quarta-feira, 12 de agosto de 2020

O HOMOSSEXUALISMO NO FUTEBOL

Mas como o analista de Bagé encara essas histórias de homossexualismo no meio futebolístico? Depois de ressalvar que no Guarani de Bagé nunca houve disso, pois “até a madrinha era macho”, o analista contou que certa feita foi chamado para cuidar da psicologia de um time do interior. Não diz o nome do time nem da cidade por uma questão de ética e para não ser capado. O time tinha fama de jogar duro. Basta dizer que a dupla de beques se chamava Garfo e Faca: um segurava enquanto o outro tirava lasca. Já o ponta-esquerda era tão bem comportado que podia sair da penitenciária todos os domingos para jogar. E o centroavante era um alemão da roça chamado Heins. Itapiru Heins, apelidado pela família de “Bismark”. Em honra ao cruzador, não ao chanceler.

Pois na cidade havia um colunista social que, como se não bastassem os cílios postiços, ainda se chamava Alaor. Comentava-se que ele dormia no refrigerador, pois só isso explicaria o fato de continuar tão fresco apesar da idade. E o Alaor não perdia jogo do time da cidade. Só que nunca viu o jogo. Cada vez que ia haver um choque de jogadores, ou o time adversário ameaçava o gol local, Alaor tapava os olhos e gritava: “uie, uie”. Seu preferido no time era o Itapiru. Não foram poucas as vezes em que os jogadores faziam um bolo em cima do Itapiru para comemorar o gol e lá vinha o Alaor na sua corridinha miúda, gritando “eu sou a cereja, eu sou a cereja”, antes de ser interceptado pela Polícia Militar e jogado de volta à arquibancada.

Um dia Alaor convidou Itapiru para ser entrevistado para sua coluna no jornal. A entrevista foi no apartamento do Alaor. Como o tapete do apartamento era muito fundo, Alaor pediu para Itapiru tirar os sapatos, pois dezessete cachorrinhos tinham desaparecido no tapete e Itapiru podia pisar num deles. Também pediu para Itapiru tirar as calças pois o forro do seu sofá era incompatível com jeans. Só então Alaor se deu conta e exclamou:

- Meu Deus, não posso ficar com um homem só de cuecas dentro da minha casa! E pediu para o Alaor tirar as cuecas.

Aí começou a entrevista.

- Você já teve alguma experiência homossexual?

Itapiru pensou um pouco. Passou o Alaor de uma perna pra outra. Depois respondeu:

- Já.

- Conte.

- Lá em casa. Todo mundo gosta.

Alaor engoliu em seco.

- A sua família inteira é de homossexuais?

- Todo mundo. O pai, a mãe. Até a vó Gerta.

- Até a vó Gerta?

- Ela é a que gosta mais.

- Meu Deus – disse Alaor. – Como o meio rural mudou! E no futebol, existe muito homossexualismo?

- Bom, não sei se pode ser chamado de homossexualismo. Tem um chá que o treinador faz pra nós...

Imagens lúbricas dançavam na cabeça do Alaor. O time inteiro sendo recebido na casa do treinador para chá, bolinhos e orgias. O treinador provavelmente se vestia de lady inglesa e pedia para Garfo e Faca, ofegante, “quebrem a minha porcelana, quebrem!” E o seu gravador pegando tudo:

- Como é esse chá?

- Dá uma força...

Um chá afrodisíaco! A entrevista seria uma sensação. E claro que foi. O jornal chegou a tirar até 2.500 exemplares, conta o analista de Bagé. O treinador foi despedido. A família Heins teve que se mudar da região. Sua casa foi incendiada e botaram sal nas ruínas. Itapiru foi vendido a um time de Pelotas. Até hoje tenta explicar que confundiu homossexualismo com homeopatia. Mas ninguém acredita. (VERÍSSIMO, Luis Fernando. O Analista de Bagé, Porto Alegre : L&MP Editores, 1995, p. 160)

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