quarta-feira, 19 de agosto de 2026

ATOLADO EM BOA VISTA DO BURICÁ

Em viagem a serviço pelas Missões, passei pelo estabelecimento de um revendedor para combinar alguns acertos. Para otimizar o tempo, decidi ir antes a Campo Novo resolver uma pendência financeira. Era minha estreia por aquelas bandas. A pavimentação asfáltica, nova, brilhava impecável. Perto de Boa Vista do Buricá, contudo, o tapete preto foi interrompido. A sinalização indicava um pequeno desvio e, logo adiante, retomei a estrada principal — ainda em obras — que cortava o município de Três de Maio. Novamente precisei abandonar o asfalto, dobrando à esquerda rumo ao meu destino final, que já estava próximo.

Resolvida a questão com o cliente, despedi-me para retornar a Santo Ângelo. Ele me aconselhou a posar por lá, vista a tempestade que desabava na região. Na falta de hotéis, a alternativa seria dormir no pequeno hospital da cidade. Sem comunicação com o revendedor que me esperava, preferi encarar o barro. Com o cair da noite, a atenção mudou para o nível máximo: a terra vermelha sob chuva vira um sabão. Com a visibilidade quase nula, passei do ponto de retorno ao asfalto. Manobrando com cautela entre a marcha a ré e a frente, consegui voltar.

Ufa, asfalto de novo. Mas a chuva só engrossava. De repente, a pista bloqueada: um tronco de árvore cruzava dois cavaletes. Dei meia-volta e identifiquei o desvio que havia usado na vinda. Conhecendo o caminho, aventurei-me. O problema é que, logo antes de retomar o asfalto, havia uma subida íngreme. Mesmo esgoelando o motor, não ganhei impulso para vencer o topo. Escorreguei de ré e, numa manobra cega, tentei entrar em um pequeno acesso lateral para voltar ao início. Atolei. Não havia um galho, uma pedra, nada sólido para calçar as rodas da Brasília. E o céu desabava.

Por sorte, havia uma luz nas proximidades. De uma casa simples, saíram uma senhora e uma moça. Sob o temporal, catamos juntos alguns pés de mandioca para forrar os pneus. Com a força delas empurrando, a Brasília finalmente arrancou do lodaçal direto para o asfalto. Mas o tronco ainda barrava o caminho adiante. Desci, arrastei o obstáculo e segui.

Pouco depois, o rendimento do carro despencou, acompanhado por um sopro estranho vindo de baixo. Parei. O barro havia entrado no cano de escape e o calor do motor o transformou em tijolo. Na base do alicate e da chave de fenda, desentupi o escapamento, liberando a força do motor para finalmente alcançar Santo Ângelo.

O compromisso daquela noite já era. Minha urgência agora era um teto. Missão quase impossível para alguém naquele estado, coberto de lama da cabeça aos pés. Alguém me indicou a hospedaria ao lado da rodoviária. Lugar simples ao extremo. O atendente avisou que só restava um quarto com três camas. Recusei dividir o espaço com estranhos. O homem, compreensivo, propôs um trato: removeria duas camas e o quarto seria só meu. Aceitei na hora.

Instalado, foi a primeira vez na vida em que dormi com um revólver municiado na cabeceira. O café da manhã, na manhã seguinte, foi servido no balcão da cozinha, mas estava honesto. Aquela Brasília nunca mais se livrou do resíduo vermelho do Alto Uruguai. E eu nunca mais consegui tirar as manchas de barro do meu casaco preto de couro.
A vida é como uma peça: não é a duração, mas a excelência da apresentação que conta. (Sêneca)

LUGARES

MADRID - ESPANHA

O edifício na imagem é o Palácio de Cibeles, localizado na famosa Praça de Cibeles em Madri, Espanha.
Atualmente, este imponente edifício de arquitetura neoplateresca funciona como a sede da prefeitura de Madri (Ayuntamiento de Madrid). Historicamente, o local era conhecido como Palácio de Telecomunicações antes de passar por uma remodelação para abrigar a administração municipal. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

UMA CASA EM FRENTE AO MAR

Martha MedeirosMartha Medeiros

Nunca mais escrever uma única linha, basta, tempo esgotado, já disse tudo o que tinha e o que não tinha para dizer, nada mais a acrescentar

Sabe aqueles dias em que você pensa o que ainda estou fazendo aqui?

Sendo “aqui” uma cidade em que você corre o risco de ser assaltada, em que mil festas, peças e lançamentos acontecem e você não consegue participar de quase nada por falta de tempo ou cansaço, e em que você fica dia e noite na internet conferindo as postagens de gente que mal conhece, permitindo que a felicidade e a inteligência alheias minem aos poucos sua autoestima, já que você, sendo bem franca, não é tão feliz, nem tão linda, nem tão espirituosa, nem tão brilhante. Sabe aqueles dias?

Tenho tido uns dias assim. Em que me visualizo numa casa à beira-mar com uma longa extensão de areia para minhas caminhadas, seguindo uma dieta mediterrânea com peixes, azeites e tomates que muito me atraem, lendo finalmente os livros que acumulei na esperança de que chegaria a hora deles, cometendo alguns pecados capitais como a preguiça, a luxúria e a gula, passando os dias ouvindo música, gastando pouco, vestindo quase nada, recebendo visitas ocasionais, aprendendo a cozinhar, namorando um pescador, ah, essas fantasias que nem mesmo originais são.

Por escrito, esse desapego soa como o Éden, mas vivenciado, sabemos que nem sempre é tão fácil. Pessoas acostumadas a estarem plugadas na tomada geralmente não suportam mais do que três dias de mansidão, o que dirá três anos, o que dirá o resto da vida, esta que pode durar ainda umas três décadas.

O que fazer quando se está tão desinteressada do que se tem?

Hoje foi um dia em que me transportei para o clichê de todo workaholic: adeus, estresse, vou abrir uma pousada – eu que nunca sonhei em ter uma pousada. Sonho, neste instante, em não ter carro, não ter compromissos, não ter agenda, não ter coisa alguma. Raspar minhas economias no banco e torrá-las na manutenção de um cotidiano simplificado.

Nunca mais escrever uma única linha, basta, tempo esgotado, já disse tudo o que tinha e o que não tinha para dizer, nada mais a acrescentar. Agora, só leitura, só silêncio, só papo furado com o pescador. Segunda vez que o pescador aparece nesta história, já estou apaixonada antes mesmo de conhecê-lo.

E à noite, olhar as estrelas, beber meu vinho e morrer de um tédio bom. Quando a santa paz começasse a dar nos nervos, poderia voltar à urbe, rever os amigos, pegar um cinema, renovar o estoque de livros, de queijos, de frescuras e retornar correndo para a beira da praia, fazer um rabo de cavalo e se sentir personagem de um filme – eu sempre enxergo esses ermitões de meia-idade como charmosos personagens de um filme alternativo, de baixo orçamento e pouca bilheteria.

Mas esse filme ainda não saiu do papel e amanhã é segunda-feira. Acorda, dona Martha.

Fonte: Zero Hora
A palavra de que eu mais gosto é não. Chega sempre um momento em nossa vida em que é necessário dizer não. O não e a única coisa efetivamente transformadora. (José Saramago)

LUGARES

VERONA - ITÁLIA​

A imagem mostra a histórica Arena di Verona, um anfiteatro romano situado na Piazza Bra em Verona, Itália. Localização: Piazza Bra, Verona, Itália. Anfiteatro romano bem preservado, famoso por concertos e óperas. Uma atração turística popular frequentemente incluída em passeios pela cidade. 

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

ESPÓLIO COMO MOEDA DE TROCO

Ruy Castro

As tecnos brigam pelo presente da Warner, não pelo seu passado O que já foi um fabuloso patrimônio cinematográfico nada significa diante do monopólio da comunicação

A Warner —antiga Warner Brothers, o maior estúdio de Hollywood depois da MGM— está a leilão nos EUA entre forças poderosas. Seu controle por esta ou aquela tecno significará quase um monopólio da comunicação por quem se sair vencedor. O irônico é que em disputa está o presente da Warner —enorme, apesar da situação quase falimentar a que foi levada por fusões malsucedidas. Já seu passado, um patrimônio da cultura americana, será no máximo um bônus para quem levar a marca.

É uma marca com 102 anos de história, desde que os irmãos Harry, Jack, Sam e Albert Warner se estabeleceram em Hollywood em 1923. Da Warner saíram "O Cantor de Jazz" (1927), primeiro filme sonoro da história, com Al Jolson, os caleidoscópicos musicais de Busby Berkeley, os filmes de gângsteres com James Cagney, Edward G. Robinson e Humphrey Bogart, a fabulosa linha de desenhos animados com destaque para Pernalonga, os capa-e-espada com Errol Flynn, grandes dramas com Bette Davis e Joan Crawford, os musicais de Doris Day e clássicos como "Relíquia Macabra" (1940), "Casablanca" (1942), "O Pirata Sangrento" (1952), "Juventude Transviada" (1955), "Rastros de Ódio" (1956), "Um Rosto na Multidão" (1957), "Clamor do Sexo" (1962), "My Fair Lady" (1963), "Uma Rajada de Balas" (1967).

Como todos os estúdios, a Warner sangrou com a perda do monopólio de produção e exibição e teve de se diversificar. Investiu em televisão, jornalismo, futebol (dela nasceu o Cosmos, que contratou Pelé para o futebol americano) e música popular (com a gravadora WEA, que teve sob contrato João Gilberto, Tom Jobim, Gilberto Gil e um escrete de artistas internacionais). Em tudo, o empenho pela qualidade.

Mas as atuais tecnologias são outra coisa. A Warner há muito não é mais dos Warners, que, um dia milionários, hoje seriam pobretões diante dos magnatas das tecnos.

Quem vencer a guerra pela Warner ganhará de lambujem um espólio que, já tendo sido a sua razão de existir, será apenas moeda de troco para seus novos donos.

Fonte: Folha de S.Paulo - 14/12/2025
Um pouco de desprezo economiza bastante ódio. (Jules Renard)

LUGARES

​SANREMO - ITÁLIA

Esta imagem retrata o Casino di Sanremo, um famoso cassino inaugurado em 1905 na cidade de Sanremo, na Itália. O edifício é conhecido por sua imponente arquitetura em estilo Liberty (Art Nouveau italiano) e está situado no Corso degli Inglesi. Além de jogos como roleta e blackjack, o local histórico abriga eventos culturais e teatrais. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 16 de agosto de 2026

LIVROS

NAÇÃO DOPAMINA
Dra. Anna Lembke
278 Páginas

SINOPSE
Um guia prático para best-seller internacional.
Nação dopamina, ideal para usar sozinho ou em família, e também por conselheiros, terapeutas, professores e qualquer um que queira ir além do conteúdo do livro e se engajar em práticas que redefinirão os caminhos para uma vida mais próspera. 
Em Nação dopamina, a renomada psiquiatra Dra. Anna Lembke apresentou aos leitores sua pesquisa inovadora que demonstra como a abundância e os excessos da vida moderna podem causar estresse e burnout, contribuindo para o aumento das taxas de comportamentos compulsivos, depressão e ansiedade. Desde a publicação desse livro, muitos leitores e leitoras mundo afora manifestaram a vontade de contar com um guia que os ajudasse incorporar essas ideias na própria rotina -- e aqui está. 
Com a voz firme e calorosa da dra. Anna, este guia é repleto de exercícios interativos e exemplos inspiradores que ajudam os leitores a identificar os comportamentos que gostariam de modificar, bem como a realizar um jejum de dopamina e redefinir os caminhos para uma vida mais feliz e gratificante. (https://dlivros.com/livro/nacao-dopamina-dra-anna-lembke)
É muito raro encontrar almas livres, mas logo se vê quando são. (Charles Bukowski)

LUGARES

SÃO MIGUEL DAS MISSÕES - RS

A imagem mostra as Ruínas de São Miguel das Missões, um sítio arqueológico localizado no Rio Grande do Sul. Este local é um patrimônio da humanidade da UNESCO, representando a história das missões jesuíticas na região. A estrutura retratada é a fachada da Igreja de São Miguel Arcanjo, construída entre 1737 e 1745. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

sábado, 15 de agosto de 2026

ROMANCE FORENSE

ESTRANHAS ENTRANHAS
Por Eudes Quintino de Oliveira Júnior, promotor de justiça aposentado (SP), advogado e reitor da Unorp.
eudesojr@hotmail.com

De forma sorrateira, o homem acampou nos arredores da cidade pequena onde se concentram os moradores mais simples e crédulos e que praticamente trabalham durante todo o dia.

Chamou a atenção da população porque residia em uma barraca erguida ao lado de seu velho carro e muitos pensavam que se tratava de um cigano, apelido pelo qual foi conhecido posteriormente.

Em sua tenda colocou um cartaz que o identificava como um orientador ou guia espiritual ou até mesmo benzedor e que realizava procedimentos de cura de qualquer tipo de doença.

A fama se espalhou rapidamente e os primeiros clientes começaram aparecer. Dentre eles, Joana, mulher casada, de alma rurícola, desprovida de qualquer malícia.

Relatou que sofria de um forte dor “em suas entranhas” e que havia passado por todos os médicos da cidade, sem qualquer resultado satisfatório.

O benzedor, após a entrevista, disse a ela que havia detectado a origem de sua doença e marcou retorno para sexta-feira próxima, logo após o por do sol, quando daria início a um rito de desapossamento do mal que a afligia. Porém, deveria comparecer desacompanhada.

Assim foi. Joana, sem nada dizer ao marido, se fez presente e foi encaminhada para o interior da tenda. O curandeiro ou benzedor ou mago, seja lá o que for, caminhando e recitando suas preces, determinou que ficasse nua e deitada sobre uma mesa, com a barriga para baixo para que ele pudesse introduzir a substância que preparou para sua cura.

Orando em voz alta, pediu a ela concentração e que repetisse suas palavras, num cantochão monólogo e monótono. Ora agarrava-a pelos ombros ora puxava-a pelos longos cabelos, seguido sempre de repetidos movimentos de vai e vem, num intenso crescendo em busca de um ´grand finale´ que, ao ser atingido, deixou ecoando a última nota do desconcertado canto.

Joana, assustada com aquele entusiasmo exagerado, percebeu que fora enganada e tinha sido usada sexualmente. De lá compareceu e relatou o fato à delegada de polícia, que teve ainda tempo hábil para recolher amostras do esperma do curandeiro.

Ele foi preso em flagrante delito, depois colocado em liberdade e processado por posse sexual mediante fraude. Sentiu que nenhuma bênção iria socorrê-lo. Foi quando desarmou a barraca e se mandou.

Joana, por sua vez, nunca mais reclamou de suas dores nas entranhas. Os médicos, incrédulos, acharam muita estranha a cura.

Fonte: www.espacovital.com.br
A vida adulta se resume a não gastar dinheiro pra ter dinheiro pra gastar. (Revista Bula)

LUGARES

​PRAGA - REPÚBLICA TCHECA

Esta imagem mostra uma vista da praça Ovocný trh, localizada na Cidade Velha de Praga, na República Tcheca. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

ARIK DAVIDOV

EL CONDOR PASA 

Melhor morrer de vodca que de tédio. (Wladimir Maiakóvski)

LUGARES

RIMINI - ITÁLIA

Este monumento é o Arco de Augusto (Arco d'Augusto), localizado em Rimini, na Itália. É o arco romano mais antigo ainda existente no norte da Itália, datado de 27 a.C.Construído em tijolo e mármore branco, servia como portão da cidade. O arco é um dos marcos históricos mais importantes de Rimini, representando a herança romana da cidade. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O DIABO NO ESPAÇO

Carlos Heitor Cony

Não foi um sonho, muito menos uma visão. Mas consta que um astronauta, numa dessas naves tripuladas que passeiam pelo espaço, enquanto seus colegas, obedecendo aos horários da base de Houston, dormiam em complicados leitos, montava guarda na cabine de comando e viu o Diabo, em passeio, sem ajuda de qualquer equipamento, apenas com seus chifres, rabo e pés fendidos, caminhando pelo cosmos, aparentemente procurando alguma coisa.

Sabendo que o Pai das Trevas, desde o início do mundo domina uma boa tecnologia, o astronauta tentou comunicar-se com ele. Para sua surpresa, o Diabo entrou na faixa sonora da cabine e os dois conversaram. O diálogo está nos arquivos secretos da Nasa, esperando hora propícia para divulgação.

Após considerações gerais sobre os destinos da humanidade, o astronauta quis saber do destino do próprio Diabo, o que fazia ele ali sozinho, aparentemente perdido no espaço, desorientado e deprimido. Apesar de ser considerado o inventor da Mentira, o Diabo falou a verdade. Estava deixando o planeta Terra onde, desde a revolta dos anjos, antes da criação do Mundo, decidira implantar o Mal e a Desgraça na obra de Deus.

O astronauta quis saber a razão de tão humilhante retirada. Seria um derrota diante das forças do Bem? Nada disso - informou o Diabo. Ele ia embora da Terra porque sua atividade tornara-se supérflua com o advento da Internet. Procurava agora um planeta em estágio tecnológico menos adiantado do que o nosso, sem um tipo de comunicação onde qualquer um pode fazer um estrago bem maior do que ele na comunidade internacional e na vida de cada um.

Fonte: Folha de S.Paulo - 21/09/2004
Preocupe-se mais com seu caráter do que com sua reputação. Caráter é aquilo que você é, reputação é apenas o que os outros pensam que você é. (John Wooden)

LUGARES

MADRID - ESPANHA

Este é o suntuoso Salão de Banquetes do Palácio Real de Madrid. O local é utilizado exclusivamente para cerimônias de estado e banquetes oficiais. O palácio é a maior residência real da Europa em área construída. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CARRO FORTE NO PEDÁGIO

Existem certos procedimentos que se justificam plenamente. Um deles é ver um carro forte estacionado junto a um estabelecimento bancário. Os seguranças, fortemente armados, se postam estrategicamente, enquanto que outros fazem a transferência do dinheiro. A encenação tem o mérito da presença, do corpo presente, o que tolhe dos eventuais assaltantes, o efeito surpresa. Até aí nada de novo. Compreensível, pelos mesmos motivos, é a forma de estacionar dos pesados veículos, geralmente em lugar proibido. O mesmo se dá quando em movimento, com técnicas que dificultam a abordagem dos meliantes. Isto tudo se apresenta como sendo fato comum uma vez que os assaltos à mão armada, em plena luz do dia, tem sido uma constante em nosso país. Vem daí aquela frase que diz que todo cuidado é pouco. Em que pese o aparato cinematográfico das operações que diariamente são realizadas por todo país e principalmente pelo fato de serem pessoas especialmente treinadas para lidar com o potencial perigo diário, há momentos em que a vigilância relaxa. Certa feita, retornando de Curitiba, presenciei um fato destes. Ao chegar na praça de pedágio um carro forte parou como todos os demais veículos. Em situações normais, ou seja, com veículos normais, geralmente quem efetua o pagamento é o motorista, posto que o guichê de cobrança fica para os lados deste. No caso em apreço não. O pagamento foi feito por uma pessoa, que suponho fizesse parte da segurança interior do próprio veículo. Para tanto, abriu a porta e desceu parcialmente da viatura para alcançar o dinheiro à pessoa que efetuava a cobrança, o que me fez supor que os vidros, evidentemente blindados, são fixos. Então pensei como o ser humano acaba tornando-se um robô. Fora da mesmisse da rotina diária, o homem acaba deixando de lado o treinamento e fica suscetível às ações inesperadas. Naquelas circunstâncias, os ocupantes do carro-forte haviam esquecido do fator surpresa e caso fossem assaltados, teriam reduzidas as chances de neutralizar os bandidos. Então fiquei pensando por que o carro-forte submetia-se ao pedágio, nos mesmos moldes dos veículos de passeio? Dadas às características especialíssimas, penso que não sendo dispensadas do pagamento ao menos deveriam estar dotadas, obrigatoriamente, daquele aparato eletrônico que permite a passagem pela praça de pedágio sem parar. Coisas nossas, infelizmente.
A liberdade não é encontrada na restrição, mas sim em controlar você mesmo. (Dostoiévski)

LUGARES

BASSANO DEL GRAPPA - ITÁLIA

Esta foto mostra o Ponte Vecchio, também conhecido como Ponte degli Alpini, na cidade de Bassano del Grappa, na Itália. O local é famoso por ser uma ponte de madeira coberta, projetada originalmente pelo arquiteto Andrea Palladio em 1569. A ponte atravessa o rio Brenta e é um ponto turístico popular que também abriga o Museo degli Alpini. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 11 de agosto de 2026

SE ARREPENDIMENTO MATASSE

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Ao colocar em ordem sua biblioteca ou guarda-roupa, veja se terá condições de terminar a tarefa.

Depende de tempo livre, de férias, de folga. Não tente fazer no meio da semana, de qualquer jeito. 

Não seja levado pela passionalidade que é tirar tudo do lugar para ajeitar pouco a pouco.

O chão estará cheio de pilhas de livros e não poderá caminhar livremente pela casa durante semanas.

A cama estará carregada de roupas e não haverá nem espaço para dormir.

Sua vontade é de chorar. Começou algo que não imaginava que ocuparia tanto tempo.

Ficou projetando que seria fácil e rápido e agora se arrepende amargamente de seu impulso.

Não tem como finalizar a arrumação, assim como é tarde para colocar os objetos de volta.

Piorou o que estava ruim. Já quer jogar fora seus livros prediletos ou as camisas novas somente para não precisar dobrar mais ou procurar espaço nas estantes apertadas.

Às vezes, para não enlouquecermos, a bagunça é o nosso anjo da guarda.

Fonte: carpinejar.blogspot.com.br
Minha grande obra é a soma de minhas pequenas obras. (André Franco Montoro, político brasileiro)

LUGARES

​LJUBLJIANA - ESLOVÊNIA

Esta imagem retrata a Ponte Tripla (Tromostovje) sobre o rio Ljubljanica no centro histórico de Ljubljana, Eslovênia. Ao fundo, é possível ver a icônica Igreja Franciscana da Anunciação, conhecida por sua fachada rosa característica. A área ao redor é um ponto de encontro popular, com o Castelo de Ljubljana visível no alto da colina ao fundo. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

ESCULTURAS DE GELO

Ruy Castro

Quantos shows memoráveis nunca foram gravados e escorreram para o esquecimento? Um show de Nara Leão em Campinas, gravado pelo sonoplasta, nos revela um ser humano em comunhão conosco

Um de meus pesadelos recorrentes envolve algo que talvez não exista de verdade, só simbolicamente: as esculturas de gelo. São as possíveis obras-primas condenadas a serem apreciadas por poucos e por pouco tempo, antes de degelarem e escorrerem rumo ao esquecimento. E, por esculturas de gelo, não se entendam apenas figuras recortadas a cinzel, mas toda espécie de arte efêmera —como a música popular. Quantos shows memoráveis nunca foram gravados? Terá havido registros de Carmen Miranda no Cassino da Urca, em 1938? De Dolores Duran no Beco das Garrafas, em 1957? De João Gilberto e João Donato, juntos, em 1963, na Itália?

Em 1984, Nara Leão deu um show no Centro de Convivência Cultural de Campinas. Ela não sabia, mas algo letal já se formava silenciosamente em seu cérebro. Dois anos depois, no Japão com Roberto Menescal, viu-se ausente no meio de uma canção. Parou de cantar. Menescal, sem saber o que acontecia, cantou por ela. Um minuto depois, Nara voltou a si, sem saber que estavam no palco em Tóquio. De volta ao Rio e constatada a doença, não se abateu —com a ajuda de Menescal, continuou a cantar e gravar, até ser vencida de vez em 1989.

O show em Campinas pode ter sido um de seus últimos ainda em plenas condições. Acompanhada só por seu violão, cantou por mais de uma hora o melhor de seu repertório, de "Olé, Olá", de Chico Buarque, e "Diz que Fui Por Aí", de Zé Kéti, até standards da bossa nova e a americana "There Will Never Be Another You". Osny Chaos, sonoplasta do Centro, gravou tudo. Quarenta anos depois, uma cópia doméstica em CD acaba de me chegar às mãos, cortesia de meu amigo campineiro, o jornalista Edmilson Siqueira.

O que devemos a Osny não tem preço. Esta é uma Nara na intimidade, sem o frio perfeccionismo dos discos oficiais. Às vezes, Nara dirige-se delicadamente à platéia, quase que pedindo desculpas pelo que vai cantar.

Não é uma cantora, mas um ser humano em comunhão conosco —que um simples gravador impediu que tivesse o destino do gelo.

Fonte: Folha de S.Paulo - 13/12/25
Há um limite na mente de cada um que é perigoso ultrapassar. Uma vez que se cruza esta linha, é impossível voltar atrás. (Dostoiévski)

LUGARES

PRAGA - REPÚBLICA CHECA

A imagem retrata uma vista panorâmica do Rio Vltava em Praga, na República Tcheca. Ao fundo, é possível avistar o Castelo de Praga, uma das construções mais importantes da cidade, situado na colina de Hradčany. A área ao redor do rio é conhecida por atrações medievais, museus e galerias, concentradas principalmente no bairro de Praga 1. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 9 de agosto de 2026

LIVROS

O PERFUME DO CHIANTI: HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
Piero Antinori
343 Páginas

SINOPSE
O perfume do Chianti é o relato em primeira pessoa do atual patriarca Piero Antinori. 

O livro é uma biografia de sua família e, também de suas sete criações – os vinhos Montenisa Rosé, Villa Antinori, Solaia, Tignanello, Cervaro Della Sala, Antica Napa Valley Cabernet Sauvignon e Mezzo Braccio Monteloro. 

Criações que refletiram o desejo de inovar a produção de vinho, mantendo a tradição, com o lançamento de novos rótulos que mantêm a família como uma das mais importantes produtoras de vinho em todo o mundo. https://dlivros.com/livro/perfume-chianti-historia-familia-piero-antinori)
Quer pouco: terás tudo. Quer nada: serás livre. (Fernando Pessoa)

LUGARES

ANTIBES - FRANÇA​

Este local é o Port Vauban em Antibes, França, uma das maiores marinas do Mediterrâneo. É famoso por abrigar iates luxuosos e fica próximo ao histórico Fort Carré. A área oferece vistas panorâmicas da costa e é conhecida pela sua beleza cênica na Riviera Francesa. O porto está situado entre Cannes e Mônaco, destacando-se como um destino sofisticado. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

sábado, 8 de agosto de 2026

LUGARES

​COURMAYEUR - ITÁLIA

Courmayeur é um tradicional e luxuoso resort de montanha situado aos pés do Monte Bianco, no Vale de Aosta, Itália. A cidade é famosa pela prática de esqui e abriga o icônico teleférico Skyway Monte Bianco, que leva os visitantes a mais de 3.600 metros de altitude na fronteira com Chamonix. (Google)

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

AVISO

Por problemas técnicos não está sendo possível manter o blog nos padrões costumeiros.  A regularização acontecerá na medida do possível. Por algum tempo, as postagens serão reduzidas. Para acessar o blog, o endereço atual é: iblanchier.blogspot.com



FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

DE VOLTA AO FUTURO

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Aos 12 anos, tive uma briga muito séria com meu pai, não me lembro mais por qual motivo. Em meio às acusações mútuas de desrespeito, olhei desafiadoramente para ele e gritei: não suporto mais viver nesta casa, vou pegar minhas coisas e vou embora pra nunca mais voltar.

Friamente, ele respondeu: “A porta da rua é serventia da casa. Pode ir, mas preste atenção: só leve com você aquilo que for seu. Não leve nada que tenha sido comprado com meu dinheiro”.

Humilhada, fui para meu quarto, pensando em arrumar a mala e fugir ainda naquela madrugada. Quando a retirei do armário, não foi preciso muito esforço mental para me dar conta de que a mala não me pertencia. Tentando me acalmar, disse para mim mesma, com desdém: não tem problema, jogo minhas coisas num lençol, amarro tudo numa trouxa e carrego no ombro. Poucos segundos se passaram para de novo constatar o óbvio: o lençol também não era meu, muito menos minhas roupas e sapatos, ou quaisquer outros pertences. Aos poucos, uma verdade aterradora emergiu na minha consciência: nem eu mesma me pertencia.

Ainda tentando espantar o pânico, respirei fundo e me imaginei saindo à rua totalmente nua, com as mãos abanando. Mas o medo e a vergonha falavam mais alto: para onde eu iria, onde dormiria, onde tomaria banho, como comeria, se não carregava comigo nem um mísero centavo? Minha determinação de ir embora de qualquer jeito começou a esmorecer.

Uma vez esgotadas todas as possibilidades, tomei uma decisão. Voltei ao quarto dos meus pais e, reunindo toda a empáfia que me era possível então, declarei solenemente (não com essas palavras, é claro): de hoje em diante, meu único propósito na vida vai ser me tornar independente financeiramente. Quando esse dia chegar, vou-me embora para sempre, sem olhar para trás.

O que mudou dentro de mim a partir daquele dia foi o próprio conceito de autoridade. Naquele momento entendi que, quando se troca o diálogo e a persuasão amigável pela força ou impossibilidade de negociação, não se está mais lidando com autoridade, mas sim com autoritarismo. Autoritarismo passou a ser, para mim, evidência de autoridade incompetente e impotente – por não saber como se fazer respeitar, ela precisa se valer das armas da opressão, do silenciamento do outro, da invalidação de toda forma de divergência.

Jurei a mim mesma que nunca mais me subordinaria aos desmandos de outra pessoa, fosse ela quem fosse. Foram precisos outros 12 anos para que minha promessa se concretizasse: aos 24 anos, já formada e empregada numa grande empresa, consegui enfim honrar minha palavra. Embora minha libertação do jugo paterno tenha representado um imenso alívio, muitas e muitas vezes eu me senti acossada por sentimentos de culpa e desamparo.

Obedecer sem contestação às regras determinadas por outrem nunca foi um princípio aceitável na minha cabeça. Resignar-me a um destino não escolhido por mim menos ainda. As normas de gênero daquela época – casar, ter filhos e cuidar de uma casa – também me pareciam draconianas e insensatas. Construir um futuro com minhas próprias mãos era meu único sonho substituto.

Como tudo o mais na vida, o tempo se encarregou de cicatrizar as feridas. A sensação boa de ser dona do meu próprio nariz me transformou numa espécie de feminista avant la lettre, ainda que jamais tenha sido panfletária. Me preparei arduamente, através de muita terapia, para nunca mais depender emocional ou financeiramente de ninguém. Com altos e baixos, sobrevivi às duras investidas do patriarcado e da misoginia.

No entanto, o que mais me doeu foi constatar que a autonomia não é geográfica. O patriarcado dispõe de meios muito mais insidiosos de impor suas vontades. Alugar um imóvel, pedir financiamento bancário, negociar diagnóstico e preço com um mecânico de automóveis ou com profissionais para reparos domésticos são apenas alguns exemplos das dificuldades praticamente insuperáveis que uma mulher tem de enfrentar sem a ajuda de um homem. Isso sem falar que sua imagem torna-se automaticamente a de uma libertina perigosa, eternamente pronta a seduzir os homens, expor ao ridículo as mulheres submissas e destruir a paz familiar. A forma como você passa a ser tratada por chefes e subordinados, síndicos e vizinhos e até por familiares só reforça a imagem de inconfiabilidade.

Tristemente, as conquistas femininas de emancipação que me pareciam irreversíveis lá atrás no tempo hoje deixaram de o ser. Nestes tempos bicudos, assistindo apalermada à retomada da discriminação explícita de gênero, às tentativas de proibição do aborto para crianças e adolescentes estupradas e ao aumento exponencial dos casos de feminicídio, além de projetos legislativos para abolir o direito ao voto feminino individual, só posso abençoar minha briga precoce com um pater familias.

O trabalho psicológico de conscientização das mulheres oprimidas está longe de ser completado ainda neste século. Muitas não conseguem se independentizar de seus companheiros sem colocar a própria existência e a de seus filhos em risco e outras não conseguem se livrar da dependência afetiva por terem internalizado uma imagem de insuficiência. A lição que isso nos ensina é a de que, antes de começar a lutar por autonomia, as mulheres precisam ser universalmente educadas desde crianças a aprenderem a se pertencer.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Fonte: brasildelonge.com

O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e as pessoas idiotas estão cheias de certezas. (Charles Bukowski)

LUGARES

​TOLEDO - ESPANHA

Esta imagem mostra o Alcázar de Toledo, uma imponente fortaleza localizada no ponto mais alto da cidade histórica de Toledo, na Espanha. É um famoso marco medieval espanhol, muitas vezes chamado de "Cidade das Três Culturas". A estrutura situa-se a cerca de 70 km de Madri. O local é popularmente visitado em excursões de um dia saindo da capital espanhola. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

TECNOLOGIA

Estávamos instalados em Treviso.  Depois do café da manhã fomos de carro até a estação ferroviária onde deixamos a máquina e compramos os bilhetes para ir de trem para Veneza. A pessoa que nos vendeu os bilhetes foi muito atenciosa. Sabendo que éramos brasileiros nos brindou com material turístico de Treviso.

Depois de meia hora até chegamos em Veneza. Estava muito quente. A primeira providência, ainda na Estação, foi procurar o banheiro e logo veio uma dificuldade. Pagar menos de um Euro para ingressar na casinha. A catraca só abre mediante o pagamento. A máquina aceita moedas de 0,50, 0,20 e 0,10 centavos. Temos apenas moedas de 1,00 euro. Até descobrirmos que havia uma máquina auxiliar ao lado que fazia a troca da moeda de maior valor, demorou um pouco. Mas, descoberta a novidade, fizemos o câmbio e entramos sem maiores problemas.

O retorno: A Estação Ferroviária é enorme e há linhas para as mais diversas localidades. Chegamos na estação passando um pouco das 17,00 hs. e por isto perdemos o trem. Na verdade chegamos em tempo. Ocorre que é preciso validar os tickets numas maquininhas que existem por todo lugar na estação. Demoramos para validar os nossos, eis que a máquina não estava funcionando direito. Um funcionário da estação teve dificuldades para validá-los para nós. Não sei se foi isto que atrasou o nosso embarque. Acho que mesmo assim não teríamos tempo para tal. Não teve alternativa: restava esperar a próxima saída. Demoramos um pouco para identificar o nosso terminal mas por fim encontramos e embarcamos no trem que vai em direção a Udine. Para não errar, é preciso identificar o horário numas tabelas que existem afixadas no saguão. Identificado o ponto final (Udine no nosso caso), é preciso verificar se o seu destino faz parte do itinerário e então, tudo fica fácil. 

Desembarcamos em Treviso, e ali mesmo na estação compramos uns sanduíches e coca-cola para comer no hotel, pois como se sabe, não tem janta em dias de semana. Tive um pouco de dificuldades para pagar o estacionamento. Eu estava colocando o ticket do lado errado. Mas logo acertei. Como eu não sabia o valor total, coloquei uma nota de 20 euros e para minha surpresa recebi cerca de 12 euros de troco, tudo em moedas. Ou seja, todas as moedas que Lourdes tinha descartado durante o dia, retornaram com juros. Enfim, vivendo e aprendendo.

* Apontamentos de uma viagem à Itália em 2009
Nem todos os caminhos são para os caminhantes. (Goethe)

LUGARES

CAXIAS DO SUL - RS

Esta é a Igreja Matriz de Santa Lúcia do Piaí, situada no distrito de Santa Lúcia do Piaí em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul. A construção da igreja atual começou com a participação ativa das famílias locais e foi inaugurada em 10 de janeiro de 1930. O acesso à parte externa é livre, enquanto o interior pode ser visitado durante missas, festas ou entrando em contato com a secretaria paroquial. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 4 de agosto de 2026

SEM PALAVRAS

Martha MedeirosMartha Medeiros

Acabo de ser apresentada ao trabalho de John Koenig, um web designer americano que lançou uma série na internet chamada Dicionário das Dores Obscuras (Dictionary of Obscure Sorrows). A intenção é nomear emoções ainda indefinidas. Qual é o nome para aquele desejo de desaparecer que nos acomete no meio de uma quinta-feira qualquer? Como se chama aquele frisson ao fazermos um ligeiro contato visual com algum desconhecido? 

Que palavra resumiria o desconforto de perceber que estamos apenas repetindo a história já vivida por tantos? E a angústia de que o tempo está passando cada vez mais rápido? A cada semana, Koenig posta belos vídeos de cerca de três minutos apresentando uma palavra inventada para conceituar tudo isso. O texto é inteligente, melancólico e comove. Como diz uma amiga minha: como é que ninguém pensou nisso antes?

O projeto é original (vale a pena dar uma olhada, está no YouTube), mas fiquei pensando: a gente precisa mesmo nomear o inominável? Me vieram à cabeça dezenas de situações que experimento e que nunca foram batizadas. Por exemplo, algo bom me deixar inexplicavelmente triste. Lembrar cenas de um passado remoto que não sei se aconteceram mesmo ou se inventei. 

Abrir meu coração e, ainda assim, parecer que estou mentindo. Ter a súbita consciência de que não faz sentido me preocupar com o que quer que seja. Não conseguir desviar os olhos do fogo. Estar numa festa e sentir como se estivesse vendo tudo aquilo de fora, como se eu não estivesse ali de verdade. Imaginar coisas terríveis acontecendo com quem mais amo, logo com eles.

Ao entrar nesse assunto, é inevitável lembrar a palavra saudade, que não existe no vocabulário de quem fala inglês. Anglo-saxões costumam sentir falta (I miss you), mas não possuem um substantivo que defina essa sensação de ausência dolorida. 

Nós possuímos e a usamos sem parcimônia. Nas redes sociais, declaramos sentir saudade de amigos, inimigos, de tudo e de todos, da última festa, do último beijo, do último churrasco, saudade de ontem e também dos velhos tempos, saudade dos outros, de nós mesmos, saudade de quem se foi para sempre e de quem viajou semana passada, saudade de sabores, de músicas, de turmas, de épocas. É tanta saudade assim? Ou o fato de termos uma palavra à mão é que invoca tamanha nostalgia?

Como escreveu Adélia Prado: a coisa mais fina do mundo é o sentimento. Ele não se presta a banalizações. Portanto, esses inúmeros insights que me ocorrem e que ocorrem também a você, sem que haja nenhuma palavra que os especifique e conceitue, talvez sejam os últimos meios de conceder algum lirismo à nossa existência. A poesia é o verdadeiro dicionário das dores obscuras.

Fonte: Zero Hora
Cada sonho que você deixa para trás é um pedaço do seu futuro que deixa de existir. (Steve Jobs)

LUGARES

MADRID - ESPANHA

Esta imagem mostra a vista panorâmica do centro de Madrid, Espanha, vista do terraço do Palácio de Cibeles. O Palácio de Cibeles, construído em 1917, abriga atualmente a Prefeitura de Madrid. O mirante no último andar oferece vistas da Praça de Cibeles, da Gran Vía e do horizonte da cidade. É possível visitar o terraço para apreciar a vista por uma taxa de entrada. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

A GRANDE MÚSICA SECRETA

Ruy Castro

Você já se emocionou com a gaita de Mauricio Einhorn e nunca soube disso. Para as nossas gravadoras, o Brasil não merece ter nem a fabulosa música que produz

O britânico Bernard Shaw (1856-1950), tão genial como dramaturgo quanto ranheta como pensador, explicou sua aversão aos instrumentos de sopro: "Eles prolongam a vida de quem os toca". Poder-se-ia perguntar como Shaw, que não tocava nenhum instrumento, conseguiu chegar aos 94 anos, se a expectativa de vida no Reino Unido, quando ele nasceu, era de menos de 40. E que bom que um instrumento de sopro —a humilde gaita de boca— tenha permitido ao carioca Mauricio Einhorn chegar em grande forma aos 93 anos para nos presentear com esse disco recém-lançado, "Mauricio and Horns", talvez a suma de sua carreira a serviço da música brasileira.

Não só dela, mas da mais secreta música brasileira. O jovem Mauricio já era um dos músicos que, nos anos 1950, cozinhavam a futura bossa nova, ao lado de Johnny Alf, Durval Ferreira e Bebeto Castilho, seus parceiros em "Estamos Aí", "Nuvens", "Tristeza de Nós Dois", "Batida Diferente", "Disa" e "Sambop", alguns dos primeiros clássicos instantâneos do gênero. Foi também um dos pilares da ponte jazz-bossa nova, que resultaria no samba-jazz.

E por que secreta? Porque você já ouviu Mauricio Einhorn em incontáveis discos de que ele participou como acompanhante de cantores brasileiros e americanos, e nunca ficou sabendo que aquelas mágicas passagens de gaita eram dele. Agora, graças ao produtor marroquino Jacques Muyal, a quem o jazz deve mais do que poderá pagar, temos um raro Mauricio em primeiro plano, gravado este ano no Rio, com um timaço a apoiá-lo: a big band de Idriss Boudrioua e os convidados Paquito d’Rivera e Lula Galvão.

Mas, como estamos no Brasil, "Mauricio & Horns", prensado na Alemanha, não sairá fisicamente aqui. Você não o encontrará nas nossas já poucas lojas. Pode ser escutado completo no Spotify, mas talvez você só esteja sendo informado disso por esta coluna. Para nossa indústria fonográfica, não merecemos ter nem a grande música que produzimos.

Só podemos produzi-la. E, como eu disse, mesmo assim em segredo.

Fonte: Folha de S.Paulo - 07/12/2025
Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos. (Anaïs Nin)

LUGARES

​ISOLA DEI PESCATORI - ITÁLIA

A imagem retrata a Isola dei Pescatori (Ilha dos Pescadores), localizada no Lago Maggiore, na Itália. Esta ilha é uma das três principais Ilhas Borromeu (Isole Borromee). É conhecida pelo seu charme pitoresco, com edifícios que remontam ao período tardo-medieval. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 2 de agosto de 2026

LIVROS

Muhammad Ali: uma Vida
Jonathan Eig

SINOPSE
Cassius Clay nasceu na segregada cidade de Louisville, no estado americano de Kentucky, filho de um pintor de placas e de uma dona de casa. Tornou-se boxeador peso-pesado com um misto de potência e velocidade, guerreiro do orgulho racial, comediante, pastor, poeta e ator. Milhões o odiaram quando adotou uma nova religião e um novo nome – Muhammad Ali –, recusando-se a lutar na Guerra do Vietnã. Nesta biografia excepcional de Jonathan Eig, baseada em extensa e inédita pesquisa, com acesso a mais de quinhentas entrevistas e milhares de páginas de documentos e gravações do FBI e do Departamento de Estado americano da década de 1960, vemos o retrato de uma das personalidades mais ilustres da segunda metade do século XX: das lutas mais famosas da história do boxe aos detalhes mais íntimos da trajetória pessoal de Ali, sua atuação política, a desastrosa vida financeira, sua fé e os momentos em que sua saúde começou a se deteriorar. Muhammad Ali foi um símbolo de liberdade e bravura, um herói para muitos; foi também um guerreiro capaz de derrotar qualquer oponente até ser finalmente nocauteado por sua própria recusa em se retirar do ringue. Muhammad Ali: Uma vida é uma história sobre raça, sobre um esporte brutal e sobre a coragem de um homem que abalou o mundo. (https://dlivros.com/livro/muhammad-ali-vida-jonathan-eig)
O homem do mundo está inteiramente na sua máscara. O que ele é não é nada, o que ele parece é tudo para ele. (Jean-Jacques Rousseau)

LUGARES

HILLEROD - DINAMARCA

Esta imagem mostra o Castelo de Frederiksborg, um impressionante palácio renascentista localizado em Hillerød, na Dinamarca. Construído no início do século XVII pelo rei Cristiano IV, o castelo é conhecido pela sua arquitetura detalhada e pelos seus extensos jardins barrocos. Atualmente, o local funciona como um museu nacional, exibindo uma vasta coleção de arte e artefatos históricos dinamarqueses. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

sábado, 1 de agosto de 2026

ROMANCE FORENSE

Crime de autoria (des)conhecida

O criativo advogado Moacir Leopoldo Haeser era juiz, no final dos anos 70, na 2ª Vara Judicial da comarca de Rio Pardo (RS). Certo dia chegaram-lhe à mesa os autos de um inquérito em que o delegado local propunha o arquivamento.

O relatório referia que os policiais haviam investigado um homicídio, de autoria desconhecida. Um agricultor trintão, solteiro, boa compleição física, sem inimigos conhecidos, fora encontrado morto num potreiro.

A ocorrência fora informada por um vizinho - depois de uma cavalgada de 20 quilômetros (na época não havia celular e a telefonia convencional era, regra geral, um caos).

Rio Pardo tinha, na época, violência zero e nada indicava que o homem houvesse sido vítima de latrocínio ou vingança. Arguto, o delegado havia pedido um exame necroscópico da vítima e um levantamento minucioso fotográfico do local.

Foi convocado o melhor retratista da cidade, que na época usava uma Rolleyflex, já a meio-caminho de tornar-se obsoleta.

Quando chegaram as respostas aos quesitos e as fotografias, o delegado não teve dúvidas sobre a autoria.

É que os peritos médicos e os investigadores haviam trazido detalhes convergentes: "o exame cadavérico constatou lesões internas e no peito da vítima havia uma marca semi-circular, em formato de ferradura. Próximo dali foi encontrada uma égua pastando. E quase junto ao corpo inerte, o que fora um montinho de tijolos - todos eles espalhados num raio não maior do que 1m50".

O então juiz Haeser determinou a vista ao Ministério Público. O promotor leu, sorriu, matutou, lançou parecer concordando com o arquivamento e foi levar os autos, em mãos, ao gabinete do magistrado.

Os dois operadores do Direito afinaram no ponto: "necessidade do arquivamento, ante as circunstâncias do fato".

Mesmo porque, se fosse o caso de ser tipificado como crime, era evidente ter ocorrido “legítima defesa da honra”.

Fonte: www.espacovital.com.br