
Fabrício Carpinejar
Tenho sempre a sensação de que não abandonamos a infância.
A mensagem de áudio no WhatsApp virou uma epidemia.
Nem é preciso escrever: é gravar um recado e mandar. É mais
um cuspe, do jeito que for.
Não vejo nenhuma diferença do walkie-talkie que empregava
quando criança para roubar frutas ou aprontar molecagens com os meus colegas de
bairro. Ou do telefone sem fio feito de cordinha e latas.
Há um aspecto de solidão circense na cena. É patético
enxergar um adulto andando na rua, com seu celular colado na boca como uma
gaita, gravando uma frase quando poderia falar diretamente. Não é natural. É
como andar com microfone a tiracolo.
E não entendo como criticamos os pais por ainda
privilegiarem recados na secretária, qualificando a atitude como coisa de
velho, enquanto o áudio do WhatsApp não passa de uma mensagem de voz
ininterrupta.
A tecnologia muda os hábitos para não mudar nada.
Avançamos e estamos regredindo. Caminhamos rapidamente e
estamos dando a milésima volta no labirinto.
Vamos assim – talvez involuntariamente – deixando de gostar
das pessoas, de estar com as pessoas, de conversar com as pessoas.
Existe uma prática cada vez maior da misantropia, ou seja,
da aversão ao gênero humano.
Afundamos no isolamento: nas décadas de 70 e 80, não
abríamos mão de visitar os amigos, a preferência vinha pelo contato afetuoso,
confidências ao vivo, olho no olho, dente brilhando no riso. Telefone só fixo,
enraizado na tomada para urgências. Os bares eram nossas salas de chat.
Com a disseminação do celular nos anos 90, o telefone
monopolizou a antena da raça. Não se saía do lugar por qualquer coisa, melhor
ligar e falar o que se queria. Horas e horas grudado no aparelho para não
precisar se encontrar.
O timbre substituiu o rosto, o abraço, o colo, o
cumprimento, o beijo, como forma de manter distância dos problemas e do
envolvimento emocional. Os incômodos desapareciam ao recusar as chamadas ou
fingir extravio de sinal.
Hoje ocorre um desprezo até por falar ao telefone, tudo
piorou. Telefone somente em último caso. Teclar também é perda de tempo.
Escrever exige organização do pensamento e capricho, cuidar dos erros de
português, dedicar-se para achar a melhor palavra, explicar o que se pretende
dizer, armar um tratamento particular e exclusivo. Mas para que desperdiçar
atenção? Pensar significa muito trabalho e esforço, e as mensagens escritas são
lentas demais.
Atualmente o que se percebe é a preferência por áudios. Colecionamos
áudios, mantemos uma fonoteca em nossos números, mergulhamos na sonoplastia da
solidão. Todos andam com fone de ouvido para cultivar monólogos e evitar o
diálogo. O próximo passo é a mímica e a telepatia.
E nem se pode alegar que as ligações são caras, pois é
possível fazer de graça em diversos aplicativos.
É o medo de ouvir a resposta do outro lado, é o medo de ser
invadido por emoções, é o medo do imprevisto e da irritação, é o medo de nossas
hesitações, é o medo da oscilação do humor, é o medo de se atrasar, é o medo de
escutar verdades, é o medo de errar e se comprometer, é o medo do contraponto,
é o medo da amizade real e verdadeira, é o medo imenso e absoluto da
humanidade.
Fonte: Zero Hora
