O Enem me honrou com a escolha de uma crônica para uma questão de interpretação Diante das alternativas oferecidas aos garotos, descobri que escrevo coisas que nem eu entendo
"Passando por aqui para lembrar algumas palavras, frases e expressões que nos infernizaram este ano. Inclusive passando por aqui. Se você for proativo, vai achar que isso é o novo normal. Estarão na sua zona de conforto. Mas, se for reativo como eu, vai achar que é uma narrativa que precisa ser ressignificada. É uma questão de empatia. É sobre entregar um discurso mais robusto e empoderado. Sei bem que não tenho o lugar de fala para harmonizar certos pontos fora da curva e que preciso aplicar toda a minha resiliência para fazer um realinhamento. O nível de fitness está hoje num sarrafo muito alto." Etc.
Foi assim que comecei uma coluna publicada aqui em 27/12/2023. Era uma paródia de expressões bobas e vazias já em voga naquela época —e ainda hoje—, que as pessoas repetiam como se tivessem acabado de descobri-las. A paródia, como se sabe, é um arremedo de alguma coisa, sempre com fins cômicos. Pois, há dias, amigos me informaram que o Enem me honrara com a escolha dessa crônica para uma questão de interpretação de texto e me mandaram as alternativas de interpretação oferecidas aos meninos. As alternativas eram:
"a. Menção feita à efemeridade de alguns usos linguísticos aleatórios; b. Subjetividade marcada pela reflexão que se desenvolve em primeira pessoa; c. Efeito estilístico de repetição intencional da palavra ‘assim’ no primeiro parágrafo; d. Sedução sugerida pelo envolvimento direto do leitor marcado nos usos de ‘você’ e ‘tu’; e. Humor gerado pelo uso das estruturas linguísticas que são objeto da reflexão desenvolvida."
Bem, como autor do dito texto, eu deveria marcar sem piscar a resposta certa e sair assobiando no azul, não? Mas confesso minha ignorância a respeito do que eu próprio escrevi. Reconheci-me parcialmente em algumas alternativas e por inteiro em nenhuma. Parece que, para o Enem, a alternativa certa é a "e". Eu preferiria a "a", embora não saiba o que são "usos linguísticos aleatórios".
Donde teria sido reprovado no teste sobre mim mesmo.
Fonte: Folha de S.Paulo - 23/11/1025











