domingo, 10 de setembro de 2017

ASCENSÃO E QUEDA DO "THE DAO"

Ronaldo Lemos 

Quem acha que a era dos grandes épicos já passou está redondamente enganado. Ou melhor, digitalmente enganado. Neste exato momento, está acontecendo uma das batalhas mais épicas dos nossos tempos. Não duvido de que no futuro vire filme ou até mesmo mito de criação.

Trata-se da disputa em torno do projeto "The DAO", que levantou US$ 160 milhões — o maior financiamento coletivo da história — com o propósito de construir uma "Organização Autônoma Descentralizada (Descentralized Autonomous Organization)".

O nome designa entidades que se autoadministram por meio de instruções pré-programadas, sem a necessidade de intervenção humana. Uma vez criadas, são imparáveis. Para desligá-las, é preciso desligar a internet como um todo.

Tudo ia bem até que um ataque hacker conseguiu desviar US$ 50 milhões dos fundos, seguindo as regras do próprio sistema. O ataque foi complexo: conseguiu criar divisões e subdivisões consecutivas do dinheiro, extraindo recursos a cada rodada.

O propósito do projeto "The DAO" era justamente financiar o desenvolvimento de outras DAOs, acelerando o advento desse tipo de organização. No entanto, o hacker conseguiu fazer com que o dinheiro estivesse pronto para ir ao seu próprio bolso. O que mostra o elemento "humano" que se manifesta até em face de uma fria organização técnica.

Até aqui já temos enredo para uma boa reflexão sobre a alma humana. Mas a história ganha níveis shakespearianos. Logo após o incidente, a comunidade que investiu no projeto se dividiu no melhor estilo "Rei Lear".

De um lado, um grupo propondo que todo o sistema voltasse atrás para devolver o recuso desviado, uma bomba atômica para própria essência dos DAOs. De outro, o grupo contrário a isso, defendendo medidas menos dramáticas, como banir endereços identificados com o ataque. Iniciou-se assim uma batalha fratricida, que continua até agora.

Enquanto isso, outro grupo deixou de lado o embate existencial e partiu para uma solução prática. Esse segmento, autodenominado "Robin Hood", decidiu fazer o hacker provar seu próprio remédio. Organizou-se para tomar de volta os recursos desviados pelo hacker, usando o mesmo método desenvolvido por ele. Até o presente momento, a iniciativa tem sido bem-sucedida e conseguiu recuperar parte da pilhagem, que será retornada ao "The DAO" original. Faz parte desse grupo "Robin Hood" o brasileiro Alex Van De Sande.

A genialidade por traz desses ataques e contra-ataques é de tirar o fôlego. Teve gente dizendo que o incidente prenuncia o fim do sonho das DAOs. Outros afirmam que esse é só o batismo de fogo. Na minha visão, as DAOs terão um futuro promissor se aprenderem a dialogar com uma outra tecnologia milenar: o direito, instituição humana que muitos entusiastas das DAOs adoram desprezar. Essas duas forças, se juntas, poderão almejar transformar as organizações planetárias.

Fonte: Folha de S. Paulo

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