quinta-feira, 23 de abril de 2026

BLOCO DO EU SOZINHO

Carlos Heitor Cony

Um amigo andou fazendo uns cálculos que nunca me passaram pela cabeça. Pegou o meu habeas-data fornecido pelo Dops, a tabela dos salários do pessoal da polícia e de outros órgãos que se dedicaram à repressão no período de 64 a 73.

Levantou a carga horária que foi cumprida pelos funcionários da Viúva nos 12 IPMs que respondi, nas seis prisões em que me trancafiaram, nos deslocamentos aéreos e terrestres, nos agentes que seguiam meus passos aqui e no exterior, na administração burocrática de toda essa gente. Obteve um resultado que me espantou: em moeda corrigida, dava R$ 1.548, 630.

Fui o primeiro a estranhar a quantia calculada pela Comissão de Anistia com que o Estado, conhecido também como "A Viúva", me indenizaria. Pensava que era muito. E não entendi bem, apesar de meu advogado ter explicado a lei votada no Congresso sobre o assunto. Fiquei sabendo que deveria ganhar mais do que pretendem me dar.

Ao me habilitar para a indenização legal que a Viúva me deve, o advogado apresentou documentos ( livros, sentenças, fotos, recorte de jornais da época) provando que perdera empregos, vivera fora do país, tivera a casa depredada, passara 23 anos sem condições de escrever meus livros, a carreira de escritor interrompida, enfim, o diabo que a Viúva fez comigo e com milhares de brasileiros, muitos dos quais foram mortos e torturados.

Minha mãe morreu em 1973, amargurada com a situação que o filho atravessava. Minhas filhas foram ameaçadas de seqüestro e estupro, no próprio colégio em que estudavam. E meu crime fora apenas o de opinião, expressa em jornal. Nunca pegara em armas nem participara de nenhum movimento coletivo. Fui e ainda sou do bloco "Eu sozinho".

Fonte: Folha de S.Paulo - 07/12/2004
Sirvo-me dos animais para instruir os homens. (Jean de La Fontaine, Poeta francês, 1621-1695)

LUGARES

NAZARÉ - PORTUGAL

A imagem mostra uma vista aérea da vila costeira de Nazaré, em Portugal, famosa pelas suas ondas gigantes e tradições de pesca. Nazaré, Região do Centro, Portugal. A área é conhecida pela Praia da Nazaré e praias próximas como a Praia do Norte. A região oferece oportunidades para caminhadas, windsurf e visita a pontos turísticos como o Forte de São Miguel. (Google)

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

O ÚLTIMO PERDIGUEIRO E O MILAGRE DAS BOTAS

Diferente de outros taxidermistas que buscavam o porte da cabeça ou o brilho dos olhos de vidro, Tibúrcio guardava apenas as orelhas.  

"O instinto do cão não mora no focinho, nem no rabo", sentenciava ele, entre um gole de mate e uma mentira deslavada. "O tino da caça, a vibração da ave levantando voo... tudo isso se manifesta é na cartilagem da orelha. É ali que o som vira cheiro." 

Com o tempo, ele acumulou um estoque respeitável de orelhas curtidas. Para não deixar tal "energia" desperdiçada, encomendou a um sapateiro de confiança um par de botas de cano alto, forradas inteiramente com o couro dessas orelhas.

Certo outono, o destino lhe pregou uma peça. Seu último e melhor perdigueiro, o "Vendaval", foi picado por uma cruzeira e não resistiu. Tibúrcio, com o pragmatismo de quem já vira muito a morte, colheu as orelhas do amigo e seguiu para o campo sozinho, calçando suas famosas botas.

O campo estava silencioso, mas a mágica aconteceu:

A Comichão: De repente, Tibúrcio sentiu um formigamento nas panturrilhas, um movimento involuntário que subia pelos tornozelos.

As botas pareciam ganhar vida própria, puxando sua perna esquerda para o lado.

O Resultado: Mal ele firmava o pé, de uma moita de capim-annoni, saltava uma perdiz gorda, batendo asas com aquele barulho seco que é música para o caçador.

"É o instinto, vivinho da silva!", exclamava ele no bolicho da vila, batendo com o cano da bota na mesa de madeira. "As orelhas dos falecidos agora farejam por mim. Se eu descuido, a bota direita sai correndo atrás de lebre e me deixa plantado de um pé só!"

O Respeito ao Mito

Os amigos ouviam em silêncio sepulcral. Olhavam para as botas — um tanto quanto macabras, é verdade, com remendos de couro de tons diferentes — e depois para a expressão feroz e convicta de Tibúrcio.

Ninguém ousava rir. Fosse pela provecta idade do velho mecânico, ou pelo receio de que ele, num acesso de fúria, usasse o "instinto" daquelas botas para lhes desferir um coice certeiro, todos assentiam.

— "É coisa de ciência, Tibúrcio", diziam alguns, enquanto desviavam o olhar.

E assim, o velho caçador seguia pelos campos gaúchos, guiado pelos fantasmas de seus cães que, costurados ao couro, ainda buscavam o voo das perdizes sob o sol do meio-dia. 
Condenar a televisão seria tão ridículo como excomungar a eletricidade ou a teoria da gravidade. (Federico Fellini, cineasta italiano)

LUGARES

ESTOCOLMO - SUÉCIA

O Museu Nacional de Belas-Artes (em sueco: Nationalmuseum) é um dos mais importantes museus de arte da Suécia. Localizado em Estocolmo, a capital do país, este museu alberga impressionantes colecções de arte europeia.

Histórico

As coleções do Museu Nacional começaram a ser formadas no século XVI pelo rei Gustavo I Vasa no Castelo Gripsholm e em outras residências reais, sendo ampliadas por doações, aquisições e espólios de guerra quando a Suécia era uma potência militar no século XVII. Contudo, parte da coleção, especialmente pinturas renascentistas, foi levada para Roma quando a Rainha Cristina abdicou e fixou residência na Itália. Outras perdas significativas aconteceram em 1697, quando um incêndio destruiu parte do Castelo Tre Kronor.

Alexander Roslin: Retrato de Gustavo III
Ao longo do tempo dois patronos foram especialmente importantes para a construção do notável acervo de arte que hoje é preservado no Museu Nacional: Carl Gustaf Tessin, embaixador da Suécia na França na década de 1740, que adquiriu numerosa coleção de grande qualidade, e o rei Gustavo III, que além de ser um grande colecionador ordenou a doação das suas obras privadas ao estado após sua morte, que formaram o primeiro Museu Real em 1792. Quando as coleções passaram para um novo prédio em 1866, a sede atual, um edifício imponente com traços da arquitectura florentina e veneziana renascentista, o museu mudou sua denominação para Museu Nacional.

O museu, actualmente, conta com mais de um milhão peças entre desenhos, esculturas, gravuras e pinturas, uma enorme e riquíssima colecção de porcelanas, com especial destaque para as porcelanas chinesas, e uma óptima colecção de arte moderna. Para além disso o Museu Nacional alberga uma boa biblioteca de arte.

Fonte: Wikipédia

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terça-feira, 21 de abril de 2026

HOMENS E MULHERES: POR QUE ISSO NUNCA VAI DAR CERTO

Martha MedeirosMartha Medeiros

Amada, não se apavore com esta mensagem, apenas preste atenção. Sofri um acidente. Silvia me trouxe para o hospital. Vou entrar em cirurgia daqui a pouco, os médicos estão apenas esperando o resultado de alguns exames. Fui atropelado por uma moto. Sofri alguns cortes profundos nas costas e meu joelho está destroçado. Dói muito, mas estou tentando ser forte. O sangramento já foi contido. Por favor, venha assim que puder, estou no setor de emergência do Hospital Nossa Senhora da Purificação, entrada pelos fundos.

O atropelador fugiu, mas duas testemunhas se apresentaram para prestar depoimento. Há uma capela aqui, reze pelo seu marido. Traga a carteirinha do convênio. O celular está comigo, como você pode perceber. Avise o pessoal do escritório. Não demore. Amo você.”

“Quem é Silvia?”

Querido Ricardo, não adianta falar pessoalmente porque você não me escuta, então resolvi mandar essa mensagem pelo Face, onde fico mais à vontade para me abrir. Depois do que aconteceu na terça-feira, eu refleti muito e concluí que você não está levando em consideração tudo o que faço para salvar nosso namoro: me dedico à sua família, à sua casa, aos seus amigos, isso sem me descuidar um minuto da nossa relação.

Sempre fui solícita aos problemas de todos, enquanto que você não presta atenção em nada relacionado a mim, sempre focado na sua cerveja, no seu time e nas necessidades imediatas do seu dia a dia, nunca atento ao que realmente interessa e sem perceber como me deixa sobrecarregada. Custa você ser mais participativo?

Claro que custa, você só tem olhos para o próprio umbigo. Provavelmente se considera um eleito que nada precisa fazer a não ser existir, e os outros que se encarreguem dos problemas. Cansei, Ricardo. Essa mensagem é para dizer que estou indo embora. Terminamos aqui. Vou em busca de alguém que divida comigo as preocupações e os prazeres, que queira investir em mim, em um futuro partilhado, que deseje filhos e um teto em comum. Você só me enrola e já percebi que jamais irá dizer o que desejo escutar. Estou destruída, mas vou me reerguer. Nem perca seu tempo me procurando, não mudarei de ideia, não importa o que você diga.”

“O que aconteceu na terça-feira?”

Fonte: Zero Hora
Um cavalheiro nunca espanca uma mulher antes de ter sido provocado. (Henri Louis Mencken, jornalista americano, 1880-1956)

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ABADIA DE JUMIÈGES - FRANÇA

A imagem mostra as ruínas da Abadia de Jumièges, localizada na Normandia, França. Fundada no século VII, é conhecida como uma das ruínas mais belas da França. Suas torres românicas normandas chegam a aproximadamente cinquenta metros de altura. O local funcionou como um mosteiro beneditino até ser destruído durante a Revolução Francesa.  Atualmente, é um ponto turístico popular na região do vale do Sena. ( Google)

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segunda-feira, 20 de abril de 2026

CRAVEI, MAS NÃO FOQUEI

Ruy Castro

Bater o martelo, cravar, escancarar. Qual é o seu novo clichê favorito? Frases e expressões que se formam sozinhas na nossa boca sem passar antes pelo cérebro

Há pouco, chamei a atenção aqui para a incidência de batidas de martelo no nosso dia a dia. Qualquer decisão, certeza ou afirmação mais peremptória a que chegamos, lá vem o indefectível "Já bati o martelo!". Como quem diz: "É isso aí, não tem conversa!". Nos jornais, o mesmo: "Júri bate martelo sobre melhor sardinha em lata". Pela frequência com que se bate hoje o martelo a respeito de qualquer coisa, imagine a cacofonia. Por sorte, bater o martelo é apenas uma expressão, uma tomada de liberdade da língua. O que não a impede de ser um clichê, algo que falamos sem pensar, frase que se forma sozinha na boca, sem passar antes pelo cérebro.

Outro verbo que não demora a chegar à boca do povo, pela insistência com que é usado nos sites e veículos impressos, é "cravar". Estão cravando tudo: "Vidente crava quem vai ganhar a Libertadores"; "Meteorologia crava chuva no feriado"; "Analistas cravam Papuda como novo endereço de Bolsonaro". Cravar é penetrar à força, fincar, pregar cravos. Cristo, por exemplo, foi cravado na cruz. Já cravar um palpite é fácil —se for um palpite errado, o sujeito não será crucificado por isso.

E temos também "escancarar". Ninguém mais revela, admite, confessa ou confirma qualquer coisa —escancara. Escancarar, que é abrir, mostrar, exibir, até há pouco só era possível com portas, principalmente se estivessem fechadas. Hoje escancaram-se até portas abertas: "Nutricionistas escancaram sua admiração pela banana". E há escancaras surpreendentes: "Influenciadora escancara preferência por homens sinceros e desinteressados".

E o que dizer de "disparar"? Até algum tempo só se disparavam balas. Hoje, disparam-se insultos, ofensas, imprecações. Assim como ninguém mais vê, prevê ou fica atento a alguma coisa. Em vez disso, "mira", como no tiro ao alvo do mafuá. E será preciso falar de "focar"? Eu não foco, porque acho esse verbo ridículo, mas o país inteiro, freneticamente fricativo, foca sem parar ao meu redor.

Pronto, bati o martelo. Cravei.

Fonte: Folha de S.Paulo - 08/11/2025
John Kennedy foi um dos homens mais charmosos que conheci. E também um dos piores presidentes. (Gore Vidal)

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CAUDEBEC-EN-CAUX

A imagem mostra a Igreja de Notre-Dame em Caudebec-en-Caux, localizada na Normandia, França. Esta igreja é um exemplo notável da arquitetura gótica extravagante, construída principalmente entre os séculos XV e XVI. É famosa pelo seu campanário vazado e esculturas detalhadas em pedra na fachada. A cidade de Caudebec-en-Caux, onde a igreja se encontra, é conhecida pelas suas ruas medievais e vistas para o rio Sena. A construção combina elementos de diferentes fases arquitetônicas, desde o românico até ao gótico tardio. (Google)

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domingo, 19 de abril de 2026

LIVROS

Por Manuel Cardoso
Sinopse:

O enredo desenvolve-se numa aldeia do norte do Moçambique, onde se vive uma pobreza absoluta. Trata-se de uma das regiões mais pobres de África. Aí vive uma comunidade atacada pelos Leões. A jovem Mariamar e o caçador Arcanjo Baleiro são os personagens principais.

Um acontecimento real – as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique – é pretexto para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas.

A Confissão da Leoa é bem um romance à altura de Terra Sonâmbula e Jesusalém, já conhecidos do leitor português.

Comentário:

A relação entre o homem e o mundo natural, as tradições nativas bem como o papel da mulher na comunidade africana são os temas que Mia Couto transporta para esta bela estória de ficção, onde se fala de uma mulher que é um monumento à alma africana: Mariamar.

Logo a primeira página deixa-nos extasiado com a poesia a que este autor já nos habituou: “Deus já foi mulher” é a frase de abertura do livro. Depois: “Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. (…) Todos sabemos, por exemplo, que o Céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada.”

A linguagem poética de Mia Couto é, de facto, avassaladora e até os nomes dos personagens são reveladores: Arcanjo, por exemplo, é o nome do matador. Ou melhor, do caçador, porque caçar não é matar; é participar da natureza.

A mão de Mariamar (Anifa Assula) diz que a aldeia é um cemitério vivo para as mulheres. Por isso prefere fazer amor sozinha; é a única forma de vencer os homens. Este é o ponto de partida para uma crítica acérrima à relação entre e mulheres de que falarei adiante.

Quando Mariamar se encontra de frente com a feroz leoa que ataca a aldeia, diz a narradora (Mariamar): “a leoa saúda-me, com respeito de irmã”. É a identificação total, o cruzamento de destinos entre leoa e mulher. Aquela é a leoa assassina, perante a qual os homens, mesmo caçadores e guerreiros “todos se prostraram, escravos do medo, vencidos pela sua própria impotência.

Um aspeto interessante desta magnífica personagem, é que Mariamar sabe escrever, ao contrário de muitos dos outros habitantes da aldeia. Ela não aprendeu com os missionários mas sim com os bichos selvagens. Eles ensinaram com fábulas porque só eles sabem distinguir o bem e o mal. “foram os animais que começaram a fazer-me humana, afirma Mariamar.

A natureza do poder político perante a pobreza em África é outro tópico desenvolvido pelo autor. Quando o administrador chega à aldeia com o caçador de leões, um camponês questiona porque é que eles querem saber como morremos, se nunca quiseram saber como vivemos? Perante a fome e a miséria, pouco interessa à autoridade a vida deste povo…

O povo acredita que foi a guerra que chamou os leões. A guerra (ou a colonização) alterou o equilíbrio que havia entre homens e bichos. O pior é que terminada a guerra, a situação ainda piorou. Lamenta-se Genito: Aqui não há polícias, não há governo. E mesmo Deus só às vezes.

Algumas tradições locais são vistas por Mia Couto como sementes de violência – as mulheres exploradas, as crenças que resultam em autênticos crimes, um machismo aterrador que justifica até o incesto, etc. Tudo isto o homem branco não soube resolver, mas o homem negro também não.

E paulatinamente, o livro vai-se transformando numa crítica brutal aos costumes ancestrais do povo africano. Sem qualquer indício de racismo, note-se. Pelo contrário: com um imenso respeito pela cultura africana naquilo que ela representa de harmonia entre o homem e a natureza, sempre que a estupidez humana não a impede.

Mariamar, neste mundo miserável, injusto e violento é a vítima sacrificial e a heroína nesta luta terrível, não contra as feras da selva mas contra a estupidez, a ignorância, o preconceito. (aminhaestante.blogspot.com.br)
Ler Proust é como arar um campo com agulhas de crochê. (David Herbert Lawrence, Escritor inglês, 1885-1930)

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FAROL DE COLÔNIA DEL SACRAMENTO - URUGUAI

Esta imagem mostra o Farol de Colônia do Sacramento e as ruínas do Convento de São Francisco, localizados no Uruguai. O farol foi construído em 1857 e está situado na costa do Rio da Prata. A estrutura tem um design único, com uma base quadrada e a parte superior cilíndrica. Ao lado do farol estão as ruínas do convento construído por freis franciscanos em 1690, que foi destruído por um incêndio em 1704. A área faz parte do Bairro Histórico de Colônia do Sacramento, um Patrimônio Mundial da UNESCO. (Google)

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