sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

TINALEI TAHITI

LA BOHÈME

O amor vive de amáveis pequenezas. (Theodor Fontane, Escritor alemão, 1819-1898)

LUGARES

VERONA - ITÁLIA

Ponte Pietra, a ponte mais famosa de Verona, foi construída no século I a.C. pelos romanos e é a mais antiga da cidade, ligando o centro histórico à colina de San Pietro. Destruída durante a Segunda Guerra Mundial, foi reconstruída pedra por pedra em 1957, preservando seus materiais originais e sua importância histórica.

FRASES ILUSTRADAS

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

POR QUE O RIO GRANDE DO SUL SEMPRE FOI TERRA DE CONFLITOS??

Compreender o Rio Grande do Sul como terra de conflitos exige abandonar explicações simplistas. A violência, as guerras e as revoluções que marcaram sua história não são fruto de um "espírito belicoso" inato do gaúcho, mas resultado de um conjunto profundo de fatores geográficos, econômicos, políticos e culturais que, ao longo dos séculos, colocaram este território em permanente estado de tensão.

Desde antes da formação do Estado brasileiro, o extremo sul foi uma terra de fronteira instável. Portugueses e espanhóis disputaram o controle da região por décadas, transformando o pampa num espaço militarizado. Tratados assinados na Europa tinham pouco efeito prático nos campos do Sul, onde a posse da terra era garantida mais pela força do que pela diplomacia. Esse ambiente moldou uma sociedade acostumada ao conflito como mecanismo de sobrevivência e afirmação territorial.

A economia pastoril também desempenhou papel central nesse processo. A riqueza baseada no gado, de fácil circulação e difícil controle, gerou disputas constantes entre estancieiros, contrabandistas, autoridades imperiais e potências vizinhas. O charque, principal produto da região no século XIX, colocou o Rio Grande do Sul em confronto direto com o próprio Império Brasileiro. A política fiscal favorecia produtores de outras províncias e do Prata, criando um sentimento persistente de injustiça econômica. A Revolução Farroupilha não nasce do nada: ela é expressão direta dessa tensão entre centro e periferia, entre quem produzia riqueza e quem decidia sobre ela.

Outro elemento fundamental é a cultura política formada nesse contexto. No Rio Grande do Sul, a autoridade do Estado sempre foi vista com desconfiança. A distância do poder central, somada à tradição de autonomia local, criou uma mentalidade na qual a resistência armada era percebida, muitas vezes, como forma legítima de reivindicação. Não se tratava de anarquia, mas de uma lógica própria: quando o pacto político falhava, o conflito emergia como resposta.

As guerras do século XIX — Farroupilha, Cisplatina, Federalista — não foram apenas confrontos militares, mas disputas de projetos de sociedade. Centralização versus autonomia, República versus Império, poder local versus autoridade nacional. O Rio Grande do Sul foi palco dessas disputas porque reunia as condições ideais: população armada, economia estratégica, fronteira internacional e tradição de mobilização política.

No século XX, embora os conflitos armados diminuam, a tensão não desaparece; ela se transforma. O Estado segue sendo um espaço de forte politização, protagonizando debates nacionais sobre trabalhismo, direitos sociais e federalismo. Getúlio Vargas, figura central da política brasileira, emerge justamente desse ambiente conflituoso, onde o poder não se herda passivamente — se conquista.

Portanto, o Rio Grande do Sul sempre foi terra de conflitos não por vocação para a guerra, mas por estar situado num ponto sensível da história sul-americana e brasileira. Conflitos aqui foram respostas a disputas concretas: por território, por autonomia, por justiça econômica e por reconhecimento político. A identidade gaúcha, forjada nesse cenário, carrega marcas dessa trajetória: senso de honra, apego à liberdade e disposição para resistir.

Fonte: Facebook_Bairrismo Gaúcho
A virtude é o meio justo entre dois defeitos. (Aristóteles, Filósofo grego, 384-322 a.C.)

LUGARES

LISBOA - PORTUGAL

A Doca do Bom Sucesso é uma instalação portuária, atualmente de uso misto civil e militar, situada nas imediações da Torre de Belém em Lisboa. É notável por sua importância histórica aérea e naval. (cfe. Wikipédia)

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

UM PASSEIO POR TREZE TÍLIAS

Cruzar o portal de Treze Tílias é experimentar uma espécie de "defeito" geográfico encantador. De repente, o asfalto catarinense parece sussurrar em alemão e o ar ganha o frescor alpino do Tirol. Não é apenas uma cidade temática; é um pedaço da Áustria que decidiu criar raízes no meio do Meio-Oeste catarinense, com uma teimosia poética e uma organização que beira a perfeição.

O que primeiro salta aos olhos é o rigor da estética. As casas não são meras construções; são declarações de amor à tradição. Os telhados inclinados, as sacadas de madeira entalhada e a profusão de flores — que parecem brotar com uma disciplina militar, mas com a leveza de uma valsa — compõem um cenário onde o caos urbano não se atreve a entrar. A limpeza das ruas é tamanha que o visitante hesita antes de deixar cair qualquer mínima folha de papel; há um respeito silencioso que emana das calçadas impecáveis.

Caminhando pelo centro, percebe-se que a organização não é apenas para os olhos, mas para a convivência. É uma cidade feita para ser percorrida sem pressa, onde cada detalhe foi pensado para acolher. E é nesse espírito de acolhimento que surge um detalhe que aquece o coração de quem passa: os bebedouros públicos para pets.

Em Treze Tílias, a hospitalidade austríaca não faz distinção de espécies. Ao lado das fontes de água cristalina para os humanos, encontram-se estruturas charmosas, integradas à arquitetura local, desenhadas especificamente para que os cães e gatos que acompanham seus donos (ou os que por ali circulam) possam se refrescar.

É um gesto que resume a alma do lugar: se há ordem e beleza para as pessoas, deve haver dignidade e cuidado para os animais.

Esses pequenos monumentos à empatia, espalhados estrategicamente, dizem muito sobre o povo local. Em uma terra famosa pela escultura em madeira, a maior obra de arte de Treze Tílias acaba sendo a sua harmonia cotidiana. O som dos sinos das igrejas e o aroma do apfelstrudel que escapa das confeitarias misturam-se à imagem dos pets saciando a sede em águas limpas, sob a sombra das tílias que dão nome ao lugar.

Visitar Treze Tílias é, acima de tudo, um lembrete de que a organização e a limpeza não são frias quando acompanhadas de gentileza. A "Viena brasileira" nos ensina que o progresso de uma cidade se mede também pela altura do bebedouro de um animal de estimação. (IA)
É filósofo aquele que se aproveita dos enigmas. (Giorgio Colli, Escritor italiano, 1917-1979)

LUGARES

BALNEÁRIO PIÇARRAS - SC

A imagem mostra a Igreja Matriz de Balneário Piçarras, em Santa Catarina, Brasil. Também conhecida como Paróquia Nossa Senhora da Paz, é um marco local.

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

PIPOCA SALTANDO DE MEUS OLHOS

Fabrício Carpinejar
Fabrício Carpinejar

Eu vi uma mãe chorando numa apresentação de escola em Porto Alegre. Cheguei lá para fazer uma palestra. Sua filha estava vestida de milho, mais precisamente de pipoca. Era engraçado ver o esforço da pitoca em saltar, em imitar o pulo da panela quente com seus coleguinhas. Dava a mão, completava cambalhota de lado, mexia os braços como um helicóptero, formava fila, batia palmas, desfazia a fila sob a batucada de Claudia Leitte.

Quem criou aquela coreografia e enredo, aquele adereço de capuz branco e camiseta laranja, é uma professora de muita imaginação.

Eu tinha o impulso de rir, mas a mãe da menina chorava dramaticamente, chorava fungando, chorava limpando o rosto na manga do casaco.

Chorava testemunhando a sua filha de pipoca. Chorava com uma música alegre de Claudia Leitte. Se fosse um pepino ou um abacaxi, estaria chorando. Nada demoveria suas lágrimas.

O celular da mãe tremia devido aos soluços incessantes. A filmagem não servirá para nada, mas já as suas pupilas transbordavam do brilho da memória.

Eu chorei junto, ridiculamente, pateticamente. Chorei diante de um imenso saco de pipocas humanas, pipocas fedelhas, pipocas piás, pipocas do jardim de infância. Porque me lembrei de quanto não gostava das apresentações de meus filhos. Ia obrigado, reclamando da demora para ver um ou dois passos, pois o colégio inteiro exibia os seus trabalhos artísticos antes. E o quanto sinto falta hoje: a minha criançada está grande e adolescente.

O sal da pipoca estranhamente casava com o sal dos meus olhos. A saudade é uma chantagista da pior espécie. Deveria ter aproveitado melhor a minha época. Choro copiosamente, choro contagiado, pedindo maternidade e paternidade emprestadas para completar a minha idade.

Não alcançava a importância daquele momento, de preparar uma fantasia, de acompanhar os ensaios para, ao fim, ter um filho se apresentando só para você. A exclusividade sonhada do amor.

Não traduzia o que um menino ou uma menina sente ao pisar pela primeira vez no palco, o nervosismo de errar a coreografia e as falas, a dificuldade social de encarar  a ameaça do holofote e dançar conforme o ritmo, o perdão de qualquer falha em nome da coragem. Não pensava nisso, pensava em mim, em não perder tempo com outras crianças que não fossem meus filhos.

Agora toda criança é lembrança de meus filhos. Choro sem medo da vergonha. Todo pai com filhos crescidos é um orfanato.

Fonte: Zero Hora
Os impérios estão condenados à dispersão, como as ortodoxias e as ideologias aos cismas e cisões. (Octavio Paz, Escritor mexicano)

LUGARES

NICE - FRANÇA

A imagem mostra a Place Masséna em Nice, França. É uma praça pitoresca conhecida por seus edifícios em tons de rosa e azulejos quadriculados em preto e branco. Apresenta a bela Fontaine du Soleil (Fonte do Sol) e esculturas icônicas de postes de luz de Jaume Plensa. O nome de usuário "@irbianchi" está visível no canto inferior esquerdo da imagem. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

NINHOS DA DESRAZÃO

Ruy Castro

Um filme mostra um filho que, doce em casa, é na rua um extremista movido a ódio A ficção sempre gostou dos marginais. Pois, hoje, há mais gente do que nunca à margem da razão

Um filme recente, que ainda não vi, mas de que me têm falado, é o francês "Brincando com Fogo", das irmãs Delphine e Muriel Coulin. Trata de um assunto crucial de nosso tempo. Um pai tem dois filhos jovens, criados e amados por igual. O caçula é bom estudante, amável e expansivo. O outro, doce, mas recluso, introvertido e sem futuro à vista. Um dia, alguém relata ao pai uma agressão que presenciou na rua por um grupo de extrema direita e pensa ter visto entre eles o seu mais velho. O pai descobre que é verdade. Segue-se então a história —o drama de um pai ao constatar que seu filho é movido a ódio, terror e xenofobia.

Não sei se o cinema ou a literatura tem tratado desse assunto que, desgraçadamente, pode ser mais abrangente do que pensamos. Pelo que o noticiário nos tem apresentado de ações extremistas por grupos ou indivíduos, na Europa e nos EUA, é de se perguntar quem são esses jovens no dia a dia. Trabalham, estudam, têm namorada, quais são seus hábitos, o que fazem fora de seu nicho de preconceitos e intolerância? O que leva alguém no século 21 a não acreditar no aquecimento global ou a admirar Hitler? Como explicar o neonazismo na Alemanha, o último lugar em que se pensava ser isso possível?

Essas aberrações têm sido estudadas, imagino, à luz da sociologia, da história e até da psiquiatria. Não sei se a ficção e os filmes lhes estão dando a atenção que merecem —com sua capacidade de chegar ao real pela imaginação, talvez nos pudessem trazer respostas. A ficção sempre se dedicou aos marginais. Pois, hoje, é como se houvesse mais gente do que nunca à margem da razão.

Durante as manifestações de 2013 no Brasil, perguntei aqui sobre os black blocs, aqueles que, ao fim dos protestos, começavam as depredações. Queria saber se saíam de casa à paisana ou já mascarados para destruir e se, pelos gestos ou roupas, suas famílias não os reconheciam ao ver as cenas de violência pela televisão.

Ou se essas próprias famílias já não seriam os ninhos da desrazão.

Fonte: Folha de S.Paulo - 19/10/25

Nada sucede ao homem que sua natureza não esteja preparada para suportar. (Marco Aurélio, Imperador romano, 121-180)

LUGARES

EL ESCORIAL - ESPANHA

A imagem mostra a Real Biblioteca do Mosteiro de San Lorenzo de El Escorial, um grande e complexo edifício que inclui palácio, mosteiro, museu e biblioteca, localizado em San Lorenzo de El Escorial, a noroeste de Madrid, na Espanha. A biblioteca é conhecida como a Escurialense ou a Laurentina. Filipe II foi o responsável pela aquisição de mais de 40.000 obras que compõem a biblioteca. O interior apresenta arquitetura renascentista, chão de mármore e abóbadas cheias de frescos, pintados por Pellegrino Tibaldi. O complexo foi construído para comemorar uma vitória militar e servir de local de sepultamento para a família real espanhola. (Google)

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