Por Ruy Castro
A loura madura, bonita e empetecada olhava
com encanto para as prateleiras ao seu redor. Era num sebo -um charmoso sebo no
Leblon. Ao lado, seu marido, uma personalidade da TV, conversava com alguns
clientes. De repente, ouviu-se a voz da mulher: "Que livraria mais
engraçada! Só tem livro velho!".
Sebos interferem com a sensibilidade de seus frequentadores.
Há quem se compadeça daqueles livros porque acha que, lidos
ou não, eles foram desprezados por seus antigos compradores. Para outros, o
sebo representa uma gloriosa sobrevida para muitos livros -quem sabe um dia
estes não serão tirados das estantes por leitores mais atentos e interessados,
que saberão apreciá-los melhor?
Sem falar em tantos livros tão amados, e que só foram parar
no sebo por motivo de força maior, como a morte de seus possuidores originais.
É comum que, morto o dono da casa, e pela impossibilidade de continuar morando
nela, a viúva seja obrigada a se desfazer do recheio ou do próprio imóvel,
donde lá se vão os livros. E não há nada demais em que a sobrevida de um livro
se deva à morte de alguém. Boa parte dos livros que possuo já pertenceu a uma ou
mais pessoas, e, no futuro, pertencerão a terceiros ou quartos -espero.
Uma notícia na Folha, há dias, me calou fundo: a história de
Cleuza, 47, a catadora de recicláveis em Mirassol (452 km de São Paulo), que
recolhe os livros que encontra no lixo, recupera-os e os leva para uma
biblioteca que criou no centro de triagem do lugar. Entre os 300 títulos que já
salvou da destruição e empresta ou dá a seus colegas, estão muitos de Machado
de Assis, Erico Verissimo e José Saramago. Eu ficaria orgulhoso de ver algum
dos meus próprios livros nesse lote.
Há melhor prova de que, por Cleuza, o livro-de papel, tão
precário e perecível- será indestrutível?
Fonte: Folha de S.Paulo, 10/11/2012


