segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

DISTRAÍDO NO LEILÃO

Ruy Castro

Em vez do livro que queria, arrematei por engano um lote de pratos da Betty Boop E, pensando ter comprado gibis da 2ª Guerra, recebi um porta-garfos com a figura de Madame Chiang Kai-shek

Falei outro dia de como tive um livro raro, "Bastiões da Nacionalidade", de 1923, pelo dândi, historiador e criminalista Elysio de Carvalho, devorado por uma colônia de cupins. Buscando repô-lo, procurei-o em sebos, antiquários e colecionadores. Encontrei-o num leilão, ao custo inicial de R$ 10 e dei o lance, certo de que, como Elysio deixou de ser um best-seller há 100 anos, eu o arremataria pelos mesmos R$ 10 ou pouco mais.

Mas sou um cliente relapso de leilões. Dou os lances pela internet, não sigo o leilão e, quando me mandam o relatório com os lotes arrematados, nem sempre tenho tempo de conferi-los. Daí que dei o lance errado e, em vez do livro que esperava, recebi pelo correio um lote de número parecido e vários zeros a mais de valor —um jogo de 48 pratos fabricados em Oklahoma, com filetes dourados e policromados com a estampa da Betty Boop.

Sou fã de Betty Boop, minivamp dos desenhos animados americanos dos anos 1930 numa Hollywood ainda incrivelmente livre. Quando a censura se instalou, em 1934, cessou toda malícia na tela. Os beijos teriam de se limitar a um roçar de lábios, os casais mesmo casados seriam obrigados a dormir em camas separadas e foi o fim da boneca de olhos lânguidos, decotes reveladores e coxinhas saindo da sainha curta. Sempre tive pena dela, mas o que vou fazer com 48 pratos de Betty Boop?

Não era a primeira vez que isso me acontecia. Há anos, pensando ter dado um lance num conjunto de exemplares do gibi O Globo Juvenil, com quadrinhos da 2ª Guerra, recebi um porta-garfos da China Nacionalista de 1947, com 118 minigarfos rendilhados de aplicações em relevo com o rosto da mulher do ditador Chiang Kai-shek.

Como, por acaso, eu estivesse precisando de garfos, não desfiz o equívoco. Valeu, porque, num leilão seguinte, comprei quase que os mesmos gibis, conservei o porta-garfos e, por anos, espetei muitas azeitonas com eles. Até que foram sumindo um a um e um dia desapareceram de vez, como, aliás, a própria Madame Chiang Kai-shek.

Fonte: Folha de S.Paulo - 12/10/2025

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