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sexta-feira, 20 de outubro de 2023

MR. MILES

Mr. Miles

(republicação)
Um tartufo em Roma

'Bongiorno, my friends!', nos saúda alegremente mr. Miles, escrevendo sua correspondência da semana instalado em uma das mesas do Ai Tre Scalini, tradicional sorveteria da Piazza Navona, em Roma. Recém-chegado de um giro pela ilha de Ponza, na companhia de Trashie, a raposa das estepes siberianas, nosso incansável viajante britânico julgou "imprescindível" fazer uma escala na Cidade Eterna e explica o por quê:

"September is really a lovely month in Rome, my fellows. Os romanos voltam de férias - todos eles, em uníssono - consideravelmente menos agitados do que no resto do ano. Basta lhes dizer que até agora - e já estou há três dias na cidade - não fui atropelado por nenhuma motoneta e nenhum garçom me insultou por ter pedido formaggio para acompanhar meu linguine al mare (eu não sei se vocês sabem, mas eles consideram uma heresia misturar queijo parmesão a massas com frutos do mar… crazy people, aren't they?).

Besides, com menos turistas, tenho mais facilidade para dar algumas bengaladas de advertência nas pequenas ciganas que cismam em tentar furtar minha carteira - o que só ocorre nos lugares muito atraentes da cidade (que, by the way, são quase todos).

O tartufo do Ai Tre Scalini que, unfortunately, estou terminando, continua esplêndido. Pena que a garrafa de San Pellegrino esteja custando quase o mesmo preço de uma obra de Caravaggio. Tenho uma longa história de carinho por essa cidade que, em português, é um anagrama de amor e onde, I must say, aprendi muitas lições sobre a forma romana de fare l'amore, que, confesso, é muito mais diversificada do que our english way.

Mais tarde pretendo ir até as margens do Rio Tibre para ver o extraordinário poente que tinge de terracota a Ponte Umberto I e, ao fundo, a Catedral de São Pedro. Como ainda faz muito calor, vou pedir um copo de grattachecca, um prazer tipicamente romano. Trata-se daquilo que vocês, no Brasil, chamam, mais simplesmente, de raspadinha. Gelo particulado misturado com xaropes altamente calóricos. Refreshing and delicious! Antes, porém, respondo à correspondência da semana.

Olá, mr. Miles: estive recentemente em Londres e conheci algumas mulheres incríveis da Romênia, Turquia e Lituânia. Acabei ficando curioso. Vale a pena conhecer esses países? E as mulheres são todas lindas como as que eu vi? André Telhada, por e-mail

"Well, my friend: sinto-me levemente ofendido com seu comentário, of course. Afinal, você esteve na capital do meu reino e só se refere a mulheres de outras nacionalidades? Ou será que as mulheres de minha nacionalidade se destacam pela fealdade?

Quanto à sua pergunta, dear André, folgo em saber que você conheceu mulheres incríveis de três belos países que conheço muito bem e devem, claro, ser visitados.

Confesso que, durante minha vida de viajante, também tive esse prazer. Conheci amazing women de mais de 150 nacionalidades.

O que me levou a concluir, my dear, que a beleza das mulheres - bem como sua eventual falta de atrativos - é um assunto absolutamente transnacional. Grandes temas, como inteligência, estupidez, intolerância, sabedoria e, claro, mulheres atraentes, não têm nacionalidade, I presume. Mesmo assim, André, vale a pena fazer o que você está planejando. Ou seja: viajar para lugares desconhecidos e apreciar sua beleza. Mesmo que você prefira apenas a beleza de suas mulheres.

Fonte: O Estadão 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

MR. MILES

Mr. Miles

Como não recebemos nenhum tipo de comunicação, é justo imaginar que não se confirmaram, de novo, as suspeitas de que nosso correspondente britânico veio ao Brasil. A redação supõe que ele teria sido visto, a não ser que estivesse andando sem seu bowler hat - o que ele próprio acha inadmissível para um cavalheiro. No momento não temos notícia de seu paradeiro mas, certamente, seremos informados em uma de suas próximas cartas.

Querido mr. Miles, preciso lhe fazer uma confissão. Sempre tive muito medo de viajar de avião, o que tem atrapalhado meu sonho de ser uma viajante ativa como o senhor. Outro dia, porém, a empresa em que trabalho enviou-me para uma viagem de negócios na Alemanha. Não pude evitar e foi com muito sofrimento que me dirigi ao aeroporto. Acontece que me deram uma passagem de classe executiva. Então eu fiquei naquele bonito salão com comidinhas e bebidinhas, embarquei mais tarde (sem pegar fila) e deram-me uma poltrona incrível, que até massagem fazia! Resultado: comi bem, vi um ótimo filme e o medo passou… Seria um milagre?

Renata Muller Filiardi, por e-mail

"Well, my dear: sua narrativa foi muito esclarecedora. Unfortunately, ainda que eu tenha visto as mais belas e variadas atrações e pessoas deste mundo, não acredito em milagres. Que me perdoem os leitores mais religiosos, mas sempre há alguma explicação para tudo. E quando ainda não existe uma resposta, fico contente em saber que temos muito a evoluir.

As for your question, darling, não tenho a menor dúvida em afirmar que o sentimento de segurança está ligado a coisas inesperadas como o conforto, a cordialidade e todas as demais características de um espaço maior, menos claustrofóbico e - por que não dizer? - mais reservado. Veja bem, dear Renata: a primeira sensação quando você entra no avião sem a tensão de uma longa fila de embarque é a de que o avião está quase vazio.

Isn't it amazing? Muitas pessoas que têm ou tiveram medo de voar, como meu incorrigível velho amigo Lewis S. Pigeons, já me disseram que a simples constatação de que há 300 pessoas a bordo, com, of course, um número semelhante de bagagens pesadas, provoca-lhes pânico. "Como poderá levantar um avião tão cheio?" questionam-se. E é quando as garras viscosas do medo os agarram…

Na classe executiva, e ainda mais na primeira classe, o avião parece mais leve. A qualidade do serviço (sempre mais atento) também resulta na intuição de que, se você está sendo bem cuidado, deve ser sinal de que a companhia aérea cuida bem, as well, de seus aviões. Don't you agree?

Na verdade, os espaços na classe econômica andam tão exíguos que o sentimento é exatamente o contrário. Como nesse setor as empresas economizam em tudo, é justo pensar que economizam também na reposição de peças; que os pneus são recauchutados, a gasolina, as you say, é paraguaia e há uma série de remendos feitos com silver tape. É assim que o medo viceja.

Vou lhe contar mais uma coisa: minha querida companheira Léa Star tentou fazer um cruzeiro e jurou que nunca mais voltaria. Hospedada em uma cabine interna, sem vista para nada, ela enjoou por centenas de milhas náuticas e não viu qualquer prazer na viagem. Several years later, tive a oportunidade de convidá-la para um novo cruzeiro. Ela não quis. Disse-lhe, however, que tivesse confiança em mim. Naquela viagem, ela desfrutaria de uma suíte com varanda para o mar. Desconfiada, repleta de adesivos estranhos e comprimidos multicoloridos, ela acabou cedendo. Renata, darling: foi um milagre igualzinho ao que você me relatou. Nada de enjoos, nada de medo, tudo prazer e descoberta. Em outras palavras, querida: viajar melhor é melhor do que viajar bem e melhor do que viajar mal. Mas o pior mesmo é ficar em casa…"

Fonte: O Estadão

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

MR. MILES

Mr. Miles

O caso do gato peruano

Ainda não está confirmado, mas existem rumores que dão conta de que, após uma passagem por Buenos Aires, mr. Miles estaria entre nós. Pede-se a qualquer leitor que tenha a sorte de encontrar com nosso incansável viajante que entre em contato com a redação, que ainda não teve o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Mr. Miles teria vindo ao Brasil para agradecer aos incontáveis fãs que sua página facebook.com/milesestadao tem angariado. Você também pode ser um deles. A seguir, a pergunta da semana:

Caro mr. Miles, após, a leitura (sempre a primeira) de seu texto, na edição de 20 de agosto, fui à página D6. Não sei por que as pessoas viajam com seus animais. O animal marca e defende seu território, onde vive satisfeito. Outros territórios não interessam. Os irracionais viajantes, na minha opinião, são apenas um tipo de antropomorfismo.

Fausto Ferraz Filho, por e-mail

"Well, my friend, não sei se concordo com o seu raciocínio, embora ele seja bastante lógico. Eu mesmo costumo levar Trashie, minha raposinha das estepes siberianas, para quase todas os lugares aonde vou. Trashie, however, não tem qualquer território para demarcar. Errante como seu companheiro, ela não tem endereço fixo ou conhecido desde que a encontrei em uma noite terrivelmente fria na cidade de Irkutsk, na Sibéria. Muito ao contrário de outros cães, ela faz uma enorme festa a cada vez que eu reúno minha bagagem. Sua motivação, as you know, é ficar junto comigo e, claro, poder beber seu single malt.

Sei, of course, que se trata de uma relação singular. No mais das vezes, viajantes frequentes que deixam o mascote em casa são brindados com um xixi territorial em suas malas. É claro que não estão pensando em viajar junto com seus donos, mas a inevitável vendetta resulta da insatisfação que a sua ausência lhes trará.

Poor animals! Sempre disponíveis para oferecer afeto, mas nunca informados sobre as idas e vindas de seus proprietários. However, dear Fausto, julgo que é preciso analisar cada caso a seu modo.

Há uma infinidade de gente, nesse mundo afora, que vive sem a companhia de seres humanos. Grande parte dessas pessoas utiliza-se de cachorros, gatos, furões e outras espécies como seus parceiros mais próximos. Julgo normal que, ao viajar, essa gente faça toda a força possível para levar seus mascotes a tiracolo, ao invés de confiná-los no cativeiro de uma pensão para animais. Confesso, porém, que fico incomodado quando os animais não sabem se comportar (como Trashie, que é uma lady) ou seus donos são excessivamente, digamos, liberais.

Certa feita, ao embarcar em um voo entre Lima e Paris, vi que havia um lindo gato persa no colo de um peruano já paramentado para cantar El Condor Pasa na primeira praça que encontrasse.

Quando o avião ganhou velocidade para a decolagem, o felino desgarrou-se do dono e pôs-se a pular, com as garras em riste, pelas paredes e poltronas da aeronave. Uma passageira acabou tão arranhada que o comandante decidiu retornar a Lima. A pobre foi encaminhada para um pronto-socorro. O passageiro foi autorizado a reembarcar. Não sei que fim deram ao gato.

Vale lembrar, by the way, que nem todos os países são receptivos a animais domésticos. Enquanto em muitos deles os mascotes são bem recebidos em hotéis e restaurantes, no mundo islâmico os cães são vistos como animais impuros e é melhor não esperar complacência das autoridades.

Outros animais que muitos possuem in your beautiful country, como papagaios, maritacas ou arapongas só podem ser levados para férias na praia com a família inteira (inclusive a sogra). Se você ousar transportá-los para o exterior, ainda que seja porque não pode viver sem o som que emitem, é provável, unfortunately, que ambos (o animal e yourself) acabem enjaulados por tráfico de espécies ameaçadas. Seria muito desagradável, don't you agree?"

Fonte: O Estado de S. Paulo

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

MR. MILES

(republicação

Quando as cidades mudam

Já ansioso pela chegada do outono ("quando a happy hour começa muito mais cedo, assim que o sol se põe"), nosso solerte viajante continua fazendo caminhadas pelas Dolomitas, na Itália, com o objetivo de "testar a resistência dos tendões de meus joelhos que foram ligeiramente abalados na longa marcha que fiz, last year, pelas montanhas da Ilha Sul da Nova Zelândia."

Antes de responder à carta da semana, mr. Miles pediu para avisar que os testes vão indo bem. "So far, so good, my friends."

Querido Mr. Miles: voltei a viajar depois de muitos anos e achei que várias das cidades que conhecia mudaram muito - e nem sempre para melhor. Por que isso acontece?

Sonia Rocha Schmidt, por e-mail

"Well, my dear: sua pergunta tem tantas respostas que cabe a você escolher a melhor. Cidades mudam porque tudo muda. Ou crescem ou diminuem. Ou vicejam de prosperidade ou sofrem de decadência. Ou seu povo está feliz, ou, unfortunately, sofre, e isso é visível nos olhos de seus habitantes.

Tenho voltado muitas vezes a cidades que conheci em outras circunstâncias. Lisboa, for instance, antes tão triste e lamuriosa como seus mais sofridos fados, tornou-se um lugar aprazível, criativo, instigante, com belos jovens tratando de reinventá-la dia após dia. O mesmo ocorreu com Madri, Barcelona, Valência e tantas outras cidades que buscaram o cerne de sua identidade original e ganharam personalidade. Believe me, Sonia: o dinheiro ajuda, mas é apenas um coadjuvante nessas viradas urbanas. Elas marcam momentos culturalmente fortes, instantes em que os cidadãos largam o conforto da mesmice e não querem mais, apenas, as cidades de seus antepassados. Seu desejo é fazer urbes novas, que tenham a cara do tempo em que vivem, quase sempre preservando o melhor de seu passado. Ou mesmo o pior, como ocorre nos prédios de construção fascista que ainda permanecem em Roma e Berlim, só para citar dois exemplos.

Outras tantas cidades mudam por motivo contrário: é sua população que deixa de estimá-la; é o rancor com o trânsito, com a violência e com o descaso público que processa esse fenômeno. É quando chega a hora de devolver todos os dissabores que as cidades proporcionaram a seus viventes, hora de largá-la suja e feia, pichá-la e agredi-la, numa espécie de revanche de Talião, olho por olho, dente por dente.

My God: quantas cidades mudaram assim! É triste vê-las tão maculadas e inamistosas, but I always believe que, no futuro, uma reviravolta leve novos cidadãos a recuperá-las.

E há, of course, um terceiro fator, dear Sonia. Muitas vezes, ao voltarmos a algum lugar, nossa percepção é alterada por pequenas variantes objetivas: a chuva, que atrapalha as caminhadas, as obras de manutenção, que escondem velhas memórias atrás de tapumes, uma greve ou qualquer outro motivo que tire a fluidez da jornada.

Existem, também, os olhares inadequados, como o de uma certa senhora Armstrong, de Ohio, a quem encontrei em uma manhã radiante na Piazza San Marco, em Veneza. Ela parecia very excited quanto ao que via e, inesperadamente, proferiu a seguinte frase inesquecível: "Eu estive aqui quando era estudante, mas estou muito surpresa: Veneza mudou tanto!" Impossível não pensar nos próprios ossos de San Marco remexendo-se na tumba. Veneza? Eis uma cidade que não muda nunca. Thank God!

Fiquei pensando, darling, que muitas vezes quem muda somos nós. Mudamos de olhar, de expectativa, de saúde, de interesse. Mudamos em tudo. E é claro que, quando isso ocorrer, nunca mais veremos os lugares com o mesmo olhar. O que pode ser muito ruim, ou muito bom. Conforme a cidade e conforme o jeito que mudamos.

Fonte: O Estado de S. Paulo

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

MR. MILES

(republicação)

Mr. Miles: um amigo meu ocidental, praticante de aikidô, foi, há alguns anos, treinar com os senseis no Japão. Lá contaram que o fundador da modalidade, Morihei Ueshiba, ficara impressionado com a habilidade de um aluno inglês que, coincidentemente, usava bigodinho e estava sempre de chapéu coco. Ueshiba Sensei, sempre tão comedido como geralmente são os grandes mestres, ficava horas ouvindo as peripécias pelas quais passara esse aluno, agora amigo, em suas andanças pelo mundo… É apenas uma coincidência, mr. Miles?
Kansabulo Sato, por e-mail

"Well, Sato San, eis uma faceta de minha vida que sempre tentei manter em segredo, porque as pessoas comuns confundem o conhecimento de uma arte marcial com agressividade. As you know, o aikidô não é um esporte de competição, mas o caminho para o espírito harmonioso.

Yes, my friend: tive a inenarrável alegria de conhecer Morihei Ueshiba, quase sempre chamado apenas de O-Sensei (Grande Mestre). Durante um período de minha vida - curto, I must say - fui ao Japão para tentar entender a obstinação, a obediência e, why not, a alma guerreira daquele povo. Conheci diversos sábios e um tipo de lógica que nós, ocidentais, desconhecemos. Entre todos, o que mais me encantou foi O-Sensei, o homem que falava por seus silêncios. De alguma forma que nunca compreendi, o simples ato de respirar já emanava a energia de Morihei Ueshiba.

Aprendi muito com ele: as nuances da beleza, o favor da reverência e, mais que tudo, o espírito da ética. Além de, by the way, ter me tornado um modesto aikidoka. Fico muito surpreso que, após todos esses anos, ainda seja lembrado entre os senseis dessa arte. Deve ter sido pelo tipo de roupa que eu usava (e ainda uso), I presume. O Grande Mestre começou a me chamar de Savirô, que é o nome que os japoneses dão aos ternos ocidentais. E eu lhe disse, em meu ainda precário japonês, que savirô era um substantivo derivado de Saville Row, a rua dos alfaiates em Londres.

Morihei Ueshiba achou muita graça naquela explicação e, desde então, pediu-me que contasse mais histórias sobre o mundo. Foi uma imensa honra para um modesto viajante como eu poder passar alguns ensinamentos para o legítimo Grande Mestre.

Para dizer a verdade, Sato San, ainda hoje pratico, esporadicamente, o aikidô em alguns templos e escolas ao redor do mundo. Exercito, assim, a energia que tenho e que me conduz a viajar - o que, as you know, é a minha perspectiva de harmonia. E sinto falta do Grande Mestre. Aprendi, também, que, em qualquer circunstância, o bem-estar do oponente tem de ser preservado. As I see, mais do que uma arte marcial, essa última definição transforma o aikidô em poesia.

Estive em Tanabe, na província de Yakayama, para acompanhar a partida do Grande Mestre no final dos anos 60. E ainda hoje sinto-me como um padrinho do bom Moriteru Ueshiba, seu segundo sucessor e meu companheiro em deliciosos jantares no Japão. Foi Moriteru, by the way, que cometeu a heresia de me informar que o melhor blended whisky do mundo era japonês (e não, my God, o nosso, feito na Escócia!). Pois quando eu provei o Hibiki 21 anos fiquei astonished. O mesmo ocorreu com minha mascote Trashie. E vejam só: os mestres japoneses acabaram ganhando, com essa marca, todos os prêmios mais importantes na categoria blended whisky. Felizmente, my friend, ainda temos o melhor single malt, que é o Galileo, produzido pela Ardbeg Distillery, na Ilha de Islay, no Reino Unido.

Fonte: O Estado de S. Paulo

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

MR. MILES


O mapa, a vida pendurada na parede

Logo após o equinócio, nasceu a primeira flor no minúsculo jardim da casa de Mr.Miles, no Condado de Essex. O grande viajante e sua Trashie, a raposa das estepes siberianas, abriram mais uma garrafa de single-malt para comemorar a ressurreição das flores. Tendo recebido suas roupas cerzidas e sua mochila de couro renovada por uma camada de óleo de coco, Miles decidiu, paradoxalmente, viajar para a Sibéria. Sua intenção era rever a linda Yuliana Petrova, que foi agente dupla até a queda do muro e, nesse período, teve um caso rápido mas ardoroso com nosso correspondente. Mas também foi um agrado à Trashie, que só não sofre com o calor em lugares de temperatura negativa.
A seguir a pergunta da semana:

Caro Mr. Miles: tenho vários mapas em casa; acho que sou mesmo um colecionador. O senhor também gosta de atlas ou mapas-mundi?
Sinésio Abranches, por email

Well, my friend: eu também gosto muito de cartografia. Observar o mundo reduzido a um pedaço de papel, seja grande ou pequeno, é um prazer que me acompanha desde pequeno. Esse hábito, I guess, foi muito relevante para moldar minha vida de viajante. Do pequeno e sempre chuvoso condado de Essex aprendi a ver o planisfério e sempre alimentei o desejo de conhecê-lo em suas fronteiras mais distantes. Minha querida tia Gwineth, que ainda mora em Leicester, possuía um antigo mapa da National Geographic Society pendurado em sua sala. Era, indeed, o destaque do pequeno ambiente, porque tinha medidas colossais. Ainda garoto, lembro-me de subir em uma pequena escada de cozinha para ler nomes mágicos como Katmandu, Zanzibar, Bombaim, Mandalay e Timbuctu, for instance. Eram palavras que, believe me, transportavam-me para histórias longínquas, com seres vestindo trajes antigos, falando dialetos remotos e enfunando velas encardidas nos mais diversos tipos de embarcação. Eu chegava a sentir aromas que nunca respirei e a ver mulheres imaginárias pelas quais nutri amores platônicos.

Via as cores nos mapas e supunha que os países pintados em verde eram cobertos de florestas, que os vermelhos ardiam em chamas, os azuis serviam como imensas piscinas e os amarelos tinham poeira por toda a parte — com ouro aqui e acolá.

Só mais tarde, my friend, vim a entender que aqueles eram mapas políticos e registravam fronteiras semoventes; que aqueles traços envolviam nacionalidades, religiões, ideologias — e toda essa foolery que ainda hoje desgraça nosso planeta. Foi assim, by the way, que aprendi a me encantar com cartas geográficas e geomorfológicas. A ver rios, cordilheiras, desertos e áreas congeladas. A descobrir, por fim, que nem todos os países são parecidos e que, therefore, é nosso direito explorar lugares diferentes como se fossem nossos — sob a pena de passar a vida sem conhecer os sofás da própria sala. Don't you agree, Sinésio? 

Aprendi, mais tarde, a ver as deformidades oriundas da projeção de Mercator, que fazem, por exemplo, a Groenlândia parecer tão grande quanto a América do Sul, embora ela seja, de fato, oito vezes menor. In other words: foram os mapas que me ensinaram também que nem tudo é o que parece e por isso é preciso viajar muito — para ter a real dimensão das coisas —, e sem ideias preconcebidas das culturas, dos hábitos e do modo de ser das pessoas.

Os mapas, enfim, servem para muito mais do que apenas ver aonde estamos e para onde queremos ir: eles são a vida pendurada em paredes ou nas páginas dos livros. Só não deviam servir para que neles sejam postos alfinetes, uma prática de pessoas que, in fact, nunca viajam, mas apenas colecionam destinos.

Fonte: Facebook

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

MR. MILES








Em Roma, sem os romanos 

Com um grande embornal repleto de mantimentos não perecíveis, muito protetor solar e a companhia de Trashie, sua raposa das estepes siberianas, nosso grande viajante dirigiu-se a Roma, de onde nos envia esta mensagem: "Well, my friends: adoro vir para Roma quando todos a abandonam. O Ferragosto, para os que não conhecem, é a ocasião em que todos os romanos saem da cidade em busca de lugares menos insuportavelmente quentes. Believe me: praticamente todas as lojas, restaurantes, bares, museus fecham suas portas e concedem férias a seus empregados. Só são vistos, na terra dos césares, americanos mal informados que não entendem o que se passa e, well, minha mascote e eu. Não há ocasião melhor para apreciar as relíquias desta grande civilização do que sozinho, no silêncio, sem hordas de turistas ao redor." 

A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles: tenho lido sobre um sem-fim de novidades para viajantes: hotéis de gelo, spas de vinho e chocolate, albergues submarinos. O senhor já viveu alguma experiência dessas? Onde é que isso vai parar? 
Solano Consentini, por e-mail

"Well, my friend, vejo que você está muito bem informado. Há, de fato, uma nova onda de ofertas turísticas que transitam em uma delicada faixa entre o sensorial, o bizarro e o absolutely ridiculous. 

Frequentemente, em minhas jornadas mundo afora, sou convidado a participar desses experimentos. Sometimes, of course, dispenso o papel de cobaia. Os hotéis de gelo - oh, my God - definitivamente estão na moda. Mas é claro que só funcionam no inverno, pelo menos até que Dubai decida criar o seu, no meio do deserto, dentro de uma bolha de inverno artificial. Believe me: eles são capazes de fazê-lo.

Até a Romênia já tem o seu e suponho que a proposta seja simular um gélido castelo do Conde Drácula. Hospedei-me em um deles anos atrás, no Canadá. Confesso-lhe que foi a única vez em minha vida que me senti like a frozen sausage. However, havia filas de interessados no below zero apartment, a maioria deles, claro, happy american citizens em busca do que convencionou-se chamar de experiência. What an experience! 

Dorme-se sobre uma lápide de gelo, enfurnado em um saco de dormir estilo Tutancâmon. Casais ganham um sleeping bag duplo tão apertado que torna obrigatórios os interlúdios sexuais. O que, of course, seria ótimo, não fosse o fato de que qualquer tipo de líquido congela na temperatura ambiente. It's really disgusting.

Muito mais agradável teria sido minha experiência em um restaurante alemão muito moderno, onde todos os comensais deitam-se em uma cama comunitária. O chef era ótimo, a carta de vinhos, variadíssima. Unfortunately, o cidadão que se aninhava a minha direita no leito, em posição contrária a de meu corpo, era, for sure, um maratonista que esquecera de lavar os pés depois da competição. Can you imagine such a pleasure?

Na África, estive em vários hotéis cujos bangalôs ficam instalados nas copas das árvores. São muito seguros contra hipopótamos, rinocerontes, búfalos e leões. Nevertheless, se aparecer um leopardo, o melhor que você tem a fazer é oferecer-lhe um brandy. 

Anyway, an unforgettable trip. 

Lembro-me também que estive em um restaurante às escuras na Suíça. Foi como ser personagem de Ensaio Sobre a Cegueira, de meu saudoso amigo Saramago. Achei a comida deliciosa, mas faltava alguma coisa. Só depois me lembrei que não é apenas com a boca que se degusta. Faltou-me, indeed, comer com os olhos. 

A hotéis submarinos nunca fui, my fellow. Bastaram-me os anos de experiência nos submarinos da Royal Navy para entender que, se eu tivesse de viver sob as águas, ter-me-iam dotado de guelras. Spas de vinho também não frequentei. Estou esperando, however, que alguém desenvolva um spa de whisky, cujas propriedades, sem sombra de dúvida, me fariam muito melhor."

Fonte: O Estado de S. Paulo

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

MR. MILES








(republicação)
É melhor descobrir do que antever?

Sem prólogo, nem revelar seu corrente paradeiro, nosso solerte viajante nos envia a correspondência da semana: 

Caro Mr. Miles: tenho 43 anos e, desde pequena, viajo com minha família. Naquela época pré-internet, dispúnhamos de poucas informações sobre o destino e costumávamos carregar o Guia 4 Rodas no porta-luvas. Nas viagens para fora do País, sabíamos alguns lugares que queríamos conhecer, pegávamos uma ou outra dica com conhecidos e partíamos meio que para uma "aventura". (Bem, pelo menos era assim comigo). Em tempos de Facebook e Google, percebo que as pessoas estão, cada vez mais, solicitando dicas sobre tudo. Até certo ponto acho isso legal, pois pode nos livrar de "roubadas". Mas sinto que se perde um pouco da graça do descobrimento. Nunca gostei de viagens tipo excursão, onde se vai com tudo pronto. E resisto em pegar dicas demais.... Ou será que estou resistindo a algo que pode me trazer mais vantagens do que malefícios? 

Denise Noleto, por e-mail

"Well, my dear: entendo muito bem sua carta. Como tantos outros jovens de sua idade, você está sendo acometida pela dúvida entre o prazer de descobrir e a facilidade de antever. In my modest opinion, não é bem assim que devemos encarar a possibilidade de obter informações antecipadas pela internet. Embora, as you know, eu não o faça, tenho a curiosidade de verificar o que outras pessoas observam a respeito de hotéis, restaurantes e passeios que eu já conheço ou já fiz. E, of course, fico frequentemente surpreso com essas avaliações. Para começar, darling, espanta-me o talento dos fotógrafos que usam de maestria para aumentar espaços pequenos e glamourizar ambientes insossos. However, essa é uma regra que não se pode usar, porque as hospedarias mais charmosas e com melhor custo-benefício também aparecem sempre lindas em suas fotos de divulgação.

Já quando se lê a avaliação de quem esteve no lugar em epígrafe, o melhor é prestar atenção aos comentários objetivos. Quando alguém diz que o hotel fica longe ou perto das principais atrações, há, in fact, uma informação para levar em conta. Já se o viajante disser que o hotel era muito bonito ou muito feio, é evidente que se trata de juízo pessoal. Nesse caso, é preciso ter em mente que a nota foi feita por um cidadão(ã) que você não conhece e, more than this, cuja expectativa pode ter sido muito diferente da sua.

Viajar, as I use to say, é, além de tudo, uma questão de expectativa. Quem viaja com pouco dinheiro e consegue acomodações de qualidade fica sempre feliz. Já quem viaja regiamente e acaba em um hotel onde, for instance, seus sapatos são mal engraxados durante a noite, tem motivos para criticar sua escolha.

Quanto à sua colocação muito pertinente, eu não deixaria de usar os recursos modernos que nos proporcionam as redes sociais e a web. Mas, for sure, continuaria confiando mais na opinião de amigos e conhecidos. Em nenhuma dessas hipóteses, dear Denise, você deve considerar a chance de perder o prazer da descoberta. Eu mesmo, que tenho viajado por décadas e décadas e quase sempre sei onde vou me hospedar (porque estou indo de novo), jamais deixarei de me surpreender. Um mesmo lugar, com as mesmas pessoas, em uma tarde mais luminosa do que a anterior é uma prazerosa redescoberta. Só os 'idiotas da objetividade', como disse meu saudoso amigo Nelson (N. da R.: Nelson Rodrigues, escritor e dramaturgo) não entendem esse prazer. Para eles, my dear, céu é céu, mar é mar.

E como nada muda nunca, nada pode surpreender. Don't you agree?"

Fonte: O Estado de S. Paulo

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

MR. MILES


Quando o cotidiano fala diretamente com você
(republicação)

Nosso cavalheiresco correspondente já encomendou as rosas colombianas que, em todos os anos, ele entrega para sua monarca na data do aniversário, o próximo dia 21 de abril. Para quem não sabe, as rosas colombianas são enormes, têm cores muito peculiares e duram uma eternidade. "É um compromisso que tenho com a rainha (e comigo mesmo, of course, há mais de 60 anos. Tenho a pretensão de afirmar que ela sempre ficou feliz.
A seguir, a pergunta da semana

Mr. Miles: basta ler um guia de boa qualidade para saber que atrações turísticas merecem ser visitadas em qualquer país. O senhor, que viaja tanto, poderia me dizer o que mais é indispensável fazer em um primeiro contato com um novo lugar?
Celiana Armandez Giggo, por email

Well, my dear, sua pergunta esconde os melhores segredos de um viajante. Yes, of course: é preciso visitar os chamados protagonistas de uma cidade ou de um país. Os monumentos pelos quais são conhecidos, as paisagens que deles até se tornaram lugares-comuns. Como ir, for instance, à Veneza e não observar, com detalhes, uma gôndola? Ou visitar o Egito passando ao largo das Pirâmides de Gizé?

Na minha humilde opinião de eterno peregrino, however, o melhor jeito de conhecer um lugar é reviver, alhures, o seu próprio cotidiano, mas, dessa vez, prestando muita atenção — já que o que se torna rotina em casa acaba incorporado à cabeça como mais um fio de cabelo em um vasta juba.

Vou tentar lhe dar algumas dicas, lembrando que elas podem variar muito de país para país e de acordo com seu próprio entendimento do idioma em questão. Comece pelo dinheiro local, que você vai adquirir na chegada. Veja seus desenhos, suas cores, suas referências. As cédulas costumam mostrar heróis nacionais, exibir as riquezas da natureza de cada lugar e falam até da alma do povo. Na Polinésia francesa, por exemplo, o franco local é colorido com toda a variedade da natureza luxuriante daquele arquipélago. O escudo português, em tempos salazarianos, era triste e melancólico como um fado. E as falecidas liras italianas tinham tantos zeros que era difícil contar. Nada parecido, by the way, com uma nota que tenho guardada em casa. Valor? 100 trilhões de dólares! Do Zimbabwe, unfortunately. A maior já emitida no planeta, durante a hiperinflação de 2008. Com ela, however, mal se comprava um pacote de biscoitos no supermercado.

E falando em supermercados, dear Celiana, não deixe de entrar em um deles, não importa aonde. Haverá, of course, produtos globalizados nas prateleiras. Mas grande parte dos itens à venda dirão muito sobre o modo como os habitantes do lugar alimentam-se, limpam suas casas e fazem sua higiene. Entrar em um supermercado, de certa forma, é como entrar na área íntima de uma residência local. Uma espécie de xeretagem... 

Indispensável é comprar um jornal, mesmo que você não entenda patavinas! O aspecto do jornal, o peso que se dá a cada seção, tudo é informação privilegiada sobre quem vive na cidade ou no país. Se, for instance, você encontrar oito páginas sobre cricket e nenhuma menção ao futebol, é melhor não citar Pelé ou Neymar como referências. Os mercados também são indispensáveis. Neles você verá a fartura ou a escassez de cada povo. As frutas que se come por ali, as carnes, os peixes. E, of course, a maneira como vendedores e compradores se entendem.

É uma mágica! No cotidiano (muito mais do que na atração turística) é a vida que fala diretamente com você. Nas roupas que as pessoas usam, no jeito que elas rezam (vá, sempre, a um serviço religioso, seja lá qual for a crença local), e nas coisas que fazem nas praças. Escolha um banco em uma praça movimentada. Você vai ver se as pessoas têm pressa ou se são serenas. Verá como brincam as crianças, como comportam-se os idosos, o quanto riem ou são silenciosas aquelas populações. E, last but not least, conforme o lugar onde estiver, você terá a chance de olhar (ainda que discretamente) como agem os enamorados. E assim, my dear, sua viagem será, sem dúvida, ainda muito melhor.

Fonte: Facebook

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

MR. MILES

(republicação)

Overbooking: o que nosso correspondente tem a dizer

O sempre adorável Mr. MIles disse, em mensagem enviada à redação, que pretende ver as neves do Brasil durante o inverno. Ele programa uma viagem à São Joaquim para ver o raro fenômeno e para agradar Trashie, sua mascote siberiana. Também vai, um pouco depois, para o refúgio patagônico de seu velho amigo e multiempresário Jaime Trauco Ibañez Cousiño que, embora muito sofisticado, só bebe vinhos em caixas de leite longa vida.
A seguir, a correspondência da semana:

Querido Mr. Miles: acabo de ver, na televisão, a cena chocante em que um médico é arrancado de um avião americano à força. Me deu vontade de ouvir sua opinião imediatamente. Como sei que não é assim, decidi enviar esse email.
Rosa Maria Quintão, por email

Well, my dear: fico orgulhoso por você querer ouvir minha modesta opinião. Vi a cena e fiquei tão inquieto quanto você. Meu único consolo é que, sendo os Estados Unidos uma sociedade tão judicializada e havendo videos das cenas de wrestling vividas pelo passageiro, ele vai processar a aerovia e, without doubt, ganhará pelo menos um Boeing 737-800 para que seus próximos voos tenham, ao menos, seu assento garantido.

However, o overbooking — a prática de vender mais poltronas do que as que existem na aeronave — é legal.

Imoral, mas legal. Se esse tipo de autoritarismo fosse praticado em outras modalidades, haveria grande confusão: espectadores com ingressos numerados em teatros ou cinemas precisariam ter muita sorte; viajantes com hotel reservado iriam acabar no olho da rua; passageiros de trem com assentos marcados terminariam, devastated, nas plataformas das gares. 

As empresas aéreas praticam o overbooking porque, in fact, em grande parte dos voos, os passageiros esperados não aparecem. Nesses casos, os viajantes são multados, mas os aviões viajam com alguns lugares vazios — que poderiam, of course, render às companhias alguns — how do you say ?— caraminguás a mais.

Supõe-se que nem todos passageiros estão com pressa ou têm compromissos marcados em seus destinos. Therefore, para evitar reclamações diárias, é comum que, em caso de overbooking, as aéreas oferecem prêmios aos, let's say, "desertores". Ouve-se, com frequência, uma comissária que ofereça dinheiro vivo a quem topar partir no dia seguinte, ou prêmios como promoção à classe executivo and so on. Em caso de voos de longa distância, os prêmios são bastante apetitosos — e vão subindo enquanto ninguém se apresenta. Meu amigo Liam, que ia de Londres para Nairobi com sua mulher e três filhos, for instance, desembarcou a familia inteira quando ganhou cinco novas passagens para o mesmo trecho — garantido-lhe duas férias com safári, ao invés de uma.

Nevertheless, não importa o tamanho do prêmio ou a ausência de premiados. Tirar um passageiro do avião por sorteio é uma decisão deplorável — ainda que os passageiros tivessem acesso às bolinhas e supervisão de uma auditoria independente. O que dizer, darling, de tirá-los à força, tornando-os alvos de uma agressão no mínimo constrangedora? 

Aliás, a prática de calar passageiros comprando seu silêncio vem se expandindo. A televisão em frente ao seu assento não funciona? Reclame e receba 100 dólares para aceitar o infortúnio. Sua poltrona não reclina? Mais cem dólares — e não se fala mais no assunto. Já ouvi um amigo de pub contar que sempre torcia para que seu assento fosse brindado com diversas falhas. "Pode ser um negócio rentável.", disse-me ele.

É claro que esse espertinho poderia perfeitamente figurar como funcionário de empresas que, sem qualquer emoção, praticam overbooking. Como me disse, certa vez, a romântica viajante dominicana com quem partilhei momentos agradáveis na ilha de Santorini, "O problema não é sair do avião. É sair do sonho.", comentou, com grande sabedoria.

Fonte: Facebook

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

MR. MILES


9 verdades e 1 mentira de nosso grande viajante
(republicação)
Depois de visitar a rainha Elizabeth II e entregar a ela as rosas colombianas que sempre dá em seu aniversário, Mr. Miles consentiu em responder ao divertido desafio de uma leitora. 

Querido Mr. Miles: está na moda, no facebook, uma corrente chamada 9 verdades e uma mentira. Milhares de pessoas estão revelando coisas de suas vidas e está muito divertido, apesar dos chatos de sempre. O senhor aceitaria o desafio de publicar as suas?
Joana Munhoz, por email

Well, my dear, isso pode ser um pouco embaraçoso..., mas admito que tenha chance de ficar divertido. O problema é contar as melhores histórias já que, como você sabe, sou um viajante longevo. Vou colocar algumas, entre elas histórias que já contei nos últimos treze anos nesse espaço. I hope you enjoy:

1- Até hoje não sei bem porque, mas o fato é que herdei uma fortuna de uma contraparente que sequer conheci. Era tanto dinheiro que viajei pelo mundo inteiro por 40 anos consecutivos. Unfortunately — porque fui ligeiramente perdulário, vi-me com os bolsos vazios de um dia para o outro. Sorte que, naquela altura, eu já era sócio remido de oito planos de milhagem e tinha centenas de amigos, compadres e afilhados ao redor do mundo. Foi assim que segui viajando.

2- A maior vergonha de minha vida foi perder o embarque na única viagem do Titanic. Eu havia sido convidado e, a bordo de meu Napier 6 cilindros, sai cedo em direção à Southampton, mas chovia muito e meu carro encalhou em uma charneca no Condado de Sussex. Quando cheguei, só vi o Titanic desaparecendo atrás da linha do horizonte. Shame on me. Eu preferia ter naufragado a atrasar em um compromisso.

3- Durante a 2ª Guerra Mundial, servi como ajudante de ordens de Bernard Montgomery no deserto do Saara. Na segunda batalha de El Alamein, estava ao lado de Monty quando derrotamos os alemães e a guerra mudou. Fiquei tanto tempo no deserto, que só recobrei minha cor branca da infância seis anos mais tarde.

4- Durante minha vida de viajante aprendi a falar, imperfeitamente, 28 línguas e 13 dialetos. O português foi uma delas. Ainda pretendo melhorá-lo.

5- A vida de um viajante é cheia de emoções. Conto-lhes, humildemente, que me apaixonei e fui correspondido por 12 estrelas de cinema, três das quais casadas e duas detentoras de Oscars de melhor atriz. Uma delas foi Marilyn Monroe, com que tive apenas uma noite. Quando, no auge de nosso interlúdio corpóreo, ela me disse "Yes, mr. president.", fiquei ofendido e a relação terminou.

6- Em minhas jornadas pelo mundo já comi doze tipos de insetos e quatro batráquios, para agradar a quem me convidava. Confesso que só não gostei muito de uma taturana de Papua-Nova Guiné.

7- Não tenho medo de nada; só de fotografias, em função de um episódio ocorrido no bairro da Albaicín, em Granada, quando quase fui morto por um fotógrafo que, na verdade, era um sniper. Até hoje me esquivo de fotografias.

8 - A última vez que fui a um médico, atendendo a pressão insuportável de tia Megham foi em 1968. Minha saúde é ótima, exceto pelas recidivas de malária e por um dor antiga no joelho direito — que, however, não me impede de fazer longas caminhadas.

9- Fui eu quem dei o primeiro welsh corgi para minha querida rainha Elizabeth 2. Como se sabe, essa raça de cães tem sido uma grande alegria na vida da monarca.

10- Nunca usei celular nem qualquer tipo de aplicativo. Ainda gosto de conversar face-to-face, sem intermediários.

N.da.R: Podemos garantir que a mentira de nosso correspondente é a de número 4. Ele domina 42 idiomas — e não apenas 28.

Fonte: Facebook

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

MR. MILES


Multas de trânsito: pagar ou esquecer? 

A última crônica de nosso solerte viajante, em que ele contou 9 verdades e uma mentira sobre sua longa vida provocou um estouro em sua caixa postal, usalmente muito ocupada. A maior parte dos leitores, segundo Mr. Miles, riu a valer com suas afirmações. Outros, unfortunately (como diria o bravo correspondente) chamaram-no de mentiroso e puseram reparos em quase todos os itens. O súdito mais viajado da Grã-Bretanha deu de ombros aos detratores, lembrando que só é dado a incansáveis viajantes passar por tantas aventuras. Mas ficou, mais uma vez, ofendido com os leitores que ousaram duvidar de sua idade, "como se fosse impossível ter uma vida tão longa e profícua como a minha." Perdendo sua fleugma usual, o bravo peregrino pediu a esses leitores que fossem to lick a soap , o que em português significa "lamber sabão".
A seguir, a correspondência da semana: 

Mr. Miles: aluguei um carro na Itália e recebi uma notificação de multa no valor de 18 euros, que já me foi debitada no cartão de crédito. Se eu receber uma multa internacional pelo correio, sou obrigado a pagar?
João Antonio Martinelli, por email

Well, my friend: a julgar pelo valor que você menciona, I’m sorry to say, mas você ainda não pagou sua multa de trânsito. A maior parte das locadoras de automóvel cobra uma taxa como essa apenas pelo serviço de notificá-lo de que o carro em questão foi autuado durante o periodo em que ele estava sob sua responsabilidade e, of course, notificar as autoridades, para que elas possam enviar a multa para sua casa. Bad news, isn’t it?

Sobre pagar (ou não) uma penalidade contraída em qualquer outra nação do mundo, eu diria que it’s up to you. Desde já deixo registrada a minha posição contra qualquer tipo de calote, mas sou obrigado a admitir que, em certos países do mundo, as regras de tráfego podem diferir daquelas as quais você está habituado. Na Alemanha, for instance, há ruas estreitas em que o motorista é autuado se não estacionar com duas rodas em cima da calçada — e é preciso dominar brilhantemente o delicado idioma de Goethe e Heine para decifrar uma placa com estas instruções. Do you know what I mean?

O fato, fellow, é que se você for multado, digamos, por excesso de velocidade no Tajiquistão e, well, não estiver em seus planos retornar para lá, será aceitável fazer vistas grossas para a penalidade. Não acredito que um comando tajique venha a persegui-lo no Brasil por essa razão. Já em outros países mais organizados e, indeed, mais atraentes, existe a possibilidade de que o não-pagamento de uma multa de trânsito fique registrado forever. Em outras palavras: quando você desembarcar no destino novamente, em uma viagem de férias ou de negócios, o simpático burocrata de plantão poderá barrar sua entrada ou, em alguns casos, autorizá-la mediante o pagamento da infração devidamente ampliado pelos juros previstos em lei. As you say in Brasil: é mole ou quer mais?

É claro que você pode apostar na desorganização do país em questão. Eu não diria que a eficiência chega a tal nível de sofisticação sequer em uma pequena parte das nações do mundo.

Anyway, believe me, my friend: o melhor que você tem a fazer é tentar conduzir cautelosamente, mesmo nesses estranhos países de mão contrária, como a França, os Estados Unidos e o próprio Brasil. 

Um último conselho: caso você seja multado na Bélgica ou na Holanda, arrume, logo, um servicinho extra. Esses dois países, conhecidos como baixos, têm as penalidades de tráfego mais altas do planeta. Na média, as 15 infrações de maior pontuação custam algo em torno de 1600 euros! Each one, fellow, each one!!!

Fonte: Facebook

sexta-feira, 28 de julho de 2023

MR. MILES


O couvert artístico nas companhias aéreas

Nosso incansável viajante, um assíduo frequentador dos voos das mais diversas companhias aéreas desde os tempos em que o comissário flambava crêpes suzette na frente dos passageiros, responde às perguntas mais frequentes desta semana:

Prezado Mr. Miles: e eis que volta a norma que autoriza a cobrança pelas malas embarcadas em companhias aéreas. O que o senhor tem a dizer a respeito?
José Antunes F. Contini, por email 

Well, my friend: já tive a oportunidade de escrever a respeito, sempre com a mesma indignação. Não me importa tanto a lei quanto o espírito da lei. Companhias aéreas, as you know, existem para transportar pessoas e mercadorias de um canto a outro no planeta. Bagagens, of course, são mercadorias e, por isso, podem ser cobradas. A questão é que, tradicionalmente, os passageiros sempre tiveram o direito de levar, em sua companhia, as malas de que necessitam, dentro de uma determinada limitação de peso.

Fair enough. O valor dos poucos quilos a mais sempre esteve incluido, for sure, no preço dos bilhetes.  Eis que, em manobra para reforçar seu caixa, surge a liberdade para estabelecer preços para a bagagem, sem, é claro, que o valor antes embutido, seja retirado. Dupla taxação, in other words. Pior: não sendo única, a regra será aplicada distintamente em cada empresa, de modo que, agora, o valor do bilhete é apenas referencial. É preciso que a ele se some o valor, variável, do preço do transporte da bagagem. A big mess! 

Como eu já tive a oportunidade de preconizar neste espaço — e sou apenas um viajante, não uma pitoniza — , o mundo caminha para os chamados preços mentirosos. Você vai a um hotel para hospedar-se. Mas paga, além disso (em grande parte dos casos, I'm afraid) altas taxas para usar o wifi ou o telefone ou o estacionamento. O wifi? I'm sorry to say, mas até o mais humilde pub da periferia de Birmingham não cobra por esse serviço, que, besides, não tem custo nenhum para o taberneiro. 

Apenas os hotéis verdadeiramente classy incluem todos custos no valor da diária — e tornam-se mais simpáticos a quem os utiliza. Nos aviões, unfortunately, a realidade é a mesma e tende a piorar.

Vejamos o que vai ser taxada a mais no futuro, além das bagagens:

1- Taxa de reclinamento do assento. O passageiro vai poder comprar um combo que inclui, as well, a taxa da liberação da mesinha.

2- Conta de luz durante a viagem: o viajante dividirá um rateio pela iluminação da aeronave e mais uma continha pelo uso de sua luz de leitura.

3- Custo de entretenimeto: um pequeno valor para a revista de bordo e outro, maior, pelo direito de ligar a televisão.

4- Taxa para o chamado dos comissários. As melhores companhias oferecerão, promocionalmente, um chamado free of charge.

5- Tarifa para a utilização do banheiro de bordo. Há muitos estudos a respeito mas, por enquanto, prevalece a tese da utilização de uma espécie de taxímetro na porta do toalete, medindo o tempo de permanência do usuários.

6- Cobertores de bordo com preço fixo. Observação: se a demanda for baixa, a tendência é diminuir a temperatura na cabine.

7- Incremento no valor já cobrado por snacks, bebidas e refeições, associado a um controle mais rígido para evitar a entrada de farnéis na aeronave.

Os valores terão de ser pagos à vista, em dólares, no momento da entrega do serviço. Ou seja: você define quanto a viagem custará, dependendo do que queira usar. Se, however, decidir não utilizar nenhum serviço, terá de pagar uma espécie de couvert artístico.

Apenas os itens de segurança, como cintos, flutuantes e mapa das portas da aeronave serão gratuitos, para que não se diga que as empresas são negligentes.

Essas são as minhas previsões. Quem sabe o prezado leitor tenha outras sugestões a dar — ficarei feliz em publicá-las.

My God: what a shame!

Fonte: Facebook

sexta-feira, 21 de julho de 2023

MR. MILES

(republicação

California dreamin

Nosso correspondente inglês, que como a maioria de seus compatriotas, não é exatamente um francófilo (a tradição de refregas entre os dois povos deixou feridas permanentes), deu seu braço a torcer e entusiasmou-se com a escolha globalista do povo francês. "Uma lição gaulesa contra o nacionalismo e a xenofobia que — shame on us! — não soubemos repetir aqui em nossas ilhas. O mundo, my God, está ficando de cabeça para baixo."

A seguir, a correspondência da semana:

Olá Mr. Miles, tenho 22 anos e sou da capital de São Paulo. Gostaria de lhe pedir um conselho sobre a seguinte situação: estou de férias marcadas entre abril e maio em Los Angeles, mas viajarei sozinha pois nenhum dos meus amigos pode me acompanhar. Passarei 20 dias entre LA, San Diego e San Francisco, tenho algumas atrações já agendadas, mas tenho medo de que, por estar só, acabe não me divertindo tanto quanto como se estivesse com alguma companhia, e até mesmo não consiga organizar meus passeios. O senhor teria alguma sugestão para mim?
Danielle Yessenhart, por email

Well, my dear: eu teria uma ótima solução para todos os seus problemas mas, unfortunately, acabei de consultar minha agenda e descobri, que, devido a compromissos anteriormente assumidos, não vou poder, pessoalmente, acompanhá-la em sua american journey. Seria delightful.

Anyway, darling, não vejo motivo para preocupações. Se você tivesse programado suas ferias para a Somália, que é um dos países mais pobres e perigosos do Oriente Médio, eu certamente recomendaria que você contratasse uma dupla de vigorosos guarda-costas. Mas, embora a Califórnia tenha sido governada por Conan, o Bárbaro (também reconhecido como o Exterminador do Futuro), trata-se de um estado de pessoas civilizadas — a não ser, é claro, que você acenda um cigarro, situação que as transforma em uma horda de hunos.

Viajar sozinho, as I do, oferece algumas vantagens preciosas. A primeira delas é o total domínio que você terá sobre sua agenda, podendo manipulá-la do jeito que preferir, sem aquelas crises de relacionamento que se observam quando o seu (ou sua) colega de jornada manifesta interesses divergentes. Não são poucos — I can testify —, os amigos do peito que, no decorrer de uma viagem, transformaram-se em inimigos mortais em virtude do acúmulo de pequenas desavenças no dia-a-dia de suas férias.

A outra regalia oriunda de uma viagem solitária é a extraordinária possibilidade que você terá de fazer novos amigos. Verifico, em suas linhas, que essa é a questão que a preocupa. Pois fique tranquila, darling. A não ser que você sofra de algum tipo patológico de timidez, como meu falecido amigo Jerome (N.da R: J.D. Salinger, escritor Americano, autor de O Apanhador no Campo de Centeio, célebre por sua permanente reclusão), suas chances de conhecer gente com quem compartilhar as emoções da jornada são remarkable.

Para isso, of course, você terá de fazer tours (haverá outros estrangeiros na mesma situação que a sua), frequentar bares e baladas adequados à sua idade e, eventualmente, dormir em albergues. Haverá chatos pelo caminho.That’s unavoidable. Mas não se preocupe: os da Califórnia são iguais aos de São Paulo ou de Londres.

Em Los Angeles, desde que você não se perca naquelas intermináveis alças de viaduto em que um único erro pode levá-la diretamente à Tijuana, no México, eu diria que você tem boas chances de encontrar alguém à espera de uma vaga como figurante em um filme B de uma produtora independente — que, claro, um dia talvez venha a tornar-se Tom Hanks.

Em San Diego, conforme o swell, os surfistas são sua melhor chance. Já em San Francisco, well, você pode até achar um chinês divertido, mas, estatisticamente, suas maiores oportunidades são os hippies velhos do Height-Ashbury ou os gays do Castro. Vai ser igualmente divertido, don’t you agree?

Fonte: Facebook

sexta-feira, 14 de julho de 2023

MR. MILES


UM FILHO PARA NOSSO VIAJANTE

Mr. Miles não confirma nem desmente, mas o boato de que ele tenha sido convidado pela duquesa Kate e pelo príncipe William para sugerir o nome do terceiro herdeiro da casa de Windsor continua se alastrando pelo Reino Unido. Nosso correspondente, como se sabe, é de longa data um amigo da família real e consta que esteve envolvido até no encaminhamento do namoro entre a rainha Elizabeth II e o príncipe consorte Phillip. O fato é que, em virtude do nascimento do royal baby e dos eventos ligados ao Coronation Day, o grande viajante resolveu passar uma pequena temporada em casa. Trashie, sua raposa das estepes siberianas, contudo, tem reclamado do calor inesperado que assola a capital inglesa. A seguir, a carta da semana:

Querido mr. Miles: admiro a sua vida de viajante, seus textos e seu entusiasmo de muitas décadas. Permita-me perguntar-lhe, entretanto: o senhor não acha que sua vida será incompleta sem sucessores?
Lucilene Moraes, por e-mail

"Well, my dear: eis um assunto delicado. Já tive grandes amores em minha vida. Mulheres ora doces, ora possessivas, ora ciumentas ou desapegadas, lindas paixões espalhadas pelo mundo que, mais de uma vez, levaram-me a pensar em jogar a âncora e encerrar essa vida itinerante que escolhi ao acaso, sem siso nem motivo.

However, dear Lucilene, sempre chegava o dia de partir. Podia ser uma rútila manhã que me evocasse o fulgor das geleiras, uma noite perfumada que me levasse às lavandas da Provença ou um dia suarento que me despertasse a febre dos trópicos. Fosse o que fosse, nunca houve nada ou ninguém que me fizesse deixar de partir. Até porque, in fact, eu já havia mesmo embarcado na nave de minhas divagações.

Tenho sucessores, I presume. Mais de uma vez, no momento de ganhar o mundo e deixar para trás grandes mulheres a quem fiz sofrer, tive a nítida sensação de ver em seus olhos sinais de uma gravidez que, em justa revanche, me foi ocultada. Eis uma dúvida que carregarei comigo. Tento evitar pensar nisso com dor ou arrependimento. E fantasio, sometimes, que um dia, somewhere, vou dar de frente com uma moça ou um rapaz que reconhecerei de imediato como meus sucessores, com a naturalidade que as tartarugas reencontram as praias onde nasceram para sua própria desova.

E, quando isso ocorrer - volto a devanear -, serei, apesar da ausência, o melhor dos pais, porque vou dar a ele (ou ela) todas as histórias do mundo que conheci e um imenso repertório de amigos, compadres e afilhados nos cinco continentes. Mas, mais que isso: se eu de fato encontrar o sucessor, quero transmitir-lhe essa avidez de conhecer que é o próprio mote de minha existência.

Não terei, by the way, nenhum outro valor a legar. Quem sabe minha coleção de passaportes encadernados, que, se não me engano, já ultrapassou o quadragésimo volume. Ou algumas bebidas estranhas que guardei just for fun, como uma vodca feita em Ilhéus, um rum do Turcomenistão, um vinho tinto congolês e uísques produzidos no Vietnã e em Honduras. Viajantes, my friends, não têm propriedades para deixar. Apenas reminiscências ou extravagâncias. Se eu puder encontrar o sucessor - ou quem sabe ainda produzi-lo -, será esse o meu legado. O mesmo que, com enorme alegria, sigo compartilhando com vocês."

Fonte: O Estado de S.Paulo

sexta-feira, 7 de julho de 2023

MR. MILES

AEROMOÇAS LOIRAS E NOMES DIVERTIDOS
(republicação)

Mr. Miles, juro que é verdade: embarquei no voo 1074 da Gol, dia 11/7. A comissária de bordo, naquele inglês que a mim dá espasmos (imagino então ao senhor, native speaker!), disse: "... our flight to Prudent President ...". E, após aterrissarmos, nos brindou com um "Welcome to Prudent President...". O senhor vê isso como uma tendência? Será que logo vamos ouvir nossas cidades sendo chamadas de Beautiful Horizon, Happy Harbor, Savior, January River ou John Person?

Paulo Simon, por e-mail

"Very funny, my dear Paul! Aliás, falando em traduções, você não é o Paul Simon que cantou belas músicas com o meu amigo Art Garfunkel, are you? Well: ainda que seja, achei divertidíssima essa aeromoça bilíngue. Was she blond?

Lembro-me, anos atrás, quando visitei a ilha de Tristão da Cunha, um lugar muito triste e abandonado no meio do Oceano Atlântico. Vendo a pequena porção de terra enevoada com poucas famílias absolutamente consanguíneas, resolvi chamá-la de Very Sad da Cunha - o que, convenhamos, lembra (na forma e não no espírito) essa inovadora comissária de bordo. Será que quando o voo é para Bauru ela anuncia 'Welcome to cheese, ham andtomatoes city?' Unbelievable!

In fact, as cidades e os países podem ter nomes verdadeiros que não batem com o nosso conhecimento de português. Portanto, funcionárias atentas como a nossa loira da Gol podem ser úteis em diversas circunstâncias. Imagine se você estiver pousando, assustado, em Magyar Ország e a assistente de bordo traduzir: "Bem-vindos à Hungria!". Ou se, por acaso, você for parar na desconhecida Suomi e ninguém lhe disser que o nome pela qual a conhecemos é Finlândia.

However, na maioria dos casos, a tradução se faz tão necessária quanto pedras de gelo em um singlemalt. Sua correspondência me fez lembrar de alguns casos que provocariam gargalhadas. 'Senhoras e senhores', anunciaria a aeromoça. 'Por favor, apertem os cintos de segurança e retornem as poltronas à posição vertical. Dentro de instantes pousaremos em Os Anjos.' Where? Of course: em Los Angeles, mas nem tudo mundo precisa conhecer o castelhano, don't you agree? E vamos adiante: qual é o destino favorito dos brasileiros na América do Norte: Flowered! Em que outro Estado fica Orlando e Miami? Ou você prefere esquiar em Red Coloured, nas estações de esqui de Aspen ou Vail? Se for um bom apostador, há de preferir The Fertile Valleys, tradução literal de Las Vegas, que, by the way, fica no Estado de Snowed (Nevada).

E as surpresas não ficam apenas em nossa ex-colônia, dear Paulo. Um avião que pousasse em Bordeaux - e que tivesse uma aeromoça intérprete -, estaria chegando em Bordéus, um lugar aonde sua mulher não gostaria que você fosse… Am I right?

Enfim, sou obrigado a dizer que o exemplo mais engraçado (ou ultrajante, conforme o ponto de vista) é uma grande cidade de nosso reino, célebre por ter sido o berço daquele conjunto, Os Besouros (The Beatles). Aquela comissária do Prudent President certamente diria ao aterrissar em Liverpool: 'Sejam bem-vindos à Piscina de Fígados!'

I don't know about you, Paul, mas acho que esse é um caso de demissão por justa, justíssima causa."

Fonte: O Estado de S. Paulo