Na Schützenfest de Jaraguá do Sul, aquela prima germânica da Oktoberfest de Blumenau, tudo parecia seguir o roteiro conhecido: música alta, calor respeitável, trajes típicos disputando espaço com sorrisos avermelhados pelo chope, e o salão principal ladeado de camarotes no alto, como uma galeria onde se via e se era visto. Um grupo de amigos, fiéis à tradição e ao contrato, alugava sempre o mesmo camarote por todo o período da festa. Tinha acesso confortável, banheiro por perto e um corredor externo providencial para esfriar a cabeça, aliviar os ouvidos e, com sorte, recuperar a noção de tempo.
O inconveniente vinha disfarçado de tentação: a cisterna etílica — leia-se barril de chope — ficava colada à porta do camarote. Bastava um descuido e lá vinham eles, os menudos de copo vazio e olhar treinado, que fingiam admirar a arquitetura enquanto, sub-repticiamente, “furavam” o chope alheio. Foi aí que o Airton entrou em cena. Alto, forte, campeão de judô, trajado como mandava o figurino. Postava-se à porta com a serenidade de um monge e a prontidão de um segurança. Ao flagrar o furador em ação, não gritava nem reclamava: abraçava. E beijava. Beijava com entusiasmo, na face do incauto, usando lábios estrategicamente umedecidos por algum tempero generoso dos comes da noite — mostarda, talvez, ou algo com alho suficiente para marcar memória.
A cena virou atração paralela. Os locatários e familiares aguardavam o próximo “cliente” como quem espera o refrão da música. O corredor, antes rota de fuga térmica, transformou-se em palco. Em pouco tempo, a fama correu mais rápido que o chope: quem se aventurava a furar barril saía com lembrança afetiva demais para contar aos amigos. Resultado? Os neo-bebuns foram rareando, o chope passou a durar mais e o Airton ganhou um título honorário que ninguém ousou contestar: guardião do barril e distribuidor oficial de beijos pedagógicos. Na Schützenfest, afinal, aprende-se que toda festa tem regras — e algumas lições vêm com tempero.
Martha Medeiros

