quinta-feira, 11 de junho de 2026

ENSAIOS SOBRE O PREÇO DE PENSAR

Oliver Harden

Pensar isola porque pensar rompe pactos silenciosos. A maior parte das relações humanas sustenta-se não sobre a verdade, mas sobre a conveniência, sobre aquilo que pode ser dito sem perturbar a superfície do convívio. O pensamento autêntico, quando emerge, age como um corpo estranho, ele interrompe o consenso tácito, desloca o conforto, desmonta certezas compartilhadas. E todo deslocamento profundo gera afastamento.

Há uma solidão própria do pensamento que não se confunde com misantropia nem com arrogância intelectual. Trata-se de uma solidão estrutural. Pensar exige tempo interior, exige silêncio, exige o afastamento gradual do ruído coletivo. Quem pensa começa, inevitavelmente, a perceber as engrenagens invisíveis das crenças comuns, os automatismos morais, as frases repetidas como orações vazias. E esse excesso de lucidez torna-se, paradoxalmente, um fator de exclusão.

O pensador passa a habitar um intervalo incômodo, já não pertence plenamente ao coro, mas tampouco encontra facilmente pares. O pensamento verdadeiro não cria comunidades imediatas, ele cria fraturas. Por isso, em sociedades orientadas pela velocidade, pela opinião instantânea e pela validação contínua, pensar é quase um ato antissocial. Não porque seja agressivo, mas porque é desobediente. Ele se recusa a aderir sem exame, a repetir sem reflexão, a sentir por contágio.

Pensar isola também porque desnuda. Quem pensa percebe o quanto grande parte dos vínculos é sustentada por ilusões necessárias, por narrativas frágeis que não resistiriam a um exame mais rigoroso.E ao enxergar isso, torna-se difícil continuar representando papéis com a mesma naturalidade. A espontaneidade social é, muitas vezes, um acordo de superficialidade. O pensamento rompe esse acordo, ainda que silenciosamente.

Há, porém, uma dignidade profunda nessa solidão. Pensar isola, mas preserva. Preserva a integridade interior, preserva a capacidade de não se dissolver no fluxo da massa, preserva a possibilidade de um olhar próprio. A solidão do pensamento não é um castigo, é o preço de não viver terceirizando a consciência.

Talvez por isso tantos fujam do pensamento. Não por incapacidade, mas por medo. Medo do isolamento, da ruptura, da perda de pertencimento. Pensar cobra caro, ele exige coragem para sustentar a própria lucidez mesmo quando ela não encontra eco, nem aplauso, nem companhia.

Pensar isola, sim. Mas é essa mesma solidão que impede que o indivíduo se transforme apenas em reflexo, em eco, em repetição. No fim, o preço de pensar é alto, porém o preço de não pensar é infinitamente mais devastador, a perda silenciosa de si mesmo.

Fonte: Facebook_Oliver Harden
Tome cuidado apenas consigo mesmo, nossos piores inimigos estão dentro de nós. (Charles Spurgeon)

LUGARES

PÁDUA - ITÁLIA

A imagem mostra a Prato della Valle, uma praça notável localizada em Pádua, na Itália. É uma das maiores praças da Europa, cobrindo mais de 80.000 metros quadrados. O local apresenta uma ilha central, conhecida como Memmia Island, que é cercada por um fosso. Ao redor do canal, existem mais de 70 estátuas que representam figuras históricas importantes da região. (Google)

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quarta-feira, 10 de junho de 2026

O BEIJO PEDAGÓGICO

Na Schützenfest de Jaraguá do Sul, aquela prima germânica da Oktoberfest de Blumenau, tudo parecia seguir o roteiro conhecido: música alta, calor respeitável, trajes típicos disputando espaço com sorrisos avermelhados pelo chope, e o salão principal ladeado de camarotes no alto, como uma galeria onde se via e se era visto. Um grupo de amigos, fiéis à tradição e ao contrato, alugava sempre o mesmo camarote por todo o período da festa. Tinha acesso confortável, banheiro por perto e um corredor externo providencial para esfriar a cabeça, aliviar os ouvidos e, com sorte, recuperar a noção de tempo.

O inconveniente vinha disfarçado de tentação: a cisterna etílica — leia-se barril de chope — ficava colada à porta do camarote. Bastava um descuido e lá vinham eles, os menudos de copo vazio e olhar treinado, que fingiam admirar a arquitetura enquanto, sub-repticiamente, “furavam” o chope alheio. Foi aí que o Airton entrou em cena. Alto, forte, campeão de judô, trajado como mandava o figurino. Postava-se à porta com a serenidade de um monge e a prontidão de um segurança. Ao flagrar o furador em ação, não gritava nem reclamava: abraçava. E beijava. Beijava com entusiasmo, na face do incauto, usando lábios estrategicamente umedecidos por algum tempero generoso dos comes da noite — mostarda, talvez, ou algo com alho suficiente para marcar memória.

A cena virou atração paralela. Os locatários e familiares aguardavam o próximo “cliente” como quem espera o refrão da música. O corredor, antes rota de fuga térmica, transformou-se em palco. Em pouco tempo, a fama correu mais rápido que o chope: quem se aventurava a furar barril saía com lembrança afetiva demais para contar aos amigos. Resultado? Os neo-bebuns foram rareando, o chope passou a durar mais e o Airton ganhou um título honorário que ninguém ousou contestar: guardião do barril e distribuidor oficial de beijos pedagógicos. Na Schützenfest, afinal, aprende-se que toda festa tem regras — e algumas lições vêm com tempero.
Pobre é o homem que não sabe perdoar. (Saint-Èxupéry, escritor francês)

LUGARES

DOLOMITAS - ITÁLIA

A paisagem ao fundo mostrao Lago di Misurina, localizado nas montanhas Dolomitas, no norte da Itália. A região é famosa por suas paisagens cênicas, incluindo os Três Picos de Lavaredo (Tre Cime di Lavaredo), que são visíveis nesta área. O local é um destino popular tanto para caminhadas e turismo no verão quanto para atividades de inverno, como esqui. (Google)

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terça-feira, 9 de junho de 2026

BELEZA

Martha MedeirosMartha Medeiros

A palavra beleza, assim, solitária, virou gíria. Vou te buscar às nove. Beleza. Semana que vem estarei em São Paulo. Beleza. Amanhã entra em cartaz o novo filme do Jorge Furtado. Beleza.

Real Beleza, quase acertou.

Poderia comentar as ótimas atuações do elenco, com destaque para a expressiva participação de Francisco Cuoco. Ou salientar a relevância da trilha sonora, que ficou a cargo de Leo Henkin. Ou registrar os ares de As Pontes de Madison que o filme invoca. Ou ainda celebrar as pausas e a economia dos diálogos sempre precisos do Jorge. Enfim, é mais um produto da grife Casa de Cinema, mas me deu vontade mesmo é de tentar definir o que é beleza, que está muito além de uma simples gíria.

Alguns consideram que o encantamento pelo belo é prova irrefutável da nossa superficialidade. Seria uma manifestação de esnobismo. Ora, é justamente o contrário. A apreciação da beleza está intimamente ligada à nossa compreensão do quanto viver é difícil, ou seja, é prova da nossa profundidade.

Quanto mais sintonizados com as dificuldades da existência, mais desfrutamos o belo.

O valor da beleza está na consciência do que é trágico.

A beleza de um quadro, de uma música, de uma decoração, de um jardim, de um poema, de uma paisagem, do perfil de uma moça ou da postura de um rapaz é apreciada justamente pelo contraste com a decrepitude que há em torno, com a decadência das formas, com a frieza dos costumes, com o apodrecimento das intenções, com o feio em nossas vidas. A beleza é o alívio para a desesperança.

Reconhecê-la é um consolo, uma confirmação de que não fomos sepultados, não capitulamos, não fomos engolidos pela descrença.

Admiro quem reconhece o belo, quem se sensibiliza com ele em vez de criticá-lo como se fosse algo dispensável. A beleza é sempre uma homenagem. Contemplá-la é um gesto de grandeza. Pobres daqueles que a desprezam, que não percebem que a crueza da humanidade é uma desordem a ser combatida, que julgam natural permanecer em constante estado de dor e não alcançam jamais o êxtase, o enlevo, o deleite que resgata nossa essência.

A beleza de uma pessoa está em tudo que ela é. Tanto em sua aparência física (quando se tem a sorte de nascer com ela) quanto – e principalmente – na beleza buscada pelo espírito como forma de resistir à hostilidade que nos cerca, à escuridão e sua opressiva nuvem negra. Escapamos do breu através de olhares, silêncios, traços, sorrisos, sutilezas, delicadezas, instantes, sintonias.

É apenas um filme e não trata de nada disso. Ou trata. Vai depender do seu olhar, do que você enxerga, de quão terna e bela é sua mirada pra vida.

Fonte: Zero Hora
Sexo é hereditário. Se seus pais nunca fizeram, você não fará. (David Zing - fotógrafo e colunista)

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GARMISCH-PARTENKIRCHEN - ALEMANHA

A imagem mostra a cidade de Garmisch-Partenkirchen, na Alemanha, famosa por sua localização aos pés do pico mais alto do país. Esta cidade mercantil está localizada no estado da Baviera, no sul da Alemanha. Situa-se no sopé do Zugspitze, que é a montanha mais alta da Alemanha, com 2.962 metros de altitude. A região é um destino popular para esportes de inverno e foi sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1936. Garmisch-Partenkirchen fica próxima à fronteira com a Áustria e a cerca de 90 km de Munique. (Google)

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

'CALA A BOCA JÁ MORREU' MORREU MESMO

Ruy Castro

Há 10 anos, a ministra Cármen Lúcia libertou as biografias no Brasil. E, ao contrário do que temiam, os artistas não tiveram suas intimidades bisbilhotadas

Dez anos se passaram desde que, em junho de 2015, a ministra do STF Cármen Lúcia liquidou com a censura prévia que dois impertinentes artigos do Código Civil impunham às biografias produzidas no Brasil. Por esses artigos, os biógrafos eram obrigados a pedir a autorização de seus biografados ou dos herdeiros deles para investigar-lhes a vida e descrevê-la em livro. Se essa obrigação parece justa ao leigo, imagine um biógrafo alemão tendo de pedir à família de Adolf Hitler que o autorizasse a escrever uma biografia do homem. O Brasil era o único entre as democracias a praticar esse estrupício —e, não por acaso, debochado pelos de fora ao saberem que aqui era assim.

A luta pela independência da biografia já vinha de anos, parada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, então dominada por malufistas. Enquanto isso, absurdos se sucediam. Roberto Carlos conseguiu proibir, apreender e talvez destruir uma biografia que lhe era perfeitamente laudatória. As filhas de Guimarães Rosa tiraram de circulação um livro que tratava de Rosa como cônsul em Hamburgo na Segunda Guerra porque o livro dava o justo destaque a Aracy de Carvalho, segunda mulher do escritor e cuja existência elas "não reconheciam".

A coisa piorou quando, liderados pelo impenitente censor Roberto Carlos, importantes artistas se juntaram para tentar amordaçar de vez os biógrafos —atitude incompreensível, já que eles próprios tinham sido vítimas da censura da ditadura. O caso foi para o STF e, num parecer de 120 páginas, a relatora Cármen Lúcia fez uma candente defesa da liberdade de informação. Nove ministros da corte a seguiram e celebrou-se a independência da biografia, resumida na frase de Cármen Lúcia, "Cala a boca já morreu".

À ameaça de que, livres, os biógrafos iriam bisbilhotar a intimidade dos artistas, escrevi na época que isso não aconteceria. Não fazia parte da índole dos biógrafos brasileiros, garanti.

Dez anos depois, ninguém até agora teve a intimidade bisbilhotada. Nem Roberto Carlos.

Fonte: Folha de S.Paulo - 19/11/2025
Não é possível viver feliz sem ser sábio, honesto e justo; nem sábio, honesto e justo sem ser infeliz. (Epícuro, filósofo grego)

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ARROMANCHES-SUR-MER - FRANÇA

Esta é uma imagem do Museu do Desembarque (Musée du Débarquement) em Arromanches-sur-Mer, na Normandia, França. O museu é dedicado à história do Dia D e, especificamente, à construção e operação do porto artificial de Mulberry B. Está situado em frente aos vestígios ainda visíveis dos caixões de concreto que compunham o porto artificial. Inaugurado em 1954, foi o primeiro museu construído para comemorar o desembarque aliado de 6 de junho de 1944. (Google)

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domingo, 7 de junho de 2026

LIVROS


Um romance inspirador sobre escolhas e sacrifícios durante a ocupação nazista Na Paris de 1942, o talentoso arquiteto Lucien Bernard aceita uma encomenda que lhe renderá uma boa quantia de dinheiro, mas que talvez o leve à morte. Se for esperto o bastante, porém, poderá se safar de qualquer problema. Tudo o que precisa fazer é projetar um esconderijo secreto para um rico judeu, um que nem o mais determinado dos oficiais alemães será capaz de encontrar. Lucien precisa do dinheiro, e enganar os nazistas que ocupam sua amada cidade é um desafio ao qual ele não consegue resistir. Mas, quando um dos esconderijos projetados falha horrivelmente e a situação dos judeus na França se torna um assunto terrivelmente pessoal, não é mais possível ignorar o que verdadeiramente está em jogo. (https://dlivros.com/livro/arquiteto-paris-charles-belfoure)
É aquele que se perde que encontra os novos caminhos. (Nils Kjaer, escritor norueguês)

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TURIM - ITÁLIA

Esta imagem mostra o Castelo Valentino (Castello del Valentino) em Turim, Itália. É uma antiga residência da Casa Real de Saboia e atualmente funciona como sede da Faculdade de Arquitetura da Universidade Politécnica de Turim. O castelo possui um estilo arquitetônico que mistura influências francesas e italianas e está localizado às margens do Rio Pó.
O local é reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO e fica dentro do Parque Valentino, o segundo maior parque da cidade. (Google)

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