quinta-feira, 26 de março de 2026

CRIME ELETRÔNICO

Carlos Heitor Cony

O combate à violência é uma necessidade geral, não apenas no Brasil, mas no resto mundo. Os meios de que a sociedade dispõe nesta luta crescente e sem fim, são esquálidos e revelam-se impotentes para deter ou diminuir a onda de crimes que devasta a sociedade e ameaça cada um de nós.

Em linhas gerais, pode-se dizer que os meios de defesa crescem em progressão aritmética e os recursos da violência crescem em progressão geométrica. Um desses meios, que não inclui seqüestros, estupros, saques, arrastões e balas perdidas, é fornecido pela conquista da mais sofisticada e útil conquista da tecnologia: a internet.

Não é mole o que corre de violento e de boçal no correio eletrônico. Sem poupar a verdade, a honra alheia, a decência mínima que todo o cidadão deve cultivar, a internet está servindo como cloaca de ressentimentos, inveja, calúnias, impotência existencial, fracassos profissionais, constituindo-se numa mídia clandestina e irresponsável, onde vale tudo.

Bem sei que o assunto preocupa os responsáveis pela decência do novo e mais instantâneo meio de comunicação do mundo moderno. Mas torna-se cada vez mais difícil localizar e punir os criminosos eletrônicos. Houve o caso daquele rapaz, acho que das Filipinas, que deu um rombo no banco inglês onde a própria Rainha tinha conta. Foi identificado.

Recentemente, um hacker que caluniou o presidente da República parece que foi também localizado. São exceções, ainda.

Prevalece a impunidade, que estimula o crime em quantidade e malefício.

Os benefícios da internet são óbvios, numerosos e cada vez mais indispensáveis à vida moderna. Mas há que se encontrar um meio de impedir que a poderosa arma seja usada contra a sociedade civilizada que desejamos ser.

Fonte: Folha de S.Paulo - 18/01/2005

Amigo é um irmão que a gente escolhe. (Autor desconhecido)

LUGARES

VILLEFRANCHE-SUR-MER - FRANÇA

Villefranche-sur-Mer é uma charmosa vila costeira na Riviera Francesa, situada entre Nice e Mônaco. Conhecida por sua baía profunda, casas em tons pastel, ruelas medievais e a icônica Capela Saint-Pierre decorada por Jean Cocteau. É um destino popular para banhistas na Plage des Marinières e um porto de escala para iates e navios de cruzeiro. (Wikipédia)

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 25 de março de 2026

GLAUBER OU FELLINI?

Percorremos as diversas dependências do Castello Sforzesco, em Milão. Estava no programa que próximo ponto a visitar era a majestosa catedral da cidade.  

Na saída, enquanto aguardávamos a chegada de todos os companheiros de viagem, fui fazendo alguns registros fotográficos com uma filmadora Sony, que também fotografa. 

Caminhando em direção a um chafariz, cruzei com dois jovens casais. Passaram por mim com aquele ar típico de quem já visitou três países em cinco dias e agora se sente autoridade em estética renascentista. Seguiram adiante. E eu segui filmando.

Mas não segui ileso.

Logo após cruzarem por mim, ecoou uma voz em tom de deboche, suficientemente alta para cumprir sua missão:

— Aí vai mais um Fellini.

O comentário, claro, referia-se ao lendário Federico Fellini — talvez pela minha concentração artística, talvez pelo simples fato de eu estar parado olhando para um castelo com seriedade suspeita.

Detalhe: eram brasileiros.

Continuei a gravação com a dignidade de quem já foi comparado a um gênio do cinema europeu (ainda que em tom de chacota). Finalizei a cena. Respirei. Ajustei o enquadramento da alma.

E então, projetando a voz com precisão diplomática, declarei:

— Melhor seria o Glauber Rocha!

Referia-me, evidentemente, ao nosso incendiário Glauber Rocha — porque se é para ser cineasta imaginário, que seja com tropicalismo, câmera na mão e uma ideia na cabeça.

O silêncio que se seguiu foi digno de plano-sequência. Imagino que naquele instante os jovens casais tenham experimentado uma súbita epifania geopolítica: o mundo é grande, mas o idioma português tem surpreendente alcance internacional.

Talvez tenham aprendido que, onde quer que você esteja — em Milão, em Marte ou na fila do pão — sempre existe a possibilidade concreta de encontrar brasileiros, ou alguém que compreenda perfeitamente o que você diz.

E, quem sabe, responda com um upgrade cinematográfico. (apoiado com IA)
Um irmão pode não ser um amigo, mas um amigo será sempre um irmão. (Demétrio)

LUGARES

BASSANO DEL GRAPPA - ITÁLIA

A imagem mostra a Chiesa di San Francesco, localizada em Bassano del Grappa, Itália. É um local histórico conhecido por sua arquitetura e beleza na região de Vêneto. Bassano del Grappa é famosa por sua ponte histórica e pela produção de grappa.

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 24 de março de 2026

VOCÊ, EU E NOSSOS AMIGOS

Martha MedeirosMartha Medeiros

Antes da era tecnológica, a gente via os amigos de vez em quando, em encontros eventuais. Agora, eles estão na palma da mão. Sabemos tudo o que eles pensam e o que fazem, as informações são atualizadas em minutos, e o resultado disso? Fé na humanidade. 

Se depender de você, de mim e de nossos 3.768 amigos, ou 7.543, ou 21.544 (quantos amigos você tem?), o mundo está salvo. Porque, veja bem: somos todos bons. Somos todos justos. Somos todos inteligentes. Somos todos amorosos. Somos todos honestos. Escândalos políticos não têm nada a ver com a gente: somos todos críticos, atentos, lúcidos. E estamos todos estupefatos, lógico. Acreditávamos que a sociedade era íntegra, já que somos todos íntegros.

Todos nós amamos os animais, adotamos cachorros de rua, gatos abandonados, porquinhos-da-índia. Cuidamos deles, nos importamos com eles, temos por eles um amor que se equipara ao amor que sentimos por nossos filhos. Ah, nossos filhos. Somos todos pais espetaculares de filhos que não se drogam, não bebem, não são jovens indiferentes, não são preguiçosos, não são acomodados, não estão perdidos, não são sedentários. Foram crianças excepcionais e não poderia dar noutra coisa: hoje são adultos incríveis. É de família. Bênção do DNA.

Somos todos ecologistas, amantes da natureza, adoradores de crepúsculos, mares, florestas. Não pisamos na grama, não poluímos os rios, não jogamos bituca de cigarro no chão, somos a favor da energia eólica e solar, reverentes às flores, às montanhas, às cachoeiras, às árvores. Tudo documentado em fotos, milhares delas.

Somos a favor dos refugiados, das empregadas domésticas, dos gordos, dos gays, dos pobres, das mulheres, das crianças, dos negros, dos chineses, dos sírios, dos mendigos, dos feios, dos albinos, dos haitianos, dos anões, dos favelados, dos nudistas e demais minorias – minoria é gente à beça.

Somos todos conscientes e defendemos os direitos humanos. Somos todos bem-amados, bem-humorados, temos bom gosto. Todos nós respeitamos as regras de trânsito. E o nosso time só perdeu porque o juiz roubou.

Não temos religião, mas somos espiritualizados. Não fazemos parte de nenhuma ONG, mas vestimos a camiseta. Dirigimos carros, mas damos a maior força para as ciclovias. Não somos vaidosos, apenas usamos nossa imagem a fim de enaltecer boas ideias e intenções. Estamos a serviço de um mundo melhor. Somos todos messias. Todos gurus.

E todos nós votamos corretamente nas últimas eleições.

O inferno são os outros. Jamais você, eu e nossos amigos. Os 3.768, os 7.543, os 21.544 que estão conectados, que vivem na bolha da autorreverência e não possuem defeitos, a não ser este, que é meio suspeito: o de não ter defeito algum.

Fonte: Zero Hora
Se você pensa que cachorro não sabe contar, coloque três biscoitos de cachorro em seu bolso e lhe dê apenas dois. (Phil Pastoret)

LUGARES

ANNECY - FRANÇA

Annecy é uma cidade alpina no sudeste da França, onde o Lago Annecy deságua no rio Thiou. Ela é conhecida por sua cidade velha (Vieille Ville), com ruas pavimentadas com pedras arredondadas, canais sinuosos e casas em tons pastel. Com vista para a cidade, o castelo medieval de Annecy, antiga casa dos condes de Genebra, abriga um museu com artigos regionais, como móveis alpinos e arte sacra, além de uma exposição de história natural. ― Google

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 23 de março de 2026

O MAIS INESPERADO FÃ DOS BEATLES

 Ruy Castro

Paul McCartney inspirou-se em Bernard Herrmann para fazer Eleanor Rigby E quem diria que o respeitadíssimo Herrmann foi um dos primeiros a descobrir os Beatles?

Você sempre ouviu dizer que o arranjo para "Eleanor Rigby", dos Beatles (faixa 2 do lado A do álbum "Revolver", de 1966), lembrava o respeitadíssimo compositor americano Bernard Herrmann, autor da música para os filmes de Alfred Hitchcock, não? Falou-se muito disso naquele ano. Pela primeira vez, um grupo de rock se atrevia a enriquecer suas guitarras com um naipe de cordas —quatro violinos, duas violas, dois cellos—, fazendo um contraponto dramático às vozes de Paul McCartney e John Lennon sobre a mulher triste e abandonada que morre numa igreja anônima e ninguém vai a seu enterro.

Mas não é que as cordas de "Eleanor Rigby" lembrassem Bernard Herrmann. George Martin, produtor dos Beatles, revelou que, por ideia de Paul, elas foram inspiradas de propósito na cortante música de Herrmann para "Psicose" (1960). (Para mim, não inspiradas, mas uma citação nota por nota.) O fato é que, dali, os Beatles, já vistos como uma exceção num gênero para menores de 13 anos, partiram para a revolução de "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band" e foram descobertos pelos adultos.

Até aí, nada de mais. O surpreendente foi ler no livro "Hitchcock & Herrmann", de Steven C. Smith, de que falei aqui no domingo (26), que Bernard Herrmann, a trabalho em Liverpool em 1961, fora levado a um clube, The Cavern, conhecera um quarteto de rock chamado The Beatles e se empolgara com o que ouvira. De volta a Hollywood, tocou para seus colegas dos estúdios um demo que ganhara deles, contendo a batidíssima "When The Saints Go Marchin’ In", e exclamava: "Veja que modulação! É digna de Beethoven!". Acharam que ele ficara lelé.

Pois Herrmann até levou o demo à CBS e a outras gravadoras, em vão. "Todas riram de mim", disse. "Poderiam ter contratado os Beatles por quase nada. Mas nenhuma se interessou".

Em 1966, o admirado Herrmann ficou maldito nos estúdios porque se recusava a escrever canções de sucesso para os filmes que musicava. Já os Beatles não tinham escolha —tudo que faziam era sucesso.

Fonte: Folha de S.Paulo - 1º/11/2025

A viagem mais importante que podemos fazer na vida é encontrar pessoas pelo caminho. (Autor desconhecido)

LUGARES

PARMA - ITÁLIA

A imagem mostra a Igreja de São Pedro (San Pietro), localizada na Piazza Giuseppe Garibaldi em Parma, Itália. A fachada da igreja foi projetada pelo arquiteto Ennemond Petitot em 1762. Esta praça é o centro histórico da cidade de Parma. O interior da igreja apresenta uma nave única e uma cúpula afrescada por Giovanni Antonio Vezzani no século XVIII. A Piazza Giuseppe Garibaldi também abriga a estátua de Garibaldi e é um ponto de partida para explorar as ruas medievais da cidade. (Google)

LUGARES

LAUSANNE - SUÍÇA

A imagem mostra o hotel Beau-Rivage Palace em Lausanne, na Suíça. O hotel foi inaugurado em 1861 e é um exemplo da arquitetura Belle Époque. Está localizado às margens do Lago Genebra, oferecendo vistas panorâmicas da água e dos Alpes franceses. A propriedade é famosa por receber chefes de estado e celebridades internacionais. O local é conhecido por seus jardins paisagísticos e um spa de alto nível. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 22 de março de 2026

LIVROS

O Cemitério de Praga - Umberto Eco

Um romance histórico interessantíssimo. Nem outra coisa seria de esperar de um mestre como Umberto Eco.

O pano de fundo é dado pelas intrincadas intrigas políticas na nascente Itália e na velha França, no século XIX. Na península italiana, Garibaldi e Mazzini colocavam os reinos italianos a ferro e fogo. No entanto, as diversas facções digladiavam-se continuamente, com o Vaticano e a França sempre de permeio. Tal “embrulhada” de interesses e forças era terreno fértil para intrigas e jogos de poder onde reinavam os espiões e interesseiros como Simonini, o herói, ou melhor, o anti-herói deste livro.

Simonini é perverso, perigoso, traiçoeiro. Mas é também um pouco estúpido. Esta é a grande lição da obra: um homem pouco inteligente mas tremendamente perverso e impiedoso pode pôr em risco toda uma nação.

Umas vezes ao serviço de Garibaldi, outras de Mazzini, dos piemonteses, dos franceses, dos austríacos ou até dos russos, Simonini tem apenas um princípio do qual nunca prescinde: um ódio profundo, mortal, aos judeus. Simonini é um personagem suficientemente perverso para que todos os leitores nutram por ele um sentimento de revolta a roçar o mesmo ódio que ele sente por todos, bem expresso nesta afirmação de um personagem com quem Simonini negoceia: “O ódio é a verdadeira paixão primordial - o ódio une os povos, desperta a esperança nos miseráveis e solidifica o poder instituído – seja o ódio aos judeus, aos maçons, aos estrangeiros…” (pág. 432).

Ao mesmo tempo, este livro demonstra como a história pode ser forjada por interesses mais ou menos obscuros: Simonini, o espião ao serviço de quem lhe paga mais, especializa-se em forjar documentos. E mesmo aqueles que sabem tratar-se de documentos falsos, agem como se fossem verdadeiros. A História, muitas vezes é construída apenas por falsários.

Um outro aspecto interessante deste livro é o facto de Simonini ser praticamente o único personagem ficcional. Freud e Garibaldi são apenas dois dos mais conhecidos intervenientes na narrativa. Outros são verdadeiros trapaceiros com existência histórica comprovada que Eco estudou afincadamente.

Trata-se portanto de um livro cheio de emoção onde é possível “ver” nas suas páginas grande parte da realidade política de uma Europa muito conturbada, nos finais do século, anunciando já a Primeira Guerra Mundial que marcaria o início do século XX. Nascia a Itália, mas aprofundavam-se as guerras de bastidores entre austríacos, franceses russos e ingleses.

Fonte: https://aminhaestante.blogspot.com/2011/08/o-cemiterio-de-praga-umberto-eco.html
O que mais impede de ter um bom amigo é o empenho em ter muitos. A amizade quer ser antiga. (Plutarco)