quinta-feira, 28 de maio de 2026

CÉREBRO COOPTADO

Hélio Schwartsman

Duas características de nossas mentes facilitam a propagação do racismo. A primeira é o famoso "nós contra eles". A tendência a formar dicotomias entre grupos, favorecendo aquele ao qual pertencemos e demonstrando animosidade para com o outro nem sequer é exclusivamente humana. Ela já foi observada em outros primatas.

No caso de humanos, experimentos levados a cabo nos anos 70 por Henry Tajfel mostraram que não é preciso mais do que um critério arbitrário como preferir Klee a Kandinsky para fazer com que pessoas se dividam segundo esse parâmetro. E, uma vez divididas, passam automaticamente a cooperar mais com aqueles que partilham seu gosto pictórico, mesmo que jamais tenham visto seus rostos ou falado com eles.

O outro traço é ainda mais sombrio. Nossos cérebros, por alguma razão, são incrivelmente ligados na cor da pele. Basta exibir para alguém a foto de uma pessoa de outra raça por apenas 100 milissegundos, tempo insuficiente até para perceber conscientemente se uma imagem foi mesmo mostrada, e já será possível perceber, em exames de neuroimagem, a ativação da amídala, uma estrutura cerebral relacionada ao medo. Estudos também mostram que, quando vemos um vídeo de alguém sendo espetado por uma agulha, nossa resposta sensório-motora (que indica empatia) é menor quando a vítima pertence a outra raça.

A boa notícia é que nada disso é destino. Embora nossos cérebros apresentem características que podem ser recrutadas pelo racismo, temos também instrumentos para fugir disso. O principal é o córtex pré-frontal dorsolateral (dlCPF), que nos permite inibir conscientemente impulsos que brotam de partes mais primitivas de nossas mentes.

E nossos dlCPFs têm feito um bom trabalho, já que, em poucas décadas, passamos de um mundo em que o racismo era encorajado para um em que é energicamente rejeitado.

Fonte: Folha de S. Paulo
Todo objeto amado é o centro de um paraíso. (Georg Von Hardenberg, filósofo alemão)

LUGARES

MOSCOU - RÚSSIA

Esta imagem mostra a Estação Kievskaia da Linha Arbatsko-Pokrovskaia (Linha 3) do Metrô de Moscou, na Rússia. A estação foi inaugurada em 5 de abril de 1953.  É conhecida pela sua arquitetura ornamentada, incluindo murais, mosaicos e lustres luxuosos.  A estação possui status de patrimônio cultural na Rússia. Ela conecta com outras linhas do metrô e com a estação ferroviária de Kiev. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

QUE CIDADE GRANDE!

Fui titular da Comarca de Guaramirim por aproximadamente dois (2) anos. Guaramirim, seguindo o modelo das cidades de colonização alemã, nasceu e cresceu às margens do Rio Itapocú e da estrada geral que levava à Joinville. 

Assim concebida, a cidade não se concentrava ao redor da igreja, da praça e da prefeitura, como é a regra dos pequenos povoados. 

A rigor, não existe praça, a igreja fica num lado da cidade e a prefeitura, naquela época, ficava na posição que pode-se considerar como sendo o centro da cidade. Associado a isto há o fato de a cidade estar localizada num vale, onde praticamente não existem (ou não existiam) edificações nos montes próximos. 

Em tais condições, não era possível visualizar a cidade como um todo, retirando do observador a possibilidade de mensurar o tamanho do lugar. 

Em 1985 fui promovido para a Comarca de Xaxim, no oeste do Estado. Tomadas as providências de praxe e despachada a nossa mudança, pusemo-nos na estrada para o longo trajeto. 

A cidade de Xaxim estava toda edificada à esquerda da BR282, no sentido litoral-interior, e mesmo assim, ela não pode ser visualizada de longe, tudo por conta de o aglomerado estar encoberto por uma pequena elevação, contornada pela estrada, e ainda por estar abaixo do nível da rodovia. Visão da cidade, mesmo, só após contornar a montanha. Assim, de um momento para outro, a paisagem se transforma radicalmente e do alto é possível visualizar a cidade. 

Ao contrário de Guaramirim, tínhamos diante dos olhos uma cidade planejada, ruas pavimentadas e em linha reta, quarteirões regulares, enfim, via-se que ali existiu um projeto urbanístico. 

Na medida em que nos aproximávamos do nosso destino, eu ia falando para os meninos, a fim de criar neles a expectativa. Chegando ao ponto em que era possível ver a cidade, avisei:

- Chegamos! Todos olharam curiosos para o nosso novo destino e o Miguel, que já tinha incubado o vírus da arquitetura e urbanismo, comentou mais do que depressa:

- Que cidade grande!
O homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata a Natureza visível… sem perceber que a Natureza que ele mata é esse Deus invisível que ele adora. (Hubert Reeves)

LUGARES

ROTHENBURG OB DER TAUBER - ALEMANHA

Esta foto foi tirada na famosa praça Marktplatz (Praça do Mercado) na cidade medieval de Rothenburg ob der Tauber, na Alemanha. A cidade faz parte da "Rota Romântica", um circuito turístico muito popular no sul da Alemanha. Ao fundo, vê-se a prefeitura (Rathaus) e os típicos edifícios com estrutura de madeira (Fachwerkhaus). Rothenburg é conhecida por ser uma das poucas cidades alemãs que mantiveram suas muralhas medievais intactas. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

GAMBÁ COM GAMBÁ

Martha MedeirosMartha Medeiros

Que os opostos se atraem, não tenho dúvida, mas compensa essa teimosia? Semanas atrás, conversei com uma mulher inteligente, divertida, com mais de 60 anos e três casamentos nas costas. Ela me disse que até hoje sente falta do primeiro marido, com quem tinha afinidades infinitas e viveu uma relação sólida e longeva. Lamenta ter abandonado esse casamento para sair atrás de aventuras, pois, segundo ela, não adianta querer inventar:  Gambá gosta de gambá, elefante gosta de elefante, é assim que os pares funcionam.

Tenho visto muito gambá com coelho, gaivota com jacaré, urso com leopardo, e o resultado dessas parcerias é um misto de excitação com frustração. O diferente nos desafia, mas também nos cansa. É comum nos abrirmos para esse tipo de arranjo quando somos jovens e propensos a viver perigosamente, mas vamos combinar que, depois de tanta batalha para encontrar o amor ideal (supondo que ele exista), melhor encurtar o caminho e se contentar com o óbvio: girafa com girafa, morcego com morcego.

Acredito que alguém que gosta de ler pode se entender com aquele que não gosta, que quem acorda cedo pode se dar bem com quem dorme até o meio-dia, que quem é viciado em esportes pode se encantar por um sedentário – mas um desacordo por vez. Reunir todos esses antagonismos num único casal é provocar o destino. Não tem como ele sorrir para uma dupla de desajustados.

Eu já arranquei o adesivo “vive la diference” do vidro do meu carro. Agora quero seguir viagem com quem celebra as semelhanças.

Em se tratando de amigos, colegas, ídolos e outros que compõem o elenco das minhas relações, a diversidade de ideias e de gostos me atrai. Mas para dividir comigo o volante, intimamente, melhor evitar duelos. Que nós dois gostemos de estrada. Que nós dois gostemos de dormir à noite.

Que nós dois gostemos de sexo. Que nós dois tenhamos uma visão aberta da vida, sem posar de donos da verdade. Que nós dois gostemos de música boa. Que nós dois gostemos de ir ao cinema. Que nós dois não precisemos de muito luxo para ser feliz. Que nós dois gostemos de conversar um com o outro. Que nós dois gostemos de praia. Que nós dois gostemos de natureza.

Que nós dois gostemos de Londres. Que nós dois gostemos de rir. Que nós dois não sejamos preconceituosos. Que nós dois tenhamos consciência de que estamos aqui de passagem e que é preciso aproveitar esse instante. Que nós dois não sejamos carolas nem apegados à dor. Que nós dois sejamos cuidadosos um com o outro, amorosos um com o outro. Que nós dois sejamos honestos. Que nós dois saibamos fazer uso moderado das redes sociais. Que nós dois não sejamos reféns de grifes, mas tenhamos bom gosto. Que nós dois gostemos muito de vinho.

Gambá com gambá.

Fonte: Zero Hora
A burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor. (Roberto Campos, economista e político brasileiro)

LUGARES

BAGNO VIGNONI - ITÁLIA

Esta imagem mostra a Piazza delle Sorgenti no charmoso vilarejo de Bagno Vignoni, localizado na região da Toscana, na Itália. O centro da praça é ocupado por uma grande piscina retangular de águas termais, que já era utilizada pelos antigos romanos para fins terapêuticos. O local é famoso por suas termas, consideradas algumas das mais bonitas da Europa, e remonta sua configuração atual ao ano de 1500. Historicamente, a vila foi destino de férias e tratamentos para figuras notáveis como a Santa Catarina de Siena, o Papa Pio II e Lorenzo de' Medici. Embora admire-se a beleza da piscina central, atualmente não é permitido nadar nela; o banho é permitido apenas em piscinas naturais nas proximidades, como no Parco dei Mulini. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 25 de maio de 2026

POR QUE OS FILMES FICAM DE PÉ

Ruy Castro

Se você não aplicar a suspensão da descrença, todo o cinema é absurdo. Como seria Mia Farrow trocando as fraldas molhadas de seu bebê filho do Diabo?

Por vários motivos, andei escrevendo sobre Alfred Hitchcock nas últimas semanas e, ao falar de "Psicose", um leitor apontou algo que o incomodava no filme. Ele queria saber: quem cuidava do Motel Bates, ou seja, varria, espanava, passava o aspirador? Para ele, não era possível que Tony Perkins fizesse sozinho a faxina do motel e mais a da casa da colina onde ele morava com a mãe, ligeiramente inválida por estar morta. É uma dúvida razoável —se você não aplicar a todos os filmes a que assistir a "suspensão de descrença", princípio criado pelo poeta Coleridge em 1817.

Sem essa suspensão, nenhum filme ficará de pé. Em "Quanto Mais Quente Melhor" (1959), como Marilyn Monroe pode não perceber que Jack Lemmon, disfarçado de mulher e espremido contra ela num beliche, é na verdade um homem? Em "West Side Story" (1961), Natalie Wood e Richard Beymer namoram aos sussurros na escada de incêndio para não acordar os pais dela e, de repente, desatam a cantar como na ópera. E, em "O Rei dos Reis" (1961), ao ver o Cristo vivido por Jeffrey Hunter pendurado na cruz de braços abertos, como não reparar em suas axilas perfeitamente depiladas? Era uma imposição de Hollywood, mas não parecia estranho um Cristo de sovacos tão glabros?

Em "O Bebê de Rosemary" (1968), o filme termina com Mia Farrow dando à luz o filho do Diabo. Como seria se a história continuasse? Ela amamentaria o bebê demoníaco? Teria de trocar-lhe as fraldas molhadas? Levá-lo-ia a passear de carrinho na praça? E, em "O Pecado Mora ao Lado" (1955), a mesma Marilyn se refresca com o vento que sai do buraco do metrô e levanta suas saias. Mas, pelo menos em Nova York, o vento do metrô é um bafo quente, que poderia até cozinhar suas intimidades.

Quem resumiu tudo foi o diretor John Ford. Quando lhe perguntaram por que, na infernal sequência da perseguição à diligência no deserto, em "No Tempo das Diligências" (1939), os índios não atiravam nos cavalos, Ford foi direto:

"Porque, se eles fizessem isso, o filme acabava."

Fonte: Folha de S.Paulo - 15.nov.2025
Integridade é a essência de todo negócio. (Richard Fuller, escritor americano)

LUGARES

GIBRALTAR - INGLATERRA

Esta imagem retrata o Rochedo de Gibraltar. É um território britânico ultramarino situado na ponta sul da Península Ibérica, fazendo fronteira com a Espanha. Características: O monumento natural é um maciço de calcário que atinge 426 metros de altitude. Curiosidade: A área plana visível à esquerda na imagem é parte da pista de pouso do Aeroporto de Gibraltar. (Google)

FRASES ILUSTRADAS


domingo, 24 de maio de 2026

LIVROS

Liberdade ou Morte - Nikos Kazantzakis

Nikos Kazantzakis ficou mais conhecido por Zorba, o grego, que deu origem ao filme e ao tema musical que ficaram na história; ou então pelo livro que deu origem ao famoso filme de Scorcese, A Ultima Tentação de Cristo.

Escrito em 1950, este livro retrata a revolta contra o domínio turco por parte do povo da ilha de Creta, onde Kazantzakis viveu na infância. O personagem principal, o capitão Micael (diz-se) retrata o próprio pai do escritor, o que nos dá uma certa explicação para a escrita dura e brutal de Kazantzakis. Na verdade, o estilo é duro, impiedoso como o personagem.

Aparentemente, descreve-se uma luta heroica de um povo e de um homem contra uma dominação tirânica. No entanto, digo"aparentemente" porque, ao mesmo tempo, esta descrição é feita quase à maneira de uma caricatura; ao longo do livro o leitor hesita: será isto uma paródia da revolução ou um elogio dessa mesma revolução? Talvez a verdade se encontre a meio caminho entre a sátira e o elogio da revolta. O capitão Micael representa o sacrifício da própria vida perante a luta contra uma tirania odiosa, exercida pelos turcos.

A aldeia (Cândia) onde se desenrola a ação está dividida entre cristãos e islamitas que convivem pacificamente até que as autoridades turcas decidem aumentar a repressão sobre a população cristã, nos finais do século XIX. É nesse contexto que alguns cristãos pegam em armas e as atrocidades multiplicam-se. A luta religiosa, o ódio em nome de Deus toma as rédeas da narrativa até se atingir uma espécie de climax quando o leitor percebe que a luta já devorou por completo a individualidade dos personagens. Chega-se a um ponto em que eles já não têm vida própria; tudo se desenrola em função da luta: ódio, repressão e vingança.

Um dos pormenores que melhor marca este caminhar para o absurdo é a forma como Kazantzakis nos descreve as crianças: todas as brincadeiras são marcadas pela luta e a mentalidade infantil é totalmente dominada pelo ódio; o comportamento das crianças torna-se absolutamente cruel,violento, mesmo nas brincadeiras mais pueris, até que também elas vejam a suavida totalmente preenchida pela luta.

Outro aspeto interessante é a maneira como Kazantzakis nos apresenta a fé deste povo cristão, uma fé também ela dominada pelo ódio, por um lado, e pelo absurdo por outro. Por exemplo: Barbaianis, cristão, viúvo infeliz, bêbado e pobre, vê S. Minas (o patrono da aldeia) sair do altar para vigiar e proteger a aldeia, em rondas noturnas. Além dos cães, só ele e o louco Efendinho o conseguem ver.

Este pormenor marca a transição da narrativa para a caricatura. Paulatinamente, o leitor vai-se apercebendo que o autor vê a luta como uma espécie de insanidade; as pessoas recusam-se a viver a não ser para aluta. Tudo gira em função disso. Perde-se a personalidade e todo o sentido da existência. A humanidade traída pela estupidez da luta. A religião como elemento de discórdia e de ódio.

O aspeto mais fascinante deste livro é precisamente a forma como o autor soube, magistralmente, mesclar o horrível com o caricato; o dramático com o humorístico. Se bem que se trate de uma obra extensa, não deixa de ser uma leitura agradável e mesmo divertida.

Uma boa surpresa, em suma, este grego Nikos Kazantzakis.

Fonte: amazom.com.br
Por mais elevado que seja o posto, aquele que o ocupa deve se mostrar ainda mais elevado. (Boris Vian, músico e escritor francês).

LUGARES

SEGÓVIA - ESPANHA

Esta é uma foto do Alcázar de Segóvia, um palácio fortificado localizado na Espanha. situado sobre um penhasco rochoso na confluência dos rios Eresma e Clamores. Teve origens em uma fortificação islâmica e serviu como palácio real, prisão de estado e academia militar. Diz-se que este castelo inspirou Walt Disney para a criação do Castelo da Bela Adormecida. Faz parte da cidade velha de Segóvia, que é reconhecida como Patrimônio da Humanidade. 

FRASES ILUSTRADAS

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