos desfiles das escolas de samba no Carnaval pela TV Globo. Todos os anos, seu rosto bonito e generoso ocupava as telas por duas madrugadas inteiras.

Em 1956, Tom e Vinicius dividiram a cultura brasileira em antes e depois, com sua decisiva participação. Mas, na maioria das matérias sobre sua morte, no Rio, sábado último (13), aos 95 anos, Haroldo reduzia-se a um comentarista de Carnaval.

Fonte: Folha de S.Paulo - 17/12/2025

terça-feira, 18 de agosto de 2026

UMA CASA EM FRENTE AO MAR

Martha MedeirosMartha Medeiros

Nunca mais escrever uma única linha, basta, tempo esgotado, já disse tudo o que tinha e o que não tinha para dizer, nada mais a acrescentar

Sabe aqueles dias em que você pensa o que ainda estou fazendo aqui?

Sendo “aqui” uma cidade em que você corre o risco de ser assaltada, em que mil festas, peças e lançamentos acontecem e você não consegue participar de quase nada por falta de tempo ou cansaço, e em que você fica dia e noite na internet conferindo as postagens de gente que mal conhece, permitindo que a felicidade e a inteligência alheias minem aos poucos sua autoestima, já que você, sendo bem franca, não é tão feliz, nem tão linda, nem tão espirituosa, nem tão brilhante. Sabe aqueles dias?

Tenho tido uns dias assim. Em que me visualizo numa casa à beira-mar com uma longa extensão de areia para minhas caminhadas, seguindo uma dieta mediterrânea com peixes, azeites e tomates que muito me atraem, lendo finalmente os livros que acumulei na esperança de que chegaria a hora deles, cometendo alguns pecados capitais como a preguiça, a luxúria e a gula, passando os dias ouvindo música, gastando pouco, vestindo quase nada, recebendo visitas ocasionais, aprendendo a cozinhar, namorando um pescador, ah, essas fantasias que nem mesmo originais são.

Por escrito, esse desapego soa como o Éden, mas vivenciado, sabemos que nem sempre é tão fácil. Pessoas acostumadas a estarem plugadas na tomada geralmente não suportam mais do que três dias de mansidão, o que dirá três anos, o que dirá o resto da vida, esta que pode durar ainda umas três décadas.

O que fazer quando se está tão desinteressada do que se tem?

Hoje foi um dia em que me transportei para o clichê de todo workaholic: adeus, estresse, vou abrir uma pousada – eu que nunca sonhei em ter uma pousada. Sonho, neste instante, em não ter carro, não ter compromissos, não ter agenda, não ter coisa alguma. Raspar minhas economias no banco e torrá-las na manutenção de um cotidiano simplificado.

Nunca mais escrever uma única linha, basta, tempo esgotado, já disse tudo o que tinha e o que não tinha para dizer, nada mais a acrescentar. Agora, só leitura, só silêncio, só papo furado com o pescador. Segunda vez que o pescador aparece nesta história, já estou apaixonada antes mesmo de conhecê-lo.

E à noite, olhar as estrelas, beber meu vinho e morrer de um tédio bom. Quando a santa paz começasse a dar nos nervos, poderia voltar à urbe, rever os amigos, pegar um cinema, renovar o estoque de livros, de queijos, de frescuras e retornar correndo para a beira da praia, fazer um rabo de cavalo e se sentir personagem de um filme – eu sempre enxergo esses ermitões de meia-idade como charmosos personagens de um filme alternativo, de baixo orçamento e pouca bilheteria.

Mas esse filme ainda não saiu do papel e amanhã é segunda-feira. Acorda, dona Martha.

Fonte: Zero Hora

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

ESPÓLIO COMO MOEDA DE TROCO

Ruy Castro

As tecnos brigam pelo presente da Warner, não pelo seu passado O que já foi um fabuloso patrimônio cinematográfico nada significa diante do monopólio da comunicação

A Warner —antiga Warner Brothers, o maior estúdio de Hollywood depois da MGM— está a leilão nos EUA entre forças poderosas. Seu controle por esta ou aquela tecno significará quase um monopólio da comunicação por quem se sair vencedor. O irônico é que em disputa está o presente da Warner —enorme, apesar da situação quase falimentar a que foi levada por fusões malsucedidas. Já seu passado, um patrimônio da cultura americana, será no máximo um bônus para quem levar a marca.

É uma marca com 102 anos de história, desde que os irmãos Harry, Jack, Sam e Albert Warner se estabeleceram em Hollywood em 1923. Da Warner saíram "O Cantor de Jazz" (1927), primeiro filme sonoro da história, com Al Jolson, os caleidoscópicos musicais de Busby Berkeley, os filmes de gângsteres com James Cagney, Edward G. Robinson e Humphrey Bogart, a fabulosa linha de desenhos animados com destaque para Pernalonga, os capa-e-espada com Errol Flynn, grandes dramas com Bette Davis e Joan Crawford, os musicais de Doris Day e clássicos como "Relíquia Macabra" (1940), "Casablanca" (1942), "O Pirata Sangrento" (1952), "Juventude Transviada" (1955), "Rastros de Ódio" (1956), "Um Rosto na Multidão" (1957), "Clamor do Sexo" (1962), "My Fair Lady" (1963), "Uma Rajada de Balas" (1967).

Como todos os estúdios, a Warner sangrou com a perda do monopólio de produção e exibição e teve de se diversificar. Investiu em televisão, jornalismo, futebol (dela nasceu o Cosmos, que contratou Pelé para o futebol americano) e música popular (com a gravadora WEA, que teve sob contrato João Gilberto, Tom Jobim, Gilberto Gil e um escrete de artistas internacionais). Em tudo, o empenho pela qualidade.

Mas as atuais tecnologias são outra coisa. A Warner há muito não é mais dos Warners, que, um dia milionários, hoje seriam pobretões diante dos magnatas das tecnos.

Quem vencer a guerra pela Warner ganhará de lambujem um espólio que, já tendo sido a sua razão de existir, será apenas moeda de troco para seus novos donos.

Fonte: Folha de S.Paulo - 14/12/2025

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O DIABO NO ESPAÇO

Carlos Heitor Cony

Não foi um sonho, muito menos uma visão. Mas consta que um astronauta, numa dessas naves tripuladas que passeiam pelo espaço, enquanto seus colegas, obedecendo aos horários da base de Houston, dormiam em complicados leitos, montava guarda na cabine de comando e viu o Diabo, em passeio, sem ajuda de qualquer equipamento, apenas com seus chifres, rabo e pés fendidos, caminhando pelo cosmos, aparentemente procurando alguma coisa.

Sabendo que o Pai das Trevas, desde o início do mundo domina uma boa tecnologia, o astronauta tentou comunicar-se com ele. Para sua surpresa, o Diabo entrou na faixa sonora da cabine e os dois conversaram. O diálogo está nos arquivos secretos da Nasa, esperando hora propícia para divulgação.

Após considerações gerais sobre os destinos da humanidade, o astronauta quis saber do destino do próprio Diabo, o que fazia ele ali sozinho, aparentemente perdido no espaço, desorientado e deprimido. Apesar de ser considerado o inventor da Mentira, o Diabo falou a verdade. Estava deixando o planeta Terra onde, desde a revolta dos anjos, antes da criação do Mundo, decidira implantar o Mal e a Desgraça na obra de Deus.

O astronauta quis saber a razão de tão humilhante retirada. Seria um derrota diante das forças do Bem? Nada disso - informou o Diabo. Ele ia embora da Terra porque sua atividade tornara-se supérflua com o advento da Internet. Procurava agora um planeta em estágio tecnológico menos adiantado do que o nosso, sem um tipo de comunicação onde qualquer um pode fazer um estrago bem maior do que ele na comunidade internacional e na vida de cada um.

Fonte: Folha de S.Paulo - 21/09/2004

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SE ARREPENDIMENTO MATASSE

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Ao colocar em ordem sua biblioteca ou guarda-roupa, veja se terá condições de terminar a tarefa.

Depende de tempo livre, de férias, de folga. Não tente fazer no meio da semana, de qualquer jeito. 

Não seja levado pela passionalidade que é tirar tudo do lugar para ajeitar pouco a pouco.

O chão estará cheio de pilhas de livros e não poderá caminhar livremente pela casa durante semanas.

A cama estará carregada de roupas e não haverá nem espaço para dormir.

Sua vontade é de chorar. Começou algo que não imaginava que ocuparia tanto tempo.

Ficou projetando que seria fácil e rápido e agora se arrepende amargamente de seu impulso.

Não tem como finalizar a arrumação, assim como é tarde para colocar os objetos de volta.

Piorou o que estava ruim. Já quer jogar fora seus livros prediletos ou as camisas novas somente para não precisar dobrar mais ou procurar espaço nas estantes apertadas.

Às vezes, para não enlouquecermos, a bagunça é o nosso anjo da guarda.

Fonte: carpinejar.blogspot.com.br

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ESCULTURAS DE GELO

Ruy Castro

Quantos shows memoráveis nunca foram gravados e escorreram para o esquecimento? Um show de Nara Leão em Campinas, gravado pelo sonoplasta, nos revela um ser humano em comunhão conosco

Um de meus pesadelos recorrentes envolve algo que talvez não exista de verdade, só simbolicamente: as esculturas de gelo. São as possíveis obras-primas condenadas a serem apreciadas por poucos e por pouco tempo, antes de degelarem e escorrerem rumo ao esquecimento. E, por esculturas de gelo, não se entendam apenas figuras recortadas a cinzel, mas toda espécie de arte efêmera —como a música popular. Quantos shows memoráveis nunca foram gravados? Terá havido registros de Carmen Miranda no Cassino da Urca, em 1938? De Dolores Duran no Beco das Garrafas, em 1957? De João Gilberto e João Donato, juntos, em 1963, na Itália?

Em 1984, Nara Leão deu um show no Centro de Convivência Cultural de Campinas. Ela não sabia, mas algo letal já se formava silenciosamente em seu cérebro. Dois anos depois, no Japão com Roberto Menescal, viu-se ausente no meio de uma canção. Parou de cantar. Menescal, sem saber o que acontecia, cantou por ela. Um minuto depois, Nara voltou a si, sem saber que estavam no palco em Tóquio. De volta ao Rio e constatada a doença, não se abateu —com a ajuda de Menescal, continuou a cantar e gravar, até ser vencida de vez em 1989.

O show em Campinas pode ter sido um de seus últimos ainda em plenas condições. Acompanhada só por seu violão, cantou por mais de uma hora o melhor de seu repertório, de "Olé, Olá", de Chico Buarque, e "Diz que Fui Por Aí", de Zé Kéti, até standards da bossa nova e a americana "There Will Never Be Another You". Osny Chaos, sonoplasta do Centro, gravou tudo. Quarenta anos depois, uma cópia doméstica em CD acaba de me chegar às mãos, cortesia de meu amigo campineiro, o jornalista Edmilson Siqueira.

O que devemos a Osny não tem preço. Esta é uma Nara na intimidade, sem o frio perfeccionismo dos discos oficiais. Às vezes, Nara dirige-se delicadamente à platéia, quase que pedindo desculpas pelo que vai cantar.

Não é uma cantora, mas um ser humano em comunhão conosco —que um simples gravador impediu que tivesse o destino do gelo.

Fonte: Folha de S.Paulo - 13/12/25