Ao programar uma viagem para a Itália, a Jú, da Lovetur (Florianópolis), recomendou muito uma visita à cidade de Ravena, na Emilia-Romagna, para conhecer os seus famosos mosaicos bizantinos.
Foi uma super dica!
Em Ravena, o tempo não corre. Caminha-se por suas ruas com a impressão de que a cidade decidiu guardar a memória do mundo não em palavras, mas em fragmentos — pequenos, irregulares, quase insignificantes quando vistos isoladamente. E, no entanto, é justamente dessa soma de minúsculas partes que nasce uma das maiores expressões artísticas da humanidade: o mosaico.
Ao entrar na Basílica de San Vitale ou no Mausoléu de Galla Placidia, o visitante percebe que não se trata apenas de arte decorativa. Os mosaicos de Ravena não adornam o espaço; eles o dominam. A luz que atravessa as janelas encontra o ouro, o azul profundo e os verdes ancestrais, refletindo-se em milhares de tesselas que parecem vibrar, como se estivessem vivas. Cada passo muda o ângulo, cada olhar revela um novo brilho. Nada é estático. Nada é óbvio.
É impossível não pensar no trabalho silencioso e quase sobre-humano de quem os criou. Montar um mosaico é um exercício de paciência extrema e de fé no resultado final. As pequenas peças — de vidro, pedra ou cerâmica — são colocadas uma a uma, muitas vezes sem que o artesão possa ver o conjunto completo enquanto trabalha. Exige-se precisão milimétrica, sensibilidade cromática e uma compreensão profunda de luz e perspectiva. Um erro mínimo pode comprometer a harmonia de todo o painel. É arte que se constrói no detalhe, na repetição, na persistência — virtudes raras em qualquer época, ainda mais na nossa.
Mas os mosaicos de Ravena vão além da dificuldade técnica e da beleza estética. Eles carregam um significado cultural e espiritual imenso. Criados entre os séculos V e VI, atravessaram impérios, guerras, transformações religiosas e mudanças de mentalidade. São testemunhos visuais de um momento em que o Império Romano se dissolvia e o mundo medieval começava a se formar. Neles, o poder político, a fé cristã e a herança clássica convivem lado a lado, fundidos em imagens de imperadores, santos e símbolos eternos.
Há também algo de profundamente humano nessa arte fragmentada. Cada tessela, sozinha, é quase nada. Juntas, constroem o sublime. Ravena nos lembra que a beleza pode nascer da soma de imperfeições, de pedaços aparentemente insignificantes que, quando organizados com propósito, atravessam séculos e continuam a falar conosco. Em um mundo apressado, seus mosaicos ensinam a lentidão; em uma época de excessos, ensinam o valor do detalhe.
Talvez seja por isso que Ravena não se impõe com grandiosidade imediata. Ela se revela aos poucos, como seus mosaicos. E quem se permite olhar com atenção sai transformado, com a sensação de ter tocado não apenas a arte, mas o próprio tecido do tempo — cuidadosamente montado, peça por peça, por mãos que já não existem, mas cuja obra permanece luminosa e eterna. (Com auxílio da IA)
Martha Medeiros