quinta-feira, 8 de julho de 2021

NÃO TROPECE NA LÍNGUA

ASSERTIVIDADE, RISCO DE VIDA, ORA, DESPERCEBIDO
Almir Nahas, de São Paulo/SP, solicita explanação sobre o termo assertividade, que está “entre as palavras de uso mais ou menos corrente em certos meios profissionais” e cujo significado “os dicionários não esclarecem”.
Dicionários registram o básico: assertividade é a qualidade ou condição do que é assertivo, afirmativo. Assertivo tem a ver com asserção, afirmativa, declaração. Na nova acepção do termo, não significa fazer mera declaração, mas sim enunciar – escrever ou dizer – algo positivo, no qual se acredita firmemente e se defende mesmo contra oposição.
Assim, ser assertivo é ser positivo, afirmativo, senhor de si; é “comportar-se de uma maneira tão segura e confiante que chama a atenção das pessoas” (cf. Longman Dictionary of Contemporary English). Exemplo:
Eles entendem que a quebra do vínculo que as crianças ainda possuem com os orfanatos ajudaria a promover independência e assertividade.

--- Está correto o uso de “correr/estar em perigo/risco de vida”? Seria “risco de morte”? Várias pessoas.

Sim, é correto afirmar:
  • Severino, trabalhando em condições subumanas, corre perigo de vida.
  • Parece milagre: Marialva já não corre risco de vida.
Dizemos assim porque é a vida que está exposta a risco ou perigo. Contudo, se for para enfatizar o aspecto oposto, pode-se afirmar: “Em jejum há dois meses, ele corre o risco de morrer”, embora o uso da palavra morte não seja tão delicado em situações sociais.

Há um certo movimento no sentido de só considerar correto o “risco de morte”. Mas isso não tem base linguística, é formulação fantasiosa, que desconhece a natureza das línguas. Como esclarece o linguista José Luiz Fiorin na revista Língua Portuguesa nº 26, “o sentido das expressões é constituído em bloco e não pela soma das palavras que as compõem”.

Ademais, há o aspecto cultural: é muito melhor ouvir a palavra vida, construtiva e agradável, do que a palavra morte. Trata-se de eufemismo, mais condizente com a sensibilidade humana. Reza o novo Código Civil brasileiro (2002): Art. 15. Ninguém pode ser constrangido a submeter-se, com risco de vida, a tratamento médico ou a intervenção cirúrgica.

--- Escrevi “Por ora deixo de fazer isso” e fui indagado se o correto não seria “por hora”. Jefferson Barbosa, Bauru/SP

Ambas as locuções têm origem no latim “hora” (divisão de tempo, época, duração), mas tomaram rumo diferente:
  • Por hora exprime o que se faz durante sessenta minutos:
  • João cobra R$ 10,00 por hora de jardinagem.
  • João digita cinco páginas por hora.
  • Por ora significa “por enquanto, por agora” [lembre-se de “ag-ora”]:
  • Não há novidades por ora.
  • Por ora João continua descasado.
--- Por favor, esclareça a distinção entre despercebido e desapercebido, pois já não suporto mais escutar as pessoas utilizando-as de forma incorreta. Meire Rose de Souza Defante, Volta Redonda/RJ

DESPERCEBIDO - sem ser notado, não observado, não visto ou não ouvido:
  • Podes crer, meu amigo, que essas tuas atitudes esquisitas não me passam despercebidas.
  • O incidente na portaria, embora despercebido pelos hóspedes, ganhou os jornais.
  • DESAPERCEBIDO - desprevenido, desatento, desacautelado; desprovido, sem guarnição:
  • Furtaram sua bolsa porque viram Marilda desapercebida.
  • Foram acampar desapercebidos de fósforo e lanternas.
Apesar da origem diversa (aperceber = aparelhar e perceber = notar, ambos com o prefixo de privação “des-”), desapercebido é adjetivo pouco usado no sentido próprio, mas muito utilizado como sinônimo de despercebido, razão pela qual os dicionários já registram a sinonímia, alegando também o fato de terem encontrado esse emprego pouco “puro” em bons autores no séc. XX.

Fonte: www.linguabrasil.com.br

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