Percorremos as diversas dependências do Castello Sforzesco, em Milão. Estava no programa que próximo ponto a visitar era a majestosa catedral da cidade.
Na saída, enquanto aguardávamos a chegada de todos os companheiros de viagem, fui fazendo alguns registros fotográficos com uma filmadora Sony, que também fotografa.
Caminhando em direção a um chafariz, cruzei com dois jovens casais. Passaram por mim com aquele ar típico de quem já visitou três países em cinco dias e agora se sente autoridade em estética renascentista. Seguiram adiante. E eu segui filmando.
Mas não segui ileso.
Logo após cruzarem por mim, ecoou uma voz em tom de deboche, suficientemente alta para cumprir sua missão:
— Aí vai mais um Fellini.
O comentário, claro, referia-se ao lendário Federico Fellini — talvez pela minha concentração artística, talvez pelo simples fato de eu estar parado olhando para um castelo com seriedade suspeita.
Detalhe: eram brasileiros.
Continuei a gravação com a dignidade de quem já foi comparado a um gênio do cinema europeu (ainda que em tom de chacota). Finalizei a cena. Respirei. Ajustei o enquadramento da alma.
E então, projetando a voz com precisão diplomática, declarei:
— Melhor seria o Glauber Rocha!
Referia-me, evidentemente, ao nosso incendiário Glauber Rocha — porque se é para ser cineasta imaginário, que seja com tropicalismo, câmera na mão e uma ideia na cabeça.
O silêncio que se seguiu foi digno de plano-sequência. Imagino que naquele instante os jovens casais tenham experimentado uma súbita epifania geopolítica: o mundo é grande, mas o idioma português tem surpreendente alcance internacional.
Talvez tenham aprendido que, onde quer que você esteja — em Milão, em Marte ou na fila do pão — sempre existe a possibilidade concreta de encontrar brasileiros, ou alguém que compreenda perfeitamente o que você diz.
E, quem sabe, responda com um upgrade cinematográfico. (apoiado com IA)

Martha Medeiros
