segunda-feira, 13 de novembro de 2017

OS DIREITOS DO IMBECIL

Antonio Prata

No sábado, dia 4, o STF derrubou o item 14.9.4 do Enem, que previa nota zero nas redações cujo teor desrespeitasse os direitos humanos. Com a decisão, o STF garantiu ao imbecil, na prova do dia seguinte, seu direito à imbecilidade -e, por mais triste que seja, me parece ter sido o correto.

O imbecil também é gente e se quiser defender a volta das crucificações, a instalação de um pato guilhotina diante da Fiesp ou a indicação do Alexandre Frota para o Ministério da Educação, não cabe ao Estado calá-lo, mas a todos os não imbecis rebatê-lo racionalmente.

Além da questão ética há uma outra, estratégica, para que deixemos os imbecis espalharem aos quatro ventos o vento de suas cabeças ocas: o cretino com voz é apenas um cretino, mas o cretino censurado se transforma num mártir da liberdade de expressão.

Se permitirmos que se comuniquem, há grandes chances de os patetas tropeçarem nos próprios cadarços, como os que protestaram diante do Sesc contra a filósofa Judith Butler, brandindo crucifixos, ateando fogo a uma boneca e gritando "Queimem a bruxa!". Basta calarmos o bufão, no entanto, e ele vira um herói das liberdades individuais numa cruzada contra a tirania do Estado, repetindo cacos de Thoreau copiados do Facebook e aspas do Mises pinçadas do Twitter.

Para o discurso delirante dos nossos Teletubbies alt-right, nada é melhor do que o falso papel de oprimido. E, surpreendentemente, nos últimos anos, eles têm conseguido ganhar o público nesse papel. No país em que a polícia tortura sistematicamente, executa suspeitos e promove chacinas, os paranoicos performáticos do Escola Sem Partido conseguem convencer boa parte da opinião pública de que ir contra os direitos humanos é desafiar o establishment.

Nunca é demais lembrar que São Paulo elegeu para deputado estadual o Coronel Ubiratã, comandante do massacre do Carandiru. Mais de 50 mil pessoas digitaram na urna o seu número, 111, o mesmo número de cadáveres que seus homens deixaram no presídio. Achar ousado ser politicamente incorreto neste cenário é mais ou menos como, no Coliseu, crer-se subversivo por torcer pelo leão.

Dilma foi impeachada, Michel Temer está no poder, as bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia, se quiserem, em troca de apoio, fazem o presidente dançar "Despacito", de fio dental, no espelho d'água do Planalto, mas os Beavis & Buttheads do conservadorismo continuam se defendendo da esquerda opressora.

Nesta quarta (8), uma comissão da Câmara aprovou, por 18 votos (todos homens) contra um (mulher), a proibição do aborto mesmo em caso de estupro. Serão esses parlamentares influenciados pela poderosíssima "ideologia de gênero" que os carolas do Sesc combatiam com cruzes e chamas? Terão estes senhores sido vítimas do complô de doutrinação comunista que o Escola Sem Partido luta tanto para derrubar?

No domingo passado (5), enquanto 6 milhões de adolescentes faziam o Enem, com o aval do STF para se manifestarem contra os direitos humanos, Luan Nogueira, de 14 anos, saiu de casa para comprar biscoito, em Santo André, e foi morto por um PM com um tiro no pescoço. Sua mãe, impedida pela polícia de se aproximar do corpo, coberto por um saco plástico, reconheceu o filho pela sola do sapato. Sem dúvida, precisamos urgentemente lutar pelas liberdades individuais contra a tirania do Estado, mas será que é combatendo os direitos humanos?

Fonte: Folha de S. Paulo

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

DOS MEUS LIVROS

O Mundo de Sofia - Jostein Gaarder

Comentário:

Sofia é a palavra grega para “sabedoria”; daí, penso eu, a escolha do nome da personagem principal. Este é, de facto, um livro sobre o saber. Mas é também um livro sobre a totalidade da alma humana; mais do que retalhos de emoções, pensamentos, ideias, perceções sensoriais, etc., nós somos um todo; uma totalidade.

Não é por acaso que este livro foi escolhido para o primeiro volume da épica coleção Grandes Narrativas, da Presença. E não é por acaso que estamos perante um campeão mundial de vendas.

A receita é muito simples: uma história da filosofia para principiantes, intercalada numa história de ficção. Mas não se iludam os adeptos do romance: a “estória” não é lá muito elaborada. Um filósofo escolhe uma miúda de 15 anos para lhe contar a história dos grandes filósofos e a parte ficcionada anda em torno desse misterioso contacto. O certo é que, na minha opinião, o livro vale muito mais pela parte filosófica do que pela ficção. Numa linguagem simples e até atrativa são percorridos os grandes momentos da filosofia, desde as explicações mitológicas do mundo pré-clássico até às grandes correntes do século XX como o existencialismo e o marxismo.

O facto de a componente ficcional não ser especialmente elaborada não impede que cumpra em pleno a sua principal função: a de mostrar que para lá das querelas históricas entre empiristas e racionalistas, entre existencialistas e idealistas, entre platónicos e aristotélicos, há uma componente na alma humana que nunca se pode negligenciar: a capacidade de fantasiar. Podemos ser inteligentes, sensíveis, emocionais ou idealistas; mas temos sempre a imaginação e a capacidade de sonhar; é essa, a meu ver, a grande lição de Sofia.

Em conclusão, trata-se de uma obra que todos os que gostam de livros devem ler; e guardar bem perto para consulta quando a dúvida surgir sobre Hume, Espinosa, Platão, Marx, Sartre ou qualquer outro grande nome da filosofia.

Sinopse (in wook.pt):
O bestseller mundial, «O Mundo de Sofia», é a prova de que Demócrito, Aristoteles, Kant, Espinosa, Freud e os outros são fabulosos personagens romanescos. Um thriller filosófico à boa maneira, com a vantagem de possuir uma elegante e inexcedível clareza. «O Mundo de Sofia» de Jostein Gaarder é um sucesso literário só comparável ao «Nome da Rosa» de Umberto Eco.

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DOS MEUS LIVROS

Crime na Via Ápia - Steven Saylor

Comentário:
Fascinante, tal como todos os livros desta série. Juntar a realidade histórica de Roma antiga, com ficção policial foi a ideia genial que Steven Saylor seguiu com todo o proveito, obtendo um sucesso enorme em termos de vendas. Em Portugal, a sua publicação em formato de bolso tornou estes livrinhos obrigatórios para que gosta de leituras de verão, levezinhas e num formato perfeito para levar para a praia.

Neste volume o Descobridor, Gordiano, investiga a morte de um político populista rico, Clódio, bem como a acusação popular imediata do seu rival, Milo. Pelo meio, como sempre envolvido na trama está o célebre orador e político Cícero. O pano de fundo é a última fase da República Romana, em que Pompeu, o Grande, governa quase como ditador face às dificuldades que a república encontrava para eleger os seus cônsules, pelo que se vivia um clima de quase guerra civil. Tal ambiente era o cenário ideal para crimes violentos, como este, que imediatamente originavam grandes tumultos populares.

Mas nem tudo era mau na Roma Antiga. Pelo contrário, é notável a forma como Saylor consegue dar-nos conta do avanço do Direito Romano relativamente a todas as outras civilizações antigas. Seria impensável para um Persa, um Egípcio ou até um Grego ter um tribunal popular regido por leis racionais e modernas, com julgamentos em que as testemunhas desempenhavam papel fundamental mas também processos de averiguações que advogados profissionais colocavam em discussão, antes de uma decisão obtida a partir da votação de jurados.

Em relação à qualidade deste livro enquanto objeto de entretenimento, só me ocorre uma palavra: magnífico. O que mais me impressiona é que o enredo exige uma enorme perspicácia ao investigador, Gordiano, mas ele nunca deixa de ser um humano vulgar, até com as suas fraquezas; tudo se passa como se a verdade se fosse revelando por si mesma, com uma pequena ajuda de Gordiano e seu filho Eco. Também os personagens históricos como Cícero, Pompeu, António ou Júlio César, são apresentados com enorme rigor histórico e em toda a sua dimensão humana, mortal.
O estilo é leve, claro, objetivo, constituindo uma leitura leve e agradável.

Sinopse: (in www.fnac.pt)
Estamos no ano 52 a.C. A luz vibrante dos archotes projecta manhas sombrias nas imponentes paredes de mármore. O rumor da multidão ecoa pela rua. O corpo nu de Públio Clódio está prestes a ser carregado através das ruas fervilhantes de Roma. Públio, um nobre que se tornara um arruaceiro, fora assassinado na mais esplêndida estrada do mundo: a Via Ápia. Milo, o rival de Públio, surge como o suspeito natural daquele crime, desencadeando uma série de actos de vingança que conduzem a cidade à beira do caos. O julgamento deste processo irá contar com um dos mais astutos discursos de Cícero e de Marco António por outro lado, Gordiano o Descobridor é contratado pelo próprio Pompeu para investigar a verdadeira causa deste crime...

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

DOS MEUS LIVROS

As Dez Figuras Negras - Agatha Christie

Comentário:
Uma das leituras mais emocionantes dos últimos tempos. Incerteza total quanto ao desfecho e um suspense permanente, não só em relação ao final como a tudo quanto vai acontecendo. O leitor nunca sabe o que acontece de seguida. É sabido que Agatha Christie é uma mestra do suspense, mas este livro, a par de Crime no Expresso do Oriente é uma enorme obra-prima do suspense, do policial e até, em alguns aspetos, do terror.

Uma das mais importantes chaves para o sucesso de Christie é que na sua escrita nada é supérfluo. Há muitos (e bons) escritores contemporâneos que deviam ler com atenção este livro para verem como são desnecessárias aquelas longas descrições herdadas da literatura realista ou aquelas reflexões pseudofilosofias que, muitas vezes só servem para entediar quem lê e mesmo para encorajar o abandono da leitura

Um outro princípio fundamental da obra de Agatha Christie é que, desde o início, o leitor conhece todos os elementos que serão fundamentais para o desfecho de todo o enredo. Nada lhe é escondido, como acontece nos maus policiais. Na verdade, há muitos atores, alguns até com algum sucesso que recorrer a um estratagema pouco honesto para com o leitor, que é o de apresentarem um culpado que entrou tardiamente no enredo. Pelo contrário, os grandes mestres do policial não escondem os trunfos. Neste livro o assassino é alguém que conhecemos desde as primeiras páginas do livro.

Finalmente, o último mas não menos importante ingrediente do sucesso: a surpresa do final. Como se diz em linguagem comum, aquilo não passava pela cabeça de ninguém… no entanto, tinha a sua lógica…

Sinopse: (em fnac.pt)
Em Fevereiro de 1972, Agatha Christie escreveu uma carta ao seu editor. Nessa missiva, incluída nesta edição especial, a Rainha do Crime elegeu os dez livros de sua autoria de que mais gostava. "As Dez Figuras Negras" foi considerado pela autora como um “desafio que lhe trouxe muita satisfação”. Publicado na Grã-Bretanha, em 1939, e nos Estados Unidos, em 1940, seria também adaptado para teatro e cinema.Dez desconhecidos que aparentemente nada têm em comum são atraídos pelo enigmático U. N. Owen a uma mansão situada numa ilha da costa de Devon. Durante o jantar, a voz do anfitrião invisível acusa cada um dos convidados de esconder um segredo. Nessa mesma noite um deles é assassinado. A tensão aumenta à medida que os sobreviventes se apercebem de que não só o assassino se encontra entre eles como se prepara para atacar uma e outra vez…

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

DOS MEUS LIVROS

A Pastoral Americana - Philip Roth

Comentário:
Decadência: eis a palavra-chave desta obra; a decadência do ser humano, a decadência de um povo e a decadência de um país.

Antes de mais nada, a crítica; a visão crítica dos Estados Unidos da América a que Roth já nos habituou em quase todos os seus livros: está aqui tudo: a criminalidade, mesmo jovem, o absentismo, o moralismo, o conservadorismo, etc. Até no aspeto económico: a necessidade de mão-de-obra barata, com a deslocalização para a Ásia de muitas indústrias.

Num plano mais pessoal, fica bem patente a nostalgia e a saudade nas recordações de infância. A vida de Seymour Levov (heróica na juventude e trágica no final) exprime a visão negativa do destino e da condição humana. É que por oposição a essa infância feliz há uma realidade grotesca, medonha, que atinge o Sueco Lvov: a sua filha que aos 16 anos se torna assassina, terrorista, é violada e adere a uma seita radical. Por detrás disto está um inevitável e dramático choque de gerações – “Você amou sua filha como se fosse a porra de uma coisa”; talvez a causa do conflito esteja nesse culto da posse, típico do sistema capitalista, mas também num excessivo zelo pelo cumprimento das normas; a geração antiga tende para o “certinho e direitinho”, nunca preparando os filhos para a quebra do protocolo, para a necessária e incontornável quebra das regras.

Mas, para além do conflito de gerações está também um terrível choque pessoal, um destino dramático e doloroso.

Por todo o livro é nítido um certo lamento do envelhecimento e, ao mesmo tempo uma visão romântica do passado a condizer com uma visão pessimista do futuro e uma leitura bem negra do presente. O cancro de que sofre o escritor /personagem/narrador é o símbolo dessa visão cinzenta da realidade do país e do mundo.

A Pastoral e a contrapastoral: “A filha que o transporta para fora da sonhada pastoral americana e para dentro de tudo o que representa a sua antítese e o seu inimigo, para a fúria, a violência e o desespero da contrapastoral — para a selvajaria nativa americana.” A vida certinha, feliz, perfeita do Sueco Levov representava a Pastoral americana – a cartilha do sucesso, em que cada geração é um aperfeiçoamento da anterior. Mas a filha, que representa a última geração corta com a Pastoral; ela e a sua geração são a sua antítese. Assim, neste aspeto, a obra assume uma feição algo catastrofista ou, pelo menos, pessimista em relação ao destino da América. Revoltada contra a guerra do Vietname e contra o comodismo, bem como a acomodação da geração dos pais, a juventude dos anos 60, aqui representada por Merry, torna-se contestatária. E o país não está preparado para a compreender.

Mas a revolta não era apenas contra a guerra. Esse foi apenas o ponto de partida; era contra todo o modelo de vida capitalista. Contra a pastoral burguesa. Em causa estava por exemplo a procura de mão de obra barata. A crise económica, da qual a ruína da indústria das luvas é símbolo, vai dando lugar à crise social. Multiplicam-se os movimentos de contestação e os atentados. O livro de Roth torna-se premonitório em relação à América atual.

Um ritmo narrativo por vezes muito lento torna o livro algo enfadonho, ao contrário de outras obras de Roth. Por exemplo, porquê tanto espaço para declarar a futilidade dos concursos de misses? E porquê tanto pormenor na descrição dos métodos de fabrico de luvas de couro? Não vejo como o leitor possa seriamente beneficiar disso… é certo que Roth traça um desenho aprimorado da realidade norte-americana, especialmente nas suas faces mais negras, mas o exagero de pormenores retira, em alguns capítulos, esse prazer da leitura que todos procuramos.

SINOPSE (in wook.pt)
Philip Roth aborda frequentemente a necessidade humana de demolir, desafiar, opor, separar. 

Neste livro, contudo, foca-se no oposto: a necessidade de viver uma vida calma e normal. 

Seymour «Sueco» Levov, um lendário atleta universitário, devotado homem de família, trabalhador esforçado e próspero herdeiro, envelhece na triunfante América do pós-guerra, vendo esfumar-se tudo o que ama quando o país começa a efervescer nos turbulentos anos 60. 

Nem o mais tranquilo e bem-intencionado cidadão consegue escapar à vassourada da história, nem o Sueco pode permanecer para sempre na felicidade da amada e velha quinta em que vive com a sua bela mulher e a filha, que se torna uma revolucionária terrorista apostada em destruir o paraíso de seu pai. A inocência do Sueco Levov é varrida pelos tempos - como tudo o que foi criado pela sua família, através de gerações, deitado por terra na violenta explosão de uma bomba no seu bucólico quintal.

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

sábado, 23 de setembro de 2017

DOS MEUS LIVROS

Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

Comentário:
A quem lê este livro é impossível não recordar o imortal D. Quixote. Quaresma é, tal como o cavaleiro de La Mancha, o idealista ingénuo, o homem que cumpre um sonho se bem que singelo, inocente. Ele era funcionário. Mas, ao contrário de todos os outros (afundados na passividade rotineira) ele vai à procura de um ideal, neste caso a defesa intransigente dos valores da Pátria, que ele considera a melhor de todas. O Brasil é o seu valor supremo e ele pagará caro por esse sonho de mostrar aos seus concidadãos essa grandeza.

Este enredo tão peculiar e interessante é o ponto de partida para um livro cheio de interesse, pela beleza de uma linguagem simples, direta, como quem conversa com o leitor mas também e acima de tudo pela deliciosa crítica, sempre num tom bem-disposto, bem-humorado. Os alvos são vários; a mordacidade da crítica atravessa toda a vida social daquele Brasil de início de século, mas desses alvos sobressaem especialmente dois: os políticos e os funcionários públicos. Os políticos, apenas interessados no voto deixam-se levar por um populismo calculista e por um amor ao poder que os leva aos mais baixos “jogos” de influências; esses jogos são por sua vez conduzidos pela corrupção – tudo se decide mediante os pedidos e os favores. Os funcionários públicos, por sua vez, são criticados pela sua indolência, pela passividade, pela inutilidade e por uma cultura pedante, sem conteúdo.

Mas não fica por aqui a pena mordaz de Lima Barreto. São também seus alvos os costumes: por exemplo o casamento como único objetivo da mulher, o papel passivo do elemento feminino, como espécie de figura decorativa que, no entanto é vítima de um crónico machismo; a personagem Isménia, por exemplo, morre vítima dessa condição feminina. É ainda apontado o pedantismo e a ostentação dos licenciados e até dos escritores dados ao barroco. Os militares são inúteis e corruptos; as suas promoções são obtidas por influências e a sua competência é nula. Mas nem o povo escapa; o desleixo e a indolência são os seus principais defeitos, a par do diletantismo e ignorância das classes altas – “Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isto! Eu, há bem quarenta anos, que não pego em livro...” (fala do general amigo de Quaresma). Mais interessados no poder do que no progresso do país, militares e políticos controlam o povo, conduzindo-o a revoltas e a conflitos dos quais só eles beneficiam.

Em suma, estamos perante um livro que marcou o início do modernismo literário no Brasil, um livro marcante em termos históricos e que podia e devia ser mais divulgado, pelo menos em Portugal.

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

DOS MEUS LIVROS

O Homem que sabia Javanês e outros contos - Lima Barreto

Comentário:

Lima Barreto é considerado um dos mais importantes escritores brasileiros, embora pouco conhecido em Portugal. Viveu na transição do século XIX para o XX pelo que o seu estilo enquadra-se no realismo então em voga, essencialmente na ênfase que dá à crítica social e política.Mas esta obra vai mais além; o sentido de humor e a sátiratornam este livro delicioso de ler.

O seu estilo é leve, fluido, direto, colocando a narração dos factos acima de quaisquer considerações ou descrições exageradas. A sua linguagem é acessível e sempre bem-humorada.

Desta edição do Polo Editorial do Paraná constam 17 pequenas narrativas. O conto que dá título ao livro é uma pérola; uma preciosidade pela crítica deliciosa e bem-disposta à forma como algumas pessoas ascendem socialmente. O homem não sabia absolutamente nada de javanês. Mas fingiu que sabia e acabou ensinando essa estranha língua e daí à subida na escala política foi um pequeno passo. 
O homem não era inteligente; era esperto; e é essa esperteza saloia, tão típica dos políticos que aqui é retratada e satirizada.

Mas há muitos outros tipos sociais retratados e por vezes parodiados nestes contos e dos quais aponto alguns exemplos. 

Em Três Génios de Secretaria, a crítica ao funcionalismo público: negligente, incompetente, maledicente. Mas todos temos um pouco de funcionário público: “todos nós nascemos para empregado público”. A burocracia, bem kafkiana é a lógica do sistema – a lógica da idiotice em que todos, afinal, com o nosso espírito de funcionário público, nos enquadramos.

Em O Número da Sepultura conta-se a história de Zilda, esposa clássica, recatada e de bons costumes, a quem uma vez aconteceu algo de pouco habitual. Mas só uma vez… É a sátira à classe média, a pequena burguesia sem grandes aspirações, por isso mesmo conservadora nos costumes e reticente a qualquer risco.

Em O Falso Dom Henrique V, Lima Barreto constrói uma narrativa completamente diferente: cria um contexto histórico para o qual transpõe a acérrima crítica política às realidades do seu tempo, nomeadamente às políticas sociais injustas e às intrigas palacianas em que “vale tudo” para atingir o poder político.

O pequeno conto O Pecado constitui uma crítica brutal à igreja católica.

No conto O Filho de Gabriela, Lima Barreto explica de que forma a origem social e, principalmente, a consciência dessa origem social condicionam a vida de qualquer ser humano. Horácio nasceu pobre e enjeitado; os seus pais adotivos, no entanto, nunca deixaram de lhe fazer sentir a distância que a sua condição impunha; e seria o próprio Horácio a interiorizar a sua inferioridade. Com consequências terríveis.

Em jeito de conclusão podemos dizer que estamos perante um livro que consegue aliar de forma notável as mensagens que o autor quer transmitir a um formato de leitura muito agradável. E quando assim é, só se pode dizer que vale a pena ler!

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

LIVRAI-NOS DE TODO O MAL

Hélio Schwartsman

Sem capital político para aprovar a reforma da Previdência, o governo Temer busca comprar a confiança do mercado com uma agenda ambiciosa de privatizações.

Para os entusiastas do mercado, privatizações são uma espécie de pílula mágica, que resolve todos os problemas. Elas não apenas serviriam para tornar a economia mais eficiente (melhores produtos e serviços a preços mais baixos) e reduzir o tamanho do Estado como ainda permitem ao país fazer caixa para reduzir dívida e juros.

Já para a esquerda, privatizações são tóxicas. Seriam uma forma ardilosa de transferir patrimônio público para as mãos de particulares e ainda reduzir o poder do Estado de promover o bem comum. Mesmo quando recorrem a elas, governos que se dizem de esquerda se desdobram para nunca chamá-las pelo nome. Dilma, por exemplo, recorreu ao eufemismo "concessões", que nada mais são que privatizações por prazo fixo.

Obviamente, nenhuma dessas posições, que retratei de forma caricata, admito, para em pé. Há exemplos históricos de privatizações que deram certo, revertendo em maior eficiência e justa remuneração pela alienação patrimonial, e de transferências que são mais bem descritas como roubalheira descarada. O modo como o processo é conduzido importa mais do que os conceitos teóricos.

No caso do Brasil de hoje, vejo as privatizações como algo interessante. Não tanto por acreditar que obteremos grandes ganhos de eficiência ou atingiremos preços fantásticos, mas simplesmente porque reduziríamos a influência de políticos sobre setores importantes da economia.

No nosso presidencialismo de cooptação, a distribuição de cargos de empresas públicas segundo interesses políticos não só abre avenidas para a corrupção (como vimos com as diretorias da Petrobras) como ainda tende a resultar em chefias menos competentes que o possível. Só nos livrar disso já seria um bom negócio.

Fonte: Folha de S. Paulo

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

UMA DIZ. A OUTRA DESDIZ

Ruy Castro

Os sites de curiosidades que abundam online celebraram outro dia os 20 anos de Janus, uma tartaruga residente na Suíça. Até aí, nada demais, e nem os 20 anos de uma tartaruga são notícia –sabe-se de algumas que chegaram a quase 200, como a famosa Harriet, que já era adulta quando foi estudada pessoalmente por Charles Darwin para seu livro "A Origem das Espécies", de 1859, e só morreu em 2006. Mas Janus tem uma característica: é uma tartaruga de duas cabeças.

Tartarugas de duas cabeças também não são incomuns. Às vezes nasce uma delas, dizem que por má separação dos embriões. Só que, em seu habitat natural, têm vida curta porque, como costumam ter também seis patas, movem-se com dificuldade e são presa fácil de predadores. Mas Janus está a salvo: seu lar é o Museu de História Natural de Genebra, onde lhe fazem todas as vontades e passam o dia alimentando-a com folhas verdes e deliciosas. O nome Janus é o do deus romano de duas faces —uma virada para a frente, outra, para trás—, que lhe permitem ver o presente e o passado e cuidar das mudanças e transições.

Ao ler isto, não pude deixar de pensar em Michel Temer. Ele também parece ter duas cabeças. Uma diz uma coisa e a outra, em seguida, volta atrás e desdiz. Nas tartarugas, isso não altera a ordem das coisas, mas não fica bem em presidentes. E tem sido assim desde o começo de seu governo —promessas que não se cumprem, decisões que se revelam desastrosas e são abandonadas e uma formidável capacidade de fazer de conta que esse vai-não-vai levará o país a algum lugar.

A exemplo de Janus —o deus, não a tartaruga—, Temer devia estar cuidando das mudanças e transições. Pois esqueça. E, assim como Janus —a tartaruga, não o deus—, dizem que ele também gosta de folhas verdes.

Nesse caso, não esqueça.

Fonte: Folha de S. Paulo