segunda-feira, 8 de junho de 2026

'CALA A BOCA JÁ MORREU' MORREU MESMO

Ruy Castro

Há 10 anos, a ministra Cármen Lúcia libertou as biografias no Brasil. E, ao contrário do que temiam, os artistas não tiveram suas intimidades bisbilhotadas

Dez anos se passaram desde que, em junho de 2015, a ministra do STF Cármen Lúcia liquidou com a censura prévia que dois impertinentes artigos do Código Civil impunham às biografias produzidas no Brasil. Por esses artigos, os biógrafos eram obrigados a pedir a autorização de seus biografados ou dos herdeiros deles para investigar-lhes a vida e descrevê-la em livro. Se essa obrigação parece justa ao leigo, imagine um biógrafo alemão tendo de pedir à família de Adolf Hitler que o autorizasse a escrever uma biografia do homem. O Brasil era o único entre as democracias a praticar esse estrupício —e, não por acaso, debochado pelos de fora ao saberem que aqui era assim.

A luta pela independência da biografia já vinha de anos, parada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, então dominada por malufistas. Enquanto isso, absurdos se sucediam. Roberto Carlos conseguiu proibir, apreender e talvez destruir uma biografia que lhe era perfeitamente laudatória. As filhas de Guimarães Rosa tiraram de circulação um livro que tratava de Rosa como cônsul em Hamburgo na Segunda Guerra porque o livro dava o justo destaque a Aracy de Carvalho, segunda mulher do escritor e cuja existência elas "não reconheciam".

A coisa piorou quando, liderados pelo impenitente censor Roberto Carlos, importantes artistas se juntaram para tentar amordaçar de vez os biógrafos —atitude incompreensível, já que eles próprios tinham sido vítimas da censura da ditadura. O caso foi para o STF e, num parecer de 120 páginas, a relatora Cármen Lúcia fez uma candente defesa da liberdade de informação. Nove ministros da corte a seguiram e celebrou-se a independência da biografia, resumida na frase de Cármen Lúcia, "Cala a boca já morreu".

À ameaça de que, livres, os biógrafos iriam bisbilhotar a intimidade dos artistas, escrevi na época que isso não aconteceria. Não fazia parte da índole dos biógrafos brasileiros, garanti.

Dez anos depois, ninguém até agora teve a intimidade bisbilhotada. Nem Roberto Carlos.

Fonte: Folha de S.Paulo - 19/11/2025
Não é possível viver feliz sem ser sábio, honesto e justo; nem sábio, honesto e justo sem ser infeliz. (Epícuro, filósofo grego)

LUGARES

ARROMANCHES-SUR-MER - FRANÇA

Esta é uma imagem do Museu do Desembarque (Musée du Débarquement) em Arromanches-sur-Mer, na Normandia, França. O museu é dedicado à história do Dia D e, especificamente, à construção e operação do porto artificial de Mulberry B. Está situado em frente aos vestígios ainda visíveis dos caixões de concreto que compunham o porto artificial. Inaugurado em 1954, foi o primeiro museu construído para comemorar o desembarque aliado de 6 de junho de 1944. (Google)

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domingo, 7 de junho de 2026

LIVROS


Um romance inspirador sobre escolhas e sacrifícios durante a ocupação nazista Na Paris de 1942, o talentoso arquiteto Lucien Bernard aceita uma encomenda que lhe renderá uma boa quantia de dinheiro, mas que talvez o leve à morte. Se for esperto o bastante, porém, poderá se safar de qualquer problema. Tudo o que precisa fazer é projetar um esconderijo secreto para um rico judeu, um que nem o mais determinado dos oficiais alemães será capaz de encontrar. Lucien precisa do dinheiro, e enganar os nazistas que ocupam sua amada cidade é um desafio ao qual ele não consegue resistir. Mas, quando um dos esconderijos projetados falha horrivelmente e a situação dos judeus na França se torna um assunto terrivelmente pessoal, não é mais possível ignorar o que verdadeiramente está em jogo. (https://dlivros.com/livro/arquiteto-paris-charles-belfoure)
É aquele que se perde que encontra os novos caminhos. (Nils Kjaer, escritor norueguês)

LUGARES

TURIM - ITÁLIA

Esta imagem mostra o Castelo Valentino (Castello del Valentino) em Turim, Itália. É uma antiga residência da Casa Real de Saboia e atualmente funciona como sede da Faculdade de Arquitetura da Universidade Politécnica de Turim. O castelo possui um estilo arquitetônico que mistura influências francesas e italianas e está localizado às margens do Rio Pó.
O local é reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO e fica dentro do Parque Valentino, o segundo maior parque da cidade. (Google)

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sábado, 6 de junho de 2026

ROMANCE FORENSE

A CASA DE MASSAGENS 
Por Mauricio Antonacci Krieger, advogado (OAB/RS nº 73.357).
maukrieger@yahoo.com.br

O senhor Varter anda pelas ruas agitadas do centro da capital, quando é abordado por um rapaz, que lhe entrega um panfleto convidativo:

"Venha relaxar na mais moderna casa de massagem da cidade. Garantimos a cura para qualquer dor".

Senhor de idade avançada e com problema crônico de dor nas costas, Varter dirige-se ao endereço mencionado. Chega e logo marca uma hora com a "melhor massagista da casa" - segundo garante a recepcionista.

Com o pagamento de R$ 300 adiantados, o cliente espera que ali obtenha a solução para seus problemas.

Ao entrar numa saleta, o homem se depara com a moça que veste apenas trajes de banho, o que já deixa o cliente com uma "pulga atrás da orelha". Mas ingênuo, ele presume que vá receber apenas uma massagem relaxante.

No meio dos trabalhos iniciais, a "profissional" pede ao cliente que ele fique totalmente nu.

- É para fazer valer o investimento - explica ela.

Nesse momento Varter, casado, já prestes a completar bodas de ouro, se sente lesado e enganado:

- Isso é um absurdo, eu não vim aqui em busca de sexo, queria apenas aliviar minhas dores nas costas!

E retira-se.

No dia seguinte vai ao Procon e relata os fatos.

- Eu fui vítima de propaganda enganosa. O papel dizia apenas que era uma casa de massagem, mas jamais imaginei que fosse uma casa de prostituição!

O funcionário sugere como "melhor solução" que o idoso entre com uma ação judicial de danos materiais e morais, cumulada com pedido cominatório, o que é feito poucos dias depois. A causa recebe o valor de R$ 20 mil.

Após a instrução, o juiz condena a casa ré a pagar uma reparação pelos danos morais (R$ 4 mil), mais a devolução do dinheiro da "massagem" e ainda, que mude o enganoso apelo do folheto publicitário, sob pena de multa diária.

Com o trânsito em julgado, a casa de massagens trata de mudar a propaganda.

Após algumas conversas com a agência publicitária, o chamamento ganha novos e verdadeiros contornos: "Venha relaxar na mais moderna casa de sacanagem da cidade. Asseguramos a cura para a dor de amor".

Fonte: www.espacovital.com.br
O governo, mesmo que seja perfeito, não passa de um mal necessário; quando tem imperfeições, torna-se um mal insuportável. (Thomas Paine, político inglês)

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SANTIAGO - CHILE

A imagem mostra a Fonte de Netuno, localizada no Cerro Santa Lucía, em Santiago, Chile. Este local histórico é conhecido por sua arquitetura impressionante, inspirada em estilos europeus, e oferece vistas panorâmicas da cidade de Santiago. A fonte é um dos pontos mais fotografados do Cerro e está situada na "Terraza Neptuno", um terraço projetado no final do século XIX. O acesso ao topo do Cerro Santa Lucía é feito por ladeiras e escadarias, permitindo explorar jardins e pequenas construções históricas. (Google)

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

YUJA WANG

 FLIGHT OF THE BUMBLE

Um dos maiores consolos desta vida é, com certeza, a amizade. (Boris Vian, escritor francês)

LUGARES

SAN LORENZO DEL ESCORIAL - ESPANHA

Esta é uma foto do Real Monastério de San Lorenzo de El Escorial, na Espanha. É um patrimônio mundial da UNESCO localizado perto de Madri. O complexo inclui um monastério, palácio real, museu e escola.
A construção começou em 1563 por ordem do Rei Filipe II. (Google)

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

A CACOFONIA DO NOSSO TEMPO

José Galló

Em uma era de decisões afobadas e vida sob pressão, a informação confiável torna-se não apenas necessária, mas vital

A probabilidade de você ler este texto até a última linha é pequena. Não porque ele é mais ou menos interessante: simplesmente porque ingressamos na Era da Pressa.

A leitura de um texto ou a atenção dedicada a uma conversa não são mais as mesmas. As pessoas mal conseguem articular uma ideia antes de serem interrompidas. Todos nós estamos ansiosos, sem paciência, fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Os debates se tornaram fragmentados. O raciocínio complexo tornou-se raridade. O tempo da reflexão, da análise, da qualidade das ideias se perdeu na urgência da reação imediata.

É nesse cenário de ruído e urgência que o jornalismo responsável precisa reafirmar sua vocação essencial: a verificação rigorosa dos fatos, a capacidade de análise e de mostrar contexto

Essa pressa está comprometendo a vida. A leitura rápida de um título, de uma mensagem, o consumo fragmentado das redes sociais pode nos levar a avaliações superficiais e decisões erradas. Pensamentos mais elaborados mal têm tempo de se formar antes de chegar mais um alerta sonoro ou a tela acender mais uma vez. Definir o melhor a fazer exige ponderação, raciocínio e tempo. Mas cedemos lugar ao imediatismo, à urgência e à superficialidade.

Há poucos dias alguém me perguntou se é verdade que os Estados Unidos iriam lançar uma bomba no Brasil. Mas de onde surgiu isso? Dos boatos, delírios e teorias conspiratórias que pipocam a todo momento no nosso dia a dia. Tudo vira verdade, e assim vai se levando a vida aos trambolhões. O que deveria provocar indignação nos alerta para algo ainda mais grave: a erosão da capacidade coletiva de discernir o real do absurdo.

A cultura da urgência está também nas ruas. Observo, com frequência, carros amassados na traseira – e invariavelmente há um celular no painel, distraindo o motorista. A pressa está em todo lugar, como no trânsito, nos cortes bruscos, nas ultrapassagens forçadas, nas sinaleiras não respeitadas, nos atropelamentos, nas mortes evitáveis.

É nesse cenário de ruído e urgência que o jornalismo responsável precisa reafirmar sua vocação essencial: a verificação rigorosa dos fatos, a capacidade de análise e de mostrar contexto. A imprensa não é mais uma voz no caos: é um lugar de pausa, de profundidade e de responsabilidade. Quando tudo grita e nada mais tem valor, o conteúdo criterioso de uma reportagem bem apurada pode ser a diferença. Em tempos de decisões afobadas e vida sob pressão, a informação confiável torna-se não apenas necessária, mas vital. Que o jornalismo sério permaneça como farol, na contramão da crescente cacofonia de distrações e ruídos irrelevantes.

Fonte: Zero Hora - 25/07/2025


Escrever é estar no extremo de si mesmo. (João Cabral de Melo Neto)

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

O CASO DA LINHA SUL BRASIL

O Caso de Linha Sul Brasil

A Linha Sul Brasil pertencia ao município de Modelo que, por sua vez, integrava a Comarca de Pinhalzinho. Dizia-se que, por aquelas bandas, a autoridade policial não se fazia presente. Aos domingos, a rua principal do vilarejo transformava-se em uma autêntica "cancha reta" — espaço destinado a corridas de cavalo, disputadas sempre entre dois concorrentes.

Outra lenda local envolvia as partidas de bocha: comentava-se que, após a bola parar, o jogador podia sacar seu revólver (sempre um calibre .38) e atirar nela para empurrá-la ainda mais para perto do bochim, garantindo a pontuação.

O poder na região era disputado por duas famílias tradicionais. Dessa rivalidade, entre vários outros conflitos, resultou um processo por tentativa de homicídio. O réu era um sujeito conhecido como Pedro que, conhecedor das leis da fronteira, havia se mandado para os lados do Paraguai.
O Incidente na Rodoviária

Constava no inquérito que Pedro, ao chegar ao local onde hoje funciona a rodoviária, avistou um desafeto da família adversária. Pedro estava do lado de fora da lanchonete e a vítima, do lado de dentro. Ao notar que o rival esboçara um movimento interpretado como o de sacar uma arma, Pedro antecipou-se: puxou a sua e disparou duas vezes.

A vítima foi atingida por dois projéteis. Curiosamente, o vidro da lanchonete que separava os dois apresentava apenas um único furo. Diante do fato inusitado, o povo da cidade justificava a façanha dizendo que aquilo só fora possível graças à mira milimétrica que Pedro adquirira nos treinos de bocha.
O Interrogatório

Mesmo estando, por assim dizer, foragido, Pedro compareceu espontaneamente para o interrogatório. Era um homem alto, magro, de cabelos loiros que puxavam para o ruivo. O vasto bigode seguia o mesmo tom.

Após a qualificação feita pelo escrivão, comecei com as perguntas de praxe antes de entrar no mérito do crime. Eu tinha o hábito de conversar amistosamente com réus e testemunhas; no interior, o simples fato de prestar declarações em juízo costuma deixar as pessoas mais simples extremamente nervosas.

Assim, antes mesmo de indagar o réu sobre os disparos, fiz uma provocação informal:

— Seu Pedro, dizem que lá na Sul Brasil todo mundo anda ferrado. É verdade? — perguntei, usando a gíria local para "armado".

— E não ande pra ver! — respondeu ele, com uma ponta de indignação.

Embora minha cadeira fosse um pouco mais alta, inclinei-me para a frente, fixei o olhar deliberadamente na cintura do réu e voltei à carga:

— E cadê o berro?

— Pois não é que me tomaram?! — exclamou, ainda mais indignado.

— Mas nem mesmo um daqueles "paraguaios"? — insinuei, sugerindo que ele pudesse ter trazido algo de sua temporada no país vizinho.

Nesse exato momento, o réu jogou o corpo para trás na cadeira, virou-se na direção de seu advogado e, com os dedos polegar e indicador da mão direita, alisou o imenso bigode. Meneou a cabeça e, apontando para mim discretamente com os olhos, comentou com o defensor:

— ... Tá querendo me pegá...