Nos tempos heróicos da preparação para o vestibular — quando café substituía sangue e apostilas viravam travesseiro — nasceu uma forte amizade entre o Gancho e o Toninho.
Eram inseparáveis. Sentavam lado a lado, estudavam lado a lado, colavam (ops, consultavam mentalmente) lado a lado. Ambos eram “aprontadores”.
O apelido “Gancho” não vinha de nenhuma vida pregressa na pirataria — embora o queixo proeminente lhe desse certo ar de capitão do Caribe. Diziam que, se ele pensasse muito, o queixo apontava para o norte magnético. Já Toninho era simplesmente Toninho para diferenciar de outro Antônio da turma, menos carismático e infinitamente menos dramático.
O tempo passou, os diplomas chegaram e a vida adulta os sequestrou para direções opostas. Gancho mergulhou de cabeça (e queixo) na administração financeira de uma empresa lá no norte do país. Planilhas tremiam diante dele. Números se alinhavam por respeito.
Toninho, por sua vez, foi para o sistema bancário. Tornou-se gerente — daqueles de sala própria, mesa imponente e expressão concentrada que faz qualquer cliente pensar duas vezes antes de pedir desconto na taxa.
Anos depois, em uma viagem pelo sul, Gancho decidiu rever o velho amigo, que então gerenciava um banco em Joinville. Chegou animado, nostálgico e, como sempre, com espírito de porco.
Aproximou-se da sala do gerente. A porta estava entreaberta. Lá dentro, Toninho, de cabeça baixa, concentradíssimo em relatórios, não percebeu a aproximação silenciosa.
Gancho, tomado por aquele velho impulso estudantil de provocar o colega antes da prova, decidiu repetir os velhos tempos. Pegou o molho de chaves e — clac! — arremessou-o sobre a mesa com precisão cirúrgica.
Toninho levantou a cabeça.
Reconheceu o queixo antes mesmo do rosto.
Mas, num reflexo teatral digno de novela das oito, levantou-se e bradou em alto e bom som:
— Guardas! Guardas!
Em segundos, dois brutamontes encarregados da segurança surgiram como se estivessem esperando apenas o sinal dramático. Mãos firmes seguraram Gancho pelos braços.
E ali, pela primeira vez na história, o queixo do capitão pirata empalideceu.
Gancho amarelou. Literalmente. Se fosse possível medir a pressão arterial pelo formato do queixo, os aparelhos teriam apitado.
Foi então que Toninho não aguentou.
Caiu na gargalhada.
Riu com gosto, com eco, com juros compostos de felicidade acumulada. Mandou os guardas soltarem o “perigoso invasor”, que agora recuperava a dignidade junto com a circulação sanguínea.
— Você continua o mesmo, seu aprontador! — disse Toninho, ainda enxugando lágrimas.
— E você continua dramático! — respondeu Gancho, ajeitando o paletó e conferindo se as chaves estavam todas ali.
Abraçaram-se como nos velhos tempos de vestibular, quando o maior risco da vida era errar a alternativa “C”. Sentaram-se, colocaram as histórias em dia, compararam planilhas, clientes, juros e cabelos brancos.
E ali, naquela sala de gerente, ficou provado que o tempo pode mudar cidades, cargos e até o CEP dos amigos — mas não altera a essência de dois bons aprontadores.
Principalmente quando um deles ainda acha uma excelente ideia jogar um molho de chaves para “dar um susto”. (Com revisão da IA)