quinta-feira, 16 de julho de 2026

LIÇÃO DE HUMANIDADE

Carlos Heitor Cony

Vi o documentário sobre o desastre com o Concorde, em Paris, que matou mais de 100 pessoas, em não me lembro mais qual ano. Foi o início do fim do primeiro supersônico disponível na aviação comercial. Pouco depois, os Concordes que sobraram foram retirados de circulação e parece que destinados a museus e exposições.

Não foi o custo do aparelho nem o alto preço das passagens para se voar nele que motivaram a sua aposentadoria. Tampouco o desastre em si, uma vez que qualquer homem e qualquer coisa por ele produzida estão disponíveis ao desastre.

O que espantou os especialistas foi a insignificância da causa que provocou a catástrofe. Ao rolar na pista para a decolagem, um dos pneus do aparelho foi cortado por uma pequena peça metálica, de 40 centímetros, desprendida de um outro avião que decolara pouco antes. O piloto do Concorde não poderia ver objeto tão pequeno e aparentemente tão inofensivo.

A peça fez explodir um dos pneus das rodas que estavam sendo recolhidas. Um pedaço do pneu bateu com violência na asa esquerda, fazendo um furo, pelo qual saiu o combustível, logo inflamado por uma fagulha. Menos de dois minutos após a decolagem, mais de cem mortos, a poucos quilômetros do aeroporto De Gaulle.

A desproporção entre a causa e o efeito me horrorizou. As criações mais sólidas do homem, que parecem indestrutíveis, perfeitas, costumam ir para o brejo por motivos banais, como o iceberg que afundou o Titanic. No caso do Concorde, a tecnologia da época era bem mais adiantada. Mas o resultado foi o mesmo. Os dois casos são uma lição de humildade que habitualmente esquecemos não apenas na vida pública, mas na vida pessoal de cada um de nós.

Fonte; Folha de S.Paulo - 12/10/2004
Sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ela, o oceano seria menor. (Madre Teresa de Calcutá)

LUGARES

LAGO MAGGIORE - ITÁLIA

Esta imagem mostra o Rocca di Angera, também conhecido como Rocca Borromeo di Angera, situado majestosamente sobre um penhasco na margem do Lago Maggiore, na Itália. Este castelo medieval é uma fortaleza histórica bem preservada que domina a paisagem da cidade de Angera. A Rocca Borromeo abriga um museu que inclui salas históricas decoradas e um museu de bonecas e brinquedos. A estrutura oferece vistas panorâmicas sobre o Lago Maggiore e as montanhas circundantes, sendo um ponto turístico popular na região. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

quarta-feira, 15 de julho de 2026

OS CANHOTOS

Para a criançada qualquer espaço mais ou menos plano servia para improvisar um "campinho" para a prática do futebol. Nem precisava ter goleiras - duas pedras, uma de cada lado, serviam para demarcar os limites da porta por onde a bola deveria passar. Trave superior nem precisava. Decidia-se no olho, o que sempre gerava muitas discussões. Algumas vezes a coisa era resolvida no tapa. O importante era ter o campinho. Todo lugar tinha um. Nós tínhamos diversos desses espaços mas o preferido dos domingos de manhã, por ser um pouco maior que os demais, ficava bem próximo da Vila Sindical. Dez horas da manhã, depois de cumprida a obrigação de ir à missa, lá estávamos nós. Geralmente os dois melhores jogadores ou os que despontassem como líderes, iam formando cada um a sua equipe, escolhendo dentre os atletas presentes, um por vez, um para cada time. O método assegurava, ao menos teoricamente, a equivalência de forças. Depois era só diversão. Pausa. O nosso bairro acabou sendo o destino de muitas famílias de origem alemã que vinham à cidade em busca de trabalho, oriundas, quase todas, do vale do Rio Caí. Num certo domingo de manhã, a convite de outros garotos que já estavam enturmados, se apresentaram para jogar três irmãos, os mais novos moradores do bairro: Milton, Sadi e Remi. A única semelhança entre eles era que só só batiam com o pé esquerdo. O Milton era alto, atacante e goleador e exímio cabeceador. Acumulava responsabilidades por ser o mais velho da família e se voltava mais para o trabalho para ajudar nas despesas de casa. A mãe era viúva e só tinha uma irmã além dos dois manos. Pouco participou das nossas brincadeiras dominicais. O Sadi era meio-campista. Tinha um excelente domínio de bola e era exímio driblador. Depois da sua primeira intervenção, passou a ser muito disputado na formação das equipes. Logo se tornou o batedor oficial de penaltis da equipe pela qual estivesse jogando. Com a idade, conquistou uma cadeira cativa em qualquer escalação do Floriano, que disputava o campeonato varzeano da cidade. Nem mesmo os exercícios do ano de serviço militar alteraram sua massa física, Permaneceu magro o que lhe dava vantagem nos deslocamentos em campo. Já o Remi, que era da minha idade, se destacou mais como defensor. Para mim era o melhor dos três. Pena que nunca levou nada a sério, nem mesmo o futebol. Poderia ter virado profissional. Entretanto, o seu esporte preferido, embora o tapete verde, era outro: o carteado e por aí se perdeu um talento. Mas faço o registro dos canhotos pois com a chegada deles a qualidade dos nossos times pelos campinhos da vida melhorou sensivelmente.
É melhor enganar-se agindo do que se negar a agir. A estagnação é pior do que a morte, ela é também corrupção. (William Gilmore Simms, poeta americano)

LUGARES

LYONS-LA-FORÊT - FRANÇA​

Esta imagem mostra a histórica Halle de Lyons-la-Forêt, um mercado coberto do século XVII localizado na Normandia, França. A estrutura é o ponto focal da praça central desta pequena aldeia, que é classificada como uma das "Mais Belas Aldeias de França". A praça e a arquitetura da vila serviram de cenário para adaptações cinematográficas do romance "Madame Bovary". (Google)

FRASES ILUSTRADAS

terça-feira, 14 de julho de 2026

BANALIDADES ETERNAS

Fabrício CarpinejarFabrício Carpinejar

Você esqueceu o tamanho de sua vida? Largue o Facebook e sua linha cronológica. Apague o celular e o laptop, desligue-se da virtualidade e das imagens editadas e com filtro.

Precisa do brilho da poeira voando, da companhia dos ácaros e das traças. A alergia é prova do retorno ao passado. O espirro é o nosso túnel do tempo.

Vá até a garagem ou o quartinho ou o alto de um armário ou debaixo de sua cama, onde esconde as tralhas de seu passado físico. O passado de papel e de objetos, o passado de fotos, canetas coloridas e medalhas de latão. Tem que enfrentar o trabalho de abrir caixas fechadas, romper a fita adesiva com estilete e lamentar o elástico das pastas estourando.

Mexa nos cadernos da escola, acompanhe a mudança de sua letra, o quanto era caprichada no Ensino Fundamental e ganha contornos de euforia, rebeldia e pressa. Começa emendada e submissa, em seguida vira separada e caixa alta, sem respeitar mais nada, nem pai, nem mãe, muito menos vírgula. Duvido que não se emocione. 

Soltará uma gargalhada de saudade ao reencontrar o rabisco de algum colega no forro da capa dura. Como existia valor naqueles recados de amizade eterna vencendo o nosso tédio nos dois períodos de matemática na segunda-feira de manhã!

Ninguém merecia despertar fazendo cálculos. Lembrará que já foi muito amado. Lembrará as provas difíceis que enfrentou afixando fórmulas pelas paredes do quarto. Achará guardanapos de bares, figurinhas avulsas de álbuns, letras de canções em inglês traduzidas grosseiramente e sinopses de filmes. 

Observará o mundo em miniatura com atenção extrema, respirando devagar, buscando reconstituir o tempo de suas escolhas e o ineditismo de suas descobertas. Vários rostos dedilhados serão novamente atuais. Concluirá, estranhamente, que nenhuma lembrança morre na data que aconteceu. Emocionado, quase chorando, não se contém de vergonha e se repreende em voz alta: — Era o que faltava, virar poeta depois de velho.

Do fundo das caixinhas de CDs e fitas cassetes, puxará um envelope perfumado com uma carta de amor. Escrita por namorada da escola, no instante em que ela rompe o namoro de dois anos.

— Por que você conservou esta tristeza?, — pergunta a si mesmo. E logo responde: — Para rir dos próprios dramas, só pode ser.

Você jurava que morreria, que se mataria, que nunca amaria de novo naquela época. E sobreviveu e recuperou o coração e amou tantas e tantas outras vezes.

É bom testemunhar as suas promessas sendo quebradas, as suas opiniões mudando, os gostos se transformando radicalmente, que nada é definitivo e tudo é eterno.

Não perceberá que está há mais de quatro horas sentado no chão e revirando coisas antigas. Não viu o tempo passar. A gente nunca vê o tempo passar. Mas é ele que nos olha e nos guarda.

Fonte: Zero Hora
É leve a carga que carregamos com prazer. (Ovídio, poeta romano)

LUGARES

MONTERIGGIONI - ITÁLIA

Monteriggioni é uma das vilas muradas medievais mais preservadas da Itália, localizada no coração da Toscana, a apenas 15 km de Siena e 50 km de Florença. Construída no topo de uma colina no século XIII, ficou famosa por suas muralhas e 14 torres imortalizadas por Dante na Divina Comédia.  Esta imagem mostra a histórica Igreja de Santa Maria Assunta dentro das muralhas medievais. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

segunda-feira, 13 de julho de 2026

MEMÓRIA MÁGICA

Ruy Castro

Anthony Hopkins, alcoólatra, um dia acordou magicamente sem vontade de beber Já outros alcoólatras famosos do cinema tiveram lutas dolorosas contra a dependência

Anthony Hopkins acaba de publicar sua, como se diz, autobiografia, "Até Que Deu Tudo Certo". Bem, como praticante da biografia e estudioso do gênero, posso garantir que o que chamamos de autobiografia não existe. Supondo que uma autobiografia seja uma biografia do próprio autor, só faria jus a essa definição se usasse os mesmos recursos de um biógrafo de verdade ao biografar alguém, não? Entre outros, conversar com pelo menos 200 pessoas que conviveram com o biografado, ouvir suas memórias, arrancar suas informações. Mas o dito autobiógrafo não faz isto. Ouve apenas a si mesmo, à sua memória. E esta nem sempre é confiável —tende a "esquecer" certas passagens.

Em sua crítica do livro na Folha, Ana Paula Sousa observa que Hopkins classifica seu alcoolismo nos anos 1970 como tendo chegado "ao fundo do poço". E estranha, com razão, como ele descreve "o fim da dependência como quase num passe de mágica". "O desejo de beber se foi", diz Hopkins, e ele "encontrou Deus". É no que dá só depender da própria memória. Um biógrafo de verdade dedicaria capítulos ao que deve ter sido a luta de Hopkins para sair do fundo do poço.

Muitos astros do cinema foram alcoólatras: Buster Keaton, Spencer Tracy, Montgomery Clift, Ava Gardner, Elizabeth Taylor, Sterling Hayden, Rita Hayworth, William Holden, Errol Flynn, John Cassavetes, Carrie Fischer, Leonard Nemoy, Robin Williams, Drew Barrymore. Os britânicos, como Hopkins, foram legião: Richard Burton, Richard Harris, Peter O’Toole, Albert Finney, Oliver Reed. Todos têm biografias com passagens dolorosíssimas sobre suas dependências.

Nenhum deles teve a felicidade de Hopkins: acordar um dia, magicamente, "sem desejo de beber" —quando, na vida real, a necessidade matinal de beber é aguda, por se ter passado as últimas horas dormindo. E, como bônus, ele ainda "encontrou Deus".

Hopkins devia classificar seu livro não como autobiografia, mas como uma memória —a sua própria e só ela. E não muito precisa, como soem ser as memórias.

Fonte: Folha de S.Paulo - 30/11/2025
Aqueles que não conseguem vencer na vida vingam-se falando mal dela. (Voltaire, filósofo francês)

LUGARES

DUBROVNIK - CROÁCIA

A imagem mostra uma vista panorâmica deslumbrante do pôr do sol sobre o Mar Adriático a partir do Monte Srđ em Dubrovnik, Croácia. O local é famoso por oferecer vistas panorâmicas da cidade murada de Dubrovnik e suas telhas de terracota. O topo da montanha também abriga a Konoba Dubrava, um restaurante conhecido por sua atmosfera e comida local. (Google)

FRASES ILUSTRADAS

domingo, 12 de julho de 2026

LIVROS


SINOPSE

Como resenhar uma vida inteira em poucas palavras? Sim, nessa maravilhosa história iniciamos nossa jornada ao lado de Hernando aos quatorze anos, e terminamos quando ele está com aproximadamente sessenta. 
Uma trama complexa e intrincada que envolve o leitor de maneira irremediável. (https://dlivros.com/livro/mao-fatima-ildelfonso-falcones)
Mais vale vergonha no rosto, que mancha no coração. (Miguel de Cervantes, poeta espanhol)

LUGARES

​SIENA - ITÁLIA

Esta vista panorâmica de Siena, na Itália, destaca a icônica Torre del Mangia na Piazza del Campo. A torre faz parte do Palazzo Pubblico, a prefeitura da cidade desde 1310. A Piazza del Campo é famosa por seu formato de leque e por sediar o Palio di Siena, uma corrida de cavalos medieval. A cidade é um Patrimônio Mundial da UNESCO, reconhecida por sua arquitetura medieval bem preservada. (Google)

FRASES ILUSTRADAS