domingo, 19 de novembro de 2017

COMO COMBATER FAKE NEWS NO BRASIL?

COMO COMBATER FAKE NEWS NO BRASIL?
Ronaldo Lemos

Nas últimas semanas, vem sendo articulada a ideia de que o Comando de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército tenha um papel de destaque no combate às notícias falsas na internet ("fake news"). Ainda há poucos detalhes sobre qual é exatamente o plano, e mais informações ajudariam no debate público.

No entanto, com base no pouco que se sabe, atribuir uma preponderância militar a esse tema parece ser decisão equivocada e ineficaz.

A internet é um fenômeno complexo, que desafia a capacidade do Estado de agir sozinho. A evidência disso é que as principais ameaças que se materializam na rede hoje são engendradas tanto por atores estatais como não estatais. Para combatê-las, é necessário um arranjo similar.

Basta ler os estudos do professor Jonathan Albright, meu colega na Universidade Columbia, para ver como o debate sobre fake news é mais complexo do que o modo como vem sendo tratado.

Albright mostra que cada notícia falsa é apenas a ponta do iceberg de uma indústria global bilionária que se formou para disseminar propaganda de natureza inflamatória.

Ele batizou essa indústria de "a máquina de micropropaganda". Seu elemento fundamental –pouco visível– é uma constelação de empresas desconhecidas, grandes e pequenas, que monitoram e vigiam os hábitos e preferências políticas dos usuários, sem nenhuma consideração à privacidade ou a limites éticos. As notícias falsas e a máquina de micropropaganda são dois lados de uma mesma moeda. Tratar de apenas um deles não gera resultados.

Para lidar com esse desafio, é necessária uma resposta institucional mais sofisticada. O primeiro passo é destravar a discussão sobre a lei de proteção de dados pessoais, que está pendente no Congresso. Essa lei deve permitir a inovação, ao mesmo tempo em que impõe obrigações de transparência e coíbe abusos éticos.

Outro passo é a criação de um fórum multissetorial para tratar do tema, subordinado exclusivamente ao Tribunal Superior Eleitoral.

Nesse fórum deve haver a presença de vários setores: comunidade acadêmica e científica, governo, Comitê Gestor da Internet, setor privado, sociedade civil e aí sim o Comando de Guerra Eletrônica do Exército. Assim torna-se possível construir uma resposta mais efetiva às fake news. O requisito para isso é coordenar esforços entre os vários setores de forma permanente e estruturante.

As fake news são uma espécie de spam. Qualquer tipo de spam destrói o valor da mídia em que circula. Basta lembrar o fim dos anos 1990, quando os serviços de e-mail foram inundados por propaganda e quase afundaram.

Estamos em um momento em que o desafio é maior. As fake news atuais degradam a esfera pública como um todo. São um problema não só para as redes sociais como para a mídia "tradicional", com quem competem por atenção e minam a credibilidade. É necessário o envolvimento de todos os setores da sociedade para tratar dessa questão. O TSE pode liderar esse processo.

Fonte: Folha de S. Paulo

terça-feira, 14 de novembro de 2017

PROFESSOR: ESPÉCIE EM EXTINÇÃO

PROFESSOR: ESPÉCIE EM EXTINÇÃO
Eduardo Aquino/O Tempo

Charge do Latuff
Professor se tornou espécie em extinção num ambiente muito hostil

Vagas de pedagogia, magistério e congêneres se oferecem em muitas esquinas, longínquas cidades, remotas faculdades. Se preenchidas, se esvaem nos anos de graduação, e alguns gatos pingados (ou professores sagrados) mandam o convite de formatura, como se fosse foto de uma grande família.

Apanhar, ser agredido verbalmente, a absoluta falta de respeito, tudo isso é um espinho que fere a dignidade dos mestres. Assim como o desinteresse galopante dos alunos (e dos pais, muitas vezes).

TERRENO BALDIO – A escola é, hoje, um terreno baldio. A sociedade joga ali o lixo de sua desumanidade, desigualdade e indiferença. Se, antes, a escola pública era exemplo e as privadas eram complementares, hoje a pirâmide se inverteu. Sim, aqui e ali, oásis de excelência se destacam no deserto.

Redundante falar que a educação é a base do sucesso de países que até quatro ou cinco décadas atrás estavam no quarto mundo, como Coreia, Singapura e outros tigres asiáticos, em especial a China.

Somos o somatório de nossos erros e acertos. O mundo é de quem o merece. Se os políticos e os que optaram por carreiras públicas só aprenderam a subtrair e dividir, o resultado só pode ser negativo. Conseguimos piorar a cada ano em todos os índices mundiais de avaliação de qualidade de ensino. Somos lanterninhas da competência.

MUITOS PROBLEMAS – Péssimas faculdades? Salários indignos? Famílias disfuncionais e desestruturadas? O vício desgraçadamente silencioso, espantosamente perigoso da tecnologia? A falência irreversível do medieval modelo, quadro-negro, giz, carteiras e, quando muito, um computador pré-histórico? Porções generosas de tudo isso e diversos outros temperos que se misturam e fermentam num caótico cenário de fim dos tempos, do salve-se quem puder, apague a luz o último a sair.

Tal qual a peste negra na Idade Média, os professores e os funcionários das escolas públicas vão caindo enfermos, inválidos, mortalmente atingidos por estresse, depressão, síndrome de Bournout (esgotamento aversivo, embotamento e robotização funcional).

Sobram discursos, guerras ideológicas esquizofrênicas entre facções entrincheiradas em modelos teóricos catedráticos, enquanto o mamute lento e preguiçoso das políticas públicas é tomado pela infecção sistêmica da corrupção, da burocracia e da falta de mérito.

NA VIDA REAL – Enquanto isso, na vida real, balas perdidas, greves, falta de professores ambientes físicos fantasmagóricos aparecem nas páginas policiais. E alunos terminam o ensino médio sem conseguir formular duas frases simples, analfabetos funcionais e apanhando de tabuadas básicas. E dá-lhe nudes, sexies, redes sociais. O smartphone alienante e emburrecedor, quando mal usado, o que é regra, e não exceção.

Se sou pessimista? Não, de jeito nenhum. Torço para que estrutura viciada e inviável caia de vez. Sonho com uma escola sem muros ou paredes, inventiva, estimulante, absolutamente nova e renovável a cada dia. Onde o prazer de frequentá-la traga satisfação e sensação de recompensa para alunos, professores, pais e funcionários. Um espaço multiuso que atraia a comunidade em seu entorno. Que se filosofe, desperte o desejo pelo conhecimento, amplie o horizonte existencial de todos nós. Que crie, invente, descubra soluções e caminhos para uma humanidade tão perdida. Será que é do interesse político e público? Ou a ignorância e a alienação são essenciais para manter o compadrio, a corrupção, o voto de cabresto e o coronelismo que campeiam neste grande e complacente “país do futuro”?

Fonte: Tribuna da Internet

NA INTERNET, CADA UM É EDITOR DE SI MESMO


Na internet, cada um é editor de si mesmo, o caso Wiliam Waack é um exemplo
Pedro do Coutto

Na internet, a partir da década de 80, com a unificação da rede em computadores, surgiu uma nova era na informação, na interpretação e, portanto, na comunicação de modo geral. Foi um marco importante na história, o primeiro além daquele definido magistralmente por Marshall McLuhan. Mas o sociólogo canadense havia dividido a História da Humanidade em duas eras: a era do relato e a era do registro. A era do registro sucede a imprensa de Gutemberg no século XV. A era do relato antecede.

Para citar dois exemplos de momentos traumáticos na história universal podemos citar a crucificação de Jesus Cristo e o Nazismo. A crucificação é um relato. O nazismo um registro. Na época do nazismo já existiam os jornais, a fotografia e o cinema. As imagens foram incorporadas à memória universal. E também surgia em 1934 a televisão nos Estados Unidos. O nazismo surgiu em 1933 e a segunda Guerra Mundial foi desencadeada em 1939.

TERCEIRA ERA – Mas eu disse que a internet implantou uma terceira era na história da comunicação. Isso porque, a partir dela, qualquer um de nós, que possua um computador, passa a ser de receptor a emissor de mensagens. Este aspecto é essencial nos dias de hoje. As provas da essencialidade são muitas. Uma delas refere-se ao episódio de William Waack, objeto de grande repercussão nas redes sociais e de reportagem de Marcelo Maethe, Daniel Bergamasco, Filipe Vilicio, Maria Carolina Maier e Alex Xavier, na revista Veja que está nas bancas. O episódio do afastamento de William Waack do jornal da Globo e da Globonews foi abordado também por Paulo Cezarino Costa, na Folha de São Paulo deste domingo, e Demétrio Magioly, na Folha de sábado. A repercussão, portanto foi muito grande e na proporção exata do fato. Porém a questão essencial desloca-se para o poder das redes sociais.

Marcelo Marte e Daniel Bergamasco referem-se também a outros episódios que tiveram seu desfecho a partir de divulgações na internet. Entre os quais, os que envolvem o ator José Mayer, o médico Marcos Harter e o ator da série House of Cards, abrangendo também o produtor famoso em Holywood. Os dois últimos casos, relativos a assédio sexual. Aliás, o mesmo problema no qual mergulhou o ator José Mayer.

CASO WAACK – Voltemos ao capítulo relativo a William Waack. A colisão na qual Waack levou a pior refere-se a um vídeo gravado por Diego Pereira, que trabalhou na Globo até janeiro deste ano. Diogo Ferreira colocou na internet um vídeo gravado em novembro de 2016 quando William Waack , em Washington, preparava-se para comentar a vitória nas urnas de Donald Trump. Um motorista de um automóvel próximo ao local onde o repórter se encontrava começou a buzinar de forma insistente. William Waack ofendeu o motorista inquieto, inclusive pelo fato de o motorista pertencer à raça negra.

Surpreende que tal gravação tivesse chegado às mãos da direção da Rede Globo exatamente um ano depois do fato. Causa surpresa também o afastamento imediato do jornalista. Mas o que quero comentar não é apenas o acontecimento e seu desfecho. Desejo comentar a importância das redes sociais no universo da comunicação. Com a internet, como disse no início cada um passou a ser também um transmissor de notícias, deixando de ser apenas um receptor.

SEM REVISÃO – Mas a dimensão desse avanço não acaba aí. Vai além: cada pessoa pode ser um transmissor de notícias e de análises sobre quaisquer fatos e assuntos, não estando suas mensagens sujeitas ao crivo de um editor, como acontece nos jornais, nas emissoras de rádio e televisão. Nada disso. Além de transmissor cada um torna-se também editor de si mesmo. Daí a dimensão maior que se passou a atribuir à colocação de matérias nas redes sociais. O caso William Waack é um exemplo marcante. Ele, ao se desculpar , confirmou a veracidade da gravação colocada na rede,

Entretanto – eis um tema interessante –, podem ocorrer casos em que os editores de si mesmos não estejam ao lado da verdade. Em tais situações, importante assinalar, é necessário que todos nós busquemos a confirmação. E esta será sempre encontrada nos jornais impressos do dia seguinte. Seja como for, a transformação de cada um de nós, de receptor a transmissor, representa a grande página da história moderna. A informação hoje tornou-se mais rápida do que a informação de ontem.

Fonte: Tribuna da Internet

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

OS DIREITOS DO IMBECIL

Antonio Prata

No sábado, dia 4, o STF derrubou o item 14.9.4 do Enem, que previa nota zero nas redações cujo teor desrespeitasse os direitos humanos. Com a decisão, o STF garantiu ao imbecil, na prova do dia seguinte, seu direito à imbecilidade -e, por mais triste que seja, me parece ter sido o correto.

O imbecil também é gente e se quiser defender a volta das crucificações, a instalação de um pato guilhotina diante da Fiesp ou a indicação do Alexandre Frota para o Ministério da Educação, não cabe ao Estado calá-lo, mas a todos os não imbecis rebatê-lo racionalmente.

Além da questão ética há uma outra, estratégica, para que deixemos os imbecis espalharem aos quatro ventos o vento de suas cabeças ocas: o cretino com voz é apenas um cretino, mas o cretino censurado se transforma num mártir da liberdade de expressão.

Se permitirmos que se comuniquem, há grandes chances de os patetas tropeçarem nos próprios cadarços, como os que protestaram diante do Sesc contra a filósofa Judith Butler, brandindo crucifixos, ateando fogo a uma boneca e gritando "Queimem a bruxa!". Basta calarmos o bufão, no entanto, e ele vira um herói das liberdades individuais numa cruzada contra a tirania do Estado, repetindo cacos de Thoreau copiados do Facebook e aspas do Mises pinçadas do Twitter.

Para o discurso delirante dos nossos Teletubbies alt-right, nada é melhor do que o falso papel de oprimido. E, surpreendentemente, nos últimos anos, eles têm conseguido ganhar o público nesse papel. No país em que a polícia tortura sistematicamente, executa suspeitos e promove chacinas, os paranoicos performáticos do Escola Sem Partido conseguem convencer boa parte da opinião pública de que ir contra os direitos humanos é desafiar o establishment.

Nunca é demais lembrar que São Paulo elegeu para deputado estadual o Coronel Ubiratã, comandante do massacre do Carandiru. Mais de 50 mil pessoas digitaram na urna o seu número, 111, o mesmo número de cadáveres que seus homens deixaram no presídio. Achar ousado ser politicamente incorreto neste cenário é mais ou menos como, no Coliseu, crer-se subversivo por torcer pelo leão.

Dilma foi impeachada, Michel Temer está no poder, as bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia, se quiserem, em troca de apoio, fazem o presidente dançar "Despacito", de fio dental, no espelho d'água do Planalto, mas os Beavis & Buttheads do conservadorismo continuam se defendendo da esquerda opressora.

Nesta quarta (8), uma comissão da Câmara aprovou, por 18 votos (todos homens) contra um (mulher), a proibição do aborto mesmo em caso de estupro. Serão esses parlamentares influenciados pela poderosíssima "ideologia de gênero" que os carolas do Sesc combatiam com cruzes e chamas? Terão estes senhores sido vítimas do complô de doutrinação comunista que o Escola Sem Partido luta tanto para derrubar?

No domingo passado (5), enquanto 6 milhões de adolescentes faziam o Enem, com o aval do STF para se manifestarem contra os direitos humanos, Luan Nogueira, de 14 anos, saiu de casa para comprar biscoito, em Santo André, e foi morto por um PM com um tiro no pescoço. Sua mãe, impedida pela polícia de se aproximar do corpo, coberto por um saco plástico, reconheceu o filho pela sola do sapato. Sem dúvida, precisamos urgentemente lutar pelas liberdades individuais contra a tirania do Estado, mas será que é combatendo os direitos humanos?

Fonte: Folha de S. Paulo

domingo, 12 de novembro de 2017

FOME À VISTA

FOME À VISTA
Ruy Castro

De repente, até mesmo em regiões onde certas culturas pareciam firmes e a prosperidade, garantida, o fantasma da fome bate à porta.

Em vários países da Ásia, da África e da Oceania, as bananas estão sendo atingidas por um fungo, o Fusarium oxysporum, que causa uma doença resistente a remédios e de difícil detecção. Ele invade a bananeira pelas raízes, penetra no seu sistema vascular, despeja uma gosma que impede a circulação dos nutrientes e a faz produzir, em vez de gloriosas bananas d'água, reles bananicas. As bananeiras das Américas Central e do Sul ainda não foram atingidas, mas, dizem os estudiosos, as repúblicas especializadas no produto não perdem por esperar.

Há também aquele problema há muito denunciado em escala mundial: que fim levaram as abelhas? Mesmo no Brasil, o sumiço já pode ter chegado a 30% das colônias. É grave porque, na busca do alimento, as abelhas polinizam as plantações de frutas, legumes e grãos, significando que, sem elas, a produção cai. As hipóteses para o desaparecimento vão do abuso de agrotóxicos à poluição do ar e até aos sinais emitidos pelas torres de celular, que as fariam perder o senso de direção. O mundo tornou-se hostil às abelhas –não admira que elas estejam caindo fora.

E não sei o que acontece com as vacas francesas, mas a produção de leite na França caiu a níveis alarmantes nos últimos meses. Isso inflacionou o preço da manteiga e, em consequência, os croissants, que são 25% manteiga, desapareceram das padarias de Paris. Os franceses podem passar sem Montaigne, Rousseau ou Voltaire, mas não entendem a vida sem manteiga. É a manteiga que lubrifica a economia da França.

Lubrifica outras coisas também –imagine se essa crise se desse quando Marlon Brando estava filmando "Último Tango em Paris", em 1972.

Fonte: Folha de S. Paulo

domingo, 5 de novembro de 2017

O SHOPPING MORREU

O SHOPPING MORREU
Por Caio Camargo

O papel dos shoppings centers no cotidiano de seus consumidores vem mudando muito nos últimos anos, e precisa imediatamente se reformular. Muito se fala sobre shoppings e grandes lojas de departamento fechando no exterior, mas há algo acontecendo também no Brasil e que o mercado precisa entender desde já.

Quem é lojista e tem loja, principalmente em shoppings, sabe muito bem que nos últimos anos (considerando até mesmo o período antes da crise), o fluxo de clientes em lojas físicas vem caindo ano após ano, sendo cada vez mais difícil encontrar lucratividade nos negócios. A equação entre os custos operacionais, cada vez maiores, e as vendas, cada vez menores, principalmente por conta do forte período de retração de consumo o qual estamos vivendo, só traz uma conclusão: Não está sendo fácil ser varejista.

Por consequência, os shoppings também vêm sofrendo quedas em seu fluxo, e embora não trabalhem a venda de forma direta, a relação com seus locatários vem se tornando cada vez mais complexa e difícil. Num passado não tão distante, grandes empreendimentos, ou shoppings entendidos como “maduros” pelo mercado, podiam cobrar praticamente “o que quisessem”, pois para os varejistas, estar nesses empreendimentos significava vendas garantidas. Hoje, esses mesmos empreendimentos estão tendo que rever seus modelos de valores e relacionamento, de maneira a manter marcas e evitar corredores cheios de tapumes.

Muito dos problemas está na maneira como os empreendimentos se relacionam com as marcas. Em uma relação que, com o agravamento da crise, se tornou ainda menos cordial, quando deveria ser o oposto, há reclamações de lojistas que vão desde valores cobrados, com aumentos fora da realidade do cenário atual, até mesmo questões que invadem a privacidade dos negócios, com alguns empreendimentos obrigando lojistas a ceder informações que deveriam ser sigilosas, como faturamento ou demais informações de vendas.

Por conta disso, já existem no mercado, e de maneira cada vez mais forte, uniões e movimentos que unam lojistas em interesse comum, contra práticas que julguem abusivas.

E se o shopping não está conseguindo se entender com as pequenas e médias marcas, as grandes marcas começam também a apresentar sinais que estão revendo seu papel dentro do shopping. Se antes a presença das grandes marcas eram a salvação dos empreendimentos, atualmente, as grandes marcas de varejo parecem estar se desinteressando em “estar em todos os lugares” e revendo seus modelos de expansão, para lojas cada vez menores e com menores custos, de olho no novo consumidor e assim como em uma lucratividade de seus negócios. Os modelos híbridos de lojas físicas com experiência digital vão permitir cada vez mais uma experiência de compra que necessite de menos espaço e estoque, permitindo lojas menores.

Isso é algo que irá impactar diretamente na questão das lojas âncora, essenciais tanto para os empreendimentos, quanto para os demais lojistas de menor porte, pois significam também fluxo e atratividade.

Outro ponto importante que mostra a necessidade de se rever o papel do shopping no cotidiano, é o fato de que a compra em meios puramente digitais é cada vez mais madura no Brasil. Os consumidores hoje se encontram divididos. Nem todos hoje gostam ou preferem a compra física, comprando em canais que lhe soem mais convenientes, como as compras efetuadas pelos computadores ou celulares. Para muita gente, ir à um shopping, com muitas pessoas ou estacionamentos abarrotados é uma tortura. Comprar online, pelo menos para esses consumidores, é sempre mais conveniente, e confortável.

Por conta de tudo isso, há um novo posicionamento que precisa ser trabalhado. Os shoppings centers, até pelo próprio nome que carregam, que significa literalmente centro de compras, sempre foram considerados como apenas “templos de consumo”. Com a mudança no comportamento de compra dos consumidores provocada pela revolução digital dos últimos anos, o novo papel que precisa ser desenvolvido pelo shopping é o de ser muito mais do que um espaço cheio de lojas, e cada vez mais um espaço que se relaciona com as pessoas, principalmente de sua região ou microrregião.

O Shopping Center, como centro de compras, ao menos como termo, está com os dias contados. Os shopping centers precisam se tornar algo que faça sentido diariamente ou o mais “cotidiano” possível, “Everyday” Centers, onde as pessoas possam de fato ter um espaço de convívio e relacionamento, entretenimento, e até mesmo comprar algo quando julgue oportuno ou necessário.

É possível que o papel de centros de compras sejam delegados aos novos tipos de Outlets, concentrando marcas e ofertas. Os consumidores ainda vêm propósito em se deslocar, mesmo que para uma região mais afastada, para boas ofertas, se de fato forem boas ofertas. Possivelmente o modelo de outlets também tenha impactado nas compras do shopping center nos últimos anos.

Hoje parece que os shoppings já de olho nesse cenário de se tornar cada vez mais um local de convívio, apostam menos em formatos cabíveis na praça de alimentação, e mais em formatos de restaurantes que promovam melhores experiências, como os restaurantes do tipo “casual dining”, como os das redes Outback, Applebees, Madero, entre outros, além de outros formatos como supermercados em formato empório, padarias, academias e até mesmo laboratórios ou escolas como as escolas de idiomas. Opções que façam sentido no cotidiano das pessoas, e não somente quando estão interessadas em comprar algo.

Não sei quanto tempo irá levar até que o mercado se transforme, mas me parece um caminho irreversível.

Um grande abraço e boas vendas,

Fonte: http://www.administradores.com.br

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

REELEIÇÃO: MÃE DA CORRUPÇÃO

REELEIÇÃO: MÃE DA CORRUPÇÃO
Sebastião Nery 

Comprada por FHC, a reeleição se tornou a mãe da corrupção

Há 2.500 anos, na Grécia, Péricles chamou o povo para a praça pública e mandou decidir tudo pelo voto. Começava ali a civilização. Cada um valendo um. O voto é o homem como um animal igual. É a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade. Com a roda, a pólvora, a eletricidade, o rádio, a televisão, a Internet, o homem mudou o mundo. Mas quem mudou o homem foi o voto. O voto fez o homem ser e se saber igual. Não enche barriga, mas derruba as tiranias.

A emenda da reeleição de Fernando Henrique foi comprada. A imprensa provou. Todo mundo sabe. Deputados renunciaram ao mandato com a boca na “botija” de Sergio Motta. A reeleição é uma rima de cão. É a vitória irrefreável da corrupção em todos os níveis: presidência, governadores e prefeitos.

INSULTO À NAÇÃO – Quando Fernando Henrique comprou a reeleição, Paulo Brossard, deputado, senador, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal, escreveu:

“A reeleição é um insulto à Nação, aos 150 anos do Brasil independente, a todos os homens públicos que passaram por este país. Se os generais tivessem querido, também teriam sido reeleitos. Não faltariam apoios.

Pois bem. Foi preciso que chegasse à presidência da Republica não um militar, não um general, mas um civil, não um homem de caserna, mas um professor universitário, para que o Brasil regredisse ao nível mais baixo da América Latina em matéria de provimento da chefia do Estado.

A Constituição brasileira, na sua sabedoria, proibiu a reeleição dos presidentes. Sempre se vedou a eleição de Presidente para o período imediato.

Bastou um presidente ambicioso e sem senso de respeito à visão histórica nacional, para que a Constituição mudasse a favor de seu intento”.

DISSE DA TRIBUNA – Josafá Marinho, senador, foi para a tribuna mostrar o crime da reeleição:

– “A Constituição de 88 instituiu a inelegibilidade absoluta, para os mesmos cargos, inclusive o presidente da Republica. Estipula a inelegibilidade relativa para os titulares que pretendam “outros cargos”, obrigando-os a renunciarem até seis meses antes do pleito.

– “Se o titular dos postos executivos está obrigado a renunciar para habilitar-se à eleição de “outro cargo”, por maior razão lógica há de ser compelido ao afastamento definitivo para a reconquista do “mesmo lugar”.

– “O fundamento moral e político de resguardo da liberdade do voto e de igualdade entre os candidatos, que o força a deixar o cargo pretendendo “outro”, cresce se seu propósito é ser reconduzido ao “mesmo” posto, de onde pode exercer influência preponderante no processo eleitoral”.

REELEIÇÃO COMPRADA – Não adiantou a reação dos dois ilustres juristas e da maioria da Nação. Fernando Henrique “ronivonou” o Congresso e a reeleição foi comprada.

(O ex-deputado RONIVON Santiago (ex-PFL, PMDB e PP) foi mascate da reeleição. O ex-deputado e delator da Lava Jato Pedro Corrêa (PP-PE) revelou que Ronivon admitiu ter recebido R$ 200 mil para apoiar a reeleição).

A reeleição é o princípio e o fim de todo tipo de corrupção por um motivo claro: no exercício do poder governadores, presidente e prefeitos têm muito mais força para negociar obras, superfaturar projetos e multiplicar apoios com dinheiro público. O Mensalão mostrou isso e o Petrolão tirou a prova dos nove, comprovando que reeleição rima com corrupção no mais alto grau de depravação.

Voto e alternância de poder são a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade.

Fonte: Tribuna da Internet

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

TELETORMENTO

EDITORIAL FOLHA DE SP - 26/10

O telemarketing invasivo nos lembra que as deficiências do Brasil não se limitam ao setor público.

Por uma combinação de incompetência com terceirizações precárias, empresas que desejam legitimamente se dirigir a clientes atuais ou potenciais se tornam um estorvo na vida do consumidor, invadindo sua privacidade e seus momentos de repouso –o que conspira contra a imagem e os interesses da própria companhia.

Essa marcha insensata é favorecida por um ambiente de regulação falha, além de protocolos que violam as mais elementares regras de bom senso. Operadores mal remunerados e sem treinamento acabam por adotar uma prática mais semelhante ao assédio do que à conquista recomendada pelos manuais de vendas.

Como descreve o caderno especial publicado por esta Folha na terça-feira (24), os resultados desses desatinos, além da irritação de quem precisa responder a múltiplas e inconvenientes ligações telefônicas, são ineficiências empresariais na forma de custos com multas e até processos judiciais.

Há uma forma razoavelmente simples e barata de enfrentar o problema: trata-se da lista pública de telefones que não devem ser contatados pelos departamentos de telemarketing, já adotada nos EUA, em países da União Europeia, na Argentina e mesmo em alguns Estados do Brasil, como São Paulo.

Empresas que fazem chamadas indesejadas a números registrados nesses cadastros ficam sujeitas a multas e a outras sanções. Se isso não basta para eliminar as agruras dos consumidores —especialmente porque a incompetência está entre suas causas—, decerto serve para atenuá-las.

Outro aspecto preocupante é que o desrespeito à privacidade dificilmente fica restrito ao campo do telemarketing agressivo. Tudo indica que o padrão de desleixo de empresas esteja se repetindo na guarda de dados dos clientes, com transtornos menos visíveis, mas consequências que podem ser bem mais graves.

Tais informações têm valor estratégico e são frequentemente vendidas ou repassadas a outras firmas, nem sempre idôneas.

Embora o Marco Civil da Internet proíba o fornecimento de dados pessoais sem a anuência do titular, este costuma autorizá-lo inadvertidamente, ao preencher formulários não lidos na íntegra, em meio digital. Seria recomendável, portanto, a apresentação à parte de tais cláusulas.

Faz-se hora de interromper essa e outras rotinas de ineficiências que tanto mal fazem ao país.

domingo, 29 de outubro de 2017

NOVAS CONSPIRAÇÕES

NOVAS CONSPIRAÇÕES
Ruy Castro

O presidente americano Donald Trump ameaça liberar nesta quinta-feira (26) a abertura de 3.000 documentos confidenciais sobre o assassinato de seu antecessor, John Kennedy, morto a tiros em Dallas no dia 22 de novembro de 1963. Até agora, esses documentos estavam trancados no FBI e na CIA. O que Trump quer com isto?

Seja o que for, não será em nome da história. A morte de Kennedy foi um dos eventos mais dissecados do século 20. Rendeu milhares de livros e reportagens, a cargo dos escritores e jornalistas mais respeitáveis, e nada de novo apareceu. A conclusão final da comissão de investigação, presidida pelo juiz Earl Warren –a de que um homem, Lee Harvey Oswald, tramou e executou sozinho o atentado–, sobreviveu a toda espécie de conspirações envolvendo os russos, os cubanos, a máfia ou o próprio Richard Nixon, que foi visto em Dallas naquele dia.

Trump está apostando em alguma revelação que deixe Kennedy mal. Isso não é difícil. Durante 37 anos, o FBI foi comandado por J. Edgar Hoover, um homem que odiava liberais, negros e mulheres, o que viesse primeiro. Kennedy era um liberal, tomou medidas a favor dos negros, e raro o dia em que não teve uma fã ajoelhada a seus pés na Casa Branca. Hoover tinha todos os podres de Kennedy anotados. Mas, se era assim, por que não os vazou?

Quer um palpite sobre o que os documentos irão revelar? Frank Sinatra mandou Lee Oswald matar Kennedy porque, depois de Sinatra ter ajudado a elegê-lo e redecorado sua casa em Palm Springs para hospedá-lo, Kennedy preferiu ficar na casa de Bing Crosby, que, além de rival de Frank, torcia pelo Partido Republicano. Não, nada disso. Quem mandou matar Kennedy foi Marilyn Monroe, ao descobrir que Kennedy estava tendo um caso com a própria mulher, Jacqueline.

Fonte: Folha de S. Paulo

CHINA FAZ MELHOR FICÇÃO CIENTÍFICA DA ATUALIDADE

Ronaldo Lemos

Em tempos de crise, um dos grandes riscos é a perda da capacidade de imaginação. Crises produzem pessoas neuróticas, que por sua vez, desenvolvem a chamada "visão em túnel", só conseguindo enxergar o que está imediatamente à sua frente. Mais do que isso, prisioneiras de visões simplistas da realidade e reféns de sentimentos primais, como raiva e medo. Incapazes de transformar desafios em oportunidades, como no ideograma chinês.

Um excelente antídoto para a falta de imaginação vem, aliás, diretamente da China. Trata-se do impressionante livro de ficção científica "A Floresta Negra" (The Dark Forest), escrito por Liu Cixin.

Cixin, vale lembrar, já foi chamado de "o Arthur C. Clark" da China e já recebeu o prêmio Hugo, considerado o Nobel da ficção científica (o primeiro asiático a vencer a honraria). Antes de se tornar escritor, trabalhou como engenheiro em uma usina termoelétrica.

A "Floresta Negra" é um espetáculo de imaginação. É a segunda parte de uma trilogia que teve início com "O Problema dos Três Corpos", sobre o qual já escrevi aqui na coluna. Sua trama é justamente sobre a maior crise que a humanidade poderia viver: a iminência da destruição total por causa da invasão de uma civilização tecnologicamente mais avançada, que por sua vez está condenada à extinção por orbitar um sistema solar composto por três diferentes sóis.

O livro concentra-se especificamente na dimensão política dessa situação. Que estratégias a humanidade deve adotar para sobreviver?

Como lidar com o derrotismo e a neurose típicas de qualquer crise (inclusive a brasileira)? Mais ainda: como lidar com a parcela da população que passa a desejar a invasão, isto é, que as forças militares extraterrestres assumam logo o planeta, já que humanidade teria sido incapaz de resolver seus problemas por conta própria (talvez a forma mais perversa de derrotismo)?

É com essa premissa que Cixin constrói as bases para sua "cosmopolítica", esquadrinhando as difíceis decisões que a descoberta de outra civilização imporia à humanidade. A questão tem similaridade com a détente nuclear. Por exemplo, a possibilidade de aniquilação mútua funcionaria para impedir um conflito cósmico?

Semelhanças com o embate atual entre EUA e Coreia do Norte não serão mera coincidência.

A obra de Cixin é também uma crônica do momento atual da China. Após sobreviver a mútuas crises ao longo de mais de um século, o país conseguiu saltar da pobreza agrária para se tornar o celeiro industrial do planeta.

A fase mais recente, que vem se desdobrando nos últimos anos, é o país se convertendo em potência de inovação tecnológica.

Para isso acontecer, a China apostou em ciência e tecnologia, com foco e planejamento. O fato de produzir hoje a melhor ficção científica do planeta não é um acaso. É a cereja que coroa um bolo forjado pela conjugação entre ciência e capacidade de imaginação. Dois elementos que estão em falta no Brasil atual.

Fonte: Folha de S. Paulo

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

AO VENCEDOR, AS BATATAS

Bernardo Mello Franco

Michel Temer é um vencedor. Em junho, ele se tornou o primeiro presidente do Brasil a ser alvo de uma denúncia criminal no exercício do cargo. Foi acusado de pedir propina, obstruir a Justiça e chefiar uma quadrilha, mas não perderá o cargo nem a liberdade. O caso dormirá numa gaveta até 2019.

Quando as gravações da JBS vieram à tona, a pinguela de Temer balançou. Ministros o aconselharam a renunciar, e aliados discutiram abertamente sua sucessão. O presidente quis pagar para ver. Pagou caro e à vista, como mostrou o noticiário sobre a negociação na Câmara.

Nos últimos quatro meses, o peemedebista ofereceu de tudo para manter os deputados no cabresto. Seus articuladores leiloaram cargos e emendas na bacia das almas. Até reservas na Amazônia foram rifadas no balcão de negócios do Planalto.

A operação de compra e venda deu resultado. Nesta quarta, a Câmara encenou o último ato da blindagem presidencial. A denúncia foi barrada por 251 votos a 233.

Em minoria, a oposição fez o barulho possível. Temer também foi atacado por dissidentes da base. Um deputado do PR, que controla o Ministério dos Transportes, exigiu "cadeia e algema" para o presidente. Um deputado do Solidariedade, dono do Incra, acusou-o de chefiar o "Primeiro Comando do Planalto".

Os defensores do governo foram mais breves. Com medo do eleitor, muitos balbuciaram o "sim" e fugiram do microfone. A história registrará que Paulo Maluf deu o primeiro voto a favor de Temer. O voto 171 foi de Celso Jacob, o deputado presidiário. Depois de ajudar o presidente, ele voltou à sua cela na Papuda.

Temer se sagrou vencedor, mas terá que engolir batatas murchas e amassadas. Sua base de apoio encolheu, sua impopularidade bateu recorde e seu governo ficou ainda mais fraco e desmoralizado. Mesmo assim, ele tem o que festejar. É melhor continuar no palácio do que antecipar o encontro com os tribunais.

Fonte: Folha de S. Paulo

domingo, 22 de outubro de 2017

A VIDA NÃO É UM TRIBUNAL

Hélio Schwartsman

Num tom muito cordial, pelo qual agradeço, Reinaldo Azevedo criticou minha coluna do dia 18, em que apontava semelhanças entre as sinas de alguns políticos. "Temer é vítima de um complô, Aécio, de armação, e Lula, de perseguição", escrevi. Azevedo, se resumo bem seu argumento, diz que eu fui irônico e que isso é inadmissível diante das ilegalidades e abusos processuais a que os três dirigentes estão sendo submetidos.

Admito que eu tenha sido irônico, mas não creio que isso seja pecado. O que me surpreendeu é que Azevedo, que sabe ler e interpretar textos com maestria (ele daria um excelente talmudista), tenha deixado escapar o ponto central de meu artigo. Como Azevedo, sou um garantista. O Estado de Direito é um dos alicerces da civilização contemporânea. E deixei bem claro na coluna que nenhum dos três políticos pode sofrer sanções penais sem que sua culpa tenha sido demonstrada. Na esfera criminal, as garantias dadas a acusados precisam ser maiúsculas. "Reus sacra res est" (o réu é coisa sagrada). Só que a vida não é um tribunal. Ela encerra outras dimensões em que o nível de proteção ofertado à defesa não precisa e nem deve ser tão elevado.

O exemplo mais rudimentar é o do eleitor. Ele não tem de considerar as explicações de Lula ou de Aécio antes de negar-lhes seu voto. Num plano intermediário estão os conselhos de ética do Legislativo. Eles não podem cassar ninguém sem nem ouvir sua versão, mas não precisam proceder com o mesmo rigor formal e material do Judiciário. Ao contrário do que se dá com juízes, a Carta não exige de parlamentares que fundamentem seus votos condenatórios.

Independentemente das tipificações penais e da validade das provas, ficou bem demonstrado que Temer, Aécio e Lula se meteram em relações promíscuas com empresários que já confessaram inúmeros atos de corrupção. Isso é mais que suficiente para uma condenação política.

Fonte: Folha de S. Paulo

APÓS O 'FAKE NEWS', O 'FAKE FOOD'

APÓS O 'FAKE NEWS', O 'FAKE FOOD'
Ronaldo Lemos

Vale do Silício, 2013. Um engenheiro apoiado por uma campanha de financiamento coletivo e investidores na área de tecnologia cria uma farinha chamada "soylent". Trata-se de um pó alimentar na cor "nude" que alega ter todos os nutrientes necessários para o metabolismo humano. A ideia é não precisar comer mais nada, bastando comer "soylent".

O marketing do produto é feito para quem não tem tempo. Seu slogan é: "E se você nunca mais tivesse mais de se preocupar com comida?".

O produto desperta imensa polêmica desde o primeiro dia. Rapidamente é incluído nos exemplos de "solucionismo tecnológico", termo criado pelo escritor bielorusso Eugeny Morozov para designar a crença de que a tecnologia pode funcionar como panaceia para problemas históricos que diversas instituições falharam em resolver. Como a fome.

Nova York, 2016. Um jornalista chamado Shane Snow publica um artigo propondo resolver o problema de prisões nos EUA. Para reduzir custos do sistema carcerário, ele sugere que os presos sejam conectados a aparelhos de realidade virtual. Além disso, sugere que toda a alimentação nos presídios seja substituída por "soylent", mais barato do que alimentos normais.

O artigo do jornalista desperta ira. É chamado por pessoas como Ethan Zuckermann, professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), de "a pior coisa que li neste ano".

São Paulo, 2017. O prefeito de São Paulo, João Doria, anuncia que vai distribuir um composto granulado, criado com alimentos próximos ao vencimento ou fora de padrão, para famílias em situação de carência alimentar que procurem os equipamentos sociais da cidade de São Paulo. O granulado, batizado originalmente de "Farinata", será doado por uma empresa, poupando recursos financeiros da prefeitura.

As mesmas críticas feitas às ideias de Snow aplicam-se ao caso de São Paulo.

Um composto como esse viola frontalmente as diretrizes da ONU sobre "alimentação adequada". Em relatório de 2015, esse termo foi definido como "o direito ao acesso regular, permanente e irrestrito a comida que corresponda às tradições culturais daquela pessoa e que assegure seu bem-estar físico e mental, respeitando sua dignidade".

Além disso, produtos assim nunca foram testados no logo prazo com relação ao consumo humano.

Por fim, nem o mais selvagem utilitarismo justificaria uma decisão como essa. Como lembra o professor de Harvard Michael Sandel, há elementos fundamentais à condição humana que não podem ser trocados por dinheiro nenhum.

Um dos aspectos mais perversos do "solucionismo tecnológico" é sua capacidade de lidar com os efeitos e ignorar as causas.

Em um mundo tomado por "fake news", cuidar de efeitos gera assunto e vídeos a serem compartilhados na internet, trazendo cliques e "engajamento". Já lidar com as causas dos problemas é trabalho árduo. Demanda tempo, paciência, sabedoria e resiliência. Qualidades que não saem bem na foto das redes sociais. Depois do "fake news", entramos na era do "fake food".

Fonte: Folha de S. Paulo

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

TEATRO RUIM

Bernardo Mello Franco

"Isso aqui na verdade é um teatro". O surto de sinceridade foi do deputado Beto Mansur, do PRB. Integrante da tropa de choque do governo, ele resumiu o longo e inútil debate na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Ao subir ao palco, os deputados já sabiam que as cortinas se fechariam com a vitória do Planalto. Mesmo assim, a peça se arrastou por quase nove horas. Ninguém queria perder a chance de brilhar ao vivo na TV.

"Não se troca presidente da República como se troca de técnico de time de futebol", disse o ex-malufista Mansur. A oposição interrompeu o discurso para reclamar de plágio. No ano passado, a mesma frase era usada para defender Dilma Rousseff.

Os deputados que votariam pela rejeição da denúncia tentavam escapar do papel de vilão. Até Bonifácio de Andrada, autor do parecer a favor do presidente, buscou encenar alguma independência. "Eu sou relator. Não sou líder do governo, não", disse.

Com dez mandatos nas costas, o tucano nunca cairia na própria conversa. Ele foi escolhido para selar uma troca. Temer ajudava Aécio, que ajudava Temer... qualquer semelhança com o poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade, não haveria de ser coincidência.

"É uma permuta", resumiu o petista Paulo Teixeira. Ele ironizou a defesa do governo contra a acusação de obstrução de Justiça. Segundo o Planalto, Temer só queria que Joesley Batista continuasse "de bem" com o presidiário Eduardo Cunha.

"Haveria uma amizade com prestações mensais?", debochou Teixeira. Na famosa gravação do Jaburu, o presidente diz a frase "tem que manter isso" e o dono da JBS responde com a expressão "todo mês".

Apesar dos excessos no microfone, os deputados pouparam o público das costumeiras cenas de empurra-empurra. Eles também parecem cansados de encenar sempre a mesma peça. O teatro ruim deve terminar na próxima quarta, com o sepultamento da denúncia no plenário.

Fonte: Folha de S. Paulo

DOS MEUS LIVROS

O Mundo de Sofia - Jostein Gaarder

Comentário:

Sofia é a palavra grega para “sabedoria”; daí, penso eu, a escolha do nome da personagem principal. Este é, de facto, um livro sobre o saber. Mas é também um livro sobre a totalidade da alma humana; mais do que retalhos de emoções, pensamentos, ideias, perceções sensoriais, etc., nós somos um todo; uma totalidade.

Não é por acaso que este livro foi escolhido para o primeiro volume da épica coleção Grandes Narrativas, da Presença. E não é por acaso que estamos perante um campeão mundial de vendas.

A receita é muito simples: uma história da filosofia para principiantes, intercalada numa história de ficção. Mas não se iludam os adeptos do romance: a “estória” não é lá muito elaborada. Um filósofo escolhe uma miúda de 15 anos para lhe contar a história dos grandes filósofos e a parte ficcionada anda em torno desse misterioso contacto. O certo é que, na minha opinião, o livro vale muito mais pela parte filosófica do que pela ficção. Numa linguagem simples e até atrativa são percorridos os grandes momentos da filosofia, desde as explicações mitológicas do mundo pré-clássico até às grandes correntes do século XX como o existencialismo e o marxismo.

O facto de a componente ficcional não ser especialmente elaborada não impede que cumpra em pleno a sua principal função: a de mostrar que para lá das querelas históricas entre empiristas e racionalistas, entre existencialistas e idealistas, entre platónicos e aristotélicos, há uma componente na alma humana que nunca se pode negligenciar: a capacidade de fantasiar. Podemos ser inteligentes, sensíveis, emocionais ou idealistas; mas temos sempre a imaginação e a capacidade de sonhar; é essa, a meu ver, a grande lição de Sofia.

Em conclusão, trata-se de uma obra que todos os que gostam de livros devem ler; e guardar bem perto para consulta quando a dúvida surgir sobre Hume, Espinosa, Platão, Marx, Sartre ou qualquer outro grande nome da filosofia.

Sinopse (in wook.pt):
O bestseller mundial, «O Mundo de Sofia», é a prova de que Demócrito, Aristoteles, Kant, Espinosa, Freud e os outros são fabulosos personagens romanescos. Um thriller filosófico à boa maneira, com a vantagem de possuir uma elegante e inexcedível clareza. «O Mundo de Sofia» de Jostein Gaarder é um sucesso literário só comparável ao «Nome da Rosa» de Umberto Eco.

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

TEORIA DO CAOS

Charge do Laerte
Neste período torto da vida, a salvação pode ser a Teoria do Caos…
Eduardo Aquino (O Tempo)

Para quem acha que o mundo está acabando, em meio a furacões, terremotos, aquecimento global, Trump, Temer e Lava Jato, tenho boas notícias. Tudo isso tem uma lógica divina. Como “Deus escreve certo por linhas tortas”, estamos apenas vivendo em um período torto da escrita divina. Somos meros fractais, partes ínfimas que alteram o todo. Um efeito “El Ninho” civilizatório.

Pequenos e insignificantes caracteres de uma tuitada de um presidente podem encher nosso céu de luzes crepusculares de morte atômica. Talvez, cumpra-se a profecia, e o fogo espalhará sua força, trazendo luz às trevosas relações humanas.

É A ENTROPIA – Não sei se é do conhecimento de todos, mas o universo tende a um fenômeno chamado “entropia”. Ou desorganização, para desespero dos perfeccionistas e organizados. Por isso, me interessei pela teoria do caos. Pois é um alento saber que atrás de uma rachadura na parede, movimentos da bolsa de valores, ou o desenho que as ondas deixam nas areias em suas marés, coisas altamente irregulares, podem ser matematizadas por equações chamadas “não lineares” (não se preocupem com esses detalhes, pois isso é coisa para o pessoal de ciências exatas).

Enfim, por mais caótico que algo pareça ser, encontraremos alguma fração, mesmo invisível aos nossos olhos, altamente organizada.

LÓGICA DIVINA – Ok, parece complicado, mas vamos no popular mesmo: tudo tem uma lógica divina. Somos uma experiência cósmica que tem tudo para dar certo, ainda que aparentemente dê errado.

Como na teoria de Gaia, em que nosso planeta é um ser vivido regido por leis próprias e, de vez em quando, congela por milhares de anos, vira vulcões que exala atmosfera de gases tóxicos, ou é habitado por dinossauros, ou deixa um ser narcisista, egocêntrico, metido a Deus, achar que é “o cara” e dando poder a ele, transforma-o em demônio vendedor de almas, com depósitos na Suíça e delata os demais parceiros de inferno, guiados por almas honestas, que passeiam de pedalinho em lagoa de empreiteiras.

Mas ainda bem que a sopa de letrinhas de partidos feitos do barro de santos ocos pode ser vomitada em ordem alfabética. E santos de vestais do Supremo dizem amém. Pensando bem, não entendi nada da Teoria do Caos…

Fonte: Tribuna da Internet

terça-feira, 17 de outubro de 2017

FEDERALISMO OU SECESSÃO

FEDERALISMO OU SECESSÃO
Rodrigo ConstantinoRodrigo Constantino

O leitor deve ter acompanhado por alto os acontecimentos em Catalunha, com o plebiscito a favor de sua separação. No Brasil também tivemos um ensaio da mesma natureza com o movimento “O Sul é o meu país”. O que ocorre?

Há, como em todo fenômeno complexo, inúmeras causas. Tem muita gente oportunista que enxerga nisso uma chance de angariar poder ou fama. Mas há um lado legítimo, como aquele que esteve por trás da vitória do Brexit no Reino Unido: uma crise de representatividade na democracia.

Parcela cada vez maior da população simplesmente não se sente representada pelo establishment, especialmente em locais onde a concentração de poder na esfera federal foi grande demais, afastando os governantes dos governados.

Isso gera uma insatisfação crescente, e aquele pedaço do eleitorado não se reconhece nos políticos que supostamente o representam. As raízes de um povo, o que forma uma cultura local, acaba sendo diluído em meio ao “multiculturalismo”. A afinidade com o próximo, que compartilhava da mesma língua, dos mesmos hábitos e crenças, dá lugar a uma abstração — sociedade — pela qual o indivíduo não sente absolutamente nada especial.

O casamento forçado pode ser pior do que uma separação amigável. Um povo, uma sociedade, deve estar unido por valores minimamente comuns, por uma cultura. Caso contrário, é melhor cada um seguir mesmo o seu caminho.

Os “pais fundadores” dos EUA reconheciam o direito à secessão, e até hoje há uma forte crença na descentralização do poder. O nome disso é federalismo, e por trás dele está o princípio de subsidiariedade. Quanto mais local for o exercício do poder, melhor. Às esferas federais sobraria pouca coisa, básica e realmente nacional.

Não é isso que vemos mundo afora, especialmente no Brasil, onde Brasília concentra poder absurdo. E esse centralismo é responsável pela crescente sensação de abandono por parte das populações locais. Foi esse sentimento, em parte, que levou ao Brexit, um grito de soberania contra Bruxelas e seus distantes burocratas sem votos.

O conceito de nação é importante para os conservadores, assim como o patriotismo. Justamente por isso eles também devem pregar o federalismo. É o mecanismo que permite um convívio mais saudável entre as diferentes partes. A alternativa, que é impor uma união cada vez maior entre quem não fala a mesma língua, pode levar ao divórcio litigioso, ao fim da própria nação.

Não acho que o sul deveria se separar do restante do Brasil, e desconfio dos motivos das lideranças desse movimento separatista. Mas entendo a revolta: quem se sente, afinal, representado por Brasília? Ou o Brasil adota de fato o federalismo, ou teremos mais e mais grupos pregando a secessão.

Fonte: Revista Isto É

domingo, 15 de outubro de 2017

CONTRADIÇÕES ROMANAS

CONTRADIÇÕES ROMANAS
Ruy Castro

Um grande filme italiano de 1962, "Il Sorpasso" (no Brasil, "Aquele Que Sabe Viver"), de Dino Risi, começa com Vittorio Gassman rodando de carro pelas ruas de Roma, num feriado, pela manhã, à procura de um telefone público. Precisa ligar para a namorada, com quem marcou um encontro, para dizer que vai se atrasar. Mas, àquela hora, todos os botequins estão fechados. Por causa disso, ele conhece o estudante inexperiente, interpretado por Jean-Louis Trintignant, e os dois pegam a estrada, numa viagem sem igual para o jovem.

Revi "Il Sorpasso" outro dia e ele continua fabuloso, mas duas coisas chamam agora a atenção. Primeiro, Gassman roda horas com seu Lancia Aurelia por uma Roma lindamente vazia. Em 1962, as cidades da Europa ainda mantinham uma relação orgânica com seus cidadãos. Não mais. Com as multidões de turistas que tomaram suas ruas, os moradores passaram a ter de disputar os serviços e praticar os preços pagos pelos visitantes. Não aguentam.

O outro ponto notável do filme é Gassman desesperado à procura de um telefone. Os garotos nascidos no século 21 não entenderão o problema, porque não conseguem imaginar a vida sem celular. Mas assim eram as coisas naquele tempo —os telefones públicos eram poucos e ficavam em botequins. Quando os botequins fechavam, nada de telefones.

Hoje, Roma é o palco de uma inédita contradição. Com sua história, arquitetura e lendas, atrai milhões de turistas por ano. Todos com telefone. E aí está a contradição.

Nesta extraordinária cidade, em que, pelas placas nas fachadas, descobre-se que ali moraram Anna Magnani, Alberto Moravia ou o próprio Garibaldi, esses milhões passeiam por suas ruas concentrados no visor do celular —indiferentes ao fato de que, em cada frontão ou pilastra, há um César de olhos vazados os espreitando.

Fonte: Folha de S. Paulo

UM POETA COM NERVOS DE AÇO

UM POETA COM NERVOS DE AÇO

O compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974), Lupe, como era chamado desde pequeno, compôs músicas que expressam muito sentimento, principalmente, a melancolia por um amor perdido. Foi o inventor do termo dor-de-cotovelo, que se refere à prática de quem crava os cotovelos em um balcão ou mesa de bar, pede um uísque duplo e chora pela perda da pessoa amada.

Constantemente abandonado pelas mulheres, Lupicínio buscou em sua própria vida a inspiração para suas canções, onde a traição e o amor andavam sempre juntos. E “Nervos de Aço” não foge à regra, porque Lupe fala de um sentimento numa ocasião especial com franqueza. Além disso, o desejo de morte é superado e surge o canto. Cantar é colocar-se acima das regras; é olhar para o futuro; é transcender o desejo de dor e continuar vivendo. Originalmente, “Nervos de aço” foi lançada em 1947, na Continental, pelo cantor paulista Déo (Ferjalla Rizkalla), mas pouco depois, Francisco Alves também gravou a música na Odeon, conseguindo um enorme sucesso.



NERVOS DE AÇO
Lupicínio Rodrigues

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do seu pode ser

Há pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor 

(Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Fonte:Tribuna da Internet

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

DOS MEUS LIVROS

Crime na Via Ápia - Steven Saylor

Comentário:
Fascinante, tal como todos os livros desta série. Juntar a realidade histórica de Roma antiga, com ficção policial foi a ideia genial que Steven Saylor seguiu com todo o proveito, obtendo um sucesso enorme em termos de vendas. Em Portugal, a sua publicação em formato de bolso tornou estes livrinhos obrigatórios para que gosta de leituras de verão, levezinhas e num formato perfeito para levar para a praia.

Neste volume o Descobridor, Gordiano, investiga a morte de um político populista rico, Clódio, bem como a acusação popular imediata do seu rival, Milo. Pelo meio, como sempre envolvido na trama está o célebre orador e político Cícero. O pano de fundo é a última fase da República Romana, em que Pompeu, o Grande, governa quase como ditador face às dificuldades que a república encontrava para eleger os seus cônsules, pelo que se vivia um clima de quase guerra civil. Tal ambiente era o cenário ideal para crimes violentos, como este, que imediatamente originavam grandes tumultos populares.

Mas nem tudo era mau na Roma Antiga. Pelo contrário, é notável a forma como Saylor consegue dar-nos conta do avanço do Direito Romano relativamente a todas as outras civilizações antigas. Seria impensável para um Persa, um Egípcio ou até um Grego ter um tribunal popular regido por leis racionais e modernas, com julgamentos em que as testemunhas desempenhavam papel fundamental mas também processos de averiguações que advogados profissionais colocavam em discussão, antes de uma decisão obtida a partir da votação de jurados.

Em relação à qualidade deste livro enquanto objeto de entretenimento, só me ocorre uma palavra: magnífico. O que mais me impressiona é que o enredo exige uma enorme perspicácia ao investigador, Gordiano, mas ele nunca deixa de ser um humano vulgar, até com as suas fraquezas; tudo se passa como se a verdade se fosse revelando por si mesma, com uma pequena ajuda de Gordiano e seu filho Eco. Também os personagens históricos como Cícero, Pompeu, António ou Júlio César, são apresentados com enorme rigor histórico e em toda a sua dimensão humana, mortal.
O estilo é leve, claro, objetivo, constituindo uma leitura leve e agradável.

Sinopse: (in www.fnac.pt)
Estamos no ano 52 a.C. A luz vibrante dos archotes projecta manhas sombrias nas imponentes paredes de mármore. O rumor da multidão ecoa pela rua. O corpo nu de Públio Clódio está prestes a ser carregado através das ruas fervilhantes de Roma. Públio, um nobre que se tornara um arruaceiro, fora assassinado na mais esplêndida estrada do mundo: a Via Ápia. Milo, o rival de Públio, surge como o suspeito natural daquele crime, desencadeando uma série de actos de vingança que conduzem a cidade à beira do caos. O julgamento deste processo irá contar com um dos mais astutos discursos de Cícero e de Marco António por outro lado, Gordiano o Descobridor é contratado pelo próprio Pompeu para investigar a verdadeira causa deste crime...

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

NUZMAN É UM TROMBADINHA

Nuzman é um trombadinha no assalto à Olimpíada. O ‘cara’ é Lula. Alguém duvida?
Hildeberto Aleluia

A prisão de Carlos Arthur Nuzman, do Comitê Olímpico Brasileiro, chama atenção para o tamanho da força do decano desportista. Que era influente, isso é inegável. Mas daí a considerá-lo capaz de comandar um esquema de corrupção da estatura da Olimpíada é um exagero. Ou uma estupidez. Nuzman tinha acesso aos recursos do BNDES e de outras estatais? Zero.

Quem trouxe a Olimpíada e a Copa do Mundo para o Brasil foi, em primeiro lugar, Lula. À época presidente da República. Depois, deixou na cadeira a ‘laranja’ Dilma Rousseff. O cenário estava armado para a mais espetacular roubalheira de que se tem notícia na história recente da humanidade.

EMPREITEIROS – A ‘produção’ Copa-Olimpíada veio no rastro do Mensalão e do Petrolão. E Lula contou com a cumplicidade de empreiteiros. Alguns deles estão no xadrez. Lula, estranhamente (?), não. A farra das ‘arenas’ foi antológica.

Alguém acredita que Nuzman teria tanto cacife para ‘gerir’ tamanha bandalheira sem que Lula desse sinal verde? Nuzman teria mesmo que ser preso, mais cedo ou mais tarde. No mínimo por cumplicidade.

Mas qualquer tentativa de moralização do país passa sobretudo pela prisão de Lula, cujo cinismo vai da falsificação de recibos ao uso da imagem de Marisa Letícia, que passou dessa para o nada.

SEGUIR O DINHEIRO – Se a mídia quer saber quem comandou o assalto na Olimpíada, basta seguir o caminho do dinheiro. Os passos de Lula. Mas a mídia continua carregando sobre Carlos Arthur Nuzman, como se ele fosse protagonista da roubalheira na Olimpíada de 2016, no Rio. Nuzman é um reles coadjuvante. Um trombadinha engravatado. Ou alguém acredita que ele abriu os cofres do BNDES, do Banco do Brasil, dos Correios, da Eletrobrás?

Nuzman deve mofar no xilindró. No mínimo, para jamais ser conivente com governos corruptos, como os da dupla Lula-Dilma. Mas, se a imprensa efetivamente tem interesse em contribuir para desvendar a rota do dinheiro, basta seguir as pegadas de Lula, o chefe da organização criminosa, que assaltou os cofres públicos durante 13 anos e 5 meses.

Fonte: Tribuna da Internet

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

DOS MEUS LIVROS

As Dez Figuras Negras - Agatha Christie

Comentário:
Uma das leituras mais emocionantes dos últimos tempos. Incerteza total quanto ao desfecho e um suspense permanente, não só em relação ao final como a tudo quanto vai acontecendo. O leitor nunca sabe o que acontece de seguida. É sabido que Agatha Christie é uma mestra do suspense, mas este livro, a par de Crime no Expresso do Oriente é uma enorme obra-prima do suspense, do policial e até, em alguns aspetos, do terror.

Uma das mais importantes chaves para o sucesso de Christie é que na sua escrita nada é supérfluo. Há muitos (e bons) escritores contemporâneos que deviam ler com atenção este livro para verem como são desnecessárias aquelas longas descrições herdadas da literatura realista ou aquelas reflexões pseudofilosofias que, muitas vezes só servem para entediar quem lê e mesmo para encorajar o abandono da leitura

Um outro princípio fundamental da obra de Agatha Christie é que, desde o início, o leitor conhece todos os elementos que serão fundamentais para o desfecho de todo o enredo. Nada lhe é escondido, como acontece nos maus policiais. Na verdade, há muitos atores, alguns até com algum sucesso que recorrer a um estratagema pouco honesto para com o leitor, que é o de apresentarem um culpado que entrou tardiamente no enredo. Pelo contrário, os grandes mestres do policial não escondem os trunfos. Neste livro o assassino é alguém que conhecemos desde as primeiras páginas do livro.

Finalmente, o último mas não menos importante ingrediente do sucesso: a surpresa do final. Como se diz em linguagem comum, aquilo não passava pela cabeça de ninguém… no entanto, tinha a sua lógica…

Sinopse: (em fnac.pt)
Em Fevereiro de 1972, Agatha Christie escreveu uma carta ao seu editor. Nessa missiva, incluída nesta edição especial, a Rainha do Crime elegeu os dez livros de sua autoria de que mais gostava. "As Dez Figuras Negras" foi considerado pela autora como um “desafio que lhe trouxe muita satisfação”. Publicado na Grã-Bretanha, em 1939, e nos Estados Unidos, em 1940, seria também adaptado para teatro e cinema.Dez desconhecidos que aparentemente nada têm em comum são atraídos pelo enigmático U. N. Owen a uma mansão situada numa ilha da costa de Devon. Durante o jantar, a voz do anfitrião invisível acusa cada um dos convidados de esconder um segredo. Nessa mesma noite um deles é assassinado. A tensão aumenta à medida que os sobreviventes se apercebem de que não só o assassino se encontra entre eles como se prepara para atacar uma e outra vez…

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br