quarta-feira, 27 de novembro de 2019

TORÍBIO

TORÍBIO
Por Sérgio Jockymann

Pois, Toríbio veio para a casa do coronel com dois meses. Era um desses gatos malhados, concebido em noite de lua em cima de telhado de zinco. Tinha por isso uma certa falta de equilíbrio, que desengonçava o corpo todo. Ora, como havia em Vila Velha um Toríbio gente que caminhava do mesmo modo, foi o coronel olhar para o gato e o batismo aconteceu:

- Vem cá, Toríbio.

O Toríbio possuía uma inclinação muito brasileira pelos que estavam no poder e por isso se entendeu logo com o coronel. Que, diga-se de passagem, não era muito amigo de gato. Mas com o Toríbio foi uma exceção, um pouco provocada pelo fígado do coronel que andava muito bem e um pouco pela malandragem do gato, que era um safado de pai e mãe.

Começa que não miava como os outros gatos miam, quando a cozinheira corta a carne. O Toríbio armava uma cara de vítima e se deixava ficar no meio da cozinha até que os corações amoleciam e o pedaço de carne caia a seus pés. Aí, o danado ao invés de abocanhar a carne como todos os gastos, olhava primeiro para o benfeitor, puxava um miado agradecido do fundo do peito e só depois apanhava a carne com muito cuidado e ia comer num canto.

Por essas artes, todo mundo deu de dizer que o Toríbio só faltava falar. Lá pelos seis meses, quando já estava querendo botar corpo de gato grande, aconteceu um desastre. O coronel cansado de alisar o bichano, jogou o Toríbio do sofá para uma poltrona e o infeliz caiu de mau jeito. Torceu o corpo e se pôs a lançar miados pavorosos, enquanto o coronel esquecia todas as mortes que tinha na consciência, para se derreter em aflições:

- Toríbio, meu filho, o que foi isso? Fala comigo, Toríbio.

E o Toríbio a berrar como um desesperado, enquanto o coronel trovejava que queria um veterinário na casa imediatamente. Eram dez da noite, o que para Vila Velha era alta madrugada, mas mesmo assim seu Venâncio veio como um raio. Mal entrou, o Toríbio se jogou no chão e mudou os berros para um choro muito sentido.

- Que foi?

- Descadeirou.

Seu Venâncio levou uma hora apalpando, até que deu o veredito:

- Coronel, o bicho sofre de raquitismo. Tá propenso a mau jeito.

- Não quebrou nada?

- Não senhor.

No dia seguinte, o Toríbio iniciava uma dieta de sol e óleo de fígado de bacalhau. Refugava um pouco o primeiro, porque era verão, mas se babava com o segundo.

Só que mudou de personalidade. Quer dizer, a personalidade ficou a mesma, mas os agravantes é que apareceram. Era ver alguém e o Toríbio começava a puxar a perna. Graças a esse recurso infame, vivia nuns dengues de dar nojo. Então quando o escolhido era o coronel, o Toríbio encenava uma paralisia completa. Mais de uma vez, foi apanhado em plena corrida pela entrada do coronel e sem um segundo de vergonha, freiava e trocava o passo para um aleijume de cortar o coração. O coronel se cuspia de riso com aquela safadeza e como era outro do mesmo estilo, os dois se davam como o pai e filho. E o Toríbio foi indo até que se tornou um déspota. Exigia comida especial, cama especial e até sardinha uma vez por semana. E ai que negassem qualquer coisa, que ele logo começava a puxar de uma perna. E diga-se de passagem, que o desavergonhado nem escolhia mais a perna para puxar. Puxava a primeira que desse e mantinha a mentira, mesmo quando o coronel estrilava:

- Toríbio, foi a outra perna.

O Toríbio lançava um olhar ofendido e não trocava de perna, como a dizer que ninguém sabia melhor do que ele onde era a lesão. Claro que com tanta vida boa, botou um corpo enorme e só emagrecia na temporada de boemia. Aí, ia mancando até a porta, cruzava a soleira e do outro lado, era outro gato. Erguia a cabeça, estufava o peito e saía pelo quintal com ares de tigre de cinema. Mas, nesta altura, dona Carmen, a mulher do coronel, deu de implicar com o gato dormindo na cama do casal e começou a mover uma campanha surda contra o Toríbio:

- Esse gato está cheio de pulga.

Lá ia o coronel a catar as pulgas do Toríbio, que embebedava com a catação. Ficava num tal estado de prazer, que às vezes despencava do colo do coronel como um saco de batatas. Também batia no chão e logo puxava da perna. Mas por mais que o coronel catasse, dona Carmen sempre aparecia com mordidas de pulgas até que fechou a questão:

- Ou ele ou eu.

O coronel já andava de amigações com a mulata Maria e teve uma vontade de dizer que preferia o gato. Mas se conteve, porque não ficava bem para um coronel de tanto prestígio político andar abandonando a companhia da esposa num local tão sagrado. Pelo que, saiu o Toríbio, que arrastou todas as patas que tinha sem o menor resultado. Foi jogado do lado de fora da porta, onde miou a noite inteira. No dia seguinte recusou, ostensivamente, os cafunés do coronel e mancou, desaforadamente, pela casa toda. Ficou assim cinco dias, enquanto o coronel se roia de remorsos. E foi na sexta noite que tudo aconteceu. O coronel estava lá pelo terceiro sono, quando ouviu ruídos medonhos embaixo da cama e num segundo já estava fora dela de revólver na mão, enquanto berrava para dona Carmen que acendesse a luz. E mal a luz acendeu, deu com o Toríbio agarrado com unhas e dentes na cabeça de uma enorme jararaca que chicoteava no chão procurando se libertar. Mas qual o que, o Toríbio não soltava a peçonhenta, roncando com quantos bofes tinha. E antes que o coronel saísse do espanto, o gato deu um safanão na cobra e quebrou o espinhaço da bicha. Aí, deu um pulo para o lado e assistiu ofegante aos últimos estertores da cobra. Só quando ela parou de se mover, o Toríbio olhou para o coronel no meio dos olhos, virou a cabeça e saiu capenguendo para fora do quarto. Não chegou à sala, porque o coronel se lançou atrás dele com os olhos rasos d´água:

- Toríbio, meu filho, nunca mais.

Dona Carmen ainda tentou desmaiar, mas foi pura perda de tempo, porque o coronel instalou o gato a seu lado e declarou com voz embargada:

- Podem me chamar de assassino, mas de ingrato nunca.

E aí, quando dona Carmen recolhia os badulaques para dormir no outro quarto, o Toríbio atingiu seu momento de glória. Olhou para ela e por pura desfaçatez se arrepiou todo e soprou o ar pelas ventas. (JOCKYMANN, Sérgio. Vila Velha, Porto Alegre : Editora Garatuja, 1975, p. 27)

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