quinta-feira, 30 de abril de 2026

O BODE E EU

Carlos Heitor Cony

Na crônica anterior, agradei e desagradei alguns leitores que enviaram e-mails me elogiando ou criticando. Comentando dois assaltos simultâneos, um na Linha Vermelha, outro na Amarela, acessos hoje principais ao Rio, perguntei por que não se construía um muro, uma espécie de tubo a céu aberto, para evitar assaltos, seqüestros e acidentes com animais.

Não sugeri que se transformasse as favelas existentes, ao lado das duas estradas, em guetos medievais, isolando os pobres dos ricos. Leram mal ou entenderam mal.

Em todo o mundo, as vias expressas, as "free-ways", têm algum tipo de proteção para garantir o fluxo e a segurança dos carros e, obviamente, de seus passageiros.

No caso das duas linhas expressas do Rio, grande parte delas é constituída de viadutos, que os isolam da paisagem circundante, tornando difícil os assaltos e impossível a invasão de animais.

Além disso, há trechos desertos que não precisariam de proteção, são pantanosos, impedem que animais e bandidos cheguem até às pistas.

A proteção seria limitada a pequenos trechos, não para cercar as favelas, que estão mais ou menos distantes, mas para cercar as estradas.

Os moradores da região não ficariam confinados, os acessos normais estariam livres para ir e vir, eles não usam as estradas de alta velocidade, onde não existem pontos de parada nem cruzamentos.

De qualquer forma, alguma coisa precisa ser feita. Mês passado, levando um amigo ao aeroporto, um bode atravessou a pista. Chovia, a visibilidade era pouca. Na velocidade que vinha, mataria o bode e certamente eu não estaria aqui, enchendo os leitores.

Fonte: Folha de S.Paulo - 30/11/2004
Escrevo, porque senão estaria morto, para buscar o sentimento da existência. (Ernesto Sábato, Escritor argentino)

LUGARES

JARAGUÁ DO SUL - SC

 Localizado no prédio da antiga prefeitura, na Praça Ângelo Piazera, o Museu Histórico Emílio da Silva é uma instituição sem fins lucrativos, vinculada à Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer e mantida pela Prefeitura Municipal de Jaraguá do Sul. Para proteger o patrimônio museal, desenvolve ações de preservação, pesquisa e estudos, estimulando a releitura crítica das coleções de valor histórico, artístico e científico, e também promove o desenvolvimento de projetos culturais, a fim de conhecer o passado, compreender o presente e construir o futuro da sociedade.

FRASES ILUSTRADAS

 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O GOLPE DO BAR

Defronte à antiga Faculdade de Direito, lá nos altos da agência Ford, em Caxias do Sul, funcionava um bar minúsculo, desses que cabem mais histórias do que fregueses. Foi ali que o Mário e eu chegamos num final de tarde qualquer, com aquela pressa calma de quem só quer um cafezinho para manter o estudante acordado, eis que que as aulas ocorriam à noite.

Encostados ao balcão, de pé, saboreávamos o café quando surgiu a figura: um jovem que eu conhecia apenas de vista, presença frequente na praça central. Era desses que não caminhavam, circulavam; não conversavam, garimpavam. Especialista em encontrar incautos e lapidar histórias conforme o brilho do possível lucro. Um aprendiz de estelionatário, digamos assim, ainda em fase de estágio supervisionado pela própria esperteza.

Eu sabia bem de seus truques. Trabalhara perto da antiga agência do Banco do Brasil, território profissional do rapaz, onde ele exercitava sua arte com a constância de um funcionário público — só que sem crachá.

No bar, ele se aproximou do Mário e, com grande teatralidade, esfregou o polegar no indicador: o gesto universal do “dinheiro”. Em seguida, passou a gesticular como quem dizia ser surdo e mudo, compondo um personagem digno de um cinema mudo de quinta categoria. Estrategicamente, posicionei-me às suas costas, pronto para qualquer sinal de alerta, como um anjo da guarda especializado em golpes de baixo orçamento.

Enquanto o estranho diálogo gestual avançava, enfiei a mão no bolso e encontrei uma moeda. Soltei-a no chão, casualmente. O tilintar metálico ecoou no bar como um sino de igreja. Milagre imediato: o pseudo surdo virou-se num átimo. O mudo, então, recuperou a audição e a orientação espacial. Ao iniciar o movimento para apanhar a moeda, fui mais rápido: pisei firme sobre a mesma, selando o milagre inverso.

O Mário, que já havia entendido a cena, caiu na gargalhada, café quase saindo pelo nariz. O jovem, percebendo que sua encenação fora desmascarada por uma simples moeda de troco e um pé bem colocado, desistiu da apresentação. Escapuliu do bar com a dignidade possível, provavelmente em busca de plateias menos críticas e bolsos mais distraídos.

Ficamos nós ali, com o café já frio e a certeza reconfortante de que, às vezes, um pouco de atenção e uma moeda no chão bastam para encerrar um espetáculo inteiro.
Alguns juízes são absolutamente incorruptíveis. Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça.(Bertolt Brecht, dramaturgo alemão, 1898-1956)

LUGARES

CASTELO DE DÜRNSTEIN - ÁUSTRIA

A imagem mostra as ruínas do Castelo de Dürnstein, localizado na Áustria. Este castelo medieval é famoso por ter sido o local onde o rei inglês Ricardo Coração de Leão foi aprisionado entre 1192 e 1194. As ruínas situam-se no topo de uma montanha a 312 metros acima do nível do rio Danúbio. O castelo está localizado na pitoresca região de Wachau, na Baixa Áustria. É possível fazer trilhas até o local para explorar as ruínas e apreciar a vista panorâmica do vale. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

QUANDO A MULHER SE CALA E O HOMEM FALA POR ELA

Fabrício CarpinejarFabrício Carpinejar 

Quando a mulher fala pelo casal, a relação vai bem. Quando o homem fala pelo casal, a relação vai mal.

Repare, é assustador: o silêncio da mulher é insatisfação; o do homem, contentamento. O silêncio da mulher é repressão; o do homem, aprovação. O silêncio da mulher é angústia; o do homem, recompensa.

Quando os dois estão entre amigos, se o homem não fala e escuta atentamente, está concordando. Se o homem é que fala e a mulher mergulha na mudez, é que está prestes a explodir de raiva.

Homem passivo e mulher dominante são sinais de bem-estar. Homem dominante e mulher passiva são agouros de briga.

A mulher é a porta-voz da felicidade da vida a dois – pois sempre arranca na frente para antecipar as novidades e projetos. Não se furta a dizer a sua versão dos acontecimentos. A loquacidade representa comprometimento e engajamento no relacionamento: discute, debate, intervém, não deixa por menos. Já o homem matraqueando é a versão da tragédia, busca disfarçar tudo o que vem acontecendo de errado e fazer com que todos não percebam 
a indisposição feminina.

Homem alegre é plateia. Aplaude, ri, meneia a cabeça enquanto testemunha a sua esposa descrever as principais histórias e causos do seu cotidiano. Não sente necessidade de se contrapor à narração, até se vangloria das legendas. Quando entra sozinho no palco, é que fará um monólogo fingido: no fundo, distrai os outros de sua diva contrariada.

Mulher jamais é espectadora, somente se cala em nome da fúria, ciúme ou ressentimento. Não consegue nem mais reclamar. Prende a língua, trinca os dentes, já que se vê numa situação-limite: engatilhada a disparar sarcasmo e ironia a troco de nada, capaz de devolver o mero cumprimento com uma pergunta. Mostra-se educada a ponto de ser lacônica, não quer mentir e se controla.

Não desejava participar daquele momento hipócrita: pretendia resolver tudo antes em casa para depois sair (não é como o homem, que sai para resolver o que não foi compreendido em casa). Sua leveza depende da segurança emocional.

Para ter vontade de se expressar é que se encontra possessa, engasgada, de olhar baixo. Desistiu da esperança do humor. Admite ser dublada porque a sua cabeça e – principalmente – o coração se escondem longe dali.

Fonte: Zero Hora
Andy Warhol é o único gênio que conheci com 60 de QI. (Gore Vidal)

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ELVAS - PORTUGAL

Você sabia que no Alentejo existe uma construção histórica que impressiona pela engenharia e pela beleza? O Aqueduto de Moreira, situado em Elvas, é uma obra monumental erguida entre os séculos 17 e 18 para abastecer a cidade com água, e até hoje desperta curiosidade pela dimensão e pelas arcadas que recortam a paisagem. Para quem visita Elvas, o aqueduto é uma parada imperdível: rende fotos incríveis, uma viagem no tempo e um jeito diferente de conhecer a herança arquitetônica do Alto Alentejo.

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segunda-feira, 27 de abril de 2026

PERECÍVEL, MAS INDESTRUTÍVEL

Por Ruy Castro

A loura madura, bonita e empetecada olhava com encanto para as prateleiras ao seu redor. Era num sebo -um charmoso sebo no Leblon. Ao lado, seu marido, uma personalidade da TV, conversava com alguns clientes. De repente, ouviu-se a voz da mulher: "Que livraria mais engraçada! Só tem livro velho!".

Sebos interferem com a sensibilidade de seus frequentadores.

Há quem se compadeça daqueles livros porque acha que, lidos ou não, eles foram desprezados por seus antigos compradores. Para outros, o sebo representa uma gloriosa sobrevida para muitos livros -quem sabe um dia estes não serão tirados das estantes por leitores mais atentos e interessados, que saberão apreciá-los melhor?

Sem falar em tantos livros tão amados, e que só foram parar no sebo por motivo de força maior, como a morte de seus possuidores originais. É comum que, morto o dono da casa, e pela impossibilidade de continuar morando nela, a viúva seja obrigada a se desfazer do recheio ou do próprio imóvel, donde lá se vão os livros. E não há nada demais em que a sobrevida de um livro se deva à morte de alguém. Boa parte dos livros que possuo já pertenceu a uma ou mais pessoas, e, no futuro, pertencerão a terceiros ou quartos -espero.

Uma notícia na Folha, há dias, me calou fundo: a história de Cleuza, 47, a catadora de recicláveis em Mirassol (452 km de São Paulo), que recolhe os livros que encontra no lixo, recupera-os e os leva para uma biblioteca que criou no centro de triagem do lugar. Entre os 300 títulos que já salvou da destruição e empresta ou dá a seus colegas, estão muitos de Machado de Assis, Erico Verissimo e José Saramago. Eu ficaria orgulhoso de ver algum dos meus próprios livros nesse lote.

Há melhor prova de que, por Cleuza, o livro-de papel, tão precário e perecível- será indestrutível?

Fonte: Folha de S.Paulo, 10/11/2012
Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas. (Benjamin Disraeli, Estadista inglês, 1804-1881)

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WEIßENKIRCHEN - ÁUSTRIA
A imagem mostra o Hotel Garni Donauhof, localizado no vilarejo de Weißenkirchen, na região de Wachau, Áustria. É uma propriedade familiar situada perto do rio Danúbio. O hotel está localizado em uma região produtora de vinhos, considerada Patrimônio Mundial da UNESCO. (Google)

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domingo, 26 de abril de 2026

LIVROS

Por Manuel Cardoso

Até ao fim da Terra, de David Grossman é um livro de qualidade excepcional. Uma das melhores leituras que fiz até hoje em torno da questão judaica. Trata-se de uma obra de grande fôlego que retrata na perfeição todo o sofrimento, toda a coragem de um povo martirizado pela História. No entanto, Grossman não cai no chauvinismo e no maniqueísmo fácil; os árabes (ou palestinianos) não são aqui retratados como o inimigo a abater. Eles são também vítimas. Os culpados nã são os judeus nem os árabes; culpada é a própria guerra. Mas como a guerra é feita por homens, eles são ao mesmo tempo vítimas e culpados. Todos. Como já alguém afirmou, este é um dos melhores livros anti-guerra de todos os tempos. Para ler sem preconceitos; caso contrário, a leitura e sua interpretação sairão, obviamente, distorcidas.

Fonte: aminhaestante.blogspot.com.br
Tudo que é rigorosamente proibido é ligeiramente permitido. (Roberto Campos, Político brasileiro)

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MOSCOU - RÚSSIA

Esta imagem retrata a Praça Vermelha em Moscou, Rússia, um local histórico icônico.

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sábado, 25 de abril de 2026

ROMANCE FORENSE

Superstição inconveniente

Semana passada, deputados ausentes aproveitando a Copa para mais um dos incontáveis descansos (diários, semanais e mensais), um jornalista ouve, de desocupados assessores que trovam num corredor da Câmara Federal, uma historinha.
Segundo ela, os dois amantes estão no bem-bom quando uma pancada seca na porta os põe em pânico:
- Depressa, pula a janela. É o meu marido! – diz a mulher, apavorada.
- Tá louca, estamos no 13º andar! – responde o amante.
- Pula logo! Não é hora para superstições... – diz enérgica, a mulher.
* * * * *
Há quem garanta que não houve salto no espaço e que os participantes do amoroso triângulo resolveram o impasse sem chegar às vias de fato.
E que, poucos dias depois, aportou no Fórum brasiliense uma separação judicial.
O juiz homologou o pedido consensual.
Fonte: www.espacovital.com.br
A humildade é a base e o fundamento de todas as virtudes e sem ela não há nenhuma que o seja. (Cervantes, 1547-1616)

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NUREMBERG - ALEMANHA

A imagem mostra construções em estilo enxaimel no complexo do Castelo de Nuremberg (Kaiserburg Nürnberg), localizado na Alemanha. O castelo foi um importante palácio fortificado do Sacro Império Romano-Germânico por quase 1.000 anos. É possível visitar o pátio medieval, a capela, torres e um poço profundo de 50 metros. As edificações apresentam a arquitetura característica com estruturas de madeira aparentes, típicas da região. (Google)

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sexta-feira, 24 de abril de 2026

40 FIGERS

 SULTAN OF SWIN

Uma alegria compartilhada se transforma em dupla alegria; uma pena compartilhada, em meia pena. (Provérbio sueco)

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LONDRES - INGLETERRA
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Esta imagem mostra o Palácio de Westminster, também conhecido como as Casas do Parlamento, localizado em Londres, Inglaterra. É a sede do Parlamento do Reino Unido, abrigando a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes. O edifício atual foi construído em estilo neogótico no século XIX, após um grande incêndio destruir a maior parte do antigo palácio em 1834. É um Patrimônio Mundial da UNESCO e um dos marcos mais famosos de Londres, situado às margens do rio Tâmisa. A estrutura inclui a Elizabeth Tower, que abriga o famoso sino conhecido como Big Ben. (Goocle)

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quinta-feira, 23 de abril de 2026

BLOCO DO EU SOZINHO

Carlos Heitor Cony

Um amigo andou fazendo uns cálculos que nunca me passaram pela cabeça. Pegou o meu habeas-data fornecido pelo Dops, a tabela dos salários do pessoal da polícia e de outros órgãos que se dedicaram à repressão no período de 64 a 73.

Levantou a carga horária que foi cumprida pelos funcionários da Viúva nos 12 IPMs que respondi, nas seis prisões em que me trancafiaram, nos deslocamentos aéreos e terrestres, nos agentes que seguiam meus passos aqui e no exterior, na administração burocrática de toda essa gente. Obteve um resultado que me espantou: em moeda corrigida, dava R$ 1.548, 630.

Fui o primeiro a estranhar a quantia calculada pela Comissão de Anistia com que o Estado, conhecido também como "A Viúva", me indenizaria. Pensava que era muito. E não entendi bem, apesar de meu advogado ter explicado a lei votada no Congresso sobre o assunto. Fiquei sabendo que deveria ganhar mais do que pretendem me dar.

Ao me habilitar para a indenização legal que a Viúva me deve, o advogado apresentou documentos ( livros, sentenças, fotos, recorte de jornais da época) provando que perdera empregos, vivera fora do país, tivera a casa depredada, passara 23 anos sem condições de escrever meus livros, a carreira de escritor interrompida, enfim, o diabo que a Viúva fez comigo e com milhares de brasileiros, muitos dos quais foram mortos e torturados.

Minha mãe morreu em 1973, amargurada com a situação que o filho atravessava. Minhas filhas foram ameaçadas de seqüestro e estupro, no próprio colégio em que estudavam. E meu crime fora apenas o de opinião, expressa em jornal. Nunca pegara em armas nem participara de nenhum movimento coletivo. Fui e ainda sou do bloco "Eu sozinho".

Fonte: Folha de S.Paulo - 07/12/2004
Sirvo-me dos animais para instruir os homens. (Jean de La Fontaine, Poeta francês, 1621-1695)

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NAZARÉ - PORTUGAL

A imagem mostra uma vista aérea da vila costeira de Nazaré, em Portugal, famosa pelas suas ondas gigantes e tradições de pesca. Nazaré, Região do Centro, Portugal. A área é conhecida pela Praia da Nazaré e praias próximas como a Praia do Norte. A região oferece oportunidades para caminhadas, windsurf e visita a pontos turísticos como o Forte de São Miguel. (Google)

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

O ÚLTIMO PERDIGUEIRO E O MILAGRE DAS BOTAS

Diferente de outros taxidermistas que buscavam o porte da cabeça ou o brilho dos olhos de vidro, Tibúrcio guardava apenas as orelhas.  

"O instinto do cão não mora no focinho, nem no rabo", sentenciava ele, entre um gole de mate e uma mentira deslavada. "O tino da caça, a vibração da ave levantando voo... tudo isso se manifesta é na cartilagem da orelha. É ali que o som vira cheiro." 

Com o tempo, ele acumulou um estoque respeitável de orelhas curtidas. Para não deixar tal "energia" desperdiçada, encomendou a um sapateiro de confiança um par de botas de cano alto, forradas inteiramente com o couro dessas orelhas.

Certo outono, o destino lhe pregou uma peça. Seu último e melhor perdigueiro, o "Vendaval", foi picado por uma cruzeira e não resistiu. Tibúrcio, com o pragmatismo de quem já vira muito a morte, colheu as orelhas do amigo e seguiu para o campo sozinho, calçando suas famosas botas.

O campo estava silencioso, mas a mágica aconteceu:

A Comichão: De repente, Tibúrcio sentiu um formigamento nas panturrilhas, um movimento involuntário que subia pelos tornozelos.

As botas pareciam ganhar vida própria, puxando sua perna esquerda para o lado.

O Resultado: Mal ele firmava o pé, de uma moita de capim-annoni, saltava uma perdiz gorda, batendo asas com aquele barulho seco que é música para o caçador.

"É o instinto, vivinho da silva!", exclamava ele no bolicho da vila, batendo com o cano da bota na mesa de madeira. "As orelhas dos falecidos agora farejam por mim. Se eu descuido, a bota direita sai correndo atrás de lebre e me deixa plantado de um pé só!"

O Respeito ao Mito

Os amigos ouviam em silêncio sepulcral. Olhavam para as botas — um tanto quanto macabras, é verdade, com remendos de couro de tons diferentes — e depois para a expressão feroz e convicta de Tibúrcio.

Ninguém ousava rir. Fosse pela provecta idade do velho mecânico, ou pelo receio de que ele, num acesso de fúria, usasse o "instinto" daquelas botas para lhes desferir um coice certeiro, todos assentiam.

— "É coisa de ciência, Tibúrcio", diziam alguns, enquanto desviavam o olhar.

E assim, o velho caçador seguia pelos campos gaúchos, guiado pelos fantasmas de seus cães que, costurados ao couro, ainda buscavam o voo das perdizes sob o sol do meio-dia. 
Condenar a televisão seria tão ridículo como excomungar a eletricidade ou a teoria da gravidade. (Federico Fellini, cineasta italiano)

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ESTOCOLMO - SUÉCIA

O Museu Nacional de Belas-Artes (em sueco: Nationalmuseum) é um dos mais importantes museus de arte da Suécia. Localizado em Estocolmo, a capital do país, este museu alberga impressionantes colecções de arte europeia.

Histórico

As coleções do Museu Nacional começaram a ser formadas no século XVI pelo rei Gustavo I Vasa no Castelo Gripsholm e em outras residências reais, sendo ampliadas por doações, aquisições e espólios de guerra quando a Suécia era uma potência militar no século XVII. Contudo, parte da coleção, especialmente pinturas renascentistas, foi levada para Roma quando a Rainha Cristina abdicou e fixou residência na Itália. Outras perdas significativas aconteceram em 1697, quando um incêndio destruiu parte do Castelo Tre Kronor.

Alexander Roslin: Retrato de Gustavo III
Ao longo do tempo dois patronos foram especialmente importantes para a construção do notável acervo de arte que hoje é preservado no Museu Nacional: Carl Gustaf Tessin, embaixador da Suécia na França na década de 1740, que adquiriu numerosa coleção de grande qualidade, e o rei Gustavo III, que além de ser um grande colecionador ordenou a doação das suas obras privadas ao estado após sua morte, que formaram o primeiro Museu Real em 1792. Quando as coleções passaram para um novo prédio em 1866, a sede atual, um edifício imponente com traços da arquitectura florentina e veneziana renascentista, o museu mudou sua denominação para Museu Nacional.

O museu, actualmente, conta com mais de um milhão peças entre desenhos, esculturas, gravuras e pinturas, uma enorme e riquíssima colecção de porcelanas, com especial destaque para as porcelanas chinesas, e uma óptima colecção de arte moderna. Para além disso o Museu Nacional alberga uma boa biblioteca de arte.

Fonte: Wikipédia

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terça-feira, 21 de abril de 2026

HOMENS E MULHERES: POR QUE ISSO NUNCA VAI DAR CERTO

Martha MedeirosMartha Medeiros

Amada, não se apavore com esta mensagem, apenas preste atenção. Sofri um acidente. Silvia me trouxe para o hospital. Vou entrar em cirurgia daqui a pouco, os médicos estão apenas esperando o resultado de alguns exames. Fui atropelado por uma moto. Sofri alguns cortes profundos nas costas e meu joelho está destroçado. Dói muito, mas estou tentando ser forte. O sangramento já foi contido. Por favor, venha assim que puder, estou no setor de emergência do Hospital Nossa Senhora da Purificação, entrada pelos fundos.

O atropelador fugiu, mas duas testemunhas se apresentaram para prestar depoimento. Há uma capela aqui, reze pelo seu marido. Traga a carteirinha do convênio. O celular está comigo, como você pode perceber. Avise o pessoal do escritório. Não demore. Amo você.”

“Quem é Silvia?”

Querido Ricardo, não adianta falar pessoalmente porque você não me escuta, então resolvi mandar essa mensagem pelo Face, onde fico mais à vontade para me abrir. Depois do que aconteceu na terça-feira, eu refleti muito e concluí que você não está levando em consideração tudo o que faço para salvar nosso namoro: me dedico à sua família, à sua casa, aos seus amigos, isso sem me descuidar um minuto da nossa relação.

Sempre fui solícita aos problemas de todos, enquanto que você não presta atenção em nada relacionado a mim, sempre focado na sua cerveja, no seu time e nas necessidades imediatas do seu dia a dia, nunca atento ao que realmente interessa e sem perceber como me deixa sobrecarregada. Custa você ser mais participativo?

Claro que custa, você só tem olhos para o próprio umbigo. Provavelmente se considera um eleito que nada precisa fazer a não ser existir, e os outros que se encarreguem dos problemas. Cansei, Ricardo. Essa mensagem é para dizer que estou indo embora. Terminamos aqui. Vou em busca de alguém que divida comigo as preocupações e os prazeres, que queira investir em mim, em um futuro partilhado, que deseje filhos e um teto em comum. Você só me enrola e já percebi que jamais irá dizer o que desejo escutar. Estou destruída, mas vou me reerguer. Nem perca seu tempo me procurando, não mudarei de ideia, não importa o que você diga.”

“O que aconteceu na terça-feira?”

Fonte: Zero Hora
Um cavalheiro nunca espanca uma mulher antes de ter sido provocado. (Henri Louis Mencken, jornalista americano, 1880-1956)

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ABADIA DE JUMIÈGES - FRANÇA

A imagem mostra as ruínas da Abadia de Jumièges, localizada na Normandia, França. Fundada no século VII, é conhecida como uma das ruínas mais belas da França. Suas torres românicas normandas chegam a aproximadamente cinquenta metros de altura. O local funcionou como um mosteiro beneditino até ser destruído durante a Revolução Francesa.  Atualmente, é um ponto turístico popular na região do vale do Sena. ( Google)

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segunda-feira, 20 de abril de 2026

CRAVEI, MAS NÃO FOQUEI

Ruy Castro

Bater o martelo, cravar, escancarar. Qual é o seu novo clichê favorito? Frases e expressões que se formam sozinhas na nossa boca sem passar antes pelo cérebro

Há pouco, chamei a atenção aqui para a incidência de batidas de martelo no nosso dia a dia. Qualquer decisão, certeza ou afirmação mais peremptória a que chegamos, lá vem o indefectível "Já bati o martelo!". Como quem diz: "É isso aí, não tem conversa!". Nos jornais, o mesmo: "Júri bate martelo sobre melhor sardinha em lata". Pela frequência com que se bate hoje o martelo a respeito de qualquer coisa, imagine a cacofonia. Por sorte, bater o martelo é apenas uma expressão, uma tomada de liberdade da língua. O que não a impede de ser um clichê, algo que falamos sem pensar, frase que se forma sozinha na boca, sem passar antes pelo cérebro.

Outro verbo que não demora a chegar à boca do povo, pela insistência com que é usado nos sites e veículos impressos, é "cravar". Estão cravando tudo: "Vidente crava quem vai ganhar a Libertadores"; "Meteorologia crava chuva no feriado"; "Analistas cravam Papuda como novo endereço de Bolsonaro". Cravar é penetrar à força, fincar, pregar cravos. Cristo, por exemplo, foi cravado na cruz. Já cravar um palpite é fácil —se for um palpite errado, o sujeito não será crucificado por isso.

E temos também "escancarar". Ninguém mais revela, admite, confessa ou confirma qualquer coisa —escancara. Escancarar, que é abrir, mostrar, exibir, até há pouco só era possível com portas, principalmente se estivessem fechadas. Hoje escancaram-se até portas abertas: "Nutricionistas escancaram sua admiração pela banana". E há escancaras surpreendentes: "Influenciadora escancara preferência por homens sinceros e desinteressados".

E o que dizer de "disparar"? Até algum tempo só se disparavam balas. Hoje, disparam-se insultos, ofensas, imprecações. Assim como ninguém mais vê, prevê ou fica atento a alguma coisa. Em vez disso, "mira", como no tiro ao alvo do mafuá. E será preciso falar de "focar"? Eu não foco, porque acho esse verbo ridículo, mas o país inteiro, freneticamente fricativo, foca sem parar ao meu redor.

Pronto, bati o martelo. Cravei.

Fonte: Folha de S.Paulo - 08/11/2025
John Kennedy foi um dos homens mais charmosos que conheci. E também um dos piores presidentes. (Gore Vidal)

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CAUDEBEC-EN-CAUX

A imagem mostra a Igreja de Notre-Dame em Caudebec-en-Caux, localizada na Normandia, França. Esta igreja é um exemplo notável da arquitetura gótica extravagante, construída principalmente entre os séculos XV e XVI. É famosa pelo seu campanário vazado e esculturas detalhadas em pedra na fachada. A cidade de Caudebec-en-Caux, onde a igreja se encontra, é conhecida pelas suas ruas medievais e vistas para o rio Sena. A construção combina elementos de diferentes fases arquitetônicas, desde o românico até ao gótico tardio. (Google)

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domingo, 19 de abril de 2026

LIVROS

Por Manuel Cardoso
Sinopse:

O enredo desenvolve-se numa aldeia do norte do Moçambique, onde se vive uma pobreza absoluta. Trata-se de uma das regiões mais pobres de África. Aí vive uma comunidade atacada pelos Leões. A jovem Mariamar e o caçador Arcanjo Baleiro são os personagens principais.

Um acontecimento real – as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique – é pretexto para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas.

A Confissão da Leoa é bem um romance à altura de Terra Sonâmbula e Jesusalém, já conhecidos do leitor português.

Comentário:

A relação entre o homem e o mundo natural, as tradições nativas bem como o papel da mulher na comunidade africana são os temas que Mia Couto transporta para esta bela estória de ficção, onde se fala de uma mulher que é um monumento à alma africana: Mariamar.

Logo a primeira página deixa-nos extasiado com a poesia a que este autor já nos habituou: “Deus já foi mulher” é a frase de abertura do livro. Depois: “Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. (…) Todos sabemos, por exemplo, que o Céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada.”

A linguagem poética de Mia Couto é, de facto, avassaladora e até os nomes dos personagens são reveladores: Arcanjo, por exemplo, é o nome do matador. Ou melhor, do caçador, porque caçar não é matar; é participar da natureza.

A mão de Mariamar (Anifa Assula) diz que a aldeia é um cemitério vivo para as mulheres. Por isso prefere fazer amor sozinha; é a única forma de vencer os homens. Este é o ponto de partida para uma crítica acérrima à relação entre e mulheres de que falarei adiante.

Quando Mariamar se encontra de frente com a feroz leoa que ataca a aldeia, diz a narradora (Mariamar): “a leoa saúda-me, com respeito de irmã”. É a identificação total, o cruzamento de destinos entre leoa e mulher. Aquela é a leoa assassina, perante a qual os homens, mesmo caçadores e guerreiros “todos se prostraram, escravos do medo, vencidos pela sua própria impotência.

Um aspeto interessante desta magnífica personagem, é que Mariamar sabe escrever, ao contrário de muitos dos outros habitantes da aldeia. Ela não aprendeu com os missionários mas sim com os bichos selvagens. Eles ensinaram com fábulas porque só eles sabem distinguir o bem e o mal. “foram os animais que começaram a fazer-me humana, afirma Mariamar.

A natureza do poder político perante a pobreza em África é outro tópico desenvolvido pelo autor. Quando o administrador chega à aldeia com o caçador de leões, um camponês questiona porque é que eles querem saber como morremos, se nunca quiseram saber como vivemos? Perante a fome e a miséria, pouco interessa à autoridade a vida deste povo…

O povo acredita que foi a guerra que chamou os leões. A guerra (ou a colonização) alterou o equilíbrio que havia entre homens e bichos. O pior é que terminada a guerra, a situação ainda piorou. Lamenta-se Genito: Aqui não há polícias, não há governo. E mesmo Deus só às vezes.

Algumas tradições locais são vistas por Mia Couto como sementes de violência – as mulheres exploradas, as crenças que resultam em autênticos crimes, um machismo aterrador que justifica até o incesto, etc. Tudo isto o homem branco não soube resolver, mas o homem negro também não.

E paulatinamente, o livro vai-se transformando numa crítica brutal aos costumes ancestrais do povo africano. Sem qualquer indício de racismo, note-se. Pelo contrário: com um imenso respeito pela cultura africana naquilo que ela representa de harmonia entre o homem e a natureza, sempre que a estupidez humana não a impede.

Mariamar, neste mundo miserável, injusto e violento é a vítima sacrificial e a heroína nesta luta terrível, não contra as feras da selva mas contra a estupidez, a ignorância, o preconceito. (aminhaestante.blogspot.com.br)
Ler Proust é como arar um campo com agulhas de crochê. (David Herbert Lawrence, Escritor inglês, 1885-1930)

LUGARES

FAROL DE COLÔNIA DEL SACRAMENTO - URUGUAI

Esta imagem mostra o Farol de Colônia do Sacramento e as ruínas do Convento de São Francisco, localizados no Uruguai. O farol foi construído em 1857 e está situado na costa do Rio da Prata. A estrutura tem um design único, com uma base quadrada e a parte superior cilíndrica. Ao lado do farol estão as ruínas do convento construído por freis franciscanos em 1690, que foi destruído por um incêndio em 1704. A área faz parte do Bairro Histórico de Colônia do Sacramento, um Patrimônio Mundial da UNESCO. (Google)

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sábado, 18 de abril de 2026

ROMANCE FORENSE

O usucapião da mulher

Por Maurício Krieger, advogado (OAB/RS nº 73.357)

Em um famoso bar da cidade de Porto Alegre, três amigos se reúnem em uma sexta-feira depois do trabalho para conversar. Tinham sido colegas de faculdade de Direito e hoje dois seguem a carreira de advogados e outro de juiz. (Este não é daquele grupo que fixa honorários em R$ 200...).

Entre algumas conversas e muitas cervejas, um dos advogados conta uma história absurda, da qual garante ter sido participante.

Vocês não vão acreditar no pedido que um cliente me fez. Ele queria entrar com uma ação para usucapir uma mulher que estava, há cinco anos, tendo um caso com ele. Mas ela namorava – fixo! – um outro cara. O cliente insistiu que a posse que ele mantinha sobre a dita cuja, era mansa e pacífica, porque o namorado oficial dela sabia da história e não fazia nada para impedir.

Há um silêncio na roda, com expressões de incredulidade dos dois restantes e do garçom curioso que está de pé próximo. O advogado volta à carga:

- Expliquei ao cliente que essa seria uma demanda impossível, sem fundamento jurídico, que não preencheria as condições da ação e que eu ainda corria o risco de ser denunciado à OAB, caso patrocinasse uma coisa tão absurda como essa. Foi quando, então, o cliente me disse que procuraria a Defensoria Pública.

- Esse homem tem que ser internado numa clínica para loucos – objetaram, em conjunto, uníssonos, os outros dois integrantes da roda.

É quando o abelhudo garçom que havia escutado a história resolve palpitar:

- Doutores, me desculpem a intromissão. Eu não entendo nada de direito, mas a única coisa que eu entendi não é que a posse sobre a mulher seja mansa e pacífica. Verdade mesmo é que o namorado dessa dona é que é um corno manso e pacífico!

Fonte: www.espacovital.com.br
Ciência é minha paixão, política é o meu dever. O maior serviço que se pode prestar a um país é acrescentar um uso prático à sua cultura. (Thomas Jefferson, Presidente americano, 1743-1826)

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AVEIRO - PORTUGAL

A imagem mostra um Barco Moliceiro navegando pelos canais da cidade de Aveiro, em Portugal. Originalmente, estas embarcações eram utilizadas para a apanha do moliço (algas marinhas) na Ria de Aveiro, que servia como fertilizante agrícola. São barcos de madeira coloridos e considerados lindíssimos, frequentemente decorados com painéis pintados que retratam temas religiosos, paisagens de Portugal ou cenas anedóticas. Hoje em dia, os moliceiros são predominantemente empregados em passeios turísticos, preservando a herança cultural da região. A arte de carpintaria naval dos barcos moliceiros é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial português. (Google)

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sexta-feira, 17 de abril de 2026

KSENIYA SIMONOVA

Kseniya Simonova foi a vencedora da edição Ucraniana do Got Talent-Tens Talento. Fez uma animação da invasão da Alemanha na Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial, tendo usado os dedos e uma superfície com areia. 
Temos muito que fazer com o século XX para nos darmos o gosto de especular sobre o século XXI. (Raymond Aron, sociólogo francês, 1905-1983)

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MOSTEIRO DA BATALHA - PORTUGAL

A imagem mostra o Mosteiro da Batalha, também conhecido como Mosteiro de Santa Maria da Vitória, localizado em Portugal. Foi encomendado em 1386 pelo Rei Dom João I como agradecimento pela vitória contra os castelhanos na Batalha de Aljubarrota. É um símbolo da independência de Portugal e um dos principais exemplos do estilo gótico português, com influências manuelinas. O local abriga o panteão real, onde estão sepultados Dom João I e sua esposa, Filipa de Lencastre. Em 1983, a UNESCO classificou o mosteiro como Patrimônio Mundial da Humanidade. (Google)

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quinta-feira, 16 de abril de 2026

A LEGIÃO DOS CHATOS

Carlos Heitor Cony

No meu tempo, dizia Machado de Assis, já havia velhos, mas poucos. Parodiando o mestre, direi que no meu tempo já existiam chatos, mas poucos. Quando Cristo expulsou Satanás de um endemoniado, perguntou-lhe o nome. Satanás respondeu: "Meu nome é Legião". Os chatos de agora são igualmente uma legião, e a internet ampliou-os em número, freqüência e virulência.

Todos os meus amigos e até mesmo alguns desafetos reclamam das mensagens, das sugestões e sobretudo das denúncias do interesse de cada um, do prefeito que não asfaltou a rua, do emprego que não obteve, do concurso que o reprovou.

O e-mail, que deu oportunidade à comunicação de forma surpreendente, se de um lado está servindo na busca e troca de informações para aproximar pessoas, de outro está produzindo chatos em massa, em esteira industrial.

Desocupados, frustrados que desejariam ser comentaristas de política, esportes, economia e cultura, ditando regras disso e daquilo, encontraram a tribuna, o espaço que buscavam e não conseguiam.
Basta entrar na Internet com tempo suficiente e eles acreditam estar criando um mundo à sua imagem e semelhança, mundo que felizmente não existe, a não ser na cabeça desses Petrônios informatizados.
E ao contrário de Deus, que quando criou todas as coisas, o céu e a terra, o sol e as estrelas, descansou no sétimo dia, o chato eletrônico não descansa, trabalha em tempo integral, todos os dias, sábados, domingos e feriados, não tira férias, não adoece. E como ninguém toma as providências que ele reclama, o chato adota um moralismo pedestre, primário, sem conseguir mudar o mundo que insiste em rejeitá-lo.

Fonte: Folha de S.Paulo - 14/12/2004
Uma fórmula para alcançar a celebridade pode ser esta: expressar idéias sensíveis com clareza, engenhosidade e cortesia. (André Maurois, Escritor francês, 1885-1967)

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DUBROVNIK - CROÁCIA
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A imagem captura um momento de turismo na cidade histórica de Dubrovnik, na Croácia. A foto foi tirada nas muralhas próximas ao porto da Cidade Velha de Dubrovnik, um Patrimônio Mundial da UNESCO. O navio ao fundo indica uma chegada por cruzeiro, uma forma muito comum de visitar a cidade. Dubrovnik é famosa por sua arquitetura medieval bem preservada e cenários deslumbrantes à beira-mar. (Google)

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quarta-feira, 15 de abril de 2026

O OFFICE BOY

Por volta de 1962, eu era uma dessas criaturas úteis e ligeiras chamadas office boy. Trabalhava numa empresa do ramo metalúrgico, lotado no escritório, e, como mandava a hierarquia natural das coisas, por ser o mais novo — na idade e no emprego — sobravam-me as missões nobres: levar papéis, buscar café, pagar contas e conhecer a cidade a pé antes de qualquer outro meio de transporte.

Alguns meses depois, chegou um novo colega - Delfim era o seu nome. Interiorano recém-desembarcado na cidade grande, foi alocado na loja de autopeças da mesma empresa. Assim como eu, herdou as tarefas que ninguém disputava. Cabia-lhe entregar peças para oficinas e, quando faltava algo, sair à caça em outras concessionárias. Sem saber, Delfim inaugurava, em versão pedalada, o embrião da peste moderna conhecida como motoboy.

Numa de suas primeiras empreitadas, recebeu ordem expressa: buscar uma determinada peça na agência Ford. Lá foi ele, montado na bicicleta da firma, com a coragem dos iniciantes e a inocência dos que ainda acreditam que tudo se resolve com boa vontade.

Chegando ao balcão, explicou — ou tentou explicar — o que viera buscar. O balconista, depois de alguns minutos de tradução simultânea do “delfinês” para o português técnico, concluiu que seria mais prudente falar diretamente remember the chefe. Indicou o telefone e sugeriu:

— Liga pro teu patrão e pede mais detalhes.

E saiu para atender outros clientes, deixando Delfim a sós com o aparelho.

O telefone, convém lembrar, era daqueles pretos, pesados, jurássicos, com disco e tudo. Um objeto tão familiar quanto um fóssil para quem acabara de trocar o interior pela cidade. Nem toda casa tinha telefone, e quando tinha, ele ficava lá, imóvel, respeitado como se fosse um parente importante.

Delfim ficou parado, encarando o monstro. Não ousava tocá-lo. O balconista, ao voltar e perceber que nada havia acontecido, compreendeu o drama e orientou com simplicidade: — Levanta o aparelho.

Delfim obedeceu. Mas obedeceu demais. Agarrou o telefone inteiro — base, fio e tudo — e ergueu o conjunto com cuidado, como quem resgata um bezerro recém-nascido.

Nesse instante, o balconista entendeu tudo: a origem, o espanto, a falta de intimidade com a modernidade. Calmamente, tomou a iniciativa, fez a ligação e falou diretamente com Rubens, o chefe do Delfim, resolvendo a questão em poucos minutos.

Delfim saiu dali com a peça certa, uma nova experiência no currículo e a certeza silenciosa de que, na cidade grande, até os telefones exigiam manual de instruções.

Vivendo e aprendendo — às vezes, começando pelo jeito certo de atender um telefone.