Cláudio e Ari, junto com outros dois colegas, dividiram um apartamento no centro da cidade. Eram tempos difíceis. Ari, oriundo de uma cidade vizinha, era locutor de rádio, enquanto Cláudio defendia a "merenda" como vendedor de livros — leia-se enciclopédias.
A trajetória de ambos no campo profissional foi de constante ascensão, sob todos os aspectos. Permaneceram amigos mesmo depois de concluído o curso de Direito e de se afastarem do convívio diário na pequena "república"
Uma das características de Ari era ser desligado. Não tinha automóvel nem dirigia; para tudo, utilizava os serviços de táxi. Os taxistas tremiam ao vê-lo aproximar-se, pois muitas vezes ele contratava um carro para levá-lo apenas uma ou duas quadras adiante — reflexo de seu permanente estado de desligamento.
No aniversário de Cláudio, este me contou que, já casado e comemorando em casa com sua esposa, a campainha do apartamento tocou: era Ari se anunciando na portaria. Gentilmente, Cláudio abriu-lhe a porta, recebeu os cumprimentos e convidou-o para entrar e sentar. Serviu-lhe um uísque, e assuntos não faltaram. Aquela garrafa acabou, abriram outra e assim continuaram até que, muitas horas depois, por volta das quatro horas da manhã, Ari bateu na própria testa com a palma da mão, um cacoete seu. Um tanto assustado, falou:
— O táxi!
Cláudio foi até a janela e viu o paciente taxista dormindo, aguardando o retorno de seu fiel cliente para finalizar a corrida e receber o valor correspondente às horas trabalhadas.



